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27/02/2023

Marx reencontra Jenny

 

Karl Marx e Jenny Von Westphalen

Antonio Carlos Rocha

Assim que Karl Marx faleceu o espírito de sua esposa Jenny o recepcionou do outro lado:

- Oi meu querido, seja bem-vindo – abraçaram-se enquanto almas, espíritos

- Oi Jenny amada, no fundo eu sabia que existia vida desse lado

- Ué, foi isso que você aprendeu quando criança lá na Igreja Luterana, quando ia aos domingos com o seu pai

- E os nossos filhos?

- Estão bem, na condição de espíritos estudiosos das verdades eternas, mas tem uma que reencarnou no Brasil e hoje é parlamentar, deputada federal

- Mas por que, Brasil?

- Ah! vai entender querido... coisas do carma que ela adquiriu nessas décadas

- E qual a sua função aqui? Desse lado da vida ou pós-vida?

- Continuo sendo a mãe de vocês, cuidando e aprendendo muito. Venha, vou lhe apresentar o nosso preceptor. Ele é um espírito de muita luz, uma espécie de diretor do plano espiritual onde vivo

- Salve Mestre ! – cumprimentou Jenny

- Muito prazer, o sr. tem Mestrado? – perguntou Marx

- É um tipo de liderança espiritual que temos por aqui. Aos poucos você vai entender

- Venha querido, sua cama já está pronta, você vai ter que descansar muito, dessa longa travessia – declarou Jenny para o esposo alma.

 

15/02/2023

A Chave

Guache seco - Ana Nunes


Ana Nunes

Que

abre a porta

sem volta

ou largada na mesa

no toque sutil

da perda irreparável

do fim

Que

levada na bolsa

traz de tarde

o sentido do descanso

o abrir a porta

o sentir o cheiro

do conforto carinho

de se ter a casa

Que

traz nessa mesma tarde

numa outra porta

o desânimo das panelas

da pilha de roupa

dos brinquedos por guardar.

Que

pressente a cama

na volta da madrugada intensa

molhada do beber.

Que

aguarda vigilante

pelo caminho escuro

de poucas janelas acesas

a saudade breve do que é um lar

e a lembrança ainda quente

da conversa amena

dos sorrisos claros

dos amigos queridos

partilhado o pão e o vinho.

Que

a liberdade

da primeira chave adolescente

do sentimento adulto

ainda que não.

Que

dada no dividir vida

sal sonhos e fantasia

para agora ou para sempre

quem diria.

Que

da volta do futebol

jogado suado e fedido

traz no rosto cansado

o soco merecido

na briga pelo gol

Que

abre a porta

depois do enterro

do desterro

do terror da casa vazia

da dor maior

do medo de encontrar

aquele pedaço que falta

Que

a grávida barriguda feliz

carregou por meses

junto à barriga amarrada na cordinha

essa chave antiga da porta azul de duas folhas

e pariu a criança forte

marcada de nascença vermelho escuro

de uma chave antiga

no final das costas.

Era meu Bro. 

07/01/2023

Trazendo de volta um velho amigo

Fotografia WBJ


Wilson Baptista Junior  

Quando eu era garoto, morávamos na casa de nossos pais e avós, já escrevi por aqui alguma coisa sobre ela.

Era uma casa grande, dois andares em cima de uma garagem que tinha uma escada interna para a casa e que, por causa da inclinação do terreno, ficava parcialmente enterrada.

Ao lado da garagem, nesse “meio subsolo”, Papai, apaixonado pela fotografia, fez a sua câmara escura, para nós um laboratório mágico cheio de produtos químicos misteriosos, vidrarias esquisitas e lâmpadas vermelhas, onde as imagens apareciam misteriosamente sobre o papel branco mergulhado em bandejas esmaltadas.

Com o tempo fomos aprendendo os segredos da revelação de filmes e ampliações e muitas vezes eu ficava, até bem tarde, assistindo Papai produzir suas fotografias maravilhosas.

A câmara escura, que chamávamos simplesmente “a câmara”, era um espaço grande, de aproximadamente quatro por quatro metros, isolada do restante da garagem por uma cortina de plástico pesado preto, que quando fechada era à prova de luz. Nossa primeira geladeira (do lado de meus pais, porque do lado de meus avós já existia uma mais antiga, que até hoje reside, funcionando, na casa para a qual depois nos mudamos abaixo do mosteiro das Beneditinas) foi entregue num grande caixote de madeira compensada (naquele tempo não se ouvia falar de isopor nem de mandar encomendas em caixotes de papelão). Instalada lá em cima a geladeira, Papai pegou o caixote, deitou-o de lado no meio da câmara, instalou dentro algumas prateleiras, cobriu o lado que ficou para cima com um plástico resistente grampeado nas bordas, instalou uma tomada de força e transformou-o numa bancada de trabalho. Por toda a nossa vida essa bancada ficou se chamando simplesmente “o caixotão”.

Ganhamos (os filhos) um brinquedo maravilhoso da época, chamava-se “Poliopticon” e era fabricado pela D.F Vasconcellos, uma empresa brasileira que fabricava produtos óticos de grande qualidade. Era um conjunto de tubos, adaptadores e lentes que permitiam montar lunetas, binóculos, lupas, microscópios, e que ajudou a todos nós entendermos melhor como funcionavam essas coisas. Um brinquedo que infelizmente hoje não se fabrica mais e que atinge altos preços no mercado de coisas usadas pela utilidade e qualidade.

Ganhei de presente, em algum aniversário, um pequeno microscópio, que me lembro tinha três objetivas, a mais potente das quais aumentava até trezentas vezes.  Foi como descobrir um mundo novo para mim. Coloquei-o em cima do caixotão, com uma lâmpada posicionada para iluminar seu espelho, e comecei a ver coisas como, por exemplo, o crescimento mágico dos cristais de certos produtos químicos dissolvidos em água, como a hidroquinona, que parecia um filme de animação se desenrolando à frente dos meus olhos. Um dia um amigo de Papai, que se tornou também um grande amigo de todos nós, levou lá em casa um microscópio “de verdade”, apanhou gotas d’agua das poças do nosso quintal, nos mostrou a vida fervilhante que existia naquele mundo tão pequeno. Vendo meu interesse, e sabendo quer eu tinha o microscopiozinho, me deu de presente um livro em espanhol sobre microscopia. Aí comecei a entender como se fazia para preparar espécimes para serem observados, como se coloriam para destacar as características daqueles seres quase transparentes, e assim por diante.

Montei um pequeno laboratório em cima do caixotão, com as ferramentas da oficina que Papai tinha instalado ao longo de uma das paredes da garagem (essa sozinha dá toda uma outra história) fiz aparelhos como uma estativa de lupa para dissecção, um micrótomo rudimentar utilizando as lâminas afiadíssimas dos aparelhos de gilete que se usavam na época, compramos na loja de um amigo de Papai (Orlando Greco) as plaquinhas de vidro e as plaquinhas, finas como fio de cabelo, entre as quais se colocavam os espécimes para observar. Alguns dos produtos químicos utilizados já existiam no laboratório de Papai, como o azul de Metileno, com o qual eu coloria fatias finíssimas de batatas para observar os grãos de amido.

Quando terminei o ginásio e comecei o científico (assim se chamavam na época os graus do ensino médio) Papai encomendou para mim um microscópio de verdade. Olhamos com muito cuidado o catálogo de uma famosa loja de São Paulo que vendia pelo correio, a Fotóptica, que depois se transformou numa loja que vendia apenas óculos. E encontramos um microscópio Meopta, com todos os requisitos, fabricado na Tchecoslováquia (hoje República Tcheca), mas com preço ao alcance (apertado) das possibilidades financeiras.

Me lembro do dia em que, por uma coincidência rara, vi a chegada do tão sonhado microscópio. Estava na varanda de cima de nossa casa, dois andares e meio acima da rua, mexendo nos livros de uma estante que ficava lá, quando ouvi o barulho de um caminhão (bons tempos em que o tráfego da avenida Barbacena era leve) e olhei para baixo. Um grande caminhão de carroceria aberta vinha subindo pelo outro lado da rua, contornou o retorno que ficava pouco acima de nossa casa, e parou em frente a ela. Lá de cima eu via a carroceria como de uma vista aérea. Completamente vazia exceto por, exatamente no meio, uma caixa amarrada com correias para não se deslocar. Era a encomenda da Fotóptica. Até hoje não sei se era simplesmente a última entrega que faltava fazer ou por que outro motivo mandaram aquele enorme caminhão levar aquela pequena caixa até lá em casa. De qualquer maneira essa imagem está viva, até hoje, na minha lembrança.

Usei muito esse microscópio nos três anos do científico, replicando em casa muitas das experiências da cadeira de biologia do colégio, e descobrindo muitas outras coisas interessantes. Mas, saindo do colégio, fui cursar engenharia, e cada vez o usava menos. Quando me casei trouxe-o para casa, e, já sem o laboratório, morando em apartamento, usava-o esporadicamente para coisas como examinar com grande aumento se havia desgaste nas agulhas das cápsulas de toca discos do equipamento de som de alta fidelidade (assim se chamava naquela época) que tinha montado (um desses toca discos também foi personagem de um post no Conversas, faz bastante tempo)

Nossos dois filhos cresceram e foram cursar engenharia, fizeram aí suas carreiras, e o microscópio ficou encostado em sua caixa até que Papai me pediu que o levasse para um de meus sobrinhos, que ia cursar (e cursou) Biologia. Esse sobrinho se formou e foi trabalhar longe de Belo Horizonte, e dei o microscópio por muito bem empregado na sua carreira.

Aí vieram nossos dois netos, todos os dois maravilhosos (sou um avô babão confesso). O mais velho desde pequeno era apaixonado por todo o tipo de vida animal, e seu sonho era cursar e trabalhar com biologia. Quando chegou à idade em que podia aproveitar, demos para ele de presente um microscópio que era a versão moderna do meu de menino – hoje perdido nas sombras do tempo - junto com o livro que nosso amigo há tantos anos me tinha dado, e nosso outro filho, tio dele, lhe deu de presente uma coleção de lâminas preparadas com todo o tipo de espécimes.

O netinho foi crescendo, e seu interesse pela vida animal não foi diminuindo, agora com dezessete anos se dedica, nas horas vagas, à fotografia de pássaros (principalmente) e outros bichos, fotografias muito boas que posta em sua página do Instagram.

Enquanto isso, o sobrinho biólogo mudou de carreira (pressões de mercado) e se tornou um especialista em TI trabalhando com as novas tecnologias de block chain e suas aplicações em entidades financeiras. Então pedi ao pai dele, meu irmão, que lhe perguntasse se ainda usava o microscópio, porque se não tivesse mais utilidade para ele eu gostaria de passá-lo para o neto mais velho.

Para minha surpresa, o sobrinho respondeu que não tinha levado o aparelho quando se mudou de Belo Horizonte, e estava guardado até hoje (há tantos anos) no armário de meu falecido pai.

Fui buscá-lo e o trouxe para casa. Abrindo a caixa (a fechadura girou com dificuldade e a chave estava meio enferrujada) vi que alguns danos inevitáveis pelo longo armazenamento sem uso tinham ocorrido: As almofadas de feltro do lado de dentro da caixa tinham se ressecado e se desfaziam em pó ao serem tocadas, os delicados mecanismos de movimento da platina (que permitem mover o espécime em deslocamentos muito pequenos) estavam emperrados, o mecanismo que trocava de posição as objetivas também. Mas tudo provavelmente porque os lubrificantes tivessem secado e agarrado.

Desmontei o microscópio, limpei e lubrifiquei os mecanismos, limpei a parte externa das lentes do condensador, das oculares e objetivas, o meu netinho mais novo, apaixonado por máquinas e mecanismos, que estava agitando novamente nossa casa passando uns dias conosco, raspou e limpou cuidadosamente os locais das almofadas de feltro de dentro da caixa, lubrifiquei a fechadura e tirei a ferrugem da chave. Quando montei de novo o aparelho, o encantamento do netinho ao ver, pela primeira vez, a rugosidade e as falhas da tinta de uma impressora laser numa folha de papel aparentemente tão lisa e tão bem impressa, a composição e as escamas de um fio do seu cabelo, ou descobrir que as finas nervuras das asas de uma abelhinha que tinha morrido porque não encontrou a saída da janela tinham também cabelos microscópicos, fez valer a pena todo o trabalho.

O neto mais velho está viajando, ainda não viu o microscópio, mas ele agora está à sua espera, pronto para voltar a ser útil e ajudar a desvendar para ele os mistérios dos mundos tão pequenos. E quem sabe quererá agora passar para o irmão mais novo o microscopiozinho que também ganhou quando era menor?

 

15/09/2022

Fulas, Fulanis e Outros

Estação dos comboios do Rossio, Lisboa - fotografia de Oswaldo Gago, Wikimedia Commons


Antonio Carlos Rocha

Em julho último, estávamos eu e Heloisa, minha consorte há 48 anos, passeando em Lisboa, terra que gostamos tanto.

Era domingo, e fomos para a Estação de Comboios (trens). Íamos visitar, do outro lado da cidade, na região das praias, uma família amiga desde 1980, quando moramos lá a primeira vez. A característica deste ramal ferroviário é que ele passa debaixo, pendurado em uma das pontes que embelezam a capital portuguesa, como se, por baixo da Ponte Rio-Niterói passasse uma linha de trem (sonho meu...)

Mas, eu não sabia, os trabalhadores do sistema estavam em greve. Mesmo assim as composições funcionavam com pequeno atraso. Bilheterias fechadas, os passageiros compravam os tickets nas máquinas eletrônicas.

Nos informamos para a plataforma certa e subimos as escadas rolantes. Para me certificar que estávamos no lugar indicado, perguntei a uma jovem senhora que estava com um carrinho de criança e seu filho saboreando mamadeira.

Ela respondeu que era ali mesmo, onde estávamos, e eles iriam para a mesma estação onde deveríamos saltar, inclusive, na saída precisa que os nossos amigos haviam falado e estariam nos esperando, para não nos perdemos nas saídas que são várias.

Percebi o sotaque, vi que era africana e perguntei qual o país de origem? A jovem respondeu “Guiné – Bissau”.

Eu sorri e falei: “Que bom, eu gosto muito do seu país. Em 1980 estudei aqui e na Faculdade de Letras aprendi Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa, inclusive sobre um dos libertadores - Amílcar Cabral”.

Ela sorriu e disse: “Ele é um dos pais da República da Guiné-Bissau”.

Então completei: “E um colega brasileiro foi professor de Português lá, nesse período”.

Ficamos então enturmados e bem animados, conversando ali na Estação.

Já do outro lado da ponte, saindo do vagão agradecemos muitíssimo à nossa jovem orientadora.

Esta é uma das razões que, vez por outra, publico no Facebook fatos diversos sobre os países de africanos de Língua Portuguesa. Através da arte literária, mais ou menos, acompanhei e acompanho o crescimento de tais jovens nações.

Explico o título, uma das etnias da Guiné-Bissau são os Fulas, ou Fulanis. Aqui no Brasil, popularmente, uma das gírias é “Eu fico fulo(a) da vida” para designar alguém que está zangado, impaciente ou com raiva. Esse é um bom assunto para a Etnolinguística.

A beleza de estudarmos tais países é que as culturas plurais mostram uma multiplicidade de aspectos no falar, no escrever, na música, dança, vestuário, artes em geral e os modismos atuais.

Mas, nem tudo são flores... Estas reflexões me vem à mente, pois, recentemente, na Rua Senador Dantas, em pleno centro do Rio de Janeiro vi uma adolescente, moradora de rua e seu filho recém-nascido. O menino chama-se Manuel, sempre que os vejo, colaboro financeiramente mediante as minhas possibilidades. Não posso fazer muito, mas é uma forma de ajudar.

Manuel vem do antigo hebraico e quer dizer “Deus conosco”, lembro de Jesus, claro... “O que fizerdes a um destes pequeninos, estareis fazendo por mim”. Não estou me vangloriando. E como diz o verbo, é uma “vã glória” ficar citando temas aparentemente caritativos... não é isso, por favor, entendam.

Refleti no menino lisboeta e sua mãe da Guiné-Bissau. Imigrantes com o apoio do governo lusitano: tem uma casa, trabalho, moram bem. A criança portuguesa terá escola garantida, assistência médica e afins.

Já o Manuel e sua mãe, torço para que mais pessoas os ajudem e que apareça no Brasil, um sistema político ético, honrado que legisle para os mais pobres também, sem pieguice e sem falsas promessas.

Segundo a canção antiga: “Sonho meu ...”

 

07/09/2022

Objetividade e a lógica lusa – segunda parte

Fotografia Carlos Monteiro

    

Carlos Monteiro

(continuação...)

Contei-lhe uma história deliciosa, relatada por Mário Prata em seu “Schifaizfavoire” – Dicionário de Português, pela Editora Planeta, dando conta que essas ‘confusões’ linguísticas salvaram-lhe a vida. Quando estava muito mal, internado em estado grave, com transfusões de sangue e bolsas e mais bolsas de soro, que chamava carinhosamente de vinho branco e tinto, sentia que iria sucumbir tal era sua fraqueza... eis que surge uma enfermeira adentrando ao quarto do quase moribundo, que mais parecia um sepulcro e solta um tonitruante alívio verbal:

— Ó seu Prata, trago a pica das quatro, vai ao braço ou ao cu? Mesmo sem forças para aprazer-se, gargalhou. Salvou-lhe não o Rum Creosotado, mas a eficácia da senhora, prova cabal que rir é o melhor remédio.

Dicas dadas, informações relatadas, contatos passados, dias depois, ligo para saber como andavam os preparos àquela altura. Encontrei o amigo aparvalhado de indignação. Ao tentar reservar os hotéis para estada, só os encontrava com o pequeno almoço. Como assim? Não ficaria para refeição. Por que pagar por algo que não consumiria? Explique-lhe que era apenas o café da manhã. Naquele momento me dei conta das dificuldades que teria com hábitos, com a objetividade lógica portuguesa e, pasmem, com a língua.

 

Fotografia Carlos Monteiro

Viagem feita, chegada à Portocale, felicidade só, em plena primavera lisboeta, quiçá uma quimera. À Ribeira para encostar a cabeça, doce e macia almofada do Tejo. Pura poesia e logo uma indignação. Fumante inveterado logo foi atrás de tabaco, fumos diários. Ao pé do balcão da Tabacaria Mónaco a fatídica pergunta:

— Tem Marlboro? O atendente, com aquela cara de pasmo, olha para o meu amigo como se ele fosse papalvo e responde com um certo grau de deboche:

— Temos! Meu amigo achando que estava no Rio, onde o balconista, no máximo, perguntaria se de caixa ou maço e a versão já buscando-a na prateleira, ficou lá parado aguardando. Mais uma vez: — Tem Marlboro aqui? Já completamente indignado o vendedor trava com ele o seguinte diálogo:

— Ó pá, anda cá; não tens o que fazer? Achas que estou a brincar? Entras numa tabacaria para ficar a perguntar se temos tabacos de marca, o que estás a pensar? É o que estás a fazer gajo, anda-te daqui já. Pondo-no-lo para fora do estabelecimento.

— Ó pá, anda cá; não tens o que fazer? Achas que estou a brincar? Entras numa tabacaria para ficar a perguntar se temos tabacos de marca, o que estás a pensar? É o que estás a fazer gajo, anda-te daqui já. Pondo-no-lo para fora do estabelecimento.

O português, de um modo geral, é objetivo ao responder o que é inquirido. Em outra passagem, meu caro amigo pergunta à concierge do hotel:

— Como chego ao Castelo de São Jorge?

— Apanhas um táxi à porta e indicas d’onde queres ir.

— Mas eu quero ir a pé...

— O senhor não apontou tal detalhe.

Indicações feitas, Sol causticante, meu amigo e a família chegam ao destino que se encontrava fechado. Às tintas, volta e cobra do atendente o fato com indignação plena. A resposta veio de bate-pronto:

— O senhor me perguntou como se chegava lá, não me questionou se estava ou não a funcionar!

Errado não está!

 

Fotografia Carlos Monteiro

Esta crônica é uma homenagem a Carlos do Carmo.

“...Lisboa no meu amor, deitada/Cidade por minhas mãos despida/Lisboa menina e moça, amada/Cidade mulher da minha vida...”


11/08/2022

As imagens da fé

 

Fotografia - Vera Godoy

Leida Reis*

A fotógrafa Vera Godoi poetiza com imagens um tema sagrado de sua aldeia, daquelas que retratam o mundo. Durante longos anos, a mineira dividiu seu tempo entre o trabalho em redação de jornal e os registros das festas e encontros da Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário do Bairro Alto dos Pinheiros, em Belo Horizonte. O resultado é um livro, (Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário do Bairro Alto de Pinheiros) lançado neste dia 5 de agosto, com recursos da Lei de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, editado pela Páginas Editora.

Os ‘congadeiros’ estão espalhados nas páginas e suas cores são de dias de festa. As celebrações de coroação, as cantigas, a comida, as viagens, as bênçãos, os costumes que passam de pais para filhos só poderiam produzir um livro com energia tão alta quanto a fé do povo da Guarda de Moçambique. Belas fotos também na “troca de moeda”, quando as visitas são mútuas, e nas idas a Aparecida do Norte (SP), quando fica clara a vinculação do reinado à igreja católica. “Quando dois Rosários se encontram, une-se o céu e a terra, um só povo, um só coração, soa tambor, canta tambores”, diz o Capitão Geraldinho.

Vera Godoi já estava realizada com a fotografia, a arte que escolheu para sua vida, e agora se regozija com o livro, que será distribuído gratuitamente aos membros do Congado no lançamento. Ela quis, e conseguiu, eternizar em fotos a cultura de um povo no espaço urbano de uma capital de dois milhões e meio de habitantes. Afinal, desde os nove anos tem contato com essa cultura do povo preto, pela qual se apaixonou.

Os 14 ritos da Guarda de Moçambique do Bairro Alto dos Pinheiros ficam agora, no foto-livro, para sempre retratados, e uma cultura oral e familiar passa a ter um registro físico. Dentre tantos livros publicados para contar os costumes do povo brasileiro, este é mais um a fazer sentido na eternização da memória brasileira.

 

Fotografia - Vera Godoy

Falando em foto-livro, a Páginas Editora acaba de lançar o Prêmio de Fotografia “Das Minas às Gerais, pelo olhar do seu povo”, para tanto premiar quanto produzir um foto-livro revelando as belezas naturais e culturais do Estado. As inscrições, para profissionais e amadores, estão abertas no site       

www.paginaseditora.com.br/premiodefotografia.

Viva o livro e salve a fotografia, a escrita pela imagem. 

 *Leida Reis é escritora com oito livros publicados, jornalista e fundadora da Páginas Editora – leida@paginaseditora.com.br

O post foi enviado pelo Carlos Monteiro

02/08/2022

Objetividade e a lógica lusa (primeira parte)

 

Fotografia - Carlos Monteiro

Carlos Monteiro

Dia desses conversava com um amigo que me relatava momentos engraçados e histórias vividas, absolutamente curiosas. Lembramos de sua primeira viagem a minha amada Portugal. Trago nas veias o sangue português com muito orgulho. Sabedor do carinho e da relação afetiva que tenho com o país além-mar, pediu-me referências e dicas de locais imperdíveis, comidas imprescindíveis e vistas incríveis para alvoreceres, entardeceres, cartões-postais registrados de forma autoral.

 

Fotografia - Carlos Monteiro

Debulhei um rosário de informações como se estivesse rezando o terço na Sé de Braga. Tascas, imperial, bica, fixe e gira, frigorífico, casas de fado, castelos, ascensores, eléctricos, Lavra, Glória, Bica, a Baixa, o Alto, Santa Justa, Santa Maria Maior a Mouraria, Chiado, Alfama, o 28, o 15, freguesias, Pastéis de Belém, Confeitaria São Nicolau, passadeiras, pastelarias, Casa Brasileira, telemóveis, Pombalinas, Convento do Carmo, Cais do Sodré, Torre de Belém, da Gare do Oriente, obra de Calatrava, do Arco da Augusta, calceteiros, Jardim das Pichas Murchas, Azinhaga da Bruxa, Alentejo, Algarvias praias, Matosinhos, Mindelo, Leça da Palmeira, Alfacinhas e Tripeiros, Amoreira, Évora, Porto, a história da Inês de Castro, São Jorge, a Vicentina, Tunas, Florbela, Camões, Ruy Guerra, Saramago, Café Magestic, Pessoa, a Bertrand, a diferença entre facto e fato, que a francesinha é um sandes típico do porto.

 

Fotografia - Carlos Monteiro

Falei do Teatro Nacional Dona Maria II, na Praça Pedro IV – Praça do Rossio, da Adega Machado e do Café Luso, da  Severa, da Amália, do Xutos & Pontapés, do Filho da Mãe, do Abrunhosa – gravado por Bethânia, “Quem Me Leva os Meus Fantasmas”, “...e a ursa maior eram ferros acesos...” -, Carminho, Zambujo, Ana Moura e Mariza, dos “Olhos Castanhos”, da “Casa Portuguesa”, da “Gaivota”, da “Mãe Preta”, de Piratini e Caco Velho, compositores brasileiros que em terra lusa, censurada pela PIDE do regime Salazarista – foi considerada subversiva por expor a triste realidade de seres humanos escravizados -, se tornou “Barco Negro”. Gravada inicialmente por Maria da Conceição, fez sucesso na voz de Amália em 1955, para a trilha do filme “Os Amantes do Tejo”, com toda a letra alterada, adaptação de um poema de David Mourão-Ferreira. Em 1978 a fadista se redimiu e gravou a versão original. “...Enquanto a chibata batia no seu amor/Mãe Preta embalava o filho branco do sinhô...”.

Claro, não poderia perder a oportunidade de ensinar algumas bobagens. Nunca se deve dizer que vive a fazer freelas (bicos) ou broches, que paneleiros não são profissionais na arte da latoaria, que entrar no rabo da bicha não tem o mesmo significado do Brasil, que há uma diferença crucial entre o bombeiro e picheleiro, entre o banheiro e a casa de banhos. Falei do duche, do autoclismo, da retrete e da sanita. Indiquei como se dirigir a um empregado de mesas, se me faz favor. Que pedir um gelado não é entrar numa fria. Que miúdos são crianças assim como os putos e que rapariga é uma moçoila. A canalhada é um grupo de putos a fazer algazarra. Do breque e dos travões, da porra recheada que é porreiro, das punhetas de bacalhau, da sopa de grelos, do cacete e da pastilha elástica. Caralho e caralhinhos não são pejorativos, e estar cheio de pica é um bom negócio. Cuidado com a rata crica.

(continua...)