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27/03/2020

Lembranças no varal



Ana Nunes

Gente, 
Nunca imaginei que pendurar cuequinhas de netos no varal enchesse o coração de ternura. 
Mas é a mais pura verdade.

Em cada uma, em cada pregador que ponho, me esvaio em amores e recordações. 
Recordações das primeiras cuecas compradas pros filhos gêmeos, séculos atrás. Quanto tempo! Nem tanta saudade porque aproveitei muito, muito! Alisei, beijei, apalpei, e também dei algumas palmadas. 
Estava era mesmo no maravilhamento de ser mãe. Esgotada, descabelada, um filho no colo e o outro sendo embalado no carrinho com o pé, enquanto me equilibrava na tentativa de um jantar. E o encantamento desses seres ainda desconhecidos e lindos que me ensinaram até a linguagem do choro. E depois, outras linguagens, o tupiguarani dos primeiros anos, as palavras truncadas e divertidas dos anos seguintes. E a cruel descoberta de que um deles estava ficando surdo! E eu não teria descoberto se não existisse o outro. Trocava manta com manga, cantava as músicas do maternal pela metade. Descobri nas conversas do por para dormir. Apavorei, dividi, quase morri. Cirurgia aos dois anos. Outra aos quatro. E hoje, aos quase cinquenta, ouve muito bem. Às vezes mais do que precisa! Tornaram -se fortes e saudáveis. De corpo e alma. Um reparo aqui, outro ali, sempre é aconselhável.

Isso tudo passa como um filme enquanto penduro as cuequinhas dos netos. Já mais sóbrias de homenzinhos, não mais as de Super Homem ou Homem de Ferro! Tudo tem seu tempo, a gente que saiba usufruir. Aos quatorze e nove anos se acham adultos. Nem posso ver o banho, apesar de que, outra noite, peguei o menor nas unhas e dei-lhe uma bela xampuzada nos cabelos fartos e duros de piscina. Sob os protestos de que estava muito limpo, que a piscina não tem cloro, é de ozônio! Hum, hum... 
Ainda escuto o seu cantar no chuveiro. Gratidão, presente dos deuses.

Esses netos, que eu amo de paixão, que aos poucos vão mudando seus interesses, vão nos trocando por seus supercelulares. Sabem coisas da tecnologia que nem imagino, e fazem paracasa com ajuda da internet. E ainda informam ao avô que a internet dele está muito fraca!!! O menor baixa jogos escolhidos para mim no meu iPad, escolhidos a dedo, só para eu partilhar de seus maravilhamentos com seus próprios jogos. De bidê a orelhão não têm a menor ideia. Nem de telefone de discar. A antiga máquina de escrever é um bicho pré-histórico e talvez pensem mesmo que das cavernas viemos nós, pobres avós. Acreditem, nos indicam bons filmes, segundo seus critérios, lógico, e vigiam se não estamos cochilando na sessão! 
Não gostam de beijo e aí, ganham mesmo. Na cabeça, nas bochechas, até nos pés se derem bobeira. Pé de moleque, sujo e chulepento. É o que temos! Queria mesmo é que todas as fotos, de ontem e de hoje, trouxessem junto os melhores cheiros e os primeiros balbucios. O cheiro de pera dos bocejos ainda bebês, de banho vencido no pescoço antes do outro banho e dos pezinhos cheio de flunfa entre os dedos bananinhas. Bom, mais tarde é um pouco diferente, é preciso mais seletividade. Mas descobrir no embolamento afetivo a necessidade do uso de desodorante é imprescindível para uma avó deslumbrada. Indica mudanças no tempo e que outros tipos de conversas estão por vir.

Os cabelos nas pernas do mais velho estão cada vez mais fortes e o tamanho do tênis é assustador. Não se amarrou no Dickens mas está acabando com a barata do Kafka. Essa minha traça querida...

E nesses últimos contatos vou descobrindo enternecida que rezam antes de dormir. E fico mole de paixão quando pedem carinho antes de dormir porque “adoro a sua massaginha”.

Como dizia meu pai querido, paulista da gema e do sotaque de erres torcidos, feliz estaria de saber dos bisnetos paulistas, “Eta mundo véio sem porteira!”


21/03/2020

Ninguém é Obrigado a Acreditar

Ramatis - Pintura mediúnica em pastel por Dinorah Azevedo de Simas Enéas, em 10/02/1956.
 Restaurada por Simone Steigleder Botelho em 20/10/2017 (imagem Wikipedia)


Antonio Rocha
Não sei se é desta vez, mas há uma antiga previsão entre os Espiritualistas de que dois terços da humanidade vão desaparecer, isto é morrer. Não só através das guerras, das doenças “normais”, da criminalidade desenfreada e agora via Coronavírus.
A previsão, ou se preferirem profecia está no livro “Mensagens do Astral”, de um Espírito chamado Ramatis e psicografado pelo médium paranaense Hercílio Maes. A obra veio à lume, a primeira vez, em 1956. Possui 438 páginas e hoje tem o selo da Editora do Conhecimento.
Nasci em 1952, portanto, desde os quatro anos de idade convivo e leio as mensagens do citado autor espiritual. Pois minha família era/é espiritualista.
Numa linguagem mais genérica muitos podem falar em Juízo Final, não é, pois a mortandade não vai ser total. É um ajuste de contas que a Natureza está tendo com a espécie humana que não respeita o Ecossistema e as normas do bem viver.
Pelos mais diversos motivos o ser humano prejudica a si mesmo, os outros, o próximo e como toda ação corresponde a uma reação, temos a chamada Lei do Retorno, que os budistas chamam de carma e esse karma (as duas formas estão dicionarizadas) é pessoal, familiar, profissional, coletivo, nacional e mundial, pois “todos estamos interligados”, disse uma vez o Filósofo Sidarta Gautama, o Buda.
É uma tolice esta briga entre esquerdas e direitas, pois o que um tem o outro tem. Acabam repetindo os mesmos erros.
Mas, qual será o motivo, a causa de tanta discórdia?
Buda afirma que é porque o homem, enquanto gênero humano, englobando no vocábulo também a mulher, tem um falso conceito de Eu, que gera o Ego, o egoísmo. E é este egoísmo que cria toda sorte de guerras, tanto entre um casal, quando entre os países.
Os pronomes “meu, minha, seu, sua” são utilizados doentiamente por este falso conceito de EU e assim “eu quero que a minha família esteja numa ótima, os meus amigos idem e os demais não estou nem aí...”. Este é um pensamento geral, egoísta que provoca toda sorte, ou má sorte de insanidades.
O caminho para se chegar ao não-Eu e construirmos o Nós é demorado, às vezes começa em uma vida e termina em futuras reencarnações.
Até lá, haja Coronavírus.
Aos leitores, editores e demais que fazem este ótimo Blog do Mano, peço ao Criador que tem vários nomes, que nos proteja. Claro, incluindo nossos familiares, amigos e, se possível, todo o planeta.

16/03/2020

Os dois saltos mais altos

Felix Baumgarten (esquerda) e Joseph Kittinger (direita) saltando de seus balões.
Fotografias RedBull (esquerda) e Força Aérea Americana (direita)


Wilson Baptista Junior
Há oito anos, em 2012, o mundo inteiro viu as notícias, e milhões de pessoas acompanharam ao vivo o salto de paraquedas patrocinado pela Red Bull, quando depois de cinco anos de treinamento e preparação Felix Baumgartner saltou de uma gôndola pressurizada levada por um balão a 39.045 metros de altitude, caiu por 4 minutos e 22 segundos em queda livre, durante a qual quebrou a barreira do som e atingiu uma velocidade estimada de 1.343 quilômetros por hora antes de abrir o paraquedas. Foi um feito magnífico, ajudado por toda uma tecnologia de ponta. Felix usou um traje espacial desenvolvido especialmente para o salto, alimentado dentro da gôndola high-tech do balão por uma mistura de nitrogênio e oxigênio líquidos, e durante o salto por dois cilindros da mesma mistura acoplados a seu traje espacial.
Os recordes anteriores que Felix quebrou tinham sido estabelecidos mais de meio século antes por um piloto de provas da Força Aérea Americana, o capitão Joseph Kittinger, em agosto de 1960. Kittinger saltou de 31.333 metros de altitude, num projeto da Força Aérea Americana para testar um sistema de estabilização de paraquedas que permitisse aos pilotos escapar de aviões que na época estavam atingindo altitudes cada vez maiores.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os aviões de combate já atingiam altitudes de mais de doze mil metros, e havia uma controvérsia sobre qual seria a melhor maneira de escapar de um avião a esta altitude; se seria melhor abrir o paraquedas imediatamente e depender de um maior suprimento de oxigênio para flutuar até o solo, ou cair rapidamente uns dez quilômetros em queda livre e abrir o paraquedas numa altitude onde já se pudesse respirar.
Em 1943 um cirurgião aviador da Força Aérea Americana, coronel Randolph Lovelace, resolveu testar ele mesmo, e saltou de uma Fortaleza Voadora B-17 a 12.164 metros carregando um cilindro de oxigênio, abrindo o paraquedas logo após o salto. O choque da abertura do paraquedas fez com que ele ficasse inconsciente e arrancou as luvas das duas mãos. Por sorte o oxigênio funcionou e o manteve vivo até chegar a uma altitude mais baixa, onde acordou e foi capaz de aterrissar em segurança. Outro cirurgião aviador, o coronel Mel Boyton, resolveu testar a técnica oposta, com queda livre longa, mas recusou-se a usar um dispositivo que abriria automaticamente o paraquedas a baixa altitude porque os pilotos de combate não dispunham do mesmo dispositivo. Saltou de pouco mais de 12.400 metros mas não chegou a abrir o paraquedas; pode ter perdido a consciência, e aparentemente ainda estava olhando para o cronômetro quando bateu no chão.
Depois deste acidente a Força Aérea interrompeu os testes.
Nos anos seguintes os aviões continuaram a voar cada vez mais rápido e cada vez mais alto, e em 1952 a Força Aérea Americana começou um programa para desenvolver técnicas de escape que funcionassem entre 18.000 e 30.000 metros de altitude. E decidiu que o melhor meio de fazer os testes seria utilizando balões estratosféricos.
A Força Aérea Americana estava já testando voos de balão em grandes altitudes, em gôndolas pressurizadas, muito estreitas, que mal cabiam o piloto (noventa centímetros de diâmetro e dois metros e dez de altura), para explorar o comportamento humano em voos de grande altitude. Em 1956/57, garoto de onze para doze anos, eu me lembro de ter assistido com meu pai um filme, “No Limiar do Espaço”, feito pela Fox Filmes, explorando magnificamente a novidade da época - o Cinemascope – que romanceava com grande impacto estes primeiros voos. Enquanto escrevia este post tentei encontrar uma cópia do filme, mas infelizmente a Fox quando reeditou em DVD o filme, em vez de recuperar o formato Cinemascope original, houve por bem fazê-lo no horrível formato “pan and scan”, feito para poder passar os filmes nas antigas tevês de tubo, onde vai mostrando pedaços da cena como se a câmara se movimentasse dentro da largura da cena (daí o nome), e não tive coragem de destruir minha boa lembrança...
Em 1957 o capitão Kittinger fez o primeiro voo do projeto “Man High”, atingindo 29.200 metros de altitude. Dois meses depois o Major Médico David G. Simons fez outro voo, para verificar os efeitos de uma longa permanência na esratosfera. Atingiu a altitude de 31.000 metros e voltou ao solo depois de 36 horas de voo.
O projeto dos saltos se chamou “Project Excelsior”, palavra latina que significava “Sempre mais para o alto”.
Testes preliminares lançando bonecos de grande altitude mostraram que o maior problema era que os bonecos começavam a girar durante a queda, chegando a atingir duzentas rotações por minuto, o que faria com que os pilotos perdessem a consciência e não pudessem comandar a abertura dos paraquedas. Com a baixa pressão de ar naquelas altitudes, seria também muito difícil para os pilotos controlar sua posição aerodinamicamente, utilizando a posição dos braços e pernas como superfícies de controle, como os paraquedistas fazem em saltos em queda livre a altitudes mais baixas. Além disso, os pilotos de combate não são paraquedistas treinados. Era preciso encontrar uma solução que não dependesse do piloto.
Francis Beaupré, da Divisão Médica Aeroespacial da Força Aérea Americana, projetou um paraquedas que deveria funcionar em três estágios: Depois de dezoito segundos de queda livre, para atingir uma velocidade em que a pressão do ar fosse suficiente para um mínimo de controle, um pequeno paraquedas auxiliar com trinta centímetros de diâmetro se abriria, puxando um paraquedas estabilizador de um metro e oitenta, que deveria estabilizar o piloto na posição de pés para baixo. Chegando a uns seis mil metros de altitude, o paraquedas estabilizador puxaria para fora o paraquedas principal e interromperia a queda livre. Todo o sistema devia funcionar sem intervenção do piloto, para o caso em que ele tivesse perdido a consciência.
Depois de cento e quarenta testes do sistema Beaupré com bonecos lançados de até 30.000 metros, o capitão Kittinger saltou com sucesso de um Hércules C-130 a nove mil metros de altitude, e seus superiores consideraram que o sistema estava pronto para ser testado saltando da estratosfera.
As gôndolas da Força Aérea Americana, tubos em que mal cabia o piloto, não permitiam colocar uma escotilha para que ele pudesse saltar com facilidade, então resolveram utilizar uma gôndola aberta, projetada para voos de balão de baixa altitude, pouco mais do que um meio cilindro de alumínio com um assento e uma abertura lateral, pendurada do balão por cabos e com uma proteção de lona plástica para proteger o piloto do sol. Algo como uma cadeira presa num meio tambor de petróleo...
Como o objetivo dos testes era provar que um piloto de combate poderia sobreviver ao salto, Kittinger tinha que usar apenas um traje de voo padrão de combate, que mantinha maior pressão em apenas algumas partes do corpo, para permitir resistir às manobras violentas de um avião de caça que provocavam falhas na circulação sanguínea pelas altas forças G resultantes, durante todo o voo, e depender de garrafas de oxigênio como as de emergência dos pilotos para respirar. Qualquer falha da pressurização do traje, a grandes altitudes, poderia causar sua morte em poucos minutos. A sua única proteção adicional era um macacão de voo com isolamento térmico, vestido por cima do traje, para protegê-lo do frio extremo lá em cima. Ele levava ainda uma mochila no peito, com instrumentos, câmaras e o oxigênio suficiente para mantê-lo vivo durante o voo e o salto.
Cápsula usada por Baumgarten (esquerda) e por Kittinger (direita)
Fotografias RedBull (esquerda) e Museu da Força Aérea Americana (direita)

Usando esta “cadeira voadora”, Kittinger fez um total de três saltos. No primeiro, de 23.000 metros, em 26 de novembro de 1959, o paraquedas auxiliar se abriu antes da hora, e a falta de pressão de ar fez com que ele chicoteasse e se enrolasse no pescoço do piloto. Sem a estabilização, o piloto começou a girar e perdeu a consciência, que só recuperou a menos de dois mil metros, pendurado do paraquedas reserva. Devido à falha do auxiliar, o paraquedas estabilizador e o principal não se abriram, e Kissinger só se salvou por causa do sistema barométrico que abriu o paraquedas reserva a três mil metros de altitude.
Com algumas pequenas correções no projeto dos equipamentos, Kittinger saltou de novo em 11 de novembro, desta vez de 22.700 metros. Tudo funcionou perfeitamente, e em 16 de agosto do ano seguinte ele subiu no balão até a altitude de 31.333 metros.
Durante a subida o selo de pressurização da luva direita falhou, e a mão inchou até quase o dobro do seu tamanho original. Apesar da dor e do risco, o capitão não avisou o controle do voo antes de atingir sua altitude máxima por medo de que abortassem o salto.
Numa queda livre de quatro minutos e meio e quase vinte e seis quilômetros, ele atingiu a velocidade de 1.012 quilômetros por hora antes de abrir o paraquedas.
Depois do programa de testes, pilotou balões para o projeto Stargazer, levando astrônomos em vôos a 25.000 metros de altitude, e depois ofereceu-se como voluntário na guerra do Vietnã, voando em 483 missões de combate até ser derrubado pelo inimigo e feito prisioneiro em 1972. Libertado quase um ano depois, continuou na carreira militar até 1978.
Depois de se reformar com o posto de Coronel, Kittinger continuou voando, e em 1984 foi o primeiro piloto de balão a fazer um voo solitário dos Estados Unidos até a Europa.
Como piloto da Força Aérea, Kittinger não teve direito a nenhuma compensação financeira pelos riscos que correu no projeto, além de seu soldo de capitão. Mas certamente deve ter ficado contente com a quebra do seu recorde, cinquenta e dois anos depois, porque ele trabalhou com a Red Bull e Baumgartner durante toda a realização do novo projeto. E foi ele quem esteve no rádio, durante o voo e o salto, como a ligação entre o Centro de Controle e o piloto.
Os dois utilizaram nos seus saltos a tecnologia mais desenvolvida de suas respectivas épocas, mas não deixa de ser interessante olhar a grande distância e a diferença de recursos entre uma e outra.
Vocês podem ver o próprio Kittinger contando um pouco de seu voo e salto neste filminho do National Museum of the U.S. Air Force:
O site da Red Bull tem a história da missão e os detalhes da tecnologia do salto do Félix:
E muita coisa dos arquivos da Força Aérea Americana sobre o Projeto Excelsior, nos quais me inspirei para escrever este post, pode ser encontrado pesquisando “projeto excelsior”.


11/03/2020

Movimento

fotografia Heraldo Palmeira


Heraldo Palmeira
Fiquei das cinco da tarde às quase nove da noite diante do Pacífico, o sol dominando a cena diante do meu quarto de hotel. Não era bem noite ainda, porque a tarde de verão insistia em não ir embora na hora anoitecer.
As águas escuras, as pedras pretas, algumas mergulhando e reaparecendo com o passar das ondas. Lá adiante, os prédios do bairro elegante de Viña del Mar. E lá mais ao longe, atrás da bruma da maresia e do tempo seco, Valparaíso e suas colinas repletas de ladeiras e casas como se estivessem dependuradas no nada.
As gaivotas voando com seus gritos diante da vidraça da janela, eu num jogo de erros e acertos tentando captá-las para alguma foto mais próxima. Claro que senti inveja da arte de voar.
Na parte mais baixa da minha visão privilegiada, um resto da piscina do hotel. Na balaustrada, três gaivotas observando o mar. Uma pose perfeita para mim.
Um homem velho foi se aproximando pela borda da piscina, elas ficaram em alerta e começaram a andar sobre a balaustrada. Quebrou minha concentração e desmanchou a imagem que, faltava pouco, eu levaria para sempre comigo. Ele agitou os braços, elas voaram sobre o mar. Pensou que era o dono do espaço, ficou resumido na sua insignificância rabugenta, sem asas.
Bastou ele ir embora, elas voltaram para o mesmo lugar. As adultas no mesmo posto de observação do mar. O filhote no piso ao redor da piscina. E completou-se o espetáculo da natureza, uma das adultas descendo para regurgitar e alimentar a cria bico no bico. Ali, diante de mim, só elas três e eu, e o Pacífico imenso.
fotografia Heraldo Palmeira

Não ousei fotografar aquele momento de intimidade familiar, eu não tinha o direito. Depois, a adulta aproximou-se da piscina e bebeu bastante água. E se foram, não sem antes revoarem quase entrando no meu quarto. Voos perfeitos! E eu invejei não ter asas.
O fim do dia foi chegando, o sol ficando cada vez mais dourado e descendo mais próximo da linha d’água lá no fim do mundo. Os muitos navios fundeados à espera da vez no cais ganhando contornos amarelados e cheios de contrastes. As primeiras luzes tremeluzindo como se fossem os corações das duas cidades e dos marinheiros embarcados pulsando. O mar ficando escuro e escuro, mas dizendo coisas pelo som de ir e vir e bater nas pedras.
fotografia Heraldo Palmeira

Dois homens como que grudados nas pedras, retirando seus pescados da água revolta. Revoadas de várias espécies de aves marinhas em mais uma despedida diária do mar, indo embora em busca dos seus redutos de repouso. Um pelicano solitário passou em linha reta, aquele bico inconfundível carregado, a caminho de alimentar a família.
A lua nova e a estrela-d’alva apareceram juntas, não podiam perder aquele espetáculo que eu não me furtei de pensar que era para mim. Era como um prefácio para o dia seguinte, dia de visitar La Sebastiana e, como Neruda, não negar que vivi.
fotogafia Heraldo Palmeira

           Deixei a grande janela aberta. Era impossível negar à minha solidão aquela companhia pela noite inteira.



05/03/2020

Mulheres mulheres e mulheres




Ana Nunes
Somos baratas tontas?
Nem tontas nem prontas
Bichinho nojento
que passa debaixo  das portas
sobe pelos canos
e espreita nossos guardados.
Somos gatos elegantes
atentos e vigilantes.

Somos Maria vai com as outras?
Prefiro as marias em saquinho costuradas.
Se são cinco ou seis não sei mais
mas encantos com cheiro de infância.
Somos gente grande
que carrega criança dentro.

Somos Rainhas do Lar?
Nem queremos ser.
Queremos viver e partilhar
nossa cadeira preferida
cama, mesa, fogão,
passeio nos jardins
e trabalho precioso.
Sim
Somos rainhas do lar.

Somos anjos?
Só se forem dos decaídos
porque transgredimos e erramos
e fazemos mal-falados.
Temos as asas chamuscadas.
Mas sim
Somos anjos.

Somos Amélias?
E Amálias e Marias
Dulces, Anas e Cristinas
Leilas, Gabrielas e Camilas
Carolines e Rozálias.
Cada uma ou duas ou três.
Somos
rosas, prímulas e camélias.

Somos Megeras Indomadas?
Indomadas sim
mas megeras não.
Só se com calos pisados.
Aí megeras sim
Indomadas também.

Somos Vaquinhas de Presépio?
Nem vaquinhas  nem presépio.
Temos sim uma casa para cuidar
e filhos para alimentar,
roupas para lavar
e o trabalho na manhã seguinte.
Guerreiras sem eira nem beira
sem férias para descansar.

Somos coloridas,
louras, ruivas, morenas
e grisalhas.
Com ticoeteco e todos mais,
generosas e amorosas, nunca iguais
mas tanto quanto competentes.
Somos especiais!

Somos crias da pedra lascada
mulheres libertárias
usando jeans e camiseta ou coroa
dando dedinho a bebê chorão.
Improvisando do sílex ao barro cozido
a cerâmica do nada
ou do coração ferido.

Somos Ave, Cheia de Graça,
mas também somos da Penha.
Um dia isso muda
como muda o tempo e o vento.
E seremos em paz a mulher rendeira
entre as rendas do dia a dia.


03/03/2020

Dao de Jing, de Laozi


Antonio Rocha
Aos poucos, mais e mais, as universidades brasileiras estão investigando as religiões e suas filosofias, não como forma de proselitismo, mas pesquisando como formas de saberes vários e que tocam profundamente os corações e as mentes de bilhares de seres humanos, por extensão, trilhares de seres vivos e suas inter-relações com as pessoas.
O título acima nos fala do conhecido “Tao Te King”, do filósofo chinês Lao Tse. Há quem diga que ele, Laozi, na atual grafia do mandarim nunca existiu, outros o situam no século VI antes de Cristo, juntamente com o Buda.
Estudiosos dizem que este século 6 antes da Era Comum, ou era cristã foi, especialmente vasto em termos de pensamentos e filosofias: na Índia, o Buda; na China Lao Tse; na Grécia Pitágoras e os chamados Pensadores Originários de todo o Pensamento Filosófico Ocidental e na Judéia o profeta Jeremias. Ensinamentos que permanecem até hoje, gerando livros e mais livros e, modestamente, este pequeno artigo no grande blog do Mano. Não é qualquer um que atinge a cifra, mais de meio milhão de leitores/visitas.
Particularmente gostei da nova designação Dao, que lembra o nome ocidental Deus e assim uso indistintamente as duas, como sinônimos: Dao e Tao.
Por falar em academias, destaco que a Unesp - Universidade do Estado de São Paulo publicou um belíssimo volume, na apresentação gráfica e no conteúdo do Dao De Jing, capa dura, 582 páginas; parece uma bíblia do Taoísmo e de fato, é.
Em português já existem diversas edições e tradições, além da atual que estou abordando existe uma do Murilo Nunes de Azevedo, monge budista e engenheiro, foi professor da PUC-RJ.
E aqui uma novidade, como todas, passível de questionamentos. O monge budista Vira Avalokita, que vive hoje no Cambodja, nascido nos EUA, teólogo, era pastor Metodista e ordenou-se sacerdote de Buddha afirma que após uma pesquisa da evolução linguística, ele chegou a conclusão que “Lao Tse e Buda são a mesma pessoa”.
É possível, eu acredito, há muitos pontos em comum entre o Taoísmo e o Budismo.
O Tao Te King são 81 pequenos textos, de grande profundidade.
Uma outra versão em nossa língua, que eu gosto muito é “Tao Te Ching, o Livro que Revela Deus”, do filósofo gaúcho Huberto Rohden (1893-1981), jesuíta, foi professor na Universidade de Princeton (presbiteriana) nos EUA e colega de Einstein que lecionava na mesma universidade. Tive a honra de conhecer o professor Rohden,  quando nos anos 1970 ele visitou o Templo Budista de Santa Teresa, RJ, onde eu, solteiro, morava. Depois, casei com a tesoureira do templo, Heloisa e estamos juntos até hoje construindo nossa caminhada búdica.
Vejamos o primeiro poema do “Tao Te Ching” na tradução do pensador bras1leiro Huberto:
“O uno e o verso do Universo
O Insondável (Tao) que se pode sondar
Não é o verdadeiro Insondável.
O Inconcebível que se pode conceber
Não indica o Inconcebível.
No Inominável está a origem do Universo.
O que é Nominável constitui a mãe de todos os seres.
O Ser indigita a Fonte Incognoscível.
O Existir nos leva pelos canais cognoscíveis.
Ser e Existir são a Realidade total.
A diferença entre Ser e Existir
É apenas de nomes.
Misterioso é o fundo
Da sua unidade.
Eis em que consiste a sabedoria suprema.”
Na explicação, entre outras, Rohden afirma: “... Tao é o Brahman (em sânscrito) Absoluto, o Pai Infinito, gera os mundos pelo seio de Maya (a Natureza), Mãe de todos os Finitos...”.
Renovo os votos de um Feliz Natal e Próspero Ano Novo para todos (as) e as devidas Gratidões ao Editor, colaboradores (as), leitores e leitoras.