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21/11/2017

Encontros com Vênus

Vênus sobre o Pacífico (imagem wiki/planets)

Domingos Ferreira
O planeta VÊNUS é o terceiro corpo celeste mais brilhante na abóboda celeste, após o Sol e a Lua. Além disso, ele é o segundo mais próximo do Sol, depois de Mercúrio e antes da Terra. Tal posicionamento faz com que ele, caprichosa e femininamente, apareça para nós, mortais terrestres, ora logo após o pôr do Sol, ora pouco antes do seu nascer.
Isso faz os homens que olham muito para o céu, como os marinheiros, terem grande familiaridade com o planeta, tratando-o, inclusive, no feminino, isto é a Vênus matutina, ao nascer do Sol, e a Vênus vespertina, após ele se pôr.
O Almirante Felipe, durante sua longa carreira, teve inúmeros encontros com Vênus, em diferentes mares e oceanos pelos quais navegou. Ao início, ainda jovem Guarda-Marinha, eles foram apresentados, um ao outro, durante as aulas de navegação astronômica para sua turma, em alto mar. Então, inexistiam computador, internet, GPS, satélites, etc...
Naquelas ocasiões, eram grupos de dezenas de alunos, no largo convés do Navio-Escola, vasculhando os céus ao mesmo tempo, em busca de estrelas fixas, cujas posições no firmamento, verificadas com uso de sextantes, possibilitavam calcular e registrar onde estava o navio na carta (mapa) de navegação. Nessa confusão, a observação de Vênus, em toda sua beleza, era puramente secundária, por curiosidade.
Alguns anos depois, o tenente Felipe era “ajudante de navegação” em um “NTrT-Navio Transporte de Tropa”, cruzando o Atlântico, com seiscentos soldados do “Batalhão Suez”, do Exército Brasileiro, com destino a Port Said, na entrada do Canal de Suez, no Egito. Essa tropa, em rodízio anual, era a colaboração brasileira para os esforços da ONU na manutenção da paz naquela região, onde ocorriam os primeiros embates mais sérios da Guerra Fria.
Esses fatos tinham origem na recente independência do Egito - até então colônia da Inglaterra - proclamada pelo notável coronel Gamal Abdel Nasser. Daí, surgira a nacionalização do Canal de Suez pelos egípcios, fato inaceitável para os ingleses e franceses e o recém-criado Estado de Israel. Este era, também, inaceitável para os palestinos expulsos de suas terras pelos judeus.
Além da tropa do Exército, o NTrT transportava mais quatrocentos homens que eram parte da tripulação do Navio Aeródromo “Minas Gerais”, adquirido da Marinha Inglesa pela Marinha do Brasil e passando por uma grande revisão em Rotterdam, Holanda. Isso fazia com que o NTrT estivesse com mais de mil homens embarcados, além de sua própria tripulação.
O tenente Felipe “dava serviço” no passadiço nos “quartos” de 16:00 às 20:00 e de 04:00 às 08:00. Sua tarefa principal era fazer as observações, com o sextante, de estrelas pré-selecionadas, cujos ângulos em relação ao horizonte se transformavam nos elementos dos cálculos que chegavam à posição geográfica do navio em alto-mar. Essa posição seria lançada na carta de navegação e mostrada ao Encarregado de Navegação, (um oficial superior) que conferia sua veracidade e a mostrava ao Comandante do navio, quando ele vinha ao “passadiço”(ponte de comando), após o café da manhã, ou antes de descer para o jantar.
Essa coreografia toda, aparentando complicada, era rotineira, naquela época, em qualquer navio navegando afastado da costa. Felipe, com muita prática, levava uma meia-hora para fazer os cálculos, com notável precisão. Isso agradava bastante seus superiores.
Contudo, sua concentração nas estrelas desagradava muito a ciumenta Vênus, que fazia de tudo para chamar sua atenção, mostrando-se exuberante desde o momento em que o jovem e belo oficial pegava no sextante e o apontava para o céu.
Até que, em uma linda madrugada, sem Lua, só com o timoneiro no passadiço vazio, quando Felipe ia conteirar seu instrumento para a primeira estrela, ele ouviu uma voz feminina, doce e firme, lhe dizendo:
“Felipe, Felipe!... olhe para mim, olhe para mim!”... “estou logo à direita desta estrela”... “e vou piscar três vezes para você”...
Dito e feito, Felipe, meio assustado, apontou o sextante naquela direção e viu a brilhante Vênus, enamorada, piscando para ele.
Aí, ela disse: “não precisa falar nada”... “basta você pensar em mim, olhando para cá, que eu entendo o que quiser dizer”... “e você entenderá o que eu lhe disser”... “sem problemas, desde que um aviste o outro”...
Funcionou!...entro de poucos minutos, eles estavam se entendendo, com Vênus dando o tom da conversa, feminina como era...
E Felipe, distraído, quase perdeu a oportunidade de observar as outras estrelas e marcar o ponto na carta, pois o céu clareara rapidamente, apagando-as sem dó...! A partir daquele dia, nas madrugadas, não tinha gente para atrapalhar... e eles conversavam como amigos, quase enamorados.
Isso valeu até entrarem no Mediterrâneo, pelo estreito de Gibraltar, e chegarem ao primeiro porto - no caso, Barcelona - onde o navio passou dois dias. Ali, Felipe reencontrou Mireja, uma catalã de longos cabelos negros e imensos olhos verdes, com a qual dançou um tórrido “pasodoble”, semelhante ao que tinham praticado alguns anos antes, quando ele ali passara em outro navio. Olé!...
Seguiu-se, uma curta travessia até Nápoles, com mais dois dias atracado. Mesmo assim, houve oportunidade de Felipe rever Annunziatta, uma italiana digna dos afrescos de Pompéia. Ela morava na ilha de Capri, ali perto, e ofereceu, ao nosso herói, uma autêntica pizza napolitana, no capricho, com vinho tinto, música de fundo, e todas as consequências.
Depois, o navio contornou a bota italiana e rumou direto para Port Said, no Egito, navegando com o uso de radar, sem necessidade de apoio das estrelas. Seriam oito dias no porto, para a troca dos Batalhões sediados na Faixa de Gaza. Felipe e mais dois colegas tiveram licença de quatro dias e alugaram um carro, com um motorista falante chamado Jamal (belo, bonito...) , para irem até o Cairo, visitar as pirâmides.
 
O NTrT Custódio de Melo (imagem Marinha do Brasil)

A distância entre as duas cidades é cerca de duzentos quilômetros e a estrada estreita corre ao longo do canal até cidade de Ismailia, onde toma direção para Oeste e penetra fundo no deserto. Eles saíram do navio à tarde, com a intenção de chegar ao Cairo no final do dia. O trecho, em pleno deserto, era uma sucessão de subidas e descidas em grandes dunas, aparentando navegar em mar grosso, onde a estrada se resumia a um traço escuro de uma caligrafia monótona. Até que enxergaram palmeiras ao longe.
Era um oásis, com casario baixo, pequeno lago, posto de gasolina e um arremedo de restaurante com placa dizendo “Hotel”. Ali, pararam para reabastecer, esticar as pernas e beber alguma coisa.
Os três amigos caminhavam distraídos pela pequena área do oásis, sob o olhar desconfiado dos poucos moradores, até que foram procurados pelo motorista Jamal, alarmado, com a má notícia de que o carro não estava “pegando”e a bateria ia arriar. Foi um desacerto. Os três colegas, ajudados por alguns moradores, empurraram o carro até cansar, e nada. Pararam um pouco, para respirar, e Felipe se afastou, instintivamente, do grupo, caminhando pela beira do pequeno lago.
De repente, ele percebeu que o Sol estava se pondo e Vênus brilhava na sua frente. Logo, ela puxou conversa e, ciumenta, deu-lhe a maior bronca com os encontros amorosos dele, falando sem parar. Chegou até a dizer que Mireja tinha celulite e que a pizza da Annunziatta estava mofada... Felipe, amuado, não sabia o que dizer.
Vendo seu embaraço, Vênus teve pena dele. Matreira, tentou consolá-lo dizendo que iria ajudá-lo com o carro. E, se escondendo atrás de uma nuvem, completou que ele poderia voltar para lá, pois o carro iria pegar. O que, de fato, aconteceu quando Felipe acionou a chave de partida, para grande surpresa de todos.
Alguns dias depois, tendo acomodado o Batalhão retirante, o navio desatracou de Port Said e aproou para o estreito de Gibraltar, cruzando-o em direção a Plymouth, no Sul da Inglaterra, onde atracou nove dias depois. Ali ficou quatro dias, recebendo material e equipamentos para o NAe“Minas Gerais”, em Rotterdam.
Nessa parada em Plymouth, foi possível assistir aos frenéticos preparativos da Marinha Inglesa visando à retomada do Canal de Suez, planejada para ocorrer junto com forças navais francesas, no menor tempo possível. Contudo, nada aconteceu devido à interferência da Rússia, enviando uma força naval para Alexandria, em apoio aos egípcios. E o célebre e caro Canal de Suez está em mãos dos descendentes dos faraós até hoje.
O tenente Felipe tinha, também, uma jovem inglesinha, chamada Wendy, esperando por ele em Plymouth. Ela fora avisada de sua chegada por uma carta gentil e perfumada, que ele, muito organizado, lhe enviara de Nápoles. O encontro foi em um belo jardim, ao longo do canal de acesso ao porto, chamado de “The Sailor’s Land”, com muitos esconderijos bem vigiados pela polícia, para que os amantes não fossem perturbados nos seus doces afãs. Para tanto, Wendy, uma lourinha “mignon” e afogueada, providenciou um kit completo de piquenique, incluindo uma pequena barraca de lona, sob a qual o casal matou todas as saudades.
O navio deixou o porto dois dias depois e, ao sair pelo canal, Felipe e alguns colegas e praças foram surpreendidos por Wendy e outras namoradas, tocando tambor e corneta na margem e acenando em despedida da “ Terra Dos Marinheiros”.
A permanência em Rotterdam foi a suficiente e necessária para desembarcar os tripulantes e descarregar o material e equipamentos do NAe“Minas Gerais”. De lá, o NTrT, sem mais escalas, cruzou o Atlântico em direção a Recife, onde chegou doze dias depois.
Nessa “pernada”, eles enfrentaram alguns dias de mau tempo, sem avistar estrelas. Mesmo assim, nas poucas madrugadas com céu limpo, Felipe e Vênus tiveram bastante tempo para conversar, com crescente intimidade e alegria. Ela, como sempre, reclamou da namorada da vez, dizendo ser uma “tampinha”, que “não tomava banho” como é “hábito das inglesas” e “comprovado pela inexistência de banheiro na barraca!?”.
A próxima parada do navio foi no Rio de Janeiro, por poucos dias. De lá, ele se movimentou para Porto Alegre, com o objetivo de desembarcar a tropa do Exército, pois aquele “Batalhão Suez” era todo integrado por “gaúchos”, fora de casa havia mais de um ano.
A recepção a seus “heróis” foi uma apoteose indescritível. O Governo do Estado e a Prefeitura de Porto Alegre decretaram feriado. Era uma bela manhã de outono. Ao se aproximar do porto, navegando na Lagoa dos Patos, o navio foi cercado por dezenas de lanchas, rebocadores, catamarãs, veleiros, jet-skis, barcos de pesca, canoas, etc... apitando, soltando foguetes, tocando tambores e cornetas. A multidão, com bandas de música, tomou conta do cais, até perder de vista.
O navio estava de pintura nova, retocada no dia anterior, com ele fundeado na Lagoa dos Patos, por algumas horas. A tripulação e a tropa formavam nos diferentes conveses, vestindo uniformes brancos e verdes impecáveis. Os mastros e vergas portavam bandeiras de sinais e no topo do mais alto drapejava o galhardete de “fim de comissão”, de acordo com centenária tradição naval.
O Governador e o Prefeito foram recebidos na “escada de portaló” pelo Almirante Comandante do 5° Distrito Naval, o Comandante do NTrT e o Coronel Comandante do “Batalhão Suez”. Uma banda de música atacou o Hino Nacional e foi de arrepiar participar daquela imensa multidão toda, cantando com uma vibração contagiante. Em seguida, a tropa desceu a prancha até o cais onde seus integrantes abraçaram as famílias, em uma cena também impactante.
A tripulação do navio, incluindo os oficiais, ainda permaneceu em formatura, de frente para o cais, assistindo aquele espetáculo. Então, começou o que foi chamada de “a caçada dos espelhos”. As moças mais próximas do navio aproveitavam o sol pelas costas deles e usavam seus espelhinhos para refleti-lo nos olhos de quem lhes interessava. Seguiram-se trocas de sinais, resultando em encontros no convés, quando foi aberta a visitação ao navio, logo depois. Daí, para um programa noturno foi um passo que muita gente deu, inclusive o tenente Felipe.
As festas duraram três dias e três noites, com Helena, uma linda gaúcha - um mulherão - morena de pele clara e cabelos negros. Foi uma explosão de vida e Felipe, desta vez, balançou. Em razão disso, no retorno do navio ao Rio, ele não fez navegação astronômica, evitando olhar para o céu e ser cobrado por Vênus.
Helena veio para o Rio, onde ficou com uma tia. Mas, passava quase todas as noites com Felipe, no apartamento dele. Isso durou algumas semanas, até que ele foi designado para embarcar em um dos dois submarinos, de origem americana, a serem recebidos pela Marinha do Brasil, em Pearl Harbour, Honolulu, no Havaí, no meio do Oceano Pacífico Norte. Seriam, no mínimo, seis meses de ausência. Helena queria ficar noiva, mas Felipe transferiu o assunto para a volta. Ele não pensava em casar tão cedo...
A viagem das tripulações dos S“Rio Grande do Sul” e S“Bahia” para o Havaí teve início por mar, a bordo de um “NtrT” brasileiro, do Rio até Nova York. De lá, voaram para São Francisco da Califórnia, onde ficaram em uma Base Naval, em treinamento para a operação dos novos submarinos. Na escassa bagagem de Felipe, havia dois pares de raquetes de “frescobol” e várias bolas. Era a grande novidade em Ipanema, onde ele morava...
“I Left my Heart in San Francisco”... Esta linda canção, premiada na voz de Tony Bennett, dominava a atmosfera na cidade, de muitas semelhanças com o Rio de Janeiro, tanto com os bondes e sua baía, com a famosa ponte Golden Gate, como a alegre “joie de vivre”. Apesar do pesado programa profissional na U.S.Navy, que se iniciava pontualmente às 08:00, houve muitas oportunidades de confraternização.
O bar do histórico “Sir Francis Drake Hotel” era o ponto de encontro dos oficiais onde Felipe sempre aparecia. Foi lá que ele conheceu Giselle, uma refinada francesa, fã da “Nouvelle Vague”. Ela era apaixonada por filmes brasileiros desde que assistira “O Pagador de Promessas”, Palma de Ouro, em Cannes, e “Deus e o Diabo na Terra do Sol” de Glauber Rocha, do “Cinema Novo”, em outro ano daquele famoso Festival.
Como a delicada Giselle morava em um “flat”próximo, Felipe, praticamente, se mudou para lá. Além disso, ela possuía um carro confortável, no qual o casal circulou pelos muitos pontos turísticos da cidade e áreas próximas, incluindo a famosa e bela região de Carmel. Foram muitas as boas lembranças desse doce período na memória do nosso tenente. Mas, a mais forte delas era o perfume Nº5 Chanel, dos lençóis da querida francesinha.
A praia de Waikiki, a mais badalada de Honolulu, leva um banho da nossa Ipanema. Ela tem ao final um morrinho achatado, com o pomposo nome de Diamond Head. Nada se compara à visão dos Dois Irmãos, aplaudidos ao pôr do Sol. Mesmo assim, os tripulantes brasileiros estavam muito motivados ao chegarem a esse ícone da propaganda turística americana.
A Base de Submarinos americana fica na Baía de Pearl Harbour, a cerca de vinte quilômetros do centro de Honolulu. É nela, também, que está o Comando da Esquadra do Pacífico, que foi atacada, de surpresa, pelos japoneses, na 2ª Guerra Mundial, em dezembro de 1942. Os futuros S“Rio Grande do Sul” e S“Bahia” estavam lá, esperando os brasileiros.
Os oficiais dos navios alugaram moradia na cidade e compraram carros usados baratos. Os praças ficaram morando a bordo, na sua maioria. Os tenentes Felipe e Geraldo foram morar juntos em um dos chalés do Moana Hotel, na primeira paralela à praia de Waikiki. Dessa forma, eles iam e voltavam, diariamente, para os submarinos. E aproveitavam os fins de semana para irem à praia bem perto.
A atividade a bordo era intensa e, já na terceira semana, os dois submarinos começaram a sair para o mar, ainda com tripulação americana, mergulhando em exercícios cada vez mais complexos. Em mais algumas semanas, os americanos desembarcaram e os Ss foram recebidos pela Marinha Brasileira, em cerimônia festiva. Houve, ainda, um período adicional em que os submarinos se exercitaram em lançamentos de torpedos. Finalmente, foram submetidos a uma inspeção operativa pelo Comando da Força de Submarinos americana, da qual saíram aprovados com excelente capacidade de combate. Estavam prontos para aproar em direção ao Brasil.
O S12 "Bahia" (imagem Marinha do Brasil)

Durante todo esse período, Felipe e Geraldo aproveitaram o pouco tempo que lhes sobrava para conhecer e se fazer conhecidos. Assim é que, no primeiro domingo, inauguraram o frescobol brasileiro na praia de Waikiki, em um evento histórico no arquipélago do Havaí. Foi um “desbunde”, como então se dizia. Juntava gente para ver e pedir para experimentar. As quatro raquetes que Felipe trouxera “trabalhavam” o tempo todo. Até quando apareceram as primeiras imitações, depois que um gringo soubera que elas não eram patenteadas e passou a vender cópias na praia.
As contrapartidas dessa célebre invenção brasileira deveriam ser as pranchas de “surf” havaianas. Entretanto, a tentativa não deu muito certo porque a praia de Waikiki era de arrebentação muito fraca e a ida a praias melhores levaria muito tempo. Além disso, a segunda e mais decisiva razão era o grande tamanho e peso das sólidas pranchas. Seria necessário um havaiano marombado para encarar...
Os dois tenentes também jogavam tênis e foi na quadra do hotel que conheceram Anne e Cynthia, uma americana e a outra canadense. Ambas, no início de seus trinta anos, eram gerentes em um “shopping” próximo e ocupavam um apartamento duplo em andar alto do edifício do Moana Hotel. Além disso, tinham um carro bem mais novo que o deles.
Anne, uma morena esbelta, “ficou” com Felipe e a loura Cynthia com Geraldo. Depois de algumas refeições em restaurantes, resolveram que elas preparariam a comida em casa e eles comprariam o material. Deu muito certo porque, durante as semanas, eles almoçavam a bordo e elas no emprego. Além disso, o apartamento delas abrigava bem os dois casais. Mesmo assim, de vez em quando, uma delas passava a noite com o parceiro no chalé, para se “soltarem mais”, o que era decidido na “porrinha”, em uma grande brincadeira.
Dentro desse esquema, nos fins de semana, eles faziam turismo nas ilhas do arquipélago ou iam dançar na “noite” havaiana. Também acontecia trazerem colegas dos navios para se divertirem no apartamento, onde conheciam amigas delas. Até os Comandantes dos submarinos vieram e gostaram muito...
A despedida, ao final de quase três meses, foi muito sentida por todos. O cais ficou cheio de namoradas dos brasileiros, oficiais e praças, incluindo várias crianças. Anne e Cynthia também estavam lá, chorosas. E uma delas segurava as chaves do carro deles que não fora vendido, apesar de várias tentativas. Ficou de presente...
Na primeira madrugada em alto mar, na vastidão do Pacífico, Felipe encontrou-se com uma Vênus ansiosa pelo grande período que não tinham se falado. Ela sabia de tudo, desde a “desenxabida” francesinha em São Francisco até a “mandona” americana em Honolulu. Mesmo assim, as conversas deles eram variadas e carinhosas, com um doce tom de pertencimento.
Além disso, sendo o mês de outubro, o Pacífico estava com vários furacões espalhados. Assim, era fundamental que os dois submarinos, navegando juntos, na superfície, rumo ao Canal do Panamá, procurassem evitá-los. Para tanto, Felipe recebia, de estações terrestres, informações sobre eles por telégrafo Morse. Além disso, ele era ajudado por Vênus nessa tarefa, a partir de sua situação como observadora privilegiada. Esses dados meteorológicos eram lançados nas cartas náuticas para decisões dos Comandantes. Felizmente, a dupla dos valorosos submarinos brasileiros teve a sorte de não ter de encarar um monstro daqueles.
Após cruzarem o Canal do Panamá, os dois Ss contornaram a costa norte da América do Sul e desceram em direção ao Sul, percorrendo a costa brasileira, sem olhar as estrelas, até o Rio de Janeiro, onde atracaram na BACS “Base Almirante Castro e Silva”, da nossa ForS - “Força de Submarinos”.
Foi uma ocasião de grande alegria para todos os presentes, em especial os familiares. O Tenente Felipe, por não ter parentes no Rio, ficou a bordo, com o “quarto de serviço”. Foi uma pena porque tinha sido recebido, com muito carinho, por uma antiga namorada. Era uma surpresa da Maria das Graças, ou melhor, a “Gracinha”, que estava muito linda, em um belo vestido branco, contrastando com sua pele morena. Além disso, era dela o mais bonito bikini da praia! Teriam que esperar até o dia seguinte...
O tenente Felipe fez várias viagens no S“Rio Grande do Sul”, indo a portos brasileiros. Promovido a um posto acima, “desembarcou” um ano depois, para “servir em terra”, pela primeira vez em uma função burocrática, após nove anos de embarque.  
Tudo mudou, completamente, quando conheceu a mulher de sua vida, com quem se casou e que lhe deu quatro filhos. Ele percorreu todas as etapas e labirintos profissionais; empenhou-se, com sucesso, nos diversos cursos que fez; colocou sua alma nos três comandos, de navios e de Força Naval, com que foi agraciado. Por mérito, teve várias comissões no estrangeiro, viajou mais ainda pelo mundo...
Enquanto isso ocorria, as tecnologias evoluíam dos sistemas eletromecânicos para os digitais. As comunicações se tornaram instantâneas. A navegação nos mares e nos ares passou a depender de sistemas de localização baseados em satélites. Até para dirigir um carro, hoje, o homem se guia por eles. Isto é um escândalo! Os marinheiros não estão mais olhando para os céus!!!...  
Apareceu a internet, virando a vida de ponta-cabeça, encolhendo o mundo para o quintal de nossas casas. A violência passou a entrar pelas janelas, sem pedir licença e é servida, diariamente, ao vivo e a cores, em qualquer lugar, vinda de qualquer parte, com detalhes mórbidos do sofrimento humano.
Transferido para a reserva, o Almirante Felipe teve a sorte de poder se dedicar ao Clube Naval, em diferentes setores, o que faz até hoje. Na vida civil, atuou em diferentes atividades, viveu e conviveu com inúmeras pessoas, amigos, indiferentes e até inimigos. Experimentou indevidos amores e desamores...
Um dos hábitos que Felipe manteve foi a prática de leves atividades físicas, essenciais para seu bem-estar. Dentre elas, deu prioridade a longas caminhadas no calçadão de Copacabana, próximo ao local onde nasceu, em uma casa a beiramar, quando o único prédio significativo era o Copacabana Palace.
Nesse caminhar, o Comandante Felipe fica acompanhando a entrada e saída dos navios pela barra da Guanabara. E, instintivamente, faz os cálculos de aproximação deles, como se estivesse efetivando um ataque torpédico através do periscópio de seu submarino. Às vezes com sucesso...
O melhor ainda ocorreu em uma caminhada ao pôr do sol, na direção do Arpoador, com o céu absolutamente límpido. Súbito, o Tenente Felipe deu de cara com a querida amiga Vênus, piscando para chamar sua atenção. Com grande alegria, restabeleceram as conversas há muito interrompidas. Os assuntos são os mais variados, desde a ciumeira com a vida de solteiro dele, passando pelo casamento, a mulher e os filhos, até suas atividades atuais. Agora, por incrível que pareça, estão discutindo até política, apesar de apoiarem o mesmo partido...
O mais importante dessas conversas foi o convite que Vênus fez a Felipe para que, quando tudo terminar por aqui, em breve, ela o estará esperando, a fim de continuá-las pessoalmente...


19/11/2017

A Lei do Qarma e a Justiça Divina

Katsushika Hokusai - O demônio do tufão

Antonio Rocha
Geralmente se escreve em sânscrito Karma, ou em português Carma, o termo já está dicionarizado. Também já vi e li, em textos budistas de línguas asiáticas Qarma. Significa “ação e reação”, considerando uma Lei da Física: “toda ação corresponde a uma reação”. E o nosso editor, por ser engenheiro, tem condições para explicar melhor a parte científica da citada Lei. Uns chamam de Lei do Retorno, alguns exemplificam como um bumerangue dos indígenas australianos que vai e volta. Enfim, são vários sinônimos.
Por que vai e volta? Budisticamente costumo explicar que é uma variante da Lei da Gravidade, que rege o Cosmo. Nós temos em nosso interior, partículas do elemento Terra e assim, tudo que sai desta Terra, volta a esta Terra por força da Lei da Gravidade.
Alguns ponderam:
“Não sou budista, portanto não estou sujeito a esta Lei.”
 Ou então:
“Minha religião é outra e eu tenho o perdão do meu Deus”.
Teologicamente, você será sempre perdoado, mas precisará, matematicamente, pagar o que deve. Claro, existem possibilidades de ir aos poucos sanando esta dívida, uma delas é a generosidade, caridade desinteressada e afins.
Respeito todas as religiões, filosofias e ausência delas. A Lei em questão é parte da Ciência e como tal deve ser abordada. Tipo, se estou aqui neste mundo, preciso seguir, respeitar e mesmo que discorde, aceitar algumas Leis, caso contrário vou me prejudicar.
A história que se segue é verdadeira. Estou resumindo a partir do ótimo livro que citei aqui outro dia: “A Arte da Empatia – A Consideração ao Próximo”, do escritor budista japonês Koichi Kimura.
Ao estudarmos Geografia ficamos sabendo que o Mar do Japão é sujeito a frequentes maremotos, tufões, ciclones, tsunamis e assemelhados.
Em 16 de setembro de 1890 uma fragata turca naufragou sob um “tufão próximo à Ilha de Oshima, ondas colossais” lançaram ao mar “cerca de seiscentos tripulantes”. Apenas sessenta e nove conseguiram chegar à praia, onde havia um Farol. O humilde faroleiro não falava língua estrangeira, nem os sobreviventes, mas o japonês tratou de avisar na pequenina aldeia e os moradores abrigaram os turcos em suas casas, deram-lhes roupas, comida e aquecimento para salvar os corpos gelados.
Oshima era um lugarejo muito pequeno, uma ilha isolada no arquipélago japonês, pouco mais de cem casas, cem famílias. E todos fizeram o que podiam para salvar os turcos, um não falava a língua do outro, mas o instinto de amizade, compaixão e humanidade ajudou muito. 
Os aldeões avisaram à cidade mais próxima, Kobe, que tinha um bom hospital. Quatro dias depois chegou um navio que levou os sobreviventes para o Hospital de Kobe, deram-lhes toda assistência necessária, não cobraram um centavo. E quando todos estavam já com saúde e completamente recuperados do trauma, foram devolvidos à Turquia.
Essa história marcou profundamente a sociedade turca. Nos livros de História e Geografia daquele país, até hoje, as crianças aprendem sobre a atitude generosa dos japoneses, a compaixão desinteressada etc.
O tempo corre...
Em 17 de março de 1985, durante a Guerra Irã-Iraque, o ditador Saddam Hussein (1937-2006) do Iraque resolveu bombardear a capital iraniana Teerã. O conflito teve início em 1980, quando Saddam invadiu o país vizinho e terminou em 1988.
Hussein decretou, na data acima, que todos os estrangeiros deixassem o Irâ em quarenta e oito horas, pois a partir daí seriam considerados inimigos e o espaço aéreo de Teerã seria fechado, qualquer avião que tentasse levantar voo ou sobrevoasse a cidade seria derrubado.
Na ocasião, quinhentos japoneses trabalhavam no Irã ou estavam passeando, visitando, fazendo turismo. A metade conseguiu urgente vagas em voos internacionais. A outra metade ficou encurralada no Aeroporto de Teerã.
Nenhum avião estrangeiro podia chegar ao Irã, só sair, só levantar vôo. O governo japonês não tinha como ajudar os seus compatriotas.
Então, algo inexplicável aconteceu. Faltando poucas horas para encerrar o prazo “uma aeronave turca cortou os céus do Irã e resgatou os perplexos japoneses”.
O governo turco entrou em contato com as autoridades do Iraque e conseguiu libertar os desesperados nipônicos, todos chegaram são e salvos a Tóquio.
Isso é um exemplo de bom Qarma. Isso é Empatia.
Quase um século depois, mais precisamente noventa e cinco anos após o naufrágio do Ertugrul, o nome do navio turco; o Japão recebeu de volta, feliz, os seus filhos que muitos já haviam dado como possíveis mortos na citada guerra.


17/11/2017

Philomena

imagem do trailer do filme


Moacir Pimentel
Se você perguntar a uma boa cozinheira por que algumas receitas dão certo enquanto que outras com os mesmos ingredientes desandam, ela lhe dirá que é a qualidade dos ingredientes que faz a diferença. E assim é com a “Philomena” do diretor Stephen Frears, um filme cuja receita cinematográfica é problemática na melhor das hipóteses. Pois trata-se de uma história trágica – tirada da real! - envolvendo a Igreja Católica - nada menos! - transformada em um roteiro denso durante o qual a gente dá grandes risadas.
Vamos combinar?
Uma mistura sui generis dessas só pode flertar com o perigo - mesmo o suicídio! - mas acontece que “Philomena” funciona, graças à qualidade de seus ingredientes, especialmente às performances sensíveis e matizadas de seus dois protagonistas, Judi Dench e Steve Coogan.
Para quem ainda não a conhece tenho o prazer de apresentar Judi Dench que, aos oitenta e dois anos, é a grande dama do teatro e do cinema inglês. Na foto que inaugura o post ela está personificando a Philomena, uma senhorinha irlandesa cuja vida foi narrada no livro “O Filho Perdido de Philomena Lee” da lavra do jornalista inglês Martin Sixsmith.
Em 2013 o relato foi transformado no filme, a partir de um roteiro adaptado - não por acaso! - pelo ator Steve Coogan, que na telona também interpretou o Martin, o segundo personagem mais importante dessa história que fez muito sucesso e foi indicada para vários Oscars inclusive os de melhor filme, atriz e roteiro.
O filme conta, portanto, uma história verdadeira, permeada de justa indignação contra uma grande crueldade e injustiça que, pervertidamente, se instalou no coração da Igreja Católica irlandesa. Judi Dench interpreta a devota e idosa e completamente adorável heroína, sempre metida em calças compridas confortáveis e casacões acolchoados e cachecóis bem comportados, com um calor que brilha como uma luz convidativa em uma noite de inverno enevoada.
Mas há uma espinha dorsal de aço sob o comportamento doce e o exterior aconchegante dessa Philomena e uma grande generosidade de espírito que vão se revelando calmamente entre as descobertas e revelações tão inesperadas quanto chocantes desse filme que, apesar de narrar sua vida sofrida, também nos fala das suas fé e esperança que sobreviveram a enormes desafios.
Só que trata-se de uma história com tantas crueldades e reviravoltas, que à vezes é difícil acreditar que seja baseada em uma história real. Acontece que é.
E bem assim, é um soco emocional, um drama poderoso cujas simplicidade enganosa e força insuspeitada são contadas principalmente, através da combinação perfeita das performances estelares dos atores que representam Philomena e Martin, do sabor das nuances sutis e dos diálogos deliciosos desses dois personagens.
No centro do drama mora o jornalista Martin que Philomena apresenta como “Martin Sixsmith, do Jornal das 10” enquanto ele, pacientemente, segue explicando que não, que na verdade jamais fora um âncora da BBC, mas que trabalhara para a gigante sim, dirigindo seus escritórios em Moscou e Washington. Entretanto, nesse enredo quem brilha mais é a simpaticíssima Philomena Lee na sua batalha para descobrir o que acontecera com o seu filho Anthony que, aos três anos de idade, fora colocado no banco traseiro de um luxuoso Rolls Royce preto por um casal bem vestido que, com certeza, pareciam primos legítimos da Bonnie e do Clyde.
“Em meus sonhos, aquele momento ainda volta para mim tantas vezes”, nos diz Philomena. “Da janela do último andar da Abadia eu o vejo lá com um aviãozinho nas mãos, o pequeno rosto assustado, olhando através do para-brisas traseiro. E então eu choro”.
Ninguém naquele convento irlandês se dera ao trabalho de explicar à desnorteada Philomena para onde o seu pequeno Anthony estava sendo levado. E ela passou a vida inteira querendo saber o que acontecera com o seu menino. Ele estava vivo? Tinha uma boa vida? Terminara os estudos? Ele alguma vez pensara nela?
As freiras disseram-lhe apenas que, como filho de uma mãe solteira o garoto seria para sempre ostracizado e que, em vez, sendo adotado, ele se livraria do estigma do “pecado materno” e teria uma chance real de construir uma vida decente.
Apesar da vida da protagonista ter sido verdadeiramente angustiante, a primeira coisa que a gente percebe é que essa senhora não guardou qualquer ponta de rancor contra seus algozes. Eu gostaria de poder dizer que também teria a mesma grandeza necessária para perdoar a canalha, mas duvido muito que tivesse. E isso é o que faz com que história dessa mulher valha a pena ser contada.
Para entender como Philomena emergiu graciosa em vez de hostil e vingativa das crueldades que suportou, primeiro é preciso entender de onde ela veio. Essa quarta filha entre os seis rebentos de uma dona de casa e de um açougueiro sofreu sua primeira perda aos seis anos, quando sua mãe morreu de tuberculose.
Incapaz de lidar com a situação, o viúvo internou Philomena e suas duas irmãs em um convento, mantendo apenas os três filhos homens em casa para ajudá-lo na lida. As garotinhas voltavam para casa apenas uma vez por ano, mas Philomena nunca se vitimizou por nada disso:
“Pelo menos nós tínhamos um pai. Se você fosse ilegítimo naqueles dias, bem, que Deus o ajudasse”.
As três irmãs permaneceram no convento e longe dos fatos da vida  até completar os estudos. Aos dezoitos anos e já morando com uma tia materna, num domingo festivo no parque do condado Philomena foi presenteada por um rapaz desconhecido primeiro com uma maçã caramelada e, em seguida, com um bebê no forno.
Como naqueles tempos escuros era uma vergonha insuportável se ter uma filha ou irmã solta na vida, quando sua gravidez tornou-se óbvia o pai primeiro a renegou, depois jurou de pés juntos para familiares, amigos e vizinhos que a moça morrera e finalmente despachou-a para a Abadia das Irmãs do Sagrado Coração, em Roscrea, no condado de Tipperary, um lugar para as decaídas mães solteiras e/ou para as vítimas de estupro e/ou para aquelas cujo único crime era serem bonitas e portanto credenciadas para futuros pecados da carne, na opinião da tchurma de coração sagrado mas sem piedade.
Após dar à luz seu filho Philomena foi forçada a trabalhar sete dias por semana por anos a fio sem receber salário na lavanderia da Abadia - que mais parecia uma sauna! - tendo permissão para estar com o filho durante apenas uma hora diária até que levaram-no embora.
Enquanto durou esse calvário a Madre Superiora ameaçara Philomena com a condenação eterna no fogo do inferno caso ela falasse da existência do bebê a quem quer que fosse. Aterrorizada, ela calara-se por mais de meio século, convencida, na alma funda, de ter cometido o pior dos pecados.
É particularmente chocante a capacidade doentia que algumas das religiosas do filme compartilham de ver as mães solteiras adolescentes sob sua responsabilidade quase como criaturas sub-humanas e, portanto, fora do domínio da consideração e da caridade, em uma distorção épica do cristianismo.
Mas, de saída, fica-se intrigado mesmo é com a ênfase dada pelas freiras à necessidade de silêncio e segredo e com as brutais leis de adoção da Irlanda que impediam qualquer tentativa de se rastrear um filho adotivo após o fato consumado. E, a essa altura do post, é preciso abrir um parêntese para a contextualização.
Acontece que Philomena foi apenas uma das centenas de milhares jovens irlandesas enviadas para tais conventos, mais notadamente nas décadas de 50 e 60, porque suas ignorantes famílias haviam sido doutrinadas e convencidas pelos credíveis padres e madres daquelas paragens de que mães solteiras eram degenerações morais que não podiam ter permissão para permanecer em sociedade.
Nesse clima de histeria sexual, praticamente qualquer jovem podia se tornar, como aconteceu com Philomena, uma prisioneira dos conventos irlandeses. Não apenas por conceber uma criança fora do casamento, mas pela suspeita de que poderia vir a ter relações sexuais com o namoradinho ou, muitas vezes, pelo simples fato de ser uma órfã indefesa, fato que já era uma robusta evidência de que uma garota estava em perigo moral e precisando de um bom “resgate” católico. O desejo de “resgatar” as mulheres caídas parece ter sido o passatempo favorito de todo o Reino Unido no século passado.
Sim, porque convém lembrar que tais instituições não foram inteiramente um produto do catolicismo irlandês. Elas evoluíram de um coquetel vitoriano peculiarmente inglês de ativismo moral e hipocrisia sexual. Também prosperaram estabelecimentos similares na Inglaterra e na Escócia.
E em todos eles era inquestionável a certeza de que as jovens eram as únicas responsáveis por suas próprias “quedas”. Se eram sexualmente ativas, suas artimanhas malévolas prejudicavam os coitados dos homens indefesos. Se não sabiam nada sobre sexo, sua inocência sedutora era uma tentação à qual os bons homens de sangue quente não poderiam resistir. Se tinham feito sexo consensual ou sido vítimas de abuso – tanto fazia! - eram um perigo para elas mesmas e para os outros. A culpa era delas, sempre delas, simples assim.
Os conventos e as suas lavanderias foram, portanto, locais de despejo muito convenientes para novas escravas abusadas e/ou estupradas por seus pais, mestres, sacerdotes e familiares ou engravidadas por seus amores. Uma vez dentro das quatro paredes de um convento, as mulheres eram silenciadas com uma dieta implacável de culpa religiosa e toneladas de roupa suja para lavar e muitas aceitaram a sua sina e, para melhorar de vida, tornaram-se religiosas. Ou seja, também as freiras foram vítimas de um sistema repressivo e o filme, de fato, nos mostra muito bem como pessoas reprimidas acabam reprimindo outras.
Para desgraça das garotas irlandesas, o vírus da moral vitoriana pervertera uma instituição cujo poder se manteve em ascensão durante a maior parte do século XX. A Igreja Católica, que havia sido um dos símbolos da identidade nacional irlandesa, fora perseguida e escanteada por tempo demais. Então, quando o país tornou-se independente em 1920, a Igreja voltou a ocupar sua posição pretérita, só que dessa feita tornou-se um poder quase inatacável. E os sucessivos governos irlandeses aceitaram bovinamente a noção louca de pedra de que tudo aquilo que tivesse a ver a com a moral, o sexo e a família era essencialmente da alçada da Igreja.
Era tamanho o poder da Igreja Católica e do então todo poderoso arcebispo John Charles McQuaid, que o Estado irlandês se curvou diante de suas exigências, cedendo a tutela das “indecentes” mães adolescentes e de seus filhos “bastardos” às freiras e, o que pior, pagando-lhes regiamente para cuidar das suas próprias vítimas. Infelizmente para a Igreja Católica as mães solteiras e suas crianças não eram uma questão moral ou um problema social mas sim um negócio muito rentável.
Após dar à luz, as meninas só eram autorizadas a sair do convento se suas famílias pudessem ressarcir as freiras pelas despesas do parto, pagando-lhes cem libras. Essa era uma soma substancial e as garotas que não a tinham - a grande maioria! - eram mantidas no convento, trabalhando em cozinhas, estufas e lavanderias ou fazendo rosários ou pintando santinhos de gesso e outras quinquilharias religiosas, enquanto a Igreja se apropriava dos lucros do seu trabalho escravo.
Mais cruel do que tal escravidão, porém, era o fato dessas mães terem que amamentar e cuidar de seus filhos, desenvolvendo vínculos maternos, amor e carinho que seriam despedaçados no final de suas sentenças.
Sim, porque como todas as outras meninas grávidas, Philomena Lee foi convencida a assinar um documento no qual renunciava a qualquer direito sobre o filho, entregando-o aos cuidados da Irmã Bárbara, a Madre Superiora da Abadia e se comprometendo a “nunca tentar ver, interferir ou fazer qualquer reivindicação quanto à criança, no futuro”.
imagem do filme

“Nenhuma de nós queria dar nossos bebês, nenhuma de nós. Mas o que mais poderíamos fazer? As irmãs diziam que tínhamos que assinar os documentos”.
O objetivo desses papéis, é claro, era disponibilizar os miúdos para a adoção por qualquer pessoa que a Igreja considerasse adequada, dentro ou fora do país, sem o conhecimento das mães.
A alta hierarquia católica irlandesa havia se corrompido e envolvido no que equivalia a um comércio ilícito de bebês e por décadas considerou que as milhares de almas nascidas sob seus cuidados eram propriedade da Igreja.
Sem a anuência das mães adolescentes, os bebês eram vendidos ao melhor pagador. Até mesmo a bela atriz americana Jane Russell, que não podia ter filhos – quem se lembra dela no filme Os Homens Preferem as Louras? - tornara-se uma cliente vip das freiras e feliz compradora com direito a ter sua foto em lugar de destaque no salão de visitas da Abadia, por ter adotado um bebê irlandês de quinze meses de nome Thomas Waterfield, em 1952.
Como ele e o bebê de Philomena milhares de crianças foram levadas da Irlanda por casais – notadamente americanos! - que faziam caridosas “doações” às freiras cujo valor médio era de mil libras. A adequação dos casais adotantes era um detalhe periférico e a única condição estabelecida pelo arcebispo McQuaid era que deveriam ser católicos praticantes.
O filme “Philomena” trata, portanto, de um dos crimes mais vergonhosos já cometidos dentro da Igreja, um negócio que cheirava a enxofre, diabolicamente concebido e executado pela Santa Madre Igreja Católica com espantosos requintes de hipocrisia e crueldade por mais de trinta anos.
Quando os rumores dessas práticas tenebrosas começaram a surgir décadas depois, grande parte da documentação incriminadora desapareceu em circunstâncias inexplicáveis e até hoje a Igreja protege ferozmente os seus arquivos de adoção e as freiras anciãs que participaram das barbaridades.
Não, não pense você que estou conversando só de rumores. As altas taxas de mortalidade infantil e de mães registradas nesses conventos ao longo do século passado, bem como suas práticas estranhas de enterro, processos de adoção e tratamentos de vacinação experimental vem sendo investigadas desde que o escândalo explodiu.
Na década de 90, um antigo convento de nome High Park, no norte de Dublin, de propriedade das Irmãs da Ordem de Nossa Senhora da Caridade, vendeu parte dos terrenos que o circundavam por um milhão de libras para uma grande construtora que lá construiu um conjunto habitacional.
Sucede que, quando as escavações para as fundações começaram, foram encontrados os corpos de cento e trinta e três “mulheres caídas” que depois de terem sido enterradas vivas na lavanderia do convento, foram enterradas mortas clandestinamente e, por fim, tiveram seus túmulos vendidos. Mesmo na morte, elas não estavam a salvo de mais insultos.
As venda e descoberta dos túmulos clandestinos das moças de Dublin acabaram por ser o rastilho de pólvora e o início de um doloroso processo investigativo. A brutalidade do que aconteceu chamou a atenção do mundo para uma história que a maioria dos irlandeses desconhecia e foi o despertar para uma realidade que muitos gostariam de esquecer. O prezado público percebeu então o significado de uma palavra que parecia não ter significado real na história irlandesa recente: escravidão.
Por mais extraordinário que possa parecer, as garotas irlandesas foram prisioneiras dos conventos e, de fato, escravas brancas das “Lavanderias das Madalenas”, obrigadas a trabalhar sem remuneração mesmo que não tivessem cometido qualquer crime.
E tais descobertas assustadoras continuam a ser feitas até hoje. Em março de 2017, em uma vala comum que já servira inclusive de fossa séptica para um outro convento irlandês de nome Bon Secours Mother and Baby Home, em Tuam, no condado de Galway, engenheiros encontraram os restos mortais de oitocentas crianças, todas com idades entre trinta e cinco semanas fetais e três anos, enterrados clandestinamente desde a década de 50, em uma inimaginável estrutura subterrânea dividida em vinte câmaras das quais dezessete haviam servido para essa eliminação chocante de restos humanos.
Um outro filme de nome “Em Nome de Deus” – The Magdalene Sisters, no original - e vários documentários já haviam feito denúncias ferozes das “lavanderias” irlandesas antes do advento do filme “Philomena”, forçando os príncipes da Igreja a pedir desculpas públicas às mais de quinhentas mil mães solteiras que penaram nas mãos gananciosas de padres e freiras, sendo oprimidas sexualmente, convencidas da imensidão do seu pecado, doutrinadas a pagar por ele com o sofrimento e a escravidão e pressionadas a entregar seus “filhos do pecado” para adoção por casais decentes.
Essas adoções criminosas atingiram seu pico no ano de 1968, quando mais de dezesseis mil bebês irlandeses nascidos de mães solteiras foram entregues a novas famílias. Porém a derradeira lavanderia irlandesa operada por escravas brancas só foi fechada em 1996.
Participaram desse lucrativo balcão de negócios de crianças, além da Igreja, Agências de Adoção estatais e privadas, o Exército da Salvação e o Governo da Irlanda que pagava aos religiosos pelo sustento das escravas e de seus rebentos, incluídos os partos extremamente dolorosos sem o benefício da presença de um médico e/ou do alívio de anestesia e/ou analgésicos, uma dieta espartana, surras de vara por qualquer indisciplina e muitas cabeleiras raspadas - e vendidas, é claro, para peruqueiros - quando de “faltas graves”, como tentar fugir do inferno.
As mulheres que conseguiram sobreviver aos maus tratos e superar as vergonhas e culpas com as quais lhes aleijaram as mentes e almas vieram a público explicar que as adoções de seus bebês foram decisões tomadas à sua revelia. As garotas se conformavam por acreditar que tinham cometido o pecado supremo e que o sofrimento e o castigo de uma vida era a única forma possível de expiá-lo. Diferentemente do que se dizia aos filhos adotados, elas não os abandonaram, simplesmente não tiveram escolha. Ainda hoje milhares de mães e filhos separados precisam fechar suas próprias histórias com um epílogo e um ponto final definitivo.
Decerto que tais práticas criminosas da Igreja e do Estado irlandês, refletiram a mentalidade de uma época mas, acima de tudo, a mais absoluta falta de humanidade. O drama de Philomena era um enredo comum na Irlanda pós-guerra e, sendo assim, o pequeno Anthony de cabelos escuros e os olhos azuis da mãe aos três anos de idade não fugiu à regra. De longe e através de grades, soluçando e desamparada, Philomena nada pôde fazer para impedir que seu filho e outra garotinha de nome Mary deixassem a Abadia, naquela malfadada tarde de dezembro.
“Eu gritei seu nome e não parei de chorar por duas semanas”
Para se livrarem de uma catatônica e imprestável Philomena as freiras enviaram-na para Liverpool – ela teve mais sorte do que muitas das suas colegas de infortúnio enviadas para hospícios - onde trabalhou em uma escola para meninos delinquentes, se tornou enfermeira, casou e formou família. Tudo o que lhe restara do filho era uma foto, subrepticiamente tirada e entregue a ela por uma das irmãs mais gentil.
imagem do filme

Durante cinco décadas ela guardou o segredo até mesmo do marido e dos dois filhos - Jane e Kevin - até que depois de uns copos a mais numa noite de Natal - o dia do quinquagésimo aniversário do nascimento de Anthony - ela quebrou seu voto de silêncio, confessou tudo à filha dizendo-lhe o quanto desejava abraçar o filho mais uma vez e as duas decidiram procurar a criança apesar dos impedimentos burocráticos.
Mas dessa busca falaremos em outra conversa.


15/11/2017

O livre arbítrio

Annibale Carracci - A escolha de Hércules (1596) - Museu Nacional de Capodimonte

Francisco Bendl
Percebo que o assunto religião não deixa ninguém indiferente. Notadamente os fundamentos das argumentações são sempre de caráter individual, significando não existir um pensamento único sobre a questão:
Um Deus único e não todos com o seu Deus.
Mesmo os considerados crentes ou evangélicos divergem sobre o pecado, o perdão, o castigo, o céu e o inferno. A mensagem divina, os alertas messiânicos, as previsões sobre o futuro da humanidade, a nossa fragilidade, as exigências do Criador quanto às observâncias dos Mandamentos, levam a discussões intermináveis e sem definições a contento.
Discordo do conselho popular, que alerta sermos prudentes em não discutir política ou religião. Penso justamente ao contrário, que está na conversa (civilizada, educada e respeitosa) o esclarecimento sobre vários pontos duvidosos, inacreditáveis, irreconciliáveis, de modo a se buscar algumas conclusões importantes sobre um assunto tão grave e que tem conduzido o comportamento das pessoas ou para uma espécie de alienação espiritual ou para uma atividade religiosa, que descamba à separação entre membros da própria família!
Religião jamais poderia ser um fator de ódio, distinção, separação, distanciamento, rompimento, mas o oposto.
Entretanto, essas diferentes interpretações e comportamento sobre a crença escolhida – algumas caracterizadas pelas conveniências pessoais, poder político, proibição de se pensar de outra maneira que não seja a determinada por um líder espiritual, abrangência total sobre o fiel, obrigações impossíveis de se atender, exigências absurdas de comportamento, liturgias ultrapassadas, conceitos primitivos sobre opções divinas por este ou aquele - têm levado o ser humano para labirintos e armadilhas espirituais que tolhem a sua liberdade, criatividade, manifestações espontâneas de pessoas em busca de uma vida melhor, tendo em vista o medo da punição de Deus, o inferno como destino, o castigo eterno, que as fazem abandonar seus pensamentos à procura de maiores esclarecimentos sobre o próprio Deus e religião.
Ora, professar uma religião com a obrigação de se ter “fé”, caso contrário é o castigo como decorrência é falso, não é verdadeiro, certamente mais acarreta problemas que trazer soluções.
Tenho sessenta e oito anos, experiência considerável de vida, conheci milhares de pessoas.
Tenho uma família constituída, filhos formados em profissões liberais, incluindo a minha esposa.
Residi em várias cidades brasileiras: Brasília, São Paulo, Florianópolis, Curitiba, e trabalhei em outras: Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, além de Porto Alegre, claro. Esta vivência em outras regiões, o contato com outros modos e costumes diferentes do gaúcho, enriqueceram sobremaneira minhas ideias a respeito de vários temas, afora o crescimento e evolução naturais que as faixas etárias proporcionam, caso estejamos abertos às mudanças ou aperfeiçoamentos, lógico, que alinhavaram um sujeito aberto às questões religiosas, espirituais, e aceitando todas as crenças existentes e seguidores sem qualquer restrição, sejam eles católicos, evangélicos, protestantes, judeus, islâmicos, budistas, hinduístas, espíritas, anglicanos, taoístas, monoteístas, politeístas, muito respeito às seitas afro (sincretismo), que me possibilitaram rever posicionamentos passados e adotar com muita pretensão um pensamento quanto ao nascimento e vida do ser humano.
Sobre a morte e o que vem depois dela, se é que tem alguma coisa, na razão direta que aceito qualquer manifestação espiritual relacionada à questão ou o que dizem certas religiões, afirmo que não há ninguém que saiba algo definitivo sobre existir vida após a morte ou não, apenas especulações, a meu ver. O medo, o temor, o desconhecimento, nos impelem a aceitar o que nos dizem sem maiores reflexões e questionamentos, talvez por comodidade também.
Por eu ser um rebelde nato, atrevo-me a expandir meus pensamentos sobre o ser humano – não somente a respeito de religião -, mas abordando a forma de como entendo ser o nosso início e a nossa vida. O que podemos mudar e o que é imutável; a herança genética; o fardo que já trazemos de berço; a responsabilidade paterna e o verdadeiro livre arbítrio, na minha concepção.
Se eu ajudar a esclarecer algumas dúvidas, ótimo;
Se eu contribuir para mais dúvidas, melhor;
Se eu fortalecer a fé de algumas pessoas em suas religiões de adoção, maravilhoso;
Se eu possibilitar que pensem sobre essas questões e ideias e comecem a fomentar raciocínios próprios, esse é o nosso verdadeiro destino: questionar, duvidar, pensar.
Naturalmente que eu não estou sendo original em dizer que devemos pensar, relembrando a frase de um célebre filósofo no passado.
Na verdade, quero marcar a minha existência com meus pensamentos. Se ridículos ou não pouco importa; se carentes de base ou fundamento não vem ao caso; porém não quero ser um irresponsável que diz o que pensa sem maiores cuidados, mas não quero omiti-los, imaginando que alguém irá critica-los por isto ou aquilo ou eu me amedrontar pelo que vão dizer de mim.
A intenção é demonstrar o que penso sobre um assunto tão importante e não querer mudar ou transformar este ou aquele, muito menos abalar as convicções espirituais de cada um.
Meu desejo é que as pessoas explorem as cavernas de suas mentes e pensem, raciocinem, meditem, que não tenham medo.
A inteligência por mais ampla ou mais modesta é para ser usada, atiçada, provocada. Não fosse assim e não estaríamos desfrutando de grandes invenções e descobertas, que nos trazem conforto e a prova incontestável de pensamentos extraordinários realizados em obras memoráveis.
Logo, se analisarmos o homem e a mulher individualmente serão incompletos como seres humanos.
Não há geração de vida que se origine só do homem ou da mulher, isoladamente.
A junção de um casal dá origem a outra vida.
Portanto, somente o ser humano completo - homem e mulher - tem este poder de gerar uma nova vida naturalmente.
Desta forma, os responsáveis pelo nascimento daquela criança são seus pais, mais ninguém. Em consequência, aquele novo ser irá trazer consigo uma bagagem genética herdada de seus genitores, que lhe dará forma física saudável ou deficiente, feia ou bonita, alta ou baixa, gorda ou magra, além de contribuir à elaboração de um sistema mental que se desenvolverá mediante os ensinamentos e exemplos que seus pais lhe deixarão ao longo da existência, que serão de extrema importância e implicação à formação e comportamento desta pessoa.
Isto é imutável.
Trazemos de berço a identificação com quem nos gerou, mas como foi esta geração?
Tenho para mim que Deus não tem a menor ingerência sobre a vida do ser humano ( acredito em Deus).
Caso Deus agisse na vida individual das pessoas seria discriminatório, preconceituoso, e caso somente abençoasse quem lhe dedica fervor estaria declinando da imparcialidade que o pai precisa ter, mencionado de forma extraordinária na parábola do filho pródigo, no Novo Testamento.
Simplesmente um amor devotado a quem gerou mesmo que afastado, distante.
Deus não pode interferir nas relações humanas ou nossa história seria muito diferente, a começar pelas atrocidades que cometemos contra nós mesmos. O pai jamais permitiria que seus filhos se matassem desta forma. Se fosse preciso que ele, o pai, fosse imolado para trazer paz à sua família, amém, pois foi o responsável pelo nascimento daquelas vidas, mas não exterminar com a prole porque esta não lhe saiu como queria.
Justamente neste detalhe de fundamental importância, que é a condição que o homem e a mulher possuem de gerar outro ser explico o Livre Arbítrio, no meu entendimento e interpretação sobre esta condição que temos de PODER!
Ouço muitas pessoas falarem do livre arbítrio como uma espécie de liberdade para que optem entre fazer o bem ou o mal. Das minhas atitudes benignas ou malignas irei arcar com as consequências.
Respeitosamente isto não é livre arbítrio, e discordo veementemente desta definição venha de onde vier.
Simplesmente não posso ser punido por ser torcedor do Inter e não do Grêmio, se prefiro o vermelho ao azul.
Não posso ser julgado e condenado espiritual e fisicamente se fui constituído com limites, e porque o bem e o mal fazem parte do ser humano. Os defeitos que meus genitores me impregnaram me acompanham desde o nascimento, e como fizeram com eles os seus pais e assim por diante.
Não posso e não devo me penitenciar pelos defeitos dos que me geraram (sejam físicos e/ou morais), e que terei de carregá-los pelo resto da minha vida.
Fosse como dizem as religiões sobre os tributos divinos do perdão, amor e compaixão, a vida nova trazida para esta existência estaria isenta de deformações espirituais, morais e comportamentais. Deus não permitiria o nascimento de seres humanos que se transformariam em assassinos em série, ditadores desumanos, elementos perniciosos que prejudicariam a humanidade.
O ser humano é fruto do ser humano.
O livre arbítrio está na capacidade que homem e mulher têm de gerar outra vida e se PODIAM OU NÃO GERAR OUTRO SER!
Esta é a responsabilidade do ser humano. Este é o seu livre arbítrio, haja vista que dos seus atos irresponsáveis de poder e não de comportamento, que é muito diferente. Entretanto, o ato de fazer surgir uma nova vida, caso não tivessem condições necessárias para tamanho compromisso, os pais desta criança irão acarretar como consequência da sua decisão impensada a infelicidade para esta pessoa, conforme a bagagem hereditária extremamente difícil porque seus filhos foram meras decorrências de atitudes egoístas, de seres humanos que deveriam refletir sobre os desdobramentos dos seus gestos, ocasionado que outros pagarão e sofrerão pelos nossos erros.
Desnecessário eu dizer que as condições que me refiro à reprodução da espécie - afinal de contas não somos bichos, apesar de agirmos assim muitas vezes - não estão vinculadas tão somente ao aspecto econômico, mas igualmente moral, afora suportes extras à criação de filhos que exigirão dos pais a consciência que a vida não mais lhes pertencem, ela agora precisa ser canalizada à educação, ao sustento, à presença, ao amor, à dedicação, ao aprendizado, mas, principalmente, aos exemplos, que servirão como base à formação da personalidade e caráter dos filhos (e mesmo com esses cuidados e dedicação plenos que alguns pais conseguem transmitir e dar a seus filhos, ainda assim se tornam adultos com sérios desvios de comportamento e se tornam execráveis à sociedade, quanto mais não existindo tais pressupostos à formação das crianças).
Lamento, mas não acredito em intervenção divina em nosso sistema de vida limitado, imperfeito, tendencioso, passional, caso contrário Deus estaria sendo simplesmente igual a outro ser humano qualquer, com preferências, escolhas e simpatias.
Ao comerem do fruto extraído da árvore do Bem e do Mal que havia lhes sido proibido pelo Criador – assim é relatado através das Escrituras -, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. Ora, simplesmente uma simbologia à relação sexual.
Seriam, então, o Bem e o Mal, os filhos gerados com e sem maiores cuidados?
Lembro que Caim matou Abel, filhos dos excomungados. Esta seria a dicotomia humana? Tanto geramos filhos bons como maus, logo, a extrema necessidade de se pensar a respeito da maternidade e paternidade?
E se Deus de fato agiu desta maneira com os primeiros humanos que fizera por que permitiu – do alto de sua onipotência, onisciência – que o início da humanidade se formasse tão errado a ponto de exterminá-la quase por completo com o Dilúvio?
E se sabia de tudo previamente por que continuou a permitir que os homens se reproduzissem mesmo após o castigo das águas não ter adiantado muito que nos comportássemos e, mais uma vez, quase nos aniquila em Sodoma e Gomorra?
Tais punições seriam tão somente acidentes de percurso, que deveríamos enfrentar pelo caminho ou para que não perdêssemos a consciência também de que, além da responsabilidade que temos de gerar vida somos também responsáveis pelas suas mortes, e que estamos à mercê de acontecimentos extra-humanos?
A proibição de não comerem daquele fruto, ou melhor, de não se relacionarem e terem filhos não seria porque Ele não nos havia feito com qualidades suficientes para esta finalidade?
Se não foi desta maneira, e simplesmente nos abandonou à própria sorte foi sadismo, pura crueldade, ainda mais que Ele sabia antecipadamente – por ser Deus – o nosso futuro!
Ou, então, escapara das suas mãos ao nos criar – talvez tenha sido proposital também -, que a ÍNDOLE do ser humano seria transmitida pelo próprio ser humano, isto é, se bondosa, forte, má, fraca, destemida, corajosa, prudente, desafiadora, inventiva, autêntica, dissimulada, confiável, desconfiada, prepotente, orgulhosa, e tantas outras formas que moldam o indivíduo.
Se Deus deixou a construção deste arcabouço moral, intelectual e físico, que é repassado aos filhos através da concepção, e que vai tomando forma de acordo com a vida que lhes foi dada, exemplos deixados e atitudes de seus genitores como modelo, e também da sociedade que os cercam no consentimento ou recusa de comportamentos bons ou ruins, torna-se muito mais correto aceitar esta possibilidade e responsabilidade que nos é atribuída que acreditar que Deus permitisse tamanha diversidade de conduta entre os humanos para lhes cobrar, lá adiante, uma conduta irrepreensível de observâncias a normas e leis por Ele determinados, cujo julgamento será fatidicamente ou céu ou inferno, mesmo que Deus nos tenha criado limitados e imperfeitos!
Não é lógico.
Desta forma sou obrigado a acreditar na ironia do americano George Carlin (mencionado no livro “Deus um delírio” de Richard Dawkins, Companhia das Letras, cap.8, pág.360) que:
“A religião convenceu mesmo as pessoas de que existe um homem invisível – que mora no céu – que observa tudo o que você faz, a cada minuto do dia. E o homem invisível tem uma lista especial com dez coisas que ele não quer que você faça. E, se você fizer algumas dessas coisas, ele tem um lugar especial, cheio de fogo e fumaça, e de tortura e de angústia, para onde vai mandá-lo, para que você sofra e queime e sufoque e grite e chore para todo o sempre, até o fim dos tempos... Mas Ele ama você!”
Definitivamente não somos a obra mais importante de Deus. Fomos a sua ultima construção. Estamos sujeitos literalmente às intempéries, ao assombroso e descomunal universo e suas leis indiscutivelmente implacáveis.
Somos passageiros de terceira classe neste planeta que sequer nos respeita, muito menos obedece (basta olharmos as travessuras que fizemos contra esta nave espacial, que é a Terra, para constatarmos que estamos acabando nós mesmos com o nosso porvir).
A maior hecatombe da história da humanidade, que foi filmada, gravada e transmitida a todos os países do mundo, os tsunamis de 2004, que mataram mais de 250.000 pessoas entre homens, mulheres e crianças, exterminou plantas e animais foi castigo?
Foi carma?
Demonstração do poder divino?
Não há registros na Bíblia de milagres em série, mas de mortes aos milhares. Manifestação da “bondade” de Deus?
Quanto aos sofrimentos humanos, Ele demonstra alguma piedade?
Impediu alguma guerra?
A Bíblia mostra que Deus era chamado inclusive de Senhor dos Exércitos e, em algumas ocasiões, ensejou a morte de milhares de pessoas que para Ele não tinham valor, mereciam esse destino.
Recentemente, milhões de vidas perdidas nas duas grandes guerras teriam sido permitidas porque Deus não as entendia como valiosas ou por que os problemas ocasionados pelos humanos devem ser resolvidos pelos humanos?
Não é por nada que volta e meia alguém escreve um livro expondo as razões pelas quais se transformou em ateu.
E são livros bem escritos, mas fracos de conteúdos.
Baseiam-se em contradições humanas e não divinas (até porque tais escritores não saberiam nada a respeito dos aspectos celestiais, aliás, ninguém sabe).
Um deles, escrito por Richard Dawkins, “Deus um delírio”, tendo em vista que seu autor é biólogo, elegeu os estudos do Darwin, “Origem das Espécies”, para explicar o surgimento da humanidade.
Não discordo.
Cientificamente o inglês provou que seus estudos eram verdadeiros sobre a nossa evolução através de uma seleção natural, tanto humanos quanto aos irracionais e vegetais. Um trabalho brilhante, um dos mais importantes da história da humanidade.
Outro sujeito que se transformou em ateu foi o jornalista inglês, Christopher Hitchens, falecido em dezembro de 2015, que escreveu “deus não é Grande”(sic), acusando as religiões como uma espécie de veneno à humanidade porque culpadas de impedirem o desenvolvimento do ser humano.
Em outras palavras, ele passa a não acreditar em Deus por culpa dos homens que usaram as religiões para fins duvidosos, perniciosos, pessoais.
Também concordo com este jornalista.
O último livro que saiu abordando esta temática ateísta foi escrito por Bart D. Ehrman, “O problema com Deus”, criticando severamente a Bíblia sobre as respostas que ela não dá ao sofrimento humano.
Apoio este enfoque.
E, se concedo a minha aceitação sobre esses pensamentos, ressalto que estão confirmando o que digo a respeito de que reside em nós, os humanos, a solução para nossos problemas!
De nada adianta eu escrever abordando contradições ou interpretações diferentes que venho a ter do que dizem as Escrituras, se eu não melhoro as relações entre meus pares, se eu não os considero, se eu não me preocupar devidamente com aqueles que fui responsável pela suas vindas a este mundo.
Então, onde a diferença?
Por que não me transformei em ateu?
Acredito na existência de Deus que deu origem ao universo mesmo que tenha sido através do Big Bang porque do nada não sai nada. Alguém extremamente poderoso deu início às partículas que foram formando aquela massa gigantesca e que explodiu dando origem a tudo que se conhece hoje, e que vem evoluindo há bilhões de anos, mas não posso aceitar esse Deus que me ensinaram ao longo do tempo.
Nesse ente mitológico que, se eu não obedecê-lo, servi-lo e amá-lo serei condenado.
Não creio neste Deus que abençoa algumas pessoas em detrimento de outras porque as primeiras rezaram com mais fervor ou lhe tiveram mais medo ou porque seguem rituais tradicionais ou porque inovaram seus métodos de culto.
Acredito em Deus pelo poder que me foi dado entender a minha insignificância diante do universo, pois, paradoxalmente, esta minha pequenez como ser humano e ser incomparavelmente menor diante da grandiosidade do cosmo e impossibilidade de dimensioná-lo, somos os únicos – pelo menos até o presente momento – a gerar vida inteligente. Seres que irão ter consciência um dia que Deus não pode se intrometer em nosso sistema de vida sob pena de desequilibrá-lo e por ser impotente para tal.
Estou cometendo uma heresia?
Explico:
Conforme reza o Novo Testamento, qual foi a forma encontrada para que o filho de Deus nascesse?
Através de Maria, uma mulher, ser humano, que teve outros filhos.
O Criador não usou do barro para construir o seu herdeiro. Deus se revela neste episódio de suma importância para o esclarecimento do nosso surgimento, o seu limite escancarado, isto é, humanos geram humanos; humanos sofrem as consequências e padecem de sofrimentos por causa daqueles que trazem para este mundo sem maiores cuidados, sem uma análise responsável de suas verdadeiras capacidades de serem pais.
O sofrimento de Cristo não foi para nos perdoar dos nossos pecados ou as igrejas não estariam mais nos ameaçando com o inferno; espiritualistas ou partidários da reencarnação não teriam mais como argumentar o nascimento por este meio que se tornaria desnecessário à nossa evolução ou carma a cumprir ou Lei da Causa e Efeito, inócua, justamente porque Jesus já o cumprira por nós.
A reencarnação seria, então, sem sentido, menos a morte, que passaria a ter um grande significado porque nos mostraria que somos causadores (nós, os humanos) de grandes tragédias, de sofrimentos inenarráveis, e Deus não tem nada com isto!
O exemplo que deixou Jesus na condição de humano, exatamente como somos, foi o de transmitir a todos que, se quisermos podemos mudar as nossas vidas através de sentimentos que beneficiem a todos os seres humanos indistintamente: bondade, solidariedade, compaixão, amor, respeito, caridade.
Posso ficar rezando indefinidamente com a maior devoção e fé em qualquer igreja, mesquita, sinagoga, templo, tenha lá o nome que tiver essas casas de oração, pedindo que Deus mate a fome de uma só pessoa, e nada vai acontecer.
No entanto, se eu não rezar, mas tomar a iniciativa de comprar um pão e oferecê-lo a quem tem fome, contemplarei a necessidade de um semelhante sem a interferência divina.
Não podemos fugir à responsabilidade sobre nós mesmos.
Não podemos mais nos esconder na falsa fragilidade que temos perante Deus. Estamos à mercê dos poderes da natureza: tufões, maremotos, terremotos, chuvas torrenciais, secas, choque de cometa sobre a Terra, essas grandes catástrofes que ceifam a vida de milhares de pessoas instantaneamente.
Contraditória e paradoxalmente, de modo a compensar esta força inimaginável, destruímos a nós mesmos através de guerras fratricidas, matamos, estupramos, abandonamos nossos filhos, deixamos nossos pais de lado, provocamos sofrimentos sem fim.
Teria razão o extraordinário Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), ao dizer que:
“Para isto vieste: para a inutilidade do nascer”?!
Precisamos considerar que nosso crescimento como seres humanos está na razão direta do bem estar que proporcionamos às pessoas, e não na medida das nossas orações e devoção a Deus. Não há mérito na crença que adotei, se eu entendo meu semelhante como um “pecador”, por ele não comungar comigo da mesma religião, e se eu ainda me distanciar dessas pessoas e desejar que sejam punidas ou pensar que serão castigadas porque hereges ou descrentes de normas ou dogmas religiosos.
Nesse aspecto, o espiritismo é um exemplo a ser seguido porque não faz distinção de quem quer lhe frequentar os centros de passes ou estudos. Simplesmente estende para quem quiser seus ensinamentos e siga quem achar que deve, mas calcado na caridade e bondade.
Seus exemplos maiores de pessoas que contribuíram para amenizar um pouco o sofrimento alheio, Chico Xavier e atualmente Divaldo Pereira Franco, podem ter seus contestadores, os que não acreditam em nada do que pregam e dizem fazer, mas são modelos de vidas dedicadas ao bem dos outros.
No caso do Divaldo, um legítimo cavalheiro, um homem educadíssimo, a sua obra a Mansão do Caminho, em Salvador, BA, que reúne três mil pessoas, aproximadamente, sob seus cuidados de sustento, educação e profissão, deveria ser premiado com o Nobel da Paz e enaltecido pela ONU, mostrado pelas igrejas e seitas existentes como o exercício da caridade em sua excelência.
E não acredito em tudo que o Divaldo diz sobre o espiritismo, porém não posso deixar de elogiá-lo e reverenciá-lo, e reconhecer a sua dedicação e abnegação com o ser humano, independentemente da sua origem e o que virá a ser posteriormente.
Isto é amor.
Aonde está a dificuldade que temos em não seguir exemplos desta natureza – existem outros –, que iriam beneficiar a nossa existência e amenizá-la de maiores sofrimentos?
No egoísmo?
Na presunção e arrogância que a corrente espiritual do Divaldo vai de encontro a outras interpretações que não consta na Bíblia?
Mesmo o Divaldo fazendo o bem ele não serve como exemplo porque não pertence à “minha” religião?
Continuamos intolerantes, então?
E frequentamos as igrejas, sinagogas, mesquitas, templos para rezarmos a Deus e pedir proteção e graças?
Não percebemos a nossa contradição e mesquinhez, desrespeito e descaso alheios, ao agirmos desta maneira?
Será que ao maltratarmos as pessoas através de nossas maledicências e menosprezo, desinteresse e falta de compaixão não estaríamos ofendendo a Deus?
Não seríamos, neste caso, INIMIGOS de Deus ao considerar nossos semelhantes como tal por esta ou outra razão qualquer?
Rezamos para quê?
Vamos às casas de oração por quê?
Para confirmarmos nossa hipocrisia?
Mil vezes alguém que estende a mão a um necessitado, do que milhares de pessoas rezando sem fazerem nada ao próximo!
A verdade é que queremos um tipo de proteção para que possamos fazer o que bem entendemos.
Buscamos religiões que nos convém ou nos mostram diferentes da maioria ou porque queremos demonstrar que somos mais fiéis ou porque sabemos mais que os outros, mas sempre com o intuito de humilhar e desprezar o próximo, e somos tão filhos de Deus quanto qualquer um!
Claro que não foi o Deus que nos trouxe ao mundo foram nossos pais, nossos legítimos responsáveis e orientadores e provedores até o fim da vida. Entretanto, se a nossa origem é uma só e não importa como aconteceu o nosso surgimento, claro que compomos a obra da criação, portanto, considerar o semelhante e ajudá-lo quando precisar é obrigação nossa, e ela se torna muito maior quando são nossos filhos.
Eis o livre arbítrio para mim, o poder de decisão que me foi dado pela metade, que se completa quando outro ser humano, a mulher (estou falando na condição de homem), compartilhar comigo do mesmo desejo de ter filhos, diante da responsabilidade deste ato, em consequência.
Desta forma sou obrigado a mencionar a frase notável de François Jacob, Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, em 1965, quando disse que:
“O ser vivo representa a execução de um plano, mas um plano que nenhuma inteligência concebeu. Ele tende para um fim, mas um fim que nenhuma vontade escolheu”
Desvirtuamo-nos de nossos maiores objetivos. Nossos valores se confundem com nossas conveniências. Nosso amor pela família está sendo substituído pelo conforto, pelos bens adquiridos ou, no caso contrário, pela extrema dificuldade de sobrevivência. Ambas as situações demonstram a falta de condições à geração de filhos, que irão sofrer e fazer sofrer outras pessoas pela nossa falta de responsabilidade e desprezo à importância que requer a paternidade e maternidade, lógico.
Muito fácil, e até ridiculamente infantil, que atribuamos ao demônio as nossas faltas, erros e omissões;
Que culpemos o diabo pelas nossas mazelas ou atitudes impensadas, violências e ofensas ao próximo ou a nós mesmos.
Pobre gente que acredita nesta simples alegoria, uma figura de contos da carochinha, mas com poderes mais sutis e eficientes para deturpar a vida das pessoas que o próprio Deus não consegue evitar! Uma excrescência religiosa, mera mistificação e vã tentativa do homem fugir à responsabilidade direta dos atos indignos que produz.
Causa-me perplexidade conversar com pessoas de boa formação cultural, dotadas de senso crítico – pelo menos aparente -, que acreditam na existência desse ser maligno, dessa estupidez inventada por pessoas espertas que se faziam e se fazem capazes de expulsá-las de corpos alheios para impressionar os demais. Nada que a psiquiatria não explique. Tolice escancarada. Uso abusivo de imagem que ainda amedronta incautos e medrosos, despreparados e primitivos espiritualmente.
Os profissionais das religiões pensam que precisam fazer crer na existência do anticristo não importando a forma que adotam, desde que eficaz.
O teatro, os gritos, os clamores, os temores, as súplicas, os agradecimentos pelas bênçãos alcançadas, os exorcismos coletivos, conduzem as pessoas para êxtases facilmente explicáveis, mas os profissionais do ramo muitas vezes são vítimas da própria eloquência e sucumbem às tentações do “demônio”, que eles mesmos criaram.
Os exemplos de líderes religiosos que se deixaram levar pelas artimanhas do “belzebu” existem às centenas.
Esquecem, no entanto, de enaltecer o ser humano; de valorizá-lo, incentivá-lo. No entanto, parece ser melhor negócio fragilizá-lo perante Deus; querem que sejamos pequenos, insignificantes, desprezíveis.
E deixam de levar em conta este nosso poder extraordinário que temos de fazer novas vidas, de trazê-las para este mundo, que podemos fazê-las sofrer, padecer, e continuar este sofrimento e padecimento ocasionados pelos filhos que tivemos porque não lhes demos o amor devido, a atenção necessária, a importância que mereciam!
Mas queremos que Deus se apiede de nós!
E não temos nenhum sentimento para com os outros, ao contrário, eles são aqueles que Deus irá castigá-los, pensamos cínica e hipocritamente.
Tu, homem, estás preparado para ser pai?
Tu, mulher, já pensaste na grandiosidade da maternidade?
Vocês estão em condições morais, culturais e materiais para terem filhos?
Possuem o amor necessário para se dedicar a eles?
Os futuros pais estão conscientes que serão os exemplos para as crianças que irão se espelhar nas suas vidas como futuro?
Se responderem sim a esses questionamentos vocês são pequenos deuses, estão outorgados daqueles poderes divinos de criação, e é exatamente para isso que estamos neste planeta:
PARA AMAR E SER AMADO!