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10/07/2019

O Buda sorridente

fotografia WBJ


Wilson Baptista Junior
Nesse junho que passou, numa tarde clara de inverno, eu e Ana voamos para São Paulo, aproveitando um feriado, para conhecer a nova casa de um de nossos filhos e sua mulher, e aproveitar a oportunidade de passar meu aniversário com os filhos, as noras e os netos.
Foi, claro, um passeio agradabilíssimo pela companhia e pela acolhida sempre de coração aberto com que somos invariavelmente recebidos na casa de qualquer deles, com direito à bela montagem do Fantasma da Ópera, com libreto do Andrew Lloyd Webber, no antigo Cine Teatro Paramount, agora rebatizado de Teatro Renault.
Infelizmente, por um desencontro nos horários familiares, tivemos que adiar para outra ocasião a oportunidade combinada de tomar um café ao vivo na Paulista com nosso companheiro de blog e amigo, por enquanto virtual, Heraldo. Se Deus quiser haverá outras.
Mas um passeio que fizemos nos fez lembrar muito de outro amigo e companheiro de blog, o Mestre Antonio, quando numa manhã fomos conhecer o Templo Budista Zu Lai, em Cotia, vontade guardada já há algum tempo.
Só que nos esquecemos de que era um feriado, e no esperado lugar de calma e contemplação fervilhava uma multidão de turistas tirando dezenas, centenas, milhares de selfies quase sempre entre nossos olhos e o que estivéssemos querendo ver. Como tudo na vida isso teve um ponto positivo, que foi transformar a caminhada num exercício consciente de paciência e aceitação, quem sabe uma maneira canhestra de tentar se aproximar das Quatro Nobres Verdades. Que, na sua profunda sabedoria, minha mãe sintetizava numa só frase: “O que não tem remédio remediado está”...
fotografia WBJ

Talvez por isso o buda sorridente que abre este post, o buda Maitreya, esteja mesmo é se divertindo vendo a multidão animada que invade seu templo e imaginando como será o futuro, quando reincarnar no nosso meio...
Mas apesar da quantidade de pessoas e da movimentação dos selfies, percebe-se uma tranquilidade entre os visitantes que não destoa da ambientação do lugar.
A primeira coisa que nos atrai é a grande extensão dos jardins, guardados ao longo dos caminhos pelas estátuas de monges que figuram nas histórias do budismo.
fotografias WBJ
E até uma fonte que chamam Fonte dos Desejos, onde os visitantes jogam moedas para ter um desejo atendido (o que, em vista do lugar, foi para mim uma surpresa; com certeza aqui os desejos pedidos devem ser merecidos...)

fotografia WBJ

Depois, as estátuas de dezoito discípulos iluminados de Buda nos guiam até a grande escada que vai levar ao primeiro portal do templo. Ao subir esta grande escadaria já temos a sensação de que a busca pela paz interior é uma sucessão de degraus que a nossa mente vai percorrendo.
fotografias WBJ

Passado o portal entramos no grande pátio (visto aqui no sentido contrário) cercado por uma colunata coberta:
fotografia WBJ

Nos parapeitos do andar de cima, aqui vistos através do teto da colunata que circunda o pátio, já podemos perceber que um motivo recorrente na decoração do templo é a flor de lótus. Dizem que essa flor, que cresce no lodo e tem suas raízes na lama do fundo, e desabrocha imaculada na superfície, simboliza a pureza da mente que se liberta dos desejos do corpo.
fotografia WBJ

A escadaria que sobe do pátio para o andar principal do templo, terminando no portal da Sala do Grande Herói, tem de cada lado um guardião severo, o Shishi. Este par de leões são os guardas tradicionais das entradas dos templos, o da esquerda (mostrado na fotografia) de boca aberta, dizem que para assustar os demônios que quiserem entrar, e o da direita de boca fechada, para guardar os bons espíritos do templo.
fotografia WBJ

Na Sala do Grande Herói, onde são realizadas as cerimônias, não nos era permitido fotografar; ficamos então com essa fotografia tirada do topo da escadaria, que mostra a grande estátua de jade branco de Siddarta Gautama, o buda Shakyamuni, no altar ao fundo da sala. Esta imagem, ao tamanho da qual a fotografia não faz justiça pela distância em que foi tirada (as pessoas que aparecem estão fora do salão), veio da distante Myanmar e pesa mais de quatro toneladas.
fotografia WBJ

Em frente da entrada dessa sala fica um vaso de bronze cheio de areia onde, num pequeno ritual de concentração, se pode fazer uma oração pedindo uma graça e colocar para queimar uma varinha de incenso. Ao colocar a varinha peguei um papelzinho dobrado contendo uma mensagem do Venerável Mestre Hsing Yün, fundador da ordem Fo Guang Chan, à qual pertence o templo. A minha dizia:
“Quando a sabedoria e a emoção são direcionadas para um mesmo objetivo, não há o que possa evitar a sua realização, pois não existe nada mais forte no mundo”.
O que me fez lembrar de uma frase de John Ruskin de que gosto muito: “When love and skill work together, expect a masterpiece” (Quando o amor e a maestria trabalham juntos, espere uma obra prima).
Na varanda principal do templo, à esquerda da sala do Grande Herói, uma outra enorme estátua do Buda observa os visitantes.
fotografia WBJ

Descendo para o andar inferior, visitamos o Museu do Budismo, uma sala cheia de belos artefatos antigos, mas onde também não se podia fotografar. O monge que cuidava da sala nos explicou que a proibição era para preservar a quietude propícia para melhor compreender o que se via na sala, o que nos pareceu eminentemente razoável imaginando a balbúrdia que seria a quantidade de visitantes tirando selfies à frente de cada vitrine...
Num dos lados do andar de baixo, entramos num pequeno jardim que é um playground para as crianças, sob uma grande pintura do Buda que alimenta as águas de onde nasce a flor do lótus.
fotografia WBJ

A essa altura já passava da hora do almoço, o passeio e o ar puro tinham aberto o nosso apetite, e entramos no restaurante do templo. Eu, que adoro carne e peixe, nunca teria imaginado que uma refeição inteiramente vegetariana pudesse ser tão deliciosa. Confesso que fiquei impressionado com o cuidado e o tempero da comida. E com a tranquilidade, hoje rara, de comer num restaurante onde as pessoas, talvez ainda sob a influência do passeio no templo, não falavam alto como acontece hoje na maioria dos lugares.
A caminhada até onde tínhamos deixado o carro foi outro passeio pelos jardins, e voltamos para casa levando alguns dos maravilhosos pães que se podiam comprar à saída do salão.
fotografia WBJ

Alguns dias depois voltamos para casa. Decolamos de Congonhas numa manhã maravilhosa, nem uma nuvem no céu, um voo sob medida para apreciar as belas paisagens entre São Paulo e Belo Horizonte, as montanhas, o lago de Furnas resplendendo ao sol.
Eu, que tenho voado, e muito, há quase sessenta anos (ocasiões houve em que cheguei em casa apenas para trocar de mala e voar de novo) e a cada decolagem ainda me lembro dos versos que um piloto canadense da Segunda Guerra escreveu pouco antes de ser abatido, e que começam assim: “Oh, I’ve slipped the surly bonds of earth, and danced the skies on laughter-silvered wings...” (Oh, eu me livrei das rudes amarras da terra, e dancei céus afora em asas prateadas pelo riso) e me identifico um pouquinho com sua alegria, ao constatar que quase todas as janelas do avião do lado do nascente estavam fechadas para não incomodar a visão dos passageiros das telinhas de seus smartphones, tablets e computadores (voávamos num 737-800, mais de cento e oitenta passageiros, com wifi a bordo) não pude deixar de imaginar o que o Buda sorridente estaria pensando das pessoas de hoje e do que elas estariam vendo com seus olhos artificiais em vez de olhar para as belezas do mundo em que vivem, no futuro longínquo em que ele voltará a estar entre nós...


06/07/2019

Arraial de algodão

fotografia de Heraldo Palmeira


Heraldo Palmeira
É noite de São João
Quase amanhecendo o dia
É madrugada e não vem
Quem tanto eu queria
A velha canção junina me veio à cabeça. Em pouco tempo estava me deliciando com a versão original do Trio Nordestino, gravada em 1971. Sim, quando eu não era nada mais do que um menino do interior, mal chegado à capital, sentindo minhas primeiras saudades do que seria passado para sempre.
Por coincidência, recebi um mesmo post de diversos amigos, com uma sequência de gravuras lindas relacionadas às festividades nordestinas de junho, são João do carneirinho dando logo o tom, e uma criança cantando delicadamente outra canção daquele amor inocente, sertanejo, que desmantelava o coração da gente.
Olha pro céu, meu amor
Vê como ele está lindo
Olha pr’aquele balão multicor
Como no céu vai sumindo
Foi numa noite igual a esta
Que tu me deste o teu coração
O céu estava assim, em festa
Pois era noite de são João
Havia balões no ar
Xote, baião no salão
E no terreiro o teu olhar
Que incendiou meu coração
Versos simples que estavam no meu inconsciente, guardados há tanto tempo! Algo que vem da infância, pode ser sentido a vida inteira, é dito em palavras, sons e silêncios. Coisas de junho, mês de devoção a Antônio, João e Pedro, os santos doces da festa – nomes de tantos brasileiros –, padrinhos da nossa fé enfeitada de tradição.
Tradição que rezava necessário, para qualquer tempo, chegar em casa alheia se fazendo anunciar pelo prefixo sertanejo “Louvado seja Nosso Senhor J’sus Cristo” e ouvir lá de dentro “Para sempre seja Deus louvado” como reposta acolhedora que abria as portas.
É um júbilo inigualável viver o mês em que o Nordeste explode em cores, as bandeirinhas e fitinhas de todas elas, o xadrez puxado no vermelho e azul das roupas, o amarelo do milho nas comidas, o ouro do fogo das fogueiras, o escarlate das brasas ardentes, o cinza esbranquiçado do que sobrou da lenha queimada, os foguetões, os folguedos, as cantigas, o quentão do vinho... Só fica sem cor quem quer.
Um tempo onde a fumaça e a poeira ficam siamesas, subindo da lenha queimando e do arrasta-pé do forró. Reinado do trio famoso que junta o resfolego da sanfona, o batuque da baqueta e da vareta da zabumba e o tingolingo do triângulo até o sol raiar. Só não sente saudade quem não viveu, atrás do sanfoneiro só não vai quem já morreu.
Bastava a gente ouvir “anavantu” e “anarriê”, que pareciam palavras mágicas, para iniciar a dança da quadrilha. E íamos todos deslizando aos comandos de “balancê”, changê”, “xis de damas”, “xis de cavalheiros”, “caminho da roça”...
– Olha a cobra!
– Uuuuiiii!
– É mentira!
– Aaaahhhh!
– Olha a chuva!
– Uuuuiiii!
– Já passou!
– Aaaahhhh!
– A ponte quebrou!
– Ôôôô!
– Já consertou!
– Aaaahhhh!
A noiva grávida, de véu e grinalda, o noivo apavorado com a valentia do pai da moça bulida, o casamento à força, o padre aflito para terminar logo a cerimônia, a polícia na beira do altar, tudo para honrar a desonra do bucho pela boca.
Esse mundo regional fantástico foi levado ao mundo nacional por um negro bonito, forte, galante, gutural, que saiu de casa (em busca do mundo) homem feito, depois de levar uma surra da mãe exatamente porque se aproximou de moça de família cuja família não queria aquele namoro.
Ele pobre, negro, analfabeto, tocador de festa. Ela estudante, branca, de posses. Apaixonada, se entregou aos encantos do cabra, desabrochou mulher. E o pai valente pretendia matar o enxerido que desonrou a filha, uma tragédia anunciada que seria riscada a faca ou bala numa feira de sábado. Episódio que deixou mágoa profunda e longa no rapagote rejeitado e humilhado.
Aquilo não era uma dança de quadrilha. Era um pedaço bem real do começo da história de Luiz Gonzaga do Nascimento, filho de mestre Januário dos oito baixos e de dona Santana, de Pernambuco, cabra macho chegado ao mundo numa sexta-feira 13 de dezembro, dia de Santa Luzia.
Reza a lenda que o nome Luiz era homenagem à santa, Gonzaga a são Luiz Gonzaga e Nascimento ao mês de dezembro do nascimento de Jesus. Não há dúvida, o menino já nasceu recomendado e bem batizado no palco do céu.
Luiz Gonzaga que viu os gaúchos de boleadeiras, bombacha, facão e chapelão e teve certeza de que também podia. Meteu-se em gibão e chapéu de couro, fez-se vaqueiro, armado de sanfona e voz poderosas.
Gonzagão, Rei do Baião, cara de Lua, lua cheia, luar do sertão. Sem favor, o mais completo retrato da cultura nordestina e um dos mais importantes da nossa música popular.
Luiz que só voltou ao seu chão depois de dezesseis anos, querendo apagar a mágoa de amor e da surra. E atendendo ao desejo obstinado de dona Santana de ver outra vez o filho querido. Que foi logo ouvindo “respeita Januário!”. O forrobodó foi tão grande que se alastrou por doze dias. Correu pelos tabuleiros a notícia de que cinco mulheres se ocuparam em fazer comida para o povaréu.
Seu Lua, luz do sertão, cantarino que falava do seu povo, de Zé Buraco, Chico Manco, Pé-de-Foice, Mané Ciço, Peba Macho, Bode Branco, Zé de Bahia, Joaquim, Janjão, Ansermo, Zé Tatu, Capitão Barbino, Bastião, Véi Jacó... Maria Doida, Raqué, Sinhá, Joana, Iaiá, Margarida, Bastiana, Florisbela, Gerolina, Zefa, Tota, Toinha, Zabé, Karolina com K, Juvita, Samarica Parteira – entre um menino e outro, dos outros, botava banca nos forrós para vender “cerrejinha” escumando de quente à cabroeira.
Luiz Gonzaga, que fez da asa branca a imagem do espírito divino da sua liturgia musical. E de Asa branca o hino do Nordeste. Que sofreu chacota do grupo de Canhoto logo depois da gravação original – os músicos acharam que era um hino religioso e saíram andando pelas dependências do estúdio da RCA Victor com um pires, pedindo esmolas. Que viu seu hino de louvor ganhar o mundo, e já se vão umas quase quinhentas gravações diferentes.
Até mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Entonce, eu disse, “adeus, Rosinha!”
Guarda contigo meu coração
Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Eu te asseguro, não chore não, viu
Que eu voltarei, viu
Meu coração
Liturgia de uma religião que gerou discípulos beatificados nas escrituras sagradas das partituras: Humberto Teixeira, Zé Dantas, Jackson do Pandeiro, Sivuca, Abdias, Genaro, Zé Calixto, Luizinho Calixto, Oswaldinho, Chiquinho do Acordeom, João do Vale, Dominguinhos, Anastácia, Marinês, Elino Julião, Trio Nordestino, Genival Lacerda, Luiz Vieira, Quinteto Violado, Banda de Pau e Corda, Flávio José, Santanna, Gilberto Gil, Xangai, Cátia de França, Nando Cordel, Fagner, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Zé Ramalho, Elba Ramalho...
Essa gente sempre soube que “de Taboca a Rancharia, de Salgueiro a Bodocó, Januário é o maior” e ainda botou no mundo um maioral, o Rei do Baião!
Ah, o tempo passando! E inventaram de modernizar tudo isso. Coisa besta, a festa ficou feia. É sempre assim quando os sabidos resolvem mexer na simplicidade dos sábios, reinventar a roda. O erro crasso de quem não distingue simples de simplório.
Trocaram a música orgânica que corria nas veias dos trios pé de serra (sanfona, zabumba e triângulo) por essas porcarias que se intitulam “bandas”, com teclados fingindo sanfonas, com baticuns digitais, que inundam e infernizam a civilidade em rádios, tevês, palcos, paredões de som e festas privadas.
Trocaram a deliciosa picardia brejeira do duplo sentido das letras pela pornografia vulgar, piorada por um machismo ordinário e desrespeitoso das letras analfabetas.
Músicos e cantores originais, intuitivos, tradutores quase ontológicos do linguajar e dos costumes populares foram sendo esvaziados para dar lugar a celebridades de ocasião – uma gente cafona e sem talento, vaqueiros de butique, cantores gasguitas com faringite sempre entrincheirados em toneladas de equipamentos e sem qualquer conexão com a verdadeira arte popular.
“Vamo nessa, galera”, “levanta a mãozinha” e “sai do chão” tiraram do mapa a beleza matuta de “anavantu”, “anarriê”, “arrocha o nó”, que nunca eram ditos aos berros, eram apenas cincerros de égua madrinha para animar o mote e guiar o rebanho feliz pelo terreiro da alegria.
Seu Luiz tomou outro pássaro para escrever um réquiem que, de tão bonito, deixa até a morte em vida bonita na língua do nosso sanfonado de junho.
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do assum preto
Pra ele assim, ai, cantá mió
Assum preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Ele cortou chão a mais não poder, cantou com minha voz e a de todo mundo, tocou sua “eguinha” branca famosa, “só de baixo cento e vinte, botão preto bem juntinho, como nêgo empareado”. Ele pintou meu orgulho nordestino no coração e na estrada que traço, fazendo o rastro da passada virar rota para voltar, um dia, mesmo tendo que sair de novo.
Ele olhou para o céu dos pássaros e viu “passo voando pra todo lugar”. Tirou de lá o branco da esperança e o preto da tristeza para deixar Asa branca e Assum preto como abertura e encerramento de um espetáculo de vida como outro não se tem notícia.
Eu tive a glória de ver e ouvir Seu Luiz diversas vezes ali na minha frente. Não tinha pra ninguém! E não terá, como Pelé no futebol. Pior para os “joões” de Garrincha, essa cabroeira que anda por aí desenfeitando o arraial porque entrou pela saída.
Aquela sanfona branca
Aquele chapéu de couro
É quem meu povo proclama
Luiz Gonzaga é de ouro
Aquele tom nordestino
É cantador do sertão
É filho de Januário
É festa, é povo, Luiz alegria
Luiz Gonzaga é poesia
Que Antônio, João e Pedro cuidem dessas almas penadas e gritem em seus ouvidos moucos o prefixo que vem “derna” de 1912: “Viva Luiz Gonzaga!”.
E para quem quiser, basta seguir o conselho do grupo Bendegó na música Rancheira: “Se o forró já começou, bote o disco de Luiz”. Amém, meu santo!

Trechos de:
É madrugada (Antônio Barros)
Olha pro céu (Luiz Gonzaga-José Fernandes)
Asa branca (Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira)
Respeita Januário (Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira)
Assum preto (Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira)
Feira de mangaio (Sivuca-Glorinha Gadelha)
Sanfona branca (Benito Di Paula)



02/07/2019

Helene e Miniver

fotografia Moacir Pimentel


Moacir Pimentel
Embora eu já tenha viajado pelas páginas de alguns daqueles velhos livros que a escritora Helene Hannf tanto apreciava e perambulado pelas velhas ruas londrinas com as quais a moça sonhava, para teclar sobre a Londres “literária” dela confesso que tive que pedir ajuda, ao virar a esquina da Baker Street, não mais iluminada pelas luzes dos lampiões de gás vitorianos, a uma das mais conhecidas personagens literárias de todos os tempos: sim, é ele mesmo, Sherlock Holmes!
Penso, my dear Watson, que durante essa nossa visita a Londres talvez fosse elementar tentar entender as paisagens mentais da escritora. Muita gente boa diria que Helene Hannf era uma leitora obsessiva. Será?
O escritor norte-americano Mark Twain afirmava que a verdade era mais estranha do que a ficção porque “a ficção, afinal, precisa fazer sentido” (rsrs) E na verdade, às vezes, para mim Helene não faz sentido. Mas daí a carimbar a moça de compulsiva, vai uma longa distância. Serei eu um leitor compulsivo porque gosto de ler até bula de remédio? Ou porque nos tempos de eu menino quando apagavam a luz eu continuava lendo com uma lanterna debaixo do lençol? E porque já perdi a conta das noites em que adormeci com um livro aberto sobre a barriga e os óculos no nariz? Terá sido essa moça obsessiva? Com a palavra a própria escritora...
“O meu problema é que enquanto outras pessoas estão lendo cinquenta livros, eu leio um livro cinquenta vezes. Só paro quando no final da página 20, digamos, percebo que posso recitar de cor as páginas 21 e 22. Então eu me afasto do livro por alguns anos “ (rsrs)
A Helene me faz lembrar de Samuel Johnson, o Doutor Johnson, um escritor e pensador, poeta e ensaísta, biógrafo e crítico literário inglês que nasceu filho de um livreiro pobre e, portanto, sem recursos para cursar a universidade de Oxford. Mesmo assim, foi o autor de grandes livros como Jornada às Ilhas da Escócia, de um primoroso Dicionário da Língua Inglesa, em 1755, de uma maravilhosa edição comentada das obras de Shakespeare e, no campo da crítica literária , da obra-prima de nome As Vidas dos Mais Eminentes Poetas Ingleses, cujos volumes, mesmo depois de tantos séculos, continuam obrigatórios para quem se interessa ou estuda a literatura inglesa.
Estátua de Samuel Johnson, junto à igreja de St. Clements Danes - fotografia de  Mike Peel (www.mikepeel.net).

Sucede que o Doutor Johnson, de quem você provavelmente conhece uma famosa citação - “O patriotismo é o último refúgio do canalha” – e que hoje mora na Fleet Street servindo de WC para a passarada, era um leitor insaciável que devorava bibliotecas inteiras esfregando o nariz nas páginas pois, de nascença, era cego de um olho.
Diz Dona Lenda que ele lia à luz de velas e que na sua casa alguém ficava sempre de plantão pois costumava atear fogo às próprias perucas (rsrs) Seria ele um leitor obsessivo? Não, e também não creio que Helene Hanff o fosse, que ela fizesse da leitura uma única fixação que a desesperasse. Agora...
Devo admitir que a literatura em língua inglesa é recheada por tipos literários bem estranhos que levam as coisas longe demais. É o caso, por exemplo, da Senhorita Havisham, a personagem bizarra do livro Grandes Esperanças, de Charles Dickens, colada a um passado empoeirado e humilhante, consumada pelo desespero de ter sido abandonada no altar, fixada em um casamento que nunca se realizou. A sua aparência fantasmagórica merece uma das mais geniais descrições do autor:
“Ela estava vestida com materiais ricos - cetim, renda e sedas - tudo branco. Os sapatos eram brancos. E ela tinha um longo véu branco e flores de noiva no cabelo, mas seu cabelo era branco. Algumas joias brilhavam em seu pescoço e mãos e outras faiscavam sobre a mesa... Eu percebi que tudo dentro do meu campo de visão que deveria ser branco, tinha sido branco há muito tempo e perdido o brilho e estava desbotado e amarelo. Eu vi que a noiva no vestido de noiva tinha murchado como o vestido, e como as flores, e não tinha mais brilho, a não ser o de seus olhos fundos.”
E quem poderá dizer que não era uma obsessão vingativa a perseguição monomaníaca feita pelo Capitão Ahab a Moby-Dick, a baleia enfurecida que, após sucessivos ataques humanos, passara também a atacar os navios baleeiros, no mais famoso dos livros do americano Herman Melville?
“Eu não sei o que vem pela frente, mas seja o que for, vou enfrentar gargalhando” dizia o Capitão Ahab que tivera sua perna amputada devido a um ataque da baleia e que, desde então, passara a cruzar os mares em busca da criatura para matá-la, cego pelo ódio e pelo desejo de vingança, colocando em risco a única coisa que amava na vida: o seu navio Pequod.
E o que dizer de Dorian Gray o principal personagem do livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, tão obcecado com a própria beleza, tão convicto de que se perdesse a boa aparência perderia tudo, tão certo de que a juventude é a única coisa que vale a pena ter? Depois de contemplar um esplêndido retrato seu que acabara de ser pintado ele se lamenta:
“Enquanto eu envelhecer esta imagem permanecerá sempre jovem... Se fosse apenas o contrário! Se eu fosse para sempre jovem e a imagem na tela envelhecesse! Por isso - por isso! - eu daria tudo! Eu daria minha alma por isso!”
imagem www.pagepulp.com

É claro que o moço teve o seu desejo atendido. Mas, como tantos outros tolos, acabou sendo consumido pela sua própria fixação. Depois de se desesperar levando uma vida degenerada, ele tentou destruir a pintura - que ficara medonha devido aos seus pecados - mas, ao fazê-lo, termina se matando.
Na parede seus criados encontram o retrato de novo fascinante, com toda a requintada juventude e beleza de Gray nele contidas. E no chão se deparam com um homem morto com uma faca no coração, murcho, enrugado e com um rosto repugnante.
Last but not least, de repente me recordo, do primeiro capítulo de Dom Quixote, ali onde Cervantes nos diz que não existia um Dom Quixote mas um homem de meia idade chamado Quijano que leu tantos romances de cavalaria, com tanto ardor e avidez que enlouqueceu, vendeu suas terras para comprar mais livros, renomeou-se, virou um cavaleiro andante e partiu para a ação... contra os moinhos (rsrs)
Parece que os obsessivos são definidos pela sua capacidade de se concentrar em uma única meta mesmo ao custo de tudo. Embora haja uma moral para a maioria dessas ficções, também há uma tristeza: as obsessões são paixões equivocadas que, em vez da salvação, nos trazem a ruína. Diferentemente dos obsessivos que se dedicam fervorosamente a uma certa ação, as pessoas que possuem energia e magia são aquelas que com calma, entre uma constelação de possibilidades, têm disposição para reduzi-las àquilo que é apropriado para cada momento, no movimento certo.
Como foi o caso de Helene Hanff, ao emergir de uma profunda depressão para escrever um livrinho de cem páginas que mudou a sua vida. Sim, essa mulher sensível e inteligente e de leituras clássicas sofria de um saudosismo um pouco além da conta, de uma ponta de dificuldade ao conciliar o passado como o contemporrâneo, o mundo ideal dos livros com o real dos seus alfarrabistas transatlânticos da Charing Cross Road que, durante vinte anos ela conseguiu a proeza de jamais visitar.
Há algo nebuloso, alguma coisa que à primeira vista ou em uma única leitura nos escapa na personalidade de Helene, no seu evidente anacronismo e, muito principalmente, no fato dela ter planejado e adiado, por esse ou aquele motivo, durante duas décadas a sua ida a Londres. Uma carta da moça, datada de 1952, explica a minha percepção:
“Eu realmente jamais desejei na vida algo que não fosse impresso”.
Ou seja, aquilo que ela queria mesmo eram os livros, e o seu  amigo livreiro, Frank Doel, era capaz de encontrar e lhe enviar, pelo preço certo, qualquer coisa impressa que ela desejasse. É como se ao ler os livros dos melhores escritores britânicos e estar em contato com os alfarrabistas londrinos Helene tivesse inventado uma Inglaterra que provavelmente só existia na sua imaginação.
Note que apesar das inúmeras cartas que teclou afirmando que visitaria Londres em breve, a escritora só se decidiu a viajar após a morte do Frank. A viagem dos sonhos dela era sempre adiada devido aos seus problemas financeiros. A moça era realmente uma escritora freelancer cuja renda era mesmo imprevisível mas é intrigante que sempre que a data da travessia atlântica se aproximava aparecia uma despesa extra proibitiva de turismo literário.
No entanto, com o passar dos anos – e foram muitos! - mas muito antes do fim da história nós - e a galera londrina! -  começamos a nos perguntar se a Helene queria mesmo conhecer a Inglaterra. É como se lhe bastasse aquela que imaginara através dos livros e das cartas dos amigos.
“Eu me desespero para meter na cabeça das pessoas que não estou interessada em livrarias, mas no que está escrito nos livros (...) Porque eu deveria percorrer todo o caminho até a Rua 17, para comprar livros novos e mal feitos quando eu posso comprar coisas limpas e lindas de você sem me levantar da máquina de escrever? Daqui de onde eu estou sentada, Londres fica muito mais perto do que a Rua 17.”
Para ela, a livraria e todos os seus habitantes talvez fizessem parte de uma fantasia que ela preferia manter isolada do mundo material de pessoas e lugares reais apesar de afirmar que almejava visitar Londres mais do que qualquer outra coisa na vida. Não há como não cogitar se por acaso a escritora não desejava que a Inglaterra permanecesse contida nos livros que ela comprava, nas cartas que teclava e recebia e na sua imaginação. Em um lugar que Helene não precisava visitar, habitado por pessoas que não necessitava encontrar, apenas imaginar.
Tem mais: é como se ela precisasse que, do outro lado do Atlântico, também continuasse sendo imaginada pela galera britânica, fã de carteirinha do seu senso de humor. Havia três razões que atiçavam a curiosidade deles sobre a moça. Primeiro, o fato dela preferir usar seu dinheiro para presenteá-los em vez de viajar para encontrá-los. Em segundo lugar, o fato de todos lhe terem enviado muitos “instantâneos”, sem que dela tivessem recebido uma foto sequer. E finalmente porque Helene diferia radicalmente das senhoras londrinas do seu tempo.
Suas conduta e profissão, seu amor por livros, álcool e cigarros, seu humor irreverente, a forma ousada como ela assinava algumas cartas caprichando nas maiúsculas  “HHFFFFFFF” - e sim, o “F” era um eufemismo da palavra inglesa que, como a nossa, também começa com a mesma letrinha (rsrs) - enfim o seu comportamento excêntrico, fazia com que seus amigos alfarrabistas tentassem imaginar com ela seria. Para os funcionários da Marks & Co Helene Hanff era um grande enigma.
As cartas entre Helene e uma amiga atriz que viveu seis meses em Londres encenando uma peça, nos revelam que a bela Maxime se tornara os olhos e ouvidos da escritora visitando várias vezes a livraria sem se dar a conhecer. Foi ela que, incógnita e desapercebida, deixou na loja quatro pares de meias de nylon - sumidas das prateleiras londrinas - para as garotas e também para a esposa de Frank.
É com essa vizinha que Helene compartilha suas inseguranças e confessa seu medo de conhecer seus amigos da Charing Cross Road:
“Me sinto mais confortável escrevendo cartas escandalosas a seis mil quilometros de distância. Provavelmente vou fazer como você: entrar ali um dia e sair sem dizer quem sou”.
Dizem que os grandes livros e/ou filmes da humanidade deveriam ser relidos e revistos a cada década pois, no meio tempo, os homens amadurecem. Confesso que da primeira vez que tive contato com essa história, tais minúcias e detalhes reveladores da personalidade da moça me passaram batidos e, bem assim, o fato de nossa amiga ter uma alma talvez mais velha do que a Londres de dois mil anos que amava tanto.
Certa vez ela confessou a Frank Doe sua identificação com o prezado Miniver Cheevy, o personagem título de um dos poemas do americano Edwin Arlington Robinson, ganhador de três Prêmios Pulitzer e indicado quatro vezes para o Nobel de Literatura. Escreveu ela:
“Eu atravesso a vida assistindo a língua inglesa sendo estuprada bem diante do meu nariz. Como Miniver Cheevy, eu nasci muito tarde e tusso e culpo o destino e continuo bebendo”.
Ora, esse tal de Miniver Cheevy, com quem a moça tanto simpatizava, merece uma leitura atenta, na excelente tradução do Senhor Editor:
Miniver Cheevy, filho do desprezo,
Se consumia ao passar das estações
Chorava por um dia ter nascido
E tinha lá suas razões.
Miniver amava os dias passados
Das espadas brilhantes e corcéis se empinando
A visão de um bravo guerreiro
O faria sair dançando.
Pelo que já não era Miniver suspirava
E sonhava, e da sua labuta repousava;
De Tebas e Camelot ele sonhava,
E dos vizinhos de Príamo se lembrava.
Miniver chorava pela intensa fama
Que tantos nomes tinha perfumado
Chorava pela Arte, agora uma sem-teto,
E pelo Romance, hoje abandonado.
Miniver amava os Medici,
Mesmo sem nunca ter visto nenhum;
Teria pecado e pecado sem descanso
Se tivesse podido ser um.
Miniver o ordinário amaldiçoava
E para os ternos com horror olhava;
Das antigas armaduras de ferro
A beleza lhes faltava.
Miniver desprezava o ouro que buscava
Mas muito irritado ficava sem ele;
Miniver pensava, e pensava, e pensava,
E pensava nele.
Miniver Cheevy, nascido atrasado,
Coçava a cabeça e continuava a pensar,
Miniver tossia, e chamava isso o fado,
E bebia sem parar.
Já sabemos que enquanto escrevia, acendendo um cigarro no outro, Helene também jamais se distanciava muito de um bom drink ou da garrafa de gim. Garota esperta! Bem que o Hemingway nos aconselhava: “Escreva bêbado mas edite sóbrio” (rsrs)
Porém os copos e uma pitada de escapismo da realidade pelo álcool não eram as únicas similitudes da Helene com o herói desse poema, construído sobre o contraste entre o Miniver insignificante que na realidade ele é, mesmo às voltas com seus sonhos de aventura, e as figuras heróicas do lendário cerco de Tróia, da Grécia antiga, de Tebas, de Camelot e da Itália renascentista.
O poema Miniver Cheevy é irônico, uma foto eivada de sarcasmo de um sujeito incapaz de enfrentar a verdade sobre si mesmo: que é um sonhador incorrigível e irresponsável, um ocioso que gasta suas energias no devaneio e desperdiça sua vida em fantasias inúteis sobre o passado, sobre o que teria sido se isso e aquilo fossem assim e assado, se ele tivesse nascido no momento certo!
Se tal não acontecera não era culpa dele e, é claro, o resto do mundo estava errado. O tom do poema deixa patente que a situação infeliz de Miniver é o resultado de seus próprios atos, que ele é o autor e protagonista de sua própria e pequena tragicomédia. Até o seu nome dá testemunho das suas realizações mínimas na vida.
Assim, ao assistir pela terceira vez Nunca te Vi, Sempre te Amei para escrever essa resenha, não pude deixar de refletir se para alguns leitores os livros não se transformariam em um tipo de mapa de quem são. E de perguntar aos meus botões se tal compulsão não poderia criar uma distância entre eles e o mundo, impedindo-os de chegar a um acordo com a realidade para além das capas de seus livros em uma negação de uma das magias da leitura que é, certamente, o seu poder transformador capaz de nos empurrar do pensamento aprimorado para a ação.
Decerto que o lado fracassado e “miniver” da Helene foi atropelado pelo inesperado e retumbante sucesso da sua escrita. E talvez todos os bons escritores, livros e personagens sejam mesmo um pouco misteriosos e, por isso mesmo, nos proporcionem leituras surpreendentes. Ainda assim, há um forte elemento de auto-absorção nos livros da moça e até mesmo no filme.
Quando a gente termina de ler e/ou assistir Helene se sente como se tivesse separado as peças de tamanhos decrescentes colocadas uma dentro da outra, cada vez menores e menores, de uma daquelas bonecas russas, de nome “matryoshkas”, que a TV nos apresentou durante a última Copa do Mundo. Antigamente elas simbolizavam a “mater”, o seio materno, a família mas hoje revelam, “em seguidinho”, os jogadores das seleções e/ou dos grandes times de futebol europeus (rsrs)
Matryoshkas - imagem Wikipedia - Wikimedia Commons

Mas o que brota da peça mais íntima da matrioshka Helene é uma mensagem minúscula, mas insistente, de que um livro é eterno. Ou pelo menos foi isso o que ela escreveu :
“Se eu viver para ser muito velha, todas as minhas lembranças dos dias de glória crescerão vagas e confusas, até que eu não tenha mais certeza do que realmente aconteceu. Mas os livros estarão lá, nas minhas prateleiras e na minha cabeça - a única realidade da qual posso ter certeza até o dia em que eu morrer.”
Ao perder Frank, o seu melhor amigo e tradutor, Helene Hanff reagiu e encontrou todos os seus pedaços no presente. Como continuaremos a ler na próxima conversa...