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| fotografia Moacir Pimentel |
Moacir Pimentel
Embora eu já tenha viajado pelas páginas de alguns daqueles velhos
livros que a escritora Helene Hannf tanto apreciava e perambulado pelas velhas
ruas londrinas com as quais a moça sonhava, para teclar sobre a Londres “literária”
dela confesso que tive que pedir ajuda, ao virar a esquina da Baker Street, não
mais iluminada pelas luzes dos lampiões de gás vitorianos, a uma das mais
conhecidas personagens literárias de todos os tempos: sim, é ele mesmo, Sherlock
Holmes!
Penso, my dear Watson, que durante essa nossa visita a Londres talvez
fosse elementar tentar entender as paisagens mentais da escritora. Muita gente
boa diria que Helene Hannf era uma leitora obsessiva. Será?
O escritor norte-americano Mark Twain afirmava que a verdade era mais
estranha do que a ficção porque “a
ficção, afinal, precisa fazer sentido” (rsrs) E na verdade, às vezes, para
mim Helene não faz sentido. Mas daí a carimbar a moça de compulsiva, vai uma
longa distância. Serei eu um leitor compulsivo porque gosto de ler até bula de
remédio? Ou porque nos tempos de eu menino quando apagavam a luz eu continuava
lendo com uma lanterna debaixo do lençol? E porque já perdi a conta das noites em
que adormeci com um livro aberto sobre a barriga e os óculos no nariz? Terá
sido essa moça obsessiva? Com a palavra a própria escritora...
“O meu problema é que enquanto outras pessoas estão lendo cinquenta
livros, eu leio um livro cinquenta vezes. Só paro quando no final da página 20,
digamos, percebo que posso recitar de cor as páginas 21 e 22. Então eu me
afasto do livro por alguns anos “ (rsrs)
A Helene me faz lembrar de Samuel Johnson, o Doutor Johnson, um
escritor e pensador, poeta e ensaísta, biógrafo e crítico literário inglês que
nasceu filho de um livreiro pobre e, portanto, sem recursos para cursar a
universidade de Oxford. Mesmo assim, foi o autor de grandes livros como Jornada
às Ilhas da Escócia, de um primoroso Dicionário da Língua Inglesa,
em 1755, de uma maravilhosa edição comentada das obras de Shakespeare e, no
campo da crítica literária , da obra-prima de nome As Vidas dos Mais Eminentes Poetas Ingleses, cujos volumes,
mesmo depois de tantos séculos, continuam obrigatórios para quem se interessa
ou estuda a literatura inglesa.
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| Estátua de Samuel Johnson, junto à igreja de St. Clements Danes - fotografia de Mike Peel (www.mikepeel.net). |
Sucede que o Doutor Johnson, de quem você
provavelmente conhece uma famosa citação - “O patriotismo é o último refúgio do canalha”
– e que hoje mora na Fleet Street servindo de WC para a passarada, era um
leitor insaciável que devorava bibliotecas inteiras esfregando o nariz nas
páginas pois, de nascença, era cego de um olho.
Diz Dona Lenda que ele lia à luz de velas e que na sua casa alguém
ficava sempre de plantão pois costumava atear fogo às próprias perucas (rsrs)
Seria ele um leitor obsessivo? Não, e também não creio que Helene Hanff o fosse,
que ela fizesse da leitura uma única fixação que a desesperasse. Agora...
Devo admitir que a literatura em língua inglesa é recheada por tipos
literários bem estranhos que levam as coisas longe demais. É o caso, por
exemplo, da Senhorita Havisham, a personagem bizarra do livro Grandes Esperanças, de Charles Dickens, colada
a um passado empoeirado e humilhante, consumada pelo desespero de ter sido
abandonada no altar, fixada em um casamento que nunca se realizou. A sua
aparência fantasmagórica merece uma das mais geniais descrições do autor:
“Ela estava vestida com materiais ricos
- cetim, renda e sedas - tudo branco. Os sapatos eram brancos. E ela tinha um
longo véu branco e flores de noiva no cabelo, mas seu cabelo era branco.
Algumas joias brilhavam em seu pescoço e mãos e outras faiscavam sobre a mesa...
Eu percebi que tudo dentro do meu campo de visão que deveria ser branco, tinha
sido branco há muito tempo e perdido o brilho e estava desbotado e amarelo. Eu
vi que a noiva no vestido de noiva tinha murchado como o vestido, e como as
flores, e não tinha mais brilho, a não ser o de seus olhos fundos.”
E quem poderá dizer que não era uma obsessão vingativa a perseguição
monomaníaca feita pelo Capitão Ahab a Moby-Dick, a baleia enfurecida que, após sucessivos ataques
humanos, passara também a atacar os navios baleeiros, no mais
famoso dos livros do americano Herman Melville?
“Eu não sei o que vem pela frente, mas seja o que for, vou enfrentar
gargalhando” dizia o Capitão Ahab que tivera sua perna amputada
devido a um ataque da baleia e que, desde então, passara a cruzar os mares em
busca da criatura para matá-la, cego pelo ódio e pelo desejo de vingança,
colocando em risco a única coisa que amava na vida: o seu navio Pequod.
E o que dizer de Dorian Gray o principal personagem do livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar
Wilde, tão obcecado com a própria beleza, tão convicto de que se perdesse a boa aparência perderia tudo, tão certo de que a juventude é a única coisa que
vale a pena ter? Depois de contemplar um esplêndido retrato seu que acabara de
ser pintado ele se lamenta:
“Enquanto eu envelhecer esta imagem
permanecerá sempre jovem... Se fosse apenas o contrário! Se eu fosse para sempre
jovem e a imagem na tela envelhecesse! Por isso - por isso! - eu daria tudo! Eu
daria minha alma por isso!”
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| imagem www.pagepulp.com |
É claro que o moço teve o seu desejo atendido. Mas, como tantos outros
tolos, acabou sendo consumido pela sua própria fixação. Depois de se desesperar
levando uma vida degenerada, ele tentou destruir a pintura - que ficara medonha
devido aos seus pecados - mas, ao fazê-lo, termina se matando.
Na parede seus criados encontram o retrato de novo fascinante, com toda
a requintada juventude e beleza de Gray nele contidas. E no chão se deparam com
um homem morto com uma faca no coração, murcho, enrugado e com um rosto repugnante.
Last but not least, de repente me recordo, do primeiro
capítulo de Dom Quixote, ali onde Cervantes nos diz que não existia um Dom
Quixote mas um homem de meia idade chamado Quijano que leu tantos romances de cavalaria, com tanto ardor e avidez que enlouqueceu, vendeu suas terras para
comprar mais livros, renomeou-se, virou um cavaleiro andante e partiu para a
ação... contra os moinhos (rsrs)
Parece que os obsessivos são definidos pela sua capacidade de se
concentrar em uma única meta mesmo
ao custo de tudo. Embora haja uma moral para a maioria dessas ficções, também
há uma tristeza: as obsessões são paixões equivocadas que, em vez da salvação,
nos trazem a ruína. Diferentemente dos obsessivos que se dedicam fervorosamente
a uma certa ação, as pessoas que possuem energia e magia são aquelas que
com calma, entre uma constelação de possibilidades, têm disposição para reduzi-las
àquilo que é apropriado para cada momento, no movimento certo.
Como foi o caso de Helene Hanff, ao emergir de uma profunda depressão
para escrever um livrinho de cem páginas que mudou a sua vida. Sim, essa mulher
sensível e inteligente e de leituras clássicas sofria de um saudosismo um pouco
além da conta, de uma ponta de dificuldade ao conciliar o passado como o contemporrâneo,
o mundo ideal dos livros com o real dos seus alfarrabistas transatlânticos da
Charing Cross Road que, durante vinte anos ela conseguiu a proeza de jamais
visitar.
Há algo nebuloso, alguma coisa que à primeira vista ou em uma única
leitura nos escapa na personalidade de Helene, no seu
evidente anacronismo e, muito principalmente, no fato dela ter planejado e
adiado, por esse ou aquele motivo, durante duas décadas a sua ida a Londres. Uma
carta da moça, datada de 1952, explica a minha percepção:
“Eu realmente jamais desejei na vida
algo que não fosse impresso”.
Ou seja, aquilo que ela queria mesmo eram os livros, e o seu amigo livreiro, Frank Doel, era capaz de
encontrar e lhe enviar, pelo preço certo, qualquer coisa impressa que ela
desejasse. É como se ao ler os livros dos melhores escritores britânicos e
estar em contato com os alfarrabistas londrinos Helene tivesse inventado uma
Inglaterra que provavelmente só existia na sua imaginação.
Note que apesar das inúmeras cartas que teclou afirmando que visitaria
Londres em breve, a escritora só se decidiu a viajar após a morte do Frank. A
viagem dos sonhos dela era sempre adiada devido aos seus problemas financeiros.
A moça era realmente uma escritora freelancer cuja renda era mesmo imprevisível
mas é intrigante que sempre que a data da travessia atlântica se aproximava
aparecia uma despesa extra proibitiva de turismo literário.
No entanto, com o passar dos anos – e foram muitos! - mas muito antes do
fim da história nós - e a galera londrina! - começamos a nos perguntar se a Helene queria
mesmo conhecer a Inglaterra. É como se lhe bastasse aquela que imaginara
através dos livros e das cartas dos amigos.
“Eu me desespero para meter na cabeça
das pessoas que não estou interessada em livrarias, mas no que está escrito nos
livros (...) Porque eu deveria percorrer todo o caminho até a Rua 17, para
comprar livros novos e mal feitos quando eu posso comprar coisas limpas e
lindas de você sem me levantar da máquina de escrever? Daqui de onde eu estou
sentada, Londres fica muito mais perto do que a Rua 17.”
Para ela, a livraria e todos os seus habitantes talvez fizessem parte de
uma fantasia que ela preferia manter isolada do mundo material de pessoas e
lugares reais apesar de afirmar que almejava visitar Londres mais do que
qualquer outra coisa na vida. Não há como não cogitar se por acaso a escritora
não desejava que a Inglaterra permanecesse contida nos livros que ela comprava,
nas cartas que teclava e recebia e na sua imaginação. Em um lugar que Helene
não precisava visitar, habitado por pessoas que não necessitava encontrar,
apenas imaginar.
Tem mais: é como se ela precisasse que, do outro lado do Atlântico, também
continuasse sendo imaginada pela galera britânica, fã de carteirinha do seu senso
de humor. Havia três razões que atiçavam a curiosidade deles sobre a moça.
Primeiro, o fato dela preferir usar seu dinheiro para presenteá-los em vez de
viajar para encontrá-los. Em segundo lugar, o fato de todos lhe terem enviado
muitos “instantâneos”, sem que dela tivessem
recebido uma foto sequer. E finalmente porque Helene diferia radicalmente das senhoras
londrinas do seu tempo.
Suas conduta e profissão, seu amor por livros, álcool e cigarros, seu
humor irreverente, a forma ousada como ela assinava algumas cartas caprichando
nas maiúsculas “HHFFFFFFF” - e sim, o “F”
era um eufemismo da palavra inglesa que, como a nossa, também começa com a
mesma letrinha (rsrs) - enfim o seu comportamento excêntrico, fazia com que
seus amigos alfarrabistas tentassem imaginar com ela seria. Para os
funcionários da Marks & Co Helene Hanff era um grande enigma.
As cartas entre Helene e uma amiga atriz que viveu seis meses em Londres
encenando uma peça, nos revelam que a bela Maxime se tornara os olhos e ouvidos
da escritora visitando várias vezes a livraria sem se dar a conhecer. Foi ela
que, incógnita e desapercebida, deixou na loja quatro pares de meias de nylon -
sumidas das prateleiras londrinas - para as garotas e também para a esposa de Frank.
É com essa vizinha que Helene compartilha suas inseguranças e confessa
seu medo de conhecer seus amigos da Charing Cross Road:
“Me sinto mais confortável escrevendo cartas
escandalosas a seis mil quilometros de distância. Provavelmente vou fazer como você:
entrar ali um dia e sair sem dizer quem sou”.
Dizem que os grandes livros e/ou filmes da humanidade deveriam ser
relidos e revistos a cada década pois, no meio tempo, os homens amadurecem.
Confesso que da primeira vez que tive contato com essa história, tais minúcias e
detalhes reveladores da personalidade da moça me passaram batidos e, bem assim,
o fato de nossa amiga ter uma alma talvez mais velha do que a Londres de dois
mil anos que amava tanto.
Certa vez ela confessou a Frank Doe sua identificação com o prezado Miniver Cheevy, o personagem título de
um dos poemas do americano Edwin
Arlington Robinson, ganhador de três Prêmios Pulitzer e indicado quatro
vezes para o Nobel de Literatura. Escreveu ela:
“Eu atravesso a vida assistindo a
língua inglesa sendo estuprada bem diante do meu nariz. Como Miniver Cheevy, eu
nasci muito tarde e tusso e culpo o destino e continuo bebendo”.
Ora, esse tal de Miniver Cheevy,
com quem a moça tanto simpatizava, merece uma leitura atenta, na excelente
tradução do Senhor Editor:
Miniver Cheevy, filho do desprezo,
Se consumia ao passar das estações
Chorava por um dia ter nascido
E tinha lá suas razões.
Miniver amava os dias passados
Das espadas brilhantes e corcéis se
empinando
A visão de um bravo guerreiro
O faria sair dançando.
Pelo que já não era Miniver suspirava
E sonhava, e da sua labuta repousava;
De Tebas e Camelot ele sonhava,
E dos vizinhos de Príamo se lembrava.
Miniver chorava pela intensa fama
Que tantos nomes tinha perfumado
Chorava pela Arte, agora uma sem-teto,
E pelo Romance, hoje abandonado.
Miniver amava os Medici,
Mesmo sem nunca ter visto nenhum;
Teria pecado e pecado sem descanso
Se tivesse podido ser um.
Miniver o ordinário amaldiçoava
E para os ternos com horror olhava;
Das antigas armaduras de ferro
A beleza lhes faltava.
Miniver desprezava o ouro que buscava
Mas muito irritado ficava sem ele;
Miniver pensava, e pensava, e pensava,
E pensava nele.
Miniver Cheevy, nascido atrasado,
Coçava a cabeça e continuava a pensar,
Miniver tossia, e chamava isso o fado,
E bebia sem parar.
Já sabemos que enquanto escrevia, acendendo um cigarro no outro, Helene
também jamais se distanciava muito de um bom drink ou da garrafa de gim. Garota
esperta! Bem que o Hemingway nos aconselhava: “Escreva bêbado mas edite sóbrio” (rsrs)
Porém os copos e uma pitada de escapismo da realidade pelo álcool não
eram as únicas similitudes da Helene com o herói desse poema, construído sobre
o contraste entre o Miniver insignificante que na realidade ele é, mesmo às
voltas com seus sonhos de aventura, e as figuras heróicas do lendário cerco de
Tróia, da Grécia antiga, de Tebas, de Camelot e da Itália renascentista.
O poema Miniver Cheevy é irônico, uma foto eivada de sarcasmo de um
sujeito incapaz de enfrentar a verdade sobre si mesmo: que é um sonhador
incorrigível e irresponsável, um ocioso que gasta suas energias no devaneio e
desperdiça sua vida em fantasias inúteis sobre o passado, sobre o que teria
sido se isso e aquilo fossem assim e assado, se ele tivesse nascido no momento
certo!
Se tal não acontecera não era culpa dele e, é claro, o resto do mundo
estava errado. O tom do poema deixa patente que a situação infeliz de Miniver é
o resultado de seus próprios atos, que ele é o autor e protagonista de sua própria
e pequena tragicomédia. Até o seu nome dá testemunho das suas realizações
mínimas na vida.
Assim, ao assistir pela terceira vez Nunca te Vi, Sempre te Amei para
escrever essa resenha, não pude deixar de refletir se para alguns leitores os
livros não se transformariam em um tipo de mapa de quem são. E de perguntar aos
meus botões se tal compulsão não poderia criar uma distância entre eles e o
mundo, impedindo-os de chegar a um acordo com a realidade para além das capas
de seus livros em uma negação de uma das magias da leitura que é, certamente, o
seu poder transformador capaz de nos empurrar do pensamento aprimorado para a
ação.
Decerto que o lado fracassado e “miniver” da Helene foi atropelado pelo
inesperado e retumbante sucesso da sua escrita. E talvez todos os bons
escritores, livros e personagens sejam mesmo um pouco misteriosos e, por isso
mesmo, nos proporcionem leituras surpreendentes. Ainda assim, há um forte
elemento de auto-absorção nos livros da moça e até mesmo no filme.
Quando a gente termina de ler e/ou assistir Helene se sente como se
tivesse separado as peças de tamanhos decrescentes colocadas uma dentro da
outra, cada vez menores e menores, de uma daquelas bonecas russas, de nome “matryoshkas”, que a TV nos apresentou
durante a última Copa do Mundo. Antigamente elas simbolizavam a “mater”, o seio
materno, a família mas hoje revelam, “em seguidinho”, os jogadores das seleções
e/ou dos grandes times de futebol europeus (rsrs)
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| Matryoshkas - imagem Wikipedia - Wikimedia Commons |
Mas o que brota da peça mais íntima da matrioshka Helene é uma mensagem
minúscula, mas insistente, de que um livro é eterno. Ou pelo menos foi isso o
que ela escreveu :
“Se eu viver para ser muito velha, todas as minhas lembranças dos dias
de glória crescerão vagas e confusas, até que eu não tenha mais certeza do que
realmente aconteceu. Mas os livros estarão lá, nas minhas prateleiras e na
minha cabeça - a única realidade da qual posso ter certeza até o dia em que eu
morrer.”
Ao perder Frank, o seu melhor amigo e tradutor, Helene Hanff reagiu e
encontrou todos os seus pedaços no presente. Como continuaremos a ler na
próxima conversa...