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18/10/2019

Bruges-la-Morte

Fernand Khnopff - Estudo para a capa do livro de Rodenbach


Wilson Baptista Junior
O post do Antonio sobre sua visita a Bruges me fez lembrar uma tia muito querida, monja beneditina; já falei dela por aqui, tradutora de livros, muito culta, grande coração, hoje lá em cima conversando com São Tomás de Aquino. Uma vez, voltando de uma viagem com a Ana a Paris, contei para ela de um passeio que tínhamos planejado a Bruges, presente do meu filho que tínhamos ido visitar, mas que acabamos não podendo fazer. E ela deu um sorriso misterioso e disse “Bruges la Morte”...
Quando perguntei porque esse nome, me disse que era por causa de um romance do século XIX. Mas tínhamos mais coisas que conversar, e não perguntei mais sobre o livro.
Naquele tempo, coisa de vinte anos atrás, não era fácil encontrar um livro desses, o dela já tinha se perdido há muito tempo, e acabei me esquecendo da história. Outro dia, conversando com o Antonio, falei disso e ele me sugeriu que lesse e escrevesse sobre o livro. Maravilhas do Kindle, minutos depois eu já o tinha na frente. Agradeço ao amigo, porque a leitura valeu a pena, tanto pelo romance quanto pela lembrança da tia.
Já na página de abertura o autor, Georges Rodenbach, nos avisa:
“Dans cette étude passionelle, nous avons voulu aussi et principalement évoquer une Ville, la Ville comme un personnage essentiel, associé aux états d’âme, qui conseille, dissuade, détermine à agir.
Ainsi, dans la realité, cette Bruges, qu’il nous a plu d’élire, apparaît presque humaine... Un ascendant s’établit d’elle sur ceux qui y séjournent.
Elle les façonne selon ses sites  et ces cloches.”
Traduzindo:
“Neste estudo passional, quisemos também e principalmente evocar uma Cidade, a Cidade como uma personagem essencial,  associada aos estados da alma, que aconselha, dissuade, determina a ação.
Assim, na realidade, esta Bruges, que nos aprouve escolher, aparece quase humana... Estabelece-se uma ascendência dela sobre aqueles que ali moram.
Ela os conforma segundo seus lugares e seus sinos.”
Na edição original, de 1892, bem de acordo com a intenção do autor, a história é ilustrada com trinta e cinco fotografias em preto e branco da Bruges da época; foi o primeiro livro de ficção ilustrado assim de que se tem notícia. Infelizmente, nem a edição disponível no Kindle nem a grande maioria das edições modernas trazem mais essas ilustrações.
Lido e apreciado o romance, mesmo assim hesitei um pouco em escrever este post, por causa da complexidade das descrições dos estados de alma que teria que resumir, e peço desculpas aos leitores porque, sendo um romance simbolista, não é fácil fazer uma resenha compreensível sem tomar emprestada uma parte das próprias frases do autor, então, se aqui e ali o leitor que já o tiver lido reconhecer algum pedacinho do original (espero que levando também em conta, se não ficar tão parecido, que se deve à minha tradução), não se espante.
Cais do Rosário, Bruges (cartão postal antigo)

A história começa com um viúvo, Hugues Viane, que se prepara para sair de sua casa, junto ao cais do Rosário, para seu passeio da tarde, como costumava fazer nos últimos cinco anos, desde que se mudou para Bruges, logo depois da morte de sua mulher. Seu casamento feliz e apaixonado de dez anos tinha terminado bruscamente com a doença fulminante que em poucas semanas levou embora a moça.
Quando a mulher morreu, Hugues tinha cortado a longa trança de seus lindos cabelos louros, e mandado fazer para guardá-la uma caixa de cristal pousada sobre o piano, mudo desde a sua partida. Para ele, a trança era a alma da casa. Nesses cinco anos, conservara intocadas as salas onde guardara seus bibelôs, suas almofadas, o biombo que ela mesma tinha feito, todos os móveis em que ela tinha repousado, e ele mesmo cuidava de sua arrumação, não confiando nem em sua velha e devotada empregada, Barbe, para tocar naquelas lembranças sagradas.
Ele sempre passeava no final da tarde, amava a tristeza de Bruges nesse horário. Por isso tinha se mudado para lá depois da morte da mulher; à tristeza de sua alma tinha que corresponder a da cidade:
“C’etait Bruges-la-Morte, elle-même mise au tombeau de ses quais de pierre, avec les artères froidies de ses canaux, quand avait cessé d’y battre la grande pulsation de la mer”.
Traduzindo:
“Era Bruges-a-Morta, ela própria inumada na tumba de seus cais de pedra, com as artérias congeladas de seus canais, quando neles havia parado de bater a grande pulsação do mar”.
Assim era para ele a cidade nessa hora triste. Parecia-lhe que a sombra das torres invadia sua alma, que os velhos muros e as águas lhe falavam baixinho, que “a lenta persuasão das pedras” lhe ordenava que não sobrevivesse à morte da amada.
Mas era justamente o seu amor, e a vaga esperança de revê-la no Céu que o impediam, católico que era, de se matar.
Bruges - Igreja de Notre Dame (fotografia de Wolfgang Daudt)

Nesse dia, voltando da igreja de Notre Dame, onde costumava ir para fitar o sepulcro da princesa Marie de Bourgogne, que representava para ele a visão do amor se perpetuando na morte, forçava o pensamento para reconstituir o rosto da morta, mas já o tempo fazia esmaecer a memória desse rosto. Quando, de repente, passou por ele uma moça que fez seu coração perder uma batida pelo tanto que se parecia com sua mulher, nas feições, no tamanho, no ritmo do seu andar e até nos longos cabelos louros tão amados, achou que estava enlouquecendo, ou que, à força de procurar sua lembrança, suas retinas a viam na figura alheia. E desse dia em diante, para sua confusão, quando se lembrava da morta era a desconhecida da véspera que via. E com toda a clareza, sem mais fazer esforço. A composição das duas imagens na sua alma tinha agora uma força de vida que lhe dava a ilusão de uma presença real do amor perdido.
Começou a olhar em volta, durante seus passeios, até que deu de novo com a moça, seguiu-a ainda absorto nas suas lembranças, e viu-a entrar no teatro (levavam uma ópera de grande sucesso na época, Robert le Diable, de Meyerbeer – com um dueto da qual, aliás, Alphonse Daudet faz graça no seu romance mais famoso ao apresentar aos leitores Tartarin de Tarascon, um de meus heróis de infância), e, apesar de que desde que enviuvara não tinha aguentado voltar a ouvir música, comprou um bilhete, entrou e sentou-se. Mas procurou-a em vão na audiência, até que, ao final da peça, viu-a... entrar em cena, como uma das bailarinas do coro que entrava em cena no último ato. Fascinado, não via nela a dançarina, mas a sua morta querida, saída do sepulcro, que lhe estendia os braços lá no palco...
Bruges - Teatro da Cidade (imagem Visitbruges.be)



Nos dias seguintes, informou-se do seu nome, Jane Scott, e de que ela morava em Lille, na França vizinha, a pouco mais de duas horas por trem, de onde vinha nos dias das representações da ópera.
Uma noite, tomou coragem e abordou a moça, que para aumentar sua confusão tinha uma voz igual à da sua morta. Voltou a abordá-la e a conversar com ela outras vezes, mas fora do teatro, porque para manter a ilusão preferia vê-la com suas sóbrias vestimentas em vez de com a maquiagem, os braços nus e as lentejoulas de cena.
Como se pode imaginar, com o passar dos dias e dos encontros uma atração diferente foi tomando conta dele e nosso viúvo começou, quando via e ouvia aquela em cuja imagem imaginava a morta, a sentir falta dos abraços, dos beijos, da intimidade perdida. E, para encurtar a conversa, terminaram por tornar-se amantes.
Primeiro no quarto do hotel onde ela se hospedava, depois numa casa que ele alugou para ela nos arredores da cidade. Fez com que ela deixasse o teatro. E, quando estavam juntos, procurava nos carinhos e nos gestos encontrar a sua ausente.
Mas Jane, que não sabia o que se passava, não compreendia o seu comportamento, diferente do dos outros homens. Sua insistência no modo de vestir, em não deixar os cabelos pintados de louro voltarem à sua cor natural, no seu ar triste mesmo nos momentos mais íntimos.
E no entanto Hugues estava feliz; a semelhança o fazia esquecer a dor, a própria cidade parecia menos triste, o tocar dos sinos, antes tão sombrio, já não parecia que tinha a ver com ele. A cidade cinzenta, dos canais imóveis entre as pedras antigas, do céu do norte, que gradativamente tornava as almas do seu povo também cinzentas e tristes, escolhida por ele porque se parecia tanto com sua melancolia, parecia ter se esquecido dele. Mas por seu lado ele se esqueceu de que Bruges, cidade antiga e conservadora, era também uma cidade pequena, e quando a ligação daquele senhor antes austero e de luto com uma dançarina, que todos sabiam quem era, inevitavelmente se tornou conhecida, logo se tornou a fofoca da cidade. E só a sua velha e fiel empregada, inquieta porque ele muitas vezes agora faltava ao jantar (coisa inédita até então), ainda não sabia do caso do patrão.
Hugues continuava a cultuar a morta toda manhã, ao ver nas salas fechadas os retratos, os objetos, os móveis, e mais do que tudo a trança dourada, mas agora era a semelhança da outra que ele via sem perceber. A trança intocada desde que fora colocada na caixa de cristal, relíquia preciosa que podia apenas contemplar. E depois – ia procurar Jane, como se fosse a última estação do seu culto, que trazia de novo à vida todas as lembranças. Mas nunca, em ocasião alguma, tinha falado à amante da mulher e de sua história, e menos ainda querido levá-la até sua casa.
Mas a internalização da semelhança o levou, um dia, a querer vê-la mais igual ainda à morta, e assim escolheu dois dos vestidos até aquele dia guardados em sua casa, embalou-os cuidadosamente  e levou-os para ela de presente. E, para sua surpresa, Jane (que não sabia da sua origem) os achou antigos, fora de moda, feios, pensou que ele estava zombando dela e disse isso sem papas na língua.
Perplexo, Hugues tentou persuadi-la a vestir ao menos um dos vestidos, querendo ver, confirmar a semelhança que existia em sua lembrança. Depois de muito insistir Jane vestiu um deles, zombando, dançando e levantando a saia para se ver melhor. E a semelhança naquele momento lhe pareceu farsesca, e viu nela a morta  aviltada.
Algum tempo depois Hugues deu a Barbe um dia e uma noite de folga, que ela aproveitou para visitar uma parenta que vivia na Beguinaria (as beguinas eram mulheres, geralmente solteiras ou viúvas, que não eram monjas mas escolhiam morar em conventos, algo parecido com as oblatas de hoje mas com regras menos rígidas. Hoje esse convento é ocupado pelas monjas beneditinas).
Vue du Béguinage depuis le Sud - Bruno de Simpel (1886)
Prédio central da Beguinaria  (fotografia de Marc Ryckaert)

          Mas toda a sua alegria se dissipou quando, após o jantar, sua parenta chamou-a em particular e contou as novidades sobre Hugues, dizendo que ela agora deveria deixar o emprego, que, na visão rígida da época,  se tornara incompatível com uma mulher honesta.
Confusa e inconformada, triste por ter que deixar um emprego que era sua última esperança de poupar o dinheiro necessário para, na velhice que se aproximava, poder se juntar às beguinas, ao sair dali no dia seguinte foi procurar seu confessor, na igreja de Notre-Dame, que após ouvi-la, conhecendo a virtude da serva, lhe disse que, embora o patrão fosse sem dúvida culpado, quanto a ela deveria pensar que, enquanto os encontros dele fossem fora de casa e aquela “mulher de má vida”, nas suas palavras, não pusesse os pés na residência onde ela trabalhava, podia continuar ali sem medo, mas se algum dia a amante entrasse no lar a empregada não poderia mais, ficando, se tornar cúmplice do pecado.
Enquanto isso Hugues, que, todo envolvido, não sonhava que seu affair fosse do conhecimento geral, e que a cidade toda sabia e comentava para onde o levavam suas saídas vespertinas, sentia uma grande desilusão. A tentativa de combinar a visão da viva com a lembrança da morta tinha, ao contrário, feito diminuir a semelhança entre elas. E, sem perceber que era o seu modo de olhá-la que tinha mudado, punha a culpa em Jane por estar diferente.
À medida em que a intimidade revelava as maneiras mais livres da amante, uma vivacidade vinda da atriz, uma maneira mais descuidada de se vestir e se portar em casa, a distinção e a reserva natural de Hugues se ofendiam. Ao mesmo tempo em que bebia o som amado de sua voz, se entristecia com as palavras que ouvia...
E Jane, cansada de seu mau humor, chegava tarde, preferindo passear pelas lojas do que voltar para casa. Hugues passou então a variar a hora de suas visitas, mas muitas vezes não a encontrava. E retomava então seus passeios pela cidade, sem rumo, e a cidade novamente se fazia para ele cinzenta, ah, tão cinzenta e triste...
Acabava voltando, sem sentir, ao cais do Rosário, deixando para ir ver a amante mais à noite. Em pouco tempo, porém, voltava a vontade de vê-la e lá ia ele de novo. Até que o cinzento da tardinha e o frio da garoa invadiam sua alma e o levavam de volta à dor da perda da mulher. Então, a alma cinzenta como a cidade ao cair da noite e triste como o soar dos velhos sinos, arrepiava carreira mas não conseguia voltar para casa, com medo da solidão e das lembranças.
Errava pela cidade, seus pensamentos se tornando tão cinzentos como ela, os olhos se elevando para as torres das igrejas chamados pelos sinos, querendo em vão se elevar como elas mas preso à terra, sentia-o agora, como se o seu pecado o acorrentasse à morte e ao diabo.
Não há como resenhar, aqui, o profundo simbolismo com que o autor descreve ao longo de toda a obra as mudanças na alma da personagem. Nem quão bem ele mostra como a personalidade, a alma mesma das cidades conforma a dos moradores: “nós entramos nelas, enquanto elas penetram em nós... Toda cidade é um estado de alma”. É preciso ler o livro, deixar que, como as cidades, ele entre em nossas almas para compreender.
O que mais deprimia Hugues eram os sinos, muitos, ininterruptos, como um ofício dos mortos incessante. Ele voltava ao seu antigo costume de parar nas igrejas, principalmente a de Saint-Sauveur, com a sua tristeza sepulcral que nem as muitas e belas obras de arte que a ornavam podiam espantar. E sonhava com a morte enquanto se ajoelhava para rezar.
Bruges - Catedral de Saint Sauveur  (imagem Wikipedia.fr - CC)

Um dia, ouvindo lá o sermão do padre, ele se convenceu definitivamente que o seu pecado o separaria para sempre da morta amada, que a morte eternizaria a ausência que ele pensara temporária.  Desse dia em diante, a ideia do seu pecado o apunhalava. Mas assim também o torturava a de deixar Jane e voltar à solidão.
E o tempo todo a cidade e os seus sinos o admoestavam e o pressionavam. Como se estivessem, visíveis e sensíveis, rodeando-o e insistindo.
Para ele, cada vez mais, a lembrança da morta se dissociava da visão da amante. Já detestava, sem conseguir dissuadi-la, a maquiagem de cena que ela voltava a usar, tão diferente da morta; as discussões, inauditas nos tempos do casamento, as contas trazidas pelos fornecedores das compras de roupas e jóias que ela fazia a crédito, valendo-se do bom nome do amante.
Jane agora começava a sair para visitar amigas (velhas amizades retomadas, assim pelo menos dizia), uma vez até viajou por dias para visitar uma irmã doente em Lille de que nunca falara a Hugues.
As suspeitas que inevitavelmente afloraram nele acabaram se confirmando com as cartas anônimas, com acusações, com provas, que foram se avolumando em sua caixa de correio com toda a maledicência de uma cidade provinciana.
Para Hugues, chegava. Era como se a morta morresse de novo com a desilusão e o engano. E ele foi à casa da amante, sem raiva, infinitamente triste, para terminar com ela. Contou-lhe tudo, ante a fingida incredulidade dela mostrou-lhe todas as provas.
Mas quando ela, com um riso cruel, furiosa, gritou que não importava que fosse verdade, e que ela já não queria ficar ali, que ia embora, por um instante, vendo não mais a figura da morta, mas da mulher que ele, apesar da ilusão e do engano, tinha também amado, a ideia de voltar a ficar só, sem ninguém entre ele e o peso dos sinos na reprovação das pedras da cidade cinzenta, desesperou-se e implorou-lhe que ficasse...
Jane, aventureira esperta, percebeu o poder que tinha sobre o pobre Hugues, e imaginou que, ele sendo mais velho, em má saúde, gasto pelas tristezas, provavelmente não viveria muito, e que ela seria uma idiota de perder a oportunidade de conseguir uma herança que supunha de bom tamanho, porque ele era um solitário e todos o consideravam rico.
Daí para a frente ela moderou seus modos, tornou-se mais prudente, e quis mesmo visitar a casa de Hugues, visita que ele nunca lhe tinha permitido, para saciar sua curiosidade de conhecer essa vasta residência, e fazer, digamos assim, um inventário da sua riqueza par tomar uma decisão.
Para convencê-lo a deixar ver a casa tornou-se afetuosa, grudenta mesmo, e quis aproveitar a ocasião que se apresentava da procissão do Santo Sangue, onde no dia da Ascensão levavam pela cidade o relicário de ouro com um pouco do sangue de Cristo que tinha escorrido da ferida de lança que o soldado lhe fizera na cruz, e que a crença popular dizia que nesse dia se tornava novamente líquido; ela nunca tinha assistido a procissão, passava longe do seu arrabalde, mas passaria bem debaixo das janelas da casa de Hugues que davam para o cais do Rosário.
Depois de alguma dificuldade e de muita persuasão conseguiu convencer o amante.
Na manhã do dia santo, a velha Barbe foi logo à primeira missa, e começou seu trabalho anual de ornamentar a casa, por dentro e por fora, para o dia de festa. Era um dia que enchia de felicidade sua alma beata, uma ocasião de testemunhar sua devoção em conjunto com a cidade. Mas na hora do almoço, surpresa! O patrão a chamou e avisou que receberia uma pessoa para o jantar, e que ela tomasse as necessárias providências.
Ora, isso nunca tinha acontecido, a depois da primeira surpresa uma desconfiança gelou o sangue da velha: E se fosse a tal mulher perdida de que haviam lhe falado na Beguinaria? Abrir a casa a tal mulher, no dia em que o próprio sangue de Jesus ia passar à porta?
Como quem não quer nada, perguntou ao patrão quem seria a pessoa convidada, e ante sua negativa atreveu-se a perguntar se era porventura uma senhora, porque se fosse não poderia servir-lhe o jantar, porque seu confessor a proibira. Hugues, estupefato, demorou a compreender quanto era ruim a reputação de Jane para que a velha e fiel empregada tomasse uma decisão dessas, mas quando teve a certeza do porque da recusa, disse simplesmente que ela podia ir embora naquele momento, e que voltasse no dia seguinte para recolher suas coisas.
Barbe se foi, e Hugue, ouvindo a porta bater, sentiu remorso e tristeza por perder de tal maneira alguém que tinha feito parte de sua vida, e irritação ao pensar que isso era por causa de uma mulher que já o tinha feito sofrer tanto.
E começou a pensar no que sentiria a morta com a chegada, ao lar ainda cheio dela, da outra...
Jane chegou, brusca, imperiosa. Subiu com ele ao quarto, e ouvindo a música da procissão que se aproximava, abriu as cortinas para ver, contra a vontade do dono da casa, que tinha medo do escândalo. As pessoas na rua olharam para ela, e Hugues, perdendo a paciência, fechou violentamente a cortina. Quase transparente, permitia ver o bastante sem ser visto. Jane, amuada, sentou-se no sofá, longe da janela, e ele ficou observando a procissão, já detestando a presença da amante.
Bruges - Procissão do Santo Sangue (cartão postal antigo)

A magnificência da cerimônia o distraiu, e quase se esqueceu da presença de Jane. Mais adiante, lembrou-se dela, e, como homem distinto, contrafeito tentou fazer as pazes, mas só recebeu de volta um olhar irritado e um riso sarcástico. Profundamente triste voltou para a janela e continuou a olhar a procissão.
Passado o bispo com o relicário de ouro que levava o Santo Sangue, Jane percebeu o afastar da música e sem uma palavra colocou o chapéu se preparando para partir. Desceu as escadas em silêncio, mas, passando pelas portas das salas, que Barbe deixara abertas, entrou para vê-las, e examinava tudo, indiscretamente, quando viu um retrato da morta. Não sabendo do que se tratava, pegou na moldura com ar de chacota dizendo: “Olha, tens o retrato de uma mulher que se parece comigo!”
Hugues, furioso, gritou-lhe que largasse o retrato, e quando ela, sem compreender, riu de novo, tomou-o das mãos dela, sentindo profanadas as lembranças que apenas tocava com a maior reverência. Jane, irônica, passou à outra sala, mexendo em tudo, mudando de lugar os bibelôs, até que se deteve com uma grande risada à frente do precioso cofre de cristal, e, espantada e divertida, retirou de dentro a trança dourada e sacudiu-a no ar como uma echarpe de dançarina.
Hugues empalideceu, com aquele sacrilégio todas as desilusões, todos os sofrimentos, todas as suspeitas reprimidas lhe vieram à cabeça e lançou-se sobre ela para lhe tomar a trança sagrada. Mas Jane, interpretando mal seus movimentos, fugiu por detrás da mesa, enrolando a trança no pescoço como um boá e desafiando-o a tomá-la dela. E Hugues, correndo atrás da mulher que se esquivava rindo, perdeu o controle, o sangue lhe subiu aos olhos, agarrou as duas pontas da trança e puxou com toda a força, para tomá-la da profanadora. E, sem que tivesse essa intenção, estrangulou a pobre amante, que não soubera compreender o grande mistério da sua alma.
Quando sua visão clareou, contemplou os destroços de sua vida: Barbe o deixara, Jane jazia morta, na sua palidez era novamente a imagem da morta como se aquela tivesse morrido de novo...
No silêncio do final da procissão chegou o som dos sinos, todos os sinos da cidade tocando juntos, celebrando a volta do Santo Sangue à catedral. E Hugues ficou ali atordoado, repetindo, na cadência do seu dobrar, “Morte... Morte... Bruges-la-Morte...” sem saber se o som de bronze se derramava sobre uma cidade ou sobre uma tumba.


14/10/2019

Bruges, um pedaço do Paraíso

Fotografia: Mark Willems - visitbruges.be


Antonio Rocha
Penso que a pintora/desenhista/gravurista mineira Ana Nunes acertou quando disse, ao ler a forma como eu descrevia a minha passagem pela Bélgica em julho passado. Ela referiu-se a um “paraíso”. De fato, concordo plenamente.
Então vou lhes contar um trecho da aventura. A primeira vez que eu ouvi falar nesta bela cidade que tem mais de novecentos anos foi nos anos 1980, quando eu era colaborador do Segundo Caderno de O Globo, na área de resenhas literárias.
Nessa época o crítico de arte Frederico Morais lançou um livro de crônicas de viagem e de arte intitulado “Chorei em Bruges”, entre outras, ele falava de sua emoção em caminhar pelas ruas daquela cidade medieval e não teve como conter as lágrimas de alegria e de felicidade turística/artística.
Depois, um sobrinho adolescente foi participar de um intercâmbio estudantil na Bélgica e a família que o acolheu morava em Bruges. Em seguida, minha filha com quinze anos acompanhada da mãe, minha esposa e mais uma irmã desta foram passear pela Europa via Bruges. Foi o bastante para eu informar a mim mesmo: “belo dia eu vou lá”.
Então como a Roda da Vida Budista não pára, eis que em 2019 fui visitar minha filha, marido e netinha na Bélgica. E num dia de sol do verão belga fomos até Bruges. Auto-Estrada maravilhosa! Até o estacionamento subterrâneo é bonito e prático.
Antes de viajar, conversei com minha geriatra e ela sugeriu:
- Nos passeios, para não ser surpreendido pela vontade e ter que prender até resolver o assunto, faça um xixi profilático.
Mesmo não tendo vontade na hora, se conversarmos com os órgãos correspondentes acontece o “xixi profilático”, Atendido ao “chamado da natureza”, como declarava o Senhor Buda, eu ficava bem aliviado e podia caminhar feliz por longo tempo contemplando as belezas de Bruges.
Minhas duas irmãs que nos acompanhavam, a todo momento paravam para os “selfies”; o genro e a filha têm também os tais celulóides, como eu os chamo. Entretanto eu e Heloisa somos um casal do tempo das Araucárias, não temos a modernidade do telemóvel, como falam os queridos portugueses. Antes nos identificávamos como “jurássicos”, mas aprendi, recentemente que a árvore brasileira Araucária, que habita as regiões paranaenses vem da Era dos Dinossauros. Ora, achei bem mais poético definir-me como do Tempo das Araucárias do que jurássico/dinossáurico.
Por outro lado, não tenho o talento do Moacir Pimentelji que escreve vários parágrafos sobre os mínimos detalhes de um torre quase milenar. Assim fica só o pequeno artigo registrando os passeios de barco pelos canais da Veneza do Norte, como Bruges é conhecida.

10/10/2019

O caminho do rio

fotografia Moacir Pimentel


Moacir Pimentel
As ribeiras do rio Tâmisa são fascinantes. E a que é chamada de South Bank é uma das áreas mais históricas de Londres. Ao longo do seu famoso “River Walk” – o “Caminho do Rio” - da Ponte Lambeth até a Ponte da Torre ela nos conecta com muitas das principais atrações do rio e da cidade.
No século XVII essa região ficava fora dos limites da cidade e, portanto, era muito menos controlada. Assim, a indústria de entretenimento para adultos nasceu e cresceu naquelas paragens: os bordéis, os teatros, as lutas de galo e as arenas que sediavam os sangrentos mas populares espetáculos com ursos e touros acorrentados a uma estaca enquanto eram atacados por um bando de cachorros - geralmente buldogues ou mastins - que o distinto público tanto apreciava e apostava.
Pode-se ver essas esquinas londrinas de “táxi aquático” ou de uma balsa em viagens entre as suas docas, mas a melhor maneira de conhecê-las é a pé. Com direito ao County Hall, o prédio que depois de ter sido a sede do governo do condado de Londres, foi convertido no Aquário e em um museu de arte. É por ali que moram também o BFI Southbank – o Instituto de Cinema Britânico que narra a história do cinema e da televisão - e o Teatro Nacional, o maior da cidade, com três auditórios.
A Corça Dourada (fotografia de Diego Delso, delso.photo, License CC-BY-SA)
Vale a pena dar uma olhada na Catedral de Southwark, uma das igreja mais antigas de Londres, usada desde 852 como um local de culto, e na réplica do Globe Theatre de Shakespeare, um teatro ao ar livre exatamente como a gente viu no filme Shakespeare Apaixonado. Para não falar do famoso navio HMS Belfast, parte do Museu Imperial de Guerra, e é claro, da réplica do Golden Hind de Drake que está localizada perto da doca de nome Santa Mary Overie, uma santa nativa que supostamente teria financiado a construção da Catedral.

O Golden Hind – ou Corça Dourada – foi um galeão português que circunavegou a Terra entre 1577 e 1580, capitaneado por Sir Francis Drake. O navio fora batizado como O Pelicano mas , em plena viagem, Drake decidiu mudar-lhe o nome por uma questão de marketing. Explico: o brasão heráldico do patrocinador das suas aventuras, Sir Christopher Hatton, tinha uma corça como tema (rsrs)
Em 1577, a rainha Elizabeth I também patrocinou parcialmente essa expedição destinada a passar pela América do Sul através do Estreito de Magalhães e a explorar as costas que se encontravam além. Dizem que no porto, antes de navegar, Drake e a rainha se encontraram pela primeira vez e que na ocasião ela disse-lhe: "Com que alegria seremos vingados da ofensas que recebemos do rei da Espanha". Ou seja, Drake tinha aprovação oficial para beneficiar a si mesmo e a rainha e atuou como um corsário, com o apoio dela, para causar o máximo de dano aos espanhóis, uma prática que culminaria na guerra anglo-espanhola.
Mas não pense que essa réplica colorida do galeão é só para inglês ver. Nada disso. Ela foi o resultado de três anos de pesquisa detalhada e construção, a mais tradicional e profissional possível, no estaleiro de Appledore. Lançada ao mar em 1973, desde então e até ser ancorada definitivamente na doca de St Mary a Corça já percorreu mais de duzentos e vinte cinco mil quilômetros mares afora, tendo completado outra circunavegação e muito mais.
No South Bank também encontramos alguns daqueles perigosos locais para as “comprinhas”. Um deles é o badalado Gabriel’s Wharf – A Doca do Gabriel - que é nada mais nada menos do que uma grande coleção de lojas e estúdios pertencentes a artistas. As fachadas de cores vivas são todas antigas garagens de barcos reformadas e um coreto ocupa o centro da pracinha rodeado por mesas e cadeiras nas quais se pode tomar um ou dois cafés sossegado enquanto se observa o mundo passar.
fotografias Moacir Pimentel

O outro paraíso de consumo é a vizinha Torre OXO. O prédio era originalmente uma estação de energia construída por volta de 1900, que logo se tornou obsoleta e foi comprada pelos proprietários da marca OXO. Eles queriam exibir um grande neon publicitário, mas a permissão foi negada. Então o arquiteto teve uma idéia literalmente brilhante. E se ele projetasse janelas especiais para os quatro lados do topo da torre? Que tal dois círculos um acima do outro e uma janela gradeada por um grande em X no meio? Quem poderia se opor a isso? Ninguém, e até hoje quando as luzes são ligadas a logomarca OXO brilha para quem a olha dos dois lados do rio.
Na realidade tanto o Gabriel's Wharf quanto a Torre OXO são vitórias do povo do bairro na guerra contra os empreendedores e demolidores. Durante séculos, Southbank fora uma terra desolada, mas durante o século XIX foi ocupada por moradias mal construídas e baratas destinadas a quem chegava à capital, vindo do campo, atrás das oportunidades de trabalho geradas pela Revolução Industrial.
Durante a guerra a Luftwaffe fez melhorias, demolindo uma parte das feias construções evacuadas, só que o governo e os empreiteiros passaram a substituí-las por prédios de escritórios menos atraentes ainda. Então algo aconteceu: os moradores deram um basta. O que eles queriam eram casas e lojas e o seu rio de volta. Então se organizaram e compraram a terra e começaram a demolir os escritórios odiados, redesenhando o Passeio do Tâmisa e ajardinando o rio.
Um dos pequenos parques é chamado Bernie Spain Gardens, um dos membros da organização dos moradores que, não se dando por satisfeitos, estabeleceram e aprovaram leis regulando as construções e assumiram a Torre OXO abandonada que teve seus escritórios transformados em lojas de design.
Last but not least é uma maravilha poder ver, no inverno, as obras-primas dos museus sem ter que abrir caminho com os cotovelos através de um bando de turistas! Aliás os museus londrinos também são lugares perfeitos para se abrigar do frio. Neles sempre se pode tomar um café antes e outro depois e os cafés são as únicas coisas pelas quais se paga porque visitar e/ou ver os acervos permanentes de alguns dos melhores museus da cidade é cortesia das casas. Quais?
Bem, que tal levar as crianças grandes e pequenas para ver os esqueletos dos dinossauros do Museu de História Natural? Quem sabe fazer par ou impar entre Museu da Ciência e o Marítimo Nacional, que escancara a história naval da Grã-Bretanha, desde batalhas marítimas até as expedições exploratórias?
É complicado decidir entre visitar o Museu Vitória & Alberto para se perder nas galerias e retraçar a história da criatividade na coleção dos monarcas através de pintura, mobiliário, escultura, fotografia e jóias etc ou passar uma tarde no Museu de Londres que narra a história da cidade desde os tempos pré-históricos. Como escolher entre ver as novidades da Tate Moderna ou ir na Britânica, conhecer as coleções de telas de Turner, Gainsborough, Whistler, Bacon e Hirst?
fotografia Moacir Pimentel

Devo confessar que às vezes nem saio de Trafalgar Square por causa da National Gallery bem ali me “dando mole” e onde até as visitas guiadas e as exposições temporárias são grátis. A Galeria expõe mais de duas mil obras da Idade Média ao século XX, entre as quais uma das Virgens das Rochas e a Ginevra De’Benci de Leonardo da Vinci, a Festa de Belshazzar e vários auto retratos de Rembrandt, outros tantos de van Gogh – além dos Girassóis! – A Mulher com a Balança de Vermeer, as Vênus de Vélazquez e Botticelli, o lindo Retrato de uma Dama de van der Weyden, duas Madonas de Rafael, o Número 1 de Pollock, o Sepultamento do Cristo e a Madona Manchester de Michelangelo, a Ceia de Emaús e o Rapaz Mordido por um Lagarto de Caravaggio, a Sinfonia em Branco de Whistler, o Retrato Arnolfini de van Eyke, os Embaixadores de Hans Holbein, e muito mais de Ticiano, Bellini, Canaletto, Piero della Francesca, Picasso, Matisse, Degas, Renoir, e Monet!
E quando cansa? É só vestir o casaco, sair para respirar e observar as gentes na praça... Às vezes até volto para o nosso hotelzinho a cinco minutos a pé de Trafalgar, tomo um chuveiro , troco as meias e estou novo! Meias suadas, no meu dicionário, são sinônimo de calos. Perigo!
fotografia Moacir Pimentel

E almoço e bebo muito tinto sem medo de ser feliz pois com o frio não “pega” nada... ou tanto (rsrs) Mas dá ânimo para esticar, a pedido dela, no Museu da Infância, onde todos são criança de novo, por um dia, entre brinquedos, jogos e bonecos confeccionados desde o século XVI até hoje quando na verdade queria mesmo era dar um pulo rapidinho na British Library, para olhar de novo os Cadernos de Leonardo. Fazer o quê?
Já perdi a conta de quantos europeus me disseram - com uma piscadela d’olho! - que o problema não é o frio, mas as roupas e a companhia. E é verdade. Ter o equipamento certo e quente e leve é essencial (rsrs) Na verdade o clima na Inglaterra é terrível durante todo o ano, então, pelo menos no inverno, o frio é sazonalmente apropriado. Por incrível que possa parecer - mas como você pode constatar pelas fotos! - por mais frio que nos tenha reservado, Londres já nos deu de presente de Natal alguns céus azuis de verão.
Por lá sempre terminamos encontrando uma “rua de bolso” escondida em algum canto para desvendar, longe das correntes de ar e recheada de pubs aconchegantes, onde se pode desabar em uma cadeira confortável depois de mais um crepúsculo de arrepiar. Ou onde, em um dia particularmente cinza com folhas e chuva caindo junto com a temperatura lá fora, um simples café no meio da manhã se transforma em um trago e, em seguida, em um loooongo almoço.
Caminhar no inverno tem as beleza e emoção próprias das grandes paisagens britânicas em dezembro: os eventos musicais, corais e mercados de Natal – como o da foto realizado na ribeira a poucos metros da Tate Modern - com direito a barraquinhas de madeira, artigos de artesanato, salsichões, doçaria, as famosas casinhas de pão de mel, biscoitos de gengibre, e vinho quente - que a moçada não é de ferro e precisa se esquentar!
fotografia Moacir Pimentel

Há algo especial, prazeroso mesmo, no desconforto das roupas lutando contra o frio, na novidade, no desafio, na maior necessidade de calor humano das aventuras invernais(rsrs) São os obstáculos e os percalços que fazem as melhores viagens e as mais memoráveis histórias.
Continuaremos a caminhada na próxima...


06/10/2019

Um livreiro à moda antiga

fotografia WBJ


Wilson Baptista Junior
Hoje em dia é muito fácil comprar pela internet, tanto procurar o produto quanto fazer o pagamento e receber a compra em casa. Já se tornou coisa rotineira.
Em compensação temos uma completa impessoalidade na relação cliente/fornecedor e ocasionalmente dificuldades se por acaso a compra não nos satisfizer ou o produto vier com defeito.
Mas, nem sempre...
Teoricamente aposentado, depois de muitos anos como executivo, consultor de empresas e professor, trabalho de vez em quando com traduções e versões de vários tipos para a empresa especializada em linguagens de um de meus sobrinhos, a Fale Alfa.
Semanas atrás, tendo que verter para o inglês com prazo curto alguns documentos contábeis (traduções certificadas, onde o tradutor assume responsabilidade civil pela exatidão de um trabalho que pode ter utilização legal), senti falta, para maior segurança, de um dicionário de contabilidade português/inglês.
Achar um dicionário destes inglês/português é fácil, a necessidade do mercado já produziu diversos, e também a minha vida em empresas me deixa bastante à vontade em entender demonstrações financeiras em inglês. Mas o contrário já é, como costumamos dizer por aqui, “outra conversa”.
Depois de procurar um bocado só consegui achar um que me pareceu resolver, mas infelizmente era uma edição esgotada. Como costumo fazer nesses casos recorri ao site “Estante Virtual”, bem conhecido, que reúne informações sobre o acervo de diversas livrarias e sebos. Bingo! lá estava o livro. Entre as poucas opções encontradas, nenhuma das quais minha conhecida, escolhi a oferta de uma livraria chamada Rio de Letras e fiz pelo computador a compra e o pagamento.
Passado o prazo normal, o correio entregou um pacote muito bem embrulhado em papel pardo, que a Ana recebeu quando chegava em casa e me trouxe.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi o endereçamento manuscrito, numa caligrafia segura que hoje não se encontra mais por aí.

A segunda coisa foi a falta da nota fiscal de venda, que geralmente vem colada do lado de fora do pacote.
Depois de retirar o papel de embrulho, meticulosamente selado com fita adesiva, encontrei o livro num saquinho plástico fechado, para evitar qualquer problema de umidade no trajeto. Mas antes do envelope havia um bilhete, também manuscrito:
“Prezado Wilson, bom dia! Este livro (é) brinde. Peço desculpas pois não tenho mais este livro no meu acervo, desta forma estou fazendo o ressarcimento do valor pago pelo livro. Dentro deste livro que fica como brinde está a quantia de 17,00 reais referente à devolução. Renovo minhas desculpas, estou à disposição para qualquer dúvida. Atenciosamente, Amorim”
Seguia-se o número de um telefone celular, que deve ser o do senhor Amorim.

O livro enviado era o da fotografia que abre este post. Com o dinheiro entre as suas folhas. Tive a curiosidade de verificar, não encontrei outro exemplar à venda cá pelas nossas terras.
Fiquei algum tempo olhando para o livro e o bilhete, e pensando que dos dezessete reais pagos e agora recebidos de volta, dez eram pelo livro e sete pelo frete. O livreiro, de quem eu nunca tinha sido cliente antes e que nunca tinha me visto, teve o trabalho de escolher um de seus livros, embalar com todo o cuidado e mandar para mim gastando de frete quase o preço do livro encomendado para me devolver a totalidade do que eu tinha pago, quando poderia simplesmente ter devolvido o dinheiro sem custo através do banco.
Uma atenção que já não se encontra mais e que me lembrou alguns antigos livreiros que tive a sorte de conhecer, como o senhor Van Damme, dono de uma livraria que infelizmente já fechou mas marcou gerações de leitores da minha cidade, o velho senhor Amadeu do sebo famoso que ainda leva o seu nome, e outros de velhas livrarias daqui.
Peguei meu telefone e mandei uma mensagem para o senhor Amorim, agradecendo a atenção e dizendo de minha alegria de encontrar um livreiro da velha escola.
O livro parece muito interessante, pelas primeiras páginas que já li. Um tratado extenso do uso de ervas na medicina tradicional chinesa, com boa indexação cruzada entre as ervas e as doenças que são usadas para curar. Quem sabe com ele podemos ter a esperança de seguir pelo chang shou dao, o “caminho da longa vida” dos chineses? 
O tempo dirá.


02/10/2019

Paixão antiga

Paul Klee - Vista de Kairouan (1914)


Ana Nunes

Hoje vou falar de paixão antiga porque fui a uma bela exposição de Paul Klee, paixão minha desde que fomos apresentados. Exposição de nome Equilíbrio Instável, bem climatizada com duas portas em cada saída e entrada, onde uma só era aberta depois de fechada a outra, para manter a temperatura.
Tivemos sorte, o Mano e eu, de chegarmos lá numa tarde de quinta feira, tudo vazio e fresquinho e escuro. Vi tudo, li quase tudo e voltei maravilhada. Celebrei com Heineken!
Lá fiquei sabendo do Paul Klee músico, filho de músicos, que com sete anos começou a tocar violino. Aos onze era membro honorário da Sociedade de Música de Berna.

Bem novinho a avó Anna Catharina, ilustradora de livros, colocou lápis e pincéis em suas mãos. O que fez surgir lindos desenhos pequenos como suas mãos. Guardados pela irmã passaram por muitas outras mãos até chegarem aqui para meu deleite. São traços delicados a lápis em pequenos formatos, cheios de detalhes e movimento. Tem almoço em família, tem carroça pioneira puxada por cavalo. Lógico, me lembrei dos netos. E amei ainda mais esses desenhos infantis. Preciosidades.

Paul Klee - Desenhos (1883 / 1885)

Com suas duas artes, e música e os desenhos e pinturas, Paul Klee se atormentou pela vida afora. Diversas vezes largou uma pela outra. E de outra vez largou as duas por um sabático pelos bares e mulheres. Vida e boemia. “...disse interiormente adeus à literatura e à música. Deixei de me esforçar para adquirir uma experiência sexual refinada neste caso particular. Praticamente não penso nas artes plásticas, só quero cultivar minha personalidade”, palavras suas escritas no seu Diários.

Paul Klee - desenho (1925) / Esboço para aula (década de 1920)

Vale a pena ler suas opiniões sobre a música, apogeu e decadência segundo ele, que não se interessava pelos novos compositores, ignorando Schönberg e seu círculo.
Num concerto conheceu a pianista Lily Stumpf com quem se casaria depois desse tempo de esbórnia(!) Com ela tocou em diversos concertos e festas e teve um filho, Felix. Por um bom período foi “dono de casa” cuidando dele e das tarefas domésticas. O que, com certeza, travou sua criação artística levando-o a um desenvolvimento tardio. Mas com Felix certamente descobriu a delicadeza e a simplicidade nos desenhos. Mas se pensarmos em infantilidade e ingenuidade nos seus trabalhos estaremos nos enganando. Por trás deles existe um homem estudado, viajado, conhecido de Seurat, Matisse, Derain, Toulouse Lautrec, Edvard Munch, James Ensor. Mais tarde Kandinsky. E Picasso e os cubistas. Admirava e reconhecia a importância de Paul Cèzanne mas não chegou a conhecê-lo. Deve ter sofrido boas e belas influências desses artistas todos porque ninguém passa incólume por essas artes admiráveis. Estudou com Macke a teoria da cor de Robert Delaunay.

Passeou pelas águas-fortes num ciclo de onze gravuras chamadas Invenções. Leves, delicadas e estranhas. Segundo li na exposição “a série reflete sua visão cética de mundo e seu desdém pelo código de conduta burguês próprio daqueles anos.”

Paul Klee - Fênix Envelhecida (1905)

No meu gosto e afeto Paul Klee ganha o mundo com suas aquarelas feitas na Tunísia.

Klee ensaiava nas cores a sua arte. Mas sabia do caráter artificial delas porque ainda não era a sua criação. A viagem ao oriente veio lhe dar essa autonomia tão desejada. No diário, mais tarde publicado, escreveu: “Fico possuído pela cor; não preciso de ir à procura dela. Ela possui-me para sempre, sei-o.”
Para mim lá ele produziu seus mais belos trabalhos, com a sobreposição de cores, transparência e leveza das aquarelas.
Numa de suas últimas obras na viagem, As Portas de Kairouan, teve a certeza de ter se tornado pintor. Segundo ele, nela conseguiu se afastar do objeto e abstrair-se dele.

Paul Klee - Ãs Portas de Kairouan (1914)




Paul Klee - No Estilo de Kairouan (1914)

Na Primeira Guerra Mundial Klee perdeu Mack, seu companheiro de viagem. Também Franz Marc, um grande amigo. Ao contrário de seus amigos perdidos serviu durante a guerra como oficial. Nesta época Klee tornou-se socialista apesar de um certo ceticismo. Falava de si como “globalmente revolucionário”. Segundo suas palavras falando do socialismo disse que não lhe “seria hostil, pois é o único movimento honesto”.
Ainda nesse período integrou a Bauhaus que reunia a antiga Escola Superior de Belas Artes e a antiga Escola das Artes Decorativas. Foi uma tentativa de agrupar os vários ramos da arte. Lá estudou seu filho Felix que mais tarde viria a se tornar diretor de ópera onde ironizava e brincava sobre a vida na Bauhaus. Klee criou fantoches maravilhosos que estavam na exposição a que fui, ricos, criativos, parecendo feitos com materiais recicláveis. Deles se utilizou Felix para essas encenações.

Paul Klee - Marionetes Para Meu Filho (1916 - 1925)

Ainda vi sua série de anjos alados muito loucos. Me pareceram influências do cubismo em suas formas fragmentadas.

Paul Klee - Anjos (1939)

Depois de Túnis, onde começou a se abstrair do objeto, foi ao Egito. Mas relatou em carta para Lily que as experiências de lá não eram tão puras quando as de Túnis.
Daí partiu para quadros muito abstratos, de linhas e quadrados coloridos. Por essas minhas bandas muitos professores e artistas beberam nessa fonte. Normal! Com certeza também eu bebi nessa fonte de água pura chamada Klee.

Paul Klee - Tapete - Caminhos Principais e Caminhos Secundários (1929)

No final de sua vida foi acometido pela esclerodermia, doença autoimune degenerativa que ataca tecidos conjuntivos, a pele e às vezes órgãos internos. Mas não abandonou sua arte. Usava pincéis com espontaneidade. “...simplificação técnica de um lúdico encantamento com o grotesco”. Certamente lúdico mas nem tão grotesco. A sua pintura Flora no Rochedo é linda de nome, de cores e de grafismos. Amo Paul Klee! Em qualquer fase onde esteve!

Paul Klee - Flora no Rochedo (1940)

Paul Klee nasceu e morreu em Berna, na Suíça, em 1879 e 1940 respectivamente.
E assim, ainda cheia de coisas por dizer, vou guardar meu livro de folhas soltas de tão folheado, rasgar minhas anotações e reler o Diários (que foi escrito na intenção de ser publicado) onde Paul Klee coloca, entre outros textos, as cartas que escreveu para Lily durante sua vida. 
Só para ficar mais perto.

Paul Klee - Ad Parnassum (1932)

Será influência do pontilhismo de Seurat?