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09/09/2020

Música de rua

Street Horn Player on Washington Square (fotografia David Shankbone - Wikimedia Commons)


Heraldo Palmeira
Escrevo no inverno. Como um memorial recente. Correm dias muito frios. Açoitam nosso calor com um isolamento que começou no fim do verão e já atravessou o outono até aqui, sem data para nos trazer uma primavera com flores em cores plenas.
Os dias no bairro nobre estavam correndo diferentes. Reinava um silêncio que parecia novo, como se houvesse um desânimo nos sons invisíveis de sempre. Sem origem clara, sem formas, sem tempo certo. Apenas o sotaque da cidade.
Faltava aquela algazarra cotidiana dos empregados do comércio. O palestrado dos motoristas no ponto de táxi. O vozerio ao redor do balcão da lanchonete da esquina. O tilintar de vidros e alumínios de copos e panelas no boteco preparando o almoço de comida caseira. As buzinas, freadas e arrancadas nos desencontros amarelos entre os verdes e vermelhos dos faróis das esquinas. Tudo o que chamamos de sons urbanos parecia agora matriculado numa escola de etiqueta, estava recolhido em sussurros.
Podia ser o medo, tão humano, do desconhecido espalhado pelos recantos mais escondidos. A saudade dos colegas que perderam empregos e o temor de também engrossar a fila. Ou a falta de assunto imposta pela hegemonia do tema e das vozes dominantes na mídia.
Carros de menos, poucas pessoas pelas calçadas demonstrando pressa alguma. Mascaradas. Quase um clima de filme de ficção científica, embora o cenário fosse o de sempre, as ruas que faziam parte da vida dos moradores e transeuntes costumeiros. As nossas ruas e becos. Becos que, naquela região, eram redutos ainda mais refinados, pela exclusividade.
O quarto era amplo, de fundos. Pela janela, eu via os fundos do casario de uma rua com portão, espécie de vila – outro requinte do lugar –, e de outros prédios da rua de trás da minha. O sossego, que já era tônica antiga por ali, andava ainda mais sossegado. Havia uma calma boa de desfrutar, mas trazia algo como culpa de não fazer nada por obrigação. Eram tempos esquisitos!
Foi dali que assisti a uma live sugerida por um amigo. Não vi apenas olhando a telinha. Estava numa janela adiante o cara que eu via também transmitido pelo mundo virtual. Era como se eu estivesse num making of da vida em curso.
Do meu ponto de observação, eu tinha a solenidade recortada pelo espaço do cristal líquido e o resto de elementos comuns da casa. Como a mulher linda que trocava peças de roupa diante de um espelho enorme fora do alcance da câmera.
Estávamos tendo dias bonitos, arejados e com sol. O inverno veio brando e ficou assim, garantindo amenidade na maior parte do seu período no calendário das quatro estações. Estava cumprindo o riscado previsto pelos meteorologistas. Mas, como tudo e todos naquela travessia, saiu do eixo por alguns dias congelantes.
Nos fins de tarde sempre chegava um som pela janela. Eram instrumentos de sopro. Difícil localizar a origem – havia um ginásio de esportes, dois pequenos clubes e mais um quartel nos arredores. O repertório misturava marchinhas e músicas populares do repertório de bailes.
A manhã do sábado parecia trazer o convite para uma caminhada leve. Por volta das dez, o som dos metais começou a chegar pela janela do quarto, da sala, da área de serviço e da cozinha onde eu terminava de tomar café.
O repertório estava repleto de Roberto Carlos, Sinatra, bossa nova e standards americanos e italianos. Aplausos e, aqui e ali, uma voz ou outra gritava “bravo!”. A quantidade de prédios da metrópole gerava a propagação que trazia a impressão de um som em 360 graus.
Havia uma certa falta de equilíbrio nos volumes dos instrumentos nas execuções, muitas notas pulavam dos locais onde deveriam estar. Pensando bem... E daí?
Caminhei sem pressa, como todo mundo. Mascarado! Dobrei a esquina da rua de trás da minha e o som da música aumentou de volume. Mais um pouco e lá estavam dois músicos. Sim, a reverberação pelos prédios transmitia uma sonoridade multiplicada e falsamente mais numerosa do que a real origem dela.
Muitos idosos estavam sentados nas áreas livres e ajardinadas dos seus prédios elegantes. Além da música, recebiam suas boas doses de vitamina D diretas do sol, com os cuidadores sempre a postos.
Parei um pouco, estava fácil respeitar o distanciamento social. Meia dúzia de mulheres de várias idades e um senhorzinho assistiam mais de perto. Pessoas passavam passeando com seus cães, uma ou outra mãe ou babá empurrando carrinho de criança. Os porteiros em suas cabines de isolamento eterno, indefectíveis – impossível saber se estavam gostando ou não. A galera da lanchonete em conversa mínima pela calçada, aguardando os clientes improváveis daquele período. Um deles soltando baforadas preguiçosas de um cigarro interminável...
Uma pequena caixa de papelão forrada com pano preto, esparramada diante dos músicos, era o caixa das gorjetas. Fiquei apenas três ou quatro músicas, deixei um trocado e fui embora debaixo de agradecimentos cordiais. Repetimos o obrigatório “cuide-se!” daqueles tempos.
O vento passava ameno pelas folhas das muitas árvores. Talvez quisesse espalhar as sombras frondosas para emprestar natureza ao concreto predominante.
Atravessei a rua. Escorado na banca de jornal, um homenzinho concentrado em pensamentos íntimos com sua garrafinha long neck verde, como se houvesse nela alguma dose de esperança. Completei o meu circuito de quarteirões caminhados e voltei para casa a tempo do almoço.
Naqueles dias, os telejornais diziam coisas e emitiam opiniões de um extremo ao outro. Assim chegava o panorama atualizado do mundo tão cheio de vieses quanto nós.
Um refugiado ruandês confessara ter colocado fogo na catedral de São Pedro e São Paulo, em Nantes, um tesouro gótico da capital dos duques na França. Ele havia sido acolhido como voluntário e, ironia, trabalhava na segurança da igreja. Apesar da rapidez dos bombeiros, o fogo conseguiu transformar vitrais e o órgão musical do século 16 em cacos, cinzas e metais retorcidos.
Havia uma tal de ressurreição dos drive-ins como forma de tentar salvar o negócio dos cinemas, ainda paralisado. Sequer respeitavam a memória dos frequentadores pioneiros, que jamais iriam a um drive-in com família e até cachorro dentro do carro. Aliás, ninguém lembra direito dos filmes que eram exibidos naquelas telonas no meio do tempo, porque o que rolava dentro dos carros é que era coisa de cinema! Aquilo que estavam oferecendo agora, era, no máximo, cinema ao ar livre.
Uma notícia animadora dava conta da retomada do mercado da construção civil, que sempre foi um sinalizador de bons ventos na economia. Mais adiante, alguns números positivos de outros setores soaram quase inacreditáveis para aquele momento de paralisação quase completa.
Foi muito bom ouvir que as pessoas passaram a comprar mais e mais livros. Os canais de comércio eletrônico tiveram elevada participação nesse boom inesperado, o que reanimou o cenário moribundo das editoras. O detalhe interessante é que os clássicos lideraram o ranking das vendas digitais.
Especialistas apareceram com duas explicações para o fenômeno. 1) As pessoas voltaram para suas leituras fundamentais, os livros que as fizeram felizes no passado – como se buscassem reativar ligações afetivas com outros tempos das próprias vidas. 2) Elas arranjaram tempo para ler, até porque o isolamento social deu cabo da desculpa esfarrapada de falta de tempo.
O relevante mesmo é que o hábito da leitura parece ter conquistado espaço no cotidiano de muita gente, o que se escreve como alento. Um sopro de vida para o mundo de papel e tinta, que sobreviveu aos livros digitais, mas testemunhou as grandes livrarias sumindo dos seus endereços tradicionais bem antes da pandemia.
Em pouco tempo, a ladainha das notícias ruins subiu ao altar. Famílias sendo despejadas de ocupações “imobiliárias”, a partir de sentenças de reintegração de posse. Gente que até há pouco estava dentro das nossas casas como diarista, nos atendia com distinção às mesas de restaurantes, trazia nossas entregas até altas horas... Primeiro os tratores esmagando tudo – inclusive os utensílios e pertences de famílias inteiras –, para dar lugar ao fogo botado queimando aqueles barracos já miseráveis desde a entrega das chaves – talvez fossem apenas trancas improvisadas.
Aquelas chamas em seu dourado mortal, os olhares desolados, o choro de pessoas que eram noviças naquele ambiente – eram aquelas mesmas que foram atiradas na rua por uma crise potencializada pela qualidade de políticos ocupados em atirar culpas e afrontar nossa cidadania.
Restou àqueles infelizes mesmerizados pelo fogo os tantos silêncios impotentes diante da força bruta da Justiça do establishment, televisionada ao vivo e em cores como nota incendiária no rodapé da nossa absoluta falência.
Contrapondo nossa pomposa empáfia de remediados da tal “sociedade organizada”, a solidariedade comovente que floresce nas catástrofes, aparentemente compreensível apenas para quem tem as mesmas cicatrizes profundas das desventuras.
As imagens iam mostrando famílias dividindo o pouco mais ou nada de que dispunham com aqueles desabrigados desconhecidos, recém chegados à miséria. A ponto de compartilharem o espaço quase inexistente com quem acabara de perder outro espaço inexistente. E o frio e a chuva fina escreviam o verso final daquela poesia cruel do absurdo. Arrebatadora!
Comecei a fitar a TV da cozinha sem ver e ouvir mais nada. Era apenas uma imagem perdida, como se eu tivesse acionado um mecanismo de defesa, calado a overdose de falas desnecessárias. Preferi não ser invadido por aquele mundo de frases feitas.
Eu andava me perguntando, com cada vez mais insistência, de que valia termos chegado a pontos quase inacreditáveis de desenvolvimento tecnológico, de inteligência artificial, de internet das coisas, de pensar em viagens tripuladas a Marte e o escambau, de viver chafurdando outros planetas e o infinito sideral com nossas sondas exploradoras se mal conseguimos nos entender e compreender que o desafio de viver bem é coletivo, não dispensa nenhum de nós.
Tanto que o mundo seguia no abre e fecha, isola e aglomera. Um retrato de que não conseguimos um mínimo de organização para enfrentar um vírus que parece ter estabelecido uma estreita ligação com padrões de comportamento.
Não bastasse o problema real, a pandemia, explodir nossos egoísmos, nossa ausência de solidariedade e sentido coletivo, nulidades ganharam voz e começaram a nos cansar com tantas bobagens ditas como verdades absolutas. Gente que nem sabe localizar os pontos cardeais danou-se a dar vereditos, escrever os pontos finais da própria irrelevância.
Num dos dias mais frios do ano, saí com meu querido taxista amigo e atravessei um bom trecho da grande cidade. Depois da (minha) obrigação, paramos num daqueles impagáveis botecos que ele e eu visitamos de vez em quando – às vezes, apenas combinamos, sempre na hora do almoço. A galinhada estava espetacular! E deixamos a rabada com agrião reservada para a semana seguinte.
Estávamos apenas vivendo nossas aflições de forma mais amena, valorizando as humanidades que nos caracterizam. Tomando todos os cuidados, mas tentando viver coisas boas. Como são essas coisas simples, esses encontros sem qualquer solenidade que se tornam encantadores, indispensáveis, porque revigoram. Nos dão o tom para não perder o tom.
É de esperar que tenhamos novos cuidados doravante. E vamos ter mesmo. Mas, sem ilusões, por favor. Não vamos abrir mão de nosso jeito de ser, continuaremos humanos. Não adianta fantasiar, não seremos passados a limpo como holografias humanoides mal acabadas. Apenas riremos dos jecas que criaram verdadeiros manuais para o pós-pandemia, que vão ficando cada vez mais parecidos com os teóricos do bug do milênio.
Estamos esgotados dessa conversa de antiga normalidade e novo normal. Das figuras devotas da seita “podecrê” sempre em looping naquele mantra de que pessoas mudam por efeitos cósmicos. Esses chatonildos holísticos parecem continuar com os pés lambuzados pelo lamaçal de Woodstock, procurando o caminho de volta até hoje, sempre alheios à realidade e relativizando as dores do mundo. Tudo o que queremos é nossas vidas de volta, nada mais. E seguiremos sendo os mesmos imperfeitos que somos desde que o mundo é mundo.
Vamos continuar montando nosso prato do almoço do jeito que sempre fizemos, arroz em baixo e feijão em cima. Ou o contrário. Ou lado a lado. Até poderemos inserir novas variáveis aos nossos costumes, mas serão absorvidas nos hábitos num piscar de olhos. Seguiremos em busca das nossas zonas de conforto trilhando o consagrado individualismo digital, e o batalhão de escravos solitários das redes sociais não deverá parar de crescer.
Como bem escreveu o amigo jornalista Jânio Vidal, “Na Idade Média, as pessoas eram queimadas em fogueiras por suas ideias, crenças ou comportamento. No século passado, governos ditatoriais e tirânicos queimavam em fogueiras os livros daqueles que viam como ameaça ou não seguiam a sua ideologia. Nos dias atuais, mesmo nas democracias, fortes estruturas são montadas para queimar nas redes sociais a reputação de quem estiver na oposição”.
É o assunto do momento, o tal “cancelamento digital”. Triste humanidade, cada vez mais sufocada por tantas ferramentas e informações, escolhendo majoritariamente o negativo talvez por não saber o que fazer de positivo com tudo isso. É o reflexo da ignorância que está cada vez mais à vontade em todos os lugares, criando um mar de “marias vão com as outras”. Pior, crentes que estão abafando!
Precisamos evitar o truque revelado pelo escritor Tomasi di Lampedusa em seu romance O Leopardo, que soa como metáfora da nossa realidade: “Algo deve mudar para que tudo continue como está”.
É recomendável dar ouvidos ao filósofo Norberto Bobbio: “Acreditamos saber que existe uma saída, mas não sabemos onde ela está. Não havendo ninguém do lado de fora que nos possa indicá-la, devemos procurá-la por nós mesmos. O que o labirinto ensina não é onde está a saída, mas quais são os caminhos que não levam a lugar algum”.
Labirinto da Catedral de Chartres (imagem Google.com.au)

 
Chega de andar em círculos!
 

02/09/2020

Anúncio urgente



Ana Nunes

Preciso arranjar mais sonhos
Para encher o meu varal vazio.
Sonhos musicados como notas
Presas nas pautas de alumínio.
Letras sussurradas por um anjo
Soltas como bolhas de sabão
Efêmeras como certos sonhos são
Mas presas com pregadores de madeira.
Ou como estrelas brilhantes
Surpreendidas no calor da noite.
Tudo no varal
Que é comprido e vazio.
Preciso de sonhos pendurados como panos
Vermelhos , azuis ou brancos
Desbotados ou recém tecidos
Descorados de tanto lavar
Cheirando a sol, água e sabão.
Esgarçados nas costuras
Com buracos nas casas do botão
Ou pedaços coloridos de mim.
Podem ser de segunda mão
Que esses também têm cor e cheiro
Não importa se já foram sonhados
Porque pendurados assim esvoaçados
Parecem novos intocados
Prontos para se sonhar.


24/08/2020

Reflexões numa cama de hospital



Francisco Bendl
O filósofo que disse, “mente sã em corpo são”, tinha lá as suas razões.
Faz tempo que não tenho qualquer inspiração para escrever... nenhuma ideia... nada.
De acordo como a minha doença se agrava, parece que o cérebro se mostra solidário com o coração, e ambos se negam funcionar a contento.
Discordando eu dessa greve dos meus dois órgãos mais importantes, penso sobre o fim da existência, o meu adeus ao planeta, ao mesmo tempo que imagino um tanto preocupado se esta vida tem sequência ou se encerra em definitivo; se existe compensação pelos sofrimentos ou punição pelos bons momentos.
As dúvidas são constantes nesses dias que ainda estou entre os terráqueos.
Por mais que eu tente estabelecer um critério a respeito de como seria essa outra forma de vida além dessa, confesso que o meu limite se restringe à Terra, e sequer meus pensamentos alcançam voos maiores fora dessa órbita.
Por exemplo:
Haveria algum lugar específico para quem se despede desta vida?
Um apartamento ou casa ou escritório ou consultório ou pousada ou hotel ou Spa, onde aguardamos o nosso próximo destino?
Alguém irá nos trazer novas ordens para continuarmos seres humanos através de outros pais, um novo país, outros tempos?
Voltaremos ricos ou pobres ou na mesma situação econômica e financeira de antes?
Casaremos ou ficaremos solteiros?
Morreremos cedo ou seremos longevos?
Teremos filhos ou não?
Nasceremos saudáveis ou com alguma síndrome?
Seremos homem ou mulher?
Ou a vida se apaga em definitivo, e se obtém o tão merecido descanso?
Independente do que se pode ou não acontecer depois da minha partida, os meus questionamentos se referem a essa vida, aquilo que fiz, realizei, e que elaborou uma trajetória que tem seus predicados, defeitos, omissões, irresponsabilidades, ousadias, momentos de coragem, de solidariedade, de egoísmo, de satisfação, alegria, tristeza, felicidade, carinho, afeto, amizades, desempenho profissional, saúde, doenças, obrigações, compromissos, escolaridade, cursos, viagens, prazeres, alimentos, exercícios, vestimentas, experiências, frustrações, relacionamentos, filhos, dedicação, residências, meios de locomoção, confissões, religiões, crenças e... amor.
Levo para a outra vida, se existir, uma boa bagagem desta, um baú daqueles antigos quando se viajava de trem ou navio.
Levo muita tralha adquirida nesses setenta anos de vida.
Servirá para onde vou ou será totalmente desnecessária?
Lá, o “mundo” será diferente, com novas perspectivas, avaliações, princípios, valores... nada conhecido por aqui ou será uma espécie de continuidade dessa existência?
Eu me encontrarei com familiares que se despediram de mim há tempos ou já teriam reencarnado ou tomaram novos rumos?
Irei rever amigos?
As pessoas serão as mesmas como as conhecemos ou se apresentarão diferente?
Também se encontrarão no mesmo local aguardando novas funções, reencarnações, ordens, determinações... ou silêncio total, o nada?
Sinto que a diferença dessa existência para essa que vou não me responde nenhum dos meus questionamentos.
Somente dúvidas se apossam do que resta dos meus dias.
Deverei deixá-las de lado?
Afinal das contas, o “outro lado” pode ser tão diferente desse, que minhas perguntas de nada servirão para sequer eu ter uma ideia sobre como será, e como serei recebido, se for o caso.
Curiosamente, do mesmo jeito que nasci neste mundo, em que eu não tinha a mínima ideia do que seria, do quanto tempo de vida eu teria, como seria a minha trajetória, percebo que o fim desta vida me remete para o mesmo momento quando surgi nesse planeta:
Só perguntas e dúvidas!
A nossa vida será, então, neste planeta ou fora dele ou em algum lugar especial, e somente questionamentos, dúvidas, perguntas, sempre sem saber o que nos acontecerá até mesmo no minuto seguinte?
Ou a morte será o fim em definitivo do que nos assalta a mente, nos perturba, nos deixa confuso e sem saber como agir, a não ser aguardar?
Meu último suspiro será de dúvida?
Ou saberei de onde vim, por que fiquei aqui por sete décadas e para onde vou, finalmente?
Se me faltavam ideias para uma de minhas últimas crônicas, sobraram perguntas, questionamentos, incertezas.
A espécie humana é mesmo uma incógnita?
Seríamos feitos somente de incertezas?
Tanto neste planeta como para onde se vai depois ou não, só nos restam dúvidas?
Sem base alguma que me sirva para eu afirmar ou definir uma vida, posso até mesmo elaborar uma ideia que não existimos, que estamos de passagem de um mundo para outro, saltando de planeta para planeta, e que a vida terrena é um sonho.
Ou uma ilusão?
A nossa morte será acordar em outro local, que seria o verdadeiro?
Pensando bem, o ser humano é movido pelo que é abstrato, invisível, até mesmo indescritível:
Vontade, determinação, ambição, emoção, desejos, ideal, fé, angústia, frustração, sofrimento, satisfação...nada do que citei tem cor ou formato, que pode ser visto de perto ou não.
Na razão direta que, apesar de termos corpo, aparência, altura... somos movidos pelo que não vemos e não sabemos como definir, sabe-se lá se a vida também não é nada disso que sentimos ou imaginamos?
Nessas alturas, também não sei se valerá a pena eu saber como será o outro “lado”.
Se não é melhor viver de incertezas, dúvidas e confusões, que uma existência à base de certezas, definições e inquestionável.
Enfim, se eu puder avisá-los de “lá” o que descobri, contem comigo.
Caso não recebam informações da minha parte, por favor, sigam com as dúvidas porque procedentes, e pelo fato de que jamais serão respondidas.
Logo, eis a certeza da vida, a incerteza;
Eis a definição da existência, a inexistência;
Eis quem somos, nada somos.
Tais conclusões seriam boas ou ruins?


18/08/2020

Coisas da quarentena

Retrato (Ana Nunes)


Wilson Baptista Junior
A pandemia do coronavírus mudou, claro, as vidas de toda a gente. Em graus diversos, simples para alguns, mas sempre incômodos e para tantos e tantos outros de modo muito sacrificante e perigoso.
Cá em casa, somos os dois aposentados faz alguns anos. Hoje meus trabalhos remunerados são menos frequentes, mas até a última década eu aliava uma grande quantidade de viagens a uma grande carga de trabalho de desenvolvimento de software ou de estudos de consultoria feito, tantas vezes até altas horas, no escritório doméstico parecido com o que o nosso amigo Chicão chamou, no caso do dele, de “oficina do pensamento”. Então isso de “home office” já era um hábito antigo. A Ana faz seus escritos e seus trabalhos de arte no seu ateliê no quarto ao lado, parede meia com o meu. Um de nossos filhos mora com a mulher no estado de São Paulo, e o outro, que também morava por lá, estava se mudando para Belo Horizonte com a mulher e os nossos netinhos mas enquanto reformava o apartamento para onde viriam estavam morando com nossos consogros, numa cidade vizinha. Então a gente já não se via tanto quanto queria, e quando se anunciou a necessidade da quarentena pensamos que nossas vidas não mudariam muito, e pensamos também como muita gente (ilusão) que essa mudança duraria dois ou três meses.
Mas mudaram sim. Porque somos os dois dos grupos de risco, por mais razões do que a idade. Mudanças que só se avaliam quando ocorrem; a boa natação diária da Ana no clube vizinho substituída pela busca do sol esquivo pelas janelas, a bolsa de fotografia quieta e sem uso na prateleira à minha frente porque nossa casa fica num terceiro andar com um lado tampado pelas árvores da rua e pelos prédios que esconderam a vista linda da Serra do Curral de quando viemos para cá, e o outro voltado para o prédio vizinho do conjunto – que saudade, não podendo sair de casa,  das grandes varandas e dos jardins das casas da minha juventude - as caminhadas substituídas por monótonos quilômetros indo e voltando nos cinquenta metros ao lado da garagem do nosso prédio, a ida diária às padarias do bairro substituída por encomendas semanais ao empório de uma de minhas sobrinhas e de seu marido, grande pessoa e excelente chef de cozinha (aliás pães maravilhosos de fermentação natural feitos com todo o carinho); as idas frequentes ao sacolão da esquina ou ao mercado distrital com o prazer de escolher os produtos e encontrar os conhecidos se transformaram na muitíssimo bem vinda ajuda da irmã caçula da Ana, que como ainda não está nesses grupos de risco quando faz dessas compras para ela faz também para nós, deixa na nossa porta, toca a campainha e sai correndo – aí vem o ritual do álcool nas embalagens antes da lavagem mais cuidadosa do que antes dos legumes e verduras em água sanitária; a ida ocasional à farmácia alguns quarteirões para cima quando se precisava de algum medicamento, uma voltinha a pé até a Savassi quando faltava alguma coisa de papelaria ou de material de desenho ou material de informática, enfim, qualquer pequena necessidade que antes significava um passeio e uma solução rápida passou a exigir planejamento, pesquisa na internet, compra online e tempo de espera; depois ficar atento, a qualquer hora do dia, a que pudesse tocar o interfone, parar o que estivesse fazendo, pegar uma máscara e a chave da casa, ver se ainda achava um dinheiro para dar de gorjeta (como ter dinheiro trocado quando não se sai de casa e se paga tudo com cartão ou transferência bancária?) trocar depressa os sapatos, descer correndo as escadas para não atrasar o entregador (nosso prédio é antigo, sem elevador nem porteiro), e na volta trocar novamente os sapatos, passar álcool gel nas mãos antes de fechar a porta, limpar a compra e conferir se o que chegou foi mesmo o que se pediu.
(Por índole e, não nego, também por razões financeiras, nunca fomos aficionados a compras desnecessárias, mas gostávamos do passeio tranquilo, da escolha, da despreocupação e da pouca urgência com que se podia suprir a falta de alguma pequena coisa quando era percebida...)
Os encontros de família e amigos transformados em imagens nas telas dos computadores ou dos telefones (e que bom que temos pelo menos isso).
E mudanças mais imprevistas – como o retrato de uma das suas irmãs que a Ana terminou de pintar e, não podendo entregá-lo por enquanto à modelo, na falta total de espaço de parede (todas cobertas de quadros, fotografias ou estantes) optou por pendurar dentro do banheiro mais perto do escritório – o que gera compreensível constrangimento para mim quando preciso usá-lo e me deparo com o olhar vigilante da cunhada...
E mudanças piores - um tempo maior do que o de antes assistindo filmes ou séries que perdem o encanto quando se percebe que esse tempo maior é uma tentativa de dissipar um pouco o desânimo de ver o festival de intolerância que viraram as redes sociais, e as notícias diárias dos jornais e dos canais de TV sobre os muitos erros cometidos no enfrentamento da pandemia que continua a grassar, os números crescentes de mortes, e a tristeza sem tamanho quando vez ou outra um desses números vem com o nome de uma pessoa amiga ou conhecida, e não se pode nem fazer a última despedida a ela nem levar o conforto, ainda que pouco frente à perda irreparável, do abraço à família.
E junto com isso tudo a dor de saber que o peso dessas mudanças para nós é incomparavelmente menor do que as mudanças e sacrifícios que a pandemia trouxe para as vidas de tantas e tantas mais pessoas que não têm a sorte de estar, como a gente, no pequeno grupo de brasileiros que sabem que, barrando algum imprevisto mais sério, podem ficar em casa, numa casa segura onde podem se proteger o quanto possível sabendo que vão pelo menos conseguir pagar as contas no final do mês sem aumentar as dívidas.
Vai mudar? Talvez. Quando? Só Deus sabe. E como será depois? Só podemos esperar...



07/08/2020

A namorada


Fotografia de Vlada Prihoda

Heraldo Palmeira
Os tempos ficaram nervosos. Todos deviam ficar recolhidos, era preciso escapar do invisível que pairava por toda parte. A manhã de início de outono seguia modorrenta.
O gato estava esparramado no sofá em sua eterna terapia do sono. De repente, mexeu as orelhas naquele movimento de direcionar a audição a algum ponto para aumentar a acuidade sensorial. Levantou de um pulo e saiu numa tremenda correria em busca da janela da rua.
Fez o trajeto que a preguiça sempre obrigava recusar. Partiu do parapeito da janela do andar do meio, desceu pelos galhos dos arbustos até a calçada e atravessou a rua. Sem miar, como de costume, para que lhe abrissem o portão do andar de baixo – era folgado! Estava em festa.
A casa da frente recebia hóspedes. Há cerca de um ano, uma moça deixara o local para morar em outra cidade. Levara embora a gata de pelo branco com manchas pretas. E aquele gato ficara triste de um tanto de não disfarçar. Agora a moça voltara, para morar novamente, e trouxe sua companheira a tiracolo.
O casal fez o ritual de reconhecimento ali mesmo à beira da calçada, enquanto a moça descarregava o porta-malas do carro. E partiu rápido, escalando muro e árvore frondosa, para o local do telhado onde costumava passar boa parte do dia. Fui espectador privilegiado daquela cena lá do outro lado, sentado diante da minha janela do piso superior.
Fiquei vendo aqueles dois. Tinham sorte, não precisavam de quarentena, de distanciamento social. Também estavam livres da liturgia de máscaras, água e sabão, álcool em gel. Podiam ir onde bem entendessem, sem qualquer restrição. Não havia nenhum novo conjunto de normas e comportamentos estabelecido para felinos.
Melhor de tudo, não estavam obrigados a tomar partido. E nem participar de discussões placebas sobre sexo dos anjos e flexibilidade dos cachimbos de barro, como faziam os humanos sobre todas aquelas drogas terminadas em “ina”, fechar, flexibilizar, salvar economia... Muito menos, ouvir a ladainha da politicagem mais rasteira ou preocupar-se com os incompetentes públicos e as roubalheiras que assaltavam o noticiário cotidiano.
A única preocupação mais evidente continuava sendo os cachorros da vizinhança, incapazes de alcançá-los nas alturas daqueles telhados fartos em cumeeiras e duas águas à sombra do arvoredo da rua.
Ele passou a lambê-la inteira, naquele ritual de limpeza dos gatos. Depois foi a vez dela fazer o mesmo com ele. Era como se estivessem apagando todas as coisas daquele tempo que passaram separados, as inutilidades que deveriam ser esquecidas.
Bastou um pouco tempo e já estavam novamente namorados, cochilando apoiados um no outro, o vento passando suavemente ao longo dos pelos.
A namorada que está na minha vida
Juíza, minha brisa, minha ventania
Tormenta que se recolhe em calmaria
Quando encontra a costa do meu porto
Quando encosta no cais do meu corpo
Com o passo no compasso do meu
Enchendo de fé o meu coração ateu
Chega mansa como a preguiça
Que acorda no último sono
Como uma saudade sussurrada
Do que nunca foi embora
A mágica que enfeitiça
Como o sal que tempera meu mar
O tempo que valeu esperar
Pelo tempo que é meu e seu
Quem ama e insiste
Sabe dos riscos de quem desiste
Quem é chama e resiste
Sente o calor do fogo que existe
Onde nada parecia ter
Tudo que haveria de ser
Talvez ele já tivesse contado a ela que no tempo da ausência nunca deixou de ir àquele telhado. Todos os dias. Ritual. Manteve o território marcado de quem não desistiu, a certeza de que tudo voltaria ao normal.
Não havia entre eles nenhuma ansiedade por um “novo normal”, isso era coisa de humanos perdidos diante de uma situação nova. Ah!, os humanos, que dizem ouvir estrelas, que fantasiaram que bicho tem de ir a psicólogo e inventaram psicólogo de bicho. Coisa doida de gente maluca!
O gato deu uma última olhada sobre o telhado até mirar a rua adiante. Correndo os olhos pelo que enxergava, sequer parou numa placa afixada dentro de um boteco de esquina que havia na primeira esquina da sua mirada: “Em uma sociedade que lucra com a sua dúvida, gostar de si mesmo é um ato rebelde”. (*)
Os gatos dão-se ao luxo de ignorar a indústria do medo, da manipulação. E as negociatas à média luz a partir delas. Afinal, uma briga de gatos jamais será silenciosa. É sempre travada sob gritos, rosnados, quase falas. Até o sexo deles é escandaloso, para não deixar dúvidas do que está havendo. Nada parece à venda com eles.
Na sociedade dos gatos não sobrevivem indivíduos inseguros e nem existe século de almas adoecidas, como já inventaram para explicar a fragilidade humana atual. Não conheço gatos insatisfeitos, deprimidos, superprotetores ou vitimizados.
Os gatinhos têm ao redor de noventa dias depois que nascem para caçar rumo na vida e viver do próprio suor. Espertos, respeitam os ancestrais que desenvolveram a preguiça congênita da espécie. E vivem nela deliciosamente. Nada de grandes esforços, nada de suar o pelo. Não é à toa o ditado “malandro é o gato!”. Talvez, por isso, nenhum idiota resolveu escrever livros de autoajuda para gatos – não existem gatos idiotas. E provavelmente nunca aparecerão coaches para ensinar-lhes o pulo do gato que fingem conhecer.
Ah, os gatos! Não são superficiais, exacerbam na autoestima, desprezam os humanos – apenas usufruem da imaturidade e fragilidade emocional de “papais” e “mamães”, e ainda metem a unha quando cansam de suas frivolidades e vozes infantilizadas.
Gatos não vivem de aparências. Beleza forçada em academias? São os inventores da preguiça. Procedimentos estéticos? Nada como uma boa lambida no pelo e pronto. Consumismo? Não fazem a menor diferença diante de tantas rações cheias de fricotes de araque – comem para sobreviver, inclusive coisas nojentas que não raro substituem aquele “caviar químico” colocado nos pratinhos.
Os tempos andavam esquisitos, mas ainda parecia razoável crer que gatos não sabem o que é ler e escrever, não têm qualquer interesse por frases de efeito em botecos de esquina.
Eu não tinha qualquer dúvida de que ele estava certo e seguro de si mesmo, como é comum aos gatos. É, eles exacerbam na autoestima!
Os dias passaram modorrentos, cercados de medos e falácias. Era tudo que os humanos conseguiam fazer diante daquela falta de chão que havia se instalado sob o modelo de pandemia.
Pensei na gata e no equilíbrio que ela trouxe para a vida do gato. Acho até que ele ria das fragilidades e confusões dos humanos da casa. Tinha teto, comida e água limpa e bastava atravessar a rua para ser feliz. Não havia odisseia, tudo simples. Era o segredo que ele gentilmente dividia comigo, generoso em mostrar sabedoria sem qualquer arrogância e sem cobrar nada.
Na verdade, ele só queria mesmo estar com a namorada. Apenas isso importava.
Na Lua Nova
Irei visitá-la
Nada terei de provar
Irei para vê-la
E cumprir ordem de meu coração
Dê-me vinho
E seus melhores encantos
Mas não esqueça:
Não quero ser imortal
Olhei a felicidade daqueles gatos; senti inveja. E não era inveja branca e nem inveja boa. Senti inveja verdadeira por não poder resolver as coisas com aquela evidente simplicidade que me afrontava diante da minha janela.
Não sabia onde foi parar a minha superioridade humana, que supostamente serviria para menosprezar aqueles bichos metidos a cavalos do cão. Azar o meu, nem pedra aprendi a atirar quando criança e não teria nenhuma à mão naquele ambiente urbano.
Nem quis começar uma reza, não estava com a fé em dia para aqueles dias tão ateus. Não haveria bênção suficiente para um desacerto daquele, que cristão nenhum suporta muito tempo.
Talvez fosse melhor apenas acreditar nos amores, que logo trazem um sopro de renovação, espantam o sopor e a tudo enternecem.
Agora vamos ter os girassóis
Do fim do ano
E o calor vem desumano
Tudo irá se expandir
Crescer com as águas
Quiçá, amores nos corações
E um santeiro
Milagreiro
Prevê a dor
De terceiros
E diz que a vida
É feita de ilusão
Aquela que um dia o fez sonhar
Se foi
Hoje o seu pesar
Cintila nos varais
Usou as sete vidas
E não foi feliz jamais
Toda a imensidão
Passou pela vida
E foi cair na solidão
Mais um santo pra esculpir
É o que lhe vale
Pra evitar que o rancor
Suas ervas espalhe
Acordei com o gato miando baixinho debaixo da janela, como costumava fazer. Ele veio pelas trilhas dos telhados e arvoredo. De mim, queria apenas que eu abrisse as passagens para seus luxos na casa. E logo voltaria para o seu amor renovado. Jamais me convidaria para dividir a ração servida no andar de baixo pelos humanos. Muito menos para usufruir daquele telhado do outro lado da rua. Afinal, eu já tinha mais de noventa dias de vida.

(*) Citação de Caroline Caldwell
Trechos de:
A namorada (Heraldo Palmeira)
Circe (Horácio Paiva)
Milagreiro (Djavan)




26/07/2020

Releituras



Wilson Baptista Junior
Outro dia comecei a reler o “À la recherche du temps perdu”, de Proust. Reler é um modo de dizer – há bem uns quarenta anos tinha lido a primeira parte, “Du coté de chez Swann”, numa edição em português publicada, em volumes separados, não me lembro mais por qual editora. Na época, era uma edição cara, e necessidades mais prosaicas, se bem que não menos importantes, me obrigaram a não continuar comprando a obra além desse primeiro volume.
Agora, graças à maravilha do Kindle, comprei a preço de quase nada a edição inteira no original francês. E, tanto tempo depois e pela leitura do escrito original (sem desfazer em nada do trabalho do tradutor da outra edição), embora ainda esteja na mesma primeira parte é como se estivesse lendo um livro novo para mim.
(Escrever isso me fez lembrar uma história contada sobre Mark Twain, quem, sendo apresentado numa festa a um cavalheiro inglês, ficou espantado ao ouvi-lo dizer “Eu pagaria de bom grado cem dólares para não ter lido o seu livro As Aventuras de Huckleberry Finn...” – e já estava fechando a cara quando o inglês completou – “Só para poder ter o prazer de lê-lo de novo pela primeira vez!”... Mesmo sabendo, hoje, como é bom ir descobrindo coisas novas a cada vez que, com alguns anos de intervalo, se torna a ler um bom livro, sempre achei que esse é um elogio que qualquer escritor gostaria de receber).
Mas não é do livro que quero falar – porque ainda falta muito para chegar ao final e nessa altura seria presunção demais de minha parte resenhar ou fazer crítica da obra prima do Proust – é de alguma coisa que a leitura provocou em mim.
Logo nas primeiras páginas, o narrador descreve o que acontece com ele ao acordar, tendo adormecido enquanto lia algum livro (e eu rarissimamente consigo dormir sem estar lendo alguma coisa, e em geral muito tarde) – acorda sem perceber que tinha dormido, imaginando confusamente que precisava apagar a lâmpada de cabeceira e dormir, mas enquanto dormia seu cérebro tinha continuado a elaborar aquilo que tinha lido, e durante alguns segundos ainda pensava que estava vivendo aquilo de que o livro falava, até que pouco a pouco o peso se levantava de suas pálpebras e percebia que a lâmpada estava apagada; então percebia a escuridão à sua volta e acendia um fósforo para olhar o relógio, descobrir que ainda não era a hora de acordar e adormecer de novo.
Diz ele: ”Um homem que dorme mantém em volta de si o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos. Instintivamente os consulta ao acordar, e neles lê, num segundo, o ponto da terra que ocupa, o tempo que se passou até seu despertar; mas suas fileiras podem se misturar, se romper.” E, de fato, quando adormecia numa hora inusitada, num lugar diferente, ao acordar podia se perceber, por instantes, em outro tempo e em outro lugar.
Esse começo já me falou de perto, durante muitos anos da minha vida meu trabalho me levou a viajar muito e muito frequentemente. Acordando a cada vez num novo quarto e uma nova cama num lugar diferente, às vezes conhecido, às vezes desconhecido, e tantas vezes me senti como o autor nessas palavras, rompido por instantes o fio do tempo e de quem eu era e do meu lugar no mundo, o espírito ainda perdido num sonho qualquer, a mão procurando a lâmpada que não sabia bem onde estava, até que o mundo entrava pela janela trazido pela luz do sol e meu espírito voltava ao meu corpo e o fazia lembrar de quem eu devia ser, do que eu tinha ido fazer e em que língua devia falar.
Não há como resumir, explicar ou recontar página alguma desse livro, é preciso se perder dentro dos seus longuíssimos parágrafos (porque o escritor era singularmente avaro no gasto dos seus pontos finais) deixar que suas palavras nos levem de volta à ingenuidade de nossa infância sem perdermos nossos olhos de adultos (conjunção difícil, bem sei) enquanto vamos vivendo junto com o narrador as vidas dos personagens que nos circundam.
Lembranças de criança vivendo em casa de avó, na cidadezinha de Combray – também tive as minhas, fui criado na casa de meus pais onde viviam conosco a avó e tia avó paternas, se bem que essa muito diferente da do livro, e passava pequenas férias na casa dos avós e tias maternas – e quando se fala de lembrança muita gente mesmo sem ter lido o livro já ouviu falar da “madeleine” do Proust – aquele maravilhoso biscoitinho de limão em forma de concha de vieira, que um dia, em Paris,  a mãe do narrador lhe oferece, passados muitos anos de sua infância, junto com uma chávena de chá, e ao molhar o biscoitinho no chá e sentir seu sabor na língua ele se transfigura – em suas palavras: “um prazer delicioso me invadiu, me isolou, sem que tivesse noção do porquê. Esse prazer num instante me tornou as vicissitudes da vida indiferentes, seus desastres inofensivos, sua brevidade ilusória, do mesmo modo que faz o amor, me preenchendo de uma essência preciosa: ou, mais ainda, essa essência não estava em mim, ela era eu próprio”. E o narrador tenta descobrir o que era esse sentimento, e termina por sentir que a verdade que procurava não estava no gosto da madeleine, mas nele próprio. E depois de uma longa introspecção, de repente a claridade se faz e ele percebe que aquele era o gosto do bocadinho de madeleine que uma tia sua costumava lhe oferecer, molhado na infusão de tílias que gostava de tomar, aos domingos de manhã, na casa de Combray. E aí lhe volta uma profusão de lembranças que julgava esquecidas.
Quem de nós não teve algum dia a sua ou as suas madeleines? Uma das minhas foi o gosto de um pudim de leite condensado denso e dourado como o da minha mãe, que me levou de volta à mesa de almoço da casa onde nasci, e aos rostos de meus pais do outro lado da mesa que meus olhos de criança julgavam que estariam sempre lá, e fez ficarem úmidos os olhos do adulto; outra, há muitos anos, viajando de carro com a Ana ao meu lado e Pedro e Maneco, ainda pequenos, no banco de trás, foi uma golada d’água morna de um antigo cantil meu de alumínio coberto de feltro, aquele gosto de cantil que só conhece quem já carregou um debaixo do sol, e que me jogou de volta aos tempos de estudante, tendo na frente dos olhos o mar de nuvens iluminado pelo céu azul e batido pelo vento forte do alto dos dezoito quilômetros de subida a pé, mochila e barraca nas costas, de Caparaó Velho até o Pico da Bandeira, e à frente da alma toda a maravilha de uma vida que ainda estava por vir.
Há muita coisa nova para se ler, e cada vez me sobra menos tempo pela frente, mas de vez em quando é muito bom fazer uma pausa e voltar a esses grandes livros. Se eles ainda nos agradam tanto é porque quem os escreveu soube dizer coisas que continuam a tocar nossas almas através do tempo. 

13/07/2020

Conversando com o Espírito do Senhor Buddha

A Colina do Buddha, monumento em Sapporo (fotografia de Appie Verschoor - Wikimedia Commons) 


Antonio Carlos Rocha
- Salve Mestre Buddha, como vai o Senhor?
- Bom dia amigo, vou indo, orando e enviando boas vibrações para este conturbado Planeta Terra.
- É verdade, é um belo mundo, mas a espécie humana tem muita gente que adora guerras, desequilíbrios na Ecologia, ganância pelos lucros...
- Pois é, agora temos aí o Covid dando dor de cabeça a todos nós. Vocês encarnados preocupados, nós Espíritos de Luz tentando ajudar, mas nem sempre é fácil.
- Digamos Elevado Espírito de Luz !
- É mas eu evito esses elogios, mesmo aqui onde estamos, precisamos estar atentos às vaidades, os apegos.
- Quando nós praticantes, fazemos os louvores, cânticos o Senhor não fica enobrecido?
- Em primeiro lugar vemos que os louvores, os cânticos e os rituais são em homenagens aos Estados de Buda presentes em todos seres vivos. Só depois para os demais Budas, que são milhares, como diz o Sutra Lótus, então não levamos para o lado das vaidades.
- Já que o Senhor falou em Sutra Lótus pode nos brindar com uma estrofe?
- Sim, vamos abrir o texto ao acaso e vamos ver qual a mensagem para o momento: “Não te preocupes, ó Bhagavant / nós, quando Tu estiveres extinto, / numa terrível época posterior / pregaremos este excelso Sutra”.
- Obrigado, parece que foi escolhido a dedo !
- Sim, como falei acima, todos nós, vocês seres visíveis e nós seres invisíveis para a maioria da humanidade, estamos atravessando “uma época terrível” em função da Covid-19.
- De fato, nós discípulos divulgaremos sempre estes ensinamentos.
- Agora eu tenho  que ir, até a próxima amigo.
- Até breve Senhor Buddha e gratidão por tudo.
- Bênçãos para vocês!

Explicando:
1) Bhagavant quer dizer Bem – Aventurado.
2) “Extinto” termo usado para identificar uma pessoa falecida e que eliminou, quando em vida, todas as negatividades.
3) Sutra = sermão, texto sagrado, obra canônica.
4) Infelizmente, no Brasil, não existe este Sutra editado. Há edições em diversas línguas.
5) Contudo, em português, há um volume que foi publicado nos EUA, 624 páginas e só encomendando por correio.