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25/07/2021

Brincadeira da vida

 

Argila, vergalhão e arame - Ana Nunes

Ana Nunes

Do vergalhão curvado em vão

Sobrado em tiras de mentiras

Teci o solo e a terra.

E cavei buracos

E completei o chão.

Fiz o esteio da vida

Em volta de povoação.

Na argila sem memória

Plasmei moradias primitivas

Empilhadas no ferro fundido

E engarranchei a igreja no morro

Em escadas sem corrimão.

O arame fino foi amarras e fundação.

Com ele mesmo alinhavei casas

E costurei vãos.

Como corda segurou roupas

Que acharam secar ao sol.

Combinei janelas e portas

Para juntar paredes

Num bordado de relevo

De fazer falar.

No ensaio sem sentido

No embate da solidão.

14/07/2021

A mãe do Rock

 

Rosetta Thorpe tocando com Muddy Waters na velha estação de trem de Manchester
- fotografia de James J Kriegsmann

Heraldo Palmeira

As artes parecem ter o dom de remediar dores e cicatrizar grandes feridas humanas. A Renascença surgiu em Florença e Siena, em plena Toscana, nos suspiros finais da Idade Média que sufocou diversas sociedades com o obscurantismo e a crueldade da Santa Inquisição.

Já na primeira metade do século 19, a Europa e o norte dos Estados Unidos experimentaram um processo de industrialização que gerou notável desenvolvimento, a partir da mecanização do trabalho como base da produção de bens de consumo em larga escala.

As populações, encantadas, passaram a dispor gradativamente de comidas e roupas manufaturadas, trens, navios a vapor, bondes elétricos, automóveis, telefone, telégrafo, fotografia, fonógrafo, gramofone, cinema... Retratos de um progresso que apontava sem cerimônia e grande ânimo para o século 20.

Tendo Paris como palco mais reluzente, seguida de perto por Berlim, Londres e Viena, a Europa superou o conflito franco-prussiano com a explosão da Belle Époque a partir de 1871, período efusivo onde a fé no progresso científico e nos avanços civilizatórios curou as dores coletivas e carregou a festa até o início da Primeira Guerra Mundial (1914).

Aqueles quatro centros urbanos europeus, todos repletos de inovações tecnológicas, alimentaram a Exposição Universal (Paris, 1900), uma grande feira de demonstração das novidades da criatividade humana.

O pós-guerra trouxe grandes novidades na medicina e microbiologia e testemunhou o nascimento dos impérios jornalísticos e a transformação do cinema numa indústria de grande importância na integração do mundo, capaz de influenciar profundamente o comportamento humano contemporâneo.

A história do rock and roll é bem anterior às grandes estrelas surgidas a partir da década de 1950, quando a mídia norte-americana já estava muito bem estabelecida e pôde criar seus mitos a partir do cinema e da indústria da música – e até estabeleceu uma espécie de grande filial na Grã-Bretanha dos anos 1960.

O princípio de tudo exige uma viagem aos Estados Unidos do início do século 20, para rever vivências da miséria humana impregnada de abandonos, vícios, racismo, violência contra minorias... Componentes indissociáveis do ambiente de uma economia em declínio, que terminou devastada pela Grande Depressão, propícios a gerar uma música de lamentação de muitas dores.

Essa música de lamentação transformou-se numa espécie de bálsamo para tratar tantas cicatrizes profundas, disfarçar a falta de perspectivas e acompanhar os movimentos migratórios.

Começou a soar nua e crua nos espaços marginais das comunidades pobres, nos campos de algodão e em clubes obscuros. Ou vestida a caráter no ambiente litúrgico das suas congregações religiosas. Devagarinho foi desaguando no mar poderoso do blues, majoritariamente pelas mãos e vozes dos negros.

Em 1915, Katie Bell Nubin, multi-instrumentista autodidata, pregadora religiosa e colhedora de algodão da região de Cotton Plant, Arkansas, deu à luz uma menina que parecia condenada a um futuro congelado entre os campos de colheita e as igrejas pentecostais que a mãe frequentava. O pai, Willis Atkins, também missionário e colhedor de algodão, era um cantor notável.

Em 1920, com o fim do casamento, mãe e filha foram tentar a sorte numa Chicago onde havia empregos e melhores condições de vida. O blues e o jazz já flertavam para um casamento que se revelaria poderoso. Katie seguia sua jornada de pregadora. Rosetta Nubin Atkins, sua menininha de apenas seis anos, começou a dar os primeiros sinais prodigiosos nas coisas da música e ficou sensibilizada com aqueles dois ritmos fundamentais da música americana.

Em pouco tempo, já alternava piano e guitarra numa mesma música, enquanto cantava e fazia performances graciosas que encantavam as assembleias dos cultos. Público fiel e notoriedade foram consequências naturais das muitas viagens com a mãe, para cantar em igrejas de diversas cidades.

Já nos anos 1930, Rosetta, também conhecida com um “Sister” religioso antes do nome, era divina na música das liturgias. E profana nos palcos noturnos onde desnudava as pitadas de seus melhores demônios, manifestados numa mistura sem qualquer cerimônia de gospel, blues, jazz, rhythm and blues, country music e rock and roll.

Barbarizava olhos e ouvidos surpresos com sua música frenética, sempre armada de uma guitarra elétrica repleta de efeitos – a distorção pesada, talvez a expressão sonora mais característica do rock, era uma delas.

Trocou de igreja e casou com o pastor Thomas J. Thorpe, que não aceitava atividade artística da esposa. Em 1938, ela caiu fora do casamento infeliz, manteve o sobrenome dele trocando a grafia para Tharpe, mudou para Nova York e foi morar no Harlem.

Logo foi descoberta pelo grande caçador de talentos John Hammond, que produzia o famoso espetáculo From Spirituals to Swing no palco do Carnegie Hall, onde ela foi parar ao lado de artistas famosos.

Não demorou, estava atuando nos lendários Cotton Club e Café Society, onde se apresentavam Cab Calloway, Count Basie, Benny Goodman, Billie Holliday e o resto da constelação da música.

De contrato assinado com a Decca Records, gravou naquele mesmo 1938 quatro músicas e o primeiro single foi Rock me, sucesso imediato. Basta ouvir com atenção para ver que o título antecipava o futuro.

Sua gravação de Strange things happening every day, de 1944, é considerada a gravação precursora do rock and roll e já reunia a formação clássica de voz, guitarra, piano, baixo e bateria. Não deve ter sido à toa que um ainda adolescente Little Richard abriu seus shows. Ou que ela também tenha tocado com The Jordanaires, antes que a banda passasse a trabalhar com Elvis Presley.

Bill Haley, Carl Perkins, Chuck Berry, Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Johnny Cash, Little Richard e tantos outros nomes míticos estão registrados na primeira infância do rock. Mas é impossível ignorar que Sister Rosetta Tharpe influenciou – como todos reconheceram ao longo da vida – esses ilustres senhores. Bem como o blues britânico dos mais jovens Eric Clapton, Keith Richards e Jeff Beck. Sem contar gente como Isaac Hayes, BB King, Bob Dylan, Aretha Franklin e Rod Stewart.

Numa entrevista concedida no fim dos anos 1960, ela disse “Oh, essas crianças e o rock and roll! Isso apenas acelerou o rhythm and blues. Eu venho fazendo isso desde sempre”. O próprio Elvis declarou diversas vezes “O que eu faço não é nada novo, os negros cantam e dançam dessa forma há muito tempo”. Também é bom não esquecer que, desde sua origem, a expressão rock and roll significava “dançar”, “balançar” ou “transar”, dependendo do momento.

De forma ainda mais ampla, é possível supor que a expressão era associada a movimento. Tanto que, em 1934, o filme Folias transatlânticas trouxe a participação das Boswell Sisters (trio formado pelas irmãs Martha, Connee e Helvetia Boswell) cantando seu grande sucesso Rock and roll. A música não tinha nada a ver com o ritmo que hoje conhecemos, apenas fazia referência ao balanço de um transatlântico cruzando o mar. Mesmo assim, parece ser a primeira vez que a expressão aparece relacionada ao mundo da música.

Totalmente rock and roll, Rosetta Tharpe fez fortuna e não se cansou de quebrar barreiras. Numa época de virulenta segregação racial, ela gostava de dividir o palco com artistas brancos e passou a reunir pessoas negras e brancas em grande comunhão nas suas plateias. Teve romances com homens e mulheres. Divulgou os perigos das doenças venéreas. O terceiro casamento, com seu empresário Russel Morrison, foi realizado no Griffith Stadium, em Washington, para 25 mil pessoas que pagaram ingressos para assistir à cerimônia e a um concerto em seguida, que restou gravado.

Também venceu as muitas resistências do conservadorismo religioso e continuou cantando nas igrejas, ao mesmo tempo em que enchia clubes e teatros. Terminou levando o gospel para o grande mercado da música comercial e inventou o pop gospel.

Mesmo tendo utilizado diversos modelos de guitarra, a Gibson SG ficou associada à sua imagem negra, forte, decidida e foi companheira de grande parte da carreira, inclusive na última apresentação, realizada em Copenhague, Dinamarca (1970).

Estava vivendo na perigosa companhia da depressão desde a morte da mãe, no ano anterior, e o quadro da saúde piorou com o avanço da diabetes. As complicações da doença levaram a dois derrames, o primeiro logo depois da apresentação na Dinamarca, que terminou provocando a amputação de uma das pernas. O segundo, fatal, em 1973. Tinha 58 anos, vivia completamente falida na Filadélfia e foi enterrada numa cova sem identificação.

A lápide erguida em seu túmulo décadas depois – com recursos obtidos num concerto para esse fim –, traduz o legado musical: “Ela cantava até você chorar e então cantava até que você dançasse de alegria. Ela manteve a igreja viva e os santos se regozijando”. Desde 2008, por decreto do governo da Pensilvânia, 11 de janeiro (dia do concerto para a lápide) é o Sister Rosetta Tharpe’s Day.

Sister Rosetta Tharpe foi uma artista que encarnou o rock and roll muito antes que alguém tivesse qualquer noção a respeito. Por um desses mistérios que seguem incompreensíveis, o nome dela nunca foi reconhecido na maternidade do rock como deveria, no ambiente de gestação. A glória ficou com os “filhos” que viraram estrelas a partir da mistura de talento e força colossal da mídia. Mas, é impossível haver filho sem existir uma mãe. Hey, mama!

 

21/06/2021

A rota do tempo

 

Dennis Hopper e Peter Fonda em "Easy Rider" (fotografia Pilotguides.com)

Heraldo Palmeira

Um ícone vai sendo formado pelas histórias que se repetem ao longo do tempo. Quando se percebe, virou retrato de identidade de mais e mais pessoas.

A estrada foi inaugurada em 1926, dentro do plano nacional de autoestradas do governo dos Estados Unidos. Com cerca de quatro mil quilômetros, era parte de um conjunto de noventa e seis rodovias destinadas a facilitar a mobilidade dos norte-americanos para todos os pontos do país. Os trajetos Norte-Sul receberam números ímpares; os Leste-Oeste, pares.

Do ponto inicial em Chicago até o ponto final no famoso píer da praia de Santa Mônica, cruzava quase duzentas cidades espalhadas por oito estados (Illinois, Missouri, Kansas, Oklahoma, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia). Um trajeto de mais de cinquenta horas no asfalto, enfrentando múltiplas paisagens, temperaturas, áreas inóspitas e sensações únicas. Em determinados pontos, ganhou tal importância que algumas cidades foram se formando ao redor e o asfalto virou área urbana. Há alguns anos o trajeto final foi estendido até o Sunset Boulevard, em Los Angeles.

Nas primeiras décadas serviu de rota para aventureiros ou gente que buscava melhores condições de vida na já famosa Costa Oeste. Também era um caminho novo por onde os jovens pioneiros iam se livrando dos costumes conservadores da Costa Leste, até sentir o vento marinho das praias do Pacífico na ensolarada e liberal Califórnia. Na verdade, todos queriam encontrar os próprios destinos que haviam projetado.

A estrada era um cenário de novidades. Estavam nela o Eagle, primeiro motel da história. A primeira lanchonete McDonald’s. O Joey Cafe oferecendo combustível, comida e local e hospedagem. O MidPoint Cafe indicando o ponto exato do meio da viagem. O pequeno 66 Motel, que funciona desde a década de 1940 e ostenta uma das placas de néon mais famosas do trajeto. O Cadillac Ranch com seus dez carros semienterrados na areia, mostrando a evolução do modelo de 1949 a 1963. Sem contar o parque Joshua Tree, onde o corpo do músico Gram Parsons foi cremado numa cena espetacular, depois que seu amigo Phil Kaufman roubou o corpo do criador do country rock – já estava no aeroporto, pronto para ser trasladado até a Flórida para as cerimônias fúnebres.

Na verdade, Kaufman apenas atendeu a um pedido do cantor e compositor porque, certa feita, ele havia dito que quando morresse não gostaria de ser enterrado, desejava que seu corpo fosse cremado naquele ponto do deserto.

Em razão da relativa proximidade geográfica com a estrada, a cidade de Las Vegas e o Grand Canyon terminaram somados às atrações originais do trajeto.

Desde que jogou suas câmeras sobre a Rota 66, o cinema iniciou o processo de construção do mito. As vinhas da ira, filme clássico de 1940 do lendário diretor John Ford, mostra a saga de uma família de agricultores obrigada a abandonar a fazenda onde vivia. Eles partem de Oklahoma e tomam a estrada para buscar uma prosperidade que idealizaram como redentora na Califórnia, sob a liderança do filho Tom, que acabara de sair da prisão e estava em liberdade condicional.

Repetiram outras tantas famílias que tomaram a estrada durante a Grande Depressão para deixar a região denominada Dust Bowl (Bolsão de Poeira) que se espalhava por Colorado, Kansas, Oklahoma e Texas. Esse êxodo pode ter inspirado a canção Route 66, gravada em 1946 por Nat King Cole e que ajudou a fortalecer o imaginário popular de liberdade e esperança que a estrada representava.

Em 1960, uma série de televisão da CBS denominada Route 66 – que ficou no ar até 1964 – pouco tinha a ver com ela, mas valeu-se da sua mítica. Inteiramente filmada em ambientes de (outras) estradas trilhadas por um encantador Corvette conversível, apenas nos três primeiros episódios fez alguma referência à Rota 66.

Exatamente em 1969, no crepúsculo de uma década espetacular para a cultura pop, dois homens desarvorados sobem em suas motocicletas Harley-Davidson e seguem gastando o mesmo asfalto numa representação daqueles tempos de sexo, drogas, rock’n’roll, cabelos ao vento, liberdade sem lenço e sem documento, no melhor do estilo hippie.

O filme Easy rider (Sem destino) foi o limiar de uma nova linguagem cinematográfica do que ficou denominado “Nova Hollywood”.

Apesar do clima conturbado das filmagens, muito em razão dos ataques de fúria e consumo cavalar de drogas do diretor e ator Dennis Hopper, a produção resultou num dos road movies mais icônicos do cinema, levado pelos guidons de Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper), dois caras comuns cujo estilo de vida era um retrato mais do que realista daqueles tempos de contracultura. Na verdade, os personagens representavam muito de perto tipos como os próprios atores naquelas alturas das suas vidas. De lambuja, a participação soberba de Jack Nicholson (George), outro easy rider da melhor estirpe.

Esse filme deu um impulso monumental para transformar a Rota 66 em ícone americano e na estrada mais famosa do mundo. E comprovando que a ficção pode consolidar o retrato de identidade de mais e mais pessoas, Tom, o filho que liderou o clã Joad na saga de 1940 – que iniciou a história cinematográfica da rodovia –, foi um dos grandes papéis da carreira de Henry Fonda, o pai de Peter Fonda, produtor, um dos roteiristas e protagonista da aventura sobre duas rodas, cuja personagem também vivia em desarmonia com a lei.

Se isso fosse pouco, 1969 também registrou a morte do escritor Jack Kerouac, que traçou os parâmetros de uma geração sem parâmetros, os beatniks. Não por acaso, autor de On the road (Pé na estrada), um livro escrito a partir das intermináveis andanças sem destino em condições miseráveis que ele fez durante sete anos (nos anos 1940) pela vastidão dos Estados Unidos. Vagou na companhia do amigo Neal Cassady principalmente pela Rota 66. Nascia ali a idealização de viver na estrada, a fantasia de encontrar saída fugindo das agruras cotidianas num cenário sempre em trânsito, que inundou a cultura pop com grande intensidade nos anos 1960.

O cinema continuou transitando com suas câmeras pela estrada. Golpe de Mestre (1973), Bagdad Cafe (1987), Thelma & Louise (1991), Forrest Gump – O contador de histórias (1994) e o filme de animação Carros, com personagens e cenários inspirados em partes da estrada.

Mesmo conhecida como “Estrada Mãe” e “Rua Principal da América”, começou a dar sinais de envelhecimento a partir de 1950, quando as autoestradas interestaduais apareceram nos mapas com mais funcionalidade, simplificando trajetos e cheias de avanços tecnológicos. Essa novidade provocou o desaparecimento dos viajantes e do dinheiro que movia todos os negócios e pequenas cidades nos oito estados por onde ela se estendia.

Apesar de resumir a cultura e a contracultura norte-americanas, de ter sido fonte e rota de fuga de diversos paradigmas, em 1985 deixou de fazer parte do US Highway System, o sistema de autoestradas do governo dos Estados Unidos. Desde então ganhou um daqueles títulos eméritos que soam como um consolo mal disfarçado: “Histórica Rota 66”. Passou a viver do passado mantendo alguns prédios, monumentos e uma boa indústria de souvenires.

Ao ser retirada do sistema viário, pedaços do seu trecho original terminaram incorporados por outras vias expressas mais novas, largas, rápidas, seguras e modernas. Diversas partes que ficaram inúteis à malha rodoviária oficial foram abandonadas, mas continuam disponíveis para os aventureiros.

Teve início um grande trabalho de marketing e investimentos privados de restauração. Tudo para convencer as pessoas a reviverem o apogeu da estrada, cujo espírito parecia transitar em motos Harley-Davidson e Indian, triciclos, motorhomes, Mustang, Camaro e Corvette conversíveis...

Cada vez mais turistas chegam para fazer uma espécie de viagem no tempo por pontos lendários. Há trechos que levam a lugar nenhum, cidades fantasmas no meio do nada e centros urbanos nervosos que aparecem tentando quebrar o encanto com semáforos e engarrafamentos.

A velha estrada é um enorme portal de acesso para as diferenças culturais e costumes particulares de cada região – indígenas, velhos caubóis, outsiders e urbanoides tecnológicos. Se algo parecer meio empoeirado, basta pisar no acelerador e seguir adiante ouvindo o ronco do motor, o vento e a trilha sonora.

Viajar pela Rota 66 revela o retrato do mundo que se pretende reino das diversidades, mas segue repetindo muito do que já foi um dia, emperrado numa espécie de museu de grandes novidades. E a velha estrada corroída pelo tempo parece rir entrementes, ciente de que permanece no mesmo papel de eixo de ligação entre sensações que nunca envelhecem. É certo que o desgaste dos pneus levará apenas ao território de um passado idealizado como se fosse melhor do que tudo que veio depois; nada além de nostalgia. O calor, o frio, o vento, três fusos horários, a poeira, as sucatas do abandono, a tristeza, o desencanto, a solidão, os motociclistas seguem todos zanzando ali. Implacáveis. Sem destino.

Conhecer ou rever aquele mundo de faz de conta movido a gasolina é uma comprovação de que um ícone foi sendo formado pelas histórias que se repetem ao longo do tempo. Quando se percebe, virou retrato de identidade de mais e mais pessoas que parecem as mesmas, apenas deslocadas no tempo. É assim que sempre foi; deverá continuar sendo por muito tempo.

Embarcar na rota do tempo pela Rota 66 será sempre uma aventura inesquecível. Boa viagem!


13/06/2021

Neuróticos Anônimos e Assumidos

 



Antonio Rocha

Foi na década de 1990 que travei contato com a “Irmandade de Ajuda Mútua” acima. Através de uma amiga psicanalista, falecida, ela nos encaminhou aos mais diversos grupos que existem na cidade do Rio de Janeiro. Interessante que ela tendo títulos universitários na área “psi”, não abria mão das reuniões semanais. Ou seja, era uma neurótica assumida. E dizia que funcionava para vivermos melhor ante as nossas pirações diárias.

Um dia fui visitar o escritório do RJ e vendo o meu entusiasmo em comprar os livros e livretos do tema o funcionário me perguntou:

- Companheiro, você é um neurótico anônimo ou assumido?

- Olha amigo – respondi – a esta altura do campeonato eu sou um entusiasta assumido e divulgarei sempre, onde for possível, para que mais pessoas possam beber nesta fonte de Sabedoria.

Os grupos geralmente funcionam em igrejas católicas, nos emprestam uma sala para as reuniões, mas tem encontros anuais, regionais, nacionais e até internacionais. São 180 países com representações. Não se paga nada, mas semanalmente, cada um paga o que pode, desde um simples realzinho até mais, para a manutenção.

Existem grupos abertos, onde qualquer pessoa pode frequentar e grupos fechados, quando por exemplo reúnem pessoas famosas/celebridades que não querem estar expostas nas mídias.

A Irmandade Mãe, primeira no mundo, foi o AA – Alcoólicos Anônimos, nos EUA, depois vieram muitas outras como N/A – Neuróticos Anônimos (a barra ou cajado ou bastão é importante para diferenciar do) NA – Narcóticos Anônimos, mas tem os FA – Fumantes Anônimos, Devedores Anônimos, DASA – Dependentes de Amor e Sexo Anônimos, Alanon – Amigos e Familiares dos Alcoólicos Anônimos, Comedores Compulsivos Anônimos (também faço parte, para os glutões) e outras congêneres.

Uma reunião de N/A começa com a “Oração da Serenidade: Concedei-nos Senhor a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar. Coragem para modificar aquelas que podemos e Sabedoria para distinguir uma das outras”.

Fala-se em Deus ou Poder Superior, mas é como cada um o concebe, não tratamos de religião, nem de política, nem de temas que causam polêmicas como futebol, por exemplo.

Mais adiante escrevo mais.

 

26/05/2021

Solidariedade

Fotografia Wilson Baptista Junior


Wilson Baptista Junior

Neste domingo vi aqui da minha janela, ao vivo, o que é solidariedade.

Tínhamos terminado de almoçar quando a Ana, indo às janelas olhar suas flores, me chamou a atenção para uma senhora, sentada no patamar da porta fechada de uma papelaria do outro lado da rua.

A senhora, provavelmente sem teto, como atestavam as sacolas ao seu lado que deviam conter todas as suas posses, estava ali há horas, acompanhada de três viralatas deitados ao seu lado no passeio. Aparentemente não tinha comido nada nesse período. Ana pegou no tabuleiro de lasanha de carne moída e presunto, ainda pela metade, que tínhamos comido no almoço, pegou num par de colheres, desceu, atravessou a rua e entregou para a senhora. Ela agradeceu com um gesto de cabeça, e esperou imóvel que a Ana voltasse para o nosso prédio.

Da janela, vi a senhora desembrulhar o tabuleiro, tirar a máscara, pegar numa das colheres e começar a comer. Sentindo o cheiro os cachorros se levantaram, e ela, com todo o cuidado e com a mesma colher, levava um bocado de comida à boca de cada um, depois comia ela mesma uma colherada, e calma e pausadamente repetia o ciclo.

Depois, tirou de sua sacola um vidrinho de álcool, higienizou cuidadosamente as mãos, recolocou a máscara e se recostou novamente contra a porta da loja.

Fiquei parado um bom tempo na janela, pensando no tanto que representava para ela, sozinha, desabrigada e certamente faminta, abrir mão daquela porção de comida para alimentar os seus cachorros, comparado com o pouco ou nada que representava para nós aquele meio tabuleiro de lasanha.

E me senti muito pequeno. Minhas preocupações com a pandemia, com os inevitáveis incômodos da idade e da vida diária simplesmente desapareceram, não significaram mais nada frente ao mudo e compassivo cuidado daquela senhora.

Volto a olhar pela mesma janela e ela não está mais lá. Continuou seu caminho, só Deus sabe para onde, com suas sacolas e seus companheirinhos. E levou comigo um pedaço da minha alma.

Onde estiver, senhora, muito obrigado.

 


22/05/2021

Contas um conto?

 

Fotografia Carlos Monteiro

Carlos Monteiro

Conto tantos, vários engraçados já vividos que eu não esqueci. Quem nunca passou por situações inusitadas, algumas sem pé nem cabeça? Algumas curiosas, outras engraçadas. Aquelas constrangedoras em que o buraco da ema é pequeno para esconder a cara envergonhada. Ficam os vexames, as histórias para os netos e as gargalhadas para as mesas de bares. 

No apartamento, oitavo andar... gritei:

Entrei na casa do vizinho! Entrei de gaiato no apê!

Uma amiga querida comprou uma nova moradia na planta. Obra programada com entrega garantida. Tudo certinho, planejado, pensado, calculado... só que deu errado. Ela devolveu a humilde residência em que, até então, morava, calculando transferir-se diretamente para a nova. Assim economizaria uns trocados com o aluguel. Por sua vez, o proprietário do imóvel aproveitou para acomodar a filha que vinha morar no Rio para realizar um doutorado. Tudo encaixado perfeitamente como num quebra-cabeças, em tempos e movimentos sequenciados milimetricamente. Planilhas complexas e completas, tipo uma sai pela manhã e a mudança, que vem de fora, da outra chega à tarde! A completude estava perfeita apenas com um pequeno detalhe: a construtora não cumpriu a data aprazada.

Encontro-a, dias antes, no Centro do Rio, já em um clima de ‘o que eu faço amanhã...’. Era um misto de assustada, com olhos em brasa e respingos da chuva do relógio que atrasa. Clipe sem nexo, Pierrot retrocesso, que nexo tem, que nexo faz? Havia acabado de me separar, indo viver em um apartamento de dois quartos com cinco utensílios básicos: um colchão, uma arara para as roupas, uma TV mínima, suavemente pousada sobre um caixote de maçãs “Red Indians”, catado na feira-livre da rua paralela, fogão e geladeira. Me compadeci com a situação e ofereci o quarto ‘às moscas’ para que ficasse até a entrega das chaves. Ali mesmo fiz uma cópia da chave, entreguei e apresentei meu novo endereço. Simplesmente esqueci a história.

Vários dias depois chego tarde da noite, momento exaustivo de trabalho, abro a porta e me deparo com um Frajola me olhando sério, cara de quem caiu do caminhão de mudança, em volta vejo uma sala com sofá, poltronas, mesa e cadeiras, luminárias e quadros. Até tapete e cortina tinha. Assustado, fecho vagarosamente a porta para não dar sinal que havia ‘invadido’ o apartamento alheio. Estaria ficando louco? Olhei o número na porta. Conferia com o meu; estava lá: ‘802’, mas ‘peraí’ eu não tenho móveis, muito menos gato. Teriam invadido meu imóvel? Me enchi de coragem, chave na porta e novamente o Frajola agora com cara de poucos amigos, tinha alguma coisa de cão de guarda ali, não sei se era poliglota, mas que ele rosnou, ah, ele rosnou e alto. Resolvi não encarar. Essa história de “gato que mia não arranha”... vai que ele não conhece o aforismo. Essa agonia levou uns cinco ou seis minutos. O prédio não tinha vigia, era tarde para bater no apartamento da síndica, talvez chamar Buscas e Salvamentos fosse uma solução. Preferi descer e tomar uns chopes no boteco da esquina. Horas tantas, como sempre expressa meu querido Carlos Leonam, com sono, cansado e meio bêbado, supus duas soluções: a redundância de encarar de frente o problema ou dormir no carro na garagem do prédio. Vai que era só uma alucinação de estresse. Vai que não tinha nada em casa.

Subi, abri a porta e lá estava o Frajola. Os chopes transformaram-no. Agora era o Lion-O dos Thundercats. De alvinegro ficou azulado com os cabelos em fogo. Tomei a pouca coragem que ainda me restava e fui em direção a cozinha de onde vinha um saboroso aroma de carne assada. Ignorei o ‘Gato The Cat’, deveria ser uma alucinação, no caso, uma alucinagato. O chope do ‘bunda de fora’ não era lá muito confiável, as sardinhas mumificadas, as moelas ao molho juntamente com os ovos coloridos da vitrine... praticamente um ácido psicodélico. Vagarosamente me aproximei do espaço gourmet e, silenciosamente, acompanhado pelo Frajola-Lion-O dou de cara com a minha amiga de avental, travessa na mão e a pergunta olho de qualquer entrevista:

—Pô cara, tu demorou hein?! Tá trabalhando demais! Fiz um jantar para gente em comemoração à minha estada por cá.

Ficou por seis meses. Fiquei amigo do Frajola que na verdade se chamava ‘Gaveta’, vai saber o porquê. Preferia dormir nos meus pés do que com ela. Devia ser a preguiça insana que tinha. Imagina escalar aquela cama. Pular no colchão, ao rés do chão, era bem mais prático.

Zero hora no relógio. A vida tem dessas coisas...

 

01/05/2021

A despedida tem trilha sonora?

 

Fotografia de Carlos Monteiro

Carlos Monteiro

“La poesia tiene una comunicación secreta con los sufrimientos del hombre. Amar es breve, olvidar lleva tempo.” – Pablo Neruda

Fico imaginando a despedida com uma trilha sonora. Aquela sensação de falha, de perda. A impressão de já ir tarde ou de que não devia ter vindo. Prenúncio de Odete Lara, de tristeza e falta inevitável e inefável.

Alguns poetas descreveram, musicalmente, esta vereda desarmoniosa. São canções que, em algum momento, ‘ouvimos’ num background imaginário, junto com a lágrima fugidia que disfarçadamente enxugamos, mas que insistiu em permanecer marejando sofridamente nosso olhar.

Esses poemas teriam sido escritos para um amor partido? Para um coração descompassado? Para um adeus quase inexistente, daqueles que não há? Em que pensavam Noel Rosa, Ivan Lins, Vitor Martins, Adelino Moreira, Enzo Passos, Ataulfo Alves, Accioly Neto, Lupicínio Rodrigues, Antônio Maria, Tom Jobim e Chico Buarque, de todos o que melhor poetizou na despedida?

A separação tem três passos distintos e extremamente marcantes. O impacto do instante, quando o afastamento é iminente. Naquela hora são ditas juras de amor, são feitos pedidos de desculpas, promessas de que tudo se ajeitará e voltará fortalecido, que o amor superará todas as dificuldades, desavenças e diferenças. Que amor não se joga fora, que a sorte não pode ser entornada, de forma tão leviana, pelo chão. O olhar é de adeus, de descrença, que se arrasta, que arranha, porque o amor deixa marcas que não são possíveis ser apagadas. Ficarão como tatuagens coronárias para sempre.

No segundo período algumas farpas são trocadas que logo evoluem para acusações mútuas, passando para ameaças, não físicas, mas morais. Puro Esopo. Nerudas são cobrados, discos são pedidos de volta – um Pixinguinha não pode ser abandonado, gêneros musicais são questionados, estilos são criticados, aquela roupa, comprada num brechó do Soho, passa ser horrorosa e os amados tornam-se quase inimigos. E o pijama? Nada mais ridículo que um pijama. Tomam a saideira do licor preferido e há muito bebido. A chave é jogada por debaixo da porta, sim a porta onde jaz tapete, para nem pensar numa volta. O portão é batido sem fazer alarde, a medida do Bonfim vai presa à mala deixada no corredor. A carteira de identidade, tantas vezes esquecida, se confunde com muita saudade. Já vai tarde!

O amor, sentimento contíguo ao ódio, passa a caminhar lado a lado do fel, deixando loucos os amantes noite adentro. Há uma partilha de bens discutida e o pobre Golden Retriever, que recebeu o adorável nome de ‘gaveta’, se vê, sem nada ter a ver com a história, numa guarda compartilhada inequívoca; ora vive no antigo apartamento de Ipanema, ora coabita o conjugado do Bairro de Fátima. A roupa suja é lavada ali, em plena sala de jantar, não importa se é hora do almoço e se a garrafa de licor tombou vazia num canto qualquer. Acusações mútuas são ditas ou, na simplicidade do lugar-comum vem com o “...não é você, o problema sou eu” e um pano rápido. Há a subfase vingança, absolutamente raivosa, onde os nomes são jogados na lama moral. Lares são malditos, onde nem a comida paga não foi merecida, não é só de casa e comida que aquece um coração.

É chegado o instante Odete Lara, a trilha sonora vira hino, o copo se esvai em whisky com guaraná; Drurys, é claro. Noites insones. Na vitrola, tocando tudo que lembra aquele amor, aquela dor de cotovelo e todo o ardor do sofrimento perene, sensação de fracasso. O apartamento se torna uma caverna profunda, fria e irrequieta, garrafas de gim, com doses tomadas aos bocados no gargalo, estão frigidamente depositadas no fundo do armário. O disco, quase penetrado pela agulha, tem pena de ti. Estás um trapo, teu eu é puro Antônio Maria que habita os corações esquecidos, carentes e abandonados.

Passados horas, meses, anos... entra em cena a fase arrependimento, o ciclo olhos nos olhos das espumas que o vento levou. É a remissão dos pecados e proclamação do amor eterno, prometido ao pé da Santa Cruz, diante de uma plateia atônita, misto de embevecimento e esplendor. A rendição ao último desejo do que começou em festa e que jamais será esquecido. A Lua por testemunha. Os beijos que ainda ardem e os seios que repousam sob as mãos. Lembranças, nada mais que boas lembranças. Estão vívidas na playlist criada no Spotify ou no Deezer.

Vem, quem sabe, a hora da reconciliação, dos olhares trocados, das juras secretas, tentativas de que tudo pode se ajeitar, que a aliança não foi derretida, muito menos empenhada, o Neruda foi lido e relido com apontamentos nas bordas, a lápis, para não danificar as páginas, já que os livros são sagrados, tudo ao som de boleros e do mestre Pizindin. Que tudo pode se tornar, mais uma vez, um lar.

“Volta, vem viver novamente ao meu lado”! Num mea-culpa, a confissão de que errou, mas jamais ‘sujou o nome’ do ser amado. A sala foi arrumada, o tapete emoldura o piso, o paletó pode voltar a abraçar o vestido de brechó, e os seios marcar o amor nos lençóis. Ah, se eu fosse você, ah esse imenso amor que me invade, ah o voltar ‘pra’ mim novamente, a não negativa do último desejo, desejo ardente, pegando fogo. Não negar o amor, o carinho. A boca continua marcada pelo beijo, te adorando pelo avesso, mesmo que tantos homens tenham te amado bem mais e melhor.

Suportarás vê-la tão feliz?

 

*Na fonte de Noel Rosa em “Último Desejo”; Accioly Neto em “Espumas ao Vento”; Ataulfo Alves em “Errei Sim”; Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passo em “Negue”; Chico Buarque em “Olhos nos Olhos”, Chico Buarque e Francis Hime em “Trocando em Miúdos” e “Atrás da Porta”; Tom Jobim e Chico Buarque em “Eu Te Amo”; Lupicínio Rodrigues em “Volta” e Vitor Martins e Ivan Lins em “Bilhete”.