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| Albert Schröder - Conversa Musical (1885) |
Heraldo Palmeira
Nem passou tanto tempo assim daquele meu encontro com Beto no aeroporto
do Rio, e recebi mensagem repleta de tristeza. Estava enfrentando suas
primeiras dificuldades na relação com Júlia. Águas turvas.
Ao que parecia, o navegador, marinheiro com amor em cada porto, não
estava se relacionando bem com a terra firme do porto seguro. Aquele ar
radiante de quem, depois de tantos anos, estava vivendo uma relação clara,
limpa, monogâmica e deslumbrante – palavras dele – parecia ter sucumbido às
(primeiras) nuvens que de vez em quando fecham o céu e fazem inverno em
qualquer relacionamento.
Li e reli o que ele me escreveu, tentando encontrar pistas. Garantiu que
não havia mais outras namoradas, namoradas ao mesmo tempo, como nos velhos
tempos. Mas estava claro que o plano inclinara perigosamente, ameaçando
desabar.
Fechei minha porta, entrei no elevador e dei de cara com uma linda
mulher chorando delicadamente. “Dor de amor”, pensei. Baixei a cabeça para não
haver constrangimento. Quando a porta abriu na garagem, me enchi de coragem
para um “Vai dar tudo certo, acredite!”. Ela respondeu com um leve aceno de
mão, um sorriso triste, de endoidecer, e desapareceu entre os carros.
Sentei diante do volante; olhei meu rosto no retrovisor pensando que
aquela frase também me servia por inteiro. Ainda bem que o cara grisalho que me
duplicava estava sereno, dando certeza de que eu contava com ele para tudo, o
tempo todo.
Liguei o carro e o locutor inundou o ambiente com as péssimas notícias
de sempre. Àquela hora da noite o trânsito já estava ameno, como deveriam ser
amenas as noites todas.
Segui devagar, com as janelas abertas. Preferi o sereno da noite à falta
de sereno do ar condicionado. Pensei em Beto e Júlia, no que poderia dizer em
resposta. Moska calou a trombeta das desgraças do locutor com frases
destroçando o alvo.
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar
Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada
Quando se parte rumo ao nada
Pensei que meu amigo podia ter perdido a luz do farol, a mulher que
surgiu porto seguro, e já não parecia pisar em terra firme. Pensei que ela
quisesse ter certeza de que não havia mais navegação em águas turvas, rotas
ocasionais, noites escuras demais. Zizi Possi, a fada-madrinha de todos os
veludos, flutuou alguns tons acima.
Eu quero cada gesto, cada palavra
Cada segundo da tua atenção
Faça isso por mim
Leve a dor pra longe daqui
Estou cansada de ouvir
Que eu só sei amar errado
Estou cansada de me dividir
O que é certo no amor
Quem é que vai dizer
O que falar, calar, querer
Eu quero absurdos, quero amor sem fim
Eu quero te dizer que eu só sei amar assim
Ainda faltava um pouco para eu chegar em casa. Não queria aquela
tristeza tanta me acompanhando. Dobrei a esquina e parei num sinal vermelho
logo adiante. Um casal discutia com certa veemência na calçada de um bar. Ela
falava mais, ele aparentava ouvir a dor. Zélia parecia traduzir o que diziam lá
fora.
O que
você quer
O que
você sabe
Não é
fácil pra mim
Meu fogo
também me arde
Às vezes
me vejo tão triste
Onde você
vai
Não é tão
simples assim
Porque às vezes meu coração não responde,
só se esconde e dói
Me diga como você pode viver indo embora,
sem se despedaçar
Por favor me diga agora
Ou será que você nem quer perceber
Talvez você seja feliz sem saber
Por favor não vá ainda, espera anoitecer
A noite é linda, me espera adormecer
Não vá ainda, não, não vá ainda
Percebi que desabei quando enxerguei o sinal verde embaçado, como se
tivesse chovido. Eu estava sofrendo por aquele amor ferido que, mesmo sem ser
meu, era dos meus.
Cheguei em casa murcho. Joguei sobre a mesa as chaves do carro e as
coisas que a gente sempre carrega. Comi alguma coisa ligeira e sentei.
A tela do computador estava em branco, o cursor piscando impaciente, me
cobrando o que dizer ao meu amigo. Deitado ao lado, na verdade esparramado
sobre os meus pés, o staffordshire bull terrier “professor Bart”, uma das
criaturas mais brandas e carinhosas que conheço na vida – apesar de a raça ser
conhecida por coragem, destemor, energia, força descomunal.
De repente, a programação do canal de música da tevê me trouxe Ivan e
juntos resolvemos a questão da minha angustiante falta de palavras.
Querido Beto,
Esse amor é tão forte que quase arrasta a
gente junto, acredite! Vocês chegaram um para o outro com hora marcada, no
tempo exato, num tempo em que não temos mais tanto tempo porque já não somos tão
jovens – como diz um amigo querido que vive longe, “temos mais passado do que
futuro”.
Você me contou do encontro quando ainda
nem sabia se a rua tinha saída, mas seria capaz de abrir uma! Agora, quase
desistindo, me fala dos primeiros dissabores. Quem vive só de sabores? Qual a
receita que não desanda? Ainda mais o que não tem receita – lembra do Milton à
flor da pele?
Eu não quero me intrometer; apenas estou
pronto para matar vocês dois. Por isso, vou usar as palavras do nosso Ivan, que
estou ouvindo cantadas. Pode mostrar para Júlia.
“Vieste na hora exata
Com ares de festa e luas de prata
Vieste com encantos, vieste
Com beijos silvestres colhidos pra mim
Vieste com a natureza
Com as mãos camponesas plantadas em mim
Vieste à hora e a tempo
Soltando meus barcos e velas ao vento
Vieste me dando alento
Me olhando por dentro
Velando por mim
Vieste de olhos fechados
Num dia marcado
Sagrado pra mim
Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, pra dentro de mim
Meu amor”
Quer saber mesmo? Deixe barcos e velas
soltos ao vento, ao longe. Insista com a terra firme, mesmo a gente sabendo que
nem sempre é fácil andar nela. Fazer o quê?
Dê um beijo na Júlia, diga que estou
torcendo!
Beijos. Juízos!
A chuva fina seguiu molhando o vidro da janela lá fora. E as lentes dos
meus óculos cá dentro. Bart seguia dormindo o sono dos cães justos, enrolado
nos meus pés. Eu torcia para continuar testemunha cúmplice daquela felicidade
que vi escancarada no rosto do meu amigo, no encontro do aeroporto.
Beto e Júlia são bons de cozinha, grandes anfitriões. É delicado o
momento de decidir o cardápio, ele exímio nas carnes vermelhas e caças, ela nos
pescados e massas. Sorte de quem frequenta a casa ampla onde nunca falta calor
e chama.
Num sábado de peixe cheguei cedo, estava entregue aos queijos e vinhos e
pude viver “o processo” de decisão para apresentação do prato. Quando as
labaredas ameaçaram sair de baixo das panelas me assumi mediador, salvo por
Beto Guedes tocando num canto da sala.
– Moqueca. E façam o favor de prestar atenção na música.
Não sei andar sozinho
Por essas ruas
Sei do perigo que nos rodeia
Pelos caminhos
Quero o abrigo do teu abraço, que me
incendeia
Não há sinal de cais
Mas tudo me acalma no seu olhar
Você parece comigo
Nenhum senhor te acompanha
Você também se dá um beijo dá abrigo
Que beijo de lascar foi aquele, meu bom Deus!
A noite já ia alta – como “altos” estávamos todos –, beirando a
madrugada, quando fui embora. Saí devagarinho de um dia de felicidade, sem me
despedir. Pra quê? Não ousaria cortar os dois, deitados no sofá, envoltos nas
sombras ternas, a voz de Simone baixinho. Águas claras.
Música, música
Companheira do quarto dos rapazes
Entre revistas e fumaça
Confidente do quarto das meninas
Entre calcinhas e sandálias
Farol na cerração dos grandes medos
A força que levanta os bailarinos
Feroz como a ira do Irã
Ou mansa como o último carinho
Quando já chega a manhã
Música, música
Já se vão alguns anos da mensagem de Beto se queixando das enxurradas. É
sempre bom estar com eles, em dias enfeitados com aqueles pratos especiais!
Ouvindo todas as músicas, planas ou inclinadas. Em águas turvas ou claras.
Segue o curso do rio, de terra firme e beira de cais.
(*)
Rebatizei meus amigos como Beto e Júlia para deixá-los incógnitos em seus
desencontros apaixonados e suas turras de namorados sem forças para resistir.
Chegaram às diferenças do amor, que jamais serão as últimas.
(**)
Trechos de A seta e o alvo
(Paulinho Moska) / Eu só sei amar assim
(Herbert Vianna) / Não vá ainda (Christiaan Oyens-Zélia
Duncan) / Vieste (Ivan
Lins - Vítor Martins) / Cruzada (Tavinho Moura-Márcio
Borges) / Música, música (Sueli
Costa-Abel Silva).









