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23/04/2017

Músicas Inclinadas

Albert Schröder - Conversa Musical (1885)
Heraldo Palmeira
Nem passou tanto tempo assim daquele meu encontro com Beto no aeroporto do Rio, e recebi mensagem repleta de tristeza. Estava enfrentando suas primeiras dificuldades na relação com Júlia. Águas turvas.
Ao que parecia, o navegador, marinheiro com amor em cada porto, não estava se relacionando bem com a terra firme do porto seguro. Aquele ar radiante de quem, depois de tantos anos, estava vivendo uma relação clara, limpa, monogâmica e deslumbrante – palavras dele – parecia ter sucumbido às (primeiras) nuvens que de vez em quando fecham o céu e fazem inverno em qualquer relacionamento.
Li e reli o que ele me escreveu, tentando encontrar pistas. Garantiu que não havia mais outras namoradas, namoradas ao mesmo tempo, como nos velhos tempos. Mas estava claro que o plano inclinara perigosamente, ameaçando desabar.
Fechei minha porta, entrei no elevador e dei de cara com uma linda mulher chorando delicadamente. “Dor de amor”, pensei. Baixei a cabeça para não haver constrangimento. Quando a porta abriu na garagem, me enchi de coragem para um “Vai dar tudo certo, acredite!”. Ela respondeu com um leve aceno de mão, um sorriso triste, de endoidecer, e desapareceu entre os carros.
Sentei diante do volante; olhei meu rosto no retrovisor pensando que aquela frase também me servia por inteiro. Ainda bem que o cara grisalho que me duplicava estava sereno, dando certeza de que eu contava com ele para tudo, o tempo todo.
Liguei o carro e o locutor inundou o ambiente com as péssimas notícias de sempre. Àquela hora da noite o trânsito já estava ameno, como deveriam ser amenas as noites todas.
Segui devagar, com as janelas abertas. Preferi o sereno da noite à falta de sereno do ar condicionado. Pensei em Beto e Júlia, no que poderia dizer em resposta. Moska calou a trombeta das desgraças do locutor com frases destroçando o alvo.
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar
Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada
Quando se parte rumo ao nada
Pensei que meu amigo podia ter perdido a luz do farol, a mulher que surgiu porto seguro, e já não parecia pisar em terra firme. Pensei que ela quisesse ter certeza de que não havia mais navegação em águas turvas, rotas ocasionais, noites escuras demais. Zizi Possi, a fada-madrinha de todos os veludos, flutuou alguns tons acima.
Eu quero cada gesto, cada palavra
Cada segundo da tua atenção
Faça isso por mim
Leve a dor pra longe daqui
Estou cansada de ouvir
Que eu só sei amar errado
Estou cansada de me dividir
O que é certo no amor
Quem é que vai dizer
O que falar, calar, querer
Eu quero absurdos, quero amor sem fim
Eu quero te dizer que eu só sei amar assim
Ainda faltava um pouco para eu chegar em casa. Não queria aquela tristeza tanta me acompanhando. Dobrei a esquina e parei num sinal vermelho logo adiante. Um casal discutia com certa veemência na calçada de um bar. Ela falava mais, ele aparentava ouvir a dor. Zélia parecia traduzir o que diziam lá fora.
O que você quer
O que você sabe
Não é fácil pra mim
Meu fogo também me arde
Às vezes me vejo tão triste
Onde você vai
Não é tão simples assim
Porque às vezes meu coração não responde,
só se esconde e dói
Me diga como você pode viver indo embora,
sem se despedaçar
Por favor me diga agora
Ou será que você nem quer perceber
Talvez você seja feliz sem saber
Por favor não vá ainda, espera anoitecer
A noite é linda, me espera adormecer
Não vá ainda, não, não vá ainda
Percebi que desabei quando enxerguei o sinal verde embaçado, como se tivesse chovido. Eu estava sofrendo por aquele amor ferido que, mesmo sem ser meu, era dos meus.
Cheguei em casa murcho. Joguei sobre a mesa as chaves do carro e as coisas que a gente sempre carrega. Comi alguma coisa ligeira e sentei.
A tela do computador estava em branco, o cursor piscando impaciente, me cobrando o que dizer ao meu amigo. Deitado ao lado, na verdade esparramado sobre os meus pés, o staffordshire bull terrier “professor Bart”, uma das criaturas mais brandas e carinhosas que conheço na vida – apesar de a raça ser conhecida por coragem, destemor, energia, força descomunal. 
Bart esparramado (fotografia Heraldo Palmeira)
De repente, a programação do canal de música da tevê me trouxe Ivan e juntos resolvemos a questão da minha angustiante falta de palavras.
Querido Beto,
Esse amor é tão forte que quase arrasta a gente junto, acredite! Vocês chegaram um para o outro com hora marcada, no tempo exato, num tempo em que não temos mais tanto tempo porque já não somos tão jovens – como diz um amigo querido que vive longe, “temos mais passado do que futuro”.
Você me contou do encontro quando ainda nem sabia se a rua tinha saída, mas seria capaz de abrir uma! Agora, quase desistindo, me fala dos primeiros dissabores. Quem vive só de sabores? Qual a receita que não desanda? Ainda mais o que não tem receita – lembra do Milton à flor da pele?
Eu não quero me intrometer; apenas estou pronto para matar vocês dois. Por isso, vou usar as palavras do nosso Ivan, que estou ouvindo cantadas. Pode mostrar para Júlia.
“Vieste na hora exata
Com ares de festa e luas de prata
Vieste com encantos, vieste
Com beijos silvestres colhidos pra mim
Vieste com a natureza
Com as mãos camponesas plantadas em mim
Vieste à hora e a tempo
Soltando meus barcos e velas ao vento
Vieste me dando alento
Me olhando por dentro
Velando por mim
Vieste de olhos fechados
Num dia marcado
Sagrado pra mim
Vieste com a cara e a coragem
Com malas, viagens, pra dentro de mim
Meu amor”
Quer saber mesmo? Deixe barcos e velas soltos ao vento, ao longe. Insista com a terra firme, mesmo a gente sabendo que nem sempre é fácil andar nela. Fazer o quê?
Dê um beijo na Júlia, diga que estou torcendo!
Beijos. Juízos!
A chuva fina seguiu molhando o vidro da janela lá fora. E as lentes dos meus óculos cá dentro. Bart seguia dormindo o sono dos cães justos, enrolado nos meus pés. Eu torcia para continuar testemunha cúmplice daquela felicidade que vi escancarada no rosto do meu amigo, no encontro do aeroporto.
Beto e Júlia são bons de cozinha, grandes anfitriões. É delicado o momento de decidir o cardápio, ele exímio nas carnes vermelhas e caças, ela nos pescados e massas. Sorte de quem frequenta a casa ampla onde nunca falta calor e chama.
Num sábado de peixe cheguei cedo, estava entregue aos queijos e vinhos e pude viver “o processo” de decisão para apresentação do prato. Quando as labaredas ameaçaram sair de baixo das panelas me assumi mediador, salvo por Beto Guedes tocando num canto da sala.
– Moqueca. E façam o favor de prestar atenção na música.
Não sei andar sozinho
Por essas ruas
Sei do perigo que nos rodeia
Pelos caminhos
Quero o abrigo do teu abraço, que me incendeia
Não há sinal de cais
Mas tudo me acalma no seu olhar
Você parece comigo
Nenhum senhor te acompanha
Você também se dá um beijo dá abrigo
Que beijo de lascar foi aquele, meu bom Deus!
A noite já ia alta – como “altos” estávamos todos –, beirando a madrugada, quando fui embora. Saí devagarinho de um dia de felicidade, sem me despedir. Pra quê? Não ousaria cortar os dois, deitados no sofá, envoltos nas sombras ternas, a voz de Simone baixinho. Águas claras.
Música, música
Companheira do quarto dos rapazes
Entre revistas e fumaça
Confidente do quarto das meninas
Entre calcinhas e sandálias
Farol na cerração dos grandes medos
A força que levanta os bailarinos
Feroz como a ira do Irã
Ou mansa como o último carinho
Quando já chega a manhã
Música, música
Já se vão alguns anos da mensagem de Beto se queixando das enxurradas. É sempre bom estar com eles, em dias enfeitados com aqueles pratos especiais! Ouvindo todas as músicas, planas ou inclinadas. Em águas turvas ou claras. Segue o curso do rio, de terra firme e beira de cais.

(*) Rebatizei meus amigos como Beto e Júlia para deixá-los incógnitos em seus desencontros apaixonados e suas turras de namorados sem forças para resistir. Chegaram às diferenças do amor, que jamais serão as últimas.
(**) Trechos de A seta e o alvo (Paulinho Moska) / Eu só sei amar assim (Herbert Vianna) / Não vá ainda (Christiaan Oyens-Zélia Duncan) / Vieste (Ivan Lins - Vítor Martins) / Cruzada (Tavinho Moura-Márcio Borges) / Música, música (Sueli Costa-Abel Silva).


22/04/2017

Estará a raça humana ficando cada vez menos inteligente?

 
Rodin - O Pensador (detalhe) - fotografia Jesusccastillo (wikimedia commons)
 

Wilson Baptista Junior
A gente sempre imagina que a raça humana vem evoluindo ao longo do tempo. Mas será que é verdade?
Uma equipe de cientistas americanos publicou um trabalho bastante provocador, na revista "Trends in Genetics" (Tendências na Genética), onde afirma que, pelo contrário, a humanidade vem perdendo lentamente suas capacidades intelectuais e emocionais. Os cientistas, dirigidos pelo doutor Gerald Crabtree, titular do Laboratório Crabtree de Genética da Universidade de Stanford, chegaram à conclusão de que a evolução das facilidades da vida moderna tende a diminuir a influência do processo de seleção natural na evolução da inteligência humana, e que isto vem impedindo que as mutações genéticas prejudiciais para o desempenho da nossa capacidade cerebral sejam filtradas e descartadas pelo processo evolutivo.
Segundo Crabtree, o desenvolvimento mais intenso das nossas faculdades cerebrais aconteceu na época pré-histórica, quando nossos ancestrais ainda viviam na África, em grupos pequenos e dispersos e ainda num estágio rudimentar de comunicação verbal; nesse cenário a inteligência do indivíduo era vital para a sobrevivência da espécie. Quem não conseguia obter comida e proteger-se dos predadores morria, e com ele provavelmente sua família.
Havia então uma forte pressão evolutiva no sentido de privilegiar os indivíduos mais inteligentes, que foi o que levou a um desenvolvimento rápido dessas faculdades.
O desenvolvimento da agricultura permitiu o início do processo da urbanização; as pessoas passaram a poder viver em comunidades cada vez mais populosas e podiam então se especializar cada vez mais em termos de habilidades, e já não precisavam de conseguir diretamente alimentação e abrigo, podendo consegui-los em termos de troca e comércio. Uns produziam os alimentos, outros construíam os abrigos, outros produziam as roupas, e assim por diante.
Com essa especialização foram surgindo as diversas profissões e as sociedades foram se estruturando. Se por um lado esta estruturação foi o principal fator para a aceleração do desenvolvimento tecnológico, por outro lado foi reduzindo cada vez mais a pressão evolutiva sobre a inteligência do indivíduo.
Com a redução desta pressão, não só o desenvolvimento da inteligência se tornou cada vez mais lento, como eventuais mutações genéticas prejudiciais, que antes seriam eliminadas ao longo do processo de seleção natural, passaram a contar com maiores probabilidades de sobrevivência, e pela mesma razão as mutações benéficas passaram a ter menos impacto positivo.
O Dr. Crabtree estima que, considerando que existem de dois mil a cinco mil genes responsáveis pela nossa capacidade intelectual, e considerando a frequência com que ocorrem mutações genéticas prejudiciais, no período dos últimos três mil anos, que correspondem a umas cento e vinte gerações, cada um de nós já foi vítima de pelo menos duas destas mutações prejudiciais para nossa capacidade intelectual e nossa estabilidade emocional.
E para piorar o quadro, as descobertas mais recentes no campo da neurociência parecem indicar que os genes responsáveis pela capacidade intelectual são ainda mais suscetíveis do que os demais a sofrer mutações.
Bem preocupante :)
Me lembra a velha piada dos meus tempos de escola sobre a "Lei da Conservação da Inteligência", que dizia que "a quantidade de inteligência no mundo é constante, e a população não para de crescer..."
A publicação do trabalho da equipe de Crabtree, como era de se esperar, provocou uma grande controvérsia nos meios científicos, com manifestações que vão desde achar que faltam dados experimentais capazes de comprovar a sua teoria até comentários bem menos caridosos de alguns oponentes mais exaltados. Mas não deixa de fazer pensar.

Uma reportagem sobre o assunto está no Science Daily: http://www.sciencedaily.com/releases/2012/11/121112135516.htm


21/04/2017

Campo Limpo

Mestre Yokannan - imagem www.fraternidadeecletica.org.br

Antonio Rocha
Quem vai pela Estrada Brasília Anápolis, logo chega no Município de Santo Antonio do Rio Descoberto, mas em 1966, quando eu andava por lá, ainda não tinha esse município.
Chegávamos em uma localidade chamada Cidade Eclética, que vem a ser a Fraternidade Espiritualista, criada no Rio de Janeiro, nos anos 1950.
O fundador era chamado de Mestre Yokanaam e com a mudança da capital da República para Goiás, ele conseguiu com o presidente Juscelino, umas terras lá por aquelas paragens. E fez ali o seu recanto.
Vestia-se de branco como um antigo profeta, tinha cabelos e barbas longas e apoiava-se em um cajado. Morava em uma cabana, perto de uma torre de transmissão de rádio telegrafia. Ele era rádio telegrafista. Os demais membros da fraternidade moravam em casas comuns de alvenaria, mas bem distante de onde os visitantes passavam.
Os espiritualistas da época chamávamos de Campo Limpo, talvez por ser a proposta do lugar e limparmos os nossos campos astrais, isto é, a aura magnética em torno de nossos corpos físicos.
A rua principal tinha um pequeno hospital, uma delegacia, o templo, um armazém onde comíamos os quitutes. Mais adiante tinha uma cerca isolando a região dos moradores, onde visitantes não entravam.
Fui lá algumas vezes, numa dessas, assisti um diálogo interessante no templo. Um médium já idoso dava consultas, tinha outros médiuns e outras pessoas fazendo consultas. Mas vou me fixar nesse caso curioso:
O homem que ia iniciar a consulta estendeu as mãos para que o médium lesse as linhas e logo exclamou:
- Mas essas mãos estão sujas de sangue !
Visivelmente contrariado o visitante respondeu:
- E que eu sou policial aposentado e era essa a minha profissão.
- Mas não precisava matar, era só prender – respondeu o médium.
Então fiquei sabendo da história: o policial aposentado estava sendo atormentado pelos Espíritos de dois meliantes que ele matara, muitos anos atrás. E agora, na velhice, os espíritos o encontraram e estavam obsidiando o idoso, juntamente com uma gang de espíritos malévolos.
Acredite se quiser. Digamos, os Espíritos estavam se vingando e tornando a vida do velho aposentado em um inferno.
- Mas eu só cumpri a minha missão, eu pensava que matando eu estava agindo em nome da Lei.
- Mil vezes não, você deveria ter tentado uma outra solução – declarou o médium.
- Eu não tenho medo de morrer, sou espírita a vida toda, mas tenho essas duas manchas em meu currículo.
- Pois é, e agora temos que fazer um longo trabalho de doutrinação desses dois espíritos que chegam acompanhados de uma triste falange. Haja desobsessão.
- Na verdade, eu fico preocupado quando eu morrer, eles carregarem meu espírito e me aprisionarem na cidadela deles, os do mal, nas trevas.
- Você terá de vir aqui, durante muitos meses, uma sessão por semana.
A característica desses espíritas é que eles não cobram nada, cada um paga uma taxa mensal, se puder, para a manutenção da cidadezinha.
Tinham um jornal mensal, que circulou durante décadas. Eu cheguei a escrever alguns artigos budistas. Falando da proximidade entre budistas e espíritas. O veículo chamava-se “O Nosso”.
Depois fui embora com a minha carona e assim não acompanhei o final do diálogo, mas fiquei pensativo.
Outro dia li na web que, muitos policiais na velhice tem inúmeros problemas em função dos espíritos negativos que eles prenderam ou mataram. Esses espíritos voltam para se vingar, das mais diversas formas. Pode-se pensar que são problemas psicólogicos, existem sim, mas estou falando de uma dimensão que mais adiante será abordada.  
Mais adiante a Ciência aceitará as enfermidades de natureza “oculta”. Que o Espiritismo já vem falando há muito tempo.
Ninguém é obrigado a aceitar, nem acreditar... o tempo é a melhor escola.



20/04/2017

Au Moulin Rouge

fotografia Moacir Pimentel



Moacir Pimentel 
E cá estamos em Montmartre outra vez diante de outro dos ícones mundialmente conhecidos do bairro parisiense: o Cabaret Moulin Rouge, cujas lendas são mais interessantes do que os shows.
Muitos filmes têm contribuído para que Montmartre seja invadido por milhões de turistas anualmente em uma caça desenfreada aos seus encantos cinematografados. Eu ainda nem era nascido e já no filme Um Americano em Paris o Gene Kelly e a Leslie Caron terminavam em Montmartre. A história do Moulin Rouge e a invenção da famosa dança cancan nos foi contada também pelos atores Jean Gabin e Maria Felix, sob a direção de Jean Renoir, o filho do pintor Pierre-Auguste Renoir, um dos mais ilustres dos antigos moradores de Montmartre.
No seu filme Meia Noite em Paris, Woody Allen imagina o que aconteceria se o nosso desejo pelo passado pudesse ser consumado e se tornasse realidade. A Paris dourada e cinza, ventosa e melancólica, imune a seus próprios e abundantes clichês que Woody inventou como pano de fundo, certamente ajuda o tímido e jovem Gil - que nada mais é do que um alterego do diretor – no papel de um roteirista de Hollywood aspirante a romancista, que no entanto é mais conhecido por suas habilidades em reescrever.
Pleno de sonhos juvenis de glória literária, suspeito de pretensão e permanentemente insatisfeito, uma bela noite, enquanto passeia sozinho pela cidade e exatamente quando o relógio toca as doze badaladas da meia-noite, o personagem - mais do que um pouco bêbado! – vira uma espécie de Cinderelo ao ser abordado por um bando de barulhentos americanos que o convidam a embarcar em um antigo Peugeot e a viajar de volta no tempo para encontrar a Paris boêmia dos anos vinte que Gil idolatrava.
Nessa viagem ele janta um choucroute garnie com Picasso no La Rotonde e esbarra em Zelda e F. Scott Fitzgerald numa festa, na qual Cole Porter canta “Let’s Do It”. Recebe conselhos sobre como escrever de um lacônico Hemingway bebericando um absinto num boteco não muito diferente do lendário café Dingo e convence Gertrude Stein, sentada ao lado do seu famoso retrato pintado por Picasso, a ler seu manuscrito e se transforma em apto aluno de uma imperativa professora.
No screenplay, nosso antiherói prossegue firme e forte fazendo confidências a Salvador Dalí e ao fotógrafo Man Ray,  transformando T.S. Eliot em mantra, tentando dar um golpe póstumo em Matisse, tornando-se o provedor de ideias fantásticas de Buñuel ao sugerir-lhe que faça um filme sobre um jantar fracassado - @#$%@! - O Anjo Exterminador. Vira o salvador da problemática Zelda quando ela tenta se jogar no Sena e last but not least se apaixona pela amante de Picasso, interpretada pela Marion Cotillard. E ainda tem tempo de interagir com Djuna Barnes, Josephine Baker e outras figuras nativas e expatriadas do grande elenco de extraordinário talento, que povoou a Paris da Era do Jazz.
Como não mencionar a “fabulosa” Amélie Poulain, uma doce parisiense determinada a ajudar o próximo e a bem amar nas estações de metrô e mercearias do bairro e nos jardins abaixo da Sacré Coeur, que virou uma febre. O Café des Deux Moulins que hospedou algumas das cenas do filme hoje faz parte de qualquer roteiro turístico, bem ali em uma das esquinas da Rua Lepic.
Inesquecível foi, com certeza, o musical hollywoodiano Moulin Rouge numa Paris de 1900 - de longe a mais visualmente deslumbrante das obras-primas de Baz Luhrmann – que relata a trágica história de amor de uma bela dançarina de cabaré e prostituta de luxo e de um poeta desarrumado e de sua turma de amigos artistas inadaptados, entre eles Henri de Toulouse-Lautrec era coadjuvante.
Não dá para esquecer aquela Nicole Kidman ruiva levando o Oscar para casa, graças ao papel de belíssima cortesã, para quem o projeto de escritor apaixonado cantava Your Song nos telhados do cabaret.
Sinceramente? Todas essas referências retumbantes e românticas fazem a cabeça do turista do terceiro milênio que, chegando a Paris de seus sonhos, às vezes se decepciona.
É por isso que a todas essas novidades eu ainda prefiro La Vie en Rose e as fabulosas mots d’amour que a eterna Edith Piaf costumava cantar nas noites de boemia...
Mas... deixemos a nostalgia de lado.
Se bem me lembro da última vez que nos encontramos em  Montmarte, eu tinha acabado de fazer uma massagem gratuita e me encontrava sentado em uma das mesas da Praça du Tertre, brechando a multidão enquando tomava uma cerveja gelada em um café.
Sim, porque contrariamente à crença popular, a maioria dos cafés nos pontos mais turísticos de Paris vende café bem ruim. Melhor pedir “une bière”. O refresco da lourinha “mofada” em um dia quente de verão vem a calhar principalmente quando se tem ainda muito chão pela frente nesse bairro habitado por uma nova tribo, a dos “bobos” – de bourgeois + bohemian – que apesar de odiarem os “fouturistes” perambulando pelo seu bairro não o abandonariam por nada nesse mundo.
Apesar dos turistas e batedores de carteiras, ainda vale a pena perambular pelos arredores da Praça du Tertre, por ruelas que nos reservam boas surpresas: antiquários, galerias e exposições temporárias de arte interessantes, música e alamedas verdes. Pelas calçadas laterais da Praça, jovens artistas desenham e pintam e vendem seus trabalhos e alguns são muito muito bons. 
fotografias Moacir Pimentel

Um lugar delicioso é o Restaurante La Crémaillère 1900, no edifício de número 15 da Praça, onde se come bem ao som de um piano honesto em um salão decorado por pinturas, espelhos e madeiras originais da Belle Époque. Só que, na Crémaillère, o mais bonito é o jardim interno com sua fonte Wallace e um chão de velhos paralepípedos sobreados por castanheiros.
Antes de descer a colina é obrigatório passar pela esquina das ruas Saint Justique e des Saule onde mora uma das casas mais antigas do bairro, hoje a pousada e restaurante La Bonne Franquette. A expressão é normanda e teve seu significado alterado ao longo dos séculos: de “francamente” para simples, informal, sem cerimônia. Ou, no caso, um lugar acolhedor, que serve comida caseira.
Há que ir no primeiro andar da Galeria Butte de Montmartre para ver as pitorescas vistas dos telhados e descer a Rua des Saules onde as paredes são usadas para fazer “instalações” e tem sempre uma boa foto pedindo para ser feita.
Mas antes é preciso fazer um programa fora do roteiro mais batido: bem próximo ao acelerado coração de Montmartre, na Rua Poulbot, passa batido o Espace Montmartre – ou seja o Museu Dalí. 
fotografias Moacir Pimentel

Onde se pode mergulhar no curioso e intrigante mundo de Salvador Dalí para encontrar materializado o gênio criativo do famoso artista. Não podemos nos esquecer que, parodiando aquele rei francês, o Salvador afirmou:
Le surrealism c’est moi!
Pense em um lugar s-u-r-r-e-a-l-i-s-t-a!
O espaço é o único museu na França inteiramente dedicado à obra do artista expondo-lhe pinturas, esculturas, desenhos, colagens, trabalhos gráficos e objetos divertidos como o tal do sofá vermelho em forma de boca.
Nesse pequeno museu mora a melhor coleção de esculturas do artista, muitas delas representando personagens de trechos bíblicos e da literatura como Romeu e Julieta, Dom Quixote e uma misteriosa Alice no País das Maravilhas pulando corda que me agrada muito, se bem que a prefiro nas ilustrações coloridas feitas por Dalí.
Lá estão ao lado da versão surrealista da Venus de Milo, a primeira escultura dele de nome Busto de uma Mulher, a incomum Mulher Girafa, aquela outra em chamas, os relógios derretidos e, é claro, o Elefante e o Caramujo.
Os trabalhos do artista são sonhos ou pesadelos – que infelizmente não se pode fotografar - e caminhando sob os céus de Montmarte após o Museu a conversa acaba sendo sobre toda a arte urbana circundante que talvez seja um outro caminho, uma abordagem diferente com novos códigos para confrontar velhas práticas de arte.
Não dá para não se perguntar se na arte que mora nas paredes de Montmartre não nos deparamos com um forte e ainda desconhecido vocabulário visual, um léxico não identificável à primeira vista? Será que os grafiteiros que se apropriam dos espaços públicos – fachadas, muros, escadas, paredes e até mesmo os lampiões do bairro - reinterpretando motivos e temas famosos, não estão fazendo apenas o que fez Dalí?
Quem olha aquelas maluquices todas com a mente aberta, percebe a mesma atitude iconoclasta, pensativa, alegre e libertária. E encontra um pendor comum para a cor e o estranho, alguma forma de fermento intelectual dissidente, algo entre a inspiração criativa e a provocação, tanto nos grafites quanto na obra de Dalí.
Polimórfica, explosiva, rebelde, desconcertante, engraçada, incomum, popular: estamos falando da arte de Dalí ou daquela de rua? Assim como Dalí, os artistas de rua são ilimitados quando se trata de suas fontes de inspiração e de crença, do material e dos meios que eles usam para criar. Há quem odeie e há quem aprecie a arte de rua. Milito entre os do último time.
E assim pensando é só fazer o caminho de volta pela Rua Poulbot, virar à direita, esnobar o badalado restaurante Le Consulat e de novo direita volver e voilà!
Noutra viela agradável nos deparamos com um pátio estreito rodeado por edifícios residenciais e lá, atravessando valentemente o muro dos fundos, eis que nos aparece uma escultura do artista Jean Marais de nome O Passa-Paredes.
Trata-se do Monsieur Dutilleul - o protagonista do conto do escritor Marcel Aymé – aquele que anda através das paredes, rouba bancos e milionários todas as noites, assina com giz vermelho na superfície mais próxima do delito o pseudônimo Garou-Garou - da expressão francesa loup garou significando lobisomem - conquista a simpatia do público por zombar da polícia e provoca nas senhoras um férvido desejo. Até que, em um triste dia, depois de visitar a mulher amada e casada, uma parede o prendeu para sempre... em Montmartre! 
fotografias Moacir Pimentel

Olhe atentamente para mão esquerda da escultura. Diz Dona Lenda que aqueles que tocam essa mão do Passa-Paredes – e não me pergunte o porquê - é agraciado com os poderes mágicos do personagem, entre eles a habilidade de ganhar dinheiro.
É evidente o brilho do bronze polido dos dedos da figura devido ao contato não se sabe de quantas mãos. E se você está aí balançando a cabeça e sorrindo de tanta bobagem, deveria dar uma boa olhada no brilho do bronze de outra famosa escultura.
Trata-se de uma estátua que dorme um sono eterno muito intranquilo no Cemitério do Pére Lachaise em Paris sobre o túmulo do pobre Victor Noir, um cidadão que o povo acredita ser capaz de transmitir doses cavalares de virilidade e/ou fertilidade a quem tocar sua pobre estátua mortuária... adivinha aonde? 
Túmulo de Victor Noir no Père Lachaise (imagem wikimedia)



Daí adiante é ladeira abaixo (rsrs) É claro que se pode descer de funicular ou no trenzinho branco que, apitando, desbrava o bairro para cima e para baixo. Mas é preciso coragem para pagar o mico sentado entre as criancinhas cara-pálidas! A menos que você use muletas ou tenha noventa anos ou uma porção de filhos beeem pequeninos, se subir em um dos vagões dessa Maria Fumaça de quatro rodas para descer a colina convencerá a todos de que é ruim da cabeça e doente do pé.
Porque é realmente agradável descer a Butte de Montmartre por qualquer uma das escadarias ou dos possíveis roteiros dependendo do que se deseja ver.

fotografias Moacir Pimentel

Eu pessoalmente prefiro a parte de trás de Montmartre, voltada para o Norte, sem as multidões e os vendedores insistentes de pulseiras e de chaveiros nos quais se penduram as onipresentes torres Eiffel. Gosto dos fundos do morro, dos paralelepípedos, das praças arborizadas e das grades de ferro, passando pelas vinhas e pelo moinho de vento sobrevivente, de nome Blute-Fin, no local onde nasceu. Gosto dos muros de pedra cobertos de hera, dos bancos isolados onde a gente senta, respira ar puro e é capaz de captar a sensação de uma Paris que não existe mais.
Todos os poetas sempre me garantiram que não importa de onde se parte nem onde se chega: o que é importante é a viagem. É fazer calmamente essa peregrinação aos lugares que inspiraram a maioria dos grandes artistas e escritores que viveram na França nos dois últimos séculos.
A Rua des Trois Frères nos surpreende com as longas escadarias da Passagem des Abbesses flanqueada por edifícios dos dois lados e decoradas por um arco que data de 1840.
Mas você deve estar cansado. Que tal descer a Butte de Montmartre numa outra conversa?



19/04/2017

Batismo na Linha do Equador

O Itaité (imagem http://www.novomilenio.inf.br/rossini/loydbras.htm)



Antonio Rocha
O telefone toca, era 1979, uma grande amiga, já falecida, diz para Heloisa:
- Olha, fala para o Antonio que conseguimos uma passagem de navio para ele, um cargueiro do Lloyde Brasileiro, vai sair de Santos, na noite de 31 de dezembro, vai pagar só os custos.
Quando Heloisa ganhou a bolsa da Fundação Calouste Gulkenkian era só para ela e naturalmente, incluía passagens de avião.
Conversa vai, conversa vem, uns grandes amigos indicaram o meu nome, fui aprovado. Surgira uma vaga, ninguém quer viajar na virada no ano. E navio não pode esperar muito no cais do porto, pois as taxas são caríssimas.
Arrumei tudo rapidinho e embarquei em Santos. Navio imenso, chamava-se “Itaité”. Fiquei na ala dos oficiais, com um camarote só para mim. Fiz grandes amigos. O pessoal da Marinha Mercante é tudo gente boa.
O navio tinha uma carga perecível e precisava entregar logo em Londres, mas precisamente em Tilbury. Lá fui eu passear nas Terras da Rainha.
O pessoal de bordo, do mais simples marujo até o Comandante, todos pessoas ótimas.
A primeira vez que andei de navio foi aos quatro anos, de Recife para o Rio de Janeiro. Lembro de poucas coisas. Mas dessa vez, já adulto, mareei bastante. Marear na linguagem de bordo era ficar enjoado. Tive que ser atendido na enfermaria do navio e tomar injeção.
Então, conversando com um jovem oficial, todos muito jovens, me disse que: “Coca-Cola evita o enjôo”. Eu não sabia de nada, fiz as malas às pressas, embarquei para não perder a vaga. Navio cargueiro não tem cantina para vender algo.
Assim, cada dia, eu pedia uma latinha do refrigerante a um oficial diferente. Eu disse que pagava, mas ninguém quis me cobrar. Caridosos amigos.
Ficamos vinte dias até a Inglaterra. Tinha meu livrinho de inglês de viagens e por isso, honrosamente, falo até hoje que o meu inglês é de cais do porto.
Tinha os oficiais de máquinas, que ficavam lá embaixo, nas caldeiras, me ensinando tudo, como se eu fosse um aprendiz, e de fato era. Tinha o pessoal de náutica que ficava lá no leme, lá em cima, me ensinando a traçar na carta o percurso da belonave. Aprendi a contemplar o radar. A diferenciar os tipos de mares desde o tranqüilo Mar de Almirante até ondas maiores que pegamos na entrada do Mar do Norte. O Vento Polar Ártico, uma geleira.
Bem antes disso, quando passamos o Arquipélago de Fernando de Noronha veio um helicóptero da Marinha do Brasil fazer a vistoria. Estava tudo bem, tudo certo, não precisaram descer a bordo. Nos desejaram boa viagem.
Então os oficiais me disseram que todo passageiro era batizado ao cruzar a Linha do Equador. Quem sabia nadar muito bem eles jogavam no Oceano e como eu sabia nadar muito pouquíssimo, iam me dar um banho de mangueira.
Era verão no Hemisfério Sul e assim alguns de calção, como se estivessem na praia ou na piscina, ligaram uma mangueira, dessas portentosas de Bombeiro e lá veio um jato de água salgada. Como sou um místico agradeci ao Deus Netuno, o Senhor dos Oceanos (no Budismo chama-se Buda Amithaba) para que nos levasse a bom porto.
Gratidão imensa ao pessoal do Itaité, repito, desde os mais simples marinheiros que ficavam o dia todo trabalhando, raspando as partes enferrujadas, passando aqueles produtos anti-ferrugem e por fim pintando com tinta a óleo o local. Os oficiais, graus universitários eram educadíssimos.
Tenho mais para contar do inesquecível Itaité.