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25/01/2018

A colina dos artistas

Maurice Utrillo - Montmartre
Moacir Pimentel
E aqui estamos nós de volta a um dos bairros parisenses mais icônicos e sobrecarregados de mitologia turística: Montmartre, pintado por Maurice Utrillo na tela que abre o post.
Por quê? Para conversar sobre sua história artística pois durante o século XIX e ao longo do século XX modelos, bailarinas e pintores como Auguste Renoir, Vincent van Gogh, Paul Cézanne, Edgar Degas, Henri de Toulouse-Lautrec, Suzanne Valadon, Henri Matisse, André Derain, Maurice Vlaminck, Pablo Picasso, Georges Braque, Marie Laurecin, Maurice Utrillo, Raoul Dufy, Amadeo Modigliani e Salvador Dali e músicos como Erick Satie e escritores como Guillaume Apollinaire trabalharam ou frequentaram ou moraram ou amaram naquelas paragens, contribuindo para criar movimentos artísticos como o Impressionismo, o Fauvismo, o Cubismo, e o Surrealismo.
Montmartre, no encontro dos séculos XIX e XX, é um capítulo fascinante da História da Arte tão surpreendente e rico quanto o Renascimento e quem se interessa por arte o conhece de telas, músicas, poemas e biografias mesmo antes de lá pisar e, lá chegando, sempre experimentará uma sensação de “déjà vu”, de já ter assistido aquele filme, de que o bairro é um velho conhecido.
Pudera!
Montmartre tem sido uma base, em um momento ou outro, para quase todos os pintores e escritores famosos que viveram na França ao longo dos dois séculos passados. E isso não é exagero! No final do século XIX, muitas mentes brilhantes e criativas já tinham sido atraídas para aquela colina, para a “butte” como dizem os de lá. Na virada do século XX, o bairro tornou-se o centro de toda a vida artística e intelectual de Paris.
Sou um fã de carteirinha dessa esquina da cidade porque na colina de Montmartre, além da alva Basílica do Sacré-Coeur que os parisienses acham feia, se escondem muitos encantos: pequenos museus que tratam do romantismo ao erotismo, lindas ruas calçadas de pedra, arte urbana, vistas de tirar o fôlego, cemitérios povoados por belas obras de arte e até um vinhedo. Para não falar do charme da arquitetura do lugar com praças encantadoras, igrejas pacíficas, belas casas, subidas e descidas sinuosas e infindáveis escadarias. Perder-se sem mapa e relógio nesse encantador pedaço de Paris, diferente de qualquer outro, é uma maravilha.
Mas atenção!
Há que calçar sapatos confortáveis para enfrentar a colina, senão não se tem pernas para alcançar a sensualidade que está por todos os lados só que lá embaixo, no bairro da luz vermelha, na vizinha Pigalle, ou, como diziam os americanos, pelo menos nos filmes da Segunda Grande Guerra que assisti: “in Pig Alley”.
Berços da maioria dos “cabarets” do passado, os bairros de Montmartre e Pigalle carregam séculos de histórias, contos e fábulas e “conversas”, muitas verdadeiras e algumas mentirosas. Sim, Montmartre pode ser uma armadilha turística para tolos mas seus caminhos sempre levam à arte, à cultura, ao aprendizado. O bairro foi umas das consequências diretas da gestão de Haussmann, o prefeito demolidor, que construiu prédios e avenidas para modernizar e embelezar o centro de Paris, empurrando as mazelas dos miseráveis que eu conhecera nas páginas de Victor Hugo para a periferia.
Esse pedaço de Paris é uma aula de história a céu aberto, que começa em idos tempos quando ele era mencionado na páginas policiais como “Le Maquis Montmartre”. “Maquis” é uma vegetação espessa característica de certas regiões mediterrâneas e o termo adjetivava Montmartre pejorativamente porque, nos seus primórdios, um grande matagal povoado por construções desordenadas cobria grande parte da colina. O maquis de Montmartre era uma ilha intocada pela urbanização promovida pelo Barão Haussmann, entre as ruas Lepic e Caulaincourt.
Embora o lugar tenha sido representado frequentemente como bucólico e provincial e romântico, a realidade era mais escura. Os seus barracos improvisados eram ocupados por uma população miserável que, expulsa do centro de Paris pelas demolições modernizantes, não podia morar melhor.
A basílica no topo da colina de Montmartre já serviu de coroa para hospedarias obscuras e bordéis pestilentos em meio aos  barracos de madeira e papelão e piche que subiam morro acima, entrelaçados com sebes de flores selvagens.
No entanto, apesar de todas as dificuldades materiais, a joie de vivre, as piadas, as sátiras, as provocações e as inovações da turma revolucionária que aprontava o sete no bairro e, notadamente, a sua animada vida noturna atraíram curiosos de todos os tipos – inclusive os de cartolas de seda - para ver como é que Montmartre conseguia ser um mundo à parte e ter cada vez mais inquilinos, que agiam como se fossem membros de uma mesma família rebelde.
Tudo bem que nessa carreira boêmia de Montmartre o seu agitado vizinho, o bairro de Pigalle - hoje chamado pelos jovens anglicanizados de “SoPi” – desempenhou um papel importante pois foi lá que os cabarés se multiplicaram. Sabemos que muito ajudou a atrair tantos pintores, por exemplo, o famoso Mercado de Modelos da Praça Pigalle, que possibilitava o encontro da fome com a vontade de comer, das musas com os talentos, de verdadeiras beldades com os artistas de Montmartre, de meninas boas de famílias más, com os pintores e poetas que as eternizaram nas suas obras.
Mas será que durante a Belle Époque – mais ou menos de 1872 a 1914 – todos aqueles artistas e escritores e poetas notáveis e modelos e dançarinas belíssimas e cantores e humoristas tão cheios de carisma, decidiram viver e trabalhar em Montmartre transformando o lugar no vértice da intelectualidade parisiense só porque lá os aluguéis eram baixos e a atmosfera agradável?
É claro que não. Pensar que todos aqueles homens e mulheres talentosos se reuniram no bairro à procura das espetaculares vistas da cidade como inspiração ou que eles foram seduzidos apenas pelos baixíssimos aluguéis, seria poesia.
Houve outra razão para o afluxo de tantos artistas e boêmios: o vinho isento de impostos! No final do século XIX, Montmartre ainda estava oficialmente fora dos limites de Paris e, portanto, o vinho ali produzido não estava sujeito aos impostos parisienses! Isto, juntamente com o fato de que Montmartre era coberto por vinhedos - até mesmo as freirinhas locais faziam vinho! - rapidamente fez da área um lugar popular para se beber.
Vincent Van Gogh - Green Vineyard (1888)

Já tivemos oportunidade de conversar sobre o vinhedo de nome Le Clos Montmartre que ainda é hoje é cultivado na Rua Saint-Vincent. Em setembro ali ainda hoje é feita a colheita da bagas e, em seguida, na primeira semana do mês de outubro, é realizada a festa da vindima – a tradicional Fête des Vendanges – e o leilão do tinto, em memória da indústria do vinho que prosperou nos tempos em que o cabaret Lapin Agile, bem ali na esquina, era o rendezvous de todas as cabeças pensantes da cidade e a Rua Lepic era a pista onde o estranho carro de nome Voiturette, inventado por Louis Renault, conseguia ganhar valentemente e disparado à frente de qualquer bicicleta todas as corridas ladeira acima.
Porém embora o vinhedo seja uma grata surpresa dizem que a história artística de Montmartre começou mesmo na Allée des Brouillards – a Alameda das Neblinas – cujas fotos já vimos em outra conversa.
No século XII, nesse local havia uma fazenda e um moinho que viviam debaixo de neblina, devido ao vapor que emanava de algumas fontes d’água quente no local que, em contato com o ar fresco, cobria a paisagem com um manto de névoa.
Dona Lenda conta que, no século XVIII, um marquês adquiriu as ruínas do moinho que transformou em uma mansão branca batizada por ele de Château des Brouillards - o Castelo das Neblinas. Quase um século depois um poeta francês, chamado Gérard de Nerval, se encantou pelo lugar e, desistindo de suas rotineiras viagens, passou a morar no Castelo.
Foi em Montmartre que eu ouvi falar do poeta pela primeira vez e foi lá que ele escreveu os doze sonetos das suas lindas Quimeras, que me fazem refletir sobre a relação entre a loucura e a criação poética. Nos doze sonetos - que viraram vinte devido ao editor - na primeira pessoa do singular, Nerval apresentou-se como um só: ele mesmo, em tom confessional.
Mas esse “eu” poético é tão codificado, evoca tantos símbolos, personagens históricos, lugares, referências literárias, que Nerval terminou obcecado. Ele passou a mudar os versos de lugar, de estrofe, até mesmo de soneto, misturando as estações, mudando os nomes dos deuses, inventando uma mitologia própria, quase um samba do crioulo doido, na qual o leitor fica tonto e se perde.
Nas Quimeras desde os primeiros versos chama a atenção os arcanos das cartas do Tarô. É como se o poeta tivesse jogado as cartas sobre a mesa e recebido como resposta aquela torre do Castelo fulminada por um raio: o anúncio da sua destruição.
No título do soneto que abre As Quimeras ele é El Desdichado - desafortunado, infeliz, em espanhol - um exilado, um deserdado do mundo:
“Sou o tenebroso – o viúvo – o inconsolado/ O príncipe na torre destruída de Aquitânia”
O restante do poema é a invocação da mulher amada, uma repaginação da mítica viagem de Orfeu ao reino dos mortos para resgatar a sua perdida Eurídice. Depois de escrever toda essa bela mitologia surtada, esse cruzamento de símbolos de diferentes esferas, Nerval foi mais longe ainda e mitou geral e transformou em mito, não apenas os capítulos de sua vida mas a própria morte - em 1855 ele suicidou-se no Castelo.
Após a sua morte os jardins foram ocupados por vagabundos e ciganos, mas o castelo foi invadido – dizem! – pelos primeiros artistas sem dinheiro de Montmartre e de suas neblinas teria surgido a boemia.
Não importa onde se esteja ou para onde se olha em Montmartre, lá se sente os vestígios dessa boemia, de uma comunidade, de um senso de vizinhança hoje perdido e os sinais das centenas de criaturas talentosas que naquelas paragens revolucionaram a moral e modificaram a arte em defesa das liberdades. Os nossos fantasmas prediletos ainda passeiam por Montmartre.
O crítico de arte Leo Stein escreveu que Picasso estava sempre por lá, mais real do que a maioria das pessoas. E, por sua vez, Picasso disse a Braque que o bairro era assim “como uma dança, uma sardana catalã”, uma festa, uma comunhão de almas, de ricos e pobres, de jovens e velhos, dançando juntos. Como talvez dançassem Isadora Duncan e seus jovens alunos vestidos com túnicas gregas e de pés descalços pelas ruas de Montmartre, que na verdade era um vilarejo, onde se morava e se divertia sem gastar muito dinheiro, nos cabarés e nos bordéis que funcionam aberta e alegremente na rua Amboise.
O espírito de Montmartre, os ideais lá compartilhados foram soletrados por André Breton no seu Manifesto Surrealista de 1924:
“Querida Imaginação, o que amo em ti é, sobretudo, não perdoares. Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.”
Para conhecer esse Montmartre histórico e artístico comme il faut uma boa ideia é caminhar até o coração do bairro - Caulaincourt! – e começar a perambular pela parte de trás da colina. Na Rua des Saules, esquina com a Rue Cortot, está a Maison Rose, imortalizada por Maurice Utrillo quando lá morou.
Maurice Utrillo - La Maison Rose (1920)

Hoje o espaço abriga o Café La Maison Rose, que oferece escargots, sopas de cebola e o crème brûlée, padronizados e apressados.
Mais adiante ainda mora o famoso cabaret Au Lapin Agile onde os artistas bebiam fiado nas mesas de madeira marcadas com as iniciais da galera e depois pagavam a conta com pinturas, trocando quadros por bebidas. Foi o caso da obra de Picasso de nome No Lapin Agile – O Arlequim com um Copo, que o proprietário da casa, de nome Frédé, passou adiante por uma miséria e que o Metropolitan Museum de Nova York terminou comprando por mais de quarenta milhões de dólares.
Na obra pintada em toca de comida, Picasso se auto retratou como um Arlequim entediado, virando copos de absinto e ao “patron” Frédé, ao fundo, tocando no violão provavelmente uma canção tradicional francesa do século XV. Dizem que a tela passou anos encostada numa das paredes do cabaré.
Pablo Picasso - No Lapin Agile - O Arlequim com um copo (1905)

Picasso era impetuoso, toureava a vida com generosidade, bom humor, exageros e maestrias. Feliz na pobreza e na riqueza, tomando vinho a la régalade, ele se relacionava muito bem com todos os prazeres da vida.
Qualquer biografia de Picasso nos deixa clara a sua sensualidade, o seu amor pelas mulheres, pela comida, pelo vinho, pelos sabores da vida, enfim. Nas fotos ele surge frequentemente à mesa, em meio a quadros e garrafas, as cores da comida confundindo-se com as das telas, em uma mistura bagunçada de vida e arte.
O bando de artistas catalães que chegou a Paris em 1900 com Picasso vivia mais nas ruas e nos bares do que nos seus ateliês gelados onde era impossível cozinhar. O restaurante preferido da turma era o Lapin Agile. Quando o crédito no restaurante acabava, havia sempre um amigo com um resto de dinheiro no bolso. Compravam pão e queijo e iam comer num banco de praça. E quando ninguém, absolutamente ninguém, tinha um tostão furado, aí é que comiam bem.
Encomendavam um almoço bem bom no Lapin Agile e marcavam a entrega para o meio-dia em ponto. Quando o entregador chegava e batia à porta, ninguém atendia. Quando o coitado insistia a modelo faminta da vez gritava lá de dentro:
“Estou nua. Não posso abrir a porta. Por favor, ponha no chão".
Todos os amigos esfomeados compareciam e compartilhavam o banquete e o Frédé, é claro, deixava passar batido e os meliantes pagavam-lhe quando podiam.
Uma das melhores histórias de Montmartre fala justamente desse Frédé, na realidade Fréderic Gérard que, além de dono do cabaré era um músico de repertório excêntrico e possuía um bom coração. Além disso ele era dono de um burrinho, o Lolo, muito querido no bairro. Um belo dia, em 1911, Roland Dorgelès, o escritor que foi um crítico ferrenho das novas formas de arte de Picasso e de outros pintores modernistas, forrou a rua defronte do Lapin com uma grande lona, amarrou um pincel no rabo do burrico Lolo e fez o animal se mexer sobre a tela subornando-o com guloseimas.
A obra de arte resultante da brincadeira assinada por um certo Boronali foi exposta no Salon des Indépendants, com o título de Um Pôr do Sol no Adriático e, - pasme! - conquistou sucesso de público e de crítica. Acontece que a assinatura nada mas era do que um anagrama de Aliboron, o nome do asno de Buridan, o paradoxo filosofal sobre o livre arbítrio, que nos conta como, estando o animal à mesma distância de uma pilha de feno e de um balde de água, incapaz de optar por um ou por outro, acabou por morrer de fome (rsrs)
Essa sátira ao filósofo medieval Jean Buridan e à pintura moderna faz parte do folclore do bairro e, é claro, uma Praça Roland Dorgelès foi construída defronte do antigo cabaret para homenagear o mentor intelectual da presepada.
A graça de Montmartre, à parte a sua incontestável beleza física, mora nessas conversas e piadas e risadas e nas telas que, como o Arlequim inventado por Picasso e tantas outras obras de Renoir, Lautrec e Utrillo ajudaram o bairro a alcançar fama internacional.
Au Lapin Agile, por exemplo, tornou-se o mais famoso rendezvous de Paris, não no sentido de bordel na zona do meretrício como usavam a palavra os nossos avós, mas de um ponto de encontro, de um lugar onde apareciam todos os que tinham o que dizer. Mas afinal o que significa o nome do cabaré Au Lapin Agile?
A casa já funcionava há mais de duas décadas quando, em 1875, outro artista chamado André Gill, em troca de outro prato de comida pintou no local uma tela retratando um coelho - um lapin - saltando do pote de seu destino para beber alegremente o vinho tinto no qual costumava ser cozido.
O bem humorado quadro foi afixado acima da porta de entrada da casa e então os clientes apreciadores do ensopado do bicho de capoeira passaram a querer comer “Le lapin à Gill” - e um trocadilho homófono gerou o seu nome definitivo Lapin Agile - o Coelho Ágil.
Andre Gill - Au Lapin Agile (1875)

No fim do século XIX, o Au Lapin Agile era o local favorito de artistas e escritores em início de carreira, mas também era frequentado por cafetões, personagens excêntricos, grupos de anarquistas, estudantes vindos do Quartier Latin e burgueses bem vestidos à procura de diversão.
Empoleirado nas mesas do Lapin, Francis Carco cantava La Marseillaise e, saindo da casa nas primeiras horas da manhã, Mac Orlan acordava os amigos tocando clarineta embaixo das suas janelas. Guillaume Apollinaire, Roland Dorgelès, Amedeo Modigliani, Maurice Utrillo e outros grandes talentos da literatura e da pintura, todos anarquistas de coração, bebiam demais, comiam de menos e dormiam onde calhasse, e, não fora a caridade e a paciência dos Frédés da vida, teriam mendigado.
Todos aqueles artistas geniais rabiscavam poemas e artigos que não vendiam, erravam suas tintas em telas incompreendidas e tocavam música dissonante sob apupos mas das panelas sobre os fogões dos cafés e bistrôs de Montmartre sempre puderam descolar alguns nacos de pão, colheres de sopa e pedaços de coelhos não tão ágeis...
Assim era Montmartre: um caldeirão de sobras para os artistas pobres e muitas anedotas e estórias. É muita conversa...

23/01/2018

Apresento-lhes Ana Pana*

Anapanasati (imagem wikihow - creative commons)

Antonio Rocha
- Oi Ana, tudo bem?
- Tudo bom!
- A que se deve o seu nome?
Anapana é uma palavra em língua páli, a língua falada pelo Buddha, no século VI antes de Cristo. Indica a prática de meditação conhecida como “plena atenção”.
- Em que consiste esta meditação?
- Podemos resumir como um método para ficarmos as 24 horas do dia, prestando atenção a tudo o que fazemos.
- E não é cansativo?
- Ao contrário, é bem relaxante!
- Como se faz?
- Ficamos atentos à nossa respiração, à entrada e saída do ar, nas narinas, sem pressa nenhuma, simplesmente observando o sagrado ato de respirar.
- Sem interferir no processo...
- Isso mesmo, se a respiração estiver rápida tomamos consciência desse fato, se estiver lenta, da mesma forma.
- E quem pode garantir que tal método ajuda a descansarmos?
- Você falou bem, descansamos, repousamos, relaxamos... quem garante são diversas pesquisas científicas dando conta do fato.
- Realizadas, essas pesquisas, em conceituadas universidades do primeiro mundo.
- Tem razão.
- Mas a meditação Anapana tem outro nome não é?
- Tem vários, é conhecida como vipássana, em páli, ou vipasyana, em sânscrito.
- E Anapanasati?
Sati, a partícula final, indica um bom Estado de Concentração, aliás, foi com esta prática que o Senhor Buddha atingiu este estado de santidade que nós chamamos de Iluminação.
- E tem algum livro sobre isso?
- Sim, é o “Satiphatana Sutta” ou “O Sutra sobre os Quatro Estabelecimentos da Mente Atenta”, autoria do monge Thich Nhat Hanh, um mestre vietnamita, que tem mais de oitenta anos e fixou residência na França.
- Ele é famoso!
- Sim, ele tem mais de vinte livros publicados e durante a chamada Guerra do Vietnã correspondia-se com o pastor batista Martin Luther King, que o indicou para receber o Prêmio Nobel da Paz.
- Ele não recebeu...
- Não, anos depois, o Dalai Lama recebeu.
- Me fale mais desse livro?
- Tem cento e oitenta e quatro páginas e em português recebeu o título de “Transformação e Cura”.
- Você pode explicar?
- É que a prática da atenção nos ajuda a transformar para melhor e consequentemente nos leva  à cura de alguns processos psicológicos, emocionais.
- Qual editora?
- É a Bodigaya, lá do Rio Grande do Sul. E o que eu digo sempre, se não encontrar na livraria de sua preferência, encomende.
- Será que podemos encontra-lo na web, em pdf?
- É possível que sim...
- Gratidão Ana, até a nossa próxima entrevista.
- Eu que agradeço poder compartilhar com este blog maravilhoso algumas palavras.
- Aliás, você é xará da Primeira Dama do Blog, Ana...
- (sorrindo)... Só espero que ela me aceite como Amiga Literária...

(*) Ana Pana é uma personagem budista que chegou para nos ajudar em alguns artigos. Depois eu falo mais dela.


21/01/2018

O espelho

Fotografia de Heraldo Palmeira

Heraldo Palmeira
Ficou ali, paralisado, lendo o que um amigo que nunca viu lhe escrevera – têm por hábito trocar impressões escritas a respeito das coisas da vida. Aquilo abriu a porta de uma lembrança:
Porque, sim, nós sabemos que há amores eternos que só duram uma noite ou uma chuva, e que há os que são para valer, para serem construídos, para nos amanhecer todos os dias da vida. Quando chega o inverno e nós embranquecemos – e passamos a pensar na reta de chegada –, se soubéssemos rezar pediríamos para ser o primeiro a se despedir. Não por valentia ou generosidade, mas simplesmente porque é pior para o que fica.
Pensou naquela noite de outubro de quarenta anos atrás. Chovia, saíram sorrateiros, deixaram os amigos para trás. Bebiam tanto!... Quase certo que nem deram pela falta dos dois.
Ela estava linda na simplicidade de sempre. Enorme, quase do tamanho dele. De parar o trânsito! Cabelos soltos. Vestido comprido de alcinhas, em malha azul clarinho, riponga, última moda da época. Sandálias rasteirinhas, moda daquela e de todas as épocas.
O ronco do Kadron era o som dos fuscas. Saíram do carro aos beijos, driblando os pingos da chuva. Ele abriu a porta devagar e pegou uma toalha. Secaram o excesso de água dos cabelos. Ela sentiu frio e o abraçou. Ele se sentiu anjo, porque anjo deve ser aquilo que sentiu naquele abraço.
A luz à meia-luz, penumbra dos seus medos joviais. O nervosismo daquela primeira vez tão esperada – era tudo tão forte, não podiam arriscar perder a sensação de céu nem mesmo quando os diabinhos, já inquietos, entrassem em cena como anjinhos que pecam.
Até hoje, guarda o registro daqueles olhos amendoados refletindo a luz tênue do ambiente, olhando para dentro dele. O aroma suave do perfume, as narinas gravadas para sempre pelo cheiro dela.
A respiração alterada, as bocas se aproximando, o vestido caindo como uma mágica, a cortina de um espetáculo, a escultura revelada... Todos os rituais cumpridos suavemente, sem pressa alguma, como prenunciando que aquela seria a primeira e a última noite. Chovia a cântaros, a melodia da chuva tocando uma ode à vida, ao fogo da paixão.
Amanheceram abraçados, sem uma gota de sono dormido. Não houve tempo para nada além de andar nas nuvens. A chuva tinha-se ido, deixou o ar fresco na manhã de outono. Foi difícil ir embora, mas foram um do outro vida a fora.
Saíram devagar, sem se despedir, apenas indo por ir. Ou porque se deixaram ir sem que fosse preciso ter ido, sem medir consequências, sem entender que estavam indo para sempre. Sem imaginar que poderia doer tanto. Um preço das pressas da juventude.
Até um dia
Até talvez
Até quem sabe
Até você sem fantasia
Sem mais saudade
Sentiram saudade tantas vezes, mas nunca puderam refazer seus mapas e limites. Sentiram o pontapé que chega antes da bola e põe abaixo o jogador e a jogada que poderia ter sido. Tudo parou, como o canto do cisne. Como uma bicicleta abandonada que ninguém cuidou de pedalar.
Ficou um mistério entre eles, algo parecido a um mesmo coração batendo em harmonia, embora já não houvesse aquela harmonia, embora houvesse uma coleção de rugas das expressões que perderam um do outro, dos risos que não deram juntos, das lágrimas que não enxugaram com carinho, dos filhos que não foram deles. Feridas vividas sem remédio, cicatrizes mal disfarçadas.
Ficou no ar o eterno recado que aparece numa lembrança, numa nuvem inesperada, numa chuva no sertão. No movimento do mar, no silêncio da noite. Numa rajada de vento, no balé da varanda da rede. Na vontade de ver, num abraço às escondidas, num beijo roubado. Nas músicas que eram deles e continuam tocando...
Te recolhe ao repouso
E deixa que eu pouse
Minhas mãos sobre ti
Dali e daqui
Vou juntar dores e danos
Cores e panos
Agulhas e linhas
E até uma florzinha
Pra bordar nossos panos
Adornar tantos anos
Passados a esmo ou a fio
Repulsas e cios
Começos e fins
Nossa geografia
Perde mapas e limites
Quando me permites
Beijar-te o ventre
Ir ao fim
Quando reabres tua vida
Para mim
E se pegou pensando onde esteve a curva que não viu e separou os destinos tão cedo. Foi tanto para uma noite apenas, tanta chuva! Foi tanto e durou tão pouco e virou eterno, como escreveu o amigo que nunca viu, que apenas lhe escreve coisas bonitas.
Hoje, abre aquela velha porta e entra no seu tempo, mas está sozinho, conformado que quase haverá de ser assim. Já não correm os ares do cio, o aguaceiro virou tempo de estio. Tudo secou sem a água daquela chuvarada da noite eterna. Mas sopra a esperança da dança da chuva e de temporais inesperados.
Batidas na porta da frente
É o tempo
Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há folhas no meu coração
É o tempo
Recordo o amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver
Eu posso
E ele não vai poder
Me esquecer
Caminhou de mãos dadas com aquelas memórias pela margem do rio Reuss, sem qualquer compromisso. Parou para apreciar a Torre da Água e depois seguiu pela Ponte da Capela. Um grupo de músicos estava iniciando uma apresentação. Tocaram Beatles.
Andou um pouco mais e parou num café. Observou as pessoas passando em todas as direções, ao fundo a montanha coberta de neve. O frio trazia uma sensação estranha, era como se não estivesse sozinho. E nunca estava mesmo.
Achava que algo podia ser feito, mas não sabia exatamente o quê. E nem por onde começar. Aprendeu a conviver com aquele amor incompleto sem deixar doer demais, sem deixar paralisar, a dor que nasce do amor eterno de uma noite só, da chuva a cântaros que segue inundando a vida inteira sem fertilizar.
Aquele amor podia ter sido para valer, aurora de todos os dias. O inverno está chegando e eles embranqueceram, entrando no tempo de pensar na reta de chegada.
Qualquer canção perdida
Vem me arrancar da vida
Pra recontar
O que aconteceu
Lembrança, estrela extinta
Que ainda brinca no céu
Ele sabe rezar e não pede nada, sequer entrou na igreja ali adiante. Não tem coragem de pedir para ser o primeiro a se despedir, porque é do tipo que nunca desacredita. E não é por valentia, quer apenas estar parado no tempo se ainda houver tempo. E se ficar sozinho vai morrer junto, pois já não estará vivendo. Afinal, ela nunca o deixou sozinho.

Trechos de:
Até quem sabe (João Donato)
Começos e fins (Cyro Telles-Heraldo Palmeira)
Resposta ao tempo (Cristóvão Bastos-Aldir Blanc)
Estrela extinta (Pratinha Saraiva-Jean Garfunkel)

19/01/2018

As Arcadas hoje

Moacir Pimentel

 Moacir Pimentel
Eu milito no time do Cole Porter que adorava Paris “quando chuviscava no inverno e quando de calor ela chiava no verão”. Talvez porque, de um jeito ou de outro e seja lá quando for os pombos batem as asas e as multidões se arrastam sob os toldos dos cafés bebendo espressos.
E a explosão do século XXI em nada diminuiu a Paris do passado – os jardins úmidos, as belas artes, as coisas Art Nouveau – e qualquer tempo ainda é perfeito para revisitar os profetas da cidade: seus artistas, pintores, poetas. Pelo menos no bairro do Marais, pelas ruas estreitas e labirínticas - des Rosiers, Ste-Croix-de-la-Bretonner, Vieille-du-Temple - no venerável bairro judeu e lá no final da Rua des Francs-Bourgeois, na Place des Vosges, na primeira das galerias e passagens cobertas de Paris, intacta desde a sua construção, simbolizando o estilo clássico francês e a arquitetura do século XVII.
Um lugar sempre elegante onde à noite ainda podem ser encontradas lareiras de pedra, restaurantes rústicos e esfumaçados em que ainda se pode saborear carne da boa e bares com balcões de zinco onde ao lado de fregueses antigos ainda se pode tomar Côtes du Rhône e comprar uma edição de três euros das Flores do Mal de Baudelaire para que a intoxicação também seja poética (rsrs) antes de se sair de braço dado e cambaleando pelas estupendas arcadas.
A Place des Vosges é única não só pelo seu formato quadrado inovador mas, notadamente, por essas arcadas de pilares quadrados e tetos abobadados, sobre as quais se erguem os pavilhões. Dizem que apenas a sua faixa norte, a primeira a ser edificada, possui os tetos abobadados do jeito exato que o rei Henrique IV determinou que tivessem. Eu, por mais que tente, não consigo identificar nas quatro arcadas qualquer diferença a olho nu.
Moacir Pimentel

Cada pavilhão de pedra que sobe das galerias abertas pelos arcos é coberto por um grande telhado de ardósia, de quatro inclinações e belas cornijas, com dois olhos de boi – aberturas de forma circular que além de decorar serviam para iluminar e ventilar - enquadrando duas pequenas janelas, de nome mansardas, que acabariam por se tornar uma marca registrada de Paris.
Todos os prédios têm quatro arcos, dois andares desiguais com oito janelas para chamar de seus. Outro grande diferencial são as fachadas idênticas, de tijolinhos vermelhos, com as bordas e quinas e as molduras das janelas feitas com pedras claras.
Moacir Pimentel

Além de ser um dos mais belos exemplos de urbanismo bem planejado, a Place des Vosges é um pedaço da história da França; em seus trinta e seis prédios moraram personagens históricos, escritores, pintores e poetas e, na falta das cabeças coroadas, a pacífica praça tornou-se a morada favorita da aristocracia francesa. Muitos franceses lendários viveram naquelas paragens sendo o mais famoso deles, é claro, Victor Hugo, o autor de Os Miseráveis, que viveu no segundo andar do edifício de número 6, entre 1832 e 1848, da publicação do seu Corcunda de Notre-Dame até o seu exílio na ilha de Guernsey - em meio ao Canal da Mancha e a cinquenta quilômetros da costa da Normandia – onde buscou refúgio por ser um feroz opositor de Napoleão III.
A Casa Victor Hugo, localizada no antigo Hôtel de Rohan-Guéménée, é hoje um museu dedicado ao artista e escritor francês e se distingue das demais construções pela pequena bandeira francesa que lhe alegra a fachada. O museu exibe uma coleção de desenhos pessoais, livros, retratos e móveis do escritor. Lá dentro a gente pode quase ver o grande autor escrevendo em um final de tarde tranquilo e jurar que, pela janela aberta, com certeza ele ouvia os sinos da Notre Dame, o lar do seu herói corcunda.
Mas Monsieur Hugo teve vizinhos de alta estirpe: Madame de Sévigné nasceu no prédio de número 1 da praça, pelo número 8 passaram o poeta Théophile Gautier e o escritor Alphonse Daudet. A lendária cortesã Marion Delorme foi proprietária do número 11 e os tetos pintados por Lebrun no número 14 eram tão bonitos que foram reinstalados no Museu Carnavalet. No número 15 viveu a majestosa Marguerite Louise d'Orléans, esposa de Cosimo III de Medici, o Grão Duque da Toscana enquanto o Cardeal Richelieu, entre 1615 a 1627, bem viveu e amou no número 21 para não falar do pintor pós-impressionista Georges Dufrénoy que foi proprietário do número 28.
No final do século XVIII, enquanto a maioria da nobreza se mudou para as imediações do Faubourg Saint-Germain, a praça conseguiu manter alguns de seus proprietários aristocráticos até a Revolução. Pudera!
Na minha opinião a praça é dona das mais bonitas arcadas do vasto mundo. Por lá podemos ouvir o eco de nossos próprios passos, sentir cheiros deliciosos fugindo através das pequenas janelas e, mediunizados, nos dirigir, mais uma vez, para o bistrô Ma Bourgogne, ou para o café de Maigret, para um almoço, ou um vin chaud ou um crepe qualquer sem tirar os olhos da praça. Porque, “que me perdoem as praças feias, mas beleza é fundamental”.
E a pitoresca Place des Vosges jamais desce do salto, jamais abre mão do seu charme que mora na simetria de suas fachadas, janelas e mansardas que não vacila ao longo dos cento e quarenta metros de cada um dos quatro lados do perfeito quadrado e resulta no mesmo design harmonioso nas fileiras de fachadas feitas de tijolos vermelhos, nas cunhas de pedra, nos íngremes telhados de ardósia salpicados de pequenas janelas e, last but not least, nas galerias abobadadas e colunas que percorrem todo o piso térreo ligando todos pavilhões. Essas arcadas são ocupadas por bares, restaurantes, perfumarias artesanais, lojas de antiguidades, cafés e muitas galerias de arte.
Moacir Pimentel

A cada passo dado nessas arcadas nos aguarda uma novidade: os músicos de rua têm um grande afeto pelo local, assim como os artistas das marionetes e tem sempre alguma performance rolando. Através de portas vislumbramos estátuas, canteiros, mistérios.
Para além dos arcos que fazem fronteira com a praça sempre se descobre fabulosos lugares para comer, como o aconchegante Carette – o preferido dos viciados por aquele chocolate quente que se derrama como uma onda de lava - ou a Place Royale metida a besta ou, escondido atrás de uma entrada discreta no número 9, o L’Ambroisie, um dos mais estrelados restaurantes de Paris.
Se bem que o jardim no meio da praça concorre com tais estabelecimentos pois se torna, quando o tempo está quente, um grande espaço de piquenique e banho de sol, numa cena colorida tipicamente parisiense para os moradores do bairro, as crianças e os turistas.
Uma entrada em arco no canto sudoeste da praça nos leva aos fabulosos e formais jardins do Hôtel de Sully, sede do Centro de Monumentos Nacionais e uma da mais belas mansões renascentistas que já tive o prazer de visitar. O palacete pertenceu a Maximilien de Béthune, o duque de Sully, que fora superintendente de finanças do rei Henrique IV. O acesso aos jardins é gratuito mas não a visita da mansão que permaneceu na família Sully até o século XVIII e hoje é o lar de uma excelente biblioteca sobre a história de Paris que oferece exposições fotográficas ocasionais sobre arquitetura e artes.
Moacir Pimentel

Lá se encontram as fotografias assombrosas que sugerem abandono tiradas por Eugène Atget das arcadas abobadadas da Place des Vosges em 1898. Muitas outras fotos datadas do fin de siécle mostram um lugar pouco atraente, com roupas e móveis usados sendo vendidos sob as arcadas transformando-as noutro Mercado das Pulgas. Porém as imagens mais vívidas da praça são as mentais dos anos 30 e 40 que nos provocam os romances do inspetor Maigret, da lavra de Georges Simenon.
É que o prezado comissário Maigret foi, durante um certo tempo, um dos felizes moradores da praça e, como se não bastasse, mesmo quando instalado no seu modesto apartamento no Boulevard Richard- Lenoir, para lá costumava ser chamado para resolver crimes cometidos em série. Então com um dos livros do inspetor na mão, fica-se íntimo de cada pedacinho da praça, dos seus bancos onde, certa vez, da sua janela ele avistou um morto matado, da tabacaria na esquina, dos bares e bistrôs onde ele dissipava a melancolia do inverno e o calor do verão, dos telefones públicos de onde ele dava as ordens e instruções e encomendava cervejas e sanduíches, das casas que ele investigava e das suas cozinhas que, como a dele, cheiravam a ragoût de mouton, soupe à l’oignon, coq au vin, cassoulet e beef bourguignon e, é claro, das arcadas sob as quais o bom Maigret matutava sobre as grandes loucuras do coração humano.
A piada é que, enquanto morador da Place des Vosges, o Monsieur Maigret levava uma vida conjugal irrepreensível em um fictício número 61, enquanto que, na real, Simenon - o seu autor - morava e se esbaldava no número 21 da praça, famoso por ter servido de matadouro para Richelieu, aquele que, dizem, seduzia todas as damas do pedaço. Hoje a praça hospeda os ricos e os trabalhadores, pequenos comerciantes e artistas famosos, e, claro, um ou outro funcionário público como o próprio Maigret. O apelo da Place des Vosges é que, assim como acontece como os nossos empoeirados livros do comissário Maigret, apesar de desbotada, ela nunca perde seu charme.
Moacir Pimentel

Nessa praça pode haver menos história mas há mais memórias. Por lá vemos a Paris de Henrique IV, a Paris de Luis XIII, a Paris de Victor Hugo, a Paris do pós-guerra, a Paris que conheci e por quem me apaixonei na década de 1970. Todas elas podem ser sentidas em uma tarde de inverno ou em uma manhã de verão, com a melancolia que é o humor legítimo do lugar, assim como o patriotismo é o do Trafalgar Square ou o carnaval o da Praça de San Marco.
Nas últimas décadas a arte moderna invadiu as arcadas que inspiraram De Chirico a pintar Melancolias. Dois templos de arte sempre merecem uma visita mais atenta na Place des Vosges: a galeria de Nikki Diana Marquardt, que foi uma das assistentes de Man Ray, e a Galerie Mark Hachem, que apresenta trabalhos de artistas contemporâneos do Oriente Médio.
Moacir Pimentel

Aliás, a Place des Vosges abriga na fachada do seu número 11 uma das mais antigas peças de grafitti da cidade. Por lá se lê a inscrição “1764 Nicolas”, e o “Nicolas” em questão não é outro senão o escritor Nicolas Edme Restif de la Bretonne. Trata-se de um grafite sobrevivente das centenas de mensagens que ele deixou nas paredes da cidade durante as suas divagações noturnas em latim - nada menos- um hábito curioso, que lhe valeu o apelido de “Griffon”.
O romancista não se interessava pelos rostos graciosos, as fartas cabeleiras, as longas pernas, os alvos pescoços, as diminutas cinturas ou as mamas arrogantes das senhoras. Nada disso. Sua predileção era o pé feminino e, por extensão, tudo aquilo que o abrigava ou circundava: meia, sandália, sapato, chinelo. Pode apostar que o fetichismo do sapato foi inventado por ele. Fui apresentado à figura pelo escritor Mario Vargas Llosa que lhe dedica um dos capítulos da sua novela Os Cadernos de Dom Rigoberto.
Moacir Pimentel

As sombrias e ventiladas arcadas deixam as crianças e os adultos sonolentos depois de um bom almoço enquanto os sinos da igreja de St. Antoine badalam. Já não há reis e rainhas, fábricas e lojas de seda nas redondezas, mas nessa praça antiga rola o milagre do passado no presente. A história permanece nela de maneiras que não podem ser deletadas como o comércio de luxo fez, por exemplo, na Place Vendôme. Até hoje, seus jardins traseiros dão guarida a pequenos fabricantes de perfume.
Moacir Pimentel

A deterioração e o esquecimento dos quais a Place des Vosges já foi vítima são difíceis de explicar na história urbana da cidade, embora uma conversa sobre o seu declínio seja inseparável da mudança do bairro do Marais à sua volta.
Ao longo do século XIX, o Marais tornou-se o bairro judeu de Paris, denso e rico e singular, com seus próprios restaurantes e pequenas indústrias e instituições. Embora a Place des Vosges tenha assumido raros personagens judeus oriundos das ruas circundantes como moradores e tenha permanecido de certa forma além do bairro, ela atraiu uma sinagoga para uma de suas entradas. Até hoje os cheiros da cozinha judaica enchem o ar do Marais, delícias de origem norte-africana que foram trazidas a Paris pelos judeus Ashkenazy. E há sempre uma fila para comprar falafels kosher naquelas paragens (rsrs)
Dizem que praí há uns cinquenta anos atrás o bairro estava em precárias condições e então a ordem foi para reconstruí-lo e o resultado foi que os seus mais antigos edifícios foram restaurados, ondas de artistas e outros famosos mudaram-se para o pedaço, algumas das pessoas mais elegantes de Paris fizeram do Marais a sua casa, renovando as mansões do século XVII e XVIII, nelas inaugurando lindas lojas e hotéis particulares e museus, incluídos o Museu Carnavalet e o Picasso. O bairro é um pedaço de uma França antiga e provincial, oferece um agradável contraponto, em pequena escala, para as realizações ultra modernas de bombásticos arquitetos que começaram a se fazer notar ali por perto, como é o caso do fabuloso Centro Pompidou.
Sim, a Place des Vosges é um lugar turístico mas, com certeza, não se encontra entre os dez mais visitados recantos da cidade. A mim parece que ela é mais procurada por parisienses pelas mesmas razões pelas quais as pessoas visitam parques em qualquer lugar do mundo: o espaço, a tranquilidade, a verdura e alguns momentos preciosos fora do burburinho da cidade.