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15/02/2018

A Placa

A vista da minha janela privilegiada (fotografia de Heraldo Palmeira)

Heraldo Palmeira
Já estamos acostumados à falta de boas notícias. Aprendemos a dar de ombros à tristeza cotidiana, diuturna, interminável, anos a fio! Mas temos um fevereiro todos os anos, uma tradução nacional irrepreensível.
O importante é ser fevereiro
E ter Carnaval
Pra gente sambar
O palco estava ali, bem diante da janela privilegiada. Bastava chegar no peitoril no final de tarde e olhar para baixo, ver se já era hora de descer. Vantagem de estar no epicentro de um dos polos da folia de rua da cidade que revitalizou seu Carnaval. Dias seguidos, diversos shows numa mesma noite.
O marqueteiro de ocasião lhe incluiu “Multicultural” no nome, como se isso fosse alguma novidade, como se qualquer Carnaval já não fosse, desde sempre, multicultural, democrático, do povo de todas as origens que forma o extraordinário mosaico brasileiro. Ah, tempos chatos dessa insistência em definir demais as coisas que já estão definidas por aclamação! É preciso relevar, quem não é da música é capaz de passar uma vida fora do tom.
Por volta das onze da manhã, começava a tal passagem de som, que aqui é um negócio quase pré-histórico, mesmo se tratando do país que produz uma das melhores músicas do mundo. Esse é um quesito curioso da produção cultural e da indústria do entretenimento nacional que me chama a atenção: o processo, mesmo chato e demorado, quase sempre resulta num som ruim na hora do espetáculo.
Convivo há muitos anos com a produção de discos musicais e de eventos, e obter qualidade sonora não é tarefa simples. Na verdade, a despeito dos equipamentos de ótimo nível, ainda são poucos os operadores de som que dispõem de formação técnica adequada. A maioria chegou ali de forma empírica.
Vivemos a ditadura do volume alto demais e da hegemonia dos sons graves. O subwoofer, certamente imaginado para “dar peso” e aveludar o som, virou hegemônico em todos os lugares e descaracteriza qualquer música tocada. É seu péssimo uso que causa aquela sensação desconfortável de bate-estaca cheia de uma mistura insolúvel de pês, enes, efes, us, erres e esses, aquela coisa parecida com um fungado distorcido, como se houvesse algo frouxo trepidando o tempo inteiro.
Claro, os técnicos de som empíricos se apresentam soberanos, costumam ostentar aquele ar solene de operadores do sistema solar. E fazem cara de desprezo – com pitadas de nojo – se algum simples mortal ousar reclamar ou sugerir alguma coisa. Natural que careçam de horas a fio para a tal passagem de som e terminem não conseguindo timbrar corretamente os instrumentos, muito menos uma mixagem aceitável no conjunto sonoro final. Tentativa e erro que quase sempre resulta em erro.
Felizmente, naquele trecho de rua os empíricos foram minoria. Supremo conforto, o repertório refinado também não permitiu nenhum desses lixos musicais em voga. Cantamos e dançamos grandes músicas brasileiras de todos os tempos e até um repertório inteirinho só de Beatles num dos shows – uma pequena viagem de submarino amarelo. Ora, somos multiculturais desde sempre!
Foi bom demais ver e participar de um resgate histórico. Repetimos o que era comum na nossa juventude: gente de todas as idades, muitas famílias com suas crianças, concentrávamos em determinados pontos do bairro e circulávamos em pequenos blocos. Agora, todos rumando para diante do palco.
Bares tradicionais (verdadeiras confrarias), preços honestos, mesas no meio da rua. O tempo repaginado por amigos de longa data, filhos e seus agregados amorosos, filhos desses filhos, como alas usufruindo em harmonia a herança da nossa antiga folia... A prata nos cabelos era bem mais do que fantasia.
Perdi a conta dos sorrisos, dos acenos, dos gracejos, dos brindes entusiasmados, dos abraços apertados de reencontro, das boas conversas aos gritos, das gargalhadas. A sensação potente de misturar saudade, emoção, esperança e alegria. De tempo parado no ar, como se os passos do frevo não saíssem do lugar. Como se todas aquelas noites fossem uma só, apenas com um pequeno intervalo de dia claro para um breve descanso. Como se estivéssemos em mais um capítulo de um mesmo Carnaval interminável. Como se os anos, tantos, não tivessem passado tão rápido.
Fantasias improvisadas, engraçadas, descaradas, ricas de descompromisso estético, enfeitando o desejo de festejar, de ser feliz, de se acabar na alegria e nada mais.
Amores antigos, novos, feitos, refeitos, revigorados, descartados. Olhares mantendo segredos e saudades. Olhares de lince, de lança, provocantes, paralisantes, como ímãs atraindo corpos na dança. Todos os amores possíveis, sem qualquer dificuldade, sem discurso, apenas sendo, seguindo como um rio em seu curso.
Beijos roubados, trocados, ensaiados, desejados, adiados. Um sonho derramado para dentro da alma, como se não houvesse amanhã e depois de amanhã. A contagem regressiva da noite da terça-feira, a madrugada chegando, o acorde final, o silêncio da música. O até breve e uma cerveja combinada para depois como senha de esperança na vida, no futuro, na alegria que virá envelhecida pelo tempo de um ano que correrá até o próximo fevereiro. O peso da Quarta-feira de Cinzas.
Sopraram cinzas no meu coração
Tocou silêncio em todos clarins
Caiu a máscara da ilusão
Dos Pierrots e arlequins
O movimento triste das ruas se esvaziando, o pelotão da limpeza urbana, garçons fechando contas, abraços de quem quer ficar, carícias trôpegas de cansaço, o torpor em câmara lenta. A esquina dobrada deixando para trás aquele meio quarteirão e seu córner que agora são somente memória, saudade que dói em dor quase física. Águas passadas de mais um Carnaval lavando a alma, parando no olho. Difícil saber se é brilho ou lágrima.
Foi um rio que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar
Lembrei da placa que havia pendurada numa parede da casa antiga: "Que Deus abençoe esta bagunça". Sim, que Deus abençoe esta bagunça que nos organiza em fevereiro. Ainda bem que existe um fevereiro todos os anos. É a boa notícia que sempre chega, mesmo que a gente passe o ano inteiro dormindo nos retalhos de cetim da vida que vamos perdendo a cada dia.
O movimento lento do elevador subindo para mais perto do céu, deixando as estrelas soberanas um tiquinho mais próximas de mim. Uma última vista da janela privilegiada antes de apagar as luzes da sala, a quase manhã prestes a desmanchar a magia daquelas noites que agora não sei direito onde estão. Vão adormecer comigo aqueles olhos intensos com que assisti encantado a tudo. E a promessa íntima de que estarei aqui de novo no ano que vem – e em todos os anos antes da minha Quarta-feira de Cinzas. Agora, peço licença para reverenciar o silêncio de surdos e tamborins. E o meu cansaço.

Trechos de:
O importante é ser fevereiro (Nilo Amaro-Wando)
Turbilhão (David Raw-Victor Simão)
Foi um rio que passou em minha vida (Paulinho da Viola)


14/02/2018

A artista da colina

Pierre Auguste Renoir - La Natte - 1885
Moacir Pimentel
Apresento-lhe Marie-Clémentine Valade, pintada aos dezenove anos por Auguste Renoir. O que torna inesquecível a história dessa jovem de personalidade marcante é certamente a determinação dela em realizar-se pessoalmente como mulher e de, por direito próprio, ter sucesso como artista pós-impressionista em uma época pré cubista na qual o céu artístico parisiense era povoado por enormes estrelas masculinas.
Que Montmartre foi o lar de alguns dos mais brilhantes artistas, escritores e músicos do final do século XIX e início do século XX não é segredo. No entanto, as mulheres artistas, que fizeram parte desta constelação de espíritos criativos, sem qualquer acesso a treinamento formal, são muito menos conhecidas.
Sucede que Marie-Clémentine começara a desenhar obsessivamente desde a mais tenra idade, preferindo esboçar o mundo ao seu redor do que frequentar a escola no convento na Rua Caulaincourt e, eventualmente, deixando a escola para procurar trabalho.
Filha de uma mãe solteira, aos dez anos de idade a garota já ajudava em casa fazendo bicos como garçonete e vendendo legumes em uma barraca do mercado Les Halles. Quando não estava trabalhando, Marie-Clémentine gostava de brincar com os garotos, fazendo acrobacias nas árvores e montando nos cavalos do bairro. E era muito boa nessas brincadeiras. Tanto que suas coragem e flexibilidade chamaram a atenção de Ernest Molier, o dono do circo que se apresentava então na Praça Pigalle, e a convite do empresário, ela começou a ser treinada para ser uma acrobata.
Enquanto ainda não dominava o trapézio, Marie-Cémentine se apresentava cantado e dançando ou no picadeiro com os palhaços. Quando finalmente ela voou no trapézio enlouqueceu o distinto público. No entanto, ela sofreu um acidente sério e, incapacitada para mais acrobacias, tomou uma direção completamente nova.
Aos quinze anos, petite e curvilínea, ela logo se tornou popular entre os artistas de Montmartre que passaram a disputá-la como modelo. Diziam as más línguas que seus olhos azuis luminosos “atraíam os homens como moscas”.
Suzanne Valadon - Autoportrait - 1883 (detalhe - imagem Wikipedia)

Ela modelou de 1882 a 1893 para vários pintores importantes, inclusos Pierre Puvis de Chavannes, Pierre-Auguste Renoir e Henri de Toulouse-Lautrec. Dizem as telas e biografias que Marie-Clémentine era mesmo uma moça de rara beleza com um apetite voraz para a vida e um bom número de amantes durante aqueles seus tempos como modelo.
Logo, não é de se estranhar que ela tenha dado à luz um filho com a idade de dezoito anos. A identidade do pai da criança foi um dos assuntos mais palpitantes de Montmartre e nunca restou definitivamente resolvida, mas o pequeno foi perfilhado por um artista espanhol de nome Miguel Utrillo e também se tornou um artista, treinado pela mãe, assinando como Maurice Utrillo, telas que tiveram principalmente paisagens de Montmartre como tema.
Marie-Clémentine jamais disse ao filho quem era o seu pai. Dizem as velhas do bairro que os dois mais prováveis candidatos à honra eram ambos pintores e Pierres: Renoir e Puvis de Chavannes. Após o nascimento de Maurice, a mãe continuou a modelar, mas permaneceu focada em seus próprios desenhos. Não lhe bastava ver-se idealizada nas representações femininas de Renoir e Puvis de Chavannes: ela almejava desenvolver a sua própria visão artística.
Então, enquanto posava, estudava profundamente as técnicas dos dois pintores, principalmente as de Renoir que, aliás, jamais levou a sério as aspirações artísticas da modelo preferida, cujos primeiros desenhos enfocavam a figura feminina nua, com linhas fortes e qualidade visceral. As próprias experiências como modelo da moça são palpáveis nesses primeiros trabalhos.
Marie-Clémentine sabia que o acesso a uma escola de artes estava fora do alcance de uma jovem da sua condição e então fez de Montmartre a sua escola, aproveitando todas as oportunidades que surgiam e desafiando as convenções de seu gênero.
Até que, belo dia, um jovem artista chamado Henri de Toulouse-Lautrec mudou-se para o prédio onde ela morava e percebeu além das curvas, é claro, o talento da moça. Marie-Clémentine também foi retratada muitas e muitas vezes por Henri, em quadros famosos como é o caso da tela abaixo de nome Ressaca, mas foi ele quem reconheceu nela pela primeira vez uma artista hábil e não apenas uma modelo jovem e atraente ou uma companheira de cama.
Henri de Toulouse-Lautrec - Gueule de Bois - 1888

Encantado com os desenhos que a bela modelo fazia, pouco ortodoxos e às vezes até mesmo escandalosos mas enormemente convincentes, foi Lautrec quem lhe sugeriu o nome artístico de Suzanne Valadon, em homenagem à história bíblica de outra Susana e muitos anciãos (rsrs) Fortalecida pelo encorajamento de Toulouse-Lautrec, a recém-nascida Suzanne superou seus medos e apresentou ao mais velho mestre do bairro - Edgar Degas - os seus desenhos.
Suzanne Valadon - Maurice Utrillo jouant avec un lance-pierres - 1895

Reconhecendo-lhe o talento, Degas tornou-se seu advogado e o primeiro colecionador a comprar seus trabalhos. O velho e a jovem mantiveram uma profunda amizade ao longo da vida e, graças ao apoio dele, ela se tornou a primeira mulher a exibir sua arte na Société Nationale des Beaux-Arts de Paris, em 1894.
Os primeiros modelos de Suzanne foram os membros da sua família, muitas vezes o seu filho, a mãe ou a sobrinha. A artista fez de si mesma impressionantes auto retratos a partir de 1892 quando começou a pintar a sério. O auto retrato que a exibe com os seios nus fez furor talvez porque nas suas primeiras exposições coletivas, realizadas no início da década de 1890, suas obras surgiram mais bem comportadas como, por exemplo, os retratos que fez do compositor Erik Satie com quem teve um breve mais intenso caso de amor.
Suzanne Valadon - Autoportraits (diversas datas)

Depois desse romance infeliz, Suzanne decidiu se casar com o corretor Paul Mousis, um homem muito bem sucedido, esperando encontrar alguma estabilidade para oferecer ao filho e um ambiente pacífico para pintar em tempo integral. Foi então que ela mudou-se definitivamente do desenho para a pintura e deu no que deu: hoje suas obras podem ser vistas pelo vasto mundo desde o Centro Georges Pompidou em Paris até no Metropolitan Museum of Art em Nova York.
Ela finalmente se divorciou e voltou para Montmartre onde, depois de perder o coração para muitos homens, aos quarenta e quatro anos, conheceu André Utter, um jovem pintor boêmio, muito amigo de seu filho. Apesar da diferença de idade de vinte e um anos os dois se apaixonaram perdidamente.
Em 1909, Suzanne conseguiu fazer tremer a liberal Montmartre quando passou a viver no mesmo endereço com o jovem amante e o filho. A inusitada família ficou famosa no bairro com o apelido de “trindade diabólica”. Durante seu romance com André, porém, ela deu à luz os seus primeiros e belos e grandes óleos, que conversavam sobre o prazer sexual, mostrando o homem pioneiramente como o objeto do desejo de uma mulher.
Suzanne Valadon - Le lancement du filet - 1914

Depois do lançamento dessa rede aí em cima, a artista chocou Paris com um óleo de nome Adão e Eva, uma representação dela mesma e do homem do seu encanto que, é claro, a essa altura além de marido tornara-se seu modelo. A tela do casal primordial, que eu pessoalmente não aprecio, foi a primeira pintura de um casal despido feita pela mão de uma mulher.
Em 1911, apenas dois anos depois do início do tórrido romance, Suzanne fez com muito sucesso, a sua primeira exposição individual. Através de seus jovens amante e filho, ela se aproximara da nova geração de artistas do bairro e muito aprendera junto com Pablo Picasso, Georges Braque e Raoul Dufy dando início ao período mais produtivo de sua carreira, no qual ela trabalhou com a paleta mais ampla de cores do fauvismo em telas de variados temas.
Os auto retratos, retratos, nus, paisagens, gatos e cães e naturezas mortas de Suzanne Valadon permaneceram desvinculados das tendências e aspectos da arte acadêmica. Seus temas muitas vezes reinventaram as telas de seus mestres: mulheres no banho, nus reclinados e cenas de interiores. Ela pintou a mãe e a sobrinha na Boneca Abandonada, jovens mulheres no banho e nas janelas, se auto retratou muitas vezes ao lado do marido, do filho e da sogra, para não falar dos bichanos.
Suzanne Valadon - La poupée abandonnée (1921) / Jeune fille devant la fenêtre (1030) /Portraits de famille (1912) / Raminou assis sur une draperie (1920)
O sentido vibrante e emocional que emana de suas figuras de olhos expressivos foram o resultado de uma observação íntima e familiar dos corpos representados. Talvez a sua dupla experiência como modelo e artista tenha lhe permitido dominar o processo que transforma e posiciona o corpo como o objeto do olhar dentro de uma obra de arte e influenciado o seu entendimento e perspectiva transgressores da mulher e do corpo feminino. Entre as duas Guerras, Suzanne produziu nus que nada deviam aos de Renoir, Degas e Lautrec. Um dos mais famosos e controversos é o de uma jovem para quem uma cartomante coloca cartas e lê o futuro.
Suzanne Valadon - L'avenir devoilé ou La tireuse de cartes - 1912

Nesta pintura vemos uma mulher poderosa, de longos cabelos trançados e um corpo forte mas flexível, completamente nua e muito à vontade e cheia de autoconfiança dentro da própria pele. Reclinada e apoiada sobre um os cotovelos ela olha calmamente, como que para matar o tempo, por pura diversão, para as cartas de baralho que uma cartomante interpreta no tapete.
Além de desvelar o futuro, Suzanne Valadon aproveita para nos exibir também o corpo da protagonista e, embora esse não seja um auto retrato, há uma sensação de que a artista se revela através da modelo. Suzanne mostra-nos aí as suas próprias força física e autoconfiança nessa serena garota que é vulnerável porque despida, mas está claramente no controle. Percebe-se que a artista repudia a passividade de séculos de erotismo feminino que aqui é sugerido não para atiçar a imaginação, mas para enfatizar o potencial erótico de uma mulher completamente dona de si mesma.
Tais pinturas e gravuras da artista revolucionaram o nu feminino. Ela pintava mulheres simples, em poses ocasionais que subvertiam a tradição das deusas e/ou odaliscas, sem pedir nenhuma desculpa pela falta de cerimônia, com largas pinceladas que foram um sucesso de vendas. Quem criticava o seu trabalho o fazia por julgá-lo pouco feminino ou por ver nele uma qualidade masculina. (rsrs)
O certo é que Suzanne Valadon invadiu o domínio dos homens na arte e nele firmou-se como igual a seus pares mais proeminentes, se negando valentemente a cometer representações típicas e inventando novidades através do uso de corpos não-idealizados e autopossuídos e sexualizados.
A jovem trapezista que encontrara e seguira com coragem a sua vocação artística realizou quatro grandes e bem sucedidas exposições individuais e conquistou enorme sucesso financeiro como artista. O trabalho de Suzanne - cerca de trezentos desenhos e mais de quatrocentas e cinquenta pinturas - foi exibido nos grandes Salões de Arte de Paris, ganhando elogios mesmo que os críticos tivessem muita dificuldade de enxergar além do seu gênero e da vida pessoal não convencional. Indiferente às palavras críticas ou elogiosas, ela persistiu até o fim, nunca vacilando na criação de suas figuras femininas diretas que frustavam o usual voyeurismo do olhar masculino.
Apesar dos altos e baixos e das reviravoltas de sua vida pessoal, a pintora permaneceu ativamente dedicada à sua arte até o último de seus dias. Pouco antes de sua morte Suzanne escreveu ao seu maior amigo, o jornalista e poeta e compositor Francis Carco:
"Meu trabalho está terminado e a única satisfação que ele me deu é que eu nunca me rendi. Nunca traí nada em que acreditei.”
Suzanne foi para o andar de cima fazendo o que mais gostava: de pé e pintando em seu cavalete em março de 1938, aos setenta e três anos. Infelizmente o seu obituário no jornal Le Figaro informava que falecera a esposa do pintor André Utter e a mãe do pintor Maurice Utrillo, em vez de Suzanne Valadon, uma grande artista.
Outras mulheres também escreveram a história de Montmartre e elas farão parte de outras conversas.


12/02/2018

O aviador, o príncipe e a rosa

ilustração - Antoine de Saint-Exupéry


Wilson Baptista Júnior
O livro de Saint Exupéry mais conhecido no Brasil deve ser O Pequeno Príncipe, que ficou com a fama de ser um livro para crianças e adolescentes por sua história aparentemente simples, por algumas citações que se tornaram lugar comum e pelo fato de que, nos tempos áureos dos concursos de misses, as candidatas quase invariavelmente citavam a obra como seu livro de cabeceira.
Mas a criação e o enredo do livro são bem mais complexas. Depois do seu acidente quando caiu no deserto do Saara, que é o pano de fundo do livro, a mulher do aviador, Consuelo Suncín Sandoval, com que foi casado a vida inteira mas teve um casamento turbulento tanto pelas dificuldades da vida de piloto como por suas recorrentes infidelidades, cansada, segundo suas próprias palavras, de um relacionamento prolongado que o piloto tinha com uma mulher que ela chamou apenas de “E.”, perdeu a paciência e resolveu deixá-lo e pedir o divórcio. Mas quando chegou à Guatemala, em sua viagem para sua terra natal de El Salvador, encontrou o marido no hospital, vítima de um novo acidente, desta vez acontecido na tentativa de um raid de Nova Iorque à Terra do Fogo, e se reconciliou com ele. Depois disso Saint-Ex escreveu o livro.
O Pequeno Príncipe foi lindamente traduzido no Brasil pelo monge beneditino, escritor e poeta Dom Marcos Barbosa, que tive o prazer de conhecer. Vale a pena procurar esta tradução em vez das mais recentes. O meu exemplar, infelizmente, teve o destino de muitos livros emprestados…
Sua amiga Nelly de Vogüé, de quem se desconfia que tenha sido a misteriosa “E.”, e que talvez de todos os seus biógrafos tenha sido quem melhor o conheceu, em seu livro “Saint Exupéry”, que escreveu sob o “nom de plume” de Pierre Chevrier, diz que o mais perfeito retrato que o autor deixou de si mesmo foi o principezinho do livro: “…ele conservou da criança a espontaneidade, uma curiosidade nunca satisfeita, uma necessidade perdida de ternura, a esperança do milagre e uma capacidade infinita de tristeza (…) o antigo piloto, o festejado escritor, leva escondido dentro de si este depósito precioso com um sorriso um pouco triste. E é ao redor do encontro do piloto e da criança que constrói este livro”.
A dedicatória do livro, a seu amigo Leon Werth, já nos diz muito:
“Eu peço perdão às crianças por ter dedicado este livro a uma pessoa adulta. Tenho uma desculpa séria: este adulto é o melhor amigo que tenho no mundo. Tenho uma outra desculpa: este adulto é capaz de compreender tudo, até os livros para crianças. Tenho uma terceira desculpa: este adulto mora na França, onde sofre de fome e de frio. Ele precisa muito de ser consolado. Se todas estas desculpas não bastarem, quero muito dedicar este livro à criança que este adulto foi um dia, Todos os adultos começaram sendo crianças (mas poucos deles se lembram disso). Corrijo então minha dedicatória:
Para Leon Werth, quando era um menininho”.
O livro é ilustrado por suas encantadoras aquarelas, a primeira das quais é parte integral da história, que conta quando o piloto, ainda criança, leu que as jiboias enguliam suas presas inteiras, e depois de maduras reflexões fez o primeiro desenho desta ilustração e perguntou aos adultos se o desenho lhes fazia medo. E eles responderam “porque um chapéu nos faria medo?”
ilustração - Antoine de Saint-Exupéry

O garoto desenha então a figura de baixo, para que entendessem que o desenho não representava um chapéu, mas uma jiboia digerindo um elefante, e diz “Os adultos sempre precisam de explicações (...) Os adultos nunca compreendem nada sozinhos, e é cansativo para as crianças ficarem sempre lhes dando explicações”.
Todos nós leitores, se apesar de sermos adultos ainda nos lembrarmos de nossos tempos de criança, compreenderão isso muito bem...
Saint-Exupéry padeceu sempre da sensação de não ser verdadeiramente compreendido. Por isso talvez tenha escrito tanto. E diz, pouco adiante, no livro:
“Vivi assim sozinho, sem ninguém a quem pudesse falar de verdade, até sofrer uma pane no deserto do Saara, há seis anos...”
E aí começa verdadeiramente o livro. Não vou contar aqui toda a história, quase todo o mundo a conhece. Pelo menos na sua superfície. Vou me limitar a contar um pouco do que está por baixo dela.
O piloto acorda, e se depara com um garotinho estranho, surgido do nada, naquelas areias a centenas de quilômetros de qualquer região habitada. E é assim que fica conhecendo o pequeno príncipe, e fica sabendo que ele caiu do céu vindo de um pequenino planeta distante.
E o garoto lhe pede: - Desenha-me um carneiro... e o piloto desenha.
O pequeno príncipe deixou no seu planeta uma rosa, a única de lá, e se preocupa com sua segurança. É responsabilidade sua, que cuida do planeta.
Essa rosa, é claro, representa Consuelo, a quem o piloto deixava por longos períodos e muitas aventuras mas para quem sempre queria voltar.
O principezinho saiu do seu planeta pegando carona numa migração de pássaros selvagens. Em suas viagens pelos outros planetas, até chegar à terra, encontra, cada qual em seu planeta, uma sucessão de pessoas que personificam diversos tipos de personalidade, desde um rei cioso de sua autoridade que acredita governar as estrelas, que nem sabem que ele existe, passando por um vaidoso, que quer ser aplaudido, por um bêbado, que bebe para esquecer que tem vergonha de beber, por um homem de negócios que passa seu tempo contando as estrelas que acredita possuir e anotando-as num papel, e por um pobre acendedor de lampiões que acende e apaga o único lampião de seu minúsculo planeta conforme minuto por minuto se faz noite ou dia. Esse é o único que, para o pequeno príncipe, encontra algum sentido em sua vida, e seria o único de quem poderia ser amigo, porque só ele pensa em algo mais do que nele mesmo. O acendedor exprime a convicção que Saint-Exupéry descreveria mais tarde, em seus Carnets:
“A grandeza nasce primeiro – e sempre – de um alvo situado fora de si próprio: quando se encerra um homem em si mesmo, ele se torna pobre. Quando serve a si mesmo.”
Por último o principezinho encontra o planeta do geógrafo, que emprega o seu tempo em registrar as descobertas contadas pelos exploradores de boa reputação que descobrem as coisas do planeta que ele mesmo nunca vai conhecer em primeira mão. É o geógrafo que conta ao principezinho que a sua rosa não é eterna, que um dia, apesar de todos os cuidados, ela morrerá. O pequeno príncipe pela primeira vez sente remorsos de tê-la deixado só. Mas ainda quer explorar mais, e o geógrafo o aconselha a visitar a terra, que para ele “tem boa reputação”.
O principezinho então vem para a terra. Que é enorme em relação aos pequeninos planetas que conhecia. Nas palavras do autor, “contam-se nela cento e onze reis (sem esquecer os reis negros), sete mil geógrafos, novecentos mil homens de negócios, sete milhões e meio de bêbados, trezentos e onze milhões de vaidosos, quer dizer, mais ou menos dois bilhões de pessoas” e, “antes da época da eletricidade, precisava de um verdadeiro exército de quatrocentos e sessenta e dois mil acendedores de lampiões”...
A primeira pessoa que o pequeno príncipe encontra ao chegar ao deserto é uma serpente. Começam a conversar. E olhando para o céu diz a ela:
- Me pergunto se as estrelas são iluminadas para que cada um possa um dia reencontrar a sua. Veja meu planeta está bem acima de nós. Mas como está longe!
Mais adiante lhe pergunta:  - Onde estão os homens? Fica-se um tanto só, no deserto.
E a serpente responde: - Também se fica só junto aos homens.
Está aqui a angústia que Saint-Ex descreveu no Terra dos Homens e que permeia seus outros escritos, o da necessidade de uma verdadeira comunicação com os outros (Não existe senão um luxo verdadeiro, que é o das relações humanas).
Ao final da conversa a serpente lhe diz:
- Quem eu toco, devolvo à terra de onde partiu. Mas tu és puro e vens de uma estrela.
E ante o silêncio do principezinho:
- Fazes-me pena, tão fraco, nesta terra de granito. Posso te ajudar, um dia, se tiveres muitas saudades do teu planeta.
- Oh, compreendi bem -  responde o pequeno príncipe – mas porque falas sempre por enigmas?
- Eu os resolvo todos, disse a serpente.
O pequeno príncipe caminha e encontra um roseiral. E se sente infeliz porque sua rosa lhe havia dito que era a única do universo. Mas aqui estavam cinco mil, todas parecidas com a sua. E ele pensa em como a sua ficaria triste e humilhada e fingiria morrer se soubesse disso:
“... e eu seria obrigado a fingir que cuidava dela, porque senão, para humilhar-me também, ela se deixaria morrer de verdade...”
Podemos perfeitamente imaginar aqui o remorso latente do autor com o efeito que suas múltiplas infidelidades, simbolizadas pelo roseiral, provocavam em Consuelo...
Depois o principezinho encontra uma raposa. E ela lhe explica o significado do afeto, dizendo o que acontece quando alguém cativa a outro.
- Eu não sou para ti mais do que uma raposa parecida com outras cem mil. Mas, se me  cativas, precisaremos um do outro. Serás para mim o único do mundo. E serei para ti a única do mundo...
- Começo a compreender -, diz o pequeno príncipe. – Existe uma flor... creio que ela me cativou...
É desta parte do livro a frase mais citada, “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Mas quase todo o mundo pensa que a raposa fala apenas deles dois, quando na verdade é também um lembrete que faz do amor do pequeno príncipe pela sua rosa, porque o resto da frase é: “És responsável por tua rosa”...
E uma frase pouco antes dessa, também muito citada só por uma parte, diz: “O essencial é invisível para os olhos (...) é o tempo que perdeste com tua rosa que a faz tão importante”.
Muito mais tarde é que o principezinho encontra o piloto perdido no deserto. E depois de oito dias, a provisão de água se esgota, e eles partem à noite à procura de um poço. Fatigados, param um, pouco para descansar, e o pequeno príncipe diz:
- As estrelas são belas, por causa de uma flor que a gente não vê...
(...) O deserto é belo, (...) O que torna belo o deserto é que em algum lugar se esconde um poço...
Cansado, o principezinho dorme e o piloto o toma nos braços e continua a andar. E conta:
“O que me emociona tanto neste pequeno príncipe adormecido, é sua fidelidade a uma flor, é a imagem de uma rosa que irradia nele como a chama de uma lamparina, mesmo quando dorme... – E o percebia ainda mais frágil. É preciso proteger as lamparinas: um golpe de vento pode apagá-las...”
Encontram o poço, ao raiar do dia. E quando o pequeno príncipe bebe, conta o piloto que a água que ele bebia:
“Era doce como uma festa. Essa água era bem mais do que um alimento. Tinha nascido da marcha sob as estrelas, do canto da polia, do esforço de meus braços. Era boa para o coração, como um presente (...)
- Os homens da tua terra, disse o pequeno príncipe, cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim... e não encontram o que procuram.
- Isso mesmo, respondi
- E no entanto o que eles procuram poderia ser encontrado numa só rosa ou num pouco d’água...
Mas os olhos são cegos, é preciso procurar com o coração.”
Voltando para o avião, o pequeno príncipe lembra ao piloto que ele lhe tinha prometido desenhar uma focinheira para seu carneiro, para proteger sua flor quando o levasse para o seu planeta. E o piloto desenha. Mais tarde fica sabendo que tinha sido ali perto que o principezinho tinha sido deixado, um ano antes, pelos pássaros selvagens que o trouxeram à Terra. E se preocupa pelo desejo dele de voltar àquele lugar. Quem sabe ele iria embora?
O pequeno príncipe lhe disse que vá consertar o avião. E que ele o espera ali na noite seguinte.
“Mas não fiquei tranquilo, Me lembrava da raposa. A gente se arrisca a chorar um pouco quando se deixou cativar...”
À tardinha, quando o piloto volta, encontra o pequeno príncipe sentado nas ruinas de um muro de pedras, conversando com a serpente, que foge ao ver o aviador. E o principezinho diz:
- Esta noite vai fazer um ano. Minha estrela estará bem em cima do lugar onde caí na terra no ano passado.
E depois,
- Olharás à noite para as estrelas. Meu planeta é pequeno demais par que te mostre qual delas é a minha. Melhor será. Minha estrela será para ti uma das estrelas, e por isso gostarás de olhar para todas. Serão todas tuas amigas. (...) Quando olhares para o céu à noite, porque eu morarei numa delas, porque rirei em uma delas, será para ti como se todas as estrelas rissem. Tu, tu terás estrelas que sabem rir!
E anda para diante; o aviador, incapaz de segui-lo, vê-o ser picado pela serpente e “tombar docemente, como uma árvore tomba”.
As últimas duas aquarelas do livro são estas:
ilustrações - Antoine de Saint Exupéry

E a última página do livro traz apenas:
“É para mim a mais bela e a mais triste paisagem do mundo. É a mesma paisagem da página anterior, mas a desenhei de novo para mostrar a vocês. Foi aqui que o pequeno príncipe apareceu na terra, e depois desapareceu. Olhem atentamente para esta paisagem para terem a certeza de reconhecê-la, se um dia viajarem pela África, no deserto. E. se acontecer de vocês passarem por lá, eu lhes peço, não tenham pressa, esperem um pouco bem debaixo da estrela! E se então uma criança se aproximar de vocês, se ela rir, se tiver cabelos de ouro, se não responder quando o interrogarem, vocês adivinharão quem é. E então, sejam gentis! Não me deixem tão triste: escrevam-me depressa que ele voltou...”

Como duvidar de que o livro é um retorno ao mais íntimo do autor, além de uma bela e comovente carta de amor?


10/02/2018

Santa Faustina, rogai por nós!

Santa Faustina Kowalska (fotografia Pinterest)

Antonio Rocha
Desde agosto do ano passado ando lendo, estudando e pesquisando a vida e a obra da polonesa Santa Faustina (1905-1938). Viveu apenas trinta e três anos, tal e qual Cristo, mas percebo que a sua obra literária vai marcar o século XXI e os demais daqui para a frente.
O Dicionário do Mestre Aurélio chama de hagiografia, a biografia dos santos e santas. Eu prefiro escrever HagioLiteratura, HagioLeitura, HagioLinguística. São neologismos, acho que inventei, até que provem o contrário. Irei reconhecer e aceitar a autoria de outros.
Estou aprendendo, com bastante afinco, a “Biografia de uma Santa: Faustina Kowalska”, da jornalista e escritora polonesa Ewa K. Czaczlpwska., 492 páginas e muitas fotos.
No início, a hoje santa, foi acusada de histérica, maluca, doida, desequilibrada com muitas fantasias espirituais. Numa linguagem contemporânea, teria sido chamada de fanática. Durante muito tempo os seus superiores não acreditavam na jovem, mas atualmente ela é considerada não apenas uma das maiores místicas do século XX, mas de toda a humanidade, dizem os teólogos.
Muito pobre, a menina Elena só conseguiu estudar até o terceiro ano do antigo curso primário. Parou para trabalhar e ajudar o pai na lavoura e depois como doméstica em casas de família.
Mas ela não parava de ler sobre a vida dos santos e santos, lia diariamente em todo o tempo livre e assim decidiu que ia ser freira. Os pais foram contra, mas ela decidiu e foi atrás do que queria.
Não tendo maiores instruções tornou-se cozinheira e lavadora de pratos, ajudando na cozinha do convento.
Qual não foi a sua surpresa, misturada com alegria e medo, quando passou a ver e conversar com o próprio Jesus.
Como já dissemos, nem ela mesma acreditou nas aparições e nos diálogos. Aos poucos Cristo foi esclarecendo a missão de Faustina, o nome religioso que ela escolheu. Vem do Latim e significa venturosa, auspiciosa.
Por fim o Mestre pediu que ela escrevesse um Diário, registrando todas as conversas entre os dois, pois seriam, mais do que diárias, seriam o tempo todo, dia e noite.
Faustina arranjou três cadernos e começou a escrever tudo o que ouvia de Jesus. Estes três cadernos tornaram-se o “Diário, A Misericórdia Divina na Minha Alma”, já traduzido em diversas línguas; a edição em português tem 500 páginas e muitas fotos. Todo este material está sendo publicado pela editora Apostolado da Divina Misericórdia, de Curitiba, PR.
Semelhante ao tempo de pregação de Cristo, que aqui na Terra durou três anos, as anotações de Kowalska também demoraram três anos. Ela faleceu de tuberculose.
São mais de mil frases, parágrafos e períodos de Jesus dizendo a ela o que deveria ser feito, pois Cristo estava começando a preparar a sua segunda e última volta ao planeta Terra.
A Bíblia e estes escritos de Faustina não especificam a data certa, quando Cristo voltará, mas aqui eu faço um parênteses budista: o médium japonês Ryuho Okawa, em um de seus tantos livros, informa que Jesus voltará entre os anos 2400 e 2500, mas não diz qual será o país onde ele renascerá. Sendo budista, Okawa diz que Jesus virá não como pensam os cristãos, mas através de um nascimento normal.
Entre outras, Cristo pediu que Faustina mandasse pintar um quadro dele com uma roupa branca e saindo do coração um feixe de luz vermelha e outro na cor branca. Esta moldura teria o nome de Divina Misericordiosa, que é a forma como Ele se apresenta hoje.
Particularmente eu gostei dessa imagem, pois sempre tive dificuldade com o crucifixo, ele sentindo muita dor. No pé da imagem está escrito: “Jesus, eu confio em vós” e o Mestre falou que todo aquele que contemplar este quadro com fé, será abençoado de várias formas.
Ele determinou também que, Faustina iniciasse uma outra forma de devoção à Misericórdia Divina. Que todo dia, às quinze horas seria a Hora da Misericórdia e onde a pessoa estiver, nesse momento, pare por alguns segundos e reflita, medite nas Graças que a Misericórdia Divina vai entregar aos praticantes. Estabeleceu também a Festa da Misericórdia, que será no “Primeiro Domingo, após a Páscoa”.
Tem outras recomendações, mas vou encerrando por aqui, prometendo voltar ao tema.
Mas um fato que me chamou a atenção é que a menina e depois jovem freira era muito nacionalista, patriota, amava profundamente a sua terra natal e, pedia sempre que Jesus abençoasse e protegesse a sua Nação. Por fim, Jesus diz que vai ajudar a Polônia, o país onde a “sua secretária” nasceu.
Então, cá com os meus botões pensei: Deus é brasileiro (ouço isso desde criança), o Papa é argentino e Jesus agora é polonês.
Numa linguagem espírita podemos dizer que Santa Faustina foi excelente médium clarividente e clariaudiente.
Eu já pedi a Santa Faustina uma graça de saúde para uma outra pessoa e o fato foi atendido, realizado, logo...
Gratidão Irmã Maria Faustina Kowalska!
Lendo e estudando as obras citadas, cheguei à intuição que Jesus renascerá na Polônia, Leste Europeu... quem diria...


08/02/2018

O GALO E A BARRICA – uma ode em três capítulos (I)


I - O Retorno ao Ocidente
(imagem Domingos Ferreira)

Domingos Ferreira
O galeão “Príncipe Real” avançava lentamente, tocado por um vento terral vindo das costas d’África, entrando suave pela alheta de boreste, e que o afastava do continente negro, em demanda ao Brasil. O capitão Nuno Álvares de Noronha conseguira dormir um pouco, após ter afastado as muitas lembranças dos dias anteriores. Era noite alta e escura, já no quarto d’alva. O navio todo ressonava e só se escutavam eventuais ordens de governo gritadas pelo contramestre, do chapitéu do castelo de popa, para os quatro homens que guarneciam a cana do leme, dois conveses abaixo.
Era o ano da graça de 1647. O navio viajava havia mais de seis meses desde Macau, tendo Lisboa como destino e Rio de Janeiro como próxima escala. Em sua longa derrota, aportara em Colombo, Goa, Cochin e Moçambique. Tivera sorte de montar o Cabo da Boa Esperança com bom tempo e poder costear na aproximação de Luanda.
Na “Carreira da Índia”, tal era a rotina cumprida pelos navios portugueses destinados ao Extremo Oriente, como correio e apoio logístico. Eram galeões rápidos e bem artilhados. O “Principe Real”, 550 tonéis, três mastros e três conveses, impunha respeito com seus 34 canhões e 380 tripulantes. Tais navios, obras-primas da construção naval portuguesa, não transportavam cargas oriundas das inúmeras feitorias lusas espalhadas pelos mares navegados.       Essa tarefa era reservada às grandes naus, aperfeiçoadas nos mais de dois séculos de penosas e fantásticas navegações.
As visitas periódicas dos galeões possibilitavam ao Conselho Ultramarino, em Lisboa, exercer o controle das províncias portuguesas. Serviam também para transporte de tropas e de autoridades civis e eclesiásticas. Neles, viajavam o ouro, a prata, as porcelanas e as pedras preciosas. Carregavam grande quantidade de canela e da valiosa pimenta do reino, usada como moeda para variados negócios e salário das tripulações. Transportavam ainda indígenas e animais exóticos, dos muitos territórios lusos, conquistados com engenho e arte desde o início do século XV.
Na frugal câmara do capitão, além do beliche em um canto, de um baú de roupas e de um varal para secá-las, havia uma mesa para refeições, presa na antepara. Sobre ela, ficava a carta náutica do Atlântico Sul, riscada em um couro de carneiro, e poucos instrumentos rudimentares de navegação. Uma prateleira próxima guardava alguns livros, “Os Lusíadas” dentre eles. A antepara oposta apoiava um pequeno altar, com a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes e uma lamparina, mantida acesa a duras penas. Três vigias, uma em cada bordo e outra no espelho de popa, garantiam ventilação e luz do sol. O ambiente era impregnado de um cheiro forte, mistura de suor, fumaça e óleo de peixe. O capitão vivera ali nos últimos quinze meses, desde a partida de Lisboa para Macau. Sem banho.
Uma barrica enorme, com seis palmos de pé e quatro de diâmetro, feita de teca finamente lavrada, dominava o outro canto da câmara. Era um valioso trabalho chinês. Estava fixada a um forte pé de carneiro a ré, por cintas de ferro batido, cravadas a ficar. A tampa de madeira grossa era meio roscada na abertura superior da barrica e atracada por um aldrabão de ferro, em cujo furo passava um cadeado de respeito. Tal arranjo, acabado com muito breu, garantia a vedação, impedindo o vazamento da salmoura contida na portentosa barrica. Isso era essencial para a preservação do corpo de Dom Fernando de Souza Álvares, ex-governador de Macau, ali mergulhado. Assim se cumpriam as disposições régias sobre o enterramento opcional em solo português, dos nobres e altos funcionários da coroa, falecidos nas províncias.
As instruções para a viagem, recebidas em Portugal, ordenavam a Nuno fazer um levantamento da situação em Luanda, no retorno a Lisboa. Ela estava em mãos holandesas desde 1641, com grandes prejuízos para o tráfico de escravos, explorado pelos portugueses por mais de meio século. Para tanto, havia a bordo alguns tripulantes oriundos da região, com vivência no sórdido e lucrativo negócio negreiro.
O “Príncipe Real” desembarcou quatro deles em uma praia abrigada próxima a Luanda, na madrugada anterior a chegar à vila. Eram três marinheiros negros, chefiados por um branco, ajudante do escrivão. Eles teriam três dias para se integrar à população e percorrer a vila e cercanias, observando tudo de interesse para o comércio de escravos e para a defesa da praça. O galeão se manteria ao largo e os apanharia no mesmo local e horário do desembarque.
O arranjo funcionou e os homens foram recolhidos como acertado. Entretanto, faltava um dos marinheiros, figura popular a bordo. Nuno esperou até quase o amanhecer e só aproou ao mar alto com o sol já de fora. Pouco depois, ouviu o grito do vigia, no cesto de gávea, alertando para a aproximação de um navio, logo identificado como galeão holandês, vindo da direção de Luanda.
A rápida reação do capitão Nuno, bom conhecedor de armamento, foi ordenar o preparo do “Príncipe Real” para combate. Finalmente, surgira a oportunidade tão desejada por ele desde a China. Adestrara-se bastante para melhorar a cadência de tiro e a precisão dos canhões, mediante frequentes exercícios, durante as longas travessias. Assim, contava dispor de respeitável poder de fogo, bem como aferir as qualidades da afamada pólvora chinesa, comprada em Macau em grande quantidade.
Um vento médio soprava para terra e levantava pequenas ondas. Isso aproximou rapidamente os dois navios, em rumos opostos, quase paralelos. Nuno esperou o holandês abrir fogo, o que se deu com os dois canhões de proa. Os tiros foram curtos, com fumaça escura, indicando pólvora fraca. O “Príncipe Real” guinou para fora, abriu distância para aproveitar-se do maior alcance dos canhões, ganhar barlavento e ter melhor condição de manobra. O holandês manteve o rumo e deu a primeira bordada com os canhões de bombordo, fraca e descoordenada, sem atingir o português.
Nuno guinou para dentro, em rumo oposto e paralelo ao do inimigo, fora do alcance dos canhões dele. Ao marcá-lo pela bochecha, o “Príncipe Real” abriu fogo com uma estrondosa e simultânea bordada dos 14 canhões de bombordo. Antes de a fumaça se dissipar, vomitou fogo com outra bordada pelo través, e mais uma pela alheta, conforme se cruzavam os navios. Em seguida, inverteu o rumo e ia sair em perseguição do inimigo. Não precisava. Ele estava à matroca, dois mastros quebrados, a vela grande n’água e rombos no costado. A pólvora chinesa era um sucesso.
O Capitão Nuno acordou com o canto do galo, companheiro das galinhas no cercado do convés do castelo, responsáveis pelos ovos e canjas da dieta das autoridades. Em seguida, ouviu um pigarro forte, vindo da direção da barrica. Era Dom Fernando, que também despertara com o canto do galo. Uma voz clara e forte falou:
- Ó Nuno, fizeste-o muito bem ontem. O maldito holandês teve o merecido!
Ao que o capitão prontamente retrucou, com falsa modéstia:
- Ora pois, senhor meu tio. Deveu-se isto à qualidade da pólvora chin.
A conversa prosseguiu com grande naturalidade. Nuno deitado no beliche e a barrica firme no seu lugar. Esse diálogo se iniciara logo após a saída de Macau. Na primeira vez em que Dom Fernando falara, o capitão levara um grande susto, mas foi tranquilizado pelo seu parente e amigo. A partir daí, passaram a conversar com frequência, a iniciativa sempre do nobre, e que não ocorria toda noite.
O primeiro canto do galo era sinal para o início das conversas, sempre encerradas antes do amanhecer. Às vezes, se o galo insistisse em cantar, o morto se calava subitamente, por mais interessante o assunto. Era comum ocorrerem discussões acaloradas entre os dois interlocutores. Então, uma pálida luminescência envolvia a barrica e dela surgia o ectoplasma de Dom Fernando, em pé, gesticulando. O nobre apreciava tais momentos, por poder esticar o corpo, sempre curvado na barrica.
A travessia para o Rio de Janeiro duraria cerca de seis semanas, conforme os ventos e as correntes. Nuno aproveitou para redigir o relatório sobre Luanda, destinado ao Conselho Ultramarino em Lisboa. Uma cópia seria para o governador do Rio de Janeiro, o famoso Dom Salvador Correia de Sá e Benevides. Outra permaneceria a bordo do “Príncipe Real”. Para tanto, passaram a ocorrer reuniões na câmara, com Nuno, o escrivão e seu ajudante redator, e os dois marinheiros que o acompanharam em Luanda, logo dispensados. O ex-bispo de Goa, Dom Manuel de Castello Branco, o mais ilustre passageiro vivo, comparecia com sua experiência, a convite do capitão.
As informações coletadas e o ataque pelo galeão dos holandeses indicavam que eles não tinham a menor intenção de sair de Luanda. Havia alguns navios armados no porto, além de tumbeiros lotados de escravos, prontos a zarpar para as Américas, o Brasil em especial. Os dois fortes do porto tiveram as defesas melhoradas e foram aumentados o número e o calibre dos canhões. A tropa também recebera reforços.
Nuno e seus parceiros de reunião logo concluíram que a chegada de tais notícias no Rio de Janeiro e em Lisboa certamente iria provocar o envio de outra expedição, para tentar expulsar os holandeses. Seria a terceira, após o fracasso de duas anteriores, em 1645, oriundas de Salvador e do Rio, as quais pecaram por mau planejamento e meios insuficientes. Desses esforços, ficou famosa a trágica experiência de duas centenas de expedicionários baianos, aprisionados por nativos, aliados dos holandeses. Tratava-se da poderosa tribo dos Jagas, terríveis antropófagos. Segundo quatro sobreviventes, os jagas se alimentaram desses homens, por cerca de três meses, em festivos banquetes.
As condições políticas para uma nova investida sobre Angola eram bem melhores em 1647, com a “Restauração”, separando Portugal da Espanha em 1640, e a entronização de D.João IV, em 1641. Seria necessário reunir mais forças que nas incursões anteriores, em número e armamento dos navios, e em quantidade, equipamento e preparo da tropa. Também, importava definir de onde partiriam os navios, quem os aprestaria e comandaria, e como financiar a operação. Rio e Salvador eram opções óbvias, mas com carência de navios e de pessoal capacitado.  Devido à longa ausência do “Príncipe Real”, havia dúvidas se os holandeses continuavam em Pernambuco. Por fim, Lisboa seria outra solução, porém, afogada nas reverberações européias da “Restauração”, tenderia a delegar a tarefa, como o fizera antes.
Todas essas incertezas dominavam o pensamento do capitão Nuno, durante a redação do relatório. Além do mais, os poucos membros do grupo que o ajudavam nisso não tinham qualificações para opinar sobre tais assuntos. O próprio bispo de Goa estava desatualizado, pois passara quase dez anos na província. Só restava a Nuno apelar para Dom Fernando, de dentro da barrica.
Assim foi feito, para grande espanto do religioso, que não podia recusar a sugestão de Nuno para incorporar o tio ao grupo. Afinal de contas, o bispo representava Deus naquela casca de noz, balançando no imenso oceano. O resultado surpreendeu, com a sabedoria política da igreja como lastro para ponderar os argumentos. Além disso, passado o ilógico pavor do prelado, ele e o falecido se tornaram mui amigos. Tudo facilitado pela anuência do bispo em não perguntar ao morto sobre a “vida do outro lado.” D. Manuel manteve a palavra, apesar de “morrer” de curiosidade.
O galo cooperou e muitas madrugadas da travessia foram ocupadas em discussões na câmara do capitão. Dom Fernando era adepto de deixar o problema com Lisboa. Já Nuno, tendo escalado no Rio na vinda, defendia que a tarefa seria melhor cumprida a partir de lá. Ele sabia ser esse o pensamento de Salvador de Sá, baseado em que a maioria dos tumbeiros, vindos de Angola carregados de escravos, desembarcavam os infelizes naquele porto. O lindo Rio era a sede do tráfico para o Sul e Sudeste do Brasil, e o governador tinha grandes interesses nele.
O “Príncipe Real” fundeou em frente à cidade do Rio de Janeiro, com a Ilha das Cobras pelo través, em uma límpida manhã de outubro de 1647. Salvador de Sá veio a bordo, ansioso por novidades. O capitão e o bispo foram hospedados por ele, no Morro do Castelo. A pesada barrica, com Dom Fernando dentro, foi também para lá, por razões cerimoniais alegadas pelo prelado e por Nuno. Isso exigiu uma grande faina para colocá-la em um carro de boi, puxado por duas juntas, que gemeu penosamente na Ladeira da Misericórdia, até o topo do morro. O galo também foi, calado...