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| fotografia Moacir Pimentel |
Moacir Pimentel
Chegamos ao aeroporto internacional de Colombo - depois de vinte e seis
anos de ausência- nas primeiras horas de uma bela manhã, depois de um voo de
quatro horas desde Dubai. Devo confessar que a capital de Sri Lanka, na costa
oeste da ilha, me parece uma mistura mal combinada da antiga Bombaim e de Hanói
e não é absolutamente um dos meus lugares favoritos nesse mundo.
A Ilha Abençoada é um país tão rico de atividades e tesouros ao ar livre
que muitas vezes os seus visitantes deixam completamente de fora do roteiro a
sua capital, escolhendo em vez passar seus dias de férias nas praias do sul ou
nos parques nacionais.
No entanto, Colombo é a maior cidade da ilha – tem uma população de
aproximadamente meio milhão de habitantes – e de sê-lo nos oferece a visão do
melhor e do pior do país e, em 2009, era, como ainda é, o lugar perfeito para sabermos
para onde a ilha estava indo depois de tantos anos tumultuados por uma guerra
civil fratricida recém terminada.
A metrópole estava muito diferente da cidade que eu conhecera tantos
anos atrás, mais moderna e vibrante, mais cosmopolita e demonstrando um
otimismo cauteloso. Temos o costume de ao chegar a uma cidade simplesmente
passear por ela sem destino naqueles ônibus de dois andares dos quais se pode
tanto subir como descer quando se quer em paradas pré-determinadas. É uma boa
maneira de se situar geograficamente, de verificar as novidades e de fotografar
com uma perspectiva alta (rsrs) Como inexistiam tais busões panorâmicos em
Colombo o jeito foi usar os tuk-tuks.
Eu tinha esquecido o quanto a cidade pode ser quente, mas quando o calor
estava prestes a nos derrubar eis que, como antigamente, ainda aparecia um
garoto montado em uma bicicleta transformada em carroça de sorvete, com
delícias refrescantes e geladas para nos salvar! É muito cansativo andar por
Colombo sob o sol inclemente e os tuk-tuks são realmente uma benção. Fáceis de encontrar e, de longe, o mais prático e divertido meio de
transporte para os nativos e turistas. Acabamos adotando um tuk-tuk e passamos
dias muito agradáveis na cidade que, no entanto, mais uma vez não nos
conquistou.
Na primeira noite em Colombo perambulamos por Galle Face Green, o cartão
postal da cidade e nela o meu espaço favorito. Trata-se do calçadão de Colombo
ao lado da praia estreita só que gramado. Um lugar agradável e pacífico,
perfeito para caminhar, correr, jogar futebol, soltar pipa e assistir aos
onipresentes jogos de críquete e contemplar o pôr-do-sol.
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| fotografia Moacir Pimentel |
Os colonizadores transformaram Colombo no coração da ilha, no centro
administrativo e comercial do país por ter um dos mais importantes portos do
Oceano Índico. Mas da cidade as memórias mais vívidas que eu guardava nada
tinham a ver com a pujança econômica.
Naqueles vinte e seis anos quando eu recordava a cidade me vinham à
mente, em vez, o colorido do seu templo hindu, o cheiro de curry e leite de
coco no ar, a cacofonia de suas ruas e o gosto de maresia nesse magnífico
parque popular na avenida marginal chamada de Galle Face Avenue, onde moravam
os hoteis de luxo de então.
Era bom no final dos dias sentar naquelas imediações para bebericar
alguma coisa e observar a vida. Lembro que num distante mês de agosto, durante
o Ramadã, vi os muçulmanos se reunindo na grama, desempacotando piqueniques,
esperando o sol se pôr para começar a fazer festa. As crianças soltavam pipas,
os vendedores ambulantes vendiam guloseimas, os namorados passeavam de braços
dados, respeitosamente, ao longo da praia. As ondas do mar se chocavam na parede de concreto
criando um pano de fundo dramático. E ali sentado de frente para o oceano eu
podia enxergar um lado diferente da cidade e apreciar a rica diversidade do seu
povo.
Dizem que em 1859, quando foi inaugurado, o parque era uma pista de
corrida de cavalos e, em seguida, um campo de golfe onde os poderosos davam as
suas tacadas coloniais e as damas suspiravam por eles na varanda do venerável
Hotel Galle Face que ainda mora em uma das extremidades do verde tapete.
O hotel foi construído pelos britânicos em 1864 e várias fotografias no
bar ainda dão testemunho que suas suites vitorianas acolheram uma coleção
variada de convidados, incluindo Richard Nixon, a Rainha Elizabeth, Indira
Gandhi, Yuri Gagarin e Arthur C. Clarke que – diz Dona Lenda - escreveu os
capítulos finais da sua “3001: A Odisséia Final” também na badalada varanda. O
certo é que ela oferece algumas das melhores vistas da cidade à medida que o
sol se afunda no oceano por volta das oito da noite.
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Mas para quê beliscar iguarias europeias regadas pelo chá do Ceilão se
bem ali ao longo do passeio a mais legítima e excelente e deliciosa comida de
rua nos acena regada por um café decente? Sim, café! A ilha já foi o maior
produtor de café do mundo pois foi só depois que o ferrão atingiu as famosas
plantações que os britânicos passaram a plantar chá. Ainda hoje o café é
cultivado naquelas paragens e os grãos nativos são torrados e moídos
artesanalmente à perfeição.
Galle Face é justificadamente famosa por sua comida de rua e entre as
muitas barraquinhas à beira mar se destaca pelas filas de clientes cativos e
pela qualidade dos quitutes à base de frutos do mar uma barraca de nome Nana's
que desde os anos setenta, do entardecer até as primeiras horas da madrugada,
prepara kottus picantes de frutos do mar servidos sobre mesas de plástico
também defronte ao mar e com uma gentileza que compensa a falta das amenidades
cinco estrelas.
Também são dignas de elogios outras barracas gastronômicas especializadas
em frangos grelhados inspirados nos de tandoori, em uns bolinhos de
grão-de-bico - os vadai! - recheados de camarão e/ou caranguejo servidos com
cebolas picadas e molho picante.
Como a brisa é contínua e o gramado espaçoso, nas primeiras horas da
noite enquanto o sol vai se pondo o céu acima de Galle Face é povoado por
centenas de dragões, cobras, borboletas e aves coloridos e estranhos. Viva o
espetáculo das pipas de Galle!
Numa cidade onde os espaços públicos são raros, o Galle Face Green é o
seu pulmão e foi com alegria que constatei que o “Verde” – como é
carinhosamente chamado pelos de casa - continuava a ser a “mesma praça” da
minha juventude onde as famílias de todas as religiões, grupos étnicos e
classes sociais ainda relaxavam nas happy hours notadamente dos finais de
semana.
Caminhando ao longo do passeio, no terceiro milênio, vimos centenas de turistas, jovens praticando artes marciais,
mulheres muçulmanas vestidas com burcas pretas entrando na água, ambulantes
vendendo de um tudo, um burro marrom cansado de guerra levando crianças no
lombo, homens idosos muito desalinhados jogando críquete e - pense no inimaginável nos anos oitenta - casais se beijando em público!! Um lugar perfeito para a gente se despedir do imenso calor do dia.
Os funcionários do nosso hotel nos contaram que durante a guerra uma
grande parte do “Verde” fora fechada e que a segurança fora incrementada no
resto do gramado restringindo o acesso e desencorajando os visitantes. Segundo
tais relatos, por longos anos a área se tornara um parque fantasma que muitas
vezes parecia ter mais soldados do que visitantes.
Embora algum arame farpado ainda pudesse ser visto aqui e ali e a
polícia e os soldados ainda patrulhassem a área, em 2009 o Galle Face Green já
estava aberto ao seu público cativo de famílias, crianças, amantes, viciados em
exercício físico, caminhantes e corredores e vendedores de comida, todos
aproveitando a sua nova liberdade de movimento. Naquele gramado todos os
cingaleses, tamils e muçulmanos, nativos e estrangeiros, homens e mulheres,
ricos e pobres, jovens e velhos pareciam felizes apenas por ter acesso a algo
que lhes fora proibido por muito tempo. Para eles, o parque reaberto
significava que a guerra acabara e que a vida seguia adiante.
Alguns dos mais interessantes recantos de Colombo moram perto do mar
como a velha estação de trem, a zona financeira conhecida como “Fort” com
alguns belos edifícios coloniais. A cidade divide com outra de nome Kotte o
título de capital de Sri Lanka pois os poderes Executivo e Judiciário moram em
Colombo, enquanto o poder Legislativo reside em Kotte.
Mas, tirando Galle Face, quais são as outras faces mais icônicas de Colombo? Bem, as belas construções coloniais em todo o centro da cidade que remontam aos tempos dos holandeses e dos britânicos merecem destaque. O rosto holandês é o Velho Hospital Holandês do século XVII, todo revitalizado e bonitão, de paredes grossas e telhados vermelhos, convertido em uma bela moldura para cafés e restaurantes e lojas de arte espalhadas por seus pátios. Foi bom almoçar caranguejos frescos de alta estirpe em variações de alho e chilli e manteiga e pimenta depois depois de todos aqueles anos e de muitíssimas em cima de um sacolejante tul-tuk pelas ruas barulhentas.
Digno de nota é ainda o Museu Nacional que conta toda a história da ilha
e é rodeado por pátios e varandas tranquilos e, last but not least, o Memorial
da Independência - um edifício de pedra cercado por jardins onde mora imponente
a estátua do “Pai da Nação”, o primeiro presidente de Sri Lanka.
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Também mereceu-nos uma rápida visita a "Ilha dos Escravos"
assim chamada pelos britânicos em referência aos descendentes dos escravos dos
portugueses, a maioria deles negros trazidos das então colônias portuguesas da
África, que por lá moravam. Um pequeno grupo de seus descendentes permaneceram
e se espalharam por Sri Lanka e são conhecidos como kaffirs cingaleses.
Slave Island é uma área comercial ao sul do Fort, famosa por causa do
Lago Beira – de nome português com certeza! -, do templo budista Gangaramaya e
do seu belíssimo pavilhão Seema Malaka construído sob medida para a meditação
em uma pequena ilha bem no centro do lago. Ele foi desenhado por Geoffrey Bawa,
o arquiteto mais conhecido do Sri Lanka, famoso por projetos de estilo
“modernista tropical” – e, pasme! - construído graças às doações feitas por
um... muçulmano.
O templo, uma construção elegante de madeira e pedra - com um excesso de
estátuas do Senhor Buda! - é um refúgio pacífico longe das animadas canções pop
indianas que explodem os nossos tímpanos saindo de dentro dos ônibus. Uma
abundância de pelicanos e de cegonhas escolheram o lago como lar e é comum ver
uns lagartos enormes por lá monitorando a paisagem.
Colombo é predominantemente budista – entre setenta e oitenta por cento
da população – e existem muitos templos com pagodes brancos em todos os lugares
da cidade. As noites de lua cheia, por exemplo, nos meus tempos lowcost
pareciam ser feriados públicos devido às multidões de budistas que se vestiam
de branco para ir aos templos.
Nas três visitas que fiz ao país não saberia dizer por quantos templos
passei, mas devo confessar que é palpável a forte vibração espiritual desses
lugares onde sempre há uma bela árvore de "bodhi" – Buda teria
atingido a “Iluminação” sob a sombra de uma delas - em um local de destaque. As
pessoas geralmente caminham em torno dela com um pequeno pote cheio de água nas
mãos. Um pouco d’agua é vertida a cada volta e, ao fim e o cabo, a água
restante é colocada em um local específico para regar e alimentar a árvore com
os desejos de todas as pessoas que estavam ali orando.
Não cheguei a fazer o bonito ritual mas pelo menos aprendi que se deve
caminhar em torno das stupas ou das árvores no sentido horário. O oposto – não
me pergunte porquê – é grave falta de boas maneiras.
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| fotografias Moacir Pimentel |
O Templo de Gangaramaya é formado por vários edifícios alguns dos quais
são francamente muito estranhos. Mas identifiquei, por exemplo, uma biblioteca,
um museu e uma sala onde são exibidos os “presentes” recebidos dos devotos
incluindo muitas coisas feitas de marfim que são, com certeza, primos legítimos
dos “ex-votos” católicos. Eu jamais vi tantos budas - maravilhosos trabalhos de
arte budista em bronze, marfim, madeira e pedra – reunidos em um só lugar.
O lago se conecta com outros lagos através de canais estreitos e acaba
no mar e, na época colonial, os seus canais foram utilizados para o transporte
de mercadorias do porto até o centro da cidade. Ficamos tentados a alugar um
barco a remo ou a brincar de cisne nos pedalinhos mas terminamos optando pelo
Pettah Market que é real e vivo e autêntico bem ali defronte da velha Estação
de trens do Fort.
A entrada principal do mercado de Pettah é a Torre do Relógio de Khan,
no meio de uma rotunda. O mercado é dividido em diferentes seções: vestuário
masculino e feminino, objetos de couro, joias, relógios, etc. A maioria dos
seus vendedores é muçulmana, todos os preços têm que ser barganhados
furiosamente e todos os artigos de marca são falsos: relógios, sapatos, bolsas,
roupas, telefones celulares, brinquedos e eletrônicos (rsrs) Mas as frutas e as
especiarias para fazer curry e os tecidos são estupendos e as oportunidades de
belas fotos são infinitas.
Percorrer as ruas do bairro antigo de Pettah é uma verdadeira aventura
cheia de som, cheiros e pessoas, numa perfeita fusão das culturas cingalesa, tamil
e muçulmana. Homens de sarongues carregando de tudo, mulheres lindas que não me
atrevi a fotografar, produtos elétricos fora das portas da lojas e mesquitas
convivendo com os templos hindus.
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| fotografias Moacir Pimentel |
Entre outras coisas fiquei surpreso ao ver como os cingaleses estavam
comprando bilhetes de loteria. Nas ruas, nas estações de trem, em todos os
lugares, os homens estavam vendendo e comprando os bilhetes e eu não tenho
lembrança de ter visto nada parecido há décadas atrás. Outra agradável surpresa
foi ver como tudo estava limpo e as ruas pareciam impecáveis.
Sinceramente? O melhor de Sri Lanka está nas ruas: o seu povo nas suas
atividades cotidianas.
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| fotografias Moacir Pimentel |
Por isso fomos até a cidadezinha praiana de Mount Lavinia ao norte da
cidade – meia hora de tuk-tuk! - cujo nome parece ter sido uma homenagem a uma
dançarina europeia de nacionalidade indefinida, de nome Lavínia e de beleza
indescritível que foi contrabandeada para ilha secretamente por um apaixonado
governador britânico.
Sucede que em 1980 eu me hospedara na aldeia de Mount Lavinia porque lá
as pousadas eram bem melhores e mais baratas do que as de em Colombo e fui tão
bem recebido pela família cingalesa que me hospedou que desejava os
reencontrar. Percorremos a cidadezinha mas as referências que eu tinha da casa
já não estavam mais lá e os nomes dos meus hospedeiros eu esquecera.
Desapontados terminamos virando alguns litros da excelente cerveja nativa – a
Lion! - e jantando à beira-mar apreciando os casais se divertindo nas ondas à
medida que o sol se punha - alguns casta e totalmente vestidos! (rsrs)
Apesar da visão matizada do mundo adquirida por aquele rapaz mochileiro
que fui, apesar de tentar manter aberta a mente para encontrar o melhor em cada
lugar que visito, havia algumas novidades com as quais tivemos que lidar. Tudo
bem que o país estava em meio a profundas mudanças recuperando-se
silenciosamente de uma guerra civil que teria causado a morte e/ou
“desaparecido” mais de cem mil pessoas e, como se não bastassem os conflitos,
fora atingido pelo tsunami em 2004.
Mas na área de Colombo, em meio a seus edifícios modernosos e coloniais,
eu não me recordava de tantas favelas de casas construídas com uma mistura de
palha, tábuas de madeira e chapas de metal e lonas, ao longo das vias férreas e
rodoviárias, das praias e dos rios e canais.
Porém cada comunidade tem uma boa escola pública para chamar de sua, um
lugar de culto e as tais lojinhas onde as pessoas podem comprar as necessidades
diárias, bem como fofocar que, juntamente com o críquete me parece ser o
esporte nacional.
Em Sri Lanka, nas décadas em que estive ausente, a educação passara a
ser altamente valorizada e encorajada. Uma das cenas mais comuns na ilha é
aquela de grupos de estudantes, os meninos bem penteados e as garotas
sorridentes com suas tranças grossas e negras caindo nas costas. Todos vestidos
com uniformes imaculadamente brancos, circulando pelas ruas e acenando bem
humorados para os turistas estrangeiros.
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| fotografia Moacir Pimentel |
A frequência escolar é obrigatória até os quatorze anos, embora as
crianças frequentem a escola normalmente até a conclusão do secundário. Todos
os pais se esforçam para colocar seus filhos nas universidades que são
gratuitas e patrocinadas pelo governo e onde a admissão é determinada, como
aqui, por exames e não por currículo.
O desemprego após a graduação é alto para esses estudantes, refletindo
uma disjunção entre as necessidades do mercado e a educação universitária.
Também por lá, como aqui, há advogados no volante dos tuk-tuks. Aqueles que
frequentam as escolas técnicas/profissionais e que dominam o inglês se colocam
no mercado de trabalho com mais facilidade.
O que mais gostamos quando viajamos é justamente interagir com as
pessoas e ao chegar à ilha em 2009 eu percebi de cara que as mulheres de lá,
antes discretíssimas, tinham mudado. Eu lembrava delas ou andando sozinhas
pelas calçadas se protegendo do sol sob seus guarda-chuvas ou caminhando atrás
dos maridos.
Aliás, já que estamos falando de guarda-chuvas, uma cena impossível de
ser vista “antigamente” tornara-se banal: casais se beijando debaixo deles!!
Surpreendentemente, os parques estavam lotados de jovens casais sentados à
beira das árvores ou do mar brincando com os cabelos um do outro e se beijando
apaixonadamente.
Fascinante, considerando que Sri Lanka continua sendo um país muito
conservador. Um país onde as damas nas cidades, ainda usam o sari - que eu acho
tão bonito! - ou saias e calças longas e largas batas e se banham no mar
vestidas - nunca de maiô ou biquíni.
Eu tive poucas oportunidades de interagir com as mulheres nativas nos
meus tempos de mochileiro exceto pelas sorridentes donas das pousadas onde me
hospedava, cujo inglês era geralmente muito limitado e que pareciam viver –
perfeitamente contentes! - à sombra dos maridos.
A mulher cingalesa moderna ocupa cargos importantes em bancos, hotéis,
companhias aéreas, lojas etc. Muitas delas têm formação universitária e inglês
perfeito aprimorado no exterior. Mas há principalmente, uma mudança de atitude.
Elas não hesitam em sorrir e se aproximar para, por exemplo, fornecer as
direções se, ao descer de ônibus, um turista lhes parecer desorientado sem ter
certeza de para onde deve ir. Isso era impensável há décadas atrás. Hoje todas
elas querem, da mesma forma que fazem seus homens, “praticar o inglês”.
Por outro lado, os machões estão muito incomodados com a alteração no
nível da submissão feminina local (rsrs) Conhecemos um casal de franceses, bem
jovens, que estava viajando pelo país dirigindo um tuk-tuk, se revezando no
volante. Comentaram conosco sobre as reações dos homens diante da visão da bela
e loura motorista: além de alguns polegares para baixo e muitas cabeças
parecendo dizer sim ao dizer não, vários nativos perguntaram ao marido na lata
por que ele deixava sua esposa dirigir e verbalizaram veemente sua
desaprovação. Já os demais motoristas não davam à moça qualquer chance de
ultrapassagem. O fato é que uma mulher dirigindo um tuk-tuk na moderna Sri
Lanka não deixa ninguém indiferente.(rsrs)
As novidades quanto ao comportamento dos gêneros foram boas novas uma
vez que país nenhum nesse mundão de Deus conseguirá se desenvolver mantendo
longe da educação e do mercado de trabalho metade da sua população. Foi bom
almoçar no Pagoda Tea Room – o restaurante mais antigo da cidade onde a banda
Duran Duran gravou o seu mais famoso clip! – e ver mesas e mesas ocupadas por
jovens executivas comendo alegremente o seu arroz com curry e dando à minha
esposa “dicas” sobre a melhor música ao vivo da cidade e, é claro, sobre
“shopping” como tecidos feitos à mão, papéis feitos a partir da caca dos
elefantes (?!) óleos rejuvenescedores e por aí vai.
Graçasadeus que do Pagoda saímos sem escalas para pegar a estrada com
destino ao sul.
Mas essa já será outra conversa!