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06/12/2018

As Receitas do Sri Lanka

Caril (curry) de jaca - fotografia de Maria João Proença (www.jolandblog.com)


Antonio Rocha
Peço licença ao Moacir Pimentel que está iniciando uma série de artigos sobre a “Pérola do Índico”, que vem a ser a Ilha do Ceilão.
Desde 1970, quando fui iniciado no Budismo, foi a partir de monges desse país que estavam no Rio de passagem e então firmamos uma grande amizade.
A vivência de Pimentel é fruto de suas passagens, viagens, andarilho e andagens por lá.
Eu me limito a contatos pessoais com amigos e amigas que estiveram lá e me contam suas histórias. E também pesquisas literárias.
O artigo do Moacir me fez lembrar que eu guardo até hoje o folheto “Receitas do Ceilão”, publicado em 1970, pela embaixada do Ceilão. No final tem um “posfácio”:
“Este livrinho contém apenas uma pequena mostra da muito variada cozinha cingalesa. Esperamos que o emprego dessas receitas proporcione o mesmo prazer que tivemos em sua carinhosa preparação. Acima de tudo, esperamos que vocês concordem conosco que são incomparáveis quanto ao seu sabor e originalidade.
Esta coleção foi compilada pela Srta. Alagi Muthucumaros, do Ceylon Hotel School, em Colombo”.
Recentemente li online que alguns restaurantes cariocas vegetarianos e veganos estão fazendo um prato que vem do Sri Lanka, jaca desfiada: é jaca verde, temperada, cozida e fica parecendo frango, tem sabor parecido a “galinha”.
No templo budista de Santa Teresa, RJ, onde morei cinco anos, os vários monges que passaram por lá e uma pequena colônia de imigrantes do Sri Lanka que moravam no Rio, preparavam com freqüência este e outros deliciosos pratos.
Outra dica, um dia terminamos de almoçar e eu vi um monge cingalês pegar algumas folhas de um pé de mangueira e ficou mascando-as como se fosse chiclete, então eu perguntei para que serve aquilo que ele esta fazendo;
- Serve de creme dental, eu tenho cinquenta anos e nunca fui ao dentista, veja não tenho cáries.
Então abriu a boca e eu examinei a arcada dentária. De fato não tinha cáries e explicou:
- Este líquido verde das folhas é um excelente dentifrício. Inibe possíveis bactérias e mantém os dentes saudáveis.
Mas este parênteses não está no citado livro, faz parte da sobrevivência dos monges na floresta.
O folheto citado tem receitas naturalistas, mas também tem pratos com carne, frango, ovos e peixes. Como disse um amigo que morou lá durante cinco anos e se ordenou monge:
- A indústria do pescado é forte na região. Lembre que o Sri Lanka é uma ilha e portanto a pesca faz parte da economia do país.
Na Eco 92 uma comitiva do governo Srilankês esteve no Rio e assim provamos mais deliciosos pratos de sua cozinha, ao visitarem o então Templo, que hoje não existe mais, devido a violência que assolou o local.
Foi um monge do Sri Lanka que batizou minha filha no budismo, quando tinha doze anos, por escolha e vontade dela. Esse mesmo monge fez o casamento  dela aos vinte e quatro.
O sobrenome Perera é comum no Sri Lanka, isto justifica-se porque os portugueses colonizaram por lá um pouco. E um dos meus sobrenomes é Pereira. Deste modo e de outros me sinto ligado a esse país.
Parabéns Pimentel pelos artigos sobre o Sri Lanka!


02/12/2018

Colombo

fotografia Moacir Pimentel



Moacir Pimentel
Chegamos ao aeroporto internacional de Colombo - depois de vinte e seis anos de ausência- nas primeiras horas de uma bela manhã, depois de um voo de quatro horas desde Dubai. Devo confessar que a capital de Sri Lanka, na costa oeste da ilha, me parece uma mistura mal combinada da antiga Bombaim e de Hanói e não é absolutamente um dos meus lugares favoritos nesse mundo.
A Ilha Abençoada é um país tão rico de atividades e tesouros ao ar livre que muitas vezes os seus visitantes deixam completamente de fora do roteiro a sua capital, escolhendo em vez passar seus dias de férias nas praias do sul ou nos parques nacionais.
No entanto, Colombo é a maior cidade da ilha – tem uma população de aproximadamente meio milhão de habitantes – e de sê-lo nos oferece a visão do melhor e do pior do país e, em 2009, era, como ainda é, o lugar perfeito para sabermos para onde a ilha estava indo depois de tantos anos tumultuados por uma guerra civil fratricida recém terminada.
A metrópole estava muito diferente da cidade que eu conhecera tantos anos atrás, mais moderna e vibrante, mais cosmopolita e demonstrando um otimismo cauteloso. Temos o costume de ao chegar a uma cidade simplesmente passear por ela sem destino naqueles ônibus de dois andares dos quais se pode tanto subir como descer quando se quer em paradas pré-determinadas. É uma boa maneira de se situar geograficamente, de verificar as novidades e de fotografar com uma perspectiva alta (rsrs) Como inexistiam tais busões panorâmicos em Colombo o jeito foi usar os tuk-tuks.
Eu tinha esquecido o quanto a cidade pode ser quente, mas quando o calor estava prestes a nos derrubar eis que, como antigamente, ainda aparecia um garoto montado em uma bicicleta transformada em carroça de sorvete, com delícias refrescantes e geladas para nos salvar! É muito cansativo andar por Colombo sob o sol inclemente e os tuk-tuks são realmente uma benção. Fáceis de encontrar e, de longe, o mais prático e divertido meio de transporte para os nativos e turistas. Acabamos adotando um tuk-tuk e passamos dias muito agradáveis na cidade que, no entanto, mais uma vez não nos conquistou.
Na primeira noite em Colombo perambulamos por Galle Face Green, o cartão postal da cidade e nela o meu espaço favorito. Trata-se do calçadão de Colombo ao lado da praia estreita só que gramado. Um lugar agradável e pacífico, perfeito para caminhar, correr, jogar futebol, soltar pipa e assistir aos onipresentes jogos de críquete e contemplar o pôr-do-sol.
fotografia Moacir Pimentel

Os colonizadores transformaram Colombo no coração da ilha, no centro administrativo e comercial do país por ter um dos mais importantes portos do Oceano Índico. Mas da cidade as memórias mais vívidas que eu guardava nada tinham a ver com a pujança econômica.
Naqueles vinte e seis anos quando eu recordava a cidade me vinham à mente, em vez, o colorido do seu templo hindu, o cheiro de curry e leite de coco no ar, a cacofonia de suas ruas e o gosto de maresia nesse magnífico parque popular na avenida marginal chamada de Galle Face Avenue, onde moravam os hoteis de luxo de então.
Era bom no final dos dias sentar naquelas imediações para bebericar alguma coisa e observar a vida. Lembro que num distante mês de agosto, durante o Ramadã, vi os muçulmanos se reunindo na grama, desempacotando piqueniques, esperando o sol se pôr para começar a fazer festa. As crianças soltavam pipas, os vendedores ambulantes vendiam guloseimas, os namorados passeavam de braços dados, respeitosamente, ao longo da praia. As ondas do mar se chocavam na parede de concreto criando um pano de fundo dramático. E ali sentado de frente para o oceano eu podia enxergar um lado diferente da cidade e apreciar a rica diversidade do seu povo.
Dizem que em 1859, quando foi inaugurado, o parque era uma pista de corrida de cavalos e, em seguida, um campo de golfe onde os poderosos davam as suas tacadas coloniais e as damas suspiravam por eles na varanda do venerável Hotel Galle Face que ainda mora em uma das extremidades do verde tapete.
O hotel foi construído pelos britânicos em 1864 e várias fotografias no bar ainda dão testemunho que suas suites vitorianas acolheram uma coleção variada de convidados, incluindo Richard Nixon, a Rainha Elizabeth, Indira Gandhi, Yuri Gagarin e Arthur C. Clarke que – diz Dona Lenda - escreveu os capítulos finais da sua “3001: A Odisséia Final” também na badalada varanda. O certo é que ela oferece algumas das melhores vistas da cidade à medida que o sol se afunda no oceano por volta das oito da noite.
fotografias Moacir Pimentel


Mas para quê beliscar iguarias europeias regadas pelo chá do Ceilão se bem ali ao longo do passeio a mais legítima e excelente e deliciosa comida de rua nos acena regada por um café decente? Sim, café! A ilha já foi o maior produtor de café do mundo pois foi só depois que o ferrão atingiu as famosas plantações que os britânicos passaram a plantar chá. Ainda hoje o café é cultivado naquelas paragens e os grãos nativos são torrados e moídos artesanalmente à perfeição.
Galle Face é justificadamente famosa por sua comida de rua e entre as muitas barraquinhas à beira mar se destaca pelas filas de clientes cativos e pela qualidade dos quitutes à base de frutos do mar uma barraca de nome Nana's que desde os anos setenta, do entardecer até as primeiras horas da madrugada, prepara kottus picantes de frutos do mar servidos sobre mesas de plástico também defronte ao mar e com uma gentileza que compensa a falta das amenidades cinco estrelas.
Também são dignas de elogios outras barracas gastronômicas especializadas em frangos grelhados inspirados nos de tandoori, em uns bolinhos de grão-de-bico - os vadai! - recheados de camarão e/ou caranguejo servidos com cebolas picadas e molho picante.
Como a brisa é contínua e o gramado espaçoso, nas primeiras horas da noite enquanto o sol vai se pondo o céu acima de Galle Face é povoado por centenas de dragões, cobras, borboletas e aves coloridos e estranhos. Viva o espetáculo das pipas de Galle!
Numa cidade onde os espaços públicos são raros, o Galle Face Green é o seu pulmão e foi com alegria que constatei que o “Verde” – como é carinhosamente chamado pelos de casa - continuava a ser a “mesma praça” da minha juventude onde as famílias de todas as religiões, grupos étnicos e classes sociais ainda relaxavam nas happy hours notadamente dos finais de semana.
Caminhando ao longo do passeio, no terceiro milênio, vimos centenas de turistas, jovens praticando artes marciais, mulheres muçulmanas vestidas com burcas pretas entrando na água, ambulantes vendendo de um tudo, um burro marrom cansado de guerra levando crianças no lombo, homens idosos muito desalinhados jogando críquete e - pense no inimaginável nos anos oitenta - casais se beijando em público!! Um lugar perfeito para a gente se despedir do imenso calor do dia.
Os funcionários do nosso hotel nos contaram que durante a guerra uma grande parte do “Verde” fora fechada e que a segurança fora incrementada no resto do gramado restringindo o acesso e desencorajando os visitantes. Segundo tais relatos, por longos anos a área se tornara um parque fantasma que muitas vezes parecia ter mais soldados do que visitantes.
Embora algum arame farpado ainda pudesse ser visto aqui e ali e a polícia e os soldados ainda patrulhassem a área, em 2009 o Galle Face Green já estava aberto ao seu público cativo de famílias, crianças, amantes, viciados em exercício físico, caminhantes e corredores e vendedores de comida, todos aproveitando a sua nova liberdade de movimento. Naquele gramado todos os cingaleses, tamils e muçulmanos, nativos e estrangeiros, homens e mulheres, ricos e pobres, jovens e velhos pareciam felizes apenas por ter acesso a algo que lhes fora proibido por muito tempo. Para eles, o parque reaberto significava que a guerra acabara e que a vida seguia adiante.
Alguns dos mais interessantes recantos de Colombo moram perto do mar como a velha estação de trem, a zona financeira conhecida como “Fort” com alguns belos edifícios coloniais. A cidade divide com outra de nome Kotte o título de capital de Sri Lanka pois os poderes Executivo e Judiciário moram em Colombo, enquanto o poder Legislativo reside em Kotte.
Mas, tirando Galle Face, quais são as outras faces mais icônicas de Colombo? Bem, as belas construções coloniais em todo o centro da cidade que remontam aos tempos dos holandeses e dos britânicos merecem destaque. O rosto holandês é o Velho Hospital Holandês do século XVII, todo revitalizado e bonitão, de paredes grossas e telhados vermelhos, convertido em uma bela moldura para cafés e restaurantes e lojas de arte espalhadas por seus pátios. Foi bom almoçar caranguejos frescos de alta estirpe em variações de alho e chilli e manteiga e pimenta depois depois de todos aqueles anos e de muitíssimas em cima de um sacolejante tul-tuk pelas ruas barulhentas.

Digno de nota é ainda o Museu Nacional que conta toda a história da ilha e é rodeado por pátios e varandas tranquilos e, last but not least, o Memorial da Independência - um edifício de pedra cercado por jardins onde mora imponente a estátua do “Pai da Nação”, o primeiro presidente de Sri Lanka.
fotografias Moacir Pimentel

Também mereceu-nos uma rápida visita a "Ilha dos Escravos" assim chamada pelos britânicos em referência aos descendentes dos escravos dos portugueses, a maioria deles negros trazidos das então colônias portuguesas da África, que por lá moravam. Um pequeno grupo de seus descendentes permaneceram e se espalharam por Sri Lanka e são conhecidos como kaffirs cingaleses.
Slave Island é uma área comercial ao sul do Fort, famosa por causa do Lago Beira – de nome português com certeza! -, do templo budista Gangaramaya e do seu belíssimo pavilhão Seema Malaka construído sob medida para a meditação em uma pequena ilha bem no centro do lago. Ele foi desenhado por Geoffrey Bawa, o arquiteto mais conhecido do Sri Lanka, famoso por projetos de estilo “modernista tropical” – e, pasme! - construído graças às doações feitas por um... muçulmano.
O templo, uma construção elegante de madeira e pedra - com um excesso de estátuas do Senhor Buda! - é um refúgio pacífico longe das animadas canções pop indianas que explodem os nossos tímpanos saindo de dentro dos ônibus. Uma abundância de pelicanos e de cegonhas escolheram o lago como lar e é comum ver uns lagartos enormes por lá monitorando a paisagem.
Colombo é predominantemente budista – entre setenta e oitenta por cento da população – e existem muitos templos com pagodes brancos em todos os lugares da cidade. As noites de lua cheia, por exemplo, nos meus tempos lowcost pareciam ser feriados públicos devido às multidões de budistas que se vestiam de branco para ir aos templos.
Nas três visitas que fiz ao país não saberia dizer por quantos templos passei, mas devo confessar que é palpável a forte vibração espiritual desses lugares onde sempre há uma bela árvore de "bodhi" – Buda teria atingido a “Iluminação” sob a sombra de uma delas - em um local de destaque. As pessoas geralmente caminham em torno dela com um pequeno pote cheio de água nas mãos. Um pouco d’agua é vertida a cada volta e, ao fim e o cabo, a água restante é colocada em um local específico para regar e alimentar a árvore com os desejos de todas as pessoas que estavam ali orando.
Não cheguei a fazer o bonito ritual mas pelo menos aprendi que se deve caminhar em torno das stupas ou das árvores no sentido horário. O oposto – não me pergunte porquê – é grave falta de boas maneiras.
fotografias Moacir Pimentel


O Templo de Gangaramaya é formado por vários edifícios alguns dos quais são francamente muito estranhos. Mas identifiquei, por exemplo, uma biblioteca, um museu e uma sala onde são exibidos os “presentes” recebidos dos devotos incluindo muitas coisas feitas de marfim que são, com certeza, primos legítimos dos “ex-votos” católicos. Eu jamais vi tantos budas - maravilhosos trabalhos de arte budista em bronze, marfim, madeira e pedra – reunidos em um só lugar.
O lago se conecta com outros lagos através de canais estreitos e acaba no mar e, na época colonial, os seus canais foram utilizados para o transporte de mercadorias do porto até o centro da cidade. Ficamos tentados a alugar um barco a remo ou a brincar de cisne nos pedalinhos mas terminamos optando pelo Pettah Market que é real e vivo e autêntico bem ali defronte da velha Estação de trens do Fort.
A entrada principal do mercado de Pettah é a Torre do Relógio de Khan, no meio de uma rotunda. O mercado é dividido em diferentes seções: vestuário masculino e feminino, objetos de couro, joias, relógios, etc. A maioria dos seus vendedores é muçulmana, todos os preços têm que ser barganhados furiosamente e todos os artigos de marca são falsos: relógios, sapatos, bolsas, roupas, telefones celulares, brinquedos e eletrônicos (rsrs) Mas as frutas e as especiarias para fazer curry e os tecidos são estupendos e as oportunidades de belas fotos são infinitas.
Percorrer as ruas do bairro antigo de Pettah é uma verdadeira aventura cheia de som, cheiros e pessoas, numa perfeita fusão das culturas cingalesa, tamil e muçulmana. Homens de sarongues carregando de tudo, mulheres lindas que não me atrevi a fotografar, produtos elétricos fora das portas da lojas e mesquitas convivendo com os templos hindus.
fotografias Moacir Pimentel


Entre outras coisas fiquei surpreso ao ver como os cingaleses estavam comprando bilhetes de loteria. Nas ruas, nas estações de trem, em todos os lugares, os homens estavam vendendo e comprando os bilhetes e eu não tenho lembrança de ter visto nada parecido há décadas atrás. Outra agradável surpresa foi ver como tudo estava limpo e as ruas pareciam impecáveis.
Sinceramente? O melhor de Sri Lanka está nas ruas: o seu povo nas suas atividades cotidianas.
fotografias Moacir Pimentel


Por isso fomos até a cidadezinha praiana de Mount Lavinia ao norte da cidade – meia hora de tuk-tuk! - cujo nome parece ter sido uma homenagem a uma dançarina europeia de nacionalidade indefinida, de nome Lavínia e de beleza indescritível que foi contrabandeada para ilha secretamente por um apaixonado governador britânico.
Sucede que em 1980 eu me hospedara na aldeia de Mount Lavinia porque lá as pousadas eram bem melhores e mais baratas do que as de em Colombo e fui tão bem recebido pela família cingalesa que me hospedou que desejava os reencontrar. Percorremos a cidadezinha mas as referências que eu tinha da casa já não estavam mais lá e os nomes dos meus hospedeiros eu esquecera. Desapontados terminamos virando alguns litros da excelente cerveja nativa – a Lion! - e jantando à beira-mar apreciando os casais se divertindo nas ondas à medida que o sol se punha - alguns casta e totalmente vestidos! (rsrs)
Apesar da visão matizada do mundo adquirida por aquele rapaz mochileiro que fui, apesar de tentar manter aberta a mente para encontrar o melhor em cada lugar que visito, havia algumas novidades com as quais tivemos que lidar. Tudo bem que o país estava em meio a profundas mudanças recuperando-se silenciosamente de uma guerra civil que teria causado a morte e/ou “desaparecido” mais de cem mil pessoas e, como se não bastassem os conflitos, fora atingido pelo tsunami em 2004.
Mas na área de Colombo, em meio a seus edifícios modernosos e coloniais, eu não me recordava de tantas favelas de casas construídas com uma mistura de palha, tábuas de madeira e chapas de metal e lonas, ao longo das vias férreas e rodoviárias, das praias e dos rios e canais.
Porém cada comunidade tem uma boa escola pública para chamar de sua, um lugar de culto e as tais lojinhas onde as pessoas podem comprar as necessidades diárias, bem como fofocar que, juntamente com o críquete me parece ser o esporte nacional.
Em Sri Lanka, nas décadas em que estive ausente, a educação passara a ser altamente valorizada e encorajada. Uma das cenas mais comuns na ilha é aquela de grupos de estudantes, os meninos bem penteados e as garotas sorridentes com suas tranças grossas e negras caindo nas costas. Todos vestidos com uniformes imaculadamente brancos, circulando pelas ruas e acenando bem humorados para os turistas estrangeiros.
fotografia Moacir Pimentel


A frequência escolar é obrigatória até os quatorze anos, embora as crianças frequentem a escola normalmente até a conclusão do secundário. Todos os pais se esforçam para colocar seus filhos nas universidades que são gratuitas e patrocinadas pelo governo e onde a admissão é determinada, como aqui, por exames e não por currículo.
O desemprego após a graduação é alto para esses estudantes, refletindo uma disjunção entre as necessidades do mercado e a educação universitária. Também por lá, como aqui, há advogados no volante dos tuk-tuks. Aqueles que frequentam as escolas técnicas/profissionais e que dominam o inglês se colocam no mercado de trabalho com mais facilidade.
O que mais gostamos quando viajamos é justamente interagir com as pessoas e ao chegar à ilha em 2009 eu percebi de cara que as mulheres de lá, antes discretíssimas, tinham mudado. Eu lembrava delas ou andando sozinhas pelas calçadas se protegendo do sol sob seus guarda-chuvas ou caminhando atrás dos maridos.
Aliás, já que estamos falando de guarda-chuvas, uma cena impossível de ser vista “antigamente” tornara-se banal: casais se beijando debaixo deles!! Surpreendentemente, os parques estavam lotados de jovens casais sentados à beira das árvores ou do mar brincando com os cabelos um do outro e se beijando apaixonadamente.
Fascinante, considerando que Sri Lanka continua sendo um país muito conservador. Um país onde as damas nas cidades, ainda usam o sari - que eu acho tão bonito! - ou saias e calças longas e largas batas e se banham no mar vestidas - nunca de maiô ou biquíni.
Eu tive poucas oportunidades de interagir com as mulheres nativas nos meus tempos de mochileiro exceto pelas sorridentes donas das pousadas onde me hospedava, cujo inglês era geralmente muito limitado e que pareciam viver – perfeitamente contentes! - à sombra dos maridos.
A mulher cingalesa moderna ocupa cargos importantes em bancos, hotéis, companhias aéreas, lojas etc. Muitas delas têm formação universitária e inglês perfeito aprimorado no exterior. Mas há principalmente, uma mudança de atitude. Elas não hesitam em sorrir e se aproximar para, por exemplo, fornecer as direções se, ao descer de ônibus, um turista lhes parecer desorientado sem ter certeza de para onde deve ir. Isso era impensável há décadas atrás. Hoje todas elas querem, da mesma forma que fazem seus homens, “praticar o inglês”.
Por outro lado, os machões estão muito incomodados com a alteração no nível da submissão feminina local (rsrs) Conhecemos um casal de franceses, bem jovens, que estava viajando pelo país dirigindo um tuk-tuk, se revezando no volante. Comentaram conosco sobre as reações dos homens diante da visão da bela e loura motorista: além de alguns polegares para baixo e muitas cabeças parecendo dizer sim ao dizer não, vários nativos perguntaram ao marido na lata por que ele deixava sua esposa dirigir e verbalizaram veemente sua desaprovação. Já os demais motoristas não davam à moça qualquer chance de ultrapassagem. O fato é que uma mulher dirigindo um tuk-tuk na moderna Sri Lanka não deixa ninguém indiferente.(rsrs)
As novidades quanto ao comportamento dos gêneros foram boas novas uma vez que país nenhum nesse mundão de Deus conseguirá se desenvolver mantendo longe da educação e do mercado de trabalho metade da sua população. Foi bom almoçar no Pagoda Tea Room – o restaurante mais antigo da cidade onde a banda Duran Duran gravou o seu mais famoso clip! – e ver mesas e mesas ocupadas por jovens executivas comendo alegremente o seu arroz com curry e dando à minha esposa “dicas” sobre a melhor música ao vivo da cidade e, é claro, sobre “shopping” como tecidos feitos à mão, papéis feitos a partir da caca dos elefantes (?!) óleos rejuvenescedores e por aí vai.
Graçasadeus que do Pagoda saímos sem escalas para pegar a estrada com destino ao sul.
Mas essa já será outra conversa!


29/11/2018

O menino

Jackie Coogan no filme "O Garoto"  de Charles Chaplin (imagem Chaplin Productions)

Heraldo Palmeira
Saí da garagem do prédio do escritório e tomei o asfalto. Para variar, o trânsito estava ruim, como todos os dias. Paciência! Era melhor não ter pressa, para poder chegar em paz em casa. Segui naquele cortejo que encurrala a vida. Não havia o que fazer além de ligar o rádio do carro.
Fiquei pensando que nunca me separei do menino que vive em mim desde a infância. Tenho com ele uma convivência pacífica. Evito que sua inocência sofra com as dores da vida adulta, para que não perca a pureza de que precisamos lançar mão em alguns momentos. E sempre fico a sós com ele se preciso de ajuda, porque fala coisas que não sei dizer, enxerga saídas que não encontro.
Talvez seja difícil acreditar, mas é esse menino interior que me ajuda a manter a serenidade e a firmeza em situações incomuns. Talvez por que ele seja um sonhador, um sujeitinho de bem com a vida que deu de enxergar sempre um passo adiante. E cada vez mais confio nele, inclusive meus segredos – até aqueles que eu gostaria de esquecer.
Havia uma multidão diante da matriz da minha cidadezinha. Era festa da padroeira, missa campal de encerramento, gente vinda de várias cidades, das redondezas e mais alhures - tem quem calcule vinte mil pessoas todos os anos, naquele dia.
De repente, um menino raquítico, assustado rompeu a área reservada, subiu em desespero a escadaria central do átrio, chorando aos gritos e foi direto na direção do bispo que presidia a celebração. Mas driblou o sacerdote e seus auxiliares, e seguiu para dentro da matriz vazia.
Agi por impulso e fui atrás. Ele procurava a mãe. Descalço, sujo, cansado, apavorado. Estendi os braços e ele veio sem titubear.
Comecei a falar baixinho no ouvido dele, palavras de acalmar. Foi se deixando aceitar naquela nova situação, só queria amparo. Eu, homenzarrão, querendo chorar minha paternidade revivida naquela criaturinha. E ele me apertava com carinho, confiante, seguro. Passo seguinte, deitou a cabecinha no meu ombro, entregue, calmo.
Saímos da matriz assim, direto no altar solene daquela festa. Percebi que todos os olhares nos acompanharam, enquanto fomos para a lateral conversando ao pé do ouvido. De imediato, principalmente as mulheres me cercaram prontas para ajudar – o sentido de maternidade é algo fantástico!
Todos tentávamos arrancar do menino alguma informação que pudesse nos ajudar a encontrar seus familiares. E ele permanecia agarrado ao meu pescoço recusando qualquer outro braço que se apresentou.
Um dos coroinhas me avisou que na base da escadaria central, diante do altar, havia uma moça se dizendo tia do menino. Lá fomos nós conversando, mas ele recusou os braços que ela estendeu. Disse baixinho no meu ouvido que não queria ir e pareceu sentir medo.
Fui tomado pelo dilema de entregar uma criança desconhecida a outra desconhecida. E voltamos para o ponto anterior, cercados pelas mulheres aflitas. Corria a missa e logo eu teria funções na liturgia, na hora de conduzir com a equipe o andor com a imagem da padroeira para dentro da matriz.
Começamos a cogitar chamar as autoridades, até que alguém deu uma pista, o menino era de uma família de moradores de um sítio perto da cidade. E a moça voltou, desta vez trazendo uns chinelos na mão. Eu perguntei ao menino se eram dele, confirmou balançando a cabeça. Desci-o para o chão, os calçados serviram perfeitamente, como revivendo o conto de Cinderela no masculino e em pleno sertão do Nordeste.
Ele já estava mais calmo, aceitou ir com a moça. Ela nos explicou quem era a mãe e todos nos lembramos de tê-la visto por ali, momentos antes de a celebração começar. Quando tudo parecia bem, chegou a hora de nos despedir. O menino ergueu os bracinhos, queria meu colo, recusava ir embora. Como não me curvei para pegá-lo, agarrou-se à minha perna, irredutível.
Tomei-o novamente nos braços, saímos do assédio das pessoas e conversamos um pouco. Falei palavras brandas – acho que ele nunca ouviu isso de nenhum homem da família, muito menos de alguém do meu tamanho, de uma voz grave. Parou de soluçar e prometeu que iria com a tia, mas combinamos nos reencontrar dali a um ano, novamente na festa da padroeira. Ele apenas concordava com movimentos de cabeça, incapaz de entender o hiato do tempo.
Voltei à realidade engarrafada pela fuligem dos automóveis quando o locutor anunciou três tempos dos Secos & Molhados, retirados daquele disco lendário com as cabeças servidas de bandeja na capa.
Leve, como leve pluma
Muito leve, leve pousa
Na simples e suave coisa
Suave coisa nenhuma
Que em mim amadurece
Não sei se o menino vai lembrar do nosso compromisso, mas estarei lá conforme combinado. E meu braço, envelhecido mais um ano, ainda parecerá firme para ele.
Andei mais um pouco quase sem sair do lugar, ilhado naquele mar de carros na região de hospitais e cemitérios, estranha e premonitória conexão da metrópole nos dois lados da grande avenida. Como se ao destino bastasse apenas atravessar a rua para estar finado. E as rosas já estavam ali mesmo, entupindo barracas, fingindo enfeitar o cortejo urbano.
Dois semáforos adiante, um rapazola magérrimo perambulava entre os carros. Tinha um sorriso e uma esperança incompatíveis com aquela realidade. Arrisquei abrir o vidro e assumi os riscos, e em pouco tempo ele desistiu de tentar outros carros. Ficamos conversando, meu corpo dividido entre o ar refrigerado vindo pelo lado direito e o calor poeirento entrando da rua pelo lado esquerdo.
Seguimos ele e eu, esforço mínimo sobre o asfalto. Passo a passo (para ele) e metro a metro (para mim) – o conforto do câmbio automático, apenas pisar e soltar levemente o pedal do freio. Um leve chuvisco, mas ele quis seguir, os respingos molhando seu corpo e o meu braço. Fiquei pensando se deveria convidá-lo a entrar para seguirmos a prosa, mas confesso que aquela foi uma das primeiras vezes que fiquei sem resposta para uma dúvida. Até o meu menino da infância se absteve de opinar.
O rapazola me disse que tinha sido expulso de casa quando resolveu assumir sua homossexualidade. O masculino do pai ameaçou de morte, o feminino da mãe esvaiu-se em pranto. Ela morreu pouco depois, ele acha que de desgosto pela separação forçada. Era filho único. Perdeu a escola cara. Caiu nas ruas. Sem destino, sem sentido. Sem medo porque não havia mais o que perder. Espaço vazio para qualquer temor.
O chuvisco parou. Eu tentei chorar apenas com o olho direito, para não ser visto em lágrimas. Pendi um pouco a cabeça para o lado direito, como se a lei da gravidade pudesse ajudar ali. Ele tentou com o esquerdo, pois caminhava lado a lado, com a mão posta sobre a porta do carro como quem sonha lançar âncora. Resolvemos liberar os olhos centrais, o meu esquerdo, o direito dele. Fazia mais sentido. Chorar pleno às vezes faz bem.
Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala
Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
Fala
Ouvimos a música em silêncio. “Eu adoro esses caras, eram de outro planeta” – ele disse ao fim, com autoridade. Apenas balancei a cabeça, concordando.
Eu ia dobrar à direita no próximo semáforo, na esquina final do cemitério, ficar livre daquele cortejo quase fúnebre. Dei a ele um dinheiro maior para ajudar, sem atribuir valor. Não tinha preço aqueles minutos em que dividimos o mesmo mundo. Nos despedimos ali, com um aperto de mão firme, prometendo outra conversa qualquer dia naquele engarrafamento eterno.
Fiquei olhando-o ir embora, cada vez menor no retrovisor. Acionei o vidro elétrico e fechei meu mundo novamente. Olhei aquele painel enorme, couro e madeira gritando que nada tem valor absoluto. Tudo tão claro, um desânimo, uma carga de interrogações.
É claro que eu não poderia ignorar minha história, mas gostaria de saber porque fui eu quem achou o caminho para estar dentro do carro e agora me sentir absolutamente incapaz de fazer algo melhor.
A avenida que tomei estava calma ladeira abaixo, poucos carros, sem ninguém nas calçadas escuras. Um mendigo juntava porcarias pelo chão, um cachorro lúdico abanava o rabo para ele. O encontro quase suicida de quem não tem para onde ir e faz da rua um destino, e acha os seus que não são de ninguém. E seguem porque o jeito é seguir. E seguimos pois não há outro jeito de escapar.
A voz do locutor avisou que os três tempos estavam chegando ao fim e anunciou a última música.
Pensem nas crianças mudas, telepáticas
Pensem nas meninas cegas, inexatas
Pensem nas mulheres, rotas alteradas
Pensem nas feridas como rosas cálidas
Mas, oh! Não se esqueçam da rosa, da rosa
Sem cor, sem perfume, sem rosa
Sem nada
Pensei no menino em meu colo seguro. Pensei no rapazola pouco mais que um menino que já não cabia nos meus braços inseguros. Pensei no mendigo e seu cachorro fuçando porcarias que talvez eu mesmo tenha jogado pela janela. Pensei em mim incapaz de fazer algo melhor do que dirigir, ouvir e calar. Sem coragem para desligar o ar-condicionado e abrir os vidros em busca de ar. Sem nada para dizer. Sem ninguém para me escutar. Sem rosa. Sem nada!
Comecei a contar os minutos para chegar em casa e ficar a sós com o meu menino da infância. Tínhamos muito o que conversar.

Trechos de:
Amor (João Apolinário-João Ricardo)
Fala (João Ricardo-Luli)
Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad-Vinícius de Moraes)


26/11/2018

A poesia

desenho de Norman Rockwell

Francisco Bendl
Eu sempre gostei de ir para a escola.
Mesmo tendo ingressado no Primário aos cinco anos – eu completaria seis somente em setembro -. nutri pelos estudos um certo gosto.
Fiz os três primeiros anos do Primário no Colégio Santo Antônio, dos Lassalistas;
O 4º ano e 5º no Colégio São Pedro, dos Maristas.
De Porto Alegre, rumamos para Brasília, onde fiz o Ginasial no Colégio Dom Bosco, dos padres salesianos, onde as minhas notas invariavelmente eram 10!
O colégio era excelente, com campos de futebol, piscina, uma biblioteca maravilhosa, e isso em plena década de sessenta!
Os padres-professores eram rígidos, e tínhamos Latim, Francês e Inglês!
Mas, uma das minhas maiores frustrações que tive no colégio, e no São Pedro, foi quando participei de um concurso de poesias.
O Irmão Elói, Regente de Classe, do 4º ano Primário, me chamou e disse que eu decorasse a famosa poesia de Casimiro de Abreu, Meus Oito Anos, pois eu iria representar a classe no concurso estipulado pelo colégio.
Eu tinha facilidade para decorar e, mais ainda, fazer os gestos que enfatizavam a narração poética.
A voz não era tão grossa como agora, mas firme, bem postada.
No dia do concurso estava frio. Vesti o meu melhor e mais bonito pulôver, calça de lã, sapatos engraxados, meias brancas, cabelos penteados, e fui confiante para o concurso.
Os participantes eram em dez, no total.
Fui o sexto na apresentação. E obtive muitos aplausos, inclusive com muitos dizendo que eu era o vencedor, o famoso “já ganhou, já ganhou”!
O resultado não demorou, após o último competidor apresentar o que lhe havia sido determinado.
Em contagem decrescente, o Irmão Diretor anunciava a colocação de cada um:
- Em décimo lugar.... em nono...
Ao anunciar o terceiro lugar, o meu nome foi pronunciado.
Algumas vaias modestas surgiram. Eu fiquei meio que decepcionado, mas o júri havia assim decidido, logo...
O meu prêmio fora um livro, intitulado Percy Winn, sobre as aventuras de um estudante em plena escola.
O troféu do vencedor era muito bonito, que o colega o carregou orgulhoso até o fim da aula, às 12:20h.
Ao terminar o concurso e o recreio, voltamos para as salas de aulas.
O Irmão Elói não entrou conosco, mas não se podia dizer um pio!
Cinco minutos depois, entra na sala, senta-se à mesa que ficava em um estribo, e diz:
- Chico, o resultado do concurso estava errado. Um dos jurados não teve a sua nota somada com os outros. A soma verdadeira aponta que foste o vencedor!
Bah!
Vou levar o troféu para casa; vou desfilar com ele nas ruas até chegar para o almoço; que orgulho...
Meus pensamentos gloriosos foram interrompidos.
O regente, meio sem graça, explicou que fui o vencedor moral, no entanto, o troféu uma vez dado ao suposto vencedor, que não era o culpado pelo erro, seguiria com ele!
Até hoje não sou lá muito adepto de poesia, em consequência.
Elas significam tristeza, frustração, decepção.
Querem dizer para mim que as perdas são inevitáveis, e que devemos aceitar da melhor maneira possível a derrota.
Fiquei meio amuado por alguns dias.
Fazer o quê?!
Vim a receber troféus na minha vida muito tempo depois, já casado e pai de filhos, quando venci por dois anos seguidos a disputa pelo melhor vendedor do ano.
Não foi tão fácil como recitar uma poesia, lógico, no entanto, os números jamais deixariam de dizer a verdade:
Eu era o vencedor, incontestavelmente, mas era outra situação.
Não mais poética, mas real, verdadeira, sem rimas e analogias.
Mas, a poesia que me entristecera, que me impedira de ter o meu primeiro prêmio e troféu, também prorrogou que eu concluísse o Científico – no caso o Ensino Médio, pois não mais havia mais esta denominação -, aos SESSENTA ANOS!!!
Meus Oito Anos não me dariam mesmo o troféu tão desejado.
A saudade da aurora da minha vida iria se confundir com o acaso da minha existência.
A minha infância querida fora substituída pela velhice, uma fase que, entre mim e ela, surgem vários problemas a cada dia!
Os belos dias que despontaram a minha existência, hoje são sombrios, nublados, cinzentos.
Fez-se justiça com a minha derrota, pois eu não saberia, aos 69 anos, dar o devido valor aos meus oito anos, pois um período como os outros, sem vitórias, sem troféus, sem reconhecimentos.
A menos que, viver desta forma, a compensação ou a vitória seja a resistência, a vontade férrea de vencer, a determinação de manter o casamento, a felicidade obtida com o nascimento dos filhos e a graça divina poder sustentá-los, educá-los e formá-los!
Os louros desta glória invisível, os netos, amados!
Mas bem que eu gostaria de ter ganho aquela Taça!!!