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21/06/2021

A rota do tempo

 

Dennis Hopper e Peter Fonda em "Easy Rider" (fotografia Pilotguides.com)

Heraldo Palmeira

Um ícone vai sendo formado pelas histórias que se repetem ao longo do tempo. Quando se percebe, virou retrato de identidade de mais e mais pessoas.

A estrada foi inaugurada em 1926, dentro do plano nacional de autoestradas do governo dos Estados Unidos. Com cerca de quatro mil quilômetros, era parte de um conjunto de noventa e seis rodovias destinadas a facilitar a mobilidade dos norte-americanos para todos os pontos do país. Os trajetos Norte-Sul receberam números ímpares; os Leste-Oeste, pares.

Do ponto inicial em Chicago até o ponto final no famoso píer da praia de Santa Mônica, cruzava quase duzentas cidades espalhadas por oito estados (Illinois, Missouri, Kansas, Oklahoma, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia). Um trajeto de mais de cinquenta horas no asfalto, enfrentando múltiplas paisagens, temperaturas, áreas inóspitas e sensações únicas. Em determinados pontos, ganhou tal importância que algumas cidades foram se formando ao redor e o asfalto virou área urbana. Há alguns anos o trajeto final foi estendido até o Sunset Boulevard, em Los Angeles.

Nas primeiras décadas serviu de rota para aventureiros ou gente que buscava melhores condições de vida na já famosa Costa Oeste. Também era um caminho novo por onde os jovens pioneiros iam se livrando dos costumes conservadores da Costa Leste, até sentir o vento marinho das praias do Pacífico na ensolarada e liberal Califórnia. Na verdade, todos queriam encontrar os próprios destinos que haviam projetado.

A estrada era um cenário de novidades. Estavam nela o Eagle, primeiro motel da história. A primeira lanchonete McDonald’s. O Joey Cafe oferecendo combustível, comida e local e hospedagem. O MidPoint Cafe indicando o ponto exato do meio da viagem. O pequeno 66 Motel, que funciona desde a década de 1940 e ostenta uma das placas de néon mais famosas do trajeto. O Cadillac Ranch com seus dez carros semienterrados na areia, mostrando a evolução do modelo de 1949 a 1963. Sem contar o parque Joshua Tree, onde o corpo do músico Gram Parsons foi cremado numa cena espetacular, depois que seu amigo Phil Kaufman roubou o corpo do criador do country rock – já estava no aeroporto, pronto para ser trasladado até a Flórida para as cerimônias fúnebres.

Na verdade, Kaufman apenas atendeu a um pedido do cantor e compositor porque, certa feita, ele havia dito que quando morresse não gostaria de ser enterrado, desejava que seu corpo fosse cremado naquele ponto do deserto.

Em razão da relativa proximidade geográfica com a estrada, a cidade de Las Vegas e o Grand Canyon terminaram somados às atrações originais do trajeto.

Desde que jogou suas câmeras sobre a Rota 66, o cinema iniciou o processo de construção do mito. As vinhas da ira, filme clássico de 1940 do lendário diretor John Ford, mostra a saga de uma família de agricultores obrigada a abandonar a fazenda onde vivia. Eles partem de Oklahoma e tomam a estrada para buscar uma prosperidade que idealizaram como redentora na Califórnia, sob a liderança do filho Tom, que acabara de sair da prisão e estava em liberdade condicional.

Repetiram outras tantas famílias que tomaram a estrada durante a Grande Depressão para deixar a região denominada Dust Bowl (Bolsão de Poeira) que se espalhava por Colorado, Kansas, Oklahoma e Texas. Esse êxodo pode ter inspirado a canção Route 66, gravada em 1946 por Nat King Cole e que ajudou a fortalecer o imaginário popular de liberdade e esperança que a estrada representava.

Em 1960, uma série de televisão da CBS denominada Route 66 – que ficou no ar até 1964 – pouco tinha a ver com ela, mas valeu-se da sua mítica. Inteiramente filmada em ambientes de (outras) estradas trilhadas por um encantador Corvette conversível, apenas nos três primeiros episódios fez alguma referência à Rota 66.

Exatamente em 1969, no crepúsculo de uma década espetacular para a cultura pop, dois homens desarvorados sobem em suas motocicletas Harley-Davidson e seguem gastando o mesmo asfalto numa representação daqueles tempos de sexo, drogas, rock’n’roll, cabelos ao vento, liberdade sem lenço e sem documento, no melhor do estilo hippie.

O filme Easy rider (Sem destino) foi o limiar de uma nova linguagem cinematográfica do que ficou denominado “Nova Hollywood”.

Apesar do clima conturbado das filmagens, muito em razão dos ataques de fúria e consumo cavalar de drogas do diretor e ator Dennis Hopper, a produção resultou num dos road movies mais icônicos do cinema, levado pelos guidons de Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper), dois caras comuns cujo estilo de vida era um retrato mais do que realista daqueles tempos de contracultura. Na verdade, os personagens representavam muito de perto tipos como os próprios atores naquelas alturas das suas vidas. De lambuja, a participação soberba de Jack Nicholson (George), outro easy rider da melhor estirpe.

Esse filme deu um impulso monumental para transformar a Rota 66 em ícone americano e na estrada mais famosa do mundo. E comprovando que a ficção pode consolidar o retrato de identidade de mais e mais pessoas, Tom, o filho que liderou o clã Joad na saga de 1940 – que iniciou a história cinematográfica da rodovia –, foi um dos grandes papéis da carreira de Henry Fonda, o pai de Peter Fonda, produtor, um dos roteiristas e protagonista da aventura sobre duas rodas, cuja personagem também vivia em desarmonia com a lei.

Se isso fosse pouco, 1969 também registrou a morte do escritor Jack Kerouac, que traçou os parâmetros de uma geração sem parâmetros, os beatniks. Não por acaso, autor de On the road (Pé na estrada), um livro escrito a partir das intermináveis andanças sem destino em condições miseráveis que ele fez durante sete anos (nos anos 1940) pela vastidão dos Estados Unidos. Vagou na companhia do amigo Neal Cassady principalmente pela Rota 66. Nascia ali a idealização de viver na estrada, a fantasia de encontrar saída fugindo das agruras cotidianas num cenário sempre em trânsito, que inundou a cultura pop com grande intensidade nos anos 1960.

O cinema continuou transitando com suas câmeras pela estrada. Golpe de Mestre (1973), Bagdad Cafe (1987), Thelma & Louise (1991), Forrest Gump – O contador de histórias (1994) e o filme de animação Carros, com personagens e cenários inspirados em partes da estrada.

Mesmo conhecida como “Estrada Mãe” e “Rua Principal da América”, começou a dar sinais de envelhecimento a partir de 1950, quando as autoestradas interestaduais apareceram nos mapas com mais funcionalidade, simplificando trajetos e cheias de avanços tecnológicos. Essa novidade provocou o desaparecimento dos viajantes e do dinheiro que movia todos os negócios e pequenas cidades nos oito estados por onde ela se estendia.

Apesar de resumir a cultura e a contracultura norte-americanas, de ter sido fonte e rota de fuga de diversos paradigmas, em 1985 deixou de fazer parte do US Highway System, o sistema de autoestradas do governo dos Estados Unidos. Desde então ganhou um daqueles títulos eméritos que soam como um consolo mal disfarçado: “Histórica Rota 66”. Passou a viver do passado mantendo alguns prédios, monumentos e uma boa indústria de souvenires.

Ao ser retirada do sistema viário, pedaços do seu trecho original terminaram incorporados por outras vias expressas mais novas, largas, rápidas, seguras e modernas. Diversas partes que ficaram inúteis à malha rodoviária oficial foram abandonadas, mas continuam disponíveis para os aventureiros.

Teve início um grande trabalho de marketing e investimentos privados de restauração. Tudo para convencer as pessoas a reviverem o apogeu da estrada, cujo espírito parecia transitar em motos Harley-Davidson e Indian, triciclos, motorhomes, Mustang, Camaro e Corvette conversíveis...

Cada vez mais turistas chegam para fazer uma espécie de viagem no tempo por pontos lendários. Há trechos que levam a lugar nenhum, cidades fantasmas no meio do nada e centros urbanos nervosos que aparecem tentando quebrar o encanto com semáforos e engarrafamentos.

A velha estrada é um enorme portal de acesso para as diferenças culturais e costumes particulares de cada região – indígenas, velhos caubóis, outsiders e urbanoides tecnológicos. Se algo parecer meio empoeirado, basta pisar no acelerador e seguir adiante ouvindo o ronco do motor, o vento e a trilha sonora.

Viajar pela Rota 66 revela o retrato do mundo que se pretende reino das diversidades, mas segue repetindo muito do que já foi um dia, emperrado numa espécie de museu de grandes novidades. E a velha estrada corroída pelo tempo parece rir entrementes, ciente de que permanece no mesmo papel de eixo de ligação entre sensações que nunca envelhecem. É certo que o desgaste dos pneus levará apenas ao território de um passado idealizado como se fosse melhor do que tudo que veio depois; nada além de nostalgia. O calor, o frio, o vento, três fusos horários, a poeira, as sucatas do abandono, a tristeza, o desencanto, a solidão, os motociclistas seguem todos zanzando ali. Implacáveis. Sem destino.

Conhecer ou rever aquele mundo de faz de conta movido a gasolina é uma comprovação de que um ícone foi sendo formado pelas histórias que se repetem ao longo do tempo. Quando se percebe, virou retrato de identidade de mais e mais pessoas que parecem as mesmas, apenas deslocadas no tempo. É assim que sempre foi; deverá continuar sendo por muito tempo.

Embarcar na rota do tempo pela Rota 66 será sempre uma aventura inesquecível. Boa viagem!


13/06/2021

Neuróticos Anônimos e Assumidos

 



Antonio Rocha

Foi na década de 1990 que travei contato com a “Irmandade de Ajuda Mútua” acima. Através de uma amiga psicanalista, falecida, ela nos encaminhou aos mais diversos grupos que existem na cidade do Rio de Janeiro. Interessante que ela tendo títulos universitários na área “psi”, não abria mão das reuniões semanais. Ou seja, era uma neurótica assumida. E dizia que funcionava para vivermos melhor ante as nossas pirações diárias.

Um dia fui visitar o escritório do RJ e vendo o meu entusiasmo em comprar os livros e livretos do tema o funcionário me perguntou:

- Companheiro, você é um neurótico anônimo ou assumido?

- Olha amigo – respondi – a esta altura do campeonato eu sou um entusiasta assumido e divulgarei sempre, onde for possível, para que mais pessoas possam beber nesta fonte de Sabedoria.

Os grupos geralmente funcionam em igrejas católicas, nos emprestam uma sala para as reuniões, mas tem encontros anuais, regionais, nacionais e até internacionais. São 180 países com representações. Não se paga nada, mas semanalmente, cada um paga o que pode, desde um simples realzinho até mais, para a manutenção.

Existem grupos abertos, onde qualquer pessoa pode frequentar e grupos fechados, quando por exemplo reúnem pessoas famosas/celebridades que não querem estar expostas nas mídias.

A Irmandade Mãe, primeira no mundo, foi o AA – Alcoólicos Anônimos, nos EUA, depois vieram muitas outras como N/A – Neuróticos Anônimos (a barra ou cajado ou bastão é importante para diferenciar do) NA – Narcóticos Anônimos, mas tem os FA – Fumantes Anônimos, Devedores Anônimos, DASA – Dependentes de Amor e Sexo Anônimos, Alanon – Amigos e Familiares dos Alcoólicos Anônimos, Comedores Compulsivos Anônimos (também faço parte, para os glutões) e outras congêneres.

Uma reunião de N/A começa com a “Oração da Serenidade: Concedei-nos Senhor a Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar. Coragem para modificar aquelas que podemos e Sabedoria para distinguir uma das outras”.

Fala-se em Deus ou Poder Superior, mas é como cada um o concebe, não tratamos de religião, nem de política, nem de temas que causam polêmicas como futebol, por exemplo.

Mais adiante escrevo mais.

 

26/05/2021

Solidariedade

Fotografia Wilson Baptista Junior


Wilson Baptista Junior

Neste domingo vi aqui da minha janela, ao vivo, o que é solidariedade.

Tínhamos terminado de almoçar quando a Ana, indo às janelas olhar suas flores, me chamou a atenção para uma senhora, sentada no patamar da porta fechada de uma papelaria do outro lado da rua.

A senhora, provavelmente sem teto, como atestavam as sacolas ao seu lado que deviam conter todas as suas posses, estava ali há horas, acompanhada de três viralatas deitados ao seu lado no passeio. Aparentemente não tinha comido nada nesse período. Ana pegou no tabuleiro de lasanha de carne moída e presunto, ainda pela metade, que tínhamos comido no almoço, pegou num par de colheres, desceu, atravessou a rua e entregou para a senhora. Ela agradeceu com um gesto de cabeça, e esperou imóvel que a Ana voltasse para o nosso prédio.

Da janela, vi a senhora desembrulhar o tabuleiro, tirar a máscara, pegar numa das colheres e começar a comer. Sentindo o cheiro os cachorros se levantaram, e ela, com todo o cuidado e com a mesma colher, levava um bocado de comida à boca de cada um, depois comia ela mesma uma colherada, e calma e pausadamente repetia o ciclo.

Depois, tirou de sua sacola um vidrinho de álcool, higienizou cuidadosamente as mãos, recolocou a máscara e se recostou novamente contra a porta da loja.

Fiquei parado um bom tempo na janela, pensando no tanto que representava para ela, sozinha, desabrigada e certamente faminta, abrir mão daquela porção de comida para alimentar os seus cachorros, comparado com o pouco ou nada que representava para nós aquele meio tabuleiro de lasanha.

E me senti muito pequeno. Minhas preocupações com a pandemia, com os inevitáveis incômodos da idade e da vida diária simplesmente desapareceram, não significaram mais nada frente ao mudo e compassivo cuidado daquela senhora.

Volto a olhar pela mesma janela e ela não está mais lá. Continuou seu caminho, só Deus sabe para onde, com suas sacolas e seus companheirinhos. E levou comigo um pedaço da minha alma.

Onde estiver, senhora, muito obrigado.

 


22/05/2021

Contas um conto?

 

Fotografia Carlos Monteiro

Carlos Monteiro

Conto tantos, vários engraçados já vividos que eu não esqueci. Quem nunca passou por situações inusitadas, algumas sem pé nem cabeça? Algumas curiosas, outras engraçadas. Aquelas constrangedoras em que o buraco da ema é pequeno para esconder a cara envergonhada. Ficam os vexames, as histórias para os netos e as gargalhadas para as mesas de bares. 

No apartamento, oitavo andar... gritei:

Entrei na casa do vizinho! Entrei de gaiato no apê!

Uma amiga querida comprou uma nova moradia na planta. Obra programada com entrega garantida. Tudo certinho, planejado, pensado, calculado... só que deu errado. Ela devolveu a humilde residência em que, até então, morava, calculando transferir-se diretamente para a nova. Assim economizaria uns trocados com o aluguel. Por sua vez, o proprietário do imóvel aproveitou para acomodar a filha que vinha morar no Rio para realizar um doutorado. Tudo encaixado perfeitamente como num quebra-cabeças, em tempos e movimentos sequenciados milimetricamente. Planilhas complexas e completas, tipo uma sai pela manhã e a mudança, que vem de fora, da outra chega à tarde! A completude estava perfeita apenas com um pequeno detalhe: a construtora não cumpriu a data aprazada.

Encontro-a, dias antes, no Centro do Rio, já em um clima de ‘o que eu faço amanhã...’. Era um misto de assustada, com olhos em brasa e respingos da chuva do relógio que atrasa. Clipe sem nexo, Pierrot retrocesso, que nexo tem, que nexo faz? Havia acabado de me separar, indo viver em um apartamento de dois quartos com cinco utensílios básicos: um colchão, uma arara para as roupas, uma TV mínima, suavemente pousada sobre um caixote de maçãs “Red Indians”, catado na feira-livre da rua paralela, fogão e geladeira. Me compadeci com a situação e ofereci o quarto ‘às moscas’ para que ficasse até a entrega das chaves. Ali mesmo fiz uma cópia da chave, entreguei e apresentei meu novo endereço. Simplesmente esqueci a história.

Vários dias depois chego tarde da noite, momento exaustivo de trabalho, abro a porta e me deparo com um Frajola me olhando sério, cara de quem caiu do caminhão de mudança, em volta vejo uma sala com sofá, poltronas, mesa e cadeiras, luminárias e quadros. Até tapete e cortina tinha. Assustado, fecho vagarosamente a porta para não dar sinal que havia ‘invadido’ o apartamento alheio. Estaria ficando louco? Olhei o número na porta. Conferia com o meu; estava lá: ‘802’, mas ‘peraí’ eu não tenho móveis, muito menos gato. Teriam invadido meu imóvel? Me enchi de coragem, chave na porta e novamente o Frajola agora com cara de poucos amigos, tinha alguma coisa de cão de guarda ali, não sei se era poliglota, mas que ele rosnou, ah, ele rosnou e alto. Resolvi não encarar. Essa história de “gato que mia não arranha”... vai que ele não conhece o aforismo. Essa agonia levou uns cinco ou seis minutos. O prédio não tinha vigia, era tarde para bater no apartamento da síndica, talvez chamar Buscas e Salvamentos fosse uma solução. Preferi descer e tomar uns chopes no boteco da esquina. Horas tantas, como sempre expressa meu querido Carlos Leonam, com sono, cansado e meio bêbado, supus duas soluções: a redundância de encarar de frente o problema ou dormir no carro na garagem do prédio. Vai que era só uma alucinação de estresse. Vai que não tinha nada em casa.

Subi, abri a porta e lá estava o Frajola. Os chopes transformaram-no. Agora era o Lion-O dos Thundercats. De alvinegro ficou azulado com os cabelos em fogo. Tomei a pouca coragem que ainda me restava e fui em direção a cozinha de onde vinha um saboroso aroma de carne assada. Ignorei o ‘Gato The Cat’, deveria ser uma alucinação, no caso, uma alucinagato. O chope do ‘bunda de fora’ não era lá muito confiável, as sardinhas mumificadas, as moelas ao molho juntamente com os ovos coloridos da vitrine... praticamente um ácido psicodélico. Vagarosamente me aproximei do espaço gourmet e, silenciosamente, acompanhado pelo Frajola-Lion-O dou de cara com a minha amiga de avental, travessa na mão e a pergunta olho de qualquer entrevista:

—Pô cara, tu demorou hein?! Tá trabalhando demais! Fiz um jantar para gente em comemoração à minha estada por cá.

Ficou por seis meses. Fiquei amigo do Frajola que na verdade se chamava ‘Gaveta’, vai saber o porquê. Preferia dormir nos meus pés do que com ela. Devia ser a preguiça insana que tinha. Imagina escalar aquela cama. Pular no colchão, ao rés do chão, era bem mais prático.

Zero hora no relógio. A vida tem dessas coisas...

 

01/05/2021

A despedida tem trilha sonora?

 

Fotografia de Carlos Monteiro

Carlos Monteiro

“La poesia tiene una comunicación secreta con los sufrimientos del hombre. Amar es breve, olvidar lleva tempo.” – Pablo Neruda

Fico imaginando a despedida com uma trilha sonora. Aquela sensação de falha, de perda. A impressão de já ir tarde ou de que não devia ter vindo. Prenúncio de Odete Lara, de tristeza e falta inevitável e inefável.

Alguns poetas descreveram, musicalmente, esta vereda desarmoniosa. São canções que, em algum momento, ‘ouvimos’ num background imaginário, junto com a lágrima fugidia que disfarçadamente enxugamos, mas que insistiu em permanecer marejando sofridamente nosso olhar.

Esses poemas teriam sido escritos para um amor partido? Para um coração descompassado? Para um adeus quase inexistente, daqueles que não há? Em que pensavam Noel Rosa, Ivan Lins, Vitor Martins, Adelino Moreira, Enzo Passos, Ataulfo Alves, Accioly Neto, Lupicínio Rodrigues, Antônio Maria, Tom Jobim e Chico Buarque, de todos o que melhor poetizou na despedida?

A separação tem três passos distintos e extremamente marcantes. O impacto do instante, quando o afastamento é iminente. Naquela hora são ditas juras de amor, são feitos pedidos de desculpas, promessas de que tudo se ajeitará e voltará fortalecido, que o amor superará todas as dificuldades, desavenças e diferenças. Que amor não se joga fora, que a sorte não pode ser entornada, de forma tão leviana, pelo chão. O olhar é de adeus, de descrença, que se arrasta, que arranha, porque o amor deixa marcas que não são possíveis ser apagadas. Ficarão como tatuagens coronárias para sempre.

No segundo período algumas farpas são trocadas que logo evoluem para acusações mútuas, passando para ameaças, não físicas, mas morais. Puro Esopo. Nerudas são cobrados, discos são pedidos de volta – um Pixinguinha não pode ser abandonado, gêneros musicais são questionados, estilos são criticados, aquela roupa, comprada num brechó do Soho, passa ser horrorosa e os amados tornam-se quase inimigos. E o pijama? Nada mais ridículo que um pijama. Tomam a saideira do licor preferido e há muito bebido. A chave é jogada por debaixo da porta, sim a porta onde jaz tapete, para nem pensar numa volta. O portão é batido sem fazer alarde, a medida do Bonfim vai presa à mala deixada no corredor. A carteira de identidade, tantas vezes esquecida, se confunde com muita saudade. Já vai tarde!

O amor, sentimento contíguo ao ódio, passa a caminhar lado a lado do fel, deixando loucos os amantes noite adentro. Há uma partilha de bens discutida e o pobre Golden Retriever, que recebeu o adorável nome de ‘gaveta’, se vê, sem nada ter a ver com a história, numa guarda compartilhada inequívoca; ora vive no antigo apartamento de Ipanema, ora coabita o conjugado do Bairro de Fátima. A roupa suja é lavada ali, em plena sala de jantar, não importa se é hora do almoço e se a garrafa de licor tombou vazia num canto qualquer. Acusações mútuas são ditas ou, na simplicidade do lugar-comum vem com o “...não é você, o problema sou eu” e um pano rápido. Há a subfase vingança, absolutamente raivosa, onde os nomes são jogados na lama moral. Lares são malditos, onde nem a comida paga não foi merecida, não é só de casa e comida que aquece um coração.

É chegado o instante Odete Lara, a trilha sonora vira hino, o copo se esvai em whisky com guaraná; Drurys, é claro. Noites insones. Na vitrola, tocando tudo que lembra aquele amor, aquela dor de cotovelo e todo o ardor do sofrimento perene, sensação de fracasso. O apartamento se torna uma caverna profunda, fria e irrequieta, garrafas de gim, com doses tomadas aos bocados no gargalo, estão frigidamente depositadas no fundo do armário. O disco, quase penetrado pela agulha, tem pena de ti. Estás um trapo, teu eu é puro Antônio Maria que habita os corações esquecidos, carentes e abandonados.

Passados horas, meses, anos... entra em cena a fase arrependimento, o ciclo olhos nos olhos das espumas que o vento levou. É a remissão dos pecados e proclamação do amor eterno, prometido ao pé da Santa Cruz, diante de uma plateia atônita, misto de embevecimento e esplendor. A rendição ao último desejo do que começou em festa e que jamais será esquecido. A Lua por testemunha. Os beijos que ainda ardem e os seios que repousam sob as mãos. Lembranças, nada mais que boas lembranças. Estão vívidas na playlist criada no Spotify ou no Deezer.

Vem, quem sabe, a hora da reconciliação, dos olhares trocados, das juras secretas, tentativas de que tudo pode se ajeitar, que a aliança não foi derretida, muito menos empenhada, o Neruda foi lido e relido com apontamentos nas bordas, a lápis, para não danificar as páginas, já que os livros são sagrados, tudo ao som de boleros e do mestre Pizindin. Que tudo pode se tornar, mais uma vez, um lar.

“Volta, vem viver novamente ao meu lado”! Num mea-culpa, a confissão de que errou, mas jamais ‘sujou o nome’ do ser amado. A sala foi arrumada, o tapete emoldura o piso, o paletó pode voltar a abraçar o vestido de brechó, e os seios marcar o amor nos lençóis. Ah, se eu fosse você, ah esse imenso amor que me invade, ah o voltar ‘pra’ mim novamente, a não negativa do último desejo, desejo ardente, pegando fogo. Não negar o amor, o carinho. A boca continua marcada pelo beijo, te adorando pelo avesso, mesmo que tantos homens tenham te amado bem mais e melhor.

Suportarás vê-la tão feliz?

 

*Na fonte de Noel Rosa em “Último Desejo”; Accioly Neto em “Espumas ao Vento”; Ataulfo Alves em “Errei Sim”; Adelino Moreira e Enzo de Almeida Passo em “Negue”; Chico Buarque em “Olhos nos Olhos”, Chico Buarque e Francis Hime em “Trocando em Miúdos” e “Atrás da Porta”; Tom Jobim e Chico Buarque em “Eu Te Amo”; Lupicínio Rodrigues em “Volta” e Vitor Martins e Ivan Lins em “Bilhete”.

 

26/04/2021

Outono na minha terra

 

Ana Nunes - aquarela e lápis de cor

Ana Nunes  

Nesses começos de Outono a minha terra acorda em acordes de azul, amarelo e verdes muitos. Os das montanhas vão de verde folha intenso, passa ao verde queimado e vai se esverdejando até o azul longínquo. Onde só se vê o tênue contorno contra o céu sem nuvens. Às vezes aparecem umas branquinhas, branquinhas como ovelhas fugitivas que o vento tranquilo empurra para um redil qualquer.
Esse ventinho fresco cheiroso de mato não encontro em mais lugar nenhum. Só aqui ele venta assim delicado e friozinho e vai trazendo cores para colocar aqui um pouco de vermelho, um pouco de laranja ali. E um verde amarelo limão de galego, capeta e siciliano. Cheiro bom de lembranças mil.

Da minha janela cuidadora de violetas roxas e rosas e brancas vejo um pedaço dessa corrente verde das montanhas protegendo nossas casinhas singelas espalhadas por acima e por abaixo. Casinhas brancas e coloridas, igrejinhas solitárias encastelando um morro onde nem precisa de missa. É só olhar em cima e em volta e estar em graça. Oração do mato, da natureza, do coração.

E assim, nesse agasalho das montanhas, nasce escondida nossa famosa e mal entendida desconfiança recheada de acolhimento. Acolhimento de café adoçado com broa de milho, pão de queijo com queijo, angu com quiabo e pé de moleque de rapadura e amendoim para se comer escondido no passear da tarde.

Somos também cheios de beijos estalados e abraços apertados proibidos por agora nessa sombra escura que ponteia meu coração. Vamos estocando caladinhos como bons mineiros porque mais tarde vai ser um abraço sem fim!        
Porque a vida continua, não é meu querido cavalheiro?

Na minha terra o Outono vem meio quente ao meio dia. E a terra solta aromas de campo querendo chuva. Mas deixa a tarde cair lentamente e o ar fresco vem de novo refrescar. É a hora entre arrulhos que os pássaros voltam para casa. É tempo de se aninhar.

Ah! O poente outonal da minha terra incendeia o céu azul com tons impossíveis! De fogo que não queima, de laranja da terra, de roxo emprestado das violetas. E sem que se perceba essa cor dos deuses vai cedendo espaço á noite serena e complacente. Para mim é o momento da paz, da Ave Maria e do Ângelus. Hora de esvaziar a alma para as estrelas se instalarem no nosso sono.
E quando é lua cheia, brilhante e redonda por completo, pesadona ao olhar, esse outono traz uma luz diferente, fantasmagórica que corta o ar fino e frio e espicha sombras fantasmagóricas no cimento das calçadas.

E então eu pergunto ao meu espelho do espaço profundo se há no mundo lugar mais lindo do que o meu.

 

21/04/2021

O chinelo com GPS

Imagem The Mirror UK

 

Francisco Bendl

Sabemos que as mulheres têm qualidades intrínsecas, próprias, exclusivas.

Apaixonamo-nos por elas também por essas condições que lhes são inatas, principalmente a respeito da capacidade de perdão que elas possuem, elevando a mulher a patamares em níveis de santidade!

Em consequência, o homem abusa de sua paciência, provoca, atiça, cutuca a onça com vara curta, às vezes usando um pequeno graveto.

Pois, então, a fera se mostra no seu esplendor, e o que tiver ao seu alcance joga no imprudente, ou seja, no marido, namorado, noivo, amante, companheiro, quem estiver ao seu lado ou próximo de sua pontaria infalível!

Certamente os programas existentes em armas de longo alcance, de modo que acertem o alvo necessário, as mulheres foram as suas inventoras. Os homens plagiaram a invenção, e ficaram quietos.

Uma relação entre homem e mulher é caracterizada de várias formas:

Arrulhos, juras de amor, apelidos os mais divertidos – quiquinha, preta, moio, ximbica, bombom, minha flor, adorada, minha velha, tesouro, céu da minha vida, minha estrela, minha isso e minha aquilo ...

No entanto, assim como as doces palavras são pronunciadas, as mulheres utilizam outro expediente para nos avisar que estão insatisfeitas ou não gostaram ou foram ofendidas ou maltratadas ou desvalorizadas ou se sentiram traídas:

O que tiverem nas mãos atiram no pobre coitado!

Tenho cinquenta anos de casado.

A minha mulher possui várias maneiras de me punir quando escorrego, ultrapassei algum limite, neguei-me a fazer o que me pediu, deixei de colaborar com ela em qualquer situação:

A sua primeira medida é me deixar sem almoço.

Não que ela deixe de cozinhar, mas não me serve a refeição;

A outra é ficar me atazanando sem parar, conversando sobre o episódio que a desgostou. O pior é que ela traz assuntos de trinta, quarenta anos passados, para darem mais ênfase e razão ao que está afirmando a meu respeito, e aumentando as suas lamentações e queixas por horas a fio.

Mas, o tempo que estamos juntos que, além de nos unir para sempre e com muito amor “ainda”, também tem sido o responsável pela minha esposa ter desenvolvido meios mais práticos e contundentes para me ferir fisicamente ou demonstrar o seu descontentamento imediato por algo que não fiz ou disse sem maiores cuidados.

A Marli inventou o chinelo com GPS!

Isso mesmo, aquele que ela joga em mim e não erra a pontaria jamais!

Na primeira vez que ela me acertou, a distância era de cinco a seis metros, um espaço largo e que me pegou no ombro, levei na brincadeira porque achei que ela teve sorte.

Dias depois, eu ainda pensando se ele teria a mesma pontaria, testei se o petardo anterior fora mesmo ocasional.

Cometi, deliberadamente, uma das maiores ofensas que um homem pode fazer às mulheres:

- Tu não gostarias de ir a um salão de be ...

Não tive tempo de proferir o resto da frase.

O chinelo me acertou em cheio, deixando a marca estampada na minha testa ... “ianas”.

E confirmei que a sua pontaria era mesmo especial quando, imediatamente, após a chinelada que levei no quengo, gritei:

- Tu precisas ir ao salão ...

Mesmo eu tendo me esquivado do projétil em forma de chinelo, ele fez uma pequena curva e me acertou com força no peito!

Sabem aquela falta que o jogador de futebol acerta o gol porque a bola foi em curva?

Apesar de o chinelo não ter a propriedade aerodinâmica de uma esfera, o que a Marli tem foi instalado um GPS que ela programa mentalmente e, ainda por cima, me acerta onde eu estiver!

Na segunda-feira passada, eu já esquecido desse detalhe de o chinelo fazer curvas, parábolas e corrigir o rumo em voo, cometi um deslize meio involuntário.

O Mano me pergunta via whatsapp  como estavam meus dois filhos. O primeiro porque fizera uma cirurgia cardíaca, colocando três pontes de safena e uma mamária, e o segundo contaminado pelo Covid19.

Comentei que a recuperação do primogênito está lenta, que eu o achava meio desanimado, que, a meu ver, ele estava precisando do colo da mãe.

Mas, de modo a explicar que a Marli fosse visitá-lo, escrevi que a minha mulher, mãe dele, ir... o chinelo me acerta o nariz passando entre mim e o computador com precisão cirúrgica.

- Chico, que história é essa que sou a mãe “dele”! Por acaso tens outras mulheres que são mães de mais filhos teus?!

Não tive tempo sequer de esboçar um sorriso, quanto mais explicar a minha “explicação” ao Mano, pois o segundo chinelo me acerta as costas!

Faz dois dias que tento um diálogo com a cônjuge, pelo menos, porém ela se mostra irredutível.

Hoje, sabe-se lá se não queria me testar, ela se dirige a mim e exclama:

- Chico, me leva até o centro, preciso comprar uns novelos de lã.

- Pega um táxi, tô com preguiça de sair de ca...

Foi tardia a minha lembrança ainda dolorida do chinelo eletrônico. Tentei ainda me esquivar, me abaixando para o tiro passar por cima, em vão.

O maldito chinelo me acertou na orelha, e me trazendo o seguinte aviso:

- Chicão, olha, se eu fosse tu eu a levava porque ela inventou o chinelo com GPS e, agora, com BUMERANGUE.

Acenei com a fronha branca do travesseiro que eu queria paz, apesar da ameaça que outro chinelo “smart” estaria a caminho.

Na volta das compras que fizera no centro, eu dirigindo o carro com ela ao meu lado contente porque fui “convencido” devidamente a levá-la, olhei de soslaio que a Marli fazia cálculos e mais cálculos numa folha de papel de embrulho.

Escrevia, apagava, escrevia, corrigia, escrevia mais ora menos ...

- Marli, que rabiscos são esses?

- Tu não vais querer saber!

- Por que não?

- Quero desenvolver o mesmo sistema em algumas panelas que tenho.

Convidei-a para jantar, prometi flores, refiz as minhas juras de amor eterno, que eu amava, e que ela não precisava se incomodar em criar essa panela e, se ela quisesse, eu contrataria uma cozinheira!

Percebi um sorriso discreto no canto da sua boca.

Não sei se era de satisfação pelo prometido ou pela cena sensacional que imaginou, acertando a panela em mim.

Pensando nessa possibilidade real, meio que tastaviei, ou seja, quase que perdi o rumo de casa andando sem direção por uns minutos, querendo eu calcular o que me aconteceria se a panela estivesse com alimento dentro, e me acertasse alguma parte do corpo.

Portanto, deixo um recado aos homens:

Evitem de todas as maneiras que elas comprem chinelos, diante da facilidade de se adicionar GPS, e suas habilidades incomparáveis na pontaria, razão pela qual as mulheres não vão às guerras como combatentes, já notaram?

Elas são enfermeiras, burocratas, secretárias, telefonistas, médicas, cozinheiras, motoristas... mas soldadas não.

A resposta é simples:

Como sabem que são exímias em acertar o alvo não haveria vencidos ou vencedores.

Era a guerra ser declarada e encerrada no mesmo dia.

A cena da trégua:

Uma mulher mostrando o chinelo para outra, e esta fazendo o mesmo para aquela ou ambas acenando com panelas numa das mãos e chinelo na outra, mostrando que estão muito bem armadas e preparadas!