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12/03/2022

O homem que alimenta e encanta pardais

 

Todas as fotografias, de Carlos Monteiro

Carlos Monteiro

Foi numa manhã veraneada, onde o Sol não deu muito as caras, mas fez bonito por entre as nuvens, em mais um amanhecer numa empoeirada e calorenta Brasília - capital do país -, por falta de chuvas que já acumulavam ausência por tantos quinze dias, em janeiro de 2019, que percebi o São Francisco de BSB.

Encontrávamo-nos tomando café da manhã numa daquelas padarias tradicionalmente deleitosas, assiduamente frequentada por ele, aquela em que todos te dão bom-dia te chamando pelo nome e conhecem os seus gostos especiais, ali na SQN, após uma sessão de fotos da alvorada brasiliense. Havíamos chegado, ainda na madrugada, no Congresso Nacional, para registramos os primeiros sinais do Astro-Rei junto às metades abobadadas sonhadas e realizadas por Oscar Niemeyer, de quem o Britinho, como é chamado carinhosamente pelos mais chegados ou Orlando Brito, como são assinados seus trabalhos, é fã incondicional. 


Aboletados, confortavelmente, em cadeiras na área externa vermelho-alaranjadas, acompanhadas por mesas fazendo par de jarras, ricamente adornadas por porta-guardanapos em verde-neon, oferecimento da marca de goma de mascar Trident, papeávamos sobre amenidades, política, que ele conhece como ninguém. Estava na Capital Federal em sua inauguração ainda menino. Cobriu, praticamente, todas as posses presidenciais por lá; foram muitas, catorze ao todo, inclusive durante a ditadura militar, de Costa e Silva a Bolsonaro.

Estávamos preparando o roteiro de visitas a alguns pontos turísticos e a ida até o Vale do Amanhecer, na cidade de Planaltina em Goiás, que abriga a Doutrina do Amanhecer, religião espiritualista cristã, para registrar uma ‘função’. Lá conheceu, pessoalmente, Tia Neiva, sua fundadora, trazida, alegadamente, pelo espírito de São Francisco de Assis - nada é por acaso –, reverenciado nesta doutrina como ‘Pai Seta Branca’, no ano que este, que vos escreve, nascia - 1959 e mantém amizades sinceras com os assessores de imprensa e frequentadores.

Após pedirmos a tradicional média, em copos americanos, com pão na chapa – ele optou pelo café puro coado como bom mineiro de Janaúba que é -, migalhas do pão torrado, deliciosamente ‘confeitado’ por generosa camada de manteiga das Gerais, começaram a se desprender daquela guloseima de encher os olhos de qualquer gourmet. Eram pequenas, porém gigantescas para os pardais que começaram a cercá-lo. Como um ‘santo’ Brito começou a alimentá-los e a cada momento mais vinham e o cingiam à pequena distância. Havia um diálogo mental, uma troca de gestos, piados, olhares. Pairava no ar uma enorme sinergia, algo absolutamente astral em momento telúrico. Estávamos assistindo a um espetáculo sem par com exclusividade como são as imagens que produz. Quanto mais se aproximavam, os passarinhos, mais, propositadamente, era esfarelado o pão, trigo renovador da natureza, alimento energético com doses lautas e borbotoantes de amor e carinho. 


Brito está e estará infinitamente vivo em meu coração, em nossos longos diálogos às sextas à tarde e no almoço dos sábados no Piantella, em suas incríveis histórias de jornadas fotográficas pelos rincões desta imensa Terra Brasilis, na grandiosa vivência, em setenta e dois anos, de existência terrena. Da sua ‘implicância’ para que ficássemos sempre em sua casa, onde cedia a suíte, por si habitada, em nossas estadas na Capital, e das ‘brigas homéricas’ se assim não o fizéssemos.

Das narrativas acerca do trabalho magnânimo de Lúcio Costa, Burle Marx, Athos Bulcão e, o seu preferido, Niemeyer. Das citações e contribuições de Juscelino Kubitschek para a grandiosidade deste país-continente, do ‘círculo de fé’ do Templo da Boa Vontade e da incrível foto junto ao anjo nos vitrais, ângulo perfeito descoberto por ele, da visita ao Mosteiro Budista e o retine do címbalo em horas exatas que ele guardava de cor e salteado, da Capela a Nossa Senhora de Fátima pérola alada, da pirâmide em homenagem a Dom Bosco, das ‘cobranças’ de minhas crônicas para seu portal, “Os Divergentes”, do carinho e cuidado que tinha para sugerir alguma correção em alguma imagem ou texto.

Brasília não é mais a mesma sem vê-lo de Sol a Sol, segunda a segunda na lida fotográfica, nenhuma coletiva terá o mesmo sabor. O Brasil não é mais o mesmo sem as suas imagens grandiosas, quer sejam documental, política, indígena ou de paisagens paradisíacas.

Britinho é daqueles seres humanos tão únicos que O Criador dispensou a fôrma e só Ele tem a fórmula, guardada a sete chaves, cujo fiel depositário é São Pedro. Em paráfrase da querida fotógrafa Marlene Bergamo: “Brito e Dida (recém-falecido) devem estar agora planejando como fotografar Deus e dar um furo intergaláctico. Vocês fazer falta por aqui, meninos.” Nada traduz melhor estes sagazes rapazes latino-americanos.

Orlando Brito: o ser humano que alimenta e encanta pardais, como São Francisco de Assis, no Planalto Central. O Poeta da Luz que escreve com suas Leicas a história deste país. O amigo incondicional que gargalhou inúmeras vezes conosco e nós com ele. Brito: sinônimo de fulgor e paz! 


 

01/02/2022

A princesa e a torre

 



Ana Nunes

Parece conto de fadas
Mas não é. 
Parece Rapunzel        
Mas não é. 
Parece princesa presa na torre  
De marfim
A reluzir em ouro       
Mas não é. 
Não é Rapunzel das tranças        
Porque seus quase nada cabelos
Nas cores acaju 
Ganharam peruquinha na cor    
Para compor o rosto  
E completar o resto   
Por que não é princesa       
Nem fada.  
É velhinha, velhinha  
Feinha, feinha.   
Presa na torre   
Que não é torre 
Nem tem marfim        
Nem reluz a ouro.      
Fica no alto da escada gasta        
Exaustiva no subir da idade       
Sem floresta nem nada       
Nem vista da cidade. 
Só árvore com maritacas   
E minúsculas flores brancas       
Que perfumam a noite solitária.
Não tem príncipe       
Nem cavalo branco.   
Lá no alto  
A colocaram, a velhinha     
E trancaram a porta  
E levaram a chave.     
Ela perdeu tudo, a velhinha        
Perdeu suas caminhadas de legumes 
Perdeu seu caminho para a igreja.      
Sobrou o fogão e seus aromas    
E cresceu-lhe a barriguinha        
De birra sem caminhada.   
Mais nada.
Velhinha, velhinha     
Pela janela não vê floresta 
Nem príncipe     
Nem cavalo branco.   
Nem lembra o passado       
Porque traz estórias  
De bêbado de doido   
De fugido e de histérica.     
Nem sonha com futuro       
Porque não lhe traz nada.  
Só pensamentos obscuros.
Triste pobre velhinha
Que no fim
A vida só lhe trouxe idade.
  

04/01/2022

Natal de novo e de velho

Escultura em barro - Ana Nunes


Ana Nunes   

Desmanchei o Natal mais uma vez.  
Pelo que sou grata. Muito.
Apaguei as pequenas luzes já com saudade e tristeza. As casinhas brancas em fio iluminadas voltaram para a caixa transparente sem luzes sem nada. Só vigiadas pela minha melancolia. Assim também as estrelas em gradezinhas delicadas num cinza industrial. Para certamente combinar com a árvore meio Torre Eiffel meio estrela de Davi com apenas três pontas.
As estrelas iluminadas já não são mais. Fecharam as luzes nos votos de Ano Novo e no até no “ano que vem”. Porque o ano que vem... bem, é o ano que vem. Tem um resto de passado e um monte de futuro. Ninguém sabe.       
As bolinhas também cinzas em buracos de estrela foram soltas de suas amarras de barbante rústico, tão gostoso de pegar! Guardadas mais uma vez para o descanso em meio a fitas alaranjadas.       

Escada acima escada abaixo, a idade me pega e se faz ver, foram todas colocadas lá em cima no armário complacente, quase elástico. Onde aguardavam as guirlandas em suas caixas e as arvorezinhas de camélias brancas de luzes led. As coroas guirlandas trazem estórias delicadas. Na cerâmica da amiga, nas cores do outono importado, e a de folhas secas eternas feitas para minha mãe. Eternas porque passam perfeitas por todos esses vinte anos e perfeitas porque são dela.      

Todo ano novo começa comigo de melancolia do passado sabido e do futuro desconhecido. Muito mais cheio de saudade esse. Cada estrela apagada trouxe ao coração o Chicão que partiu depressa em busca de árias novas. Largou comigo sua escrita vigorosa de rugido de leão dos Pampas e seus escandalosos elogios! E o nosso gentil Cavalheiro Bortolotto que deixou em páginas virtuais seus comentários delicados e carinhosos na sua escrita tão peculiar! Tão lindos eles!
Trouxe também saudade de coração partido dos que apenas se retiraram calados na calada da noite!       
Moacir e suas cruzadas muito além do Mochileiro das Galáxias Marco Polo ou Gulliver.  
Domingos deve estar por aí navegando “qual cisne branco em noite de lua no mar azul” do Brasil adentro contando aventuras para Vênus.   
E o Heraldo, gente? Escrevendo certo por linhas tortas ou certas de poema puro de bic azul cristal?    
O budista Antonio sem acento no o, ele me disse!, e seus ensinamentos de felicidade e virtudes no caminho do meio em meio às netas e a sua gravurista preferida!
Tem Carlos Monteiro em montanhas e luas e mares das suas maravilhosas fotos.        
Para quem escrevem agora? Quem encantam? 

Mas entre melancolias dessas ficaram alegrias de abraços apertados e perfumados da noite de Natal. Abraços dos netos, dos filhos, das noras, das irmãs, da sobrinha quase filha e do marido. Todos lindos vestidos em cores e brilhos, perfumes diluídos nos aromas da ceia borbulhante! Uns vinhos tão deliciosos me deixaram inebriada. Já nem sabia se era vida ou fantasia, amor entre beijos e abraços e ternura! 

Desse Natal já quase todo empacotado deixei fora do armário o meu mundo tristemente encantado do morro onde ensinei e aprendi e cresci. Achei umas ledzinhas miudinhas como brilhantes e quando coloquei no meu morrinho de casinhas de cerâmica vi a Serra iluminada em festa e meu coração se encheu de ternura.       
E dormi em paz!


12/10/2021

O encanto do ouriço, do caramujo e do tatuzinho

 

Aquarela Ana Nunes

Ana Nunes

Hoje comecei celebrando o dia chuvoso cinza e brilhante com uma caneca diferente, tipo café irlandês ou o que seja: café batizado com whisky. É bom viu gente?!!!   
Junto celebro meus mortos amigos, mortos família, completa angústia.    
Depois falo disso. Porque quero mesmo é falar da “elegância  do ouriço”. E da maravilha do saber!

Meu filho me impôs uma faxineira. Pobre de mim, descobri que estou velhinha, velhinha, como a minha querida Laura! Mas minhas dores artríticas melhoraram tipo metade.
A minha faxineira me assombra cada dia. Tudo bem, é histérica com poeira e achou aqui, nesse mercado persa que é nossa casa, um ninho fértil.  Mas ela me diverte, sem saber, com sua alegria e eloquência. E bota eloquência nisso! E fiquei animada. E quando fico animada sou insuportável...e estou introduzindo na cabecinha de cinquenta e três anos dela o vírus da arte. Tive o primeiro retorno ontem, depois de falar da Fridinha Kalo e de xilogravura. Quando pendurávamos um quadro de gravura em metal ela disse- Estou aprendendo tanta coisa de arte! Quase saí rodando e bailando pela sala.      
Em vez disso prometi emprestar livros. Mal sabe ela que tenho planos de para casa...

Nada disso importa hoje. É só um pouquinho de partilhamento de blá blá blá. 
O fato mesmo é que é um encanto vê-la comer. Delicada, bocados pequenos e uma paciência do sem fim. Tão diferente de mim! (Até rimou!) parece estar comendo o doce dos deuses. E pode ser mexerica que já dou descascada (sim, faço isso) ou um pedaço de bolo ou apenas uma fatia de mamão. E ontem, no meio da manhã, fiz uma abacatada e fomos comer juntas na cozinha. Eu no banquinho e ela na escadinha. E fiquei admirando sua educação. E ali sentada, ouvindo, pensando e partilhando, me lembrei do livro A elegância do Ouriço que curti cada página como se fosse a última. E depois muitas vezes assisti ao filme. É uma delicada estória da zeladora (concierge no livro) que mora no prédio onde trabalha e que nenhum dos esnobes moradores sabe da sua intelectualidade e finesse. Apenas uma menina diferente que é sua amiga e um senhor japonês mudado há pouco. Só eles a conhecem na intimidade dos seus livros e desfrutam de sua companhia.

E fiquei pensando, porque o pensamento vem até mesmo quando não queremos nada com ele, que é um privilégio essa tal de alegria do saber. A gente vai vivendo e ajuntando experiências. Vai lendo e colecionando personagens e seus modos de ser e pensar. Aprendemos com eles como se estivessem vivos. A gente vai viajando seja mato adentro ou mundo afora e vai guardando imagens e culturas, bebendo nessa fonte de palavras que nem entendemos bem.... Minha mãe sapeca em Israel sempre que entrava em um shopping dizia “Shalom!” para o segurança. E eu pensava: ainda pegam essa velhinha! Tremia de medo esperando a reação do homem! E quando menina, viajando de jipe com meu pai roça afora , eu ganhava café bem doce da dona da casa visitada. E conhecia um mundo muito diferente do meu. Singelo, simples, hospitaleiro. Era tão menina que nem sabia disso. Mas hoje eu sei que já sabia disso! Se não, como lembrar?

E nesse aprendizado eclético, que nem é só escola nem família, é a própria vida (como já disse GGil, “e só por ela ser”), fazemos conexões surpreendentes até mesmo para nós mesmos! Assim como eu liguei essa pessoa à criatura criada da personagem do ouriço. Imagino, ou tento, as sinapses dessas criaturas muito lidas e viajadas, que vão virando googles domésticos, do que são capazes quando conversam ou veem ou leem! São outros livros, outros filmes, outras vidas.

Seja conhecer um truque de arrumação, seja saber de um solo especialista em peneirar água da chuva, o Teko explicou tudinho sobre nosso solo rico e generoso, seja conhecimento das galáxias, dá-lhe Mochileiro, seja um simples olhar para o caramujo despojado que leva a casa nas costas ou um tatuzinho que se enrosca e se esconde em si mesmo para se proteger do ultraje. Para depois continuar incólume seu caminho desconhecido. E o ouriço que espeta na elegância.

Gente, é a pura e insubstituível alegria do saber!

 

Este post dedico ao Chicão, que para quem não o conheceu foi a nossa querida e verdadeira “elegância do ouriço”.

 

28/09/2021

Adeus, companheiro!

 


Wilson Baptista Junior

Recebi faz pouco uma notícia triste, o nosso amigo e companheiro de blog Francisco Bendl, o Chicão, o gauchão valente, às vezes destemperado, corajoso, contador de histórias, amante da ópera, apaixonado por sua terra e sua gente, que nos regalou com tantos posts partiu hoje às 06:45 para o andar de cima.

Deve estar agora, tenho certeza, conversando com o Flávio Bortolotto, o gentil cavalheiro de tantos comentários refinados nos nossos escritos.

Vai, Chicão, fica tranquilo, deixas por aqui muita saudade, uma bela família e muitas lembranças boas. Até mais ver!

12/09/2021

Um sonho no fio da folha

 


Ana Nunes


Hoje eu tive um sonho.

Com um personagem da minha estória. Ou devo já dizer história?

Dele não sei a cor nem os passos. E nem conheço a voz. Só sei mesmo dos bigodes brancos e da palavra livre.

E nessa estória inventada pela minha mente oculta, da qual também sei tão pouco, esse personagem remete de longe um livro para o amigo que vive comigo.

 

E era um livro que queríamos muito e nunca compramos, de lombada dourada e papel bem fino. Pequeno e gordo como uma pequena bíblia. E sobre uma das primeiras folhas descobri a dedicatória para o amigo. Era em letras finas e douradas que me fez desejar uma caneta assim. Adoro canetas e lápis (deveria ser lápises, repito porque já disse antes) pretos macios e de muitos coloridos. Nessa dedicatória de nenhuma lembrança guardei mesmo foi a assinatura, elegante e espichada quase sem dar para ler. Assinatura curiosa que fiquei tentando escutar as letras para saber o dono.

O amigo ficou contente. Demais. E para estragar um pouco essa festa coloquei em dúvida a postagem do pacote: -Não veio de longe, veio daqui mesmo. Conheço a livraria. Mas como, o personagem esteve aqui tão perto e não quis nos ver? Procurei a embalagem do correio para configurar certezas. E nessa incerteza veio a tristeza que acabou com o sonho! Pena mesmo, o livro era lindo! E o amigo, saudoso!

 

Esse sonho veio no fio do livro que lia antes de adormecer. Um livro bonito e mais para pequeno, de lombada vermelha e folha amarelada, capa macia gostosa de pegar. Tudo bem alaranjado.  De um japones que para mim nada tem a ver com as outras estórias japonesas que já li. Disso se incube um filho que sabe das novidades literárias, parece uma traça ele, e se incumbe da minha intelectualidade. Intelec atualidade mesmo, porque da antiga cuidou minha mãe querida. Com ela fiz desde cedo amizade com Sartre, Dostoiewsky e Stendhal, Jorge Amado que me levaram pelas vinhas da ira e campos de girassol, pelo recôncavo baiano e pela neve que nunca vi. Nem peguei para sentir o frio. Mas vivi plena no sertão do Guimarães.

 

Esse delicado livro de lombada cor do mercúriocromo dos cortes da infância, agradável ao toque, tive vontade de dividir com o querido deitado ao lado mas,por artes do demônio, desisti. Queria mesmo era falar da maciez ao pegar, das folhas amareladas de fio vermelho, e das letras bem cuidadas. Tem livros novos que as capas brilhantes me dão gastura na gastrite atrófica e fico pegando neles com ajuda de papel. E esse de hoje me dá conforto e gratidão. Além do que, o mais importante, o conto, que descreve as miudezas e imperfeições dos humanos através do inteligente olhar de uma robozinha menina de nome Klara, que aos poucos vai colecionando e desenvolvendo imagens. Não sei se é isso mesmo. Mas com a Klara ou através dela também vou colecionando e desenvolvendo imagens. E desembrulhando o livro.

 

Esse livro deixou no seu rastro do quase dormir o sonho do livro quase dourado e do amigo sumido. Quando, nesses dias de pandemia, o que mais tenho tido são sonhos no mundo dos mortos.

28/08/2021

A segunda banda de agosto

 

Vista aérea de Acari (imagem Job Drone)

Heraldo Palmeira

Ainda é agosto em Acari. Não há mais o rebuliço da primeira quinzena, tempo da festa da padroeira. Chegou a segunda banda do mês, voltou a calmaria tradicional de uma pequena cidade do interior. A costumeira falta de pressa, o mesmo calor do semiárido nordestino, a velha contagem progressiva até agosto do ano que vem, onde faremos tudo de novo para louvar Nossa Senhora da Guia.

Para começar o dia, um desjejum sertanejo antes do passeio de catamarã pelo açude Gargalheiras, Paulinho Gargalheiras pilotando e os Dedés de Milton a postos na companhia, fotografias e profunda amizade – Robertão de Davi não foi localizado, estava comendo estrada nos afazeres costumeiros. Ocasião de visitar muitos recantos adormecidos na memória da infância, oportunidade de ver de perto e em outros ângulos surpreendentes imagens conhecidas sempre avistadas de longe ou aproximadas pelo zum das câmeras.

A quantidade de água represada ainda permite atividade pesqueira. As vazantes estão enfeitadas por pequenos roçados de feijão, batata e capim para o pasto que mantém pequenos rebanhos leiteiros, os animais sabiamente refestelados próximos à margem.

No alto de um dos serrotes de pedras e caatinga da cordilheira, uma grande colmeia que chamamos de arapuá em razão do nome da abelha que abriga – sem ferrão, louca por se enroscar nos cabelos de quem chega perto, produz pouco mel (que não desperta interesse comercial) e cera de odor desagradável. Mais adiante, as flores de alguns tipos de cáctus demonstram a convivência harmônica entre aridez e fertilidade.

Os lugares reservados do grande açude testemunham o milagre da natureza em pleno viço dos seus ciclos de transformações. Plantas, flores, pássaros, camarão, tucunaré e outros peixes... Tudo ali, compondo um belo ecossistema.

Um cachorro da melhor linhagem dos vira-latas nos recebe desconfiado à margem de uma propriedade sem vivalma. Mas leva pouco tempo para, amparado em algum tipo de parâmetro insondável, nos considerar confiáveis e passar a nos seguir animado pelas terras férteis das vazantes. Uma casa de taipa dos velhos tempos é uma viagem no tempo, inclusive pelo abandono e o estado de semidestruída.

No reembarque, nosso guardião tomou um belo banho de açude e, por pouco, não subiu na embarcação para continuar suas mesuras de anfitrião. Ou para aproveitar o encantamento das novas amizades.

Já em terra firme, um banho reconfortante e a pequena viagem de carro até Acari. Caminhar pelas ruas semidesérticas é um bom exercício de reencontro com o silêncio repleto de memórias. O casario vai passando como cenário do que foi vivido atravessando tempos ancestrais, inclusive pelos nomes dos velhos moradores que vão surgindo nas lembranças.

A praça principal em obras retirou de cena o velho coreto e a sede da difusora onde dei meus primeiros avisos ainda com voz infantil – palpitações seminais do meu amor de vida inteira pelo rádio. Reconstruídos, não serão mais os meus, permanecerão em velhas fotos esquecidas em gavetas e baús.

Mais adiante, uma casa senhorial enorme, que já representou a opulência dos coronéis da agricultura e da pecuária. Hoje, celebrando seu primeiro centenário de construção, peleja para não virar escombro e recuperar um pouco da antiga imponência.

Em busca de providências de restauração, a velha casa que pede socorro pode esticar o olho adiante e enxergar uma construção erguida entre 1878 e 1887. Concebida nos moldes do Brasil Império como Casa de Câmara e Cadeia, juntou no mesmo espaço a Câmara Municipal (parte superior) e a Cadeia Pública (parte inferior, que funcionou no local até meados dos anos 1980). O prédio foi tombado em 1964 pelo IPHAN-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, coroando o seu valor histórico e arquitetônico. Depois de várias utilizações como sede de biblioteca, de ações sociais da prefeitura e da banda de música, hoje abriga o Museu Histórico de Acari.

Dominando a cena da praça principal a bela Igreja do Rosário, que um dia foi simples capela. Dizem os historiadores, erguida por exigência da mãe de um senhor de terras e pecuarista pioneiro, que se instalou quando tudo era sertão inóspito, incerto e infinito habitado por índios valentes, pouco amistosos e embrenhados na caatinga.

Dona Maria da Purificação, mãe do desbravador, colocou uma única condição para vir viver com o filho: ver erguido o primeiro abrigo de Nossa Senhora da Guia, nossa padroeira, de quem era devota – muitos garantem que ela nunca pisou nossa terra.

Manuel Esteves de Andrade, que mandou construir para atender o capricho materno, ganhou a honraria histórica de fundador da cidade talvez pelo fato de que, naqueles povoados de outrora, tudo se formava ao redor das igrejas. Ainda mais num povo de proeminente religiosidade.

Ali ao lado, razoavelmente conservada, está a casa senhorial do homem que dominou a atividade do algodão, cujas usinas viraram ruínas e não dizem nada a respeito da riqueza que geraram há poucas décadas. Até as lendas sobre a devastação da cultura do “ouro branco” pela praga do bicudo começam a amarelar pelo efeito do tempo.

Mais adiante, o ponto onde Toinho do Quentão estaciona todas as noites sua velha kombi branca – um legítimo food truck muito antes desse conceito virar moda – para oferecer deliciosos cachorros-quentes e outras coisas ligeiras, sem contar o cafezinho gentil e gratuito. Quase vizinho de parede-meia imaginária da Barraca de Nossa Senhora da Teima, que só funciona de manhã, onde Mané de Barnabé vende suas confecções populares sem deixar a prosa esfriar, quente feito a sopa espetacular que ele serve em casa para privilegiados como eu.

Reverenciando esses dois amigos comerciantes embiquei na chamada rua da Matriz, pensando que o tempo fez o pequeno povoado virar vila e depois cidade, e uma nova matriz foi erguida no alto do que chamamos “colina sagrada”, exatamente no topo daquela rua. Até hoje permanece ladeada pelo Grupo Escolar Tomaz de Araújo e o antigo Jardim de Infância de Acari (agora Biblioteca Maria de Jesus Bezerra, homenagem a uma das nossas matriarcas e mãe de diversos acarienses ilustres).

Não causa qualquer desconforto subir até lá pela ladeira suave, que mantém parte do casario antigo dos dois lados da rua larga onde vivem descendentes das famílias tradicionais. Apesar das reformas arquitetônicas em algumas das casas, ainda é possível respirar um resto da história. As árvores do canteiro central oferecem sombra suficiente, com bancos para um momento de reflexão olhando para o nada do tempo ou para a matriz majestosa.

Hora de subir a escadaria do átrio, mandada construir em tempos mais recentes. Talvez porque as novidades são raras numa pequena vila como a nossa, a obra virou assunto de todas as rodas de ponta de calçada e redes sociais. Despertou paixões a favor e contra, gerou toda sorte de opiniões como uma barraca da teima ampliada. Hoje, dá solenidade ao templo e tem grande eficiência para, nas grandes celebrações campais, abrigar idosos, pessoas com deficiência e até a banda de música que tanto nos orgulha.

Entrei na velha matriz como quem entra em casa, revendo meu lugar solene de oração desde menino. A mesma beleza, o mesmo silêncio, a mesma sensação de frescor que acolhe e acalma o espírito – dei sorte, não havia mais ninguém além de mim naquele momento.

Ainda estamos processando uma grande mudança. Na verdade, aprendendo a compreender o fato de nossa matriz ter sido elevada à dignidade de basílica menor pelo papa Francisco. Sim, somos sertanejos fervorosos, mas essas grandezas litúrgicas estão distantes do nosso cotidiano simples por natureza.

O que conhecíamos apenas como a casa de Nossa Senhora da Guia recebeu retoques arquitetônicos – desnecessário lembrar que o trelelê sobre as obras foi enorme – para seus novos desígnios de basílica menor. Passou a ser um templo diretamente ligado à Santa Sé. Levará um tempo para inserirmos tanta pompa e circunstância ao cabedal de devoções que conhecíamos até aqui.

Para estabelecer uma sintonia fina com a nova realidade é preciso visitar um corolário – nos diz o dicionário que corolário “é uma verdade que decorre de outra, que é sua consequência necessária ou continuação natural”. Uma volta no tempo até 1737, onde os registros históricos guardam a petição assinada por Manuel Esteves de Andrade para construir a capela de Nossa Senhora da Guia – há versões dando conta de que obras foram iniciadas dois anos antes e o tal documento apenas oficializou a realidade.

Veio a inauguração em 1738, com a bênção episcopal. No altar, a chamada “imagem primitiva”, de estilo barroco popular cujas feições e demais traços indicam que pode ter sido talhada por algum santeiro paraibano, hoje mantida em pequeno altar da casa paroquial.

O povoado começou a se formar ao redor da capela que passou por obras de reforma e ampliação em 1792, quando adquiriu o belíssimo formato atual, cujo porte permite avaliar a pujança do lugarejo naqueles tempos.

Em 1833, a vila de Acari conquistou sua emancipação de Caicó e tornou-se município. Em 1835, com a criação da paróquia de Nossa Senhora da Guia, o templo erguido pelo fundador foi elevado à dignidade de igreja matriz.

Décadas depois, o padre Thomás Pereira de Araújo – desde seu ancestral português, o quarto homem de mesmo primeiro nome na família – era o pároco da comunidade. Diante da ameaça de o poder público confiscar as propriedades das irmandades religiosas, ele simplesmente vendeu as fazendas de gado e passou a dispor de bom capital em espécie nos cofres da paróquia.

Dotado de grande visão de futuro, fez uma análise econômica do ambiente rural e urbano e vislumbrou a tendência de crescimento da comunidade. Assim, lançou-se ao empreendimento mais reluzente do seu legado: a construção da nova matriz no alto da colina sagrada dos acarienses. A obra, que teria começado em 1853, estendeu-se por doze ou catorze anos. O visionário ergueu um templo cuja imponência e beleza impressionam até hoje. É justo deixar os pudores de lado e reconhecer ali uma das mais belas igrejas católicas do estado.

No Natal de 1862, quando a capela-mor já se encontrava coberta, foi celebrada a primeira missa, presidida pelo padre Thomás. A obra foi concluída em 1863 – a data alusiva está impressa no alto da fachada principal –, “quando ela ficou coberta e fechada”, conforme crônica da época.

Foram mais quatro anos de preparação, com a construção dos altares em madeira, pintura, paramentação (alfaias que permitem o funcionamento pleno de uma grande igreja, tais como roupas e vasos litúrgicos, toalhas, pia batismal etc.). E, óbvio, a belíssima imagem de Nossa Senhora da Guia, de estilo barroco, adquirida especialmente para a trasladação da antiga matriz, ocorrida na abertura da festa em 5 de agosto de 1867.

Realizada a cerimônia, a antiga matriz foi dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Hoje, além da condição de a mais antiga do estado que ainda permanece de pé, é mais uma joia do patrimônio histórico, também tombada pelo IPHAN em 1964.

Em 2013, foi realizada uma grande reforma na matriz para comemorar o sesquicentenário daquele 1863 que está no alto da sua fachada principal. Para mim, um ano de redobradas alegrias porque lancei o filme documentário Agosto em Acari, onde a própria comunidade deixou gravados sinais claros de que a fé dos nossos antepassados estava preservada numa atmosfera religiosa perene e que vai atravessando gerações. Valeu cada minuto dos cinco anos que levei para realizar o projeto.

Também naquele ano histórico de 2013 ocorreram as primeiras ideias e conversas a respeito da elevação da matriz à dignidade de basílica. A partir de 2018, o processo finalmente ganhou corpo.

O documento foi publicado pelo Vaticano em 19 de março de 2021, dia consagrado a São José, tão caro a nós sertanejos – ainda mais se chover, sinalizando inverno e farta colheita nas nossas crenças populares.

No dia 25 do mesmo mês tivemos a solenidade de dedicação, rito de consagração da matriz e do novo altar, e a publicação do Decreto Pontifício que elevou a nossa matriz à dignidade de basílica menor. Ali, a paróquia de Acari passava a desfrutar de um honroso privilégio pontifício, a ligação de seu principal templo por um vínculo especial de comunhão à Cátedra Romana de Pedro, ao papa atual e seus sucessores.

Fechando a cerimônia, nos céus de Acari a fumaça da enorme quantidade de fogos parecia anunciar ao mundo “Habemus basílica!” (Temos uma basílica). Nos demos conta de que aquela matriz majestosa tatuada em nossos corações é agora a Pontifícia Basílica Menor de Nossa Senhora da Guia do Acari, a primeira basílica do Rio Grande do Norte.

Correndo os olhos pelo decreto Domus ecclesiae (Casa da Igreja) da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, onde estão listadas as normas para concessão do título de basílica menor, encontramos outras pistas importantes para tamanha conquista:

“A igreja, para a qual se pede o título de basílica, deve ser dedicada a Deus com o rito litúrgico e tornar-se, na diocese, um centro de atividade litúrgica e pastoral, sobretudo para as celebrações da Santíssima Eucaristia, da penitência e dos outros sacramentos, sendo exemplar quanto à preparação e desenvolvimento, fiéis na observância das normas litúrgicas e com a ativa participação do povo de Deus.”

“A igreja goza de certa fama em toda a diocese […] ou ainda porque se venera em modo particular alguma imagem sacra. Se considerem também o valor da igreja, ou seja, a importância histórica e a sua beleza artística […] pede-se ainda um suficiente número de ministros e um apropriado coral, para favorecer a participação dos fiéis também com a música e com os cantos sacros.”

A presença do acariense Eugenio de Araújo Sales na história recente da Igreja deve ser considerada com relevo. É inegável que ele deu conhecimento à Santa Sé do nome da cidade e sua fervorosa e secular vivência religiosa.

O trabalho virtuoso e incansável, bem como a serenidade dos sacerdotes Fabiano Dantas, Flávio Medeiros e Raimundo Sérvulo, dos quais sou feliz testemunha, ergueram e acomodaram cada cristal do projeto no devido lugar e sem nenhum trincado.

E o corolário volta ao ritmo cronológico pelas mãos do padre Emanuel Medeiros, que está sendo acolhido agora pela comunidade como novo pároco da cidade. Quem achou que ele teve sorte por chegar com a obra da basílica pronta ainda não entendeu o rumo dessa prosa.

Caberá a Emanuel ratificar o fervoroso trabalho de Fabiano e conduzir o primeiro tempo de sedimentação da nova relevância do nosso templo diante do povo de Deus. Operar como pastor para que a chama da fé nos permita fazer a conexão espiritual da matriz que guardamos por séculos com a plenitude do seu significado de basílica. Que ninguém se iluda, um trabalho tão hercúleo quanto foi o de quem colocou tijolo sobre tijolo do edifício da nossa fé, desde aquele longínquo ano da graça de 1737. Ou até antes, quando o sopro divino parece ter tocado o espírito de dona Maria da Purificação criando o ponto zero do nosso corolário religioso, que caberá a cada vigário transmitir ao seu sucessor e assim por diante.

O mais firme alicerce sempre esteve na comunidade, que transformou Acari numa referência litúrgica a partir do fervor que nos guia desde os tempos dos desbravadores. Somos o povo que, acostumado a desafios, vai honrar mais e mais a dignidade que nos foi concedida pelo santo padre. Não há o menor perigo de ser diferente.

Findei minhas orações e permaneci absorto na observação da parte interna da basílica. De repente, começou a entrar pelas enormes portas e janelas o aroma que saía das cozinhas das casas ao redor, sinal definitivo de que a hora do almoço sertanejo era chegada. Claro, eu também sou filho de Deus, merecia prato, talheres e copo.

Levantei-me devagar de um banco qualquer no meio da nave central, onde sempre costumo ficar durante minhas orações – como também é bom uma igreja vazia! Já de costas para o altar, olhei para o alto e, na balaustrada do mezanino do coro, enxerguei o brasão da basílica, boa fonte de tradução da nova realidade daquele templo.

Fui correndo a vista de alto a baixo, lembrando do que me ensinaram sobre ele o padre Fabiano Dantas e Canindé da Igreja Medeiros.

Brasão da Basílica de Acari (imagem: divulgação da paróquia)


Umbrelino basilical: em listras vermelhas e amarelas que representam as cores do pontificado, é uma insígnia exclusivamente pontifícia e presente em todas as basílicas, sempre ao lado do tintinábulo (sineta). Nas antigas liturgias eram utilizados quando o papa em pessoa participava de uma procissão, a umbrela para lhe proteger do sol ou da chuva e o tintinábulo para anunciar sua presença. As basílicas, por sua dignidade, recebem esses dois símbolos visíveis para designar sua profunda comunhão com o sucessor de São Pedro e representar sua prontidão para receber o santo padre.

Chaves petrinas: uma amarela, uma prata, cruzadas, guarnecem o escudo central demonstrando a sintonia da basílica com o papa e a Igreja universal. O cordel vermelho que as mantém atadas representa o sangue que o vigário de Cristo deve se dispor a derramar pela Igreja.

Cadeia de montanhas: na cor prata e na posição de proeminência no topo do escudo, faz referência ao território de Acari com as cordilheiras que representam a fortaleza natural dada por Deus em nossa geografia. A parte verde (mais abaixo) remete aos tempos de chuva e à exuberância da natureza em viço, conforme consta nas segunda e terceira estrofes do hino da padroeira.

- Desde o serrote florido até o rio corrente [...] se o campo em festa floresce, se o perfume a flor derrama.

Ondeado: em azul e prata, é uma referência ao rio Acauã que banha nossas terras e guarda as origens de Acari. No campo espiritual revela as águas batismais que fazem brotar inúmeras gerações para o louvor católico de Deus.

Estrela de seis pontas: em amarelo, aplicada sobre a cadeia de montanhas, representa Nossa Senhora da Guia. O fundo prata sobre o qual está aplicado também representa a aurora de Deus.

Monograma mariano: em amarelo, coroado, e calçado pela lua prateada, faz alusão à própria Virgem Maria no Livro do Apocalipse e igualmente na invocação de sua novena. O fundo azul, na arte cristã, remete à virgindade de Maria.

Cristograma: em amarelo, representa a presença de Jesus Cristo como rei e centro, princípio e fim de todas as coisas. O fundo vermelho representa o sacrifício na cruz como meio de salvação.

Listel: em letras pretas sobre fundo prata, traz a inscrição “DEVOTIO MARIAE ACARYENSIS GLORIA” (Devoção a Maria, glória do acariense), que reproduz trecho da homilia proferida pelo acariense cardeal Eugenio de Araújo Sales na missa de 15 de agosto de 1995, celebrando os 160 anos da criação da paróquia de Nossa Senhora da Guia.

Devemos aprender e compreender o significado da basílica como uma coroação histórica. O ato de transmitir tamanho valor à nossa posteridade será uma forma de gratidão aos nossos antepassados, um meio de manter viva a história religiosa que eles começaram e que é nosso papel dar seguimento.

Uma nova realidade provavelmente se instalará, Acari poderá virar destino de peregrinações e turismo religioso. Que Nossa Senhora da Guia, de sua basílica, nos dê sabedoria para manter nossa tradição de religiosidade e de acolhimento cristão a quem chega. E que nos guie para operar as mudanças em benefício da obra pastoral e da comunidade que vimos construindo desde que o pequeno povoado foi se formando ao redor da capelinha erguida por Manuel Esteves de Andrade.

Os coroinhas começaram a chegar para, liderados por Canindé, grande sacristão que formou gerações deles, iniciarem a salva do meio-dia. Hora dos avisos paroquiais bradados pela voz alegre dele nas difusoras instaladas nas torres frontais e na parte mais alta do fundo da basílica – parte integrante do grande projeto de sonorização que desenhei, ajudei a comprar (com outros três devotos) e instalei (com técnicos especializados que trouxe de São Paulo e Brasília) na grande reforma de 2013.

Estava próxima a hora de o campanário oferecer o belo ritual da linguagem dos sinos. Fui saindo devagar e desci a escadaria solene. Restava o tempo certo de chegar à mesa do almoço e ouvir o sinal da fé sertaneja espalhado sobre nossa comunidade em ondas sonoras. Por coincidência, o som do carro começou a tocar algo que pareceu coisa combinada.

Já bate o sino, bate na catedral

E o som penetra todos os portais

A igreja está chamando seus fiéis

Para rezar por seu Senhor

Para cantar a ressurreição

Já bate o sino, bate no coração

E o povo põe de lado a sua dor

Esquece a sua paixão

Para viver a do Senhor

 

Agradecimentos a Adriano Campelo, Canindé Medeiros, Fabiano Dantas, Jobel Araújo, Maria Izabel Medeiros e Netinho de Pinta.

Trechos de:
Hino de Nossa Senhora da Guia (Felinto Lúcio Dantas-Palmira Wanderley)
Paixão e fé (Tavinho Moura-Fernando Brant)