-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

06/01/2017

A Herança do Grego

El Greco - El Caballero con la Mano en el Pecho - imagem Wikimedia.org

Moacir Pimentel

Hoje conheceremos mais um pouco sobre Doménikos Theotokópoulos, o Grego, e o Cavaleiro com a Mão no Peito, nesta tela pintada em 1580 e que mora no Museu do Prado, em Madri.

Veremos como o Grego foi um grande amalgamador da tradição bizantina e da sua herança veneziana, florentina e sienense, não necessariamente na forma mas no espírito da sua obra, e como apesar de tão nítidas influências, ele foi também e acima de tudo, um fantástico inoculador, deixando a marca de sua tensão angular em tudo que criou.

Na exposição sobre o Grego, na linda cidade de Toledo, na Espanha, disseram-nos que o pintor nascera em Candia, na ilha grega de Creta, onde recebera treinamento como pintor de ícones pós-bizantinos e provavelmente estudara os clássicos greco-romanos.

Com o inventário feito por seu filho Jorge Manuel demonstraram-nos cabalmente que El Greco deixou uma biblioteca de cento e trinta livros, entre eles obras clássicas de Homero, Apiano Alexandrino, Xenofonte e obras consagradas a Alexandre Magno, Petrarca, Orlando o Furioso, de Ariosto, Platão, Aristóteles, as Metamorfoses de Ovídio, uma Bíblia grega, tratados sobre arquitetura, várias cópias do tratado de Vitrúvio, e o melhor de Serlio, Vignola e Palladio, atas do Concílio de Trento e, é claro, um Varasi, o biógrafo dos artistas.

O que os livros de El Greco nos esclareceram é que ele era um erudito e que, através de um intenso estudo autodidata do trabalho de outros artistas e arquitetos e homens de letras, começou a considerar a pintura como um discurso autônomo, como uma ciência especulativa, que ia além da mitologia, dos temas religiosos e da história.

Em 1563, com a idade de vinte e dois anos, o Grego fora descrito em um documento como o Maestro Domenigo, o que significava que já era um membro da guilda de pintores cretenses e, presumivelmente, trabalhava em seu próprio atelier.

Deste período da vida do artista, pudemos apreciar na exposição,  vindos da coleção bizantina do museu Benaki de Atenas, os quadros São Lucas Pintando a Virgem e a Criança - um auto retrato do artista pintando um ícone - e a Adoração dos Magos. Fazendo companhia a essas obras menores lá estava também uma magnífica Coroação da Virgem, cedida pela Fundação Onassis.

Como Creta pertencia à Sereníssima República de Veneza, pareceu-nos natural que o jovem Grego, um cidadão veneziano de fato e de direito, tenha desejado continuar sua carreira naquela cidade italiana entre os anos de 1567 e 1570. De acordo com prova histórica documental ele foi aluno de um já octogenário Ticiano. Em Toledo vimos o quadro A Cura do Cego, que gritava a influência do professor veneziano no trabalho do aluno.

El Greco - A Cura do Cego - imagem fr.wahooart.com



No entanto El Greco foi ainda mais influenciado por Tintoretto e Veronèse. E quem olha, como fizemos na ocasião, para a Madona do Longo Pescoço, de Parmegianino, entende qual a origem dos maneirismos do artista e dos seus corpos e mãos longilíneos. O Grego visitou Parma a caminho de Roma e na sua obra essa escala também deixou pegadas.


Parmigianino - Madonna del colo lungo - imagem pureandlowlyfiles.wordpress.com

No Museu da Santa Cruz nos deparamos com a primeira obra do retratista El Greco: O Retrato de Giorgio Giulio Clovio, o seu melhor amigo na Itália, que viera de Nápoles para contrastar com o estupendo retrato do Cardeal Fernando Niño de Guevara usando revolucionários óculos que pertence ao Metropolitan Art Museum de Nova York.

El Greco chegou à cidade dos papas com uma carta de recomendação de Ticiano. Sob a proteção do cardeal Alessandro Farnese conseguiu algumas encomendas da corte romana e assinou suas primeiras obras como Dominico Greco.

No período que El Greco passou em Roma hospedou-se no Palazzo Farnese, o centro pulsante de vida intelectual e artística da cidade. Ali travou contato com a elite pensante romana, enquanto elaborava novas e incomuns interpretações dos temas religiosos tradicionais, ainda renascentistas, mas já com figuras ágeis, alongadas e um vigor cromático que refletia Tintoretto.

Dos pintores venezianos ele herdara a elegância da composição, organizada em paisagens vibrantes e luz atmosférica, pois as sombras sempre conduziram melhor suas ideias antes da Veneza. Já Roma lhe legou uma perspectiva mais violenta, figuras em atitudes estranhas e de gestos tempestuosos - muitos dos elementos do maneirismo.

Tudo parecia ir muito bem até que uma polêmica declaração sobre a obra do mestre dos mestres Michelangelo desviou Domenico do seu caminho para o estrelato.

Quando El Greco chegou a Roma tanto Michelangelo como Rafael já haviam morrido, mas seus exemplos continuavam influenciando os jovens pintores. Só que o Grego estava determinado a imprimir sua própria marca e a defender sua própria visão artística, suas ideias e estilo pessoais. Por isso não hesitou em criticar o Juízo Final de Michelangelo.

Sabendo que o Papa Pio V queria recobrir alguns nus da Capela Sistina, o Grego se ofereceu, não para recobri-los, mas para pintar de novo todo o teto, destruindo a obra original de Michelângelo, do qual ele criticava o uso do colorido. Este acesso de arrogância juvenil (o Grego ainda não havia completado trinta anos e Michelangelo, que havia morrido poucos anos antes, ainda tinha sua genialidade bem viva na memória dos romanos) custou caro a Domenico, que admirava o gênio do mestre como escultor mas chegou a dizer que ele “era um bom homem que não sabia pintar”...
Causou tanta antipatia no meio artístico que foi condenado ao ostracismo por Roma e ficou tido e havido como um tolo e um pintor maldito durante quase trezentos anos. Suas formas e cores não naturais foram tão criticadas que chegaram a ser consideradas piadas de mau gosto.

A narrativa dessa crítica de um gênio ao trabalho de outro maior ainda foi um dos temas abordados pela exposição, pois a Capela Sistina é sim uma cachoeira de corpos, uma montanha de carne de lírica profanidade, mas é o melhor do Renascimento.

Não foi apenas El Greco a se chocar com a obra. Várias teorias foram desenvolvidas através dos tempos, entre elas a de que no afresco A Criação de Adão, por trás das figuras de Deus e de Adão e das duas mais belas mão humanas já pintadas, Michelangelo reunira todos os coadjuvantes angélicos de modo a formar um cérebro humano.

Michelangelo - A Criação de Adão - imagem: wikipedia.org\wikimedia\commons

 Michelangelo Buonarotti passara pelo menos vinte anos adquirindo conhecimentos anatômicos através das dissecações que praticava pessoalmente, sobretudo no convento de Santo Espírito de Florença, e portanto, ao representar o dom da inteligência conferido à humanidade com um cérebro, sabia muito bem o que fazia. Introduzira na narrativa pictórica um terceiro protagonista, fato que, à época, desagradou os cardeais.

Da mesma forma deve ter causado polêmica a felação que a serpente comete em um pobre Minos no Inferno, que não por acaso até hoje muito se parece com o Cardeal Biagio da Cesena, que então, desempenhava as funções de porta-voz do Vaticano.

Com certeza nem todos entenderam, no teto da Capela, os vinte magníficos e musculosos nus masculinos - os Ignudi - em estranhas e torcidas posições, rodeados por coroas de folhas de carvalho, sobre cujos ramos repousavam milhares de bolotas, os frutos do carvalho que se assemelham ao pênis, ou aquilo que na gíria do Trastevere é chamado de “testa di cazzo”.

Uma explicação para tal exuberância da flora pode residir no fato de que o papa Papa Sisto IV, construtor da Sistina e nascido Francesco della Rovere, pertencia a uma das mais tradicionais famílias italianas, cujo brasão de armas era um carvalho, “Rovere” em italiano. (rsrs)

Por certo deve ter causado um certo incomodo à sociedade romana - apesar de ser do conhecimento geral que Michelangelo jamais usara modelos femininos e que os corpos das suas vigorosas Sibilas e Eva, tinham sido pintados a partir da observação de corpos masculinos - reconhecer nas faces das heroínas da Sistina, o rosto nobre de Tommaso dei Cavallieri, lembrado por ter sido durante décadas um dos grandes amores de Michelangelo.

Nada disso significa nem que Michelangelo tenha pintado uma ode ao amor masculino - lembremo-nos que o ideal grego de beleza já dizia que o homem era a medida de todas as coisas - nem que o Grego tivesse razão nas suas críticas artísticas.

O certo é que os afrescos da Sistina navegaram tranquilamente por várias tempestades de fanatismo religioso e que, entre mortos e feridos por folhas de parreira em lugares estratégicos, todas as suas figuras se salvaram em tempos quando se devia acreditar que preto é branco e branco é preto, se a Igreja assim o dissesse.

Esse parágrafo da história do Grego pinta-o muito mais como um jovem pintor ambicioso que acreditava ser tão talentoso quanto os melhores, do que como um puritano.

As convicções artísticas ortodoxas e a reprovação à pintura de Michelangelo do Grego determinaram o seu destino. Soubemos durante a na exposição que fora descoberto recentemente um documento revelador de um desentendimento do artista com o mecenas Farnese, fato que obrigara o jovem a deixar o Palácio e a abrir seu próprio estúdio. Já que suas opiniões não davam crédito nem ao seu bom gosto nem à sua arte, o Grego deixara de ter encomendas.

O pintor não foi expulso da cidade eterna por colegas furiosos. Ao fugir para a Espanha provavelmente ele escapava das dívidas. Mas faz sentido a retirada, se entendermos como frustrante se tentar por toda uma vida e em vão, superar o insuperável. Realmente foi melhor para o Grego ir para um remanso onde poderia trabalhar em paz, onde ninguém sabia nada sobre arte, onde ele teve liberdade para buscar o próprio estilo, a uma distância segura da Capela Sistina. Talvez as críticas do jovem mestre fossem apenas a arrogância da juventude confrontada com um desafio impossível.

Assim, ele partiu para a Espanha. Sua ideia era se instalar em Toledo, a cidade que, apesar de estar decadente - fora capital do país até 1561, quando foi substituída por Madri - estava construindo o mosteiro de Escorial, o que significava boas oportunidades de trabalho para os artistas italianos.

Mas antes passou por Madri, onde reinava o poderoso Felipe II, líder espanhol da Contra-Reforma, o movimento da Igreja Católica para barrar o avanço do protestantismo na Europa. Felipe também era famoso por patrocinar a arte e a cultura espanhola. Domenikos, então Dominico, resolveu assumir o codinome El Greco, que ao misturar o artigo espanhol e o substantivo italiano, provavelmente, queria dizer que ele não era uma coisa nem outra.

Em Madri, El Greco ganhou a simpatia de membros da corte e o próprio rei lhe pediu que pintasse O Martírio de São Maurício para ocupar um lugar nobre na basílica do Escorial. Só que Felipe queria algo bem sangrento, literalmente um martírio, e eis que El Greco mandou ver uma obra que mostrava pessoas serenas, sem traços de alarme ou de medo. Contrariado, Felipe II pagou pelo trabalho, mas pendurou-o num espaço bem escondido e encomendou outra tela com o mesmo tema para outro artista. Era uma vez Madri para El Greco.

Em 1577, depois do episódio, não se sabe se por ordem do rei Felipe ou por iniciativa própria, o Grego partiu para Toledo, de onde nunca mais sairia até sua morte. Com o único dinheiro que lhe restara – o do pagamento do rei –, alugou nada menos do que o palacete do conde de Villena, o mais belo e suntuoso da cidade. Mas o talento de El Greco triunfou em Toledo.

Sua primeira encomenda foi um conjunto de pinturas para a igreja de São Domingos. O desenho dos altares foi feito no estilo do arquiteto veneziano Palladio. O quadro pintado para o altar-mor, A Assunção da Virgem, marca um novo período na vida do artista. E a influência de Michelangelo – quem diria! – começa a aparecer nos seus desenhos de figuras humanas. 

El Greco - A Assunção da Virgem 

Outra das principais obras do período romano do Grego, a Pietá, que tivemos o prazer de ver em Toledo, não poderia ter sido mais influenciada por Michelangelo. 

Chamou-nos ainda a atenção por lá, uma tela cedida pela National Gallery da capital americana à exposição. A explicação mais comum para o fato do Grego ter retratado nesse quadro intitulado A Purificação do Templo as figuras de Michelangelo, Ticiano, Clovio e, presumivelmente, de Rafael, como cambistas sendo banidos do Templo, é a de que ele, simbolicamente, estaria faxinando a Igreja católica da arte profana.

El Greco - A Purificação do Templo



 Mas talvez, contrariamente, ele também pudesse estar expressando sua gratidão aos mestres e revelando a pretensão de rivalizar com eles, como indicam comentários da lavra do cretense, registrados no livro de Vasari, o biógrafo dos artistas, nos quais ele considerava Ticiano, Michelangelo e Rafael exemplos a serem seguidos.

Pudemos, na realidade, verificar que nas primeiras obras de El Greco em solo espanhol, Michelangelo foi o sal das tintas, a pimenta das telas. Como por exemplo, na crucificação ladeada pelos dois ricos doadores toledanos, uma adaptação de desenho do Cristo na Cruz do italiano.

O maneirismo, a maneira só dele de El Greco pintar a vida, a sua falta de interesse na perspectiva dos fundos, a enorme expressão dos rostos e corpos representados subjetivamente, a ausência da narrativa objetiva, tudo isso era Michelangelo. Sem dúvida estávamos diante de um paradoxo.

Somando-se a isso algumas técnicas venezianas, ele inaugura um estilo próprio e novo, com diferentes intensidades das cores e contrastes, intrigante e absolutamente pessoal. O resultado são figuras alongadas em forma de chama, geralmente pintadas em cores frias, lúgubres e azuladas, expressando um intenso sentimento religioso.

Seu prestígio cresceu ano após ano. Encomendas não paravam de chegar de todas as regiões da Espanha, e ele precisou contratar ajudantes para dar conta do recado. El Greco enriqueceu e no auge da fama, nada assustava ao poderoso artista. Nem mesmo a Inquisição.

Esse período, os últimos quinze anos de sua vida, foi um dos mais profícuos para sua criação. Quanto mais doente estava, mais se acentuava a característica verticalidade de suas figuras e os ritmos das linhas baseadas na espiral e mais a crítica o considerava louco.

A tarde passou voando dentro do Museu da Santa Cruz e em meio a tantas visões de tão talentosos mestres. Saímos da exposição rumo à Fortaleza de Alcázar, a fortaleza de pedra que preside à cidade do seu ponto mais alto e que já foi Pretório Romano, no terceiro século, palácio imperial para reis visigodos, fortaleza árabe no décimo século, bastião cristão em 1540, cidadela destruída por vários incêndios e praticamente demolida durante a Guerra Civil Espanhola e restaurada por Franco.

Lá costumamos ir, não para visitar a fortaleza nem para apreciar as relíquias militares do museu no qual se transformou, mas porque Alcázar tem um segredo: depois da biblioteca e tomando um mal humorado elevador a gente chega a uma sombria cafeteria e ao mirante onde se pode tomar um café apreciando as longas vistas.

Vistas tanto dos maravilhosos jardins que circundam a fortaleza quanto dos horizontes de Toledo, dos seus edifícios, das mesquitas e sinagoga, dos seus telhados e praças, das torres de sua Catedral e igrejas, dos seus quase minaretes, do Mosteiro de los Reyes Franciscanos, das casas medievais pelas suas encostas, do Bairro Judeu, das portas mouras, das suas três culturas, do Rio Tejo que envolve a cidade, das suas pontes e das mansões medievais de veraneio à sua beira, hoje transformadas em pousada de luxo.

Diante de nós estava, mais uma vez, uma visão de Toledo de tirar o fôlego. Nós respiramos fundo e nos encontramos com a cidade e entendemos a devoção por ela experimentada pelo grande pintor.

"Aqui jaz o grego de quem a natureza aprendeu a arte.”

O epitáfio não poderia ser mais apropriado para descrever a vida de alguém que se achava acima do bem e do mal. Domenikos Theotokopulos sempre teve certeza de sua incrível genialidade, mesmo quando os outros o chamavam de louco e incompetente, ou diziam que as figuras deformadas e estranhamente assimétricas que pintava não eram um estilo, mas fruto de uma doença na visão.

Descemos do Alcázar pensando no quão belas eram as duas vistas de Toledo - a real e a imaginada. De volta à Toledo antiga, estávamos prontos para experimentar a Idade Média no seu melhor. Pelas vielas da cidade o passado é silencioso e cuidadoso, guarda qualquer coisa mística e inexplicável, que convida a gente a se perder em pensamentos a soltar a imaginação, a sentir-se em casa entre lendas escuras e fantasmas brancos, entre minaretes árabes, praças mudejares, fachadas góticas, varandas de pedra rendada, mosaicos de sonhos, judiarias e canções sefarditas, altares barrocos e missas em moçárabe celebradas à luz de velas e ao som de órgãos. As Três Águas, o nome de uma instalação alternativa, de uma artista desconhecida que víramos naquela tarde, não nos contara sobre as três culturas que conviveram naquele local tão bem quanto aqueles becos.

Paramos para comprar açafrão. A cor vermelha brilhante e o intenso sabor terroso do açafrão de Toledo é protegido pelo estatuto de denominação de origem. Com o DO Castilla La Mancha minha senhora faz uma paella de se comer chorando.

E inspirados pelos temperos fomos atrás dos sabores. Com seu terreno acidentado e as estações extremas, Toledo tem uma rica história de uso de carnes de caça para preparar guisados saudáveis. Caímos de boca na cozinha clássica: um javali cozido no vinho tinto com legumes e aromatizado com alecrim e tomilho e uma Perdiz a la Toledana, cozida com cebolas e cabeças de alho inteiras no vinho branco. Mezzo a mezzo. E depois? Os queijos de ovelha da região e o marzipan de Toledo com a quantidade certa de doçura que só realça o sabor das amêndoas.

E continuamos virando copos, os narizes cada vez mais tintos de Rioja e escutando a música de um passado longínquo. Afinal há um limite para o tanto de arte que uma mente humana pode absorver em vinte e quadro horas. Em Toledo, numa primavera, viver, mas do que qualquer outra coisa, sempre será preciso.

No dia seguinte nos mostrariam como El Greco fora descoberto por Baudelaire, pelos expressionistas de vários sotaques, por Paul Cézanne e Picasso, por Pollock e Rivera, atraídos pelas distorções expressivas de forma e cor e pelas visões apocalípticas das suas obras.


E essa já vai ser outra história, porque em Toledo não existe a pressa...

05/01/2017

O Retorno de José

Meninos no Rio (Domingos Ferreira)



Domingos Ferreira

A corveta se deslocou de lado, no remanso junto ao barranco alto, conforme as espias (cordas grossas de amarração) eram entradas pelo cabrestante (guincho) na proa e pelo poderoso guincho da popa, com retornos em troncos de árvores da margem. O comandante achou desnecessário largar o ferro de bombordo (lançar n’água a âncora da frente esquerda), como recurso para puxar melhor a proa para fora, na próxima desatracação, programada ocorrer na manhã do dia seguinte.
Para sair dali, pareceu-lhe bastante contar somente com o emprego das máquinas. O fato de o navio ter dois hélices (masculino na Marinha), bem afastados um do outro, sempre facilitava esse tipo de manobra. Em poucos minutos, empurrado pelo forte rodamoinho na água, o navio chegou à posição desejada e a prancha foi passada para terra. Ela ficou apoiada a partir do passadiço (convés de comando), único lugar possível para acomodá-la, devido à altura da margem. Um atento e silencioso aglomerado de caboclos e índios assistia a atracação.
O major, comandante da Companhia de Fronteira, entrou a bordo acompanhado de seus oficiais. Foi recebido pelo comandante com as honras de estilo do cerimonial naval, incluindo uma guarda de fuzileiros navais, do pequeno destacamento que sempre embarcava nessas longas viagens. Os trinados do apito do contramestre e o movimento das armas da guarda causaram sensação no público e agitaram de vez as muitas crianças, até então quietas como os adultos.
Seguiu-se uma breve confraternização de oficiais da tropa e do navio, na praça-d'armas (refeitório dos oficiais). Cerca de meia hora depois, o comandante e o major saíram de bordo, juntos com seus oficiais, para uma visita protocolar ao quartel da Companhia, situado próximo da margem do rio, a algumas centenas de metros abaixo de onde estava a corveta.
Na saída, o comandante, acompanhado pelo major e pelo imediato, fez questão de percorrer o barranco por todo o comprimento do navio, para observar as condições de atracação, feita por boreste (bordo direito) da corveta e aproada à correnteza. A profundidade do canal, logo ao lado do remanso onde se abrigara o navio, era de absurdos vinte e dois metros, e sua correnteza fora estimada em quatro nós (7,3 km/hora), apesar de estarem a mais de quatro mil quilômetros da foz do imenso rio. Ali ocorria, ainda, uma permanente passagem de troncos e galhos, alguns avantajados. Dois vigias da faxina-do-mestre (grupo do convés) guarneceram a proa, munidos de longos croques (varas com ganchos) reforçados, para manter afastada da corveta a galharia que eventualmente enganchasse nela.
Do barranco, o comandante observava tudo aquilo com muita satisfação e orgulho do seu navio. Entretanto, ao se aproximar da popa, viu uma meia dúzia de meninos maiores que mergulhavam no remanso. Isso era feito a partir da borda baixa do navio a ré, e também de pontos altos dos conveses superiores, inclusive do passadiço, mais a vante, pelo lado de fora da atracação. Ele não gostou daquela brincadeira e cogitava mandar cessá-la, quando o imediato interrompeu seus pensamentos, avisando que o major os esperava junto às viaturas para levá-los ao quartel. Na pressa, o comandante arquivou o assunto e partiu com o companheiro do Exército.
A chegada de um navio da Marinha naquelas lonjuras era sempre motivo de muita festa. A recepção ao comandante da corveta e seus oficiais foi carinhosa, muito além das formalidades. Como homem do mar, ele ficou muito emocionado ao passar em revista a Companhia de Fronteira, ao som da canção “Cisne Branco”, entoada pelas crianças da escola do grupamento, em uniformes azul e branco, e agitando pequenas bandeiras brasileiras feitas por elas. A tropa era integrada por jovens caboclos e índios das diversas aldeias da região, e se apresentou de forma impecável.
Seguiu-se uma palestra, na maior sala do colégio, na qual o major discorreu sobre os diversos aspectos da existência do grupamento, naquele ponto distante do território nacional. O encontro terminou em um modesto coquetel, com a presença das famílias dos oficiais, que sempre participavam de todas as atividades civis do grupamento.
Já anoitecia, quando o comandante regressou para bordo a fim de vestir roupas civis, por haver aceito o convite do major para jantar em sua casa. Nas proximidades do barranco de atracação, percebeu um movimento anormal, com gente correndo em direção ao local. Ao descer da camioneta, notou que o oficial-de-servico estava ausente do portaló (local da prancha). O sargento-contramestre não o esperou entrar a bordo e veio correndo pela prancha para lhe dar a má notícia. Desaparecera, debaixo do navio, um dos garotos maiores que estavam mergulhando do passadiço e, carregados pela correnteza, subiam para bordo na popa.
Foi um soco no estômago. Uma perplexidade dolorida tomou conta do comandante. Pensou, imediatamente, nos pais do menino. Ele mesmo tinha um filho pré-adolescente, a paixão de sua vida. Entretanto, em instantes, reassumiu o papel de comandante, para o qual tivera anos de preparação. Sabedor de que o oficial-de-servico estava na popa, dirigiu-se apressadamente para lá. Antes, porém, enviou um sargento à Companhia para avisar ao imediato do ocorrido e dizer-lhe que regressasse para bordo com todos os oficiais. Além disso, o imediato deveria informar pessoalmente ao major o que estava se passando.
Encontrou o oficial-de-servico supervisionando a colocação de luminárias na popa para clarear a superfície da água, na qual vários homens mergulhavam em sequência, na tentativa desesperada de encontrar o garoto. Dentre eles, destacava-se um que exercia uma certa coordenação do grupo. Era um caboclo alto e desempenado o qual, ao ver o comandante, dirigiu-se a ele, acompanhado pelas demais pessoas ali presentes. O comandante teve um pressentimento logo confirmado. Era o pai do menino. Ele começou a falar de forma descontrolada. Estava todo molhado, com os olhos injetados de sangue, e ajustava nervosamente o calção velho, que insistia em descer da cintura, enquanto gesticulava trêmulo.
O pobre homem via no comandante a última esperança de salvar seu filho. Ele não conseguia se fazer entender e ficava cada vez mais nervoso. De repente, tentou segurar as mãos do seu salvador e se ajoelhou em frente a ele, em um choro convulsivo. O comandante e o oficial-de-serviço tentaram ajudá-lo a levantar-se, mas o homem insistia em ficar de joelhos. Em seguida, deitou-se no convés e foi se encolhendo, aos prantos, até ficar em posição fetal, gemendo baixinho. A perplexidade e o constrangimento dominavam a cena.
Súbito, ouviu-se a voz de uma mulher que chegava. Era a mãe, também desesperada com a situação. Ela já havia chorado muito, tudo que pudera... Contudo, ao ver seu homem naquelas condições, reagiu da forma que só as mulheres sabem fazer, em especial as mães. Abraçou-se com ele e o fez se levantar, dizendo palavras carinhosas ao seu ouvido, passando-lhe a mão no rosto e nos cabelos.
O pai, já mais recomposto e cercado pelos companheiros, dirigiu-se ao comandante, de forma muito respeitosa e lhe fez um pedido irrecusável, nas circunstâncias trágicas da ocasião. Ele queria que o navio fosse tirado dali logo, para poderem mergulhar mais livremente e ter alguma chance de encontrar o corpo do seu filho menino, o José.
O comandante foi apanhado de surpresa pela solicitação e não concordou de pronto. Disse ao homem angustiado que iria pensar no assunto e lhe daria uma posição dentro de algum tempo. Dirigiu-se para a câmara, onde se trancou, deixando antes instruções para o imediato vir falar com ele assim que chegasse a bordo. Sua cabeça estava a mil, pois a primeira idéia a lhe ocorrer era de o corpo do menino poder estar preso ao leme, entre os dois hélices. Quase certamente, seria necessário usar as máquinas para abrir (afastar) a proa do barranco e sair dali com o navio. Maldita hora em que não lançara n’água o ferro de bombordo, cuja falta agora iria complicar toda a manobra. Em outra palavras, o corpo do José corria o risco de ser despedaçado pelos hélices, girando necessariamente acelerados durante a manobra.
Muito ansiosos, ele e o imediato discutiram o assunto durante algum tempo. Examinaram todos os aspectos da manobra de desatracação do navio de onde ele estava, a ser seguida por seu deslocamento e fundeio em frente à posição atual, a cerca de cem metros da margem. Nas circunstâncias existentes, seria quase imprevisível o efeito das correntes sobre a corveta durante os poucos minutos que ela levaria para chegar à posição de fundeio, após largar da margem, girar para fora e cruzar o canal em frente, com sua forte correnteza.
Além disso, seria fundamental que toda a manobra fosse feita com o mínimo emprego dos hélices, de preferência um de cada vez, de modo a evitar ou minimizar o pior, isto é, seu provável efeito no corpo do menino. Sob esse aspecto, isso poderia ter sido muito facilitado se o ferro de bombordo tivesse sido largado n’água na chegada, possibilitando o navio ser puxado por ele, para se afastar do barranco na saída. Para complicar ainda mais as coisas, a noite lá fora estava um breu, perdendo-se bastante as referências de distância da margem, inclusive pelo radar, muito impreciso de tão perto.
A parte mais difícil, naquele momento, seria falar com os pais do José para alertá-los das possíveis consequências da manobra. De qualquer maneira, a desatracação teria de ser feita logo, como eles pediram, ou quando o navio prosseguisse viagem, na manhã do dia seguinte. Essa conversa ocorreu na câmara, com a presença do casal, do comandante, do major - que viera dar apoio ao navio - do imediato e do médico de bordo. Foi um momento de alta dramaticidade, por todas as circunstâncias e que terminou com os pais do menino destroçados e todos os presentes chorando. Dela, decorreu também a ordem do comandante ao imediato para que nada fosse comentado a bordo a respeito, até o navio continuar a viagem no dia seguinte.  
Tomada a decisão, o comandante e o imediato foram para o passadiço, a fim de executar a manobra. Os pais de José, o major e o médico desembarcaram em seguida e ficaram no barranco, em frente ao navio. Eles foram cercados pelos fuzileiros navais, que também estavam em terra, para controlar qualquer agitação por parte do povo, que assistia silencioso aos acontecimentos. Enquanto o imediato tomava as providências rotineiras para a desatracação, o comandante se isolou na escuridão, do lado de fora do passadiço.
Nesses poucos minutos, sua ansiedade atingiu um ponto quase insuportável. Ele se sentia responsável por tudo aquilo e inteiramente só. Entretanto, nada poderia ser demonstrado por ele daí em diante, até terminar toda a manobra, com o navio devidamente fundeado na posição predeterminada, afastado do barranco. O imediato, muito tenso, veio lhe informar que o navio estava pronto para ser movimentado, com exceção da rotineira experiência com os hélices, que não havia sido feita, por razões óbvias.
O comandante entrou no passadiço e iniciou a manobra.
Sua primeira ordem foi mandar largar os cabos de vante e de ré (recolher as cordas grossas de amarração), que ainda mantinham o navio junto ao barranco. A corveta, mesmo livre, não se mexeu. O rodamoinho no remanso, que não podia ser visto na escuridão, continuava a empurrá-la contra a margem. Decorridos alguns minutos, o comandante, com um nó na garganta, começou a usar os hélices devagar - o de dentro para vante e o de fora para ré - sem mexer no leme, na tentativa de girar a proa da corveta para o meio do rio. Dessa forma, ela sofreria influência da forte correnteza do canal e, naturalmente se afastaria do barranco. De novo, o navio não se mexeu.
Angustiado, o comandante ordenou meia-força para as máquinas, o que aumentou bastante a rotação dos hélices, fazendo o navio vibrar um pouco, porém sem sair do lugar. O leme, onde poderia estar preso o corpo de Jose, foi então carregado (girado) para bombordo, de modo a auxiliar na tentativa de afastar o navio para fora. Nada aconteceu. Suando frio, o comandante ordenou “toda-força” para ambos os hélices. A corveta finalmente reagiu e, com forte vibração, começou a girar devagar para bombordo e avançar em direção ao canal. Ao chegar lá, devido à velocidade da correnteza, foi necessário manobrar várias vezes com o leme e com os hélices, de modo a atingir a posição predeterminada e nela fundear (ancorar) com segurança.
 A manobra toda durou cerca de vinte minutos. Ao terminá-la, com o navio firmemente fundeado na posição escolhida, o comandante desceu desarvorado para a câmara e jogou-se chorando no beliche, sem tirar a roupa. Dormiu um sono sobressaltado por um pesadelo terrível, no qual o menino José e seu filho se afogavam no rio e eram despedaçados por hélices enormes, em alta rotação. Acordou no meio da noite, alagado de suor e se sentindo mal. Avisou ao médico, sendo logo atendido por ele, acompanhado pelo imediato. Foi-lhe aplicado um forte calmante que o fez dormir até tarde no dia seguinte. O imediato suspendeu (saiu do porto) cedo com o navio, dando prosseguimento a viagem.
O comandante quase não saiu da câmara nos dois dias seguintes. Quando ia ao passadiço, permanecia taciturno e calado, sentado em sua cadeira privativa e olhando fixamente para o rio. Fazia as refeições sozinho, em seus aposentos. O navio todo se preocupava muito com ele, por ser uma pessoa justa e boa. O moral da tripulação estava muito baixo.
No terceiro dia, chegou uma mensagem-radio do major para ele, informando que o corpo do José fora encontrado nas águas paradas da boca de um igarapé, vários quilômetros rio abaixo. Estava inteiro, salvo os efeitos naturais de morte por afogamento. O comandante da Companhia dizia também que José fora enterrado no pequeno cemitério local. Estiveram presentes sua família e boa parte da população da pequena cidade. Foram-lhe prestadas honras militares por um grupo-de-combate de jovens soldados da Companhia-de-Fronteira.
O filho José havia retornado. A corveta prosseguiu viagem em paz.



04/01/2017

O Capim e a Espada

shaolin kung-fu (wikimedia)


Antonio Rocha

Em 1974 durante seis meses pratiquei Kung Fu com um famoso chinês que estava no Rio, Mestre Wu, já idoso.

Cinco horas da manhã íamos para um antigo campinho no alto da Estrada do Sumaré, no caminho do Corcovado. Depois começamos a assistir aulas no Centro da Cidade do Rio de Janeiro, Rua Sete de Setembro, em um antigo sobrado. Guardo como relíquia a carteira de lutador, aprendiz, pois o Dr. Wu, sempre nos dizia para não brigarmos na rua, conhecíamos os pontos fracos do corpo humano.

E, esclarecia, Kung Fu é um caminho de humildade, de simplicidade, semelhante à Filosofia Budista. A Filosofia do Kung Fu é ampla, nasceu com os monges que moravam nas florestas e observavam as formas de defesa dos animais. Não se ataca, só se defende. É a força do adversário que vai derrubar o adversário e nós ficamos inteiros.

Um dia ele nos contou que, mediante o poder da mente, um praticante de Kung Fu pode transformar um simples ramo de capim em perigosa espada.

Na televisão, semanalmente passava o seriado Kung Fu, com o artista David Carradine e também era a época do mito no cinema Bruce Lee.

No âmbito musical era sucesso a música “Kung Fu Fight” que o leitor poderá ouvir no link abaixo.

Monges são pacifistas, mas em toda a Ásia a Filosofia Budista começou a se expandir demais e muitas pessoas agrediam fisicamente os monges, com inveja do crescimento da religião.

Então surgiram esses monges guerreiros para defender as comunidades monásticas, geralmente os mais jovens  protegiam os mais velhos. Os samurais e outros semelhantes.

Buda ensinou que existiam Espíritos Irados prontos para defender os praticantes do Caminho do Meio, que só querem paz. Eles não mexem com ninguém, não os provoquem, pois, de diversas formas a reação é inimaginável.

Depois, por motivos de horário, trabalho e faculdade, deixei os treinos e fiquei só com a Filosofia que é belíssima.

Em 1974, a editora Artenova publicou o livro “A Sabedoria do Kung Fu”, de Michael Minick, folhas amareladas pelo tempo, muitas folhas soltas. Mesmo assim, guardo essa preciosidade. Vejamos alguns trechos:

“O Kung Fu real é um estado de espírito, um pensamento, uma cultura popular, um modo de viver”. Como tudo na vida é plural, tem várias linhagens, estilos e métodos. Uns quase uma dança, uma coreografia, uma ginástica, um exercício, um esporte, outros algo mais violento.

“Um herói Kung Fu não era considerado completo se não fosse um homem de letras e refinado. Grande parte do seu treinamento rigoroso consistia de cultura literária. Ele devia ser versado nos pensamentos, provérbios dos grandes poetas, filósofos e pensadores chineses”.

“Um homem que não possuísse pelo menos uma habilidade musical, por mais superficial que fosse, era considerado um homem sem entendimento com a própria alma. Outro talento muito importante, a caligrafia, elevada ao nível da arte na China”.

“A fascinação chinesa pelo herói Kung Fu foi uma obsessão nacional até que o comunismo chegou em 1950”.

Acredita-se que as primeiras formas de Kung Fu surgiram há cinco mil anos, com o mitológico Imperador Amarelo Huang Ti.

Um famoso provérbio Kung Fu é: “Machucam-se menos aqueles que voam baixo”. Uma forma de nos dizer que precisamos ser Éticos, Cultivarmos a Moral com simplicidade.





03/01/2017

Feliz Ano Novo

imagem bestwesternsedona.com



Wilson Baptista Junior

Feliz Ano Novo para todos os nossos leitores e autores! E que continuemos a contar com a presença de vocês, lendo ou escrevendo, aqui no blog!

Mas, o que é isso? Desejar Feliz Ano Novo no dia 3 de janeiro? O editor deve ter voltado das férias meio biruta. Mas, vamos lá, quando é realmente o Ano Novo?

O Ano Novo, início do ano, tem datas diferentes em diferentes culturas. Nos países ocidentais, que usam o calendário gregoriano, é o dia primeiro de janeiro, ainda desde o calendário romano, por decreto do imperador romano Júlio César.  Mas na Idade Média, em grande parte da Europa, era comemorado no dia vinte e cinco de março, costume que perdurou nos domínios britânicos até o ano de 1751.
Para os ocidentais é o período de fazer as famosas resoluções de ano novo, aquilo que pretendemos (ou fingimos que pretendemos) fazer no ano que entra.

Na cultura judaica o Ano Novo é comemorado no Rosh Hashaná, que pela tradição rabínica foi o dia da criação do mundo. Em nosso 2017, que é o ano 5778 no calendário judaico, este dia coincidirá com o dia dezessete de setembro.
Para os judeus tradicionalistas, ao contrário de nossas resoluções, o Ano Novo é um período de introspecção e revisão do que se prometeu e deixou de fazer no ano anterior.

No calendário muçulmano, que conta os anos a partir da Hégira, o dia em que Maomé fugiu de Meca para Medina, e os meses são lunares, a data varia para cada ano dos nossos. Em 2017 deve coincidir com o dia vinte e um de setembro.

No calendário persa o começo do ano é chamado Noruz e  é o primeiro dia da primavera, comemorado geralmente no dia do equinócio da primavera, que pode variar, no nosso calendário, de vinte a vinte e dois de março. É tradicionalmente o dia em que se deseja boa sorte para si e para os outros.

No calendário chinês a data varia de ano para ano, correspondendo ao dia de lua nova mais próximo do dia em que o sol passar pelo décimo quinto grau da constelação que aqui conhecemos como Aquário. Neste ano coincidirá com o nosso dia vinte e oito de janeiro.

Na Índia, de culturas e vertentes religiosas regionais, o Ano Novo varia de região em região.

Nos outros países asiáticos a variação é grande de país para país. Nem vou descrevê-la aqui...

Então, Feliz Ano Novo para todos vocês. O dia pouco importa, importa a intenção.

Um abraço do
Mano




02/01/2017

De Santa Justa a Belém

fotografia Moacir Pimentel



Moacir Pimentel

Em Lisboa não tem como resistir a uma viagem no Elevador de Santa Justa, que conecta as ruas de Santa Justa e do Ouro, localizadas na Baixa, com o Largo do Carmo, lá no alto do Chiado. Ele me lembra outro elevador, o Lacerda, na bela Salvador da nossa Bahia.
A área aberta no seu topo foi transformada no Miradouro de Santa Justa e do alto dos seus quarenta e cinco metros de altura se tem a visão panorâmica do centro histórico de Lisboa: o Castelo de São Jorge, o Rio Tejo, as Praças do Comércio e do Rossio e a verdura da Avenida Liberdade.

Temos um carinho muito grande por esse elevador construído em 1902, dizem que por um engenheiro que fora aluno de Gustav Eiffel. São bonitos os seus painéis de madeira, as janelas em estilo gótico combinando os arcos do Carmo. Lá de cima pode-se ver que o centro da cidade foi reconstruído com um traçado rigoroso de amplas avenidas e praças convidativas.

É o local ideal para se dar uma relaxada, abrir o expediente tomando um mojito, por exemplo, e ouvir os violões que se revezam por lá e que tocam de tudo – fado, Beatles, rock, pop, MBP e, inclusive, até mesmo a Tiê. Ver o sol se pondo sobre os telhados e o Tejo é um programa e tanto

Vistas de cima e apinhadas de passantes são belas as praças à esquerda e à direita. Os lisboetas curtem muito tais espaços abertos e, tenho certeza, tal afeto vem de longe quando neles todos se reuniam durante terremotos. Do alto se percebe claramente o quanto os edifícios de Lisboa são parecidos com os do nosso país: alguns marcos históricos permanecem, mas a maior parte de Lisboa foi reconstruída enquanto, por aqui, nos colonizavam.

É geralmente enquanto o sol incendeia o Tejo que se combina o que fazer no dia seguinte. Uma passagem por alguns dos muitos museus é sempre uma boa pedida. Mas a Feira da Ladra é bem divertida e é obrigatória uma visita de metrô – as estações do de Lisboa são arte na veia! - ao futurista bairro do Vasco da Gama.

Mas...Quem consegue renunciar aos encantos de Belém?

A região de Belém, ancorada no rio Tejo, sofreu o menor dos danos durante o sismo, de modo que é lá onde moram os monumentos originais do século XVI como a antiga escola de equitação que hoje é o Museu Nacional dos Coches.
Não tem como ir naquelas paragens sem passar na Casa dos Pasteis de Belém, é claro, berço da iguaria em 1837 e guardiã da sua receita secreta. Saborear um pastelzinho e beber uma Água das Pedras naquelas salas decoradas com azulejos azuis originais é uma delícia. E depois?

É só atravessar a rua e encarar todo o drama em calcário branco do Mosteiro dos Jerónimos, erguido em 1502 por ordem do rei Dom Manuel I, para comemorar a primeira das três viagens de Vasco da Gama à Índia.
Dizem que o edifício eclesiástico teve por motivação as orações dos monges da Ordem de São Jerônimo que, em troca de tão imponente abrigo, se comprometeram a rezar pela alma eterna do rei e a dar orientação espiritual aos navegadores e marinheiros que se aventuravam nos mares pela foz do Tejo, a partir do porto de Restelo.
A esplêndida fachada do mosteiro , suas torres e janelas e colunas, parecem cobertas por renda de pedra que invade a construção e também reveste o quadrilátero interno e os indizíveis arcos do claustro, para mim o melhor da obra.

Ao lado do mosteiro mora a bela igreja de Santa Maria que abriga os túmulos de dois grandes portugueses: o descobridor Vasco da Gama e o poeta Luís de Camões.
Tanto a igreja - construída no local de uma capelinha fundada pelo Infante D. Henrique e frequentada por marinheiros - quanto o claustro são exemplos do estilo manuelino exclusivo de Portugal - uma combinação dos estilos gótico e renascentista e da arquitetura mourisca, embelezada por elementos náuticos, tais como cordas, conchas, âncoras e redes, única no vasto mundo.  
O Mosteiro é povoado por esculturas de figuras históricas, gárgulas excêntricas, macacos e gatos e a esfera armilar - um globo cercado por anéis móveis para a navegação – que, como brasão de Dom Manuel, aparece em todos os lugares.

fotografia Moacir Pimentel

Do outro lado da larga avenida movimentada e depois de belos jardins se encontra a Torre de Belém construída com quatro andares fortificados. A Torre está na boca do porto: é a última visão de casa para os marinheiros que vão enfrentar o mar e a primeira em seus retornos.

Nesse namoro fluvial surge - na última foto na montagem acima - o edifício do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, inaugurado no último dia 5 de outubro à beira do rio Tejo como um miradouro, uma colina artificial que lá do seu cume permite a seus visitantes a visão do Tejo numa perspectiva dramática, como se estivessem na proa de um navio, sem terra à vista, mas a cobertura curva do MAAT transformando a paisagem ribeirinha e refletindo, nas quatorze mil novecentas e trinta e seis placas de cerâmica que revestem sua fachada, a luz mutante.

Muito próximo se ergue imponente o Padrão dos Descobrimentos que sempre faz a gente recordar as bancas da escola onde nos ensinaram como, financiado pela Espanha, Cristóvão Colombo chegou à America. Imagino o susto que levaram os portugueses!
Sim, pois toda a Europa pensou, então, que Colombo tinha descoberto uma nova rota para a Ásia e era exatamente isso que príncipe português, o Infante D. Henrique e tantos mais procuraram, navegando para cada vez mais longe e para o sul ao longo da costa atlântica da África entre 1430 e 1450 até que, finalmente, em 1487, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, quando Vasco da Gama tinha apenas dez anos.

Portugal, compreensivelmente, deve ter se desesperado ao tomar conhecimento dos achados de Colombo e supor que perdera todo o comércio do Oriente para a Espanha depois de tanto investimento.
Mas... em 1497 Dom Manoel I inventou a Primeira Armada da Índia e confiou a Vasco da Gama o cargo de capitão-mor da frota que, em julho de 1497, zarpou de Belém à procura das Índias, com cerca de cento e setenta homens, entre marinheiros, soldados e religiosos, distribuídos por quatro embarcações: as naus São Gabriel, São Rafael, São Miguel e Bérrio.

A 20 de maio do ano seguinte a frota alcançou Kappakadavu, próxima a Calicute , no atual estado indiano de Kerala, estabelecendo a Rota do Cabo e abrindo o caminho marítimo para a Índia.
O monumento o Padrão dos Descobrimentos reconta a história náutica de Portugal.

fotografia Moacir Pimentel



O monumento é um paredão de praí uns cinquenta metros de altura com a forma da proa de uma caravela. Foi inaugurado em 1960 para comemorar os quinhentos anos da morte do Infante D. Henrique que tivera papel fundamental nos Descobrimentos. Ele é a primeira das trinta e três figuras esculpidas e que retratam Vasco da Gama, Magalhães, Camões, São Francisco Xavier e tantos outros patrícios em ambos os lados do monumento.

A vista panorâmica sobre o Rio Tejo e do bairro de Belém, na parte superior do edifício, é de tirar o fôlego. De lá pode-se ver os moinhos de Lisboa, que embora ilustres desconhecidos estão ali bem pertinho na subida colina até ao Restelo, restaurados e em funcionamento como no século XVIII quando Belém ainda era uma zona rural. Eles contrastam com os modernos edifícios de apartamentos que hoje os rodeiam.
Somente do alto se pode ver a Rosa dos Ventos de cinquenta metros de diâmetro, desenhada no espaço em calçada portuguesa da gema defronte do monumento com um planisfério habitado por sereia, peixes psicodélicos e um Netuno empunhando um tridente e uma trombeta e, como se não bastasse, cavalgando um ser aquático inidentificável. À direita e distante avistamos a Ponte 25 de Abril e as famosas Docas de Santo Antônio.

Um dos cartões postais da cidade , a Ponte 25 de Abril acaba de completar seus bem vividos cinquenta anos e continua sendo o maior vão suspenso rodoferroviário da Europa, pois sim, um trecho ferroviário passa por baixo das pistas de automóveis.
Há registros históricos de que desde 1876 já se cogitava uma ponte ligando as duas margens do Tejo, de Lisboa a Montijo. Salazar considerava que a obra definira o Estado Novo e deve ter se revirado no túmulo, quando, após a Revolução dos Cravos, a sua Ponte Salazar passou a se chamar Ponte 25 de Abril.
Por seus dois quilômetros de extensão, diariamente, passam muitas dezenas de milhões de veículos e hoje é difícil imaginar que um dia a travessia da cidade de Almada à Lisboa era feita de ferry-boat.

Muitos comparam a 25 de Abril à Golden Gate Bridge em São Francisco nos Estados Unidos, talvez pela tonalidade avermelhada e o formato parecido. Entretanto, ela mais se parece com a Bay Bridge, a ponte que faz a ligação de São Francisco a Oakland.
Muitas casas tiveram que ser demolidas para dar lugar à Ponte e assim novos bairros foram criados para realojar as famílias que viviam na ribeira. Mas os nativos se orgulham das suas pontes e qualquer lisboeta minimamente informado lhe dirá que, se Lisboa for novamente vitimada por um terremoto, as pontes seriam os locais mais seguros para a população.

Os antigos armazéns do Porto de Lisboa, junto à Ponte 25 de Abril, foram restaurados em 1995 e transformados em restaurantes e bares. Todos oferecem vistas magníficas da ponte, da marina e do rio, fazendo das Docas - como o local é chamado - um destino muito procurado para se comer ou virar uns copos. Foi nas Docas que provei uma maravilha: a melhor caldeirada de enguias temperada com hortelã graúdo da minha longa vida!

fotografia Moacir Pimentel


            Quando a tarde vai terminando e os bárbaros se recolhendo aos seus hotéis é hora de se visitar no Museu Berardo uma coleção de arte moderna notável com obras de Warhol - um retrato de Judy Garland – Picasso – uma estupenda Métamorphose - Dali, Duchamp, Magritte, Miró, Bacon – a famosa tela Édipo e a Esfinge depois de Ingres - Jackson Pollock, Jeff Koons, entre outros representantes de dezenas de movimentos modernos.
São centenas de quadros, esculturas, fotografias e instalações.

             Nenhum deles tão belos quanto o por do sol sobre as maravilhas à beira do Tejo...