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05/05/2017

NADA!

imagem wikimedia commons


Francisco Bendl
Eu gostaria de escrever um artigo, mas estou sem assunto.
Apesar dos temas importantes que pipocam na mídia e se passam em nossas vidas, também estou sem inspiração.
Sem assunto, sem inspiração, quais seriam as razões pelas quais desejo escrever?
Teclar o micro, tão somente?
Ouvir o ruído das teclas sendo apertadas entre os dedos e o teclado?
Usar o tempo, apenas?
Talvez até mesmo outra razão, que não importa, pois a vontade é escrever sobre algum tema, mas qual deles?
Política?
Indigesto e o Mano não permite;
Religião?
Delicado, pois podemos ferir susceptibilidades;
Futebol?
O meu time caiu para a Segunda Divisão, o Internacional, então não me apraz falar deste esporte;
Corridas de automóvel?
Pouca gente entende e gosta de automobilismo;
Sobre pessoas?
Outro tópico que exige muitos cuidados, pois polêmico, ainda mais quando entram em choque as tais convicções;
Sobre a velhice?
Encontro-me já cansado de debater a maneira como nós, os velhos temos sido tratados;
Pipocas, escrever sobre o quê?!
Descobri, sem causar discussões e inimizades gratuitas:
Sobre nada!
Não farei nada hoje;
Não discutirei nada com quem quer que seja;
Não sairei com o meu carro, e tampouco a pé, nenhum movimento fora de casa, nada;
Não quero saber de nada sobre os roubos diários contra o erário e povo;
Não quero comentar sobre nada que diga respeito a qualquer assunto;
Não quero dizer a mim mesmo que não vou escrever sobre nada porque nada tenho para oferecer ao Wilson para colaborar com o seu extraordinário Conversas do Mano.
Pelo menos o nada serviu para servir como artigo de que o nada serve para... nada, apenas uma página escrita sem mensagem, recado ou essência, pois nada é nada, e, do nada não sai nada!
Aliás, será que a minha cabeça já não tem nada dentro, afinal das contas me sinto tão leve, como se flutuasse no ar, exatamente como um balão que tem apenas o ar e mais nada?!
Acredito que eu nada terei provocado de comentários sobre este tema, o nada, apesar de não ter havido mal entendidos, más interpretações, intenções sub-reptícias, nada!



04/05/2017

Os Pássaros da Cidade de Castelo Branco

Heloisa Pires Ferreira - Bordado


Antonio Rocha
Em 1980 eu e Heloisa fomos passear na belíssima cidade de Castelo Branco, norte de Portugal.
Assim que descemos do ônibus, olhei para o chão e vi as calçadas decoradas com aquelas pedras portuguesas apresentando pássaros e flores as mais variadas, os mais variados.
Então exclamei:
- Olha os teus pássaros aí. No teu inconsciente, as origens deles estão aqui.
Desde que começamos a namorar, em 1974, Heloisa dizia que sua família Pires Ferreira e os Castellos Brancos eram primos. Não sei se com um “L” ou dois. Quem sabe lá na formação do Nordeste brasileiro, com certeza os dois ramos familiares se encontraram?
A foto que ilustra a matéria de hoje é um bordado de Heloisa. Pode ser um pássaro, pode ser umas folhagens, pode ser algo não identificável e cada um ou cada uma interpreta como quiser. Faz parte da leitura da Arte, da experiência que temos com o fazer artístico.
O bordado me lembra a Arte da Tapeçaria do antigo Oriente. As tapeceiras da Ásia. Mas nosso Nordeste também tem as bordadeiras.
Identifico nestes pontos bordados os detalhes de nossas vidas, as vidas de todos nós seres humanos, e não só as vidas minha e de Heloisa. Detalhes, passagens, tramas, tessituras, tecidos, tecendo = te sendo...
O que é que estamos sendo e tecendo nesta existência?
De imediato, lembro fantasiosamente, os tapetes voadores das histórias infantis. Mas, simbolicamente eles voam sim. Eles nos levam, ela que borda, ela que faz, para interiores, inconscientes vastos. Eu que contemplo, embelezo-me admirando a agulha que vai furando aqui e aparecendo ali um desenho que ela nem sabe o que é, mas que aos poucos vai tendo forma, vai tendo vida. É a forma e o conteúdo de que falam alguns teóricos da Arte.
Eu? Limito-me a caminhar em cada cor, em cada nozinho, em cada ramo ou rama da também possível folhagem. Grandes pássaros, pequenos pássaros, médios pássaros. Em alguns o tecido escolhido foi bem liso, em outros já apresenta uma área um pouco mais fértil de possibilidades interpretativas, leiturais.
E a cauda? Pode ser, mas também pode ser um ferrão, para dar ferroadas e se defender. Espinhos no caso de planta. Os olhos miram a frente, seguem para o alto.
Lembrei que uma vez, ainda solteiro, um monge budista do Sri Lanka leu a minha mão e disse que eu ia casar com um mulher do Oriente. 
Faz sentido, vejo nas Artes de Heloisa algo da Ásia Central, da antiga Pérsia, motivos bem coloridos da Mongólia, do Tibet e daquela região do Himalaia. Estados de Ladak, Sikkim e Cachemira que pertencem à Índia, são quase que majoritariamente budistas, seguem o chamado Vajrayana ou Veículo do Diamante, também conhecido como Lamaísmo. Como essas regiões são muito frias, para esquentar os olhos e os corpos e a vida, os tapetes, que eles chamam de Tankas, tem um profusão de cores marcantes.
Leram? Viram? Foi só eu embarcar nas visões que o bordado me proporciona e já fiquei viajando por terras nesta vida ainda não caminhadas. Nas vidas anterior quase que afirmo sim. O “quase” é porque ainda não tenho a certeza matemática, só terei do outro lado, então peço permissão ao Mano, para quando chegar na outra dimensão enviar algumas notícias daquelas bandas...
Aliás, em sânscrito “bandha” significa “união”!
Pelas amizades estamos unidos. Pelas Artes idem!


03/05/2017

Um Caravaggio Misericordioso


Moacir Pimentel




Tenho certeza que você que está aí, tranquilamente, tomando um cafezinho e lendo as Conversas, está se perguntando:
Mas o que é ISTO?
Pois é, prezado leitor(a), ISTO é Caravaggio fantasiado de Medusa na Galleria Uffizi de Florença.
Acompanhar a arte caravaggiana é como um passeio de bugre com emoção. A gente fica tão confuso, por exemplo, com a carne quente dos “anjinhos” do pintor, que aceitamos sem protestos a coisa mais estranha sobre eles: têm asas pretas como as das graúnas.
Ficamos tão focados no brilho das composições de Caravaggio que o mistério de sua configuração só é registrado por nossos cérebros inconscientemente, na pasta dos “Inexplicáveis”.

Já no fim da sua curta vida, Caravaggio mudou essa sua maneira chocante de pintar, tornou-se mais evasivo em espaços cada vez mais esfumaçados e ordenou às suas figuras biblicas e mitológicas, que abdicassem da sedução. Mas até a última de suas pinceladas Caravaggio fez do real um sonho lúgrube e tornou o impossível real.

Diz a lenda que a Medusa, aí em cima, era tão repulsiva que qualquer cidadão que a encarasse valentemente de frente era transformado em pedra. O herói Perseus usou o brilhante escudo da deusa Atena para evitar olhar para Medusa diretamente e conseguir decapitá-la.

Acontece que ao pintar o tema mitológico Caravaggio se perpetuou como Medusa em um momento de auto-reconhecimento. ISTO é uma imagem tanto terrível quanto horrorizada. Não há nada aqui além do vislumbre de um grande pesadelo: uma cabeça cortada mas ainda consciente e ciente de sua condição de desencarnada.

Caravaggio foi contratado para fazer essa monstruosidade como um presente para o Grão-Duque da Toscana e ela foi concebida para entrar na coleção Medici em Florença.
Detalhe: ao pintar este incubo Caravaggio ainda competia com Leonardo da Vinci, morto há oitenta anos.
Porque a pintura decora um escudo de madeira convexo, certamente aludindo a uma história que o jovem Leonardo, cujo pai certa vez pedira-lhe para decorar o seu escudo, deixou registrada nos seus cadernos. Da Vinci foi para os campos, recolheu flores e folhas, cobras, lagartos e insetos, e reuniu-os em um monstro híbrido que pintou sobre o escudo paterno.

O conto do monstro de Leonardo é sobre a arte e o poder: ao decorar um objeto bélico, o artista impõe sua imaginação sobre o mundo, criando uma imagem perturbadora. ISTO é o que Caravaggio fez nessa obra de arte que pretendia ser melhor que a do Mestre renascentista.

Mas estávamos em Nápoles e não em Florença para ver uma obra específica de Caravaggio, na qual o artista fora forçado a ser estranhamente compassivo. O nome da tela é: As Sete Obras de Misericórdia.

Caminhamos pela Via dei Tribunali até uma porta através da qual entramos em um pátio do século XVII, onde ainda hoje médicos atendem às crianças pobres de Nápoles, como tem sido feito sem interrupções desde que a instituição católica chamada Pio Monte della Misericordia foi fundada em 1601, por sete jovens nobres, que se reuniam todas as sextas-feiras no hospital para tratar dos doentes.

O tema da obra-prima de Caravaggio é pois, tão relevante do seu contexto atual como era quando ele a pintou há mais de quatrocentos anos atrás. Em 1602, os caridosos de Nápoles começaram a construir uma pequena igreja, perto da escadaria que leva à Catedral, na esquina da Via dei Tribunali e do Vico dei Zuroli. Era no altar–mor dessa igreja do século XVII que morava a obra de arte que queríamos ver.

Subimos uma escada que se transformou em um corredor tão escuro quanto um Caravaggio e, de repente, estávamos em um templo lotadao por fieis em oração. As Igrejas estavam sempre cheias naquelas paragens.

Suponho que se eu vivesse ao lado do vulcão mais perigoso da Europa também eu rezaria tanto e acreditaria em milagres e - quem sabe? - até mesmo compraria aqueles quadrinhos vendidos nas lojas de souvenirs napolitanas que mostram o Cristo resgatando os pecadores das chamas vermelhas do inferno.

Finalmente estávamos defronte do famoso retábulo que Caravaggio pintou em 1606. As Sete Obras de Misericórdia, muito mal iluminado, era um retábulo imenso, de quase quatro metros de altura e apesar da santa escuridão, nos pareceu um trabalho impressionante.

E o interessante é que se tratava de uma pintura de Nápoles, ou pelo menos das ruas da cidade, onde até hoje a arte se mistura com vespas e T-shirts.

Fotografia David Evers/Flickr/creative commons

  
Caravaggio adorava pintar as ruas - as reais, sujas e empoeiradas, as ruas escuras de Roma e Nápoles - no início do século XVII. As portas sombrias com vergas desgastadas, as janelas quadradas, as grades de ferro, os portões que levavam a pátios obscuros, as salas com paredes nuas e os homens rudes debruçados sobre mesas ásperas.

No óleo, o pintor retratou um conjunto de atos compassivos, relativos ao bem-estar físico e material alheio, segundo à crença católica tradicional.

As ações caridosas de ajuda ao próximo são espirituais - instruir, aconselhar, consolar, confortar – ou corporais e inspiradas nas palavras de Jesus Cristo no Juízo Final, conforme São Mateus:
“Vinde, benditos do Meu Pai, possuí o reino que vos está preparado desde a criação do mundo; porque tive fome e Me destes de comer; tive sede e Me destes de beber; era peregrino e Me recolhestes; nu, e Me vestistes; enfermo e Me visitastes; estava na prisão e fostes ver-Me”.
A sétima obra de misericórdia, não mencionada no Evangelho de Mateus, o sepultamento dos mortos tivera origem, em vez, no Livro de Tobias.
Alguns dos atos de compaixão precisam de um tantinho de contextualização. Na antiguidade dar pousada aos peregrinos era um assunto de vida ou de morte, pelo complicado e arriscado das travessias.
Além disso, na velha Europa, após as batalhas, os corpos jaziam insepultos e, no início do Renascimento, Boccaccio descreveu os horrores da Peste Negra na Itália: pessoas que não tinham coragem de visitar ou ajudar os próprios cônjuges, filhos, pais, irmãos doentes, traindo-os e abandonando-os à própria sorte.
Diante da peste a comunidade falhou e o coletivo se desintegrou. Na dança macabra da morte, o homem rico, o pobre homem e o rei todos ficaram sozinhos diante da Velha Senhora. O que a pintura de Caravaggio pretendia dizer é que ninguém estará sozinho enquanto houver compaixão.

“Em verdade vos digo que, todas as vezes que fizestes isto a um dos Meus irmãos mais pequenos a Mim o fizestes”.

Caravaggio - As Sete Obras da Misericordia

Originalmente, Caravaggio pensou em pintar sete painéis separados para serem colocados ao redor da igreja, cada qual descrevendo uma das obras caridosas. No entanto ele foi capaz de magistralmente combinar todas as sete ações de misericórdia em uma só composição que se tornou, então, o retábulo que estávamos contemplando a partir do pequeno coro no primeiro andar da igreja, o melhor local para se apreciar a obra de arte devido às suas dimensões.

No topo da pintura a Madonna da Misericórdia, a criança e os dois anjos observavam as ações e transmitiam a graça que inspira a humanidade a ser misericordiosa.

Notamos no fundo da tela dois homens carregando um homem morto, do qual apenas os pés são visíveis, sujos como eram todos os pés pintados pelo artista.

À direita, uma mulher visitava um homem preso e dava-lhe o leite de seu peito. Um peregrino, o terceiro à esquerda, identificado pela concha e pelo chapéu, pedia abrigo a um estalajadeiro.

O quarto personagem também à esquerda rasgava o seu manto ao meio para oferecer uma vestimenta ao mendigo nu aos seus pés no primeiro plano e finalmente a última das figuras bebia água da queixada de um animal.

Não entendemos a peculiar escolha de Sansão como símbolo de dar de beber a quem tem sede, pois na Bíblia Deus deu de beber ao herói, num milagre que não era de fato uma obra de caridade humana.

O fato é que essa era a mais ambiciosa obra de Caravaggio. Era palpável e crível essa esquina onde o artista retratou a noite, e esse grupo de criaturas caridosas em luta contra a pobreza, a crueldade e o mal, iluminados pela tocha carregada pelo homem ao fundo.

Foi necessário olhar duas vezes para a pintura para perceber a naturalidade com a qual Caravaggio fez com que a jovem mulher desse o peito ao homem velho com o rosto pressionado contra a grade da janela. A cena era oriunda de uma história romana antiga, uma lenda sobre a piedade filial, na qual a filha de um prisioneiro mantém o pai vivo dando-lhe de mamar.

Mas Caravaggio não incluiu na narrativa nenhuma evidência do parentesco e tanto a necessidade quanto a generosidade parecem mais basica e desesperadamente humanas.

Sem dúvida eram muito corajosos além de caridosos, naqueles tempos negros, os homens que carregavam e enterravam os cadáveres e não se discute a caridade da mulher amamentando o prisioneiro, mas o que nos intrigou na pintura é que nem todas as pessoas na cena pictórica tinham caras misericordiosas.

Mas quem são os homens tão bem vestidos e armados, que no centro da tela estavam reunidos como se confabulassem? Eles usavam os chapéus emplumados e as luvas de couro dos cavaleiros e havia algo de muito duro em suas expressões e posturas. No entanto, eles também protagonizavam atos de bondade.

Dramaticamente, um deles chega a sacar da espada para cortar a sua própria capa em duas e presentear metade a um maltrapilho. Então percebi que estávamos diante de um emblema antigo da caridade. O ato de cortar a própria capa ao meio e de compartilhá-la com um mendigo eu já presenciara, na São Petersburgo de Crime e Castigo, da lavra de Dostoiévski.

Na pintura o que nos pareceu mais marcante foi o brilho da lâmina da espada no meio da noite, o aço delgado cortando a escuridão. Esta era a confissão pessoal, a pista para a alma de um homem.

O retábulo As Sete Obras de Misericórdia foi pintado como uma penitência, como se Michelangelo Merisi da Caravaggio pintando-a estivesse tentando obter perdão e salvação.

Esta foi a única vez que, pelas mãos de Caravaggio, uma espada foi empunhada para fazer o bem. Apenas alguns meses antes de começar esta pintura, Caravaggio dera à própria espada uso menos generoso.

Em 26 de Maio de 1606, em Roma, um jovem, Ranuccio Tomassoni, foi morto depois de uma longa luta de espadas. Ele e seu assassino eram o tipo de caras que carregavam armas habitualmente, à procura de problemas. Tomassoni encontrou sua morte naquela noite nas mãos de melhor espadachim, o pintor Caravaggio.

Tomassoni era um zé ninguém de uma família de muitos zé alguéns. Caravaggio teve que fugir de Roma, um fora da lei, com uma sentença de morte pairando sobre sua cabeça. Em outubro ele já estava em Nápoles, já pintando As Sete Obras da Misericórdia, que terminou no início de janeiro 1607.

A vida de Caravaggio depois que ele se tornou um assassino foi a aventura trágica de um gênio da pintura. Só que tal aventura era também a do homem de gênio turbulento, enigmático e perigoso, sempre se metendo em contendas, fazendo ameaças, desferindo críticas e insultos.
Mas ele pintou obras-primas por onde passou.
Realmente não podemos confundir a arte com o seu criador. Pouco deveriam nos interessar as posições e opções políticas, morais, religiosas e sexuais de quem produz arte. Há que se separar a produção intelectual e cultural e artística de um indivíduo da sua biografia.
Não gostar de quem as fez ou faz, não deveria influir no julgamento de tantas magníficas obras artísticas, vilipendiadas sem quaisquer razões estéticas.
Alguns dão a tal prática nefasta o nome de “coerência”. O certo é que não falta radicalismo repudiando a manifestação artística, patrulhando ideologicamente o ato de criar, controlando o que, para existir, necessita de liberdade.
Confundir o homem com a sua obra – e que me perdoem os que pensam diferentemente – para mim é algo muito próximo da barbárie.



02/05/2017

Esses pequenos seres chamados netos

Desenho do Heitor

 Ana Nunes
Essas criaturinhas que chegam assim de repente, invadem nosso espaço, enchem nossos dias de calor e quando vão embora deixam nossas almas esfarrapadas de saudade.
Esperadas, desejadas, algumas vezes até programadas são como sóis em nossas vidas. Elas amansam perdas já sofridas, renovam expectativas já cansadas e dão vigor aos sonhos já muito sonhados.
Fiquei vó tardia, aos cinquenta e seis anos. Por isso mesmo paguei micos incríveis como correr atrás de conhecidos para mostrar ultrassom de neto e dizer que seria feio mas muito amado. Saíram lindos, julgamento de vó. Ou parar pai com bebê em supermercado para perguntar  a idade, porque já fazia sons e o meu nada. E aí aparece a mãe vermelha de brava achando que eu estava de paquera... Pois é, coisa de vó, porque o avô nunca pagou mico!
Esses netos são surpresas que a gente acompanha com os olhos ou a alma para descobrir pezinhos ambulantes e incertos na descoberta do caminho. E as mãozinhas lindas e ágeis na curiosidade do sentir!
E os primeiros sons que eles fazem parecer borboletas voando ao sol e sinos coloridos de verão. Perceber seus pensamentos tocando a beira do infinito e voltando rápido na forma de sorriso.
Meus netos têm olhos grandes e escuros de ameixa preta ou de jabuticaba doce. Longos cílios iguais aos da mãe.
O mais velho, de onze anos, me dá sorrisos de Mona Lisa, enigmático, cheio de segredos. O mais novo, de seis, desde bem pequeno me dá sorrisos escancarados e felizes. Os cabelos são lisos, escuro e claro e têm um delicioso cheiro de neto. Quando falo para o mais velho que cheiro bom ele tem, ele sempre responde que tomou banho. Nem desconfia que é cheiro de neto!
Quando ainda era só o mais velho, com mais ou menos quatro anos, dei de duvidar da sua criatividade. Ele sempre pedia estórias, lidas ou contadas e quando acabadas dizia,- De novo! Muitas vezes eu disse, agora é a sua vez, e ele nada. Pedia - de novo!
Construí então um livro aberto, só com imagens. A base de um pouco mais de dois metros tinha só céu, terra e mar. Os bichos, montanhas, árvores eram desenhos soltos que ele montaria como quisesse. Chamei de Aventura no Mar. E quando dei, disse que era um livro onde ele contaria a história. Para variar ele respondeu que eu ia contar. Mas quando perguntou se o pinguim podia pular a montanha, soube que estava ganho. Brincou durante cinco horas com as aventuras mais loucas pulando da sua cabecinha para o papel. E parou de brincar chorando porque era hora de dormir!
Durante um bom tempo eu recebi encomendas a la carte, tipo, agora quero aventura na África, agora aventura no zoólogico , aventura dos dinossauros e por aí vai. 
detalhe da Aventura dos Dinossauros

Com o avô ele foi criando uma aventura cheia de detalhes do habitat e de alimentação, onde ele era um Mangusto em evolução e o avô, um Cientista. Acabou em um livro ilustrado que ele recebeu pelo correio, como uma encomenda. Fez sucesso, está guardado na sua biblioteca.
Os pais são exigentes, claro, em seus papéis! E assim fazem cenas interessantes. Como a de um pai bravo e impaciente, que ajudando o filho relutante e reclamante a trocar de roupa para ir embora, diz para o menino inconformado, - Respira fundo, respira fundo! E a criança, com sua lógica subestimada, retruca com vozinha delicada porém firme - Por que você não respira fundo também?
Fomos comprar o presente de aniversário de seis anos do menor. Foram vó, vô, tia, carro cheio. Aborrecido com o trânsito o avô xinga baixinho - Filho da puta! e o neto maior fala - Vovôô! Na frente de uma criança de seis anos que nem sabe o que quer dizer? Emendei depressa, - quando a gente chegar vamos lavar a boca do vovô. E o menor, que pensávamos longe e distraído - Com Ypê, vamos lavar com Ypê!
Doutra feita, em uma loja de brinquedos, o pequeno já com seu lego novo garantido, vê o irmão em dificuldades de escolha dentro do valor previsto, justifica bem sério para a vendedora "cheia de boa vontade", - A vovó é aposentada, sabe... Ri, mas ri muito. Lógico. Esse é dos meus, sincericida!
Outro dia, estávamos ele e eu na rede na casa da outra avó. Maior enlevo e aconchego e ele diz delicadamente - Estou um pouco entediado! Lá se vai o enlevo!
O mais velho quase que adolesce. Aumentam-se-lhe os pelos das pernas e braços. Pelo telefone sempre pergunto se o bigode já está igual ao do outro avô. E pessoalmente pergunto se os pelos já chegaram nas “outras partes”. E ele pergunta - Vó, por que faz essas perguntas? E eu respondo - Porque vó TEM que saber! 
Desenho do Artur


Quando vão embora, meu corpo exausto se arrasta pelo chão, puxado por uma alma leve, colorida, cheia de vozes tilintantes e tiradas inesperadas. Na cama, enquanto o sono não chega, me embalo escutando de novo, revendo aquelas carinhas lindas de olhos grandes e cabelos macios.
E, de manhã, nós, avós babões, ficamos entre os lençóis comentando as criaturinhas interessantes , suas tiradas, abraços, e perdemos a hora, perdidos que estamos nessa coisa maravilhosa chamada netos!
Como escrevi num dia desses de saudade,
Seu sorriso já nem sei
se é estrela, lua ou dia
se é sonho ou fantasia.
É mais do que sonhei.



01/05/2017

O Timoneiro

Nau Capitânia - foto divulgação 


Heraldo Palmeira
Fazia algum tempo que eu não andava pelo Centro do Rio. O pedaço da Rio Branco interditado a automóveis era resultado da nova arquitetura da mobilidade urbana, herança das Olimpíadas.
Desci do táxi e entrei no majestoso Clube Naval, onde almoçaria daí a pouco a convite de um amigo muito querido. Apesar de estar apenas passeando pela cidade, me vesti com a solenidade mínima exigida pelas tradições do local, em roupas sociais.
Antecipei de propósito meu horário britânico para honrar o militar da mais alta patente da Força. Em poucos minutos ele chegou com a fibra nobre dos almirantes e a leveza da personalidade cativante de sempre, cumprimentado por todos que cruzavam conosco pelos corredores. Homem culto, sempre foi um liberal, apaixonado pelo mar, pela profissão que abraçou, amante da História, das artes, dos submarinos, escritor inspirado.
Heraldo Palmeira e Domingos Castello Branco

Rumamos a um salão belamente mobiliado onde, enormes poltronas de couro, colocamos a conversa em dia. Falamos de tudo, rimos de diversas situações que vivemos juntos num passado de quase vinte anos. Entreguei um pacote de fotos da época. E lá se foi nossa primeira hora.
Subimos dois andares e entramos no restaurante, um dos recantos nobres do clube. Acolhida fidalga, inúmeros cumprimentos dos que entravam e saíam, rápidas conversas sempre a respeito das famílias e de boas recordações das vidas deles.
Finalmente nos dedicamos aos sabores principais e seus acompanhamentos. Ao final, ele fez questão de ir à cozinha, recebido com festa. Nosso próximo porto, o balcão do café. E lá se foi nossa segunda hora.
Descemos os mesmos dois andares até a sala da conversa inicial. Ele abriu o pacote de fotos, revivemos fragmentos da nossa grande aventura: Nau Capitânia, construída para festejar os 500 anos do Descobrimento.
Lembramos do grande erro estratégico, convidar a imprensa para o primeiro teste de mar do navio. O tempo mudou repentinamente e caiu uma tempestade violenta sobre o mar da Bahia. Netuno formou mar grosso, como os marinheiros chamam o mar revolto.
Os jornalistas, marujos de primeira viagem, embrulharam o estômago, entraram em pânico e vomitaram desgraças inexistentes. Resultado: um festival de inverdades e má vontade poucas vezes visto.
Os dois motores da Nau Capitânia foram tirados da caixa novinhos em folha e instalados na casa de máquinas para a viagem inaugural. Um vazamento de diesel no piso do porão foi mostrado como a antessala do fim do mundo, mesmo o almirante tendo determinado, por segurança, a volta imediata ao porto – uma decisão absolutamente normal no ambiente naval.
De repente, ganhou força o boato do naufrágio que nunca ocorreu – quem adernou em outro momento, por puro abandono, foi um navio semelhante (caravela) de nome Espírito Santo, na beira-mar de Vitória.
Outros que sequer viram Nau Capitânia de perto chegaram a endossar o tal naufrágio, noticiando que o mastro principal (uma tora de 26 metros) quebrou durante a tempestade e sua queda colocara o veleiro a pique. O mais incrível é que ninguém se ocupou em mostrar o local do naufrágio ou o resgate do navio – que “voltou a navegar” em tempo recorde, algo impossível se tivesse afundado aos pedaços.
Também foi publicado que o navio balançava demais por falta de lastro. Limitados a colocar barquinhos de plástico para flutuar em banheiras e tanques na infância, os navegantes de redações não tinham conhecimentos gerais sequer para entender um componente histórico básico.
Somente a partir do século 17 é que os navios começaram a ser construídos com projetos de engenharia. Desde seus primórdios até ali, a construção naval ocidental se baseava nas técnicas de navegação da Índia, que já tinha um notável intercâmbio comercial marítimo com o leste da África e fabricava embarcações muito superiores às construídas na Europa.
As réguas que os indianos usavam como instrumentos tecnológicos levavam em conta a relação entre altura da mastreação, boca (largura do barco), calado (parte do casco que trabalha abaixo da linha d’água) e capacidade de carga pretendida (calculada em toneladas, por causa dos tonéis de barro usados para armazenamento desde os gregos e fenícios ancestrais).
Essas réguas chegaram ao Egito e, pelo Mediterrâneo, desembarcaram finalmente em Portugal através das suas grandes navegações. Os navegadores europeus denominavam “Índias” tudo aquilo que não estava na região do Atlântico e os portugueses já sabiam que havia uma grande civilização (a indiana) naquele outro pedaço do mundo, para onde se aventuraram em busca das especiarias a bordo de suas naus e caravelas.
Naquele tempo tudo era concebido a partir da sabedoria popular dos mestres dos estaleiros. Tanto que só haviam gravuras e quadros históricos dos pintores da época para orientar o projeto Nau Capitânia.
Segundo mestre Aurélio, lastro é “tudo quanto se mete no porão do navio para lhe dar estabilidade”. Diante da inexistência de documentos que permitissem qualquer referência comparativa a respeito do lastro das embarcações originais portuguesas, as autoridades navais brasileiras, por prudência técnica, recomendaram padrões de lastreação muito acima do necessário para o projeto da Nau Capitânia. Com isso, o navio adquiriu limites de segurança de navegabilidade muito elevados.
Na verdade, nossos jornalistas multidisciplinares – arrogantes o suficiente para nunca perguntar sobre o que não sabem e fazer uma boa apuração – desempenharam com louvor o papel de joões-bobos: não tinham alcance para traduzir o “balançar demais” (como um boneco joão-bobo, que sempre volta ao ponto de equilíbrio) exatamente como expressão do grande lastro do navio, uma de suas virtudes náuticas mais destacadas.
Depois de ser vitimada por jornalistas mareados, mentiras virais, confusões e intervenções de figuras obscuras à procura de holofotes, chegou a hora de resgatar a imagem do navio, um veleiro de navegação oceânica de grandes qualidades.
Um amigo comum me apresentou ao almirante e iniciamos nossa aventura. Tudo começou com a viagem da Base Naval de Aratu – local da construção – até o Rio de Janeiro. Depois de uma parada técnica em Angra dos Reis, onde causou frisson e fomos obrigados a abri-lo à visitação pública por dois dias, ele chegou majestoso pelo Recreio dos Bandeirantes e atravessou toda a orla da Zona Sul carioca em cortejo honroso, cercado por diversos barcos, até atracar na Marina da Glória. O domingo de sol foi um adorno luxuoso, inclusive para o encanto da imprensa internacional que embarcou em pleno mar.
Um político metido a ambientalista ensaiou uma abordagem pirata para “fazer denúncias”. Chegou numa catraia acompanhado de fotógrafo particular e tentou subir a bordo na marra. O oportunista louco pelas lentes do mundo deu meia-volta quando as primeiras vaias dos convidados embarcados cobriram o som fanho do seu megafone.
Chegou a hora de levantar âncora e rumar a Paranaguá, Antonina, Itajaí e São Francisco do Sul. Fluminenses, paranaenses e catarinenses somaram mais de trinta mil visitantes com ingressos pagos (preço simbólico, para ajudar no custeio da viagem), encantados por aquela espécie de máquina do tempo.
Depois do retorno ao Rio, navegamos até a região da divisa com o estado de São Paulo, para as filmagens de Desmundo, do diretor Alain Fresnot. Passo seguinte caíram sobre minha mesa diversas propostas para o navio: participar de regatas internacionais (como nave-madrinha), servir de cenário a videoclipes musicais, festas diversas e filmes de Hollywood.
No melhor padrão brasileiro, Nau Capitânia continuou imóvel, vítima da nossa burocracia, de jogos de interesses e viveu um período de desprezo fundeada diante da orla de Niterói. Ficou claro que aquele navio contrariou muitos interesses. Nos bastidores, meu amigo incansável lutou até que ele fosse acolhido num lugar digno.
Hoje, passadas as tempestades, serenadas as invejas e vencidos os burocratas irremediáveis daqueles tempos, o veleiro rebatizado como Nau dos Descobrimentos foi finalmente alojado num cais nobre, o Espaço Cultural da Marinha, na praça Mauá. Agora, faz parte de um conjunto de seis navios históricos e recebe visitação constante de turistas e jovens colegiais.
Não sem razão, me veio à mente a voz suave de Paulinho da Viola, em perfeita sintonia com o meu querido almirante.
Sem preconceito
Ou mania de passado
Sem querer ficar do lado
De quem não quer navegar
Faça como um velho marinheiro
Que, durante o nevoeiro
Leva o barco devagar
Perto da nossa quarta hora de prosa tomamos um último café, descemos a nobre escadaria, chegamos à calçada e nos despedimos com delicadeza e boas palavras.
Vi aquele homem sempre gentil, sempre amigo atravessar a rua e se perder no molho de transeuntes, carregando com ele um pedaço da história náutica do meu país. E eu, um coração civil, sempre atrapalhado sem saber como reverenciar aquela doce criatura calejada pelas honrarias navais.
Da janela do táxi, aproveitando a espera do sinal vermelho, pude ver um pouco mais da nova cara da avenida Rio Branco com seu bonde moderno reinando sem carros e ônibus. Pelo rádio, Milton me chegou feito maré enchente.
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar
Não muito longe dali meu navio querido repousava em águas abrigadas, como que rendendo homenagens ao seu verdadeiro comandante. Incorporado à paisagem da cidade por merecimento. Dele e do seu grande timoneiro.
Entrei de novo na casa filial em Laranjeiras, ambiente amoroso que me deixa muito bem – diante de um janelão no último andar do prédio, com vista garantida para a mata virgem e um pedacinho (do peito pra riba) do Cristo Redentor com seus braços abertos sobre a Guanabara!
 
Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara (fotografia Heraldo Palmeira)

Volta e meia, a farra dos passarinhos e saguis se misturava ao movimento do vento, confirmando a vida intensa da floresta que circunda o bairro e sobe pelo Maciço da Tijuca. A mesma visão que os marinheiros tiveram ao chegar a Pindorama trazidos por caravelas e naus, como aquela que encanta meu coração.
Fiquei em silêncio diante daqueles pensamentos, enquanto a música buarqueana dominava a sala.
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Milênios, milênios no ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
(*) Dedicado a Domingos Castello Branco, meu querido almirante, um velho marinheiro que tem levado com serenidade todos os barcos até o cais.
(**) Trechos de Argumento (Paulinho da Viola) / Cais (Milton Nascimento-Ronaldo Bastos) / Futuros amantes (Chico Buarque).