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10/02/2018

Santa Faustina, rogai por nós!

Santa Faustina Kowalska (fotografia Pinterest)

Antonio Rocha
Desde agosto do ano passado ando lendo, estudando e pesquisando a vida e a obra da polonesa Santa Faustina (1905-1938). Viveu apenas trinta e três anos, tal e qual Cristo, mas percebo que a sua obra literária vai marcar o século XXI e os demais daqui para a frente.
O Dicionário do Mestre Aurélio chama de hagiografia, a biografia dos santos e santas. Eu prefiro escrever HagioLiteratura, HagioLeitura, HagioLinguística. São neologismos, acho que inventei, até que provem o contrário. Irei reconhecer e aceitar a autoria de outros.
Estou aprendendo, com bastante afinco, a “Biografia de uma Santa: Faustina Kowalska”, da jornalista e escritora polonesa Ewa K. Czaczlpwska., 492 páginas e muitas fotos.
No início, a hoje santa, foi acusada de histérica, maluca, doida, desequilibrada com muitas fantasias espirituais. Numa linguagem contemporânea, teria sido chamada de fanática. Durante muito tempo os seus superiores não acreditavam na jovem, mas atualmente ela é considerada não apenas uma das maiores místicas do século XX, mas de toda a humanidade, dizem os teólogos.
Muito pobre, a menina Elena só conseguiu estudar até o terceiro ano do antigo curso primário. Parou para trabalhar e ajudar o pai na lavoura e depois como doméstica em casas de família.
Mas ela não parava de ler sobre a vida dos santos e santos, lia diariamente em todo o tempo livre e assim decidiu que ia ser freira. Os pais foram contra, mas ela decidiu e foi atrás do que queria.
Não tendo maiores instruções tornou-se cozinheira e lavadora de pratos, ajudando na cozinha do convento.
Qual não foi a sua surpresa, misturada com alegria e medo, quando passou a ver e conversar com o próprio Jesus.
Como já dissemos, nem ela mesma acreditou nas aparições e nos diálogos. Aos poucos Cristo foi esclarecendo a missão de Faustina, o nome religioso que ela escolheu. Vem do Latim e significa venturosa, auspiciosa.
Por fim o Mestre pediu que ela escrevesse um Diário, registrando todas as conversas entre os dois, pois seriam, mais do que diárias, seriam o tempo todo, dia e noite.
Faustina arranjou três cadernos e começou a escrever tudo o que ouvia de Jesus. Estes três cadernos tornaram-se o “Diário, A Misericórdia Divina na Minha Alma”, já traduzido em diversas línguas; a edição em português tem 500 páginas e muitas fotos. Todo este material está sendo publicado pela editora Apostolado da Divina Misericórdia, de Curitiba, PR.
Semelhante ao tempo de pregação de Cristo, que aqui na Terra durou três anos, as anotações de Kowalska também demoraram três anos. Ela faleceu de tuberculose.
São mais de mil frases, parágrafos e períodos de Jesus dizendo a ela o que deveria ser feito, pois Cristo estava começando a preparar a sua segunda e última volta ao planeta Terra.
A Bíblia e estes escritos de Faustina não especificam a data certa, quando Cristo voltará, mas aqui eu faço um parênteses budista: o médium japonês Ryuho Okawa, em um de seus tantos livros, informa que Jesus voltará entre os anos 2400 e 2500, mas não diz qual será o país onde ele renascerá. Sendo budista, Okawa diz que Jesus virá não como pensam os cristãos, mas através de um nascimento normal.
Entre outras, Cristo pediu que Faustina mandasse pintar um quadro dele com uma roupa branca e saindo do coração um feixe de luz vermelha e outro na cor branca. Esta moldura teria o nome de Divina Misericordiosa, que é a forma como Ele se apresenta hoje.
Particularmente eu gostei dessa imagem, pois sempre tive dificuldade com o crucifixo, ele sentindo muita dor. No pé da imagem está escrito: “Jesus, eu confio em vós” e o Mestre falou que todo aquele que contemplar este quadro com fé, será abençoado de várias formas.
Ele determinou também que, Faustina iniciasse uma outra forma de devoção à Misericórdia Divina. Que todo dia, às quinze horas seria a Hora da Misericórdia e onde a pessoa estiver, nesse momento, pare por alguns segundos e reflita, medite nas Graças que a Misericórdia Divina vai entregar aos praticantes. Estabeleceu também a Festa da Misericórdia, que será no “Primeiro Domingo, após a Páscoa”.
Tem outras recomendações, mas vou encerrando por aqui, prometendo voltar ao tema.
Mas um fato que me chamou a atenção é que a menina e depois jovem freira era muito nacionalista, patriota, amava profundamente a sua terra natal e, pedia sempre que Jesus abençoasse e protegesse a sua Nação. Por fim, Jesus diz que vai ajudar a Polônia, o país onde a “sua secretária” nasceu.
Então, cá com os meus botões pensei: Deus é brasileiro (ouço isso desde criança), o Papa é argentino e Jesus agora é polonês.
Numa linguagem espírita podemos dizer que Santa Faustina foi excelente médium clarividente e clariaudiente.
Eu já pedi a Santa Faustina uma graça de saúde para uma outra pessoa e o fato foi atendido, realizado, logo...
Gratidão Irmã Maria Faustina Kowalska!
Lendo e estudando as obras citadas, cheguei à intuição que Jesus renascerá na Polônia, Leste Europeu... quem diria...


08/02/2018

O GALO E A BARRICA – uma ode em três capítulos (I)


I - O Retorno ao Ocidente
(imagem Domingos Ferreira)

Domingos Ferreira
O galeão “Príncipe Real” avançava lentamente, tocado por um vento terral vindo das costas d’África, entrando suave pela alheta de boreste, e que o afastava do continente negro, em demanda ao Brasil. O capitão Nuno Álvares de Noronha conseguira dormir um pouco, após ter afastado as muitas lembranças dos dias anteriores. Era noite alta e escura, já no quarto d’alva. O navio todo ressonava e só se escutavam eventuais ordens de governo gritadas pelo contramestre, do chapitéu do castelo de popa, para os quatro homens que guarneciam a cana do leme, dois conveses abaixo.
Era o ano da graça de 1647. O navio viajava havia mais de seis meses desde Macau, tendo Lisboa como destino e Rio de Janeiro como próxima escala. Em sua longa derrota, aportara em Colombo, Goa, Cochin e Moçambique. Tivera sorte de montar o Cabo da Boa Esperança com bom tempo e poder costear na aproximação de Luanda.
Na “Carreira da Índia”, tal era a rotina cumprida pelos navios portugueses destinados ao Extremo Oriente, como correio e apoio logístico. Eram galeões rápidos e bem artilhados. O “Principe Real”, 550 tonéis, três mastros e três conveses, impunha respeito com seus 34 canhões e 380 tripulantes. Tais navios, obras-primas da construção naval portuguesa, não transportavam cargas oriundas das inúmeras feitorias lusas espalhadas pelos mares navegados.       Essa tarefa era reservada às grandes naus, aperfeiçoadas nos mais de dois séculos de penosas e fantásticas navegações.
As visitas periódicas dos galeões possibilitavam ao Conselho Ultramarino, em Lisboa, exercer o controle das províncias portuguesas. Serviam também para transporte de tropas e de autoridades civis e eclesiásticas. Neles, viajavam o ouro, a prata, as porcelanas e as pedras preciosas. Carregavam grande quantidade de canela e da valiosa pimenta do reino, usada como moeda para variados negócios e salário das tripulações. Transportavam ainda indígenas e animais exóticos, dos muitos territórios lusos, conquistados com engenho e arte desde o início do século XV.
Na frugal câmara do capitão, além do beliche em um canto, de um baú de roupas e de um varal para secá-las, havia uma mesa para refeições, presa na antepara. Sobre ela, ficava a carta náutica do Atlântico Sul, riscada em um couro de carneiro, e poucos instrumentos rudimentares de navegação. Uma prateleira próxima guardava alguns livros, “Os Lusíadas” dentre eles. A antepara oposta apoiava um pequeno altar, com a imagem de Nossa Senhora dos Navegantes e uma lamparina, mantida acesa a duras penas. Três vigias, uma em cada bordo e outra no espelho de popa, garantiam ventilação e luz do sol. O ambiente era impregnado de um cheiro forte, mistura de suor, fumaça e óleo de peixe. O capitão vivera ali nos últimos quinze meses, desde a partida de Lisboa para Macau. Sem banho.
Uma barrica enorme, com seis palmos de pé e quatro de diâmetro, feita de teca finamente lavrada, dominava o outro canto da câmara. Era um valioso trabalho chinês. Estava fixada a um forte pé de carneiro a ré, por cintas de ferro batido, cravadas a ficar. A tampa de madeira grossa era meio roscada na abertura superior da barrica e atracada por um aldrabão de ferro, em cujo furo passava um cadeado de respeito. Tal arranjo, acabado com muito breu, garantia a vedação, impedindo o vazamento da salmoura contida na portentosa barrica. Isso era essencial para a preservação do corpo de Dom Fernando de Souza Álvares, ex-governador de Macau, ali mergulhado. Assim se cumpriam as disposições régias sobre o enterramento opcional em solo português, dos nobres e altos funcionários da coroa, falecidos nas províncias.
As instruções para a viagem, recebidas em Portugal, ordenavam a Nuno fazer um levantamento da situação em Luanda, no retorno a Lisboa. Ela estava em mãos holandesas desde 1641, com grandes prejuízos para o tráfico de escravos, explorado pelos portugueses por mais de meio século. Para tanto, havia a bordo alguns tripulantes oriundos da região, com vivência no sórdido e lucrativo negócio negreiro.
O “Príncipe Real” desembarcou quatro deles em uma praia abrigada próxima a Luanda, na madrugada anterior a chegar à vila. Eram três marinheiros negros, chefiados por um branco, ajudante do escrivão. Eles teriam três dias para se integrar à população e percorrer a vila e cercanias, observando tudo de interesse para o comércio de escravos e para a defesa da praça. O galeão se manteria ao largo e os apanharia no mesmo local e horário do desembarque.
O arranjo funcionou e os homens foram recolhidos como acertado. Entretanto, faltava um dos marinheiros, figura popular a bordo. Nuno esperou até quase o amanhecer e só aproou ao mar alto com o sol já de fora. Pouco depois, ouviu o grito do vigia, no cesto de gávea, alertando para a aproximação de um navio, logo identificado como galeão holandês, vindo da direção de Luanda.
A rápida reação do capitão Nuno, bom conhecedor de armamento, foi ordenar o preparo do “Príncipe Real” para combate. Finalmente, surgira a oportunidade tão desejada por ele desde a China. Adestrara-se bastante para melhorar a cadência de tiro e a precisão dos canhões, mediante frequentes exercícios, durante as longas travessias. Assim, contava dispor de respeitável poder de fogo, bem como aferir as qualidades da afamada pólvora chinesa, comprada em Macau em grande quantidade.
Um vento médio soprava para terra e levantava pequenas ondas. Isso aproximou rapidamente os dois navios, em rumos opostos, quase paralelos. Nuno esperou o holandês abrir fogo, o que se deu com os dois canhões de proa. Os tiros foram curtos, com fumaça escura, indicando pólvora fraca. O “Príncipe Real” guinou para fora, abriu distância para aproveitar-se do maior alcance dos canhões, ganhar barlavento e ter melhor condição de manobra. O holandês manteve o rumo e deu a primeira bordada com os canhões de bombordo, fraca e descoordenada, sem atingir o português.
Nuno guinou para dentro, em rumo oposto e paralelo ao do inimigo, fora do alcance dos canhões dele. Ao marcá-lo pela bochecha, o “Príncipe Real” abriu fogo com uma estrondosa e simultânea bordada dos 14 canhões de bombordo. Antes de a fumaça se dissipar, vomitou fogo com outra bordada pelo través, e mais uma pela alheta, conforme se cruzavam os navios. Em seguida, inverteu o rumo e ia sair em perseguição do inimigo. Não precisava. Ele estava à matroca, dois mastros quebrados, a vela grande n’água e rombos no costado. A pólvora chinesa era um sucesso.
O Capitão Nuno acordou com o canto do galo, companheiro das galinhas no cercado do convés do castelo, responsáveis pelos ovos e canjas da dieta das autoridades. Em seguida, ouviu um pigarro forte, vindo da direção da barrica. Era Dom Fernando, que também despertara com o canto do galo. Uma voz clara e forte falou:
- Ó Nuno, fizeste-o muito bem ontem. O maldito holandês teve o merecido!
Ao que o capitão prontamente retrucou, com falsa modéstia:
- Ora pois, senhor meu tio. Deveu-se isto à qualidade da pólvora chin.
A conversa prosseguiu com grande naturalidade. Nuno deitado no beliche e a barrica firme no seu lugar. Esse diálogo se iniciara logo após a saída de Macau. Na primeira vez em que Dom Fernando falara, o capitão levara um grande susto, mas foi tranquilizado pelo seu parente e amigo. A partir daí, passaram a conversar com frequência, a iniciativa sempre do nobre, e que não ocorria toda noite.
O primeiro canto do galo era sinal para o início das conversas, sempre encerradas antes do amanhecer. Às vezes, se o galo insistisse em cantar, o morto se calava subitamente, por mais interessante o assunto. Era comum ocorrerem discussões acaloradas entre os dois interlocutores. Então, uma pálida luminescência envolvia a barrica e dela surgia o ectoplasma de Dom Fernando, em pé, gesticulando. O nobre apreciava tais momentos, por poder esticar o corpo, sempre curvado na barrica.
A travessia para o Rio de Janeiro duraria cerca de seis semanas, conforme os ventos e as correntes. Nuno aproveitou para redigir o relatório sobre Luanda, destinado ao Conselho Ultramarino em Lisboa. Uma cópia seria para o governador do Rio de Janeiro, o famoso Dom Salvador Correia de Sá e Benevides. Outra permaneceria a bordo do “Príncipe Real”. Para tanto, passaram a ocorrer reuniões na câmara, com Nuno, o escrivão e seu ajudante redator, e os dois marinheiros que o acompanharam em Luanda, logo dispensados. O ex-bispo de Goa, Dom Manuel de Castello Branco, o mais ilustre passageiro vivo, comparecia com sua experiência, a convite do capitão.
As informações coletadas e o ataque pelo galeão dos holandeses indicavam que eles não tinham a menor intenção de sair de Luanda. Havia alguns navios armados no porto, além de tumbeiros lotados de escravos, prontos a zarpar para as Américas, o Brasil em especial. Os dois fortes do porto tiveram as defesas melhoradas e foram aumentados o número e o calibre dos canhões. A tropa também recebera reforços.
Nuno e seus parceiros de reunião logo concluíram que a chegada de tais notícias no Rio de Janeiro e em Lisboa certamente iria provocar o envio de outra expedição, para tentar expulsar os holandeses. Seria a terceira, após o fracasso de duas anteriores, em 1645, oriundas de Salvador e do Rio, as quais pecaram por mau planejamento e meios insuficientes. Desses esforços, ficou famosa a trágica experiência de duas centenas de expedicionários baianos, aprisionados por nativos, aliados dos holandeses. Tratava-se da poderosa tribo dos Jagas, terríveis antropófagos. Segundo quatro sobreviventes, os jagas se alimentaram desses homens, por cerca de três meses, em festivos banquetes.
As condições políticas para uma nova investida sobre Angola eram bem melhores em 1647, com a “Restauração”, separando Portugal da Espanha em 1640, e a entronização de D.João IV, em 1641. Seria necessário reunir mais forças que nas incursões anteriores, em número e armamento dos navios, e em quantidade, equipamento e preparo da tropa. Também, importava definir de onde partiriam os navios, quem os aprestaria e comandaria, e como financiar a operação. Rio e Salvador eram opções óbvias, mas com carência de navios e de pessoal capacitado.  Devido à longa ausência do “Príncipe Real”, havia dúvidas se os holandeses continuavam em Pernambuco. Por fim, Lisboa seria outra solução, porém, afogada nas reverberações européias da “Restauração”, tenderia a delegar a tarefa, como o fizera antes.
Todas essas incertezas dominavam o pensamento do capitão Nuno, durante a redação do relatório. Além do mais, os poucos membros do grupo que o ajudavam nisso não tinham qualificações para opinar sobre tais assuntos. O próprio bispo de Goa estava desatualizado, pois passara quase dez anos na província. Só restava a Nuno apelar para Dom Fernando, de dentro da barrica.
Assim foi feito, para grande espanto do religioso, que não podia recusar a sugestão de Nuno para incorporar o tio ao grupo. Afinal de contas, o bispo representava Deus naquela casca de noz, balançando no imenso oceano. O resultado surpreendeu, com a sabedoria política da igreja como lastro para ponderar os argumentos. Além disso, passado o ilógico pavor do prelado, ele e o falecido se tornaram mui amigos. Tudo facilitado pela anuência do bispo em não perguntar ao morto sobre a “vida do outro lado.” D. Manuel manteve a palavra, apesar de “morrer” de curiosidade.
O galo cooperou e muitas madrugadas da travessia foram ocupadas em discussões na câmara do capitão. Dom Fernando era adepto de deixar o problema com Lisboa. Já Nuno, tendo escalado no Rio na vinda, defendia que a tarefa seria melhor cumprida a partir de lá. Ele sabia ser esse o pensamento de Salvador de Sá, baseado em que a maioria dos tumbeiros, vindos de Angola carregados de escravos, desembarcavam os infelizes naquele porto. O lindo Rio era a sede do tráfico para o Sul e Sudeste do Brasil, e o governador tinha grandes interesses nele.
O “Príncipe Real” fundeou em frente à cidade do Rio de Janeiro, com a Ilha das Cobras pelo través, em uma límpida manhã de outubro de 1647. Salvador de Sá veio a bordo, ansioso por novidades. O capitão e o bispo foram hospedados por ele, no Morro do Castelo. A pesada barrica, com Dom Fernando dentro, foi também para lá, por razões cerimoniais alegadas pelo prelado e por Nuno. Isso exigiu uma grande faina para colocá-la em um carro de boi, puxado por duas juntas, que gemeu penosamente na Ladeira da Misericórdia, até o topo do morro. O galo também foi, calado...


06/02/2018

Os moinhos da colina

Vincent van Gogh - Le Moulin de la Galette (8) - 1886


Moacir Pimentel
Eu visitei Montmartre, pela primeira vez, em 1978. Para você ver como sou idoso, tinha vinte e três anos naquele verão. Durante três semanas viajei pela França com uma meia dúzia de amigos estudantes, de carona muitas vezes, dormindo em casa de parentes ou de amigos ou em albergues da juventude, levando papos “cabeça”, fazendo biscates para poder beber vinho à noite e combinando mudar o mundo.
Como a maioria absoluta da turma estudava Artes ou a sua História ou outras “humanas” ou coisas estranhas como Turismo, nós invadimos Montmartre não somente para ver de perto as suas imagens icônicas mas em busca da paisagem intelectual do bairro, da história de uma confraria de grandes artistas que, naquelas paragens tinham influenciado as artes uns dos outros.
Sendo assim, em se tratando de moinhos, por exemplo, nos interessava mais os que foram pintados por van Gogh do que o Moulin Rouge. E entre os moinhos do artista, em especial, os da Galette que foram tema de diversas pinturas feitas por Vincent em 1886.
Os dois moinhos da Galette originais ficavam perto do número 54 da Rua Lepic, onde morava, no primeiro andar, Armand Guillaumin, um pintor impressionista de paisagens e marinhas. Foi Armand quem convenceu os dois irmãos van Gogh a se mudarem para o bairro e o prédio, onde Vincent passou a ter seu próprio estúdio no quarto andar - hoje atração turística! - com uma pequena janela através da qual ele avistava a colina ou a butte, como dizem os nativos.
O artista transformou as longas vistas descortinadas daquela janela em telas, embora preferisse estar nas ruas onde o que não faltava era assunto para as suas tintas: a vida ao ar livre, os cafés, as vinhas, os campos de trigo e as pastagens para criação de ovelhas e vacas, galinhas e porcos e, é claro, os moinhos de vento, que perfazem um subconjunto entre as pinturas que van Gogh fez em Paris, influenciado por impressionistas, simbolistas, pontilhistas e arte japonesa. Telas nas quais ele minimizou Paris vista de longe e maximizou o ar bucólico da campina dominada pelos velhos moinhos.
Bem na fronteira da França campestre, o bairro de Montmartre ofereceu a van Gogh a oportunidade de criar pinturas rurais mesmo estando na cidade, e suas cores vibrantes fizeram-no pintar cenas mais claras e coloridas do que ele pintara até então, anunciando as maravilhas que, a seguir, ele pintaria na Provença.
O Moulin de la Galette também foi o nome de um salão de dança ao ar livre que funcionou por muito tempo entre os dois moinhos de vento da colina. Onde, aliás, quem também brincou foi o pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir.
Bem sei que muita gente boa não gosta da obra de Renoir. Tudo bem. TS Eliot certa vez afirmou que seria muito aborrecido falar sobre poesia com alguém que gostava de toda e qualquer poesia até porque “a aversão é a raiz do verdadeiro prazer”. Quando se trata de pinturas, se nenhuma escolha for feita e de uma maneira tendenciosa e apaixonada, literalmente não sentiremos a força da arte.
Sucede que Renoir tinha a invejável capacidade de se interessar por tudo e, mais do que qualquer outro impressionista, ele descobriu beleza e encanto nas cenas parisienses do seu tempo. Com certeza ele não mergulhou fundo na substância do que via mas procurou, isso sim, abarcar as aparências e captar as generalidades para nos dar um prazer imediato. Afinal o prazer, que me desculpem os que pensam diferentemente, é um tempero necessário à vida.
E então Renoir descreveu cenas agradáveis e íntimas, gente se divertindo nos cafés e teatros de Paris, com um gozo descomplicado e um otimismo inquebrantável. O amor à vida e a alegria de viver emanam de cada uma de suas imagens enquanto que jovens mulheres, crianças e flores formam o repertório de suas composições. Mesmo suas paisagens compartilham dessa felicidade e ele insistia que...
“Uma tela deve ser adorável, alegre e bonita, sim bonita, pois já há coisas cansativas demais na vida para nos darmos ao trabalho de produzir mais”.
Renoir nos ensinou a apreciar novas dimensões da beleza do mundo em que vivemos, que as gerações anteriores de pintores não haviam ainda percebido. Isso pode ser visto gloriosamente até mesmo nas suas cenas de inverno que não eram sombrias e tristes como vemos nessa sua sensual apreciação de um dia chuvoso de outono em Montmartre.
Pierre Auguste Renoir - Les Parapluies - 1886

Ele criou no conjunto da sua obra o equivalente a uma provocativa novela francesa e, é claro, nela não poderiam faltar as festas do seu bairro, a atmosfera vivaz e alegre dos salões de bailes tão populares na butte, a multidão em movimento, banhada por luz natural e artificial, representada com pinceladas vibrantes de cores vivas. O velho salão de danças entre os dois moinhos de Montmartre se transformou assim, pelas mãos de Auguste Renoir, em uma das telas mais famosas do mundo batizada de O Baile do Moinho da Galette.
Veja como ele dotou de animação essa galera de jovens parisienses usando a luz do dia que se reflete e passa através das árvores e mancha as roupas. O jogo de luz que faz esta pintura literalmente dançar é algo que reconhecemos e sabemos ser um efeito natural da luz solar mas, por incrível que pareça, ninguém jamais pintara até então essa fluência das sombras nem uma luz semelhante, assim rápida, se quebrando desse modo pelo chão, se derramando nas roupas, chapéus e objetos.
Pierre Auguste Renoir - Le Moulin de la Galette - 1876

Nada disso fora abstraído e registrado na arte antes de Renoir aparecer. Ele compreendeu que tudo muda constantemente devido ao impacto da luz e da cor, mas suas impressionistas e rápidas e brilhantes pinceladas foram muito criticadas pelos sabichões especialistas de plantão, que diagnosticaram seus trabalhos como “inacabados e desleixados”, barrando-os no baile do Salão de Arte de Paris tanto que o artista - assim como tantos outros impressionistas - exibiu suas telas no Salão dos Recusados, que foi criado por Napoleão III depois que o Salão oficial de 1863 recusou cerca de quatro mil obras. A exposição alternativa deixou muitos pintores como Cézanne, Manet, Whistler e Renoir felizes da vida por ter um lugar onde pudessem expor suas obras recusadas. Dizem que no dia da sua inauguração o Salon des Refusés foi visitado por mais de sete mil pessoas.
O fato é que esse esnobado Baile do Moinho da Galette, com seu estilo inovador e formato imponente, é uma das obras-primas do impressionismo, um retrato da vida do povo parisiense, uma página da História, um monumento precioso da vida boêmia do bairro, da atmosfera pitoresca e festiva da butte Montmartre, ao pé do moinho.
Renoir descreveu as atividades de lazer da sociedade francesa misturando democraticamente a pequena burguesia e a classe trabalhadora. O baile nos parece inocente hoje mas, em 1876, as autoridades eram hostis às danças públicas. A pintura de Renoir foi considerada controversa, mas para a intelligentsia de Paris dançar no Moulin de la Galette simbolizava o espírito da Terceira República.
Decerto que nessa caça aos fantasmas dos nossos artistas preferidos pelas ruas de Montmartre, só os encontramos nas placas de nome das ruas. Mas logo entendemos que, assim como uma viela desembocava em outra, em Montmartre um pintor nos levava a outro, uma tela a muitas outras mais e que as “conversas” de arte se misturavam com o próprio tecido social e a colorida história do bairro.
Nos surpreendemos, por exemplo, ao descobrir que por trás da Basílica de Sacré Coeur, na recatada rua Cartot, uma das mansões ajardinadas que hoje formam o Museu de Montmartre pertencera a Claude de la Rose, um ator do século XVII. Aquele que, mais conhecido pelo codinome de Rosimond, substituiu Molière e que, como seu antecessor, também terminou morrendo no palco. Outros artistas como Pierre Reverdy, Raoul Dufy e o compositor Erik Satie também utilizaram cômodos da mesma mansão como moradias e ateliês.
Outra das velhas casas, a Maison du Bel Air foi o primeiro endereço em Montmartre de Pierre-Auguste Renoir que lá pintou justamente o Moulin de la Galette. Mas os jardins do atual Museu também serviram de tema para várias telas pintadas pelo artista tanto que os seus canteiros foram restaurados conforme seus quadros, um dos quais muito famoso - O Balanço!
Pierre Auguste Renoir - L'Équilibre - 1876

Note como essas figuras de Renoir parecem estar numa floresta na qual a luz trêmula do sol foi representada por manchas de cor pálida – que muito irritavam os críticos de arte! - mais notadamente nos vestidos da moça e da garota e no chão. Diz Dona Lenda que a modelo da protagonista balançante se chamava Jeanne, que sua irmã Estelle modelou para a garotinha enquanto que Edmond, o irmão de Renoir e um pintor amigo da família, de nome Norbert Goeneutte, ajudaram o pintor a construir os dois personagens masculinos.
Apesar de ser apenas um detalhe periférico a menininha desse quadro merece atenção porque Renoir nos dá a impressão de estarmos testemunhando, exatamente como ela está, uma conversa entre a moça de pé sobre o balanço, o rapaz visto de costas e o outro que se apoia no tronco da árvore. A turma em primeiro plano é equilibrada pelo grupo de cinco figuras que foi esboçado vagamente no fundo, à direita, para adicionar profundidade à cena.
De certa forma é como se o pintor nos sugerisse que contemplássemos a cena com os olhos da criança, que olhássemos para o mundo criado por ele como os miúdos vêem o real, que imaginássemos os jardins nostálgicos que vimos quando pirralhos e guardamos na memória.
Essa menina, que mora em outras telas do artista, no Balanço representa o espectador. Veja como ela foi pintada sólida e nitidamente, como está cônscia da sua importante figuração. Seus pés, pequenos e firmes e enfiados em práticas botinas, estão de algum modo enraizados nesse jardim. Sim, como tudo mais na composição ela é decorativa mas também nos faz pensar em um futuro desconhecido, no qual a garotinha já não será mais parte do jardim, mas um adulto como nós, mais um espectador desfrutando uma lembrança do tempo ali descrita.
Essa tela tem muitos pontos em comum com o Baile no Moulin de la Galette. Pudera! As duas obras foram pintadas simultaneamente no verão de 1876 e dizem que Renoir pintava o jardim pela manhã e a dança à tarde. O que caracteriza ambas as pinturas é essa habilidade que ele tinha de capturar os efeitos da luz solar filtrada pelos obstáculos, como por exemplo, a folhagem, e com ela ir bordando as superfícies e mesmo manchando as peles como no Nu à Luz do Sol abaixo, no qual ele criou um padrão multicolor de luz e sombra, como flores tatuadas no corpo despido da figura.
Pierre Auguste Renoir - Étude - Torso à la lumière du soleil

             Para descrever esse deslumbrante e solar nu passo a palavra para o próprio Renoir:
“A imaginação não pode conceber nada melhor do que a mulher nua, seja ela emergindo das ondas do mar, ou de sua própria cama, seja Venus ou a Nini”.
Ele se referia à modelo que posou para essa tela de nome Nini Lopez que talvez mais do que qualquer outra tenha encarnado o ideal feminino do pintor: bela, clara, jovem e cheia de vida. A coloração e a textura do corpo de Nini, de fato, sugere nessa tela tons de mar e Renoir ficou tão encantado com a espontaneidade desse trabalho que optou por deixá-lo assim, inacabado.
As formas arredondadas com um brilho perolado da garota - a barriga, os seios, os ombros, os braços e o pescoço – são o foco principal e nada nos distrai dessa plenitude nem mesmo a luz do sol que se atira sobre ela. Note como Renoir praticamente eliminou da cena pictórica os mamilos e o umbigo e como ele celebra uma natureza atemporal, da qual toda referência ao mundo contemporâneo é banida. Ele pintou essa menina como se ela fosse parte da natureza e somente a pulseira e o anel traem uma nota de vaidade feminina e um subtexto urbano.
As folhas de repente se abrem para dar lugar a essa cena diante de nós, um burburinho de riscas e manchas e cores e essa visão inesquecível de uma criatura florestal para deleitar e perturbar os sentidos. Para Renoir, o efeito da luz era mais importante do que a forma e a composição em uma pintura e portanto ele criava imagens sensuais radiantes e íntimas apenas com com luz e sombra.
Aos olhos dos especialistas seus contemporâneos, porém, Renoir era impressionista além da conta. Quando ele exibiu esse nu na Société Anonyme, em 1874, um dos críticos de arte mais respeitados de Paris, de nome Albert Wolff, chegou a escrever no jornal Le Figaro o que segue:
“Tentem explicar ao Sr. Renoir que o torso de uma mulher não é uma massa de carne em decomposição com essas manchas verdes e purpúreas que denotam o estado de putrefação completa de um cadáver”
Essa percepção hostil dos esplendorosos corpos de tinta que Renoir pintou ao sol com uma paixão e um prazer limítrofes da pornografia era turbinada por declarações do próprio artista aos seus detratores:
“Vá e veja as cortesãs de Ticiano no Louvre, mas se você quiser saber o que é a arte, ela é a carne, a carne, a carne!”
Renoir pintou paisagens, retratos, naturezas mortas e experimentou novos métodos ao longo de sua longa carreira tendo cultivado a semente da arte moderna. Mas preferia a figura humana e amava a figura feminina e seu objetivo primeiro era realizar uma obra que fosse agradável fisicamente. Por isso seus trabalhos tardios foram, principalmente, de mulheres nuas, dizem que inspiradas por uma viagem que fizera à Itália em 1881, para conferir de perto os museus e os centros de arte de Milão, Roma, Veneza, em busca de inspiração.
Os biógrafos do artista juram de pés juntos que ele retornou a Paris encantado com a obra de Rafael fato que o fez dar mais consistência e substância às suas tela, em uma aproximação do estilo renascentista.
A diferença entre as pinturas mais maduras e acadêmicas e os seus trabalhos primordiais mais impressionistas é grande, pela ênfase que ele passou a dar ao volume, à forma, às bordas e linhas e aos contornos embora jamais tenha desprezado completamente e a paleta luminosa do impressionismo nessa recaída clássica de um dos seus temas favoritos: os enormes nus ao ar livre. De fato, Renoir, em 1887, criou a maior das suas telas do gênero - As Grandes Banhistas.
Pierre Auguste Renoir - Les Grandes Baigneuses - 1887

Talvez estejamos diante de uma criação do derradeiro filho de uma estirpe de pintores de belas e despidas e robustas mulheres que, tendo sido iniciada por Rubens também foi prestigiada por Antoine Watteau.
Peter Paul Rubens é celebrado como um dos maiores pintores do seu tempo mas é mais popularmente conhecido como o pintor de mulheres “grandes”, ou de lindas gordinhas que – aqui entre nós e baixinho – qualquer um encararia (rsrs) Com certeza Rubens sabia como e ensinou Renoir a fazer “grandes” e barrocas e maravilhosas mulheres sem qualquer vestígio de fraqueza física. Muitas das catacterísticas da arte de Rubens - como movimento, drama e teatralidade – estão presentes nessa cena povoada por carnudas e vigorosas criaturas.
Ao reinventar as mulheres de Rubens, Renoir fez, mais uma vez na História da Arte, do corpo humano uma força expressiva de emoções e paixões utilizando apenas tinta a óleo. Nas suas figuras tardias o artista buscou os detalhes, dotando-as com uma qualidade escultural enquanto que em torno delas ele inventou uma paisagem inundada pela luz impressionista e traçada com pinceladas rápidas e livres. É como se ele tivesse tentado, nessa nova abordagem, reconciliar o seu moderno jeito de pintar com as tradições artísticas passadas.
Essas figuras de contornos precisos e formas desenhadas com rigor possuem grandes seios e coxas e são tão imponentes e formais quanto suas ancestrais, aquelas que personificaram temas da mitologia. Pintando-as assim Renoir acentuou nelas a sensualidade sem dar-lhes, no entanto, o padrão inalcançável das deusas.
Mesmo assim as duas figuras à esquerda em primeiro plano e as outras três que brincam à direita, no fundo da composição, mais do que a Montmartre ou ao Midi, pertencem aos jardins de oliveiras, às paisagens mediterrâneas, falam a língua da tradição clássica da Itália e da Grécia. Essa visão idílica é marcada pela riqueza das cores e pela plenitude das formas refletindo o prazer de pintar que superou a doença e o sofrimento suportados pelo pintor no final de sua vida.
Pode-se considerar, portanto, essa tela como uma despedida pictórica de Renoir que morreu aos setenta e nove anos repetindo que “se a pintura não fosse para mim um prazer, eu certamente não pintaria” depois de ter vendido diversas obras para o Estado francês e visto uma delas ser exibida no Louvre ao lado de trabalhos de seu herói: o pintor Paolo Veronese.
No Museu de Montmartre fizemos ainda mais uma descoberta interessante sobre uma linda filha de Montmartre chamada Marie-Clémentine Valade que foi insistentemente retratada por Renoir. Mas ela será outra conversa.


04/02/2018

Vista aérea

Lisboa vista de cima - fotografia Heraldo Palmeira

Heraldo Palmeira
A simpatia do pessoal de terra combinava com a manhã ensolarada que iluminava o aeroporto. Nenhum sinal de nevoeiro, um dos problemas que afetam a região do Porto e atrapalha o tráfego aéreo de vez em quando. Em poucos minutos, meu procedimento de embarque estava resolvido.
Ainda restava algum tempo até a hora do voo e caminhei pelas lojas sempre iguais às de qualquer aeroporto internacional ao redor do mundo. Tempo para fazer comparações de preços depois da conversão das moedas e descobrir que tudo fica caro com um fator de quatro e tais para um.
Mais adiante, um café sempre bem-vindo, ainda mais quando há inverno lá fora, visível pelas vidraças enormes que também revelavam a movimentação dos aviões na pista. E num canto mais afastado, a agradável surpresa de um duo de instrumentistas, piano e violino, tocando bem belos standards. Inclusive da bossa nova.
Lembrei do mesmo voo, que havia feito duas semanas antes para uma reunião que um amigo havia marcado em Lisboa. Íamos tomar um café na calçada central da Avenida da Liberdade, colocar os assuntos em dia, falar de negócios. Ele também queria me apresentar um músico angolano.
Naquela outra manhã, uma família representada por três gerações já se destacava ao redor do portão de embarque. Falando alto, rápido e sem parar. Em castelhano. Gerando uma inquietação incomum para a quietude dos demais.
No movimento de embarque, terminaram ficando para trás. Eram oito, adultos e crianças. Ao entrar no avião provocaram uma pequena confusão tentando passar logo pelos outros passageiros que se acomodavam. O patriarca exasperou-se com o comissário de bordo, pois havia pedido para que ficassem todos juntos, numa dessas bobagens que se tornam ainda mais tolas num voo de uma hora.
Ouviu do rapaz que aquele era um problema que deveria ter sido resolvido no check-in, e estava claro que a grosseria inicial matou qualquer possibilidade de ajuda a bordo.
Quando percebeu que exatamente ele ficaria sozinho, na parte de trás, o velho patriarca resolveu pedir a um senhor que estava na fileira quatro para trocar de lugar com ele. O homem estava nitidamente irritado com aquela movida sem sentido e negou.
O patriarca ironizou a negativa com o que parecia ser seu genro. O outro senhor levantou – e não parava mais de levantar, era enorme – e perguntou, com um fortíssimo sotaque lusitano na voz de trovão:
– Qual é o teu problema, hein? Acaso não percebes que estás a atrapalhar a todos? Não tens vergonha de agir como um puto?
Sentado na fileira cinco, levei alguns centésimos de segundo quase eternos para me dar conta de que “puto” é apenas “menino” na linguagem lusa, enquanto a adrenalina baixava na mesma proporção em que o velho patriarca, sem dar um pio, se afastou em busca do próprio assento no fundo do avião.
O turboélice franco-italiano partiu quase lotado. E pelo menos na primeira meia hora aqueles passageiros infernizaram a vida de todos, falando aos gritos – o barulho dos motores era intenso – para conversarem todos com todos, apesar da distância entre suas poltronas nas fileiras três e quatro.
Até que duas das crianças, ali na faixa entre oito e dez anos – deram mostras amplas da crise de autoridade dos pais de hoje. A menina só reagia quando provocada pelo irmão. Mas o menino era difícil, do tipo irritante, provocante, pedindo coisas impossíveis, que não estavam no voo – suco de tomate, hambúrger, sinal de internet num avião daquele porte... E a mãe entrando em parafuso, falando aos gritos e quase na velocidade da luz, cada vez mais irritada. E irritante!
As duas crianças foram ameaçadas de castigos pelos parentes, vã tentativa para que se comportassem. Até que o menino foi longe demais no tom de voz e na ameaça ao homem jovem do grupo. Desrespeitoso a valer, boca suja com gosto.
De novo, entrou em ação o homenzarrão com sotaque lusitano e voz de trovão, que levantou e foi até a poltrona do casal de crianças.
– Ó puto, já chega por hoje! E vocês todos, chega! Já incomodaram imenso desde o embarque! Será que não têm um mínimo de educação?
Não fosse o barulho dos dois motores, seria possível ouvir qualquer inseto mudo passando por ali, estivesse dentro ou fora da fuselagem. Ninguém ousou qualquer reação, havia um quê de autoridade indignada no velho senhor difícil de enfrentar – faltou pouco para o patriarca daquela família agradecer não ter havido a troca dos assentos que pretendia; lá atrás estava tudo sossegado.
Na verdade, muito mais do que grosseria, ali aquele velho senhor enorme já falava por todos. Ficou no ar a impressão de que o português estava agindo como educador, apresentando o velho, bom e cada vez mais negligenciado limite, que todos naquele grupo inegavelmente precisavam.
Um pegou algo para ler, outra tratou de olhar a paisagem na janela. Os meninos terminaram cochilando. A matriarca baixou a cabeça, fechou os olhos e apoiou a testa no punho fechado. A paz foi restabelecida.
De repente, nos minutos finais do voo, o menino quebrou o silêncio, eufórico na janela, gritando “una cancha, una cancha!”, apontando freneticamente como se enxergasse messis e ronaldos correndo atrás da pelota. “Otra, otra!”, estupefato, sem entender que há apenas uma pequena distância entre os estádios do Benfica e do Sporting. Desanuviou o ambiente.
Voltei ao presente com a chamada do embarque. O voo daquele dia estava absolutamente tranquilo, poucos passageiros, um perfil mais executivo, todos absortos em seus próprios interesses. Nada de famílias estrangeiras em férias.
Vi o Atlântico majestoso e calmo lá embaixo, como um tapete azul garantindo estabilidade ao pequeno avião. Daquela altura, contornos muito distantes de barcos e navios. Um veleiro singrava com a nobreza de suas duas velas brancas plenas de ar.
Mais ao longe, algo que me pareceu um submarino – pensei em consultar meu querido amigo almirante para saber se aquilo era possível ou simples delírio de um ignorante dos mares. Generoso e delicado, ele certamente me diria que era possível, pois ali é rota para o Mediterrâneo e diversas marinhas nacionais podem trafegar na região, com a devida permissão de Portugal.
A chegada sobrevoando a cidade linda, seus monumentos passando debaixo de nós, a luz quase sobrenatural de Lisboa num dia de sol, as cores estalando no famoso contraste dos tons que encanta há séculos.
De novo, eu avistava a foz do Tejo, as pontes 25 de Abril (a irmã da Golden Gate de San Francisco) e a Vasco da Gama. A lendária e hoje pequenina Torre de Belém, na margem direita do rio, ponto de partida das grandes navegações portuguesas que redesenharam o mundo moderno. Também à vista, o Mosteiro dos Jerónimos e o trecho de rua onde são servidos os pastéis irresistíveis, de fama mundial.
Mais adiante, os dois estádios magníficos, palcos de uma das rivalidades mais antigas do futebol europeu. Lembrei do menino de uma semana antes, inebriado pela paixão pelo fútbol. E o casario de Lisboa, cantado em verso, prosa e cores pelos artistas do mundo.
Lisboa trata o sorriso como patrimônio. É bom não esquecer, deve ser item obrigatório na bagagem.


02/02/2018

Um trem de perdição

fotografia WBJ


Ana Nunes

O Heraldo que me perdoe porque depois do seu belo último post falei que não ia escrever mais nem lista de compras. Que faço com desenhos muitas vezes. Mas por causa da eterna franquia francesa do Moacir, e que assim seja de tão boa, e por causa de filmes franceses que ando vendo, deu-me ganas de também me aventurar, ou perder-me, em Paris.
Uma viagem boa demais. Um projeto de passar o aniversário em Paris. Projeto de detalhes e carinhos. Começo de Abril, também em Paris. Um começo de primavera florida ainda fazia frio.
Para tanto no dia certo, aeroporto certo, hora certa, despachamos a bagagem e... o passaporte estava vencido. Nem olhei, só queria viajar. Que coisa ridícula! Voltamos para casa cabisbaixos, sem viagem, geladeira vazia e um monte de desapontamento.
Nora e filho preparados para um aniversário em picnic francês no gramado do parque.

Mas valeu demais porque passei com meus pais pela última vez. E sempre ganhei um almoço bem mineiro, já tradição, de mãe querida. Única. Imbatível. Para sempre lembrados. Como poderia eu pensar que seria meu último aniversário de filha? Agora só de mãe.

O passaporte ficou pronto rápido e assim rápido fomos. O picnic já era, foi feito sem nós. Mas tivemos outros passeios lindos, nos Champs-Elisées, Montmartre, Quartier Latin, brechó de livros, teatro, violino no metrô e a modernidade intensa do La Défense, onde o filho trabalhava. Um respiro do novo!

Tudo ia tão bem!
E fomos conhecer Versalhes. Não gosto de grandiosidades. Ainda mais douradas.
De cara já foi estranho: sai o Mano com um tênis diferente em cada pé. Sabichão distraído, pensando em belezuras e fotos. E vítima de muita gozação.
Metrô. Depois o R.E.R. Adoro trens.
Fim de linha. E dá-lhe realeza, brilhos e dourados. E um desfilar imenso de Netunos, e ninfas, tritão garfo e faca e fontes e mais fontes. Reis e rainhas, e meu pensamento já esgotado via forca e guilhotina. A fila para entrar no Palácio era enorme. Aleluia, não encaramos. E haja sorriso e pose para tanta foto. Detesto fotos, me acho feinha.
No final do dia tarde caindo e eu caindo junto. Quase morta, overdose de Versalhes.

Andamos tudo de volta feliz a caminho do trem. Ô trem bão! E, na estação, com saída já anunciada, entrei correndo e... as portas fecharam logo atrás e marido e filho do lado de fora, apavorados. Desesperados diziam para descer na próxima estação onde nos encontraríamos.
E eu sem dinheiro, sem bilhetes outros para errar descidas, o famoso passaporte esquecido na mesa em casa. Nem sabia o endereço certo porque estava sempre acompanhada. Só sabia que a rua tinha nome de queijo. Era, agora sei, Rue de Cortambert. De conforto um poncho de lã fininha. E a noite caindo.

Mas exausta de tanta riqueza e estátuas e jardins eu só queria inexistir entre os muitos desconhecidos do trem. Sem precisar falar ou andar, em pé e embalada no barulho e no balanço. E resolvi não descer para aproveitar o abandono e reinstalar o meu eu em mim.

Estudei o mapa e vi a estação já conhecida para passar para o metrô. Sem dinheiro não podia errar. Feliz, imersa na minha perdição, eu via passar as estações de nomes conhecidos, Saint Michel, Cluny, Champ de Mars , já nem me lembro mais. Só que o trem não parava onde estava acostumada a pegar o metrô. Tinha que descer em Bir-Hakeim e passei direto. Me vi perdida.
Pedi informação a um árabe grandão e mal resolvido e não entendi nada.
Já não reconhecia mais a paisagem, o trem quase vazio. Sentei-me ao lado de um francês jovem, gentil e muito gato. E no meu francês estropiado fomos conversando. E êle me explicou que eu TINHA que descer na próxima e última estação em Paris. Ao contrário iria para a periferia, rumo ao desconhecido. E a noite caía.
Com suas explicações, desci, peguei o metrô e fui até a estação certa. Feliz, solta, aventurada! E vi meu filho em um balcão de informações tomando as devidas providências para me achar. Nos abraçamos apertado dentro dos seus soluços incontidos. O pai tinha ido para casa ver se eu tinha aparecido por lá.
E lá os encontramos, sogro e nora e um silêncio sem medida. O filho passou a mão na mulher e saíram para “esfriar”. Voltaram bem tarde na noite. Aí sim, corri riscos.
E, ainda assim, feliz da vida me vangloriando da gatice do informante.

A saturação real dourada não me deixou ter medo. Só alívio todo o tempo. Egoísta, me aventurava enquanto os queridos agoniavam! Para isso acho que não tem perdão. Passa tempo, passa tempo e continuo sendo assunto.


E Paris... bem, Paris fica melhor, muito melhor, em “pretinhas de outra lavra”!