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16/08/2019

Peripécias de um casal de idosos

Gato no petshop - autor 玄史生 (Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0 Unported license)


Francisco Bendl
Faz algum tempo que eu a Marli pensamos em sair de Rolante, e morar mais perto dos filhos.
Dois na capital e um na cidade de Osório, o médico, cuja esposa é enfermeira e leciona na faculdade local.
Sentimo-nos pontas soltas longe de nossos amados.
Olhamos casas primeiro em Porto Alegre, inúmeras.
Afora o custo da mudança e o valor dos aluguéis, o problema das casas em condomínios fechados é a escada, pois a maioria absoluta é de sobrados.
Para quem já é velho, eis um obstáculo intransponível.
A solução seria apartamento.
No entanto, eu preferiria enfrentar as escadas que morar embaixo de alguém que sapateia, faz barulho à noite, usa de furadeira fim de semana, a mulher quando coloca sapatos de salto alto chega a doer no coração pelo toc  toc toc, no piso.
Mais:
O alto custo do condomínio que, muitas vezes, empata com o valor do aluguel.
Desta forma, somando as contas, afastamos Porto Alegre de nossas pretensões.
Para onde, então, iríamos eleger a nova cidade onde iríamos residir?
Osório!
Lá mora o nosso filho mais velho, médico, que nos ajuda volta e meia quando precisamos desta atenção específica.
E demos início ao périplo de escolher uma casa.
Os aluguéis eram mais caros que Rolante.
Empecilho:
Exigiam fiador.
Expliquei que o fiador é uma figura mitológica, tornou-se uma lenda, um mito.
Perguntei se era só esta modalidade de se alugar um imóvel?
Disseram-me que restava o seguro fiança.
Mais uma vez mencionei que a Porto Seguros levou o seu maior acionista à classificação de um dos homens mais ricos do Brasil, dono de uma fortuna estimada em mais de cinco bilhões de dólares!
O valor que é cobrado do aluguel, de um e meio a dois meses por ano, é um dinheiro que não fica para o inquilino, para o dono do imóvel e tampouco para a imobiliária.
As empresas me alegaram que era assim que trabalhavam, portanto, se eu estava interessado em alguma casa, eu teria de me submeter às suas regras.
Continuei procurando, pesquisando em imobiliárias sem tanta fama que, lá pelas tantas, aceitariam cartão de crédito, por exemplo.
Encontramos UMA CASA MARAVILHOSA, sobrado... sobrado, porém somente os dormitórios eram no andar de cima, e havia um no térreo, que seria inevitavelmente o meu, e também transformado em escritório.
Eu e a Marli olhamos, gostamos, e ficamos de voltar para assinar o contrato depois que o inquilino saísse, e a imobiliária fizesse a vistoria e consertasse o que precisasse de reparos.
Nesse meio tempo, surgiu uma casa térrea, ou seja, sem andar de cima, plana, e mais barata que o sobrado, mesmo com seus luxos e até piscina!
Cancelamos a casa que gostamos, que ainda não tínhamos assinado papel algum.
Dia seguinte, lá fomos nós de novo a Osório pela sexta vez em uma semana. Diga-se de passagem, que esta cidade dista de Rolante setenta quilômetros, ida e volta são cento e quarenta quilômetros percorridos, portanto.
Vimos a casa, era o que queríamos e, mais uma vez, voltaríamos para assinar o contrato depois que a papelada fosse analisada e o crédito aprovado, pois seria na mesma modalidade do sobrado, cartão de crédito!
Na volta, eu e a Marli pensamos, e começamos a rever os aspectos negativos de uma casa em uma cidade muito maior que a nossa.
Em Rolante temos segurança;
Pedimos as compras por telefone para o supermercado, que nos traz em casa, recebe o cheque e, ainda por cima, quem vem coloca as bebidas na geladeira!
Caso eu queira ir ao banco, basta eu ligar que vem um atendente e me leva no carro o que preciso, sem eu entrar na agência!
Todas às terças-feiras à tarde, vem um rapaz na sua camionete nos vender verduras, frutas, cebola, tomate, batatas, couve, repolho, abóbora, tempero verde... o que necessitamos, e sem qualquer agrotóxico!
Temos amizades sólidas em Rolante.
Por que deixar tais mordomias e regalias para trás?!
No dia seguinte liguei para esta imobiliária e desfizemos a preferência pela casa!
Nessas alturas, as imobiliárias que ouviam a minha voz já me atendiam com natural má vontade, também, pudera!
Tínhamos desistido de vários imóveis, depois de clamar pela preferência e outra modalidade de aluguel, e conseguido.
Ora, depois cancelar?!
Eis que nos liga outra imobiliária, e com uma proposta verdadeiramente irrecusável:
No prédio onde mora o nosso filho, desocupara um apartamento no andar de cima, no sétimo – ele reside no terceiro andar.
Garagem, três dormitórios, living para três ambientes, cozinha de bom tamanho, área de serviço, e um preço muito interessante.
A surpresa:
Nosso filho e a sua esposa seriam os avalistas!!!!
Ficamos de visitá-lo no sábado retrasado.
Pela manhã, eu e a Marli pegamos o nosso “possante” carro, e nos deslocamos para Osório.
Vimos o imóvel, agradou-nos de pleno, era o que precisávamos.
Combinamos que voltaríamos na segunda-feira para assinar o contrato, pois os documentos eu poderia enviá-los por e-mail.
No mesmo dia, sábado, portanto, liguei para um amigo meu que faz esse serviço, de mudança. O cara é especializado, um excelente profissional.
Expliquei-lhe que seria no sétimo andar, logo, algumas tralhas que temos não subiriam pelo elevador, deveria ser no “índio”, no muque, subindo sete andares pela escada!
O preço que seria cobrado foi estipulado em três mil reais, isso que seria para mim, um amigo(?!).
Um dos três aparelhos de ar condicionado que temos na casa seria vendido para a empresa de mudanças, diminuindo o valor do frete;
Também um fogão de quatro bocas, pois temos um outro, de seis, e seria este que levaríamos para Osório.
Resultado, a mudança diminuiria mil reais, ou seja, eu estava fazendo um ótimo negócio!
A colocação de dois aparelhos de ar condicionado no apartamento, localizado no sétimo andar, lembro, mediante andaime estilo rapel, com segurança e tal, cada um me custaria mil e duzentos reais a instalação, portanto, dois mil e quatrocentos reais;
Não havia cozinha.
A aquisição de uma por mais simples que seja, incluindo balcão e o inoxidável da pia não sai por menos de dois mil a dois mil e quinhentos reais.
Começamos a somar:
Mudança, ar condicionado, cozinha, outras instalações como máquina de lavar roupas, secadora de roupas, máquina de lavar pratos, um tanque, instalação do computador, antena de TV, telefone, Internet... o cálculo beirou dez mil reais!!!
Um dinheiro federal!
Uma soma que eu compraria o que desejo e sobraria troco.
À noite, eu e a Marli deitados um ao lado do outro e, como sempre fazemos, começamos a conversar sobre custos e benefícios desta mudança de cidade.
Em princípio, deveríamos esquecer as mordomias e regalias que mencionei;
Depois, a questão de ser apartamento. Apesar da segurança, me assombrou mais uma vez a lembrança sobre “quem mora no andar de cima”?!
E, se lá pelas tantas, faltasse luz ou o elevador quebrasse ou ficasse em desuso para reparações?!
Sem alimento, sem poder descer sete andares e depois subir, a solução seria pedir ajuda aos bombeiros, que seria tragicômico, um fiasco!
Também havia o problema da nossa cadelinha, a Lili, uma linguicinha, que adora correr pelo pátio da casa, além dos dois gatos pretos como o carvão, e que são os dengues da Marli, a Monalisa e o Amon Ra!
Nesse instante, paramos de conversar.
Olhávamos fixamente para o teto do quarto.
Certamente pensávamos o mesmo, a ponto que automaticamente e em sincronismo, voltamos nossos rostos um para o outro e exclamamos quase em uma só voz:
- VAMOS FICAR EM ROLANTE!
Na segunda-feira, lá fui para o telefone – pessoalmente eu não iria a Osório, nem sob os mais veementes protestos! – desistir do apartamento, alegando uma série de razões, as mais absurdas possíveis, claro.
A moça que me atendeu nesse meio tempo não gostou, natural.
Mas decidimos ficar onde tão bem estamos instalados, mesmo distante dos filhos e netos.
Agora, dia desses liguei para uma das imobiliárias que nos havia atendido.
Tive o azar de a mesma atendente estar do outro lado da linha.
Ao reconhecer a minha voz, ela foi taxativa:
- Alô, o senhor discou errado. Aqui é uma Petshop e não imobiliária!
Em outras palavras:
Osório e Porto Alegre, onde na capital fiz o mesmo com algumas imobiliárias, de ver as casas, propor um aluguel menor, e desistir no último momento, certamente vão usar do mesmo expediente, que mudaram de ramo.
Volta e meia, eu e a Marli desatamos a rir sem parar.
Imaginamos o que não devem ter pensado de nós, no mínimo, dois velhos loucos que não têm o que fazer!
Pensamos até mesmo no possível diálogo entre as imobiliárias:
- Alô, é da Alfa?
- Sim, e daí, é da Beta?
- Sim.
- Por acaso vocês receberam a visita de dois idosos, que queriam alugar um imóvel em Osório?
- Sim, ela uma ruiva, estatura mediana, magra, ele um sujeito grande, que fala alto, é este o casal?
- Sim, este mesmo.
- Não pareceram dois malucos e, ela, a chefe, pois o monstro a obedecia e só falava depois que ela permitia?
- Acertaste, são os dois velhos doidos. Escolhem o imóvel, pedem pela preferência, olham a casa, dizem que vão alugar e depois cancelam!
- Pior fizeram com a Delta!
- Com a Delta, logo com esta imobiliária, tão exigente?!
- Sim, com a Delta.
- Como?
- Pois a Delta concordou em alugar até sem fiador, imagina só!
- Sem fiador, como pode?
- O dono da imobiliária os achou tão simpáticos, que admitiu pela primeira vez alugar um apartamento desta forma!
- E alugaram?
- Claro que não!
- Tá brincando!
- Não, tô dizendo a verdade. Na segunda-feira ligaram e desistiram de mais esta escolha!!!
- Credo, que dois malucos!
- E soubeste da Imobiliária Gamma?
- Nãaaaoooo, mais uma?
- Nem te conto!!!
Combinamos que nossos filhos vêm nos visitar em Rolante por um bom tempo!!!

PS – Peço que Pimentel e Palmeira me perdoem por eu não ter postado comentários sobre seus artigos.
Não havia como, pois até o computador estava encaixotado.
O texto postado a respeito do trabalho da Ana, eu o enviei por Whats pessoalmente.
O Wilson teve a gentileza de postá-lo no Conversas do Mano.
Agradeço a compreensão.


11/08/2019

Por que a gente lê

imagem harpyaleiloes.com.br


Wilson Baptista Junior
Confesso que o título é uma armadilha. Não tenho a menor ideia do por que a gente lê. Não sei o que passa pela cabeça de todo o mundo. Ando tentando descobrir por que eu leio, e isso é só o que posso fazer.
Aprendi a ler cedo. Antes dos cinco anos. Dizia minha mãe que um dia, à mesa do café, eu olhei para as manchetes do jornal que papai tinha deixado sobre um banquinho e para surpresa dela e dele li alto um par de palavras. Não me perguntem como nem porquê...

Já contei aqui, há muito tempo, num post chamado “De livros e traduções”, que cresci entre as estantes da biblioteca de meus pais, e os gostos de leitura de cada um deles. Mas não me lembro de nunca ninguém me ter mandado ler nada. Ao contrário, um dos livros preferidos da minha infância era o “Thesouro da Juventude” (assim mesmo, na ortografia da década de vinte, quando foi publicado), em dezoito volumes, e papai “racionava” nossa leitura nos deixando pegar só um volume de cada vez. 
Era uma enciclopédia inglesa para crianças e adolescentes, traduzida e adaptada para o português. Segundo a editora, tratava-se de uma “Encyclopedia em que se reúnem os conhecimentos que todas as pessoas cultas necessitam possuir, oferecendo-os em forma adequada para o proveito e entretimento dos meninos. Cada volume era dividido nas mesmas seções, “O livro dos contos”, que trazia adaptações de obras da literatura universal, “O livro da poesia”, “o livro dos porquês” (essa era uma de minhas preferidas), “Coisas que podemos fazer”, mostrando experiências que podiam ser feitas em casa, e muitas outras. Extremamente bem ilustrado, com desenhos e fotografias, era uma leitura apaixonante.
Claro que os conhecimentos descritos no livro estavam no estágio de mil novecentos e vinte, mas valiam por um precioso retrato da cultura e dos costumes da época. Devendo-se considerar, porém que tinha sido escrita para crianças inglesas de classe alta, onde por exemplo uma das brincadeiras recomendadas para a garotada era um jogo de prendas realizado a cavalo, nos verdes prados das mansões de campo da terra delas...
O “livro dos contos” me fez tomar contato com vários escritores que vim a conhecer melhor mais tarde, de Alexandre Herculano, com seu “Eurico o Presbítero” a Walter Scott com seu “Ivanhoe”, passando por Charles Kinsgley com seus “Bebés d’água”, Vítor Hugo com o capítulo do canhão desgovernado em “Noventa e Três” e muita gente boa mais.
Mas sobre minhas leituras já falei também no outro post. Conto estas só para falar do que tínhamos naquele tempo para despertar o gosto por elas.
Depois, quando comecei a estudar, às leituras por gosto somaram-se as por necessidade (que muitas vezes foram por gosto também). Ainda no ginásio, uma descoberta que muito me agradou, por intermédio de um colega e amigo de vida inteira também apaixonado pela leitura, foi a da Biblioteca Thomas Jefferson, do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, que era aberta também a quem, como eu, não estudava lá.
Além das leituras digamos, mais “literárias”, e as dos diversos cursos, muita coisa que eu gostei de fazer provocou também algum estudo, como a fotografia, o desenho, os trabalhos de oficina, a esgrima e por aí a fora.
Com isso me acostumei a ler um pouco todas as noites antes de dormir. E hoje tenho dificuldade em pegar no sono se não o fizer. Leio muito depressa, mas de uma maneira difícil de explicar, tanto que as poucas vezes em que tentei aprender leitura dinâmica, achando que ia me ajudar nos tempos de estudo, me atrapalhei todo em vez de progredir. Parece que meus olhos leem a página por blocos, e o cérebro então compõe as informações de cada bloco lido. Mais ou menos como os computadores leem seus HDs...
Com isso, claro que se faz, como diz o Moacir, uma “leitura caudalosa”. Tanto que hoje não há, nas nossas estantes, lugar para colocar mais livros. Isso depois de várias, como dizia meu pai, “peneiradas” que renderam sacolas e mais sacolas de livros para a biblioteca comunitária da Igreja do Carmo, nossa vizinha. Então tenho me voltado para o Kindle, que embora não substitua o prazer de folhear um livro de verdade, tem a vantagem de se meter no bolso centenas deles ao mesmo tempo e levar para qualquer lugar. Uma maravilha para salas de espera, aeroportos, viagens.
Mas, depois de tanta conversa fiada para ganhar tempo, não dá mais para não voltar à pergunta do título: porquê?
Por necessidade profissional? Hoje muito pouco.
Para ocupar o tempo? Quanto mais velhos vamos ficando mais precioso fica o tempo que nos resta. Então, não.
Por prazer? Com certeza. Mas qual?
Bom, vamos tentar com uns exemplos familiares a vocês nossos leitores:
Quando leio um artigo do Moacir, viajo guiado por um amigo em novas paisagens ou revisito velhas conhecidas, converso de novo com velhos amigos das páginas lidas na vida inteira ou descortino novos.
Quando leio um artigo do Chicão, me envolvo nas narrativas de uma vida densa e sempre muito bem descrita que me diz muito sobre a alma de um amigo.
Quando leio um artigo do Antonio, aprendo mais um pouco sobre uma outra maneira de entrar na nossa alma e encontrar nosso equilíbrio.
Quando leio um artigo do Heraldo, deleito-me com um cronista que pega um pedacinho do dia e o transforma com seu pincel mágico num retrato da vida vista através dos seus olhos.
Quando leio um artigo do Domingos, aprendo sobre as marinhas do mundo ou acompanho a história maravilhosa do menino que cresceu numa fazenda e navegou o mundo para se tornar o namorado de Vênus,
Quando leio um artigo da Ana, revejo na tela a poesia e a beleza que vivem nos olhos dela e que tenho o privilégio de conhecer por bem mais de metade da minha vida.
Quando leio um livro novo, é sempre uma nova descoberta, e quando revisito um velho amigo nas minhas estantes descubro sempre alguma coisa mais nas suas palavras. Porque um dos privilégios de envelhecer é ir cada vez compreendendo um pouco mais do que eles conversam com a gente.
E, além da descoberta, muitas vezes a leitura é também uma fuga, que nos tira desse mundo conturbado em que vivemos e dá ao nosso espírito um tempinho de tranquilidade para talvez pensar no que queremos fazer com essa confusão que nos rodeia.
Tantas linhas escritas para afinal chegar à conclusão de que... não sei bem porque leio mas sei que não consigo deixar de ler!
Talvez a resposta esteja nestas linhas de um velho senhor português que morava na ilha de Lanzarote e sabia das coisas:
“... há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa. A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, a margem a que terá de chegar.”
Obrigado, senhor Saramago.



07/08/2019

Uma duquesa americana

fotografia Moacir Pimentel


Moacir Pimentel
É triste, mas verdadeiro, que a realidade raramente alcança as nossas expectativas e imaginações poderosas. Uma das personagens na short story de nome Colinas como Elefantes Brancos, do escritor americano Ernest Hemingway, expressa essa desilusão quando diz que...
“Tudo tem gosto de alcaçuz”
Pois é. No entanto há pessoas e cidades que nos provam que para toda regra há exceção. Tudo bem que a Ponte de Londres é mais bela à distância, mas com certeza a cidade não decepcionou Helene Hanff, a amante “dos dias antigos”.
No livro A Duquesa de Bloomsbury, que é uma espécie de continuação do best seller 84, Charing Cross Road, ela faz um relato detalhado da primeira visita que fez a Londres. Trata-se de um diário de bordo, do registro de uma Inglaterra vista através dos olhos excitados de uma mulher que sonhara com essa viagem toda a sua vida.
“O BOAC levantou do aeroporto Kennedy prontamente às 10 da manhã, o céu estava azul e ensolarado e depois de uma vida de espera eu estava finalmente a caminho de Londres. Quando eu estava completamente relaxada, a voz na minha cabeça perguntou o que eu faria se algo acontecesse e ninguém fosse me encontrar no aeoporto. Para prevenir o pânico, tirei as cartas da minha bolsa e as li.”
Confortada pelas muitas cartas que recebera não apenas de sua editora, mas também de seus fãs ingleses, Helene foi surpreendida, no desembarque, pela presença de um homem ansioso por conhecê-la: o Coronel, um admirador ardoroso de seu livro que trabalhava no aeroporto e que a conduziu garbosamente através da alfândega e dos protocolos com a bagagem até os abraços de Nora e Sheila Doel, as viúva e filha de Frank, que estavam no aeroporto liderando uma comitiva de amigos e leitores à espera dela.
“Teoricamente, foi um dos dias mais felizes da minha vida”...
É assim que Helene Hanff inicia o relato de seus dias londrinos em uma narrativa que, embora não tenha o charme de 84 Charing Cross Road, é um presente inteligente para quem já realizou uma viagem com a qual sonhou por muito tempo.
Tendo sido uma ilustre desconhecida durante toda a sua vida, ela se divertiu com o interesse que provocava. Por um breve período de tempo, a moça foi sequestrada, paparicada, entrevistada, fotografada, tratada como famosa, levada para cima e para baixo, jantada e brindada e presenteada. A gente sente falta das contribuições discretas de Frank Doel, que faziam um contraponto ao estilo exuberante da escrita de Helene. No entanto, nas páginas da Duquesa de Bloomsbury encontramos humor, sensibilidade, conexões humanas, pessoas reais.
É como cruzar a linha que separa e liga a ficção e a realidade, o chão e a maravilha, experimentando o sabor da ansiedade da escritora, o ritmo do seu encantamento e o frisson da aventura literária finalmente realizada, entre risos na maior parte do enredo mas entre copiosas lágrimas quando Helene e Nora Doel finalmente conversam. E como essas duas conversaram!
Uma das subtramas mais interessantes do livro é a narrativa feita pela viúva de Frank sobre um casal de quem ela e o marido haviam sido mui amigos: Peter e Helen Kroger, os donos de uma pequena livraria de livros de segunda mão, perto da igreja de St Clément Danes. Nora Doel descreve em detalhes uma festinha de Ano Novo na qual a tal Helen aparecera muito exótica, de preto, salto alto, piteira, enfim, vestida para matar.
“Helen, você parece uma espiã russa!” elogiara Nora.
Alguns meses depois, Nora e Frank ficaram chocados ao ler em um jornal que os prezados Kroger eram sim agentes duplos soviéticos e que haviam sido presos na charmosa livraria deles que, na verdade, apenas lhes servia de disfarce.
Em Londres Helene escutou boas estórias, teve grandes conversas, fez novos amigos, se encontrou com velhos amigos do Texas que estavam visitando a cidade, almoçou no Claridge's, foi ao teatro e lá foi apresentada a Joyce Grenfell, uma atriz que muito admirava. Ela também se encontrou com Leo Marks, o filho de um dos antigos donos da livraria Marks & Co, e com a sua esposa Ena, uma pintora retratista que acabou convencendo-a a posar, algo que deixou a escritora muito nervosa porque odiava ser retratada de qualquer forma.
Mas no novo livro o seu desejo de saborear a vida é evidente , como é inteligente e engraçada a leitura que faz da paisagem circundante embora muito do tempo que passou na cidade tenha sido roubado do turismo literário que sempre almejou fazer, arrebatada que foi por um redemoinho de chás e compras na Harrods descritos com idiomatismos, muito bem traduzidos pelo Sr. Editor, obrigado!
“Ninguém aqui na Inglaterra diz “seis e trinta” ou “sete e trinta”, eles dizem “seizemeia” ou “setimeia”. E “por dentro” aqui é “na moda” e “desistir” é “catar nossas coisas” e “deixa prá lá” é “não esquenta!”... E como Shaw disse uma vez, somos dois países divididos por uma mesma língua. Agora vou dormir porque é “meianoitumquarto”(rsrs)
Mas a brilhante escritora percebeu que, é claro, havia mais em Londres do que o esnobismo e o “cheiro de dinheiro” e o silêncio sagrado dos privilégios”. Ela a descreve com tintas não exatamente rosadas, mas com observações hilárias, reflexões agudas sobre a vida e as maneiras britânicas, fazendo um retrato divertido de dois mundos diferentes colidindo, nos apontando o dedo para uma Grã-Bretanha bizarra, mas no seu melhor:
“Eu acho o tratamento da realeza distintamente peculiar. A família real vive em palácios fortemente protegidos dos olhos curiosos por cercas, gramados, portões, guardas, todos e tudo planejados para garantir a privacidade absoluta da família. E, no entanto, todos os jornais em Londres hoje tiveram manchetes anunciando que a Pincesa Anne teve seus cistos DE OVÁRIO REMOVIDOS. Quer dizer, você é uma jovem mulher criada em reclusão, fortemente guardada, e todo bebedor de cerveja em cada pub inglês conhece o estado de seus ovários?” (rsrs)
Durante séculos, a história britânica girou em torno dos reis e rainhas de plantão. Atualmente, o poder está em outro lugar, mas ainda há uma presença real muito forte em toda a cidade. O fato é que, se é difícil entender o amor do povo britânico pela monarquia, também o é caminhar indiferente pelo Mall até o Palácio de Buckingham, a residência oficial da atual rainha, onde uma mais antiga moradora ainda marca território e reivindica a sua antiga casa: lá se encontra sentada régia e impassível a Rainha Vitória, com uma valente exibição de nudez acontecendo à sua volta: anjas de asas e mamas à mostra e muitos roliços figurantes querubins.
fotografia Moacir Pimentel

O fato é que a gente estranha tantas “peladecas” no monumento pois a era vitoriana é sinônimo de prudência e pudor e conservadorismo. Não é à toa que a frase mais lembrada da Vitória é “We are not amused” - “Nós não achamos graça” - embora as circunstâncias exatas de seu enunciado sejam uma questão controversa e não se saiba se realmente a senhora disse isso ao ouvir alguém contando uma piada e/ou uma história picante. Com base em um grande número de filmes parece possível que Vitória tenha dito a frase, mas não se pode acreditar nos atores do cinema e das séries de televisão (rsrs)
Foi durante o seu longo reinado que o Reino Unido alcançou o ápice de seu poder e permitiu que seus súditos se vangloriassem de que “o sol nunca se punha no Império Britânico”. Ironicamente, as coisas poderiam ter sido diferentes se o consorte alemão de Vitória, o príncipe Alberto, tivesse feito as coisas do jeito dele.
Alberto, sendo politicamente muito liberal, abominava a idéia da construção do tal império da esposa. Mas ele morreu jovem, e Vitória passou os próximos quarenta anos cultivando sua lembrança, mantendo suas roupas e outros objetos pessoais intocados, construindo monumentos para ele pelo mundo afora e ao mesmo tempo encorajando os militaristas e os aventureiros a expandir o seu querido império. O resultado de tudo isso foi que o inglês, o idioma que Helene tanto amava, se tornou a língua dominante no planeta e Londres se transformou no centro rico e poderoso do vasto mundo.
Só que Helene permaneceu nas paragens britânicas quase um mês, visitando todos os lugares sobre os quais ela já havia lido, passeando pelas ruas sozinha, apreciando as vistas e sons da Inglaterra. Quando chegou a hora de voltar para casa, ela já entendera que, apesar de sua grandeza e ecos do esplendor imperial, Londres continuava a ser uma cidade esplendidamente íntima, com parques e becos traseiros estreitos e pátios escondidos, mercados de rua coloridos e bares aconchegantes, canais e igrejinhas paroquiais e jardins e bancos onde se pode sentar e relaxar nos intervalos das caminhadas.
fotografias Moacir Pimentel


Conversa vai, conversa vem, Helene conseguiu fazer a sua expedição literária e histórica pela terra natal de alguns dos mais amados escritores. Talvez seja isso que os visitantes da cidade procuram no Museu Britânico ou visitando os castelos das redondezas: o passado no presente circundante.
Com certeza ela foi para a “night” e/ou “para a balada”, como diz a juventude, e bebeu onde beberam os grandes escritores, pois fez a ronda de todos os pubs literários ensinando aos barmen britânicos como fazer um verdadeiro martini americano (rsrs) Ela não perderia a farra e muito menos aquela atmosfera boêmia que ficou retida em muitos dos livros, peças e poemas do seu afeto. Aliás, o filme bem que poderia ter sido temperado com um bom pub ou taberna da gema, quem sabe a galera da na livraria se reunindo para uns copos depois do expediente?
fotografia Moacir Pimentel

Porque artistas e escritores e álcool quase sempre foram sinônimos. Os impressionistas em Paris tiveram seu Café Guerbois, enquanto os expressionistas abstratos da década de 1940 se reuniam em Londres na Taverna da Cedar Street. E como pular uma cerveja no Wheatsheaf regando o seu lendário “fish and chips” – os deliciosos peixe e batatas fritos – devorados por todas as tribos?
Já a Taverna Fitzroy não mudou muito numa esquina da Charlotte Street desde os seus primórdios, em 1887, quando Charles Dickens era freguês. Durante a década de 1920 a multidão artística de Londres adotou o lugar e no Bar dos Escritores e Artistas há as fotos de alguns monstros sagrados literários da Inglaterra bebendo e confirmando a lenda: Virginia Woolf, George Bernard Shaw, Arthur Rimbaud , Richard Attenborough, George Orwell e Dylan Thomas.
A Fitzroy, inclusive, emprestou seu nome à região onde mora - Fitzrovia! - uma espécie de quartel general dos artistas com uma reputação histórica de enclave boêmio. Mas a taverna tornou-se famosa em grande parte como resultado do charme de uma freguesa fiel: Nina Hamnett, uma escritora do País de Gales.
Nina era muitíssimo linda, muito doida e, com a quantidade certa de álcool, dizem que era simplesmente hilária. Ora ela bebia em Londres ora em Paris, onde, quando não estava dançando nua sobre as mesas dos cafés ou na cama dos rapazes, foi esculpida por Henri Gaudier-Brzeska e pintada por Pablo Picasso e Amadeo Modigliani.
Amedeo Modigliani - Retrato de Nina Hamnett (1914)

Tempos depois, em Londres, Nina tornou-se amiga de George Bernard Shaw, Dylan Thomas, Augustus John, George Orwell, Ezra Pound, Virginia Woolf e do notório ocultista, Aleister Crowley, os quais – dizem as más línguas - foram todos seus amantes. Nina os atraiu para a taverna e juntos fizeram da Fitzroy o lar da turma das artes e letras londrinas. Nem mesmo a blitz de Londres e o barulho das bombas foram capazes de acalmar seus fãs.
A moça ganhou o apelido de “Rainha do Fitzroy” e escreveu dois livros detalhando seu estilo de vida escandaloso em torno das mesas do lugar. Porém o final do caso de amor de Nina e a Taverna era previsível: ela se tornou alcoólatra e se despediu, em 1956, depois de cair de sua janela, não se sabe se acidentalmente por estar embriagada ou se em um salto suicida.  
Helene Hanff não foi, mas devia ter ido, ali perto da Charing Cross Road, na Dean Street, tomar umas e outras na Casa Francesa, que para quem gosta de conversar gritando é o paraíso (rsrs) A taverna, que já foi outro local preferido de uma multidão de artistas sem noção, tem esse nome francófilo porque - diz Dona Lenda! – foi em uma das suas mesas que Charles de Gaulle, então no exílio, escreveu o seu famoso discurso conclamando o povo francês à Resistência aos nazistas.
Mas o boteco é considerado literário porque era o preferido do escritor Dylan Thomas. Foi lá que o poeta galês, em um dos seus porres homéricos, além de pagar a conta esqueceu também o único manuscrito da peça que hoje é considerada sua obra-prima, Sob o Bosque de Leite – livre tradução para Under Milk Wood. Felizmente, a peça ainda estava lá, intocada, quando ele voltou sóbrio e desesperado no dia seguinte.
E se você me perguntar “Quéisso?”, como o meu neto, a resposta honesta é que ainda estou tentando traduzir o roteiro (rsrs) Mas muito aprecio um dos poemas do Dylan:
E a ti, meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura,
Que me abençoes e maldigas com a tua lágrima bravia.
Não entres nessa noite acolhedora com doçura,
Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.
Tais versos foram eternizados no Youtube pela voz de Anthony Hopkins que, aliás, no filme 84, Charing Cross Road dá vida a Frank Doel, o alfarrabista dos sonhos da Helene.
Ela chamou o seu diário de bordo de A Duquesa de Bloomsbury por causa do bairro londrino como esse nome onde ela muito curtiu a atmosfera descontraída dos jardins da sua aprazível praça que já foi outro ponto de encontro para os escritores, artistas e intelectuais do “Grupo de Bloomsbury”, nos idos anos vinte e trinta do século passado.
O Museu Britânico fica próximo e nas redondezas se encontram as antigas moradas de Virginia Woolf, John Maynard Keynes, E.M. Forster e, cem anos antes, as de Percy Bysshe e Mary Shelley, W.B. Yeats, Charles Dickens e Bram Stoker. O poeta T.S. Eliot também trabalhou nas imediações da praça onde hoje se fazem companhia Virginia Woolf e o grande Ghandi em bronze!
Helene também visitou os parques reais, o Castelo de Windsor e, é claro, Eton e Oxford na companhia do prestimoso Coronel. Lá constatou o quanto a atmosfera era diferente da londrina, mas não fez comentários sobre os edifícios centenários. Não acredito que tenha dado bola para a arquitetura nativa...
fotografia Moacir Pimentel

Porém a moça quase que se ajoelhou diante do prédio da Wadham, a faculdade fundada por Dorothy Wadham cujos estatutos originais, contraditoriamente, proibiam a entrada de mulheres no seus prédios com exceção das lavadeiras que deveriam ter “idade, condição e reputação acima de suspeitas” (rsrs) Wadham foi uma das primeiras faculdades no mundo a admitir alunas mulheres e a defender-lhes os direitos e mais tarde, por sua atitude descontraída em relação à homossexualidade, terminou sendo apelidada de Sodoma (rsrs)
Passeando pela capital, os marinheiros de primeira viagem estranham o imenso número de placas azuis nas paredes externas dos prédios indicando que grandes figuras da História – e não só da Literatura! - viveram e trabalharam ali. As vezes a gente até pensa que as tais placas enlouqueceram, ao nos deparar com alguns vizinhos incompatíveis como é o caso de Handel e de Jimi Hendrix na Brook Street (rsrs)
Casas onde moraram Jimi Hendrix (esquerda) e Georg Friedrich Händel (direita) - imagem Wikipedia

Mas aquelas manchas azuis nos provam que Londres capturou a imaginação de autores e artistas e músicos e pintores durante séculos e que suas ruas, estações, praças, parques, pubs e monumentos foram preservados nas páginas de alguns dos mais preciosos romances e peças da humanidade.
Dia desses o Francisco Bendl nos descreveu o que seria viajar plenamente”. Segundo ele é “aproveitar o tempo para perscrutar o desconhecido por mais vezes que aquele local já tenha sido visitado, para encontrar as minúcias, as particularidades”.
É isso mesmo: os lugares assim como as pessoas, nunca são os mesmos, nós é que acreditamos que sejam. É preciso olhar bem para as coisas para perceber as novidades e, nesses posts, estou tentando olhar para Londres com os olhos de Helene Hannf que, continuará escrevendo com o coração na ponta dos dedos mais cartas de amor à Inglaterra nos próximos passeios.


04/08/2019

Vozes urbanas

fotografia Heraldo Palmeira


Heraldo Palmeira
Dia de outono, relógios apontando para a hora do almoço. Todos nós cuidando das nossas vidas. O tráfego normal na grande avenida que corta o bairro e lhe serve de eixo.
No intervalo de dois quarteirões, tudo correndo absolutamente igual nos estacionamentos, pontos de táxi, lanchonete de comida árabe, despachante, açougue, mercearia, hortifrutigranjeiros, restaurante e loja de produtos naturebas, estúdio de pilates, estúdio fotográfico, assistências técnicas de eletrodomésticos e eletrônicos, chaveiro, restaurante popular e lojas de brinquedos educativos, materiais elétricos e de construção.
Numa das oficinas mecânicas, uma kombi azul e branca da última série está sob cuidados intensos, motor no chão – passa na minha cabeça aquele maravilhoso filme de despedida que a fábrica mandou produzir quando encerrou a produção da velha perua.
A lotérica cheia de sonhadores do grande prêmio em disputa. A floricultura dividida entre natureza viva e natureza morta, algumas abelhas em pleno ofício de garimpo das suas delicadezas.
Aqui e acolá, aquelas lojinhas que a gente nem sabe direito o que vendem. A coisa de passar na porta delas todos os dias, saber que estão ali, mas a distração de nunca olhar para dentro.
A loja de bugigangas domésticas, a frutaria, o ponto de táxi onde alguns dos motoristas ora estão com o ar-condicionado “com problema desde ontem” há mais de seis meses ora esqueceram a maquininha de cartão. Só nunca esquecem de reclamar dos aplicativos que viraram concorrência indigesta.
A padoca do outro lado da rua – a televisão de cachorro na calçada fazendo salivar por aqueles frangos assados rodando nos espetos –, frente a frente com o salão do barbeiro mais curioso que conheço.
Um daqueles ônibus articulados, enormes, para no ponto em frente ao salão. De repente, uma freada, o desassossego, um homem vociferando, um murro dado na lataria do táxi, os berros do motorista em resposta aos impropérios do outro.
Os velhos erros de sempre. A grande avenida de mão dupla, faixas amarelas contínuas. Ônibus enorme parado. O táxi impaciente resolve ultrapassar. O homem impaciente resolve atravessar a rua e sai de trás do ônibus. Era dia de vida e ele não morreu atropelado.
Depois que ele e o taxista perceberam que nenhum era mais homem do que o outro, cada um seguiu seu rumo. O carro subindo a grande avenida e sumindo ladeira acima. O homem entrando na padoca. O ônibus seguindo a rota da linha com seus passageiros com olhos curiosos lançados pelas janelas... Cada um a seu modo querendo desacelerar o coração depois do enorme susto.
O barbeiro saiu para a calçada com a cara assustada, os cabelos naquela cor da asa da graúna, beirando o negro da graxa de sapato Nugget, e me encarou com sua sentença: “A culpa foi do táxi, que fez uma ultrapassagem proibida”.
“A culpa foi dos dois. O homem atravessou fora da faixa, num local de risco, saindo de trás de um ônibus” – respondi impaciente, talvez incentivado por uma certa implicância com o curioso profissional.
Era ranço antigo, de quando cheguei para morar no bairro e ele me crivou de perguntas indiscretas dentro da padoca. Até que perguntei se ele era investigador de polícia ou trabalhava no censo e a gargalhada geral o deixou sempre cuidadoso comigo, respeitando uma linha divisória imaginária desde então.
Segui meu caminho, uma senhorinha me parou logo adiante, aflita. “De quem foi a culpa?” – quis saber. “Da pressa impaciente dos dois” – respondi. Ela fez uma careta e notei que ficou processando aquele jogo de palavras, como se esperasse uma resposta mais parcial, com partido tomado.
Parei na esquina, aguardando o sinal. O casarão amarelo, reformado para abrigar a agência de viagens dominando a cena. Uma árvore enorme gritando num cartaz pendurado nela mesma, em letras vermelhas e pretas sobre fundo branco: “SOCORRO! ESTOU CAINDO”. Assim em maiúsculas assustadoras, aos gritos!
Dá medo de passar na “área da queda”, não tem como não ficar imaginando a desgraça que ela causará se realmente tombar antes de qualquer providência da municipalidade. E aquele grito urbano está lá há meses, como se fosse um estandarte de uma brincadeira sem graça e bastante perigosa. Basta olhar o quanto o piso ao redor já foi levantado pela raiz.
Passei na frente do restaurante refinado, a lanchonete lendária lá na esquina do outro lado, instalada ali desde os anos sessenta. O pet, a sapataria feminina, o consultório do veterinário, o restaurante japonês, a livraria de rua – uma raridade nos tempos de hoje – e chego à minha esquina.
Estou envelhecendo sem pressa e a vida tem colaborado nisso. Fico aqui no meu canto e ela lá no dela, parece ser um bom acordo. De cavalheiros. Quando rezo, peço que tenha paciência comigo. Não vou me negar a nada, só quero ir devagarinho. Abandonei o tempo da ansiedade, deixo a correria para a meninada que ainda não descobriu que não vai chegar a lugar nenhum a não ser envelhecer – porque muitos nem chegarão aqui.
Por isso, faz tempo que tenho me preocupado em ser gente. Pode parecer esquisito, mas não é nada complexo, se limita a prestar atenção naquilo que passa despercebido quando a gente pensa que está sendo a pessoa mais importante do mundo – bobagem!
Olhar as pessoas é uma das coisas mais simples, que menos se faz e que mais recompensa. É bom pisar na rua mais cedo e os meninos do sujinho acenarem do outro lado com a pergunta “Vem almoçar hoje? É rabada! Tem bisteca também!”.
Um dos garçons, bem jovem, costuma me perguntar coisas, falamos de música e assuntos gerais. Tem sempre um chiste, damos boas risadas tirando onda com o resto da turma. Os relatos das prosas noturnas da padoca já chegaram por essa parte mais alta da rua, os meninos são todos amigos e, no fim das contas, ganhei uma nova turma da vida.
Entrei no sujinho cumprimentando todos que trabalham ali. Estou em casa, tanto quanto na padoca. A ponto de o velho garçom, em várias ocasiões, almoçar comigo na mesma mesa porque ambos gostamos de deixar a prazerosa operação de talheres para mais tarde, quando o movimento já diminuiu e as coisas estão mais calmas. E a conversa simples é uma maravilha!
O lugar estava lotado, a clientela de sempre. A gente que trabalha nos serviços gerais pelos arredores. Sentei de frente para a televisão, normalmente sintonizada em resenhas esportivas, os analistas quase sempre discutindo e colaborando com o burburinho.
O garçom bem jovem começou a falar de música, e de repente me disse que tinha algo que gostou muito para me mostrar. Mudou a sintonia e soltou The thrill is gone, gravada no Crossroads Guitar Festival 2010, em que BB King recebe no palco Eric Clapton, Robert Cray, Jimmi Vaughn, Johnny Winter, Ron Wood e uma penca de guitarristas.
Claro que houve um estranhamento no ambiente habituado às paixões futebolísticas, mas não demorou para que o vozerio diminuísse, os olhares estivessem capturados pelos músicos e vários dedos tamborilassem sobre as mesas no compasso do blues.
A clientela foi terminando o almoço e ganhando a rua para cuidar da vida. Estiquei até tomar o cafezinho coado, “está incluído no almoço”, e fui embora feliz.



30/07/2019

“Adoro meu Brasil de madrugada...”

cerâmica - Ana Nunes


Ana Nunes
Um dia escrevi assim para um amigo:

Querido amigo,
Obrigada pela resposta. Franca, do jeito que eu gosto. Mas também amiga e carinhosa!
Pena sua imagem de favela corroída pelos acontecimentos. Tão sérios! A maioria das pessoas sente o mesmo. E não poderia ser diferente.
Mas quando a gente trabalha lá dentro, dirigindo o carrinho berinjela roxa por caminhos estreitos de um só carro, e depois subindo escadas sinuosas e mais estreitas que os caminhos, a gente conhece coisas formidáveis. E outras bem revoltantes também. Vida!

Trabalhei em uma enorme, chamada São José onde não passava carro, só carroças e motos pelas ruelas-becos. E numa atividade com as crianças onde deveriam desenhar “o lugar onde viviam”, uma delas desenhou uma “carruagem” carroça de sonhos, com super-herói, ele mesmo,  cheia de raios e luzes e cores. Certamente carregava consigo nessa carroça de sonhos, seus sonhos mais preciosos. Fiquei emocionada quando ele me descreveu seu trabalho.
Depois foi inaugurado lá um outro tipo de favela, aquela horrível favela vertical de material barato e defeitos vários, que as crianças chamavam de gaiolas e para onde não queriam se mudar. Favelas de cinco andares sem elevador, lógico. Como um pombal, cheio de pombinhas crianças e pombas avós descadeiradas!

Em outra, com nome de jardins e de felicidade,  restos de antigas fazendas que sempre foram, e ainda são, ponto de “desova de presunto”, mulheres oriundas de Postos de Saúde, umas com filhos bandidos presos e, elas condoídas mostrando cartas onde eles pediam doces e outras desnecessidades, usadas sem saber ou mesmo sabendo, mães antes de tudo,  outras de casamentos sucessivos com alcoólatras violentos marcadas na alma por surras incontáveis, outras bem politizadas e por isso mesmo barraqueiras, foram capazes de aquarelas lindas, ternas e autovalorizadas. O que é o mais importante, o porquê de estar lá trabalhando. Conseguir isso é verdadeira recompensa, minha e delas.
Lá ganhei presentes delicados e preciosos como panos de prato, creme para as mãos, pudim de pão com goiabada, o melhor que já comi, muita alegria e muito aprendizado.

Nessa comunidade passei muito aperto dirigindo atrás de carros “viaturas” grandes onde os policiais com braços e meio tronco pendurados nas janelas carregavam armas aterrorizantes. E eu sem poder ultrapassar por falta de espaço e mesmo sem saber o que era melhor, ficar atrás, parar ou ir na frente de batedor.
Topei também com traficantes jovens que como reis levavam sua rainhas, mocinhas quase inocentes e quase crianças, orgulhosos e cheios de poder, para atividades tipo Dia da Mulher, e lá mesmo ficavam debochando do nosso trabalho.

E assim é o nosso mundo. Onde eu nem  sei direito o que acho e o que sinto. E temo não ver a cura! Onde também faço de conta que tudo é muito bom e participo desse mundinho organizado, como a minha favela de cerâmica, e vou ao supermercado do shopping onde tudo são flores e fico com o coração em frangalhos quando vejo uma senhora pobre na fila do caixa com um sabonete e um pacote de fubá e um monte de coisas coloridas e úteis e gostosas nas sombras dos seus olhos.

E o pior é que eu preciso desse mundo organizado e falso porque nele eu vivo e tenho que manter a minha sanidade.

Extrapolei? É que me deu uma vontade enorme de conversar com você.
Agora, cá prá nós (eu rindo de mim mesma, ria também por favor!) que inocência a minha ao pedir sua opinião sobre a minha cerâmica favelada quando seus olhos já foram maravilhados por cerâmicas de gente grande!
Desculpa por isso. Abraço.
“Queime depois de ler”.
Ana

“A mão de Deus abençoou
Em terras brasileiras vou plantar arroz...”