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| Desenho de Nando Motta |
Heraldo Palmeira
Não quero
lhe falar, meu grande amor, das coisas que aprendi nos discos. Quem misturou
tudo foi Elis. Foi tanta coisa! Meu profano amor, eu prefiro assim. Glória a
todas as lutas inglórias, que através da nossa história não esquecemos jamais.
Contando mentiras pra poder suportar aí. Sentindo frio em minh’alma, dois pra
lá, dois pra cá com tanta gente que partiu num rabo de foguete. Um bêbado
trajando luto me lembrou Carlitos... um brilho de aluguel pra noite do Brasil
que sonha com a volta do irmão do Henfil. Eu esqueço sempre nesta hora minha
velha fuga em todo impasse, quanto me custa dar a outra face. A sala cala e há
um corre-corre, acaba sempre no melhor pedaço e o urubu sai voando, manso. Meu
pirão primeiro é muita marmelada! Diz um diz que viu e no balaio viu também um
pega lá no toma-lá-dá-cá. Quando ele fere, fere firme e dói que nem punhal,
quando ele invoca até parece um pega na geral. Tá lá o corpo estendido no chão.
Em vez de rosto, uma foto de um gol. Em vez de reza, uma praga de alguém e um silêncio
servindo de amém. Fechei minha janela de frente pro crime. Jogava o Flamengo,
eu queria escutar. Chegou, mudou de estação, começou a cantar. O amor sempre
foi o causador da queda da trapezista pelo motociclista do globo da morte. O
amor é de morte! Se Vênus me ajudar, virá alguém. Eu sou de Virgem e, só de
imaginar, me dá vertigem. Minha pedra é ametista, minha cor, o amarelo. Batidas
na porta da frente, é o tempo. Calado, ele ri porque sabe passar e eu não sei.
Caía a tarde
feito um viaduto. Aldir tinha a dignidade de um mestre-sala, fazia
irreverências mil pra noite do Brasil. Não sabia mesmo o nome do irmão do
Henfil quando escreveu a letra, apenas que ele era exilado político no
exterior. E só conheceu Betinho posteriormente. O primeiro encontro deu-se na
porta do banheiro do Canecão e o quase santo homem da Ação da Cidadania foi
direto: “Sou o irmão do Henfil. Eu não ia voltar, eu tinha me planejado todo
para não voltar, mas ouvi a sua letra para a música do João e resolvi voltar,
seu filho da puta!”.
Por isso, a
charge com Aldir chegando ao céu com a esperança equilibrista na corda bamba,
de sombrinha, sustentada por um Betinho instalado numa nuvem gritando “Henfil,
vem ver quem chegou!”, é poesia pura pronta para arrancar todas as lágrimas
doridas pelas músicas que deixarão de ter as letras celestiais de Aldir Blanc.
Diante desse
elenco que vai se formando no terreiro do Criador, cada vez mais peço
humildemente a Deus que eu tenha merecimento para ir viver lá quando não puder
mais ficar aqui. Vou me conformar, sem questão, em ficar na última fila da
plateia. Mas, se Ele me conceder a graça e uma vaguinha na equipe de produção,
tô prontinho para ir-me embora. Amém!








