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15/12/2016

Os Portões do Inferno


montagem Maria João Pimentel

Moacir Pimentel

As fotos que abrem o post nos mostram o polêmico casal de artistas. Camille Claudel esculpida por Rodin em um mármore batizado como o Pensamento, Auguste Rodin moldado em bronze por Camille nesse Busto de Rodin.
Camille, uma escultora de incrível talento, pupila e amante de Rodin, muitas vezes posou para que o seu homem a representasse em dezenas de esculturas. Enquanto cinzelava o bloco de mámore acima, Rodin decidiu - como era frequentemente o caso - não prosseguir esculpindo e deixou o bloco áspero unido à cabeça polida da figura. Na verdade esse trabalho além do nome tem sobrenome: O Pensamento Emergente da Matéria.
O rosto está inclinado para a frente, na sombra, e parece estar mergulhado em devaneio, com os olhos fixos em alguma coisa invisível. O contraste entre a face perfeitamente polida e o bloco grosseiramente cinzelado intensifica a impressão de que a figura é uma aparição e dota a obra com um significado simbólico e uma profundidade que não teria se tivesse sido esculpida de outra maneira mais tradicional.
Quanto ao Busto de Rodin foi a única escultura de Camille que recebeu boas críticas. Pudera! O trabalho capturou perfeitamente a personalidade e a vitalidade do artista retratado, orgulhoso por trás da barba cheia e mal cuidada, encarando o mundo com impaciência, que as sobrancelhas franzidas revelam. O Busto foi esculpido em 1889 e, apesar de ter sido então aclamado pelos críticos do Salão de Arte de Paris, não foi fundido em bronze até 1892.

Depois de terminado o relacionamento dos dois monstros da escultura, o rosto de Camille Claudel – magistralmente esculpido por ela no bronze chamado de Aurora que inicia a montagem de fotos abaixo - continuou a assombrar Rodin. Ele retornou aos bustos e rostos que já tinha feito dela em gesso no início de seu relacionamento.

montagem Maria João Pimentel

 
Reutilizando as representações pretéritas de Camille, Rodin adicionou-lhes chapéus, echarpes e bases inesperadas. Ele concebeu alguns dos mais íntimos retratos da mulher que amara evoluindo-os a partir de inacabados blocos de gesso e de mármore. Às vezes, ele incorporava aos trabalhos mãos de outras figuras masculinas. As composições resultantes foram talhadas em mármore ou moldadas. Rodin experimentava ajustes sutis até que o resultado final o satisfizesse plenamente.
Assim, o rosto profundamente emocionante de Camille Claudel foi nostalgicamente revivido e sublimado em uma admirável série de esculturas: A Convalescente, A França, A Máscara de Camille, Retrato de Camille com a Mão Esquerda de Pierre de Wissant. São assamblados alegóricos diante dos quais o espectador não tem certeza do que ele está realmente olhando e obras pessoais que o artista raramente exibiu durante sua vida.

Camille Claudel, uma das primeiras mulheres na cena artística da Belle Époque de Paris, causou uma grande impressão em Auguste Rodin quando aos dezessete anos foi contratada para trabalhar como sua assistente. Rodin foi rapidamente atraído por ela e em pouco tempo a garota era sua modelo, amante, inspiração e igual artística. O que se seguiu foi uma tórrida história de arte, paixão e autodestruição durante um intenso e tumultuado relacionamento que durou mais de uma década e deixou cicatrizes mentais em Camille.
De todas as amantes de Rodin - um verdadeiro harém de modelos, alunas, aristocratas, camponesas, socialities, inglesas, americanas, polacas e italianas - apenas uma realmente teve importância: Camille Claudel.
Da Duquesa de Choiseul, uma americana que por anos reduziu Rodin a um mundano vaidoso enquanto lhe abria as portas do mercado americano, das beldades caçadoras de fortuna, das nobres desejosas de aventura, das atrizes perseguindo a fama, das belíssimas e jovens modelos, e até das alunas - uma das quais se matou por causa dele - apenas Camille Claudel encontrou o caminho para além da cama do artista e invadiu a sua arte.
Nem mesmo Rose Beuret, a mulher com quem ele descobrira a sensualidade, aquela que desempenhou papel importantíssimo na vida dele – o de primeira modelo, companheira por toda a vida e mãe do seu filho ilegítimo – chegou perto de ter o mesmo impacto de Camille na arte do mestre.
Somente a paixão despertada pela jovem interferiu, influenciou e mais, transformou as criações de Rodin. O amor dos dois foi conflituoso e sofrido pois nele se descobriram e reconheceram, se traduziram e completaram, se enfrentaram e repeliram, não apenas duas criaturas apaixonadas uma pela outra, mas dois poderosos artistas.
Ele conheceu Camille num momento crucial da sua carreira e os temas eróticos inspirados por ela deram um impulso novo ao seu trabalho. Podemos afirmar, baseados em evidências, que Rodin teve apenas um Big Bang criativo na vida – a criação dos seus maravilhosos Portões do Inferno.
Inspirados originalmente em outros, aqueles da Divina Comédia de Dante Alighieri, os Portões do Inferno ocupam um lugar único na obra de Rodin e hoje moram nos jardins de seu Museu em Paris.
Trabalhando febrilmente nesse projeto durante vários anos, ele criou quase 200 pequenas figuras e grupos delas que formaram um terreno fértil para idéias que ele desenvolveu pelo resto da sua vida criativa, transformando tais miniaturas em gente grande, refazendo-as compulsivamente em várias posições – de lado, de cabeça para baixo, de barriga para cima, juntas e separadas – sempre variando com os mesmos corpos e até mesmo seus fragmentos, dando-lhes outros nomes, enredos, humor, postura e materiais.
Rodin começou a esculpir os seus Portões pela figura do Pensador, concebido e batizado inicialmente, no entanto, como O Poeta, em homenagem a Dante. A escultura está localizada acima dos painéis das portas do Inferno rodiniano. Muitos pensam que o Pensador é o próprio Rodin meditando sobre sua composição, outros acreditam que ele representa Adão, contemplando a humanidade penando por causa do seu pecado.
Rodin tinha mais o que fazer e não perdeu tempo explicando as meditações do protagonista do seu Inferno e continuou inventando em bronze outros personagens do poema de Dante, como as Três Sombras.
Na Divina Comédia, as sombras eram as almas dos condenados, e três delas estavam à entrada do Inferno, apontando para uma inscrição inequívoca nos seus umbrais :  
“Deixai toda esperança, vós que entrais”.
Rodin fez vários estudos dessas Sombras, antes de finalmente decidir montar três figuras idênticas - que parecem estar girando em torno de um mesmo eixo - e as posicionar no topo dos Portões de onde elas encaram o espectador no chão. Depois ele as ampliou para criar um grupo independente que hoje, nos jardins do Museu Rodin, cumprimenta os visitantes antes que alcancem os Portões do Inferno.
Veja o Pensador e as Três Sombras na montagem abaixo, que termina com outro famoso grupo de figuras fugidas dos Portões: Ugolino e seus Filhos

fotografias Moacir Pimentel

Assim como antes já acontecera com O Pensador, as Três Sombras tomaram emprestadas a genialidade e a força dos corpos de Michelangelo. Mas o ângulo das cabeças voltadas para baixo é tão exagerado que os pescoços e ombros formam uma linha quase horizontal. Foi por meio de distorções anatômicas como essa que Rodin alcançou uma força expressiva sem paralelo no seu tempo.
E aí apareceu Camille, que desde criancinha fugia da casa dos pais no campo e subia os morros que a circundavam, para brincar com o barro e esculpir. As esculturas de Rodin antes de amar Camille já eram emocionalmente carregadas, como comprovam alguns de seus bustos - os de Bellona, São João Batista e Carrier-Belleuse. Camille, em contraste, antes de encontrar seu mestre explorava a modelagem só em figuras de argila mas suas obras iniciais como A Velha Helena, já profetizavam os maravilhosos trabalhos futuros. Podemos dizer que, antes de se encontrarem artisticamente, Rodin inventava homens e Camille criava mulheres.

Escultora talentosa, a moça passou a ajudá-lo nos Portões – dizem que inicialmente esculpindo os pés e as mãos das figuras - e, é claro, em seguida, na tal multiplicação dos corpos como, por exemplo, nas tantas Evas, de nomes diversos, que se seguiram à dos Portões e na escultura de Ugolino e Seus Filhos, que hoje mora no centro do lago nos jardins do Museu, retratando Ugolino della Gherardesca, que, segundo a história de Dante, comeu os cadáveres de seus filhos depois deles morrerem de fome.
Talvez nem mesmo Rodin tenha percebido, a princípio, o quanto Camille modificou o climão dos Portões que, em vez das penas do Purgatório e das torturas do Inferno e dos espíritos do outro mundo, passaram a “conversar” muito mais sobre as delícias da carne. Como resultado os Portões do Inferno se distanciaram da visão de Dante para louvar as formas de Camille e ficaram meio confusos mas nem por isso são menos belos e geniais.
A presença de Camille foi eternizada na alma, na mente e na arte do amante. Só não permaneceu na vida dele. Nos Portões do Inferno é Camille que vemos como as sensuais e lascivas Eva, Danaide e Francesca e em vários dos grupos de esculturas que depois foram sendo ampliados e tornaram-se outras obras de arte lendárias, como O Beijo e o Amor Fugitivo e a Submissão. Ás vezes parece-me que, sem saber, Rodin construiu os seus Portões para que Camille os atravessasse e que ela, muito consciente do que fazia, lhes cruzou os umbrais.
Essa revolução na escultura do artista, provocada pelos sentidos intoxicados por Camille, fez Rodin transformar o que deveria ser uma Divina Comédia em um festival de corpos enlaçados em todas as imagináveis posições e, em seguida, fora do umbral, metamorfosear as figurinhas originais em obras individuais carregadas de erotismo como, por exemplo, O Pecado Original, O Último Julgamento e A Danação. Talvez o encontro de Camille Claudel e Auguste Rodin tenha mudado a história da arte da escultura no século XX.

montagem Maria João Pimentel

A partir de 1882, quando se apaixonaram, até 1892, quando se separaram, é como se Camille Claudel e Auguste Rodin tivessem se fecundado e produzido algumas das mais belas, sensuais e eróticas esculturas que o mundo já viu. Percebe-se claramente o tsunami provocado pela paixão experimentada pelos dois nos trabalhos que fizeram juntos. Além disso, existem algumas obras que não se sabe quem esculpiu, se Rodin ou se Camille, pois elas não se encontram assinadas e mostram sinais de terem sido amorosamente trabalhadas a quatro mãos.
O processo de criação das esculturas, um dos elementos-chave dessa história, nem sempre foi fácil: os amantes brigavam pela autoria das ideias, o aprendizado era constantemente tumultuado pelos ciúmes que a jovem tinha de alunas e modelos, rolava frustração na busca de expressão, na experimentação de modelagem ,etc, etc, etc. Mas o ato de criar os aproximou profundamente e o trabalho compartido foi a fonte de uma irresistível e profunda cumplicidade de espírito.
Eles foram, mais que amantes, os amigos e confidentes das mentes criativas um do outro. Auguste enxergava na aluna alguém da sua própria estatura. Amigos relatavam que ele não tomava decisões artísticas sem consultá-la, e mais, sem convencê-la de que o rumo que desejava tomar era o mais acertado.
Algumas obras-primas de Rodin foram criadas conforme imaginadas pela mente de Camille, como Os Mendigos de Calais.

fotografias Moacir Pimentel

Eu vejo nos estupendos Mendigos uma abordagem diferente no design, consistente com aquela mais moderna de Camille, e inconsistente com a inclinação de Rodin para os efeitos especiais, as fragmentações e mutilações, a vunerabilidade do corpo humano tão bem exemplificados nos maravilhosamente caóticos Portões.




14/12/2016

Filme Antigo

imagem wikia




Francisco Bendl

Antes de a minha avó falecer, mãe da minha mãe, ela me deu de presente uma relíquia!

Simplesmente ela guardara por anos a fio o filme do casamento da sua filha, a minha mãe!!

A película era ainda em 8mm, e precisei encontrar uma empresa que o copiasse para VHS (não havia CD), e torcer para que restassem algumas imagens do matrimônio dos meus pais.

Durante o tempo que seria levado para esta transposição, a minha ansiedade era muito grande.
Meus pais se casaram em 1949, e depois de tantos anos vê-los “sem mim”, antes de eu ter dado o ar da graça neste mundo, confesso que a minha cabeça girava à espera do que eu veria naquela fita.

No dia combinado, fui buscar o filme. A pressa de chagar em casa era muita, a ponto que fui de táxi, sem perder tempo de tirar o carro da garagem, procurar uma vaga de estacionamento, voltar para apanhá-lo e depois guardá-lo na garagem de novo.

Mal entrei e coloquei a fita no aparelho, não sem antes chamar a Marli para ver comigo o célebre acontecimento!

A técnica fez um bom trabalho.

Lá estavam nitidamente os meus pais subindo os degraus da Igreja São Geraldo, em Porto Alegre, o padre fazendo a liturgia da função, os dois saindo da Igreja e entrando no carro que os levaria para casa.

A emoção tomou conta de mim, totalmente.

A festa, na casa das minhas tias, na avenida Eduardo, perto da Igreja, teve a presença dos meus tios, tias, amigos dos meus pais, que eu ia reconhecendo e me emocionando a cada tomada de seus rostos, suas alegrias, cumprimentos efusivos, e a minha mãe radiante, belíssima, absolutamente feliz!

Vi de novo gente que havia morrido, que era jovem quando este filme fora feito, que tinham planos de futuro, e que os sorrisos eram fáceis.

Cheguei a ver o meu primo Sérgio, que nascera em 47, no colo da minha mãe – eu nasci em 50 – e do meu pai(eram seus padrinhos). Este primo morreu aos cinquenta anos, no ano de 97. Meu tio, irmão do meu pai, ainda solteiro, tinha 21 anos. Meu pai com 23 e, a minha mãe com 20!

A vida foi interrompida para a minha mãe quando ela mal completara 42 anos, em 1971; meu pai morrera em 75, aos 49 e, o irmão dele, aos 47, TRINTA DIAS DEPOIS DA MORTE DO IRMÃO, meu pai!

Assistir tanta gente que não estava mais viva, alegre, rindo, dançando, sem imaginar as surpresas que a vida lhes reservaria, me causou um mal-estar, e não achei que eu tinha feito algo bom ao ver aquelas lembranças animadas e que tanto me haviam emocionado!

Vi a fita até o fim, quando as minhas tias também eram vivas - tias da minha mãe -, o meu avô, pai do meu pai – a minha avó, mãe do pai havia morrido em 47 – parentes que também não estavam mais vivos, amigos, quase que me arrependi de ter assistido o filme, mas foi uma experiência avassaladora, forte, inesquecível para o resto dos meus dias.
Meu irmão veio ver a fita no dia seguinte. Também as lágrimas lhe correram pela face. Mais emotivo que eu, a minha mulher teve de lhe dar um copo d’água com açúcar!

Certamente o que mais nos deixou amargurado foi por termos sido testemunhas de uma relação conjugal que não dera certo, e desde o início!

O ar de felicidade e alegria de nossa mãe naquele dia, em seguida seria substituído por lágrimas, decepções, frustrações, e o rosto do nosso pai demonstrando que casara com a mulher que amava era apenas representação de uma realidade que se mostraria completamente diferente meses depois!

Ambos se separaram em 59, dez anos após um casamento radiante, em um dia que ficaria marcado como terrível para aquela família pequena – dois filhos - que teve condições de alçar voo, porém jamais conheceu as alturas de uma relação adequada e propícia.

Não me lembro de a minha mãe ter tido dois dias seguidos de felicidade enquanto vivi. Igualmente não percebi no pai momentos de confiança no casamento, e amor à esposa e filhos, que lhe impulsionariam para sustentar a mulher e os tais rebentos!

Se morreríamos de fome ou não, se tivéssemos onde morar ou não, se a vida nos seria cruel ou não, nada importou quando jogou a aliança em cima da mesa e deu no pé!
Portanto, ver o casamento de dois jovens, e saber que aquela união não se concretizaria, que ruiria em seguida, e que redundaria duas crianças, dois guris - sou seis anos mais velho que meu irmão - que tiveram de encontrar seus próprios caminhos, sem qualquer orientação e apoio, e estavam assistindo ao casamento de seus pais muito tempo depois, foi algo que me abalou profundamente, e que me trouxe como mensagem que mais ainda eu deveria preservar o meu matrimônio, e cumprir com as minhas obrigações até o fim!

Após o meu irmão ter visto o tape, eu joguei fora!

Não era uma boa lembrança, mas uma grande tristeza se eu guardasse o filme de uma relação que não vingara, e de meus pais, simplesmente!

No entanto, as imagens jamais vão me deixar. Nunca irei esquecê-las. Definitivamente me lembrarei daquela jovem mulher alegre, feliz, sorrindo, belíssima em seu vestido de noiva, até fim da minha vida!

E, da mesma forma, a figura do meu pai sempre a terei comigo, tentando descobrir as razões que o levaram a ser tão infeliz, a ponto de nos abandonar à própria sorte uma década após juras de amor eterno à sua esposa!


13/12/2016

Passageiroterapia

imagem wikimedia




Antonio Rocha

Da mesma forma que a minha amiga fazia a “taxiterapia” que escrevi aqui em outra crônica, com o tempo fui percebendo que os motoristas de táxi também fazem a “passageiroterapia” que acabei de inventar.

Isso percebi porque ando muito de táxi, e cada vez mais. Explico:

Em 2009 tive uma grande percepção, um insight. Cheguei à feliz conclusão de que não queria mais dirigir carro. Dirigi durante trinta anos e estava com outras prioridades na vida.

Um colega do trabalho me disse:

- Você devia dirigir mal e porcamente !

- Não, ao contrário – respondi – Sempre dirigi muito bem excelentemente, mas agora cansei, larguei essa vida.

Sempre fui um motorista do tipo “caxias” para estacionar, estacionava certinho, bonitinho; não parava em fila dupla, não avançava sinal vermelho, inclusive nas madrugadas (minha mulher e minha filha reclamavam) mas o compromisso com a Lei era maior.

Nunca provoquei acidentes e as duas vezes que bati foi no primeiro mês de carteira de habilitação, em 1978; a primeira em uma rua vazia, consegui quebrar o farol do nosso fuskinha no muro e depois, prendi o meu pára-choque no pára-choque do vizinho, outro fuskinha.

A percepção citada coloquei em prática em 2010. Minha filha já morava no exterior. Conversei com a esposa e falei-lhe da minha decisão: se ela quisesse continuar com o carro tudo bem (nessa época era um Gol), mas eu estava encerrando minha brilhante carreira de motorista B.

Ela também não queria e resolvemos doar o veículo para uma instituição de caridade idônea. Para a venda e documentação, colocamos um valor simbólico.

A síndica do prédio onde moramos exclamou: “Vocês vão lá, na semana que vem buscar o carro de volta, não consigo entender como, depois de ter carro, a pessoa se desfaz do carro, assim...”

Não foi só ela que não entendeu, foram muitos amigos e conhecidos que, eu percebia, sentiam-se incomodados com o nosso “desapego”.

E, confesso-lhes, feliz da vida, cada vez mais felicíssimo por não ter carro. Uma das coisas mais saudáveis que já fiz na vida. Andar despreocupado sem ter problemas de estacionar, do pardal eletrônico, da multa, do engarrafamento. É uma libertação!

Respeito os que gostam e tem automóveis. Sou um democrata!

Quando às vezes, como já aconteceu, em bancos ou em promoções de supermercados tem sorteios de automóveis, eu passo longe e se me oferecem, polidamente agradeço:

- Graças a Deus, não, obrigado.

- Mas se o sr. não quer o carro, quando ganhar vende!

- Obrigado, desejo-lhe boa sorte com o próximo cliente. Almejo que você consiga realizar o negócio.

E assim, desde 2010, ando de táxi diariamente. Fui compreendendo então que passageiros e motoristas revezam-se nas terapias. Nas próximas crônicas vou lhes contar algumas histórias interessantes, na qualidade de passageiro, usuário.

Tem histórias antes e depois do Uber, o calcanhar de Aquiles de taxistas inconsolados, eu sempre reflito: “Há espaço para todos. O mercado não é específico de ninguém. A vida é feita de mudanças. Gostemos ou não, o melhor é aceitá-las com maturidade”.



12/12/2016

Urbanidades

Catherine Deneuve (imagem alchetron.com)



Heraldo Palmeira

Passava das duas da tarde quando entrei no ambiente sempre fervilhante do sujinho para almoçar. Só mesmo a cena paulistana pode produzir um lugar daqueles, indispensável e firmemente instalado há tantos anos a poucos metros da esquina famosa de Paulista com Augusta.

Comida honesta e atendimento correto garantem que tudo sempre dá certo por ali. Domínios de Raimundo, o garçom cearense que me cobre de mesuras, como faz com seus clientes esses anos todos. Sentei mais longe da chapa de frituras instalada no fundo e mais perto da porta. Pedi meu tradicional filé com arroz branco, alface e tomate, e me entretive com o pão francês, azeite honesto e sal de entrada.

A moça estava de costas para mim num plano mais alto, sentada ao redor do balcão principal. Ficava por isso avantajada e desigual em relação ao meu ponto de vista. O velho All Star chamou minha atenção, acho que pela cor marrom em veludo côtelé. Gasto, bem gasto, restando um vago vestígio daquela parte saliente de borracha no contorno do calcanhar onde fica impressa a marca.

Aquele par de tênis era bandeira de estilo, pensei. Uma tiara de malha fina contornava o louro dos cabelos bem cuidados – cortados pouco acima dos ombros –, num marrom predominante entre verdes, vermelhos e azuis de vários tons, com laço na nuca, de onde pendiam duas tiras até o meio das costas.

A blusa branca colada ao corpo não escondia o cume de uma tatuagem de flor abaixo do ombro esquerdo. Imaginei pétalas ladeira abaixo, num chão macio enfeitado pelas sardas que dominavam a cena nua entre o pescoço e o tecido branco.

Ao lado da mão direita o copo cheio de gelo, sem limão, e a lata de Coca-Cola Zero traduziam a falsa impressão de que estamos nos cuidando ao escolher esses refrigerantes light de mentirinha, tão cobertos de produtos nocivos à saúde que fingimos buscar.

A poucos centímetros de mim, um pouco da calcinha aparecia sobre a cintura baixa do jeans. Cor da pele – tropeço de estilo para o meu gosto; e daí?

Agucei minha curiosidade a respeito do rosto da moça. Havia um espelho na parede do outro lado, mas eu estava muito abaixo do nível do balcão. Ela continuava uma completa estranha para mim.

Em razão do movimento dos semáforos da Paulista, faróis na língua particularíssima da cidade, o trecho da pista estava vazio naquele momento. Raimundo trouxe minha comida no exato instante em que uma grande freada, queimando pneus, estrondeou ao redor.

Um grito – “Otário!” – parado no ar, sem resposta, fez o português se encolher para um lado no cubículo do caixa tentando enxergar a possível desgraça através do buraquinho de passar pagamentos e trocos. Semáforos abertos, de novo o mar de carros congestionou a pista.

A multidão continuou sua sina de ir e vir pela calçada, operária do formigueiro urbano. Dois homens conversavam de pé na mesa ao lado e um deles saiu correndo: “Tchau, Alê. O táxi chegou”. Alê nem teve tempo de dizer palavra. Pagou a conta e sumiu na direção contrária.

Terminei de almoçar, lancei o guardanapo sobre a mesa e me levantei devagar. Finalmente o espelho do outro lado me mostrou o rosto da moça que eu quase tocava as costas por causa do corredor apertado. Ela nem me viu, continuou olhando para o próprio prato sobre o balcão. Rosto bonito, guardando marcas da vida. Devia ter uns quarenta.

Entrei na pequena fila do caixa, duas pessoas na frente. Percebi um olhar na minha direção. Vinha do outro lado do balcão, outra moça. Blusa de crepe de seda finíssima, marrom. Casaquinho cinza claro e leve. Olhos azuis muito claros, rosto encantador demonstrando cansaço e certo ar de impaciência. Loura. Linda. Muito jovem. Aproveitei aqueles três segundos de felicidade que ela me concedeu. Desviou o olhar e não me buscou mais. Sofri com o abandono. Mantive a fleuma, não podia ser diferente.

O português me entregou o troco com aquela desatenção automática. Ignorei o velho homem. As duas louras me ignoraram também. Acenei para o Raimundo. “Até a próxima”, ele disse. Aquiesci levantando o polegar.

Segui pela calçada apinhada até o shopping que liga Paulista, Augusta e Luís Coelho. Reafirmei compromisso com a loteria acumulada que insiste em me ignorar, e me permiti o grande prazer de um cafezinho no Starbucks, sentado num sofá confortável dentro da loja. Ao lado, duas adolescentes tiravam algum assunto a limpo com acusações mútuas, impaciência realimentada, contradições. Em comum, as vozes estridentes e a grosseria de encher o ambiente com algo absolutamente sem importância para o resto do mundo.

A escada rolante me jogou de volta à calçada da Paulista e mais adiante entrei numa banca de jornal. Comprei Tristessa, do beat Jack Kerouac, e Paraísos artificiais, do poeta Charles Baudelaire, nessas ótimas edições em pocket books que levam a boa literatura a todos os bolsos.

Atravessei a rua e entrei no meu hotel. No elevador, apertei o 16, que era o meu andar. Pensei na história desse Kerouac algo autobiográfico, estruturada a partir da sua paixão por uma índia prostituta chamada Esperanza, de vida miserável.

Depois viajei para a Paris dos meados do século 19, tempo em que Baudelaire vivia no Pimodan, vivenciava suas experiências com ópio e haxixe e freqüentava o Club des Hachichins, instalado no próprio hotel e reduto da intelectualidade francesa da época.

Hotel cuja reputação Baudelaire ajudou a moldar ao lado de Alexandre Dumas e Eugene Delacroix, também assíduos das instalações na exclusiva Île Saint-Louis, nos arredores da Notre-Dame.

A mesma Saint-Louis do quarto distrito parisiense, onde hoje se pode cruzar na rua com a divinal moradora Catherine Deneuve. Mais uma mulher loura e linda que decidi esquecer naquele dia.


11/12/2016

A Baixa de Lisboa


fotografia Moacir Pimentel


Moacir Pimentel

Se você olhar bem para a foto acima verá que uma linha verde transversal a corta e que, quase na linha do horizonte, a verdura se alarga à direita. Trata-se da Avenida Liberdade desde o Parque Eduardo VII, o maior de Lisboa, situado lá no extremo norte da Avenida, no topo da Praça Marquês do Pombal. 
O parque é uma grande alameda relvada onde moram estufas, coreto, lago de carpas, os “adeptos” do Benfica e do Sporting comemorando as vitórias de seus times e bebendo toneladas de cerveja, a maravilhosa Feira Anual do Livro, o Monumento ao 25 de Abril, o Jardim Amália Rodrigues e um miradouro monumental, que oferece vistas espetaculares do castelo de S. Jorge, da Baixa Pombalina e, claro, do Rio Tejo.

fotografia Moacir Pimentel


Jamais me canso de rever cada pedaço da Avenida Liberdade, construída nos anos 80 do século XIX à imagem e semelhança dos boulevards de Paris. Nela os monumentos homenageiam dos mortos da Primeira Grande Guerra a escritores como Almeida Garrett e Alexandre Herculano. 

Faz bem à alma sentar numa daquelas esplanadas ou à mesa de um dos novos quiosques, para tomar um copo de Gazela fresquinha ou simplesmente um expresso e ver Lisboa passar airosa. Em nenhuma outra noite do ano a Avenida Liberdade é mais atraente e animada do que na véspera da festa de Santo Antônio de Lisboa - de 12 para 13 de junho – quando os bairros da capital de Portugal competem entre si pela melhor marcha.
A avenida é ainda majestosa e elegante, da Praça do Marquês do Pombal à dos Restauradores, com seus noventa metros de largura, suas fontes e grades de ferro magníficas,suas árvores centenárias e calçadas decoradas com padrões abstratos. 

Algumas das mansões originais foram preservadas, incluindo o Teatro Tivoli. Infelizmente, muitas das fachadas no estilo arte nova deram lugar a edifícios ocupados por escritórios ou hotéis, mas, firmes e fortes, belos edifícios continuam muito interessantes do ponto de vista artístico e arquitetônico, como cartões postais antigos do fim do século XIX e do começo do século XX.
Digna de nota no final da Liberdade é a pequena Praça dos Restauradores, já na Baixa, com suas intrincadas calçadas e a poucos passos dela a estação de “comboios” do Rossio, com os seus arcos em forma de ferradura. Muitos confundem a Estação com um palácio porque sua arquitetura neo-manuelina é mesmo monumental e reflete uma época na qual as estações de trem simbolizavam riqueza, tecnologia e modernidade Bem ao lado da Estação, mais recuado, está o Hotel Avenida, o primeiro hotel cinco estrelas de Lisboa, inaugurado com pompa e circunstância em 1892.
O nome oficial do pedaço de Lisboa que começa onde a Avenida Liberdade termina é Praça Dom Pedro IV – o nosso I - mas todos a conhecem por Rossio. 
Gosto particularmente de suas calçadas com um padrão ondulante e que me fazem pensar nas de Copacabana. Na praça mora o teatro neoclássico Dona Maria II com a estátua de um simpático Gil Vicente no topo de sua fachada, além de outra de Dom Pedro ladeada por duas fontes para lá de barrocas. Nada que chegue aos pés do Nicola. 

fotografias Moacir Pimentel


Ah! O Nicola! O café foi rechauchutado no final da década de 70 – ainda me recordo dele caindo aos pedaços - mas os proprietários tiveram o bom senso de conservar-lhe o estilo e a fachada original art-decô de 1929. Porém, dizem as crônicas da cidade, já existia um café com esse mesmo nome e nesse mesmo local no século XVIII.
Para mim o lugarzinho acanhado tem quatro grandes qualidades: a esplanada virada para o Rossio, um serviço impecável, bons cafés e bifes ex-ce-len-tes, o que é raro na t’rrinha já que a nossa carne dá de dez a zero na lusitana.
É bom comer um bifinho acebolado contemplando o Rossio, só para variar os frutos do além mar, num país onde até a carne de porco se come com amêijoas. Entre uma garfada e outra e vários goles as pessoas passam apressadas ou sentam-se na Praça para devorar os jornais junto às fontes, enquanto os pais e avós levam as crianças pelas mãos ao longo do seu traçado de pedras pretas-e-brancas que representam o mar.

Dos ônibus cheios descem os turistas que se contentam em fotografar D. Pedro, orgulhoso lá no alto da coluna colossal no meio da sua Praça que tem sido palco de rebeliões notórias, celebrações e até execuções e onde hoje os vendedores assam castanhas que vendem conjuntamente com bilhetes de loteria. 

Mas você deve estar se perguntando, e aquele que é supostamente o mais antigo café de Lisboa? E o café de nome A Brasileira, aquele de vitrines e balcões de vidro repletas de guloseimas, aquele que é decorado do lado de fora de seus reais 111 anos com a famosa estátua de Fernando Pessoa?

Pois é. Além de ter sido o maior poeta português Pessoa foi um dos maiores fiadores do icônico estabelecimento nas décadas de 20 e 30 do século passado, tendo conseguido a façanha de fiar – dizem as más línguas – mais do que o pintor Amadeo de Souza-Cardoso e o poeta Cespario Verde juntos, embora os dois tenham sido clientes habituais e caloteiros de carteirinha. 
Sucede que a impertubável presença do prezado Fernando Pessoa, na mesma mesa onde passava o tempo escrevendo, garante ao café A Brasileira um público turístico cativo e ansioso para fazer selfies com o Poeta e postá-los no Face. 
Para velhinhos ranzinzas em formação tal balbúrdia tumultua o serviço, tira a visão periférica e transforma A Brasileira numa experiência irritante. Daí que, quando em Lisboa, fico com o Nicola e não abro.

É verdade que os dias de glória de Lisboa ficaram para trás, principalmente nos séculos XV e XVI, quando Vasco da Gama e muitos outros exploradores abriram novas rotas comerciais para a Índia e Ásia, fazendo de Lisboa a rainha da Europa e depois quando as riquezas do Brasil colonial impulsionaram a cidade.

Mas o caráter e o espírito de Lisboa permanece e a gente o encontra nas suas praças públicas - espaços abertos grandes e pequenos, decorados com monumentos históricos e arte moderna - onde os turistas se misturam com os moradores correndo para o Metro, entrando e saindo das lojas adjacentes ou saboreando um pastel de nata servido quente e polvilhado com canela e açúcar de confeiteiro. 

Para além do Rossio moram três ruas paralelas: de um lado a da Prata, do outro a do Ouro e no meio a Rua Augusta.
O que lhe dizer da Rua Augusta lisboeta? 
Ela é sem dúvida a rua mais animada de Lisboa. Fechada ao trânsito e pavimentada com calçada portuguesa original ela liga o Rossio à Praça do Comércio à beira do rio Tejo com várias lojas de marcas internacionais ao lado das mais antigas e tradicionais.

Naquelas paragens os estrangeiros misturam-se com os artistas de rua, que viram estátuas ou vendem seus desenhos e telas e gravuras e artesanatos defronte de prédios como o do MUDE - o Museu do Design e de Moda. Os nativos, em vez, compram castanhas e todos fogem dos já manjados ciganos que se aproximam para oferecer de haxixe a óculos de sol e camisetas de grife. O mais engraçado é que os ciganos nos garantem sobre qualquer mercadoria que vendem:
- “É roubada, meus senhores, é roubada!” 
Tem que ser roubada para ser legítima. Se não fosse afanada seria falsificada. Jamais testemunhei tal marketing em outro lugar do mundo (rsrs) 
A Rua Augusta é uma delícia que passa por debaixo do Arco do Triunfo e deságua na maior praça de Lisboa à beira do Tejo, onde eram dadas as boas-vindas a quem chegava à cidade de barco. 

A Praça que hoje conhecemos é a versão do século XVIII da original - o antigo Terreiro do Paço destruído pelo terremoto - rodeada por belos edifícios que eram em tempos idos, ministérios. Bem no centro do espaço há um monumento em homenagem a Dom José I, no qual o monarca fujão pisoteia serpentes, que suponho representem os desafios do terremotos, enfrentados e administrados não por ele mas por Pombal. 
O que me encanta na Praça são os funiculares onipresentes - os amarelos municipais e os vermelhos de turismo - que por ela circulam dia e noite e as maravilhosas arcadas dos prédios circundantes.
Debaixo desses arcos se escondem vários restaurantes e cafés, entre eles o café Martinho da Arcada, esse sim o mais antigo da cidade e muitas exposições e feiras de artesanato e quinquilharias, geralmente nos finais de semana. 

E tem o Arco do Triunfo, a porta da cidade, mais conhecido como o Arco da Rua Augusta, com a fachada virada para a Praça.
Na sua lateral esquerda, mora uma escultura representando o Tejo, e na direita outra do Douro, os rios que delimitam a região onde alegadamente viviam os ancestrais Lusitanos. 
Nossos filhos, quando crianças, adoravam subir até o seu topo pelos degraus em caracol e se maravilhavam com a escultura de Camels batizada de A Glória coroando as do Gênio e do Valor. 

E, mais embaixo, aprendiam com as sérias figuras com as quais o escultor Vítor Bastos representou por exemplo o grande Viriato, que apesar de quase desconhecido, foi o primeiro herói nacional e um dos líderes da tribo lusitana que confrontou os romanos na Península Ibérica antes do Cristo. Em seguida, lá está namorando o Tejo Nuno Alves Pereira, considerado o maior estrategista e gênio militar português, tanto que foi cantado na décima segunda estrofe do canto primeiro dos Lusíadas como “ um Nuno fero, que fez ao Rei e ao Reino um tal serviço"E finalmente os onipresentes Vasco da Gama e Marquês de Pombal.
Faz décadas que não subo até o terraço mas com certeza ele é um belo de um miradouro de toda a Baixa e do Tejo. Hoje gosto mesmo é de atravessar a Praça com calma e ir até a ribeira para ver e alimentar as gaivotas. 

Na volta, depois de matar as saudades mais prementes é hora de curtir a calçada portuguesa e as lojas mais tradicionais da cidade. 
A calçada que cobre grande parte de Lisboa surgiu quando da reconstrução da cidade após o terremoto. Tudo bem que alguma inspiração os arquitetos devem ter ido buscar nos mosaicos romanos mas o que não faltava então era a matéria prima: os escombros. A calçada portuguesa nada mais foi do que uma maneira engenhosa de reutilizar em pedacinhos as ruínas resultantes do sismo. 
Assim, Lisboa foi coberta de pedras de calcário e basalto, que formam padrões em preto e branco sem a utilização de cimento. É bonito e simples, mas também é arte e por isso só é feita por calceteiros especializados. 

Originalmente os desenhos eram relacionados com a cultura marítima da cidade: ondas como no Rossio e caravelas e peixes. Mais tarde passaram a desenhar com as pedras os nomes e os logotipos dos estabelecimentos comerciais.
Lemos por exemplo na calçada defronte da Casa Macário...Café Chá e Chocolate... e a palavra.... Pitta... enfeita a calçada da Camisaria Pitta, a mais requintada de Portugal. 

Mas a calçada, uma parte tão importante da identidade de Lisboa, está morrendo e os calceteiros sumindo. Ela é muito escorregadia debaixo de chuva, demanda manutenção e reparação constante e é muito mais cara do que o cimento. Algumas restaurações estão sendo feitas com a substituição do pavimento, como foi o caso, inclusive, da própria Praça do Comércio. Portanto a calçada tem que ser curtida já pois em um futuro próximo poderá virar história. 

Além das calçadas algumas das lojas da Baixa são incríveis. 
A Leiteria Pastelaria Cervejaria & Tabacos A Camponeza, do início do século XX, é uma das mais belas casas de Lisboa, abrigada em um edifício com tons da arte nova mas ostentando uma fachada clássica de azulejos azuis e brancos que se repetem no interior acolhedor e rústico, onde o vinho da casa é honesto e as espetadas de se comer chorando.
Imperdíveis são as Sapatarias e Chapelarias como a Lord e a Azevedo e é uma farra visitar a Outra Face da Lua, um brechó formidável, onde me divirto com as bengalas, os vinis e os quepes e boinas da Segunda Grande Guerra – confesso que já comprei um! - para depois me sentar do lado de fora fantasiado de nazista, tomando um café e lendo enquanto esperava pelas mulheres “vintage” da minha vida.

fotografias Moacir Pimentel


A Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, no Largo do Intendente. é outra jóia lisboeta e, é claro, não se pode passar por Lisboa e não tomar uma ginjinha, outra das muitas tradições locais. Tata-se da adocicada aguardente de cereja, vendida “pelo tiro” ou, valendo-me de legendas: em pequenas doses. Aquilo lá é tiro e queda. Depois de umas duas eu realmente fico muito bem humorado. 
Na minha lista de obrigatórios está parar em um bar lisboeta para comer pastel de bacalhau. O bacalhau é o prato nacional de Portugal, só que importado da Noruega, onde desde sempre os portugueses vão pescá-lo. Estranho? Nem tanto em se tratando de uma nação conhecida por seus navegadores e marinheiros. O certo é que na t’rrinha o bacalhau jamais é fresco e que as crianças portuguesas acham que se trata de um peixe triangular, devido à forma como ele é vendido. 

Da última vez que estivemos em Portugal, o país discutia um tema verdadeiramente importante. Nada de notícias fúteis sobre o default da Grécia, a venda da TAP ou a crise do euro. 
O importante, em agosto de 2015, era um novo pastel de bacalhau com queijo da serra. Isso mesmo: um pastel estava tirando o sono dos tugas. Onde já se ouvira falar de bacalhau com queijo da Serra? Um sacrilégio duplo! 
Pois lá fomos nós provar o dito cujo numa polêmica casa recém inaugurada na Rua Augusta. Tirando uns tantos toldos a mais na calçada e o novo riquismo dos brasões de plástico imitando bronze antigo, o dourado cheguei das paredes, os turistas americanos de meias brancas, a casa era uma beleza e aquela gente usava uma receita tradicional datada de 1904 - sem menção do queijo, é claro – e preparavam os quitutes na própria loja, à vista de todos e fritos em azeite da melhor procedência.

À primeira vista, achei o tal pastel grande e lisinho demais para o meu gosto. Estou acostumado com os altos e baixos do exterior dos verdadeiros pastéis caseiros nos quais os fios de bacalhau dourados, rompem a cobertura. Um pastel muito certinho é sinal de batata demais ou de bacalhau de menos. 
E aí mordi a novidade com gosto... como dizem os tugas: 

Soube-me bem!

Pense em um pastel saboroso. Servido ainda morno e com uma quantidade generosíssima do queijo totalmente derretido no interior, o pastel é uma delícia! Depois da primeira mordida o queijo toma conta do pastel feito um rio de lava! 

Voltando para o hotel à noite, em paz com o estômago já que o pastel de bacalhau da Serra valera pelo jantar, não tem como não notar, com tristeza, que em muitos dos quarteirões os edifícios neoclássicos do século XVIII de quatro ou mais andares e estupendos telhados - excetuadas as lojas no térreo - se encontram desabitados, porque os aluguéis – as rendas como dizem por lá - são muito altos, e mais de dois milhões de pessoas vivem vidas muito mais baratas nos arredores da cidade. 

Mas nada tira o brilho da velha senhora! Desta Lisboa d'outras eras, mas moderna e arrojada no Vasco da Gama, por exemplo. Que não é mais “dos cinco réis, nem das touradas reais, nem dos populares pregões matinais que já não voltam mais!” Mas que continua imensamente charmosa. 

Gostamos de estar em Lisboa! Aliás gostamos de estar nas cidades, de estar com gente. Pois as pessoas não moram em países moram nas cidades e é ali que tudo se particulariza e se encontra o cotidiano. 
É nas cidades que criamos nossos filhos e netos, que eles frequentavam a praia, o parquinho e a escola. Nelas moram os nossos familiares e amigos, nelas trabalhamos, vamos ao mercado, ao cinema, ao restaurante ou ao bar preferido e àquela livraria charmosa que queremos mostrar aos parentes vindos de fora.

As cidades são reais, são a materialização daquilo que acreditamos ser. Os países, em vez, por mais que os conheçamos, continuam a ser imensas abstrações.