Um blog de conversas sobre assuntos variados. Mano é o apelido de infância de Wilson Baptista Júnior.
24/12/2020
14/12/2020
A sombra da bailarina
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| Aquarela Ana Nunes |
Ana Nunes
Sempre me perguntei,
principalmente nesses tempos bulímicos onde o que importa é a barriga
tanquinho, a figurinha esquálida, se o homem aprecia mesmo sua presa gordinha,
roliça de carnes para segurar e delícias para sondar.
Tive dúvidas. Tive pulgas atrás da orelha. E resolvi desenhar mulheres
rechonchudas. Aí me vieram ideias de bailarinas. Porque conheço uma bailarina
que apesar do tempo e das tristezas da vida lhe colocarem um peso a mais,
continua sua leveza nas aulas de balé para suas alunas. Fico maravilhada!
E despindo-as, as
gordinhas, vi que elas são belas! Sem os panos que as amarram e deformam,
fazendo dobras e rolinhos e estufados, elas trazem linhas apuradas! Diferentes
e delicadas.
Aí, porque o processo criativo é um não
acabar nunca na sua vontade própria e invasiva, pensei nas sombras das
bailarinas. Até porque a linha do desenho objeto me basta e não gosto de encher
com fundos e fakes. E as sombras delas poderiam completá-las. E se as sombras
fossem seus subconscientes trabalhando e atrapalhando? Mostrando o que elas
realmente gostariam de estar fazendo?
Confesso que fiquei tentada a colocar, além do cigarro e sua fumaça romântica,
uns copos e umas flores. E uma certa eroticidade, influências do querido
Schiele, mas disse para mim mesma, calma, vá com calma. Uma coisa de cada vez
meu filho me ensinou.
Também me tentou a primavera e dei a elas nomes de flores.
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| Aquarelas Ana Nunes |
Tive ótimas modelos! Corri atrás das
bailarinas do maravilhoso Degas, das meias verdes do Egon Schiele, queria
desenhar como ele, e de umas bonequinhas russas.
E me dei bem, acho. Queria que elas fossem velhas, um reflexo de mim, mas a
juventude ganhou! Pena mesmo. Mas chego lá. Ainda quero seios pendurados e
faces murchas! Tipo escultura da Camille Claudel. A velhice não é difícil só no
real. No imaginário também! E nos traços. Podem ficar amargos (e geralmente
são) ou caricaturais.
Coloquei para mim a meta
de umas sete. Mas fui indo e desenhando, encomendei mais papel, abri novos
tubos de aquarela e parei nas vinte.
E ficou um resto do
desenho nas mulheres gordinhas que encontro nas raras vezes em que saio da
toca. Eu as vejo, tiro seus panos, e tenho vontade de dizer-lhes, sabe que
você é linda?
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| Aquarelas Ana Nunes |
08/12/2020
Into the wild blue yonder
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| Chuck Yeager e o X-1 na base de Muroc |
Wilson Baptista Junior
Toda
criança, nova ou antiga, tem seus heróis de infância. E eu, criança antiga, não
sou exceção.
Hoje um
dos meus viajou para mais longe.
Desde
pequeno fui um apaixonado pela aviação. Desde o primeiro aviãozinho de papel
que meu pai me ensinou a fazer, depois pelos aviõezinhos de madeira que ele
construía para mim em sua oficina e que eram a inveja de meus colegas do
primário, passando depois pelos planadores que eu adorava construir e fazer
voar, e até por pequeninos modelos como um, que cabia na palma de minha mão, que
fiz num torno de joalheiro com fuselagem de latão e asas de aço, de um avião
francês da Primeira Grande Guerra.
Meu sonho
de garoto era ser um piloto de caça. Mas quis o destino que a miopia crescesse
mais depressa do que a idade, e quando cheguei aos dezoito anos já não
conseguia passar nos exames de vista da Força Aérea.
Dinheiro
para o curso de piloto civil não houve na juventude, e depois ao correr dos
anos outras prioridades foram aparecendo. Sobrou-me o encanto de voar levado
por outros, em aviões pequenos e grandes de todos os tipos, que guardo até hoje
e me levou por tantos lados.
Hoje de
manhã cedo recebi a notícia da morte de um dos pilotos que fizeram história. O
hoje general Charles Yeager, mas que todo o mundo chamava de “Chuck”, e que em
1947, pilotando um avião que parecia uma bala de fuzil, com o nome de sua
mulher pintado ao lado da cabina, duas asinhas afiadas como lâminas, um motor
foguete na cauda e duas toneladas e meia de combustível altamente explosivo
atrás do piloto, foi deixado cair da barriga de um bombardeiro B-29 a sete
quilômetros de altura, acendeu o foguete e disparou para o céu.
A quase
treze quilômetros de altura ele nivelou o avião, acelerou ao máximo, e se
tornou o primeiro homem a atravessar a barreira do som e sair vivo do outro
lado. Depois, sem combustível, o motor apagado, desceu planando até aterrissar
no lago seco de Muroc.
Hoje voar
mais rápido do que o som é coisa de rotina, até um avião de passageiros, o belíssimo
Concorde, hoje aposentado pelos altos custos de operação, levou muita gente
viajando ao dobro dessa velocidade. Mas naquela época era uma incógnita, só se
sabia que ao chegar perto daquela velocidade o ar comprimido pelo avião, de um
deslizamento suave se transformava numa verdadeira muralha aerodinâmica que alterava
todos os efeitos dos controles e podia levar o avião a se despedaçar. Daí o
nome que lhe deram de “barreira do som”, e mais de um piloto pagou com a vida o
encontro com essa muralha ao mergulhar em alta velocidade em aviões que não tinham
sido construídos para enfrentá-la.
Alguns
anos depois, quando eu já tinha idade para ler, acompanhei o desenvolvimento da
série de aviões experimentais que eles chamavam de “aviões X” (X era a
abreviação em inglês de “experimental”, aquele de Yeager foi o X-1). Um
trabalho magnífico que foi empurrando cada vez mais para longe os limites da
aviação, num tempo em que não havia computadores, os engenheiros usavam réguas
de cálculo e pranchetas de desenho e não se sabia muito como esses aviões iam voar quando chegava a hora
de um piloto corajoso entrar nele e tirar a prova.
Alguns
dos leitores talvez tenham visto uma parte da história de Chuck Yeager num
filme que fez sucesso em 1983 e trouxe o título em português de “Os Eleitos”
(em inglês se chamava “The Right Stuff”) que mostrou a progressão dos pilotos destes
primeiros aviões até os astronautas que chegaram à Lua.
Chuck aprendeu
a atirar desde garoto caçando para ajudar a encher a geladeira da família na
Virgínia do Oeste, foi piloto de caça na Segunda Guerra Mundial, foi abatido
sobre a França e fugiu para a Espanha ajudado pelos maquisards, voltou a
combater e terminou a guerra como capitão e duplo ás (piloto com mais de dez vitórias),
depois da guerra foi piloto de testes, desde os primeiros aviões a jato
americanos até o programa dos Aviões X, e voltou a lutar, já como tenente coronel,
comandando um esquadrão de caça na guerra da Coréia.
Mas não quero aqui fazer uma biografia dele. A quem por acaso quiser saber mais recomendo a sua auto biografia, ou o livro do Tom Wolfe, “The Right Stuff”, que deu origem ao filme, e que fazem companhia um ao outro numa estante atrás de onde estou escrevendo. Só falei do começo da sua vida para poder falar no que ele escreveu ao final de sua biografia, com sessenta e dois anos:
“Tenho um
enorme prazer pessoal em voar um F-20, mas conheço pessoas demais que erigiram
barreiras, paredes reais de tijolos, apenas porque têm cabelos grisalhos, e que
se isolam, definitivamente de coisas que amaram fazer toda a vida pensando – Estou
muito velho para fazer isto ou aquilo, isso é para os mais jovens – Viver até
uma idade avançada não é um fim em si próprio; o truque é aproveitar os anos
que ainda nos restam”. E termina dizendo: “Ainda há tantas coisas que
quero fazer, nunca perdi minha curiosidade sobre as coisas que me interessam.
(---) Não fiz tudo ainda, mas quando chegar meu fim não terei perdido muita
coisa”.
Chuck nos
deixou hoje, com noventa e sete anos, para voar definitivamente para “o selvagem
azul lá em cima”, que é a tradução do título deste post e como os pilotos do
tempo dele chamam o infinito céu.
E ao
pensar nisso me lembro de um poema escrito por um piloto canadense chamado John G. Magee Junior, lutando pela
RAF na Segunda Guerra Mundial, poucos dias antes de morrer num acidente com seu Spitfire, e que me vem à
memória sempre que tenho a alegria de
voar:
"Oh, I have slipped the surly bonds of earth,
And danced the skies on laughter-silvered wings;
Sunward I've climbed, and joined the tumbling mirth
of sun-split clouds -and done a hundred things
You have not dreamed of -.wheeled and soared and swung
high in
the sunlit silence. Hovering there
I've chased the shouting wind along
and flung my eager craft through footless halls of air.
Up, up the long delirious burning blue
I've topped the wind-swept heights with easy grace,
where never lark, or even eagle, flew;
and, while with silent, lifting mind I've trod
the high untrespassed sanctity of space,
put out my hand and touched the face of God."
E que, se
me perdoarem a tradução, fica mais ou menos assim:
“Oh, eu me livrei dos tristes
laços da terra
e dancei pelos céus em asas prateadas pelo riso;
subi para o sol, e me uni à alegria buliçosa
das nuvens divididas pelo sol – e fiz um cento de coisas
De que nunca
sonhastes –rodopiado e planado e me balançado
bem alto no silêncio ensolarado. E lá
pairando
persegui pelos céus o vento uivante
e lancei meu ávido aparelho por salões sem piso de ar.
Alto, mais alto pelo
longo, delirante, flamejante azul
escalei com graça ligeira os cimos varridos pelos ventos
onde nunca voaram nem a águia nem a cotovia
E enquanto com a alma
silente e elevada pisei
a alta e intocada santidade do espaço
estendi a mão e toquei o rosto de Deus.
02/12/2020
Dinheiro não traz felicidade...
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| O Príncipe Charles e a Princesa Diana (fotogtrafia em Saltwire) |
Francisco Bendl
Assisto a série promovida pela Netflix, The Crown,
que aborda a realeza britânica ou os Windsor.
Deixando de lado alguns detalhes históricos,
os episódios são primorosos pela qualidade, pela veracidade ao passado do pai
da Rainha Elizabeth II, que se viu rei com a abdicação ao trono pelo seu irmão,
Edward VIII, que optou por ser feliz ao lado da mulher amada, renunciando ao
dever de ser rei do povo britânico.
Recomendo que assistam à série, pois uma das
melhores já feitas e que assisti ao longo da minha vida.
Agora, se o célebre ditado, “dinheiro não traz
felicidade”, existe quem possa contestá-lo, inclusive alegando que pode não
trazer, porém ajuda muito, o seriado que mencionei e recomendo é a prova cabal
que a máxima popular tem razão!
Pode-se dizer que a vida nos castelos e
palácios ingleses são uma espécie de contos de fadas.
Luxo, abundância, riqueza, poder, pajens,
vassalos, seguranças, mordomos, uma condição que não se vê numa pessoa mesmo abastada
porque lhe falta a linhagem, a influência local e mundial, as exigências que a
corte estabelece e que devem ser cumpridas acima da felicidade dos membros da
realeza.
Pois, se dinheiro, fama, uma vida inigualável
não é suficiente para qualquer pessoa se sentir bem, a família real britânica é
o exemplo!
O personagem mais enigmático, contido,
infeliz, frustrado, ligado somente em si mesmo, egoísta, invejoso, uma
personalidade titubeante, inseguro, é nada mais nada menos que o príncipe
Charles.
Não é por nada que a rainha jamais abdicou
para lhe transferir o poder e torná-lo rei, pois ela sabe como ninguém que o
seu filho não tem a menor condição de ser o monarca esperado.
Bom, mas não quero me desviar do assunto.
A questão é eu tentar transmitir se existem
motivos para alguém sadio física e espiritualmente, herdeiro de um trono, rico,
poderoso, ter se deixado ser exemplo de infeliz, e esse é o enredo dessa
crônica.
Charles desposou a mulher de que o mundo se
enamorou, apaixonou-se, adorava e reverenciava.
Foi a mulher mais fotografada na história, e
uma das mais fotogênicas, se não a maior de todas.
Diana era linda, meiga, sensível, deixava-se
abraçar, pegar na sua mão, embalava crianças, sentava-se perto de aidéticos,
visitava feridos e doentes, viajou para a África, simplesmente levou os Windsor
para patamares nunca dantes imaginados pela realeza inglesa.
Mas, trouxe consigo uma necessidade premente
de carinho, de afeto, de ser amada, pois a sua família havia sido desfeita
quando a sua mãe se separou do pai.
Charles, antes de Diana, tinha o seu amor
voltado para uma mulher casada, frívola, porém o escutava, consolava, entendia
como ninguém os problemas do príncipe, quando ia ao seu encontro furtivamente
para desabafar.
Chamava-se Camila Parker Bowles.
Curiosa ou ironicamente, hoje Duquesa da Cornualha...
Pois bem.
Camila, se comparada à beleza de Diana, seria
o mesmo que eu disputar com Einstein quem seria mais inteligente!
Diana ofuscava; Camila não tinha luz alguma.
Mas, mulher mais velha que Charles, tinha o
segredo de como agradar um homem, de como envolvê-lo, ainda mais em se tratando
de um uma pessoa medíocre, ridículo, inseguro, mimado e superficial.
Se Diana esperava encontrar um príncipe que a
levaria à felicidade plena, Charles ao ser obrigado a se casar com a srtª
Spencer, queria transformá-la em mera seguidora de seus passos, uma mulher
submissa, apenas para “o inglês ver” como o seu matrimônio era feliz.
Camila era inesquecível, Diana não lhe
agradava, pelo contrário, em muitas ocasiões deixava a sua esposa “em casa”, e
se mandava para os macios braços e o colo quente da sua verdadeira amada.
No entanto, certamente a grande mágoa de
Charles, a sua frustração, a sua impotência constatada por ele mesmo, dizia
respeito à sua vida.
Ele não a tinha como desejava, pois estava
determinada para ser o futuro monarca britânico.
Príncipe, rico, poderoso, influente, uma vida
nababesca mas, antes da sua felicidade, havia o senso do dever!
Então, a sua rebeldia, infelicidade, e algoz
da sua esposa, a encantadora e maravilhosa Diana, a Princesa de Gales, com a
qual se viu obrigado a se casar em detrimento do seu amor, Camila.
A preocupação da corte com Charles era tanta,
que a rainha e o seu pai, Phillip, que abandonara a sua brilhante carreira na
Marinha para se casar com Elizabeth, imaginavam que Charles poderia copiar o
seu tio, rei Edward VIII, que abdicara do trono para estar ao lado da mulher
dos seus sonhos, gerando uma crise imensa na coroa, e que chegou a ser
discutida a sua continuidade ou não!
Se Charles fizesse o mesmo, o futuro da
realeza britânica estaria irremediavelmente em jogo.
Logo, encontrar uma esposa para Charles ficou
sendo uma tarefa de todos os membros do palácio de Buckingham, de modo a tirar
Camila da mente do filho mais velho da rainha, o herdeiro do trono inglês.
Resumo da tragédia real britânica:
Diana começou a devolver ao Charles a sua
traição com Camila, e escancarada.
Diziam as más línguas, que o quarto da
princesa tinha uma porta giratória, de tantos eram seus visitantes furtivos e
ocasionais.
Nas várias tentativas de Charles pedir que a
mãe lhe concedesse se separar de Diana, e a rainha o obrigava a tentar a
reconciliação, mais ainda Charles se tornava infeliz, magoado, derrotado.
Até que chegou um dia que a rainha ouviu de
seus auxiliares as peripécias amorosas da sua nora, e concordou com o divórcio.
Diana, expulsa da família, execrada pelos
Windsor, morreria em seguida, buscando uma felicidade que jamais encontrara.
A comoção mundial e, principalmente, a
britânica, obrigou que a família resolvesse dar importância ao episódio
trágico.
No dia do enterro, com o caixão de Diana sendo
conduzido por uma carruagem levada por vários cavalos, quando passou em frente
à rainha, esta em um gesto que deixou a todos perplexos, que devolve as
críticas que recebera pelo tratamento dado à morta, meneia a cabeça,
reverenciando a princesa que deixara de existir!
A rainha rompia com o cerimonial, a tradição,
e saudou a passagem da sua ex-nora como se fosse ela a rainha e, Elizabeth, a
princesa!
Charles finalmente se casou com Camila.
Encontrou a felicidade, enfim. Atendeu aos apelos de sua vontade, do seu
egocentrismo, da sua vida pequena.
Mas, a rainha, cujo senso do dever é maior do
que ela mesma, que a sua felicidade pessoal, a sua responsabilidade com o povo
suplanta qualquer anseio particular, também cobrou do filho um preço pelo que
fizera com Diana e o seu próprio futuro:
Jamais será rei!
Charles se deixou vencer pela emoção, pela
paixão, pela sua vontade.
Um legítimo monarca não pode pensar em si, mas
na tradição do nome, na linhagem, na realeza, que deve estar acima de tudo e
todos.
Ao se equiparar com uma pessoa comum, da
plebe, comprovou que não teria condições de colocar a coroa, que exige de quem
a usa qualidades muito acima dos mortais, conforme os sacrifícios que devem ser
feitos e que se espera de um rei.
De fato, dinheiro não traz felicidade e, até
para contrariar o complemento do ditado que ajuda a encontrá-la, a realeza
britânica, a mais importante do planeta, cuja rainha é a mais longeva na
história do trono inglês, a condenação pelo fausto, poder, abundância,
refinamento, riqueza, veio na forma de ser negada a felicidade aos Windsor, uma
punição cruel, convenhamos.
Dito isso, até que estar no SPC, Serasa, não
ter crédito na praça, ser um pelado não é nada importante, se a chance de ser
feliz é muito maior que a dos ricos e poderosos.
Se eu não fosse um pobretão, sem eira nem
beira, jamais eu teria encontrado a Marli pois, em tempo algum eu teria
conhecido a verdadeira felicidade!
Tá bem, volta e meia ela se queixa, reclama da
falta de condições, que ainda residimos em casa alugada, jamais viajamos para o
exterior ...
Então respondo:
- Marli, minha amada mulher, quando nos
casamos eu te prometi uma vida de emoções, lembras?
- Que emoções, Chico, se não temos nada?
- Ora, emoções no sentido de hoje termos o que
comer, amanhã quem sabe; hoje residimos em uma casa, mas podemos ser
despejados; agora temos roupas, no futuro, sabe-se lá, se não temos de usar
folha de parreira; temos algumas moedas que sobraram de ontem, possivelmente no
dia seguinte teremos de pedir dinheiro emprestado ... queres uma vida mais
emocionante que esta??!!
Percebi que a minha felicidade estaria fatalmente comprometida, caso ela acertasse a frigideira que atirou em mim!
Para a minha felicidade, a Marli errou!
25/11/2020
A Loba Nazareth
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| Fotografia de Carlos Monteiro |
Hoje
publicamos a primeira colaboração de um novo companheiro, a quem damos as boas vindas.
Deixemos que ele mesmo se apresente:
Meu nome
é Carlos Monteiro, sou carioca, flamenguista, portelense. Fotojornalista,
jornalista e publicitário desde 1975. Trabalhei em alguns dos principais
veículos nacionais como: Revista O Cruzeiro, Jornal dos Sports, História e
Glória do Rock além de outros como freelancer. No Jornal O Dia publicava a
fotogaleria Alvoradas Cariocas, retratando o amanhecer de algum ponto da
Cidade. Atualmente sou publicitário na Agência Saravah. Tenho três livros
fotográficos, publicados, retratando a Cidade Maravilhosa.
O artigo
do Carlos foi escrito no dia 24, façamos de conta que hoje é 24 de novembro,
data também do amanhecer que ilustra o post. 😊
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Nasceu maranhense
com nome de deusa grega, pelas mãos de Zeus se transformou em pássaro. Seu pai,
quando a batizou Alcione, sabia que ela vinha ao mundo para cantar, encantar e
acalentar.
Pássaros
são para o mundo. Ela cresceu e volitou para o Rio de Janeiro, se transformou
em Loba, Mangueirense, “Rainha do Samba”, trompetista. Na noite, embalada no
berço da Bossa Nova, cantou no “Little Club”, naquele cantinho especial de rua
Duvivier em Copacabana; o Beco das Garrafas.
E, como
pássaro que é, alçou voos maiores, atravessou Américas e oceanos. Sem esforço
para manter a afinação e com um tom de voz absolutamente peculiar, quase único,
não deixou o samba morrer, nasceu com o samba e no samba se criou com muita
ginga e um tremendo bole-bole. Não deixará acabar a batida forte do surdo,
pulsar do coração, repique do tamborim, choro da cuíca. Enquanto puder sambar,
na avenida, no terreiro, nas rodas de samba e na solidão, será compasso do
passo do coração.
Esse amor
pelo samba ‘envenena’, mas, todo amor sempre vale a pena, para quem, como ela,
não tem a alma pequena, viveu amor em gostoso veneno.
E o amor
cantou em dores, saudades, alegrias, felicidades e tristezas. Amores
correspondidos, platônicos e abandonados. Amores traídos, amados, amantes.
Jogou o jogo do amor como um vício, segredo guardado no peito, chama da paixão,
perfume do mato, água da fonte, pétalas caídas das rosas se abrindo, exalando
perfumes roubados e despetalando no chão.
Cantou o
amor, e como cantou. Amores acabados, findados em sonhos grifados num jogo de
palavras trocadas, cartas marcadas, dadinhos rolados. Daqueles que pagaram caro
por amar demais, estranha loucura que faz o coração doer, se esconder na falta,
se encontrar na cama, no doce abraço do abraçar de braços que nada importam,
mas, que abrem a porta do coração.
Cantou o
perdão ao menino sem juízo, garoto maroto que toma porres, picha muros diz que
adora, troca juras secretas, mil loucuras e depois vai embora. Pasárgada
talvez. Cantou ao ébano dos lábios de mel, feito a pincel. Cantou meninos
danados, moleques levados, daqueles que fazem olhar estrelas achando que é
amor, daqueles que viram a cabeça, que tiram do sério.
É gata em
pele de loba, é loba em pele de gata, doce, dengosa, polida, fiel, que se
entrega de corpo, alma, paixão, toque e olhar sedutor que despe. Que faz a
gente sentir saudade, vontade de ficar noite afora, perder a hora, fazer
loucuras, que faz dizer: “te amo plurimum. Nequaquam ego amare te.” Quando o
coração fica para sempre!
É o que
fica dentro do peito em forma de saudade, que faz pensar no jeito, no desejo,
no nome que chama em chama, que faz até gostar de alguém, mas amor, amor
verdadeiro, distribuídos em sonhos e carinhos...? Só uma estranha loucura que
faz perguntar: o que eu faço amanhã sem você?
Alcione é
como o Sol, brilha sempre mais uma vez, sua luz chega aos corações, faz o amor
ser eterno novamente.
Completou
73 anos muito bem vividos no sábado, veio ‘pra’ cantar. Cumpre seu papel com
devoção, com emoção, com o coração.
É loba!
26/09/2020
Viagem ao redor do meu quarto
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| O autor e seu criado Joanetti - ilustração de Tony Johannot |
Wilson Baptista Junior
Faz dias que
estava pensando em escrever este post sobre um livro que nas minhas lembranças tem
algo a ver com a reclusão em que tantos de nós têm vivido nos últimos meses, e
hoje, quando me sentei ao computador, antes de começar a escrever corri a vista,
como de hábito, pelos jornais do dia e – Plim!
Saltou-me aos olhos a chamada de uma bela resenha da Tati Bernardi, na Folha,
sobre uma nova tradução brasileira do mesmo livro...
Pensei: “Lá
se vai o post...”. Mas depois, confesso que ajudado por um empurrãozinho da
Ana, resolvi não me preocupar com a coincidência e contar assim mesmo o que ele
me trouxe à mente.
Não conheço nem
essa nova nem a antiga tradução brasileira do livro; algum leitor que as tenha
lido perdoe-me por favor as diferenças entre aquilo de que se lembra do que
transcrevo aqui. Traduttore, traditore...
Primeiro,
alguma coisa sobre o autor, para que possamos entender o seu livro:
Xavier de
Maistre era um cavalheiro e militar sardo, nascido em Chambéry, na Savóia. Em
1792 a França, já transformada em república pela revolução, tomou a Savóia do
reino da Sardenha, e a região se tornou muito pouco hospitaleira para qualquer
das antigas famílias da nobreza. Xavier viajou para a Rússia, onde continuou na
carreira das armas, tomou parte na guerra que aliou quase todos os reinos europeus
contra a França e subiu até a patente de general. Amante das artes, e além de
escritor amante da pintura, chegou a ser nomeado diretor da biblioteca do Museu
Real de São Petersburgo. Mas sua carreira militar teve também seus percalços – um
deles relativamente comum para um cavalheiro da época: em 1790, quando ainda
servia no exército do Piemonte, foi condenado por ter participado de um duelo,
considerado ilegal, e sentenciado a ficar em prisão domiciliar na fortaleza de
Turim, onde estava aquartelado, sem poder sair do seu quarto. A história não
registrou o que aconteceu com o outro duelista, pode-se supor que tenha
sobrevivido porque a pena não foi tão longa.
Nos quarenta
e dois dias em que ficou confinado, escreveu um livro que chamou de “Voyage
autor de ma chambre” - Viagem ao redor de meu quarto - e que foi publicado em
1794, quando já vivia na Rússia, financiado por seu irmão Joseph de Maistre (na
época Xavier passava por grandes dificuldades financeiras).
Como era
costume entre oficiais, o cumprimento da pena baseava-se na palavra de honra do
condenado de que não sairia do seu quarto, e ele honradamente a manteve. Nenhum
costume impedia, entretanto, que pudesse receber visitas, e que, como convinha
a um cavalheiro, continuasse sendo servido por seu fiel “valet de chambre” Joannetti, nas suas palavras “un parfait honnête homme” e cuja
dedicação transparece em algumas das páginas Também sua cadela, Rosine, que
vivia no quartel, podia entrar e sair livremente do seu quarto.
Nosso
soldado escreveu (surpresa!) quarenta e dois capítulos, onde mistura
descrições, lembranças, realidade e ficção com algumas introspecções muito mais
profundas do que a mera aparência do assunto poderia sugerir. Só uma vez,
durante essa viagem, a sombra de uma queixa sobre o motivo do seu confinamento
aparece quando ele fala do duelo que o causou e da situação difícil em que fica
um cavalheiro vítima de uma ofensa real ou imaginária:
“Existe
alguma coisa mais natural do que se arriscar a cortar a garganta com qualquer
um que vos pise inadvertidamente o pé, ou que deixa escapar qualquer palavra
ferina num momento de irritação do qual vossa imprudência tenha sido o motivo,
ou então que tenha a infelicidade de agradar a vossa amante? Vai-se a um prado,
e lá, como Nicole fazia com o Burguês Fidalgo, tenta-se atacar em quarta
enquanto ele faz a parada em terça: e, para que a vingança seja certa e
completa, lhe apresentamos o peito descoberto, e corre-se o risco de se fazer
matar por seu inimigo para vingar-se dele.”
(Aqui, um parágrafo meu, “atacar em quarta enquanto ele faz a
parada em terça” é jargão de esgrimista para dizer resumidamente que se atira a
lâmina na direção do lado esquerdo do peito do oponente enquanto ele tenta
aparar o golpe do lado direito, e não o conseguindo é ferido. Nicole é
personagem do “Burguês Fidalgo”, de Molière)
“Vê-se que
nada é mais consequente, e no entanto encontramos pessoas que desaprovam esse
louvável costume! Mas o que é tão consequente quanto o resto é que as mesmas
pessoas que o desaprovam e que querem que o consideremos uma falta grave
tratarão ainda pior qualquer um que recuse cometê-la”.
De fato,
pelos costumes da época, um ofendido que se recusasse a combater no campo de
honra, por mais superficial que fosse a ofensa, seria considerado por seus
pares covarde e indigno do nome de cavalheiro, mas se combatesse nem por isso
deixaria de ser condenado por esses mesmos pares nos tribunais...
Xavier
começa o seu livro no estilo dos relatos dos viajantes da época: “As
observações interessantes que fiz, e o contínuo prazer que experimentei ao
longo do caminho, me fazem desejar torná-lo público; a certeza de ser útil me
decidiu a isto.” E nos diz que qualquer um de nós pode fazer viagem igual: “Na
imensa família dos homens que cobrem como formigas a superfície da terra, não
há um só – não, nem um só (entende-se, dos que moram em quartos) – que possa,
depois de ter lido este livro, recusar sua aprovação à nova maneira de viajar
que introduzo no mundo”.
Limitado
aqui a um mundo, como nos conta, “de trinta e seis passos de perímetro, voltado
do nascente ao poente, bem perto do muro da fortaleza”, e aos objetos nele
contidos (alguns verdadeiros e outros imaginários), o autor nos leva a uma
viagem por dentro de sua mente, atingindo às vezes profundezas insuspeitadas. Para
começar, divide o viajante (ele próprio) em duas naturezas distintas, a alma,
morada da inteligência e da memória, e “o outro”, ou “o animal”, que é o seu
corpo, mas seu corpo infundido de uma vida própria, que perambula pelo mundo e
toca nos seus objetos, às vezes junto da alma e às vezes livre do seu comando.
E pela interação dessas duas naturezas vamos percebendo a sua pessoa.
Sua viagem
não tem regra, nem método, nem caminhos determinados; como ele diz, “nada me
atrai mais do que seguir as ideias pelos seus rastros, como o caçador persegue
a caça, sem fingir que tem algum caminho. Assim, enquanto viajo por meu quarto,
raramente percorro uma linha reta: vou de minha mesa para um quadro pendurado
em um canto; daí parto obliquamente para ir à porta; mas conquanto ao partir
minha intenção seja de chegar lá, se encontro no caminho minha poltrona, não me
importo, nele me acomodo na mesma hora”.
E é pela
alternância entre os lugares onde vai parar, seja levado pela alma, seja pelo
animal, e pelas sensações que cada lugar ou objeto lhe traz que ele vai falando
com o leitor.
Da poltrona:
“Um bom fogo, livros, penas, quantos recursos contra o tédio! E ainda que prazer
em esquecer seus livros e suas penas para atiçar o fogo, se entregando a alguma
doce meditação, ou construindo algumas rimas para alegrar os amigos!”.
Mas,
seguindo da poltrona, encontra o leito, e fala do prazer de ver os raios do sol
avançando pelas paredes, do ouvir as vozes das andorinhas que moram no telhado,
do quanto lhe apraz prolongar ao máximo estes momentos neste “móvel delicioso
em que esquecemos, durante metade da vida, as tristezas da outra metade”...
No capítulo
seguinte (dedicado, segundo ele, aos metafísicos) ele nos explica sua concepção
da pessoa humana, “separando a potência animal dos raios puros da inteligência”.
Xavier não
considera o homem como composto de alma e corpo; para ele o nosso “animal” é “um
ser sensível, perfeitamente distinto da alma, indivíduo verdadeiro que tem sua
existência separada, seus gostos, suas inclinações, sua vontade e que só está
acima dos outros animais porque é melhor criado e provido de órgãos mais
perfeitos (...) A grande arte de um homem de gênio é saber criar bem seu animal,
de modo que este possa andar por si só, enquanto a alma, livre deste seu doloroso
acompanhante possa se elevar até o céu”.
O autor gostava
de pintar, e pelo exemplo abaixo, da coleção de uma sua contemporânea russa, era
mais do que um mero principiante:

Paisagem por Xavier, Conde de Maistre (coleção de Elizabeth Tschitschagow)
É ele quem
nos diz: “Feliz ainda o pintor que o amor da paisagem arrasta em passeios
solitários, que sabe exprimir sobre a tela o sentimento de tristeza que lhe
inspira um bosque sombrio ou um campo deserto!”.
Não é de
surpreender, então, que algumas das reflexões mais interessantes de sua viagem
sejam provocadas pelo exame dos quadros pendurados (verdadeira ou imaginariamente)
nas paredes do seu quarto. Mas nos alerta: “É tão impossível descrever
claramente um quadro quanto pintar um retrato que se pareça com o modelo tendo
apenas uma descrição”.
O primeiro
com que se defronta, inspirado na obra de Goethe, mostra Charlotte, o amor
impossível do jovem Werther, desempoeirando com a alma cheia de maus
pressentimentos as pistolas que ele tinha pedido emprestadas ao seu marido
Albert sob o pretexto de fazer uma viagem, e que ele usaria depois para tirar a
própria vida. E pensa: “Quantas vezes não fiquei tentado a quebrar o vidro que
cobre essa estampa, para arrancar este Albert de sua mesa, de o despedaçar, o
desmanchar sob os pés? Mas sobrarão sempre demasiados Alberts neste mundo. Qual
homem sensível não tem o seu, com o qual é obrigado a viver e contra o qual as
efusões da alma, as doces emoções do coração ou os arroubos da imaginação vão
se quebrar como as ondas sobre os rochedos?” – e aí, contrapondo a isso o bem
que faz ter um amigo, faz uma belíssima elegia a um seu companheiro das
fileiras que morrera em combate, e termina dizendo “a morte de um homem
sensível que expira em meio a seus amigos desolados, e a de uma borboleta que o
ar frio da manhã faz perecer no cálice de uma flor, são duas épocas parecidas
no curso da natureza. O homem não é mais do que um fantasma, uma sombra, um
vapor que se dissipa no ar... (...) Não, meu amigo não entrou no nada; qualquer
que seja a barreira que nos separa, eu o verei de novo”.
Usa o ver
outro, retrato de uma sua amiga, para nos mostrar a dicotomia da alma e do
animal; quando chega à sua frente e vê que o quadro está empoeirado sua mão
começa maquinalmente a remover a poeira que o cobria, enquanto a alma vagueia
por outros lugares, mas à medida em que a figura da dama vai sendo revelada a
alma se encanta novamente pela beleza da retratada e se envolve com o coração
para dividirem a alegria das lembranças que os assaltam. Por um momento o amor
antigo domina nosso viajante, mas num piscar de olhos a razão o retoma e, nas
suas palavras, ele “envelhece um ano inteiro” e volta à realidade.
Mais adiante
ele disserta sobre a arte da pintura, comparando-a à da música e estabelecendo
a superioridade da primeira. A dissertação é muito longa para ser resumida
aqui, mas em essência (e ressalvando ele honestamente que não é músico, “como atesta
o céu e todos os que já me ouviram tocar o violino”, termina por dizer que “vê
se frequentemente crianças tocarem o cravo como grandes mestres, mas nunca vi
eu um bom pintor com doze anos. A pintura, além do gosto e do sentimento, exige
uma cabeça pensante, da qual os músicos podem prescindir. Vemos todos os dias
homens sem cabeça nem coração tirar de um violino, ou de uma harpa, sons
encantadores. Podemos criar o animal humano para tocar o cravo, e, quando isso
é feito por um bom professor, a alma pode viajar à vontade enquanto os dedos
vão maquinalmente tirar sons com os quais ela não interfere. Não se saberia, ao
contrário, pintar a coisa mais simples do mundo sem que alma deva empregar
nisso todas as suas faculdades”.
(Aqui eu,
que não sou músico nem pintor mas sempre apreciei as duas artes, prefiro ficar
calado para não contradizer o nosso viajante).
Depois de
falar, com igual emoção, de outros quadros, inclusive de dois que ele coloca
acima de todos – um auto retrato do grande Rafael Sanzio e outro que ele pintou
de sua última amante, La Fornarina – e desse último ele conta: “Minha alma,
enquanto a admira, sente um movimento de indignação contra essa italiana que
preferiu seu amor ao seu amante, e que extinguiu no seu seio esta chama celeste,
este gênio divino” – ele termina a visão das pinturas assim:
“As estampas
e os quadros de que acabo de falar empalidecem e desaparecem logo ao primeiro
olhar que se lança sobre o quadro seguinte: as obras imortais de Rafael, de
Corregio de de toda a escola da Itália não suportariam o paralelo. Assim o
guardo sempre para o último pedaço, para o bocado reservado, quando dou a
alguns curiosos o prazer de viajar comigo; e posso assegurar que, depois que
faço ver este quadro sublime aos conhecedores e aos ignorantes, aus homens do
mundo, aos artesãos, às mulheres e às crianças, até mesmo aos animais, sempre
vi qualquer dos espectadores mostrar, cada um à sua maneira, mostras de prazer
e de espanto: tanto está a natureza tão admiravelmente reproduzida! (...) O quadro de que falo é um espelho, e
ninguém até hoje o criticou; é, para todos os que o veem, um quadro perfeito ao
qual nada se pode corrigir. (...) Único
entre os conselheiros dos grandes, ele lhes diz constantemente a verdade”.
Já vai muito
longe nossa conversa, e muito haveria ainda para dizer. Muitas vezes mais, por
diferentes caminhos, o viajante mergulha dentro de si próprio. Até o dia em que
é libertado, e ao sair de novo debaixo do céu, termina dizendo, mais do que nunca
cônscio de sua dualidade: “Oh meu animal, meu pobre animal, entra em guarda!”
Mas o meu
conselho é que, se gostaram dessas amostras, leiam o livro. Tem muito, muito
mais do que gostar.
Este foi o
primeiro romance (se assim o podemos chamar) publicado de Xavier de Maistre. O
último, publicado quase trinta anos depois, retoma a ideia e se chama “Expedição
noturna ao redor do meu quarto”. Quem sabe um dia ainda conversaremos sobre ele?
17/09/2020
Estranhezas de flores e de falas
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| Fotografia WBJ |
Ana Nunes
De cara o senhor
Editor censurou o título. Tinha alguma coisa a ver com mofo. Será ele alérgico?
Não entendo bem.
Aliás, sábio quem disse “Só sei que nada sei”. Mas fico curiosa.
Apesar de
estar trabalhando muito nos meus afazeres, pintei três quadros 0,80 x 1,00 mais
um pequeno, aquarelas muitas, um grande caderno de folhas pretas quase todo
desenhado em pastel e lápis de cor, duas meninas primaveras para minha Helena,
e outras aquarelas que já nem me lembro, estou sentindo um cheiro de mofo.
Parece que tudo está ficando velho, afoitamente, silenciosamente, sem dar tempo
de perceber.
Os lençóis estão perdendo o elástico que vai ficando frouxo, preguiçoso.
O calendário quase ultrapassado, de repente em Setembro. Nem me dei conta.
Rasguei e joguei no lixo. Já estou errando os dias mesmo!
Os cabelos
brancos crescem como mato em época de chuva. Eu mesma estou cortando, cada pedaço
de um tamanho, em mechas surpreendentes! Na parte de trás da cabeça não sei bem
como vai o procedimento. Talvez mais tamanhos que pedaços. Ah! Se minha cabeleireira me
visse... Rogava praga! Lourdinha querida, eu volto um dia.
Até minha
Flor de Maio depois de uma bela florada de mais de vinte botões deu a louca.
Despertou mais quatro flores! Em Setembro! Tudo bem, vai que chega a Primavera.
Penso que enlouqueceram, esses novos botões,
no frio intenso e repentino de umas semanas atrás. Acharam que era o
inverno chegando de novo.
Pobres meninas! Ganhei eu que espero por um ano inteiro aguando, fofando a
terra e conversando. Ainda bem, ninguém vai, tipo “falar com flores, certo
perdeste o senso”. Tudo muito estranho.
Ainda bem que não sou só eu que estou perdendo o tempo, as plantas também.
Eu, sem dúvida,
sem a Água rejuvenescedora da piscina fria, cloro à parte, e o sol para me dar
cor, me dei a cor do de estar virando fantasma. Branquinha, branquinha!
Preciso comprar umas camisetas roxo batata doce, verde floresta sem fogo, abóbora
sem sementes. Preciso de cor. Whisky , vinho, cerveja e outros que bom não dão
cores. Nem Netflix. Sem dúvida que dão alegria, mas não cores. E a pele sem cor também fica preguiçosa, como
o elástico dos lençóis. Tenho medo de quando sair de novo não vão me dar nem
setenta e um, nem sessenta e oito, vão direto para os oitenta. Bem, troco a máscara
por uma burca. Juro!
Envelheceram
também as palavras vencidas do novo novo, do velho novo, do neo moderno que
seja. Isso é coisa de artista. Não de gente enlutada e lúcida nas dores
esquecidas em flores murchas nos cemitérios, nas covas rasas, no indigente do
nosso povo morrido.
Ainda
encontramos na mídia as falas animadas das receitas (nem temos arroz direito, vale
macarrão a carreteiro?), as lives de música ou de falas, cansei de todas.
Cansei de tudo.
Respiro.
Ainda estou viva!









