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| fotografia Moacir Pimentel |
Moacir Pimentel
As ribeiras do rio Tâmisa são fascinantes. E a que
é chamada de South Bank é uma das áreas mais históricas de Londres. Ao longo do
seu famoso “River Walk” – o “Caminho do Rio” - da Ponte Lambeth até a Ponte da
Torre ela nos conecta com muitas das principais atrações do rio e da cidade.
No século XVII essa região ficava fora dos limites
da cidade e, portanto, era muito menos controlada. Assim, a indústria de
entretenimento para adultos nasceu e cresceu naquelas paragens: os bordéis, os
teatros, as lutas de galo e as arenas que sediavam os sangrentos mas populares
espetáculos com ursos e touros acorrentados a uma estaca enquanto eram atacados
por um bando de cachorros - geralmente buldogues ou mastins - que o distinto
público tanto apreciava e apostava.
Pode-se ver essas esquinas londrinas de “táxi
aquático” ou de uma balsa em viagens entre as suas docas, mas a melhor maneira de
conhecê-las é a pé. Com direito ao County Hall, o prédio que depois de ter sido
a sede do governo do condado de Londres, foi convertido no Aquário e em um
museu de arte. É por ali que moram também o BFI Southbank – o Instituto de
Cinema Britânico que narra a história do cinema e da televisão - e o Teatro
Nacional, o maior da cidade, com três auditórios.
Vale a pena dar uma olhada na Catedral de
Southwark, uma das igreja mais antigas de Londres, usada desde 852 como um
local de culto, e na réplica do Globe Theatre de Shakespeare, um teatro ao ar
livre exatamente como a gente viu no filme Shakespeare Apaixonado. Para não
falar do famoso navio HMS Belfast, parte do Museu Imperial de Guerra, e é
claro, da réplica do Golden Hind de Drake que está localizada perto da doca
de nome Santa Mary Overie, uma santa nativa que supostamente teria financiado a
construção da Catedral.
O Golden Hind – ou Corça Dourada – foi um galeão
português que circunavegou a Terra entre 1577 e 1580, capitaneado por Sir
Francis Drake. O navio fora batizado como O Pelicano mas , em plena viagem, Drake
decidiu mudar-lhe o nome por uma questão de marketing. Explico: o brasão
heráldico do patrocinador das suas aventuras, Sir Christopher Hatton, tinha uma
corça como tema (rsrs)
Em 1577, a rainha Elizabeth I também patrocinou
parcialmente essa expedição destinada a passar pela América do Sul através do
Estreito de Magalhães e a explorar as costas que se encontravam além. Dizem que
no porto, antes de navegar, Drake e a rainha se encontraram pela primeira vez e
que na ocasião ela disse-lhe: "Com
que alegria seremos vingados da ofensas que recebemos do rei da Espanha".
Ou seja, Drake tinha aprovação oficial para beneficiar a si mesmo e a rainha e
atuou como um corsário, com o apoio dela, para causar o máximo de dano aos
espanhóis, uma prática que culminaria na guerra anglo-espanhola.
Mas não pense que essa réplica colorida do galeão é
só para inglês ver. Nada disso. Ela foi o resultado de três anos de pesquisa
detalhada e construção, a mais tradicional e profissional possível, no
estaleiro de Appledore. Lançada ao mar em 1973, desde então e até ser ancorada
definitivamente na doca de St Mary a Corça já percorreu mais de duzentos e
vinte cinco mil quilômetros mares afora, tendo completado outra circunavegação
e muito mais.
No South Bank também encontramos alguns daqueles perigosos
locais para as “comprinhas”. Um deles é o badalado Gabriel’s Wharf – A Doca do
Gabriel - que é nada mais nada menos do que uma grande coleção de lojas e
estúdios pertencentes a artistas. As fachadas de cores vivas são todas antigas
garagens de barcos reformadas e um coreto ocupa o centro da pracinha rodeado
por mesas e cadeiras nas quais se pode tomar um ou dois cafés sossegado
enquanto se observa o mundo passar.
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| fotografias Moacir Pimentel |
O outro paraíso de consumo é a vizinha Torre OXO. O
prédio era originalmente uma estação de energia construída por volta de 1900, que
logo se tornou obsoleta e foi comprada pelos proprietários da marca OXO. Eles
queriam exibir um grande neon publicitário, mas a permissão foi negada. Então o
arquiteto teve uma idéia literalmente brilhante. E se ele projetasse janelas
especiais para os quatro lados do topo da torre? Que tal dois círculos um acima
do outro e uma janela gradeada por um grande em X no meio? Quem poderia se opor
a isso? Ninguém, e até hoje quando as luzes são ligadas a logomarca OXO brilha
para quem a olha dos dois lados do rio.
Na realidade tanto o Gabriel's Wharf quanto a Torre
OXO são vitórias do povo do bairro na guerra contra os empreendedores e
demolidores. Durante séculos, Southbank fora uma terra desolada, mas durante o
século XIX foi ocupada por moradias mal construídas e baratas destinadas a quem
chegava à capital, vindo do campo, atrás das oportunidades de trabalho geradas
pela Revolução Industrial.
Durante a guerra a Luftwaffe fez melhorias,
demolindo uma parte das feias construções evacuadas, só que o governo e os
empreiteiros passaram a substituí-las por prédios de escritórios menos atraentes
ainda. Então algo aconteceu: os moradores deram um basta. O que eles queriam
eram casas e lojas e o seu rio de volta. Então se organizaram e compraram a
terra e começaram a demolir os escritórios odiados, redesenhando o Passeio do
Tâmisa e ajardinando o rio.
Um dos pequenos parques é chamado Bernie Spain
Gardens, um dos membros da organização dos moradores que, não se dando por
satisfeitos, estabeleceram e aprovaram leis regulando as construções e
assumiram a Torre OXO abandonada que teve seus escritórios transformados em
lojas de design.
Last but not least é uma maravilha poder ver, no
inverno, as obras-primas dos museus sem ter que abrir caminho com os cotovelos
através de um bando de turistas! Aliás os museus londrinos também são lugares
perfeitos para se abrigar do frio. Neles sempre se pode tomar um café antes e
outro depois e os cafés são as únicas coisas pelas quais se paga porque visitar
e/ou ver os acervos permanentes de alguns dos melhores museus da cidade é
cortesia das casas. Quais?
Bem, que tal levar as crianças grandes e pequenas
para ver os esqueletos dos dinossauros do Museu de História Natural? Quem sabe
fazer par ou impar entre Museu da Ciência e o Marítimo Nacional, que escancara
a história naval da Grã-Bretanha, desde batalhas marítimas até as expedições
exploratórias?
É complicado decidir entre visitar o Museu Vitória
& Alberto para se perder nas galerias e retraçar a história da criatividade
na coleção dos monarcas através de pintura, mobiliário, escultura, fotografia e
jóias etc ou passar uma tarde no Museu de Londres que narra a história da
cidade desde os tempos pré-históricos. Como escolher entre ver as novidades da
Tate Moderna ou ir na Britânica, conhecer as coleções de telas de Turner, Gainsborough,
Whistler, Bacon e Hirst?
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| fotografia Moacir Pimentel |
Devo confessar que às vezes nem saio de Trafalgar
Square por causa da National Gallery bem ali me “dando mole” e onde até as
visitas guiadas e as exposições temporárias são grátis. A Galeria expõe mais de
duas mil obras da Idade Média ao século XX, entre as quais uma das Virgens das
Rochas e a Ginevra De’Benci de Leonardo da Vinci, a Festa de Belshazzar e
vários auto retratos de Rembrandt, outros tantos de van Gogh – além dos
Girassóis! – A Mulher com a Balança de Vermeer, as Vênus de Vélazquez e
Botticelli, o lindo Retrato de uma Dama de van der Weyden, duas Madonas de
Rafael, o Número 1 de Pollock, o Sepultamento do Cristo e a Madona Manchester
de Michelangelo, a Ceia de Emaús e o Rapaz Mordido por um Lagarto de
Caravaggio, a Sinfonia em Branco de Whistler, o Retrato Arnolfini de van Eyke,
os Embaixadores de Hans Holbein, e muito mais de Ticiano, Bellini, Canaletto,
Piero della Francesca, Picasso, Matisse, Degas, Renoir, e Monet!
E quando cansa? É só vestir o casaco, sair para respirar
e observar as gentes na praça... Às vezes até volto para o nosso hotelzinho a
cinco minutos a pé de Trafalgar, tomo um chuveiro , troco as meias e estou
novo! Meias suadas, no meu dicionário, são sinônimo de calos. Perigo!
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| fotografia Moacir Pimentel |
E almoço e bebo muito tinto sem medo de ser feliz
pois com o frio não “pega” nada... ou tanto (rsrs) Mas dá ânimo para esticar, a
pedido dela, no Museu da Infância, onde todos são criança de novo, por um dia,
entre brinquedos, jogos e bonecos confeccionados desde o século XVI até hoje
quando na verdade queria mesmo era dar um pulo rapidinho na British Library,
para olhar de novo os Cadernos de Leonardo. Fazer o quê?
Já perdi a conta de quantos europeus me disseram -
com uma piscadela d’olho! - que o problema não é o frio, mas as roupas e a companhia.
E é verdade. Ter o equipamento certo e quente e leve é essencial (rsrs) Na
verdade o clima na Inglaterra é terrível durante todo o ano, então, pelo menos
no inverno, o frio é sazonalmente apropriado. Por incrível que possa parecer -
mas como você pode constatar pelas fotos! - por mais frio que nos tenha
reservado, Londres já nos deu de presente de Natal alguns céus azuis de verão.
Por lá sempre terminamos encontrando uma “rua de
bolso” escondida em algum canto para desvendar, longe das correntes de ar e
recheada de pubs aconchegantes, onde se pode desabar em uma cadeira confortável
depois de mais um crepúsculo de arrepiar. Ou onde, em um dia particularmente
cinza com folhas e chuva caindo junto com a temperatura lá fora, um simples
café no meio da manhã se transforma em um trago e, em seguida, em um loooongo
almoço.
Caminhar no inverno tem as beleza e emoção próprias
das grandes paisagens britânicas em dezembro: os eventos musicais, corais e mercados
de Natal – como o da foto realizado na ribeira a poucos metros da Tate Modern -
com direito a barraquinhas de
madeira, artigos de artesanato, salsichões, doçaria, as famosas casinhas de pão de mel, biscoitos de
gengibre, e vinho quente - que a moçada não é de ferro e precisa se esquentar!
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| fotografia Moacir Pimentel |
Há algo especial, prazeroso mesmo, no desconforto
das roupas lutando contra o frio, na novidade, no desafio, na maior necessidade
de calor humano das aventuras invernais(rsrs) São os obstáculos e os percalços
que fazem as melhores viagens e as mais memoráveis histórias.
Continuaremos a caminhada na próxima...