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07/08/2020

A namorada


Fotografia de Vlada Prihoda

Heraldo Palmeira
Os tempos ficaram nervosos. Todos deviam ficar recolhidos, era preciso escapar do invisível que pairava por toda parte. A manhã de início de outono seguia modorrenta.
O gato estava esparramado no sofá em sua eterna terapia do sono. De repente, mexeu as orelhas naquele movimento de direcionar a audição a algum ponto para aumentar a acuidade sensorial. Levantou de um pulo e saiu numa tremenda correria em busca da janela da rua.
Fez o trajeto que a preguiça sempre obrigava recusar. Partiu do parapeito da janela do andar do meio, desceu pelos galhos dos arbustos até a calçada e atravessou a rua. Sem miar, como de costume, para que lhe abrissem o portão do andar de baixo – era folgado! Estava em festa.
A casa da frente recebia hóspedes. Há cerca de um ano, uma moça deixara o local para morar em outra cidade. Levara embora a gata de pelo branco com manchas pretas. E aquele gato ficara triste de um tanto de não disfarçar. Agora a moça voltara, para morar novamente, e trouxe sua companheira a tiracolo.
O casal fez o ritual de reconhecimento ali mesmo à beira da calçada, enquanto a moça descarregava o porta-malas do carro. E partiu rápido, escalando muro e árvore frondosa, para o local do telhado onde costumava passar boa parte do dia. Fui espectador privilegiado daquela cena lá do outro lado, sentado diante da minha janela do piso superior.
Fiquei vendo aqueles dois. Tinham sorte, não precisavam de quarentena, de distanciamento social. Também estavam livres da liturgia de máscaras, água e sabão, álcool em gel. Podiam ir onde bem entendessem, sem qualquer restrição. Não havia nenhum novo conjunto de normas e comportamentos estabelecido para felinos.
Melhor de tudo, não estavam obrigados a tomar partido. E nem participar de discussões placebas sobre sexo dos anjos e flexibilidade dos cachimbos de barro, como faziam os humanos sobre todas aquelas drogas terminadas em “ina”, fechar, flexibilizar, salvar economia... Muito menos, ouvir a ladainha da politicagem mais rasteira ou preocupar-se com os incompetentes públicos e as roubalheiras que assaltavam o noticiário cotidiano.
A única preocupação mais evidente continuava sendo os cachorros da vizinhança, incapazes de alcançá-los nas alturas daqueles telhados fartos em cumeeiras e duas águas à sombra do arvoredo da rua.
Ele passou a lambê-la inteira, naquele ritual de limpeza dos gatos. Depois foi a vez dela fazer o mesmo com ele. Era como se estivessem apagando todas as coisas daquele tempo que passaram separados, as inutilidades que deveriam ser esquecidas.
Bastou um pouco tempo e já estavam novamente namorados, cochilando apoiados um no outro, o vento passando suavemente ao longo dos pelos.
A namorada que está na minha vida
Juíza, minha brisa, minha ventania
Tormenta que se recolhe em calmaria
Quando encontra a costa do meu porto
Quando encosta no cais do meu corpo
Com o passo no compasso do meu
Enchendo de fé o meu coração ateu
Chega mansa como a preguiça
Que acorda no último sono
Como uma saudade sussurrada
Do que nunca foi embora
A mágica que enfeitiça
Como o sal que tempera meu mar
O tempo que valeu esperar
Pelo tempo que é meu e seu
Quem ama e insiste
Sabe dos riscos de quem desiste
Quem é chama e resiste
Sente o calor do fogo que existe
Onde nada parecia ter
Tudo que haveria de ser
Talvez ele já tivesse contado a ela que no tempo da ausência nunca deixou de ir àquele telhado. Todos os dias. Ritual. Manteve o território marcado de quem não desistiu, a certeza de que tudo voltaria ao normal.
Não havia entre eles nenhuma ansiedade por um “novo normal”, isso era coisa de humanos perdidos diante de uma situação nova. Ah!, os humanos, que dizem ouvir estrelas, que fantasiaram que bicho tem de ir a psicólogo e inventaram psicólogo de bicho. Coisa doida de gente maluca!
O gato deu uma última olhada sobre o telhado até mirar a rua adiante. Correndo os olhos pelo que enxergava, sequer parou numa placa afixada dentro de um boteco de esquina que havia na primeira esquina da sua mirada: “Em uma sociedade que lucra com a sua dúvida, gostar de si mesmo é um ato rebelde”. (*)
Os gatos dão-se ao luxo de ignorar a indústria do medo, da manipulação. E as negociatas à média luz a partir delas. Afinal, uma briga de gatos jamais será silenciosa. É sempre travada sob gritos, rosnados, quase falas. Até o sexo deles é escandaloso, para não deixar dúvidas do que está havendo. Nada parece à venda com eles.
Na sociedade dos gatos não sobrevivem indivíduos inseguros e nem existe século de almas adoecidas, como já inventaram para explicar a fragilidade humana atual. Não conheço gatos insatisfeitos, deprimidos, superprotetores ou vitimizados.
Os gatinhos têm ao redor de noventa dias depois que nascem para caçar rumo na vida e viver do próprio suor. Espertos, respeitam os ancestrais que desenvolveram a preguiça congênita da espécie. E vivem nela deliciosamente. Nada de grandes esforços, nada de suar o pelo. Não é à toa o ditado “malandro é o gato!”. Talvez, por isso, nenhum idiota resolveu escrever livros de autoajuda para gatos – não existem gatos idiotas. E provavelmente nunca aparecerão coaches para ensinar-lhes o pulo do gato que fingem conhecer.
Ah, os gatos! Não são superficiais, exacerbam na autoestima, desprezam os humanos – apenas usufruem da imaturidade e fragilidade emocional de “papais” e “mamães”, e ainda metem a unha quando cansam de suas frivolidades e vozes infantilizadas.
Gatos não vivem de aparências. Beleza forçada em academias? São os inventores da preguiça. Procedimentos estéticos? Nada como uma boa lambida no pelo e pronto. Consumismo? Não fazem a menor diferença diante de tantas rações cheias de fricotes de araque – comem para sobreviver, inclusive coisas nojentas que não raro substituem aquele “caviar químico” colocado nos pratinhos.
Os tempos andavam esquisitos, mas ainda parecia razoável crer que gatos não sabem o que é ler e escrever, não têm qualquer interesse por frases de efeito em botecos de esquina.
Eu não tinha qualquer dúvida de que ele estava certo e seguro de si mesmo, como é comum aos gatos. É, eles exacerbam na autoestima!
Os dias passaram modorrentos, cercados de medos e falácias. Era tudo que os humanos conseguiam fazer diante daquela falta de chão que havia se instalado sob o modelo de pandemia.
Pensei na gata e no equilíbrio que ela trouxe para a vida do gato. Acho até que ele ria das fragilidades e confusões dos humanos da casa. Tinha teto, comida e água limpa e bastava atravessar a rua para ser feliz. Não havia odisseia, tudo simples. Era o segredo que ele gentilmente dividia comigo, generoso em mostrar sabedoria sem qualquer arrogância e sem cobrar nada.
Na verdade, ele só queria mesmo estar com a namorada. Apenas isso importava.
Na Lua Nova
Irei visitá-la
Nada terei de provar
Irei para vê-la
E cumprir ordem de meu coração
Dê-me vinho
E seus melhores encantos
Mas não esqueça:
Não quero ser imortal
Olhei a felicidade daqueles gatos; senti inveja. E não era inveja branca e nem inveja boa. Senti inveja verdadeira por não poder resolver as coisas com aquela evidente simplicidade que me afrontava diante da minha janela.
Não sabia onde foi parar a minha superioridade humana, que supostamente serviria para menosprezar aqueles bichos metidos a cavalos do cão. Azar o meu, nem pedra aprendi a atirar quando criança e não teria nenhuma à mão naquele ambiente urbano.
Nem quis começar uma reza, não estava com a fé em dia para aqueles dias tão ateus. Não haveria bênção suficiente para um desacerto daquele, que cristão nenhum suporta muito tempo.
Talvez fosse melhor apenas acreditar nos amores, que logo trazem um sopro de renovação, espantam o sopor e a tudo enternecem.
Agora vamos ter os girassóis
Do fim do ano
E o calor vem desumano
Tudo irá se expandir
Crescer com as águas
Quiçá, amores nos corações
E um santeiro
Milagreiro
Prevê a dor
De terceiros
E diz que a vida
É feita de ilusão
Aquela que um dia o fez sonhar
Se foi
Hoje o seu pesar
Cintila nos varais
Usou as sete vidas
E não foi feliz jamais
Toda a imensidão
Passou pela vida
E foi cair na solidão
Mais um santo pra esculpir
É o que lhe vale
Pra evitar que o rancor
Suas ervas espalhe
Acordei com o gato miando baixinho debaixo da janela, como costumava fazer. Ele veio pelas trilhas dos telhados e arvoredo. De mim, queria apenas que eu abrisse as passagens para seus luxos na casa. E logo voltaria para o seu amor renovado. Jamais me convidaria para dividir a ração servida no andar de baixo pelos humanos. Muito menos para usufruir daquele telhado do outro lado da rua. Afinal, eu já tinha mais de noventa dias de vida.

(*) Citação de Caroline Caldwell
Trechos de:
A namorada (Heraldo Palmeira)
Circe (Horácio Paiva)
Milagreiro (Djavan)




26/07/2020

Releituras



Wilson Baptista Junior
Outro dia comecei a reler o “À la recherche du temps perdu”, de Proust. Reler é um modo de dizer – há bem uns quarenta anos tinha lido a primeira parte, “Du coté de chez Swann”, numa edição em português publicada, em volumes separados, não me lembro mais por qual editora. Na época, era uma edição cara, e necessidades mais prosaicas, se bem que não menos importantes, me obrigaram a não continuar comprando a obra além desse primeiro volume.
Agora, graças à maravilha do Kindle, comprei a preço de quase nada a edição inteira no original francês. E, tanto tempo depois e pela leitura do escrito original (sem desfazer em nada do trabalho do tradutor da outra edição), embora ainda esteja na mesma primeira parte é como se estivesse lendo um livro novo para mim.
(Escrever isso me fez lembrar uma história contada sobre Mark Twain, quem, sendo apresentado numa festa a um cavalheiro inglês, ficou espantado ao ouvi-lo dizer “Eu pagaria de bom grado cem dólares para não ter lido o seu livro As Aventuras de Huckleberry Finn...” – e já estava fechando a cara quando o inglês completou – “Só para poder ter o prazer de lê-lo de novo pela primeira vez!”... Mesmo sabendo, hoje, como é bom ir descobrindo coisas novas a cada vez que, com alguns anos de intervalo, se torna a ler um bom livro, sempre achei que esse é um elogio que qualquer escritor gostaria de receber).
Mas não é do livro que quero falar – porque ainda falta muito para chegar ao final e nessa altura seria presunção demais de minha parte resenhar ou fazer crítica da obra prima do Proust – é de alguma coisa que a leitura provocou em mim.
Logo nas primeiras páginas, o narrador descreve o que acontece com ele ao acordar, tendo adormecido enquanto lia algum livro (e eu rarissimamente consigo dormir sem estar lendo alguma coisa, e em geral muito tarde) – acorda sem perceber que tinha dormido, imaginando confusamente que precisava apagar a lâmpada de cabeceira e dormir, mas enquanto dormia seu cérebro tinha continuado a elaborar aquilo que tinha lido, e durante alguns segundos ainda pensava que estava vivendo aquilo de que o livro falava, até que pouco a pouco o peso se levantava de suas pálpebras e percebia que a lâmpada estava apagada; então percebia a escuridão à sua volta e acendia um fósforo para olhar o relógio, descobrir que ainda não era a hora de acordar e adormecer de novo.
Diz ele: ”Um homem que dorme mantém em volta de si o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos. Instintivamente os consulta ao acordar, e neles lê, num segundo, o ponto da terra que ocupa, o tempo que se passou até seu despertar; mas suas fileiras podem se misturar, se romper.” E, de fato, quando adormecia numa hora inusitada, num lugar diferente, ao acordar podia se perceber, por instantes, em outro tempo e em outro lugar.
Esse começo já me falou de perto, durante muitos anos da minha vida meu trabalho me levou a viajar muito e muito frequentemente. Acordando a cada vez num novo quarto e uma nova cama num lugar diferente, às vezes conhecido, às vezes desconhecido, e tantas vezes me senti como o autor nessas palavras, rompido por instantes o fio do tempo e de quem eu era e do meu lugar no mundo, o espírito ainda perdido num sonho qualquer, a mão procurando a lâmpada que não sabia bem onde estava, até que o mundo entrava pela janela trazido pela luz do sol e meu espírito voltava ao meu corpo e o fazia lembrar de quem eu devia ser, do que eu tinha ido fazer e em que língua devia falar.
Não há como resumir, explicar ou recontar página alguma desse livro, é preciso se perder dentro dos seus longuíssimos parágrafos (porque o escritor era singularmente avaro no gasto dos seus pontos finais) deixar que suas palavras nos levem de volta à ingenuidade de nossa infância sem perdermos nossos olhos de adultos (conjunção difícil, bem sei) enquanto vamos vivendo junto com o narrador as vidas dos personagens que nos circundam.
Lembranças de criança vivendo em casa de avó, na cidadezinha de Combray – também tive as minhas, fui criado na casa de meus pais onde viviam conosco a avó e tia avó paternas, se bem que essa muito diferente da do livro, e passava pequenas férias na casa dos avós e tias maternas – e quando se fala de lembrança muita gente mesmo sem ter lido o livro já ouviu falar da “madeleine” do Proust – aquele maravilhoso biscoitinho de limão em forma de concha de vieira, que um dia, em Paris,  a mãe do narrador lhe oferece, passados muitos anos de sua infância, junto com uma chávena de chá, e ao molhar o biscoitinho no chá e sentir seu sabor na língua ele se transfigura – em suas palavras: “um prazer delicioso me invadiu, me isolou, sem que tivesse noção do porquê. Esse prazer num instante me tornou as vicissitudes da vida indiferentes, seus desastres inofensivos, sua brevidade ilusória, do mesmo modo que faz o amor, me preenchendo de uma essência preciosa: ou, mais ainda, essa essência não estava em mim, ela era eu próprio”. E o narrador tenta descobrir o que era esse sentimento, e termina por sentir que a verdade que procurava não estava no gosto da madeleine, mas nele próprio. E depois de uma longa introspecção, de repente a claridade se faz e ele percebe que aquele era o gosto do bocadinho de madeleine que uma tia sua costumava lhe oferecer, molhado na infusão de tílias que gostava de tomar, aos domingos de manhã, na casa de Combray. E aí lhe volta uma profusão de lembranças que julgava esquecidas.
Quem de nós não teve algum dia a sua ou as suas madeleines? Uma das minhas foi o gosto de um pudim de leite condensado denso e dourado como o da minha mãe, que me levou de volta à mesa de almoço da casa onde nasci, e aos rostos de meus pais do outro lado da mesa que meus olhos de criança julgavam que estariam sempre lá, e fez ficarem úmidos os olhos do adulto; outra, há muitos anos, viajando de carro com a Ana ao meu lado e Pedro e Maneco, ainda pequenos, no banco de trás, foi uma golada d’água morna de um antigo cantil meu de alumínio coberto de feltro, aquele gosto de cantil que só conhece quem já carregou um debaixo do sol, e que me jogou de volta aos tempos de estudante, tendo na frente dos olhos o mar de nuvens iluminado pelo céu azul e batido pelo vento forte do alto dos dezoito quilômetros de subida a pé, mochila e barraca nas costas, de Caparaó Velho até o Pico da Bandeira, e à frente da alma toda a maravilha de uma vida que ainda estava por vir.
Há muita coisa nova para se ler, e cada vez me sobra menos tempo pela frente, mas de vez em quando é muito bom fazer uma pausa e voltar a esses grandes livros. Se eles ainda nos agradam tanto é porque quem os escreveu soube dizer coisas que continuam a tocar nossas almas através do tempo. 

13/07/2020

Conversando com o Espírito do Senhor Buddha

A Colina do Buddha, monumento em Sapporo (fotografia de Appie Verschoor - Wikimedia Commons) 


Antonio Carlos Rocha
- Salve Mestre Buddha, como vai o Senhor?
- Bom dia amigo, vou indo, orando e enviando boas vibrações para este conturbado Planeta Terra.
- É verdade, é um belo mundo, mas a espécie humana tem muita gente que adora guerras, desequilíbrios na Ecologia, ganância pelos lucros...
- Pois é, agora temos aí o Covid dando dor de cabeça a todos nós. Vocês encarnados preocupados, nós Espíritos de Luz tentando ajudar, mas nem sempre é fácil.
- Digamos Elevado Espírito de Luz !
- É mas eu evito esses elogios, mesmo aqui onde estamos, precisamos estar atentos às vaidades, os apegos.
- Quando nós praticantes, fazemos os louvores, cânticos o Senhor não fica enobrecido?
- Em primeiro lugar vemos que os louvores, os cânticos e os rituais são em homenagens aos Estados de Buda presentes em todos seres vivos. Só depois para os demais Budas, que são milhares, como diz o Sutra Lótus, então não levamos para o lado das vaidades.
- Já que o Senhor falou em Sutra Lótus pode nos brindar com uma estrofe?
- Sim, vamos abrir o texto ao acaso e vamos ver qual a mensagem para o momento: “Não te preocupes, ó Bhagavant / nós, quando Tu estiveres extinto, / numa terrível época posterior / pregaremos este excelso Sutra”.
- Obrigado, parece que foi escolhido a dedo !
- Sim, como falei acima, todos nós, vocês seres visíveis e nós seres invisíveis para a maioria da humanidade, estamos atravessando “uma época terrível” em função da Covid-19.
- De fato, nós discípulos divulgaremos sempre estes ensinamentos.
- Agora eu tenho  que ir, até a próxima amigo.
- Até breve Senhor Buddha e gratidão por tudo.
- Bênçãos para vocês!

Explicando:
1) Bhagavant quer dizer Bem – Aventurado.
2) “Extinto” termo usado para identificar uma pessoa falecida e que eliminou, quando em vida, todas as negatividades.
3) Sutra = sermão, texto sagrado, obra canônica.
4) Infelizmente, no Brasil, não existe este Sutra editado. Há edições em diversas línguas.
5) Contudo, em português, há um volume que foi publicado nos EUA, 624 páginas e só encomendando por correio.


08/07/2020

Estranhos hábitos

Don Quijote y Sancho Panza - Pablo Picasso


Ana Nunes

Esse momento triste e doloroso e desesperançado é certamente tempo de muita pesquisa. Pesquisa do desenvolvimento do vírus, pesquisa de genes, porque uns pegam e outros não estando juntos e se cuidando ou separados se isolando, estudo de vacinas, experimento com remédios. Realmente um tempo de estudo.

E eu aqui, no meu isolamento de dois, estudando e pesquisando outras coisas bem menos importantes mas tão curiosas quanto. Nas minhas conversas por telefone, e-mail, zaps e até mesmo através de máscaras, que por sinal, estranho hábito, tenho de bolinhas, florzinhas, listradas, vermelhas, pretas ou brancas, e até de gatinhos estampado (marca fashion). Ganhei da costureira, das irmãs, do nosso sofisticado padeiro de estimação, gourmet de carteirinha e profissão, comprei e descomprei. Umas me sufocam, outras embaçam meus óculos, já nem estou usando, outras dolorem minhas orelhas tão úteis até na pandemia, outras ainda nem estreei. Posso até combinar com a roupa do dia mas não gosto de conjuntinhos. Só com juntinhos em noites frias.

Voltando ao ponto, que é muito fácil perder-se no caminho das letras e do pensamento, comecei a descobrir hábitos muito estranhos ao dia a dia de muito, muito tempo atrás, antes da pandemia. “Por exemplo coisinha”, uma amiga me contou estar desenvolvendo chulé apesar de todo o cuidado, higiênico e profilático, de desodorantes e cremes, água e sabão. Ela pensa ser por causa do sapato macio e confortável, desses parecendo meinha, que usa sem trégua desde o primeiro dia do isolamento. Dia após dia.
Ela acha... Coitada, o tal atacou a esperteza também.

 Um grupo de engenheiros, colegas de profissão da minha irmã, substituíram o encontro mensal regado a bons vinhos e fino papo pelo encontro virtual. E, lógico, vinho mantido. E confessaram terem abandonado as cuecas. Tiraram até aquele forro furadinho dos calções e bermudas. Vivem agora com o famoso bicho solto. O perigo mora ao lado...
Perguntei ao meu filho se não estava precisando do par de tênis que deixou aqui. E ele me contou que não usa mais sapatos! E mostrou os pés grandões, felizes e esparramados e descalçados. Livres! Depois da pandemia acho que vai calçar 46.

Mulheres aderem ao novo estilo zebra na cabeça criando lista de cabelo branco.
Outras, e me enquadro no grupo, voltaram ao tempo de Beth Friedman e aboliram os sutiãs, essa peça incômoda do nosso vestuário, que ao mesmo tempo protege, insinua e sufoca nossos corpos cansados de guerra. Mas não os queimamos. Estão guardados para época mais feliz e social. Fico pensando o que será de nós com a gravidade agindo sem saber nada de vírus e isolamento. Se os homens estão com o bicho solto estão as mulheres de maminhas ao léu, como dizem os portugas.
Tirando esse hábito comum mas nem por isso menos estranho, de lavar laranjas, abacate e bananas, caixa de aveia e pacote de café, vamos gastando nossas mãos nesse tal de alcongel. Cutícula ressecada e dedos agarradiços.

Agora largo a letra escrita e volto à letra lida. Estou num bom vício com o Dom Quixote e seu escudeiro Sancho. Curiosa com o livro desde os sete anos quando via minha mãe, barriguda do meu irmão, se sacudindo na cama de tanto rir do Cervantes. Bem mais tarde ganhei do Mano uma edição maravilhosamente ilustrada com magníficos desenhos a carvão que venho em vão tentando acabar de ler. Foram já umas três ou quatro tentativas ao longo de uns vinte anos. Agora, vício adquirido na pandemia, vai. Se eu não acabar com o livro, o livro vai acabar comigo!

As crianças, bem, são crianças! Banho dia sim dia não. E os cabelos... nem pensar. Nem sabão nem água nem tesoura. Crianças bem fedidas!
Outras, as menores de quatro ou cinco anos, já falam em não voltar para a escola.
Que estão gostando muito de ficar em casa, mesmo as sempre bem acarinhadas pelos pais.
Concordo com elas!

E assim vou pelo tempo triste em que vivemos. Mas devo confessar que outro dia lati para o cachorro do vizinho, o Edgard. O cachorro, não o vizinho. Também, ele late para mim toda vez que me vê! Queria o quê? Também faço psiu para os gatos, prisioneiros de apartamento, quando vão para a janela tomar um sol. São lindos, lindos. Tem gatinho malhado, preto de olhos verdes e até um cor de rosa.
Ah, tem os gêmeos do apartamento em frente. Mostro para eles um Macaco Juca vermelho e mole e outro que toca “Celebration” e bate os pés. Já me chamam de Vovó dos macacos. As crianças, não os macacos.
Minha amiga Ana já me ofereceu o marido psiquiatra.
E os cabelos continuam a crescer e a crescer...

Tempo de estranhos hábitos.


02/07/2020

Os livros da quarentena

Fotografia de Alexandre Mota - jornal O Tempo



Wilson Baptista Junior
Já devo ter dito aqui que gosto muito de ler.
Meus pais contavam que antes de completar cinco anos eu os surpreendi lendo alto algumas palavras das manchetes do jornal que papai tinha deixado sobre a mesa do café. Não me lembro. Só sei que de lá para cá não parei mais.
Material não faltava. As estantes de papai e mamãe. As estantes do escritório do meu avô materno, a pequena mas escolhida biblioteca do Pandiá Calógeras, o grupo escolar (assim se chamava naquele tempo) onde estudei.
E, começando aí, a estante da nossa pequena biblioteca que fomos montando, eu e meus irmãos, com os livros que ganhávamos, na varanda de cima, envidraçada, da nossa casa. Livrinhos encapados e com ficha onde se registravam os empréstimos e o intercâmbio com a biblioteca de um colega do grupo, o Breno Milton, amigo da vida inteira. Com predominância de Júlio Verne e Edgar Rice Burroughs...
Ao entrar no ginasial, fui apresentado por esse mesmo amigo à biblioteca Thomas Jefferson do ICBEU, ficava no segundo andar de um prédio antigo na esquina em frente do Cine Metrópole, hoje nem ela nem o belo cinema estão mais lá, o cinema, que foi antes o Teatro Municipal de Belo Horizonte, criminosamente derrubado e substituído pelo edifício de um banco.
Essa biblioteca (ainda existe, noutro local, moderna, mas desconheço essa sua nova encarnação) era uma cornucópia de livros e revistas desde  os de iniciação ao idioma inglês até romances e livros de muitos tipos de grande qualidade.
Por essa época me tornei frequentador das livrarias do entorno, o “corredor cultural” de minha cidade naquele tempo, a Itatiaia, a Oliveira Costa, a Oscar Nicolai, e mais tarde, quando o bolso começou a permitir, a livraria do senhor Van Damme, oásis de livros importados onde a cortesia e o vasto conhecimento do proprietário eram um perigo constante para o orçamento dos visitantes. E, de vez em quando, os sebos e seus tesouros escondidos. Um amigo meu, o Henderson, aquele da moeda romana de que falei no post “O Legionário desgostoso”, irmão de dois colegas da Escola de Engenharia e companheiros de caminhadas e montanhas, tinha no quintal da casa da família um barracão completamente cheio de livros garimpados em sebos. Alguns vieram para se juntar aos meus, livros antigos de esgrima, preciosidades na época fora de catálogo.
Na Escola, a biblioteca no velho prédio da Praça da Estação, de que já escrevi alguma coisa aqui, onde o acervo ia muito além dos livros técnicos. Devo ter passado quase tanto tempo nela quanto nas salas de aula.
Quando nos casamos e viemos morar aqui achei que o espaço do apartamento era amplo. Quase cinquenta anos depois, abençoado ao longo de todo esse tempo com uma mulher que também gosta de ler e é artista já não há aqui, literalmente, lugar para mais nenhum livro. Para não falar nos que vão e vêm de nossos filhos. Todos eles lidos por pelo menos uma vez, muitos por mais vezes.
Faz muito tempo que praticamente parei de comprar livros. Porque realmente não temos onde colocar mais. Fora as vezes em que doamos caixas e caixas para a biblioteca da Igreja do Carmo, e os muitos que foram ficando nas mãos de amigos (diga-se, a bem da verdade, que muitos foram e ficaram por lá, mas alguns vieram e ficaram por aqui também). E como desde garoto nunca consegui dormir sem ler (tempos houve em que lia em um ou dos dias um livro inteiro antes de dormir) muitas noites parava na frente das estantes procurando alguma coisa para ler de novo. Mas as estantes do meu escritório têm camadas de livros, então encontrar os desejados muitas vezes é um trabalho de arqueologia. Por exemplo, estamos seguindo agora uma série de televisão chamada “O Homem do Castelo Alto”, baseada no livro homônimo de Philip K. Dick, um dos grandes da ficção científica (entre muitas outras coisas, escreveu a história em que Ridley Scott se baseou para filmar “Blade Runner”). E como a história foi muito modificada para encompridar a série, estou querendo reler o livro original que li lá vão quase cinquenta anos. Pode ser até que esteja na estante às minhas costas. Mas talvez demore mais e dê mais trabalho encontrá-lo por aqui do que encomendar outro na Amazon. Só que quero a edição em português, porque não serei só eu quem vai ler, e já sei que a que está à venda não é mais a boa tradução que li de Sylvia Escorel. Posso estar sendo injusto com o novo tradutor, mas tenho, com alguma razão, bastante medo dessas traduções mais novas, principalmente das que são feitas quando as obras viram filmes e voltam à moda. Então, o jeito é procurar mais fundo. E, se não encontrar, recorrer, quem sabe, à Estante Virtual, aquele maravilhoso agrupamento de sebos Brasil afora.
No meu aniversário do ano passado, ganhei um Kindle, presente muito apreciado de uma das irmãs da Ana, e com isso o livro digital, até então incômodo de ler no computador ou no iPad, transformou-se de repente numa coisa prática, portátil. Que nos deixa levar uma biblioteca inteira no bolso e escolher o que ler a qualquer tempo em que tenhamos que esperar alguma coisa. E, last but not least, a mágica de ver chegar às nossas mãos o livro escolhido segundos depois de decidida a compra.
Comecei então a buscar as velhas obras amigas que andavam só pela memória, impedidas de morar nas estantes, a recompor meus Júlio Verne, Conan Doyle, Dumas pai e Dumas filho da adolescência, e a completar tanta coisa boa de tanta gente de que eu só conhecia um pouco, porque descobri que nesse formato se encontram maravilhosas coleções dos grandes autores a preços incrivelmente baixos. E, para mal dos meus pecados, visitei um site chamado “The Fussy Librarian”, onde você conta de que tipo de livros gosta e ele te oferece, todo dia, um punhado de livros digitais de graça ou a pouco mais do que isso, junto de outros a preços normais. É feito para popularizar autores novos, mas no meio deles vem muita coisa interessante. E agora, por mais que escolha com cuidado, tenho muitas centenas de livros que ainda não li, coisa que nunca me aconteceu antes na vida. Levo no bolso livros que provavelmente nunca conseguirei ter tempo de ler. Um pensamento que me faz cair na real sobre os dias, meses ou anos que me restam...
Mas toda essa cantilena aí para trás foi para dizer mais uma vez que gosto muito de ler. E que o livro, para mim, é uma coisa viva, algo que guarda nas suas páginas um pouco da alma do autor. E por isso fiquei horrorizado quando, outro dia mesmo, passando com a Ana de carro numa esquina perto cá de casa, vimos pilhas de livros queimados no passeio onde um conhecido meu de longa data, de quem falei aqui não faz tanto tempo, tinha sua livraria de rua.
Sim, o senhor Odilon, aquele do meu post “O nosso bouquinista”, foi vítima de um criminoso que, na calada da noite, sabe se lá por que, ateou fogo aos quase cinco mil livros que ele mantinha e vendia com carinho debaixo da marquise de uma grande papelaria.
O que teria impulsionado alguém a fazer uma coisa dessas, tão sem sentido? Ninguém sabe ainda. As câmaras de segurança da papelaria registraram a maldade, mas ainda não se conseguiu identificar o culpado.
A notícia do acontecido chocou muita gente. Mas, graças a Deus, gente boa como o Odilon tem amigos. Que imediatamente espalharam a revolta com a notícia nas redes sociais, pedindo ajuda. A televisão e os jornais noticiaram. E, três dias depois, os cinco mil livros perdidos se haviam transformado em mais de dez mil livros ganhos. Entregues na sua mão por centenas de pessoas. Algumas das quais, talvez, não tivessem sido seus clientes. Mas que certamente quando passarem por ali nos dias que virão pararão, olharão as pilhas de livros, e talvez levem alguns para casa.
Foi triste, sim, ver o crime, mas fez muito bem à alma ver a reação das pessoas. Coisas assim alimentam a nossa esperança de dias melhores.

Se alguém se interessar e quiser ler o post original que escrevi sobre o senhor Odilon, está aqui:
Quem não tiver lido e quiser ler o post “O Legionário desgostoso”, de que falei lá atrás, está aqui:
E a reportagem do jornal “O Tempo”, de onde tomei a liberdade de pegar a fotografia que abre o post, porque devido ao nosso isolamento não pude voltar lá para fotografar, está aqui:

26/06/2020

Notícias de Boam

Mestre Yokanaam (fotografia www.fraternidadeecletica.org.br)


Antonio Rocha
Nos anos 1950 meu pai leu um artigo do Mestre Yokanaam, da Fundação Fraternidade Eclética Espiritualista. Este grupo, depois conseguiu um pedaço de Terra, no governo Juscelino e se mudou para lá, se bem que em algumas cidades ainda existem representações. Fica perto de Alexânia, em Goiás, na Estrada Brasília – Anápolis.
Diziam que Mestre Yokanaam era um oficial reformado da Aeronáutica, vivia em uma pequena barraca na entrada da Cidade Eclética, como se chamava o local. Parece que ele era radiotelegrafista e tinha também uma pequena estação de transmissão de Rádio Amador.
Os visitantes ficavam só na principal rua da localidade, mais adiante tinha uma cerca que separava onde moravam os moradores e estranhos não podiam ir lá.
Mestre Yokanam vestia-se como um profeta bíblico, cabelos e barbas ao pescoço, um cajado que o ajudava nas caminhadas e aquelas roupas compridas parecendo mantos testamentários.
A Fraternidade editava mensalmente um jornal chamado O Nosso e muitas vezes, com alegria, escrevi artigos budistas nele. Havia uma banca de jornal na Rua Sete de Setembro, aqui no Rio de Janeiro que vendia a publicação.
Pois bem, conta o meu pai que este artigo que ele leu por volta de 1950 falava do Planeta Boam, um astro sideral imenso que iria aproximar-se da Terra e iria levar as almas dos terráqueos para lá. Já falei algo parecido aqui no Blog do Mano, citando a obra psicografada de Ramatis. Yokanaam pensava parecido e assim, não sabemos como, ele resolveu batizar o tal astro celeste com o nome Boam.
Meu pai adotou a terminologia para consumo familiar e também nas pregações que fazia em pequenos centros espíritas e espiritualistas por onde andava no DF, anos 1960.
Segundo ele, quem não ficasse semelhante aos postulados do Cristo e de outros mestres da humanidade, iria povoar Boam, que estava e está ainda na Idade das Cavernas. As almas exiladas que forem para lá, irão através de um processo de atração energética espiritual.
Haja fantasia, mas isto povoou o nosso imaginário juvenil. Sempre que as mídias anunciavam a proximidade de algum corpo celeste nós brincávamos sobre a chegada do Redentor Boam, que não vai punir ninguém, apenas, ajudar na evolução espiritual, cedendo espaço para os Espíritos se reencarnarem por lá.
Verdade ou não, mitologias ou não, eu fiquei acreditando em Boam e outro dia vi que minha irmã mais nova também aceitava. Ela me falava da impaciência de ficarmos em quarentena tanto tempo. Respondi brincando que estávamos fazendo estágio para “desembarcar/renascer/reencarnar” em Boam.
E ela me disse que não queria ir para Boam, sorri e fiquei pensando, para onde iremos após esta vida? Cada um deve ter as suas expectativas. Esperanças que serão confirmadas mais adiante.
O grande enigma, uma grande incógnita.
Meu pai, adepto destas teorias, dizia que iria para Boam, ser uma espécie de professor por lá, ainda em tempos da Pedra Polida, um colaborador da Evolução, digamos... um Facilitador para usarmos um termo mais atual,
Fantasia ou não, minhas “antenas” rádio-amadorísticas já entraram em contato com os sinais vindos de Boam e posso lhes garantir que nos próximos artigos teremos novidades.
E se tudo for “Fake”, ora meus amigos, com ficção a Vida vai melhor, tipo um bom livro.
Até lá!


21/06/2020

Um encontro delicado

aquarela Ana Nunes


Ana Nunes
Um consultório de endocrinologia onde velhinhos em formação e outros já formados vão em busca de consolo para essas glândulas maravilhosas que equilibram nossos corpos e que também ficam cansadas e começam a titubear. Faz tempo já e faz tempo que quero contar sobre esse caso e temo não conseguir descrever a delicadeza do encontro. A delícia calma e doce que deixou em mim.
Primeiro chegou um casal de idade, ele bem mais velho nos seus noventa, pequeno, magrinho e simpático com suas mãos expressivamente calombudas, com bolotas nas juntas já tão usadas. Mas nem por isso menos ágeis ou conformadas na velhice. Conversava às vezes com a mulher ou ficava quietinho olhando com olhos espertos de uma mente inteira seus companheiros no caminho. A mulher nos seus setenta era a paciente. Ele era apenas o acompanhante.
Algum tempo depois chegou uma jovem mulher nos seus quarenta, generosa de formas e de sorriso, bonita na sua lourice discreta. Depois da secretária, cartão de convênio e essas coisas comuns de consultório, sentou-se ao lado do velho miúdo e quieto. Passado o tempo da observação, sem mais delongas e milongas, ela pegou carinhosamente na mão dele, com uma amizade como se de longa data, um avôzinho ou um tio querido. E sem cerimônia, como acontece entre as grandes almas, examinou as deformações e disse padecer do mesmo mal, ainda no começo. E ele, amigo de infância, deixou-se ser examinado. E começaram a falar de coisas mútuas sem lamentos ou lamúrias, trocando impressões e experiências. Talvez falassem também das dores e dos remédios mas não sei dizer. Esqueci de escutar tão envolvida naquela imagem delicada. Parecia que o consultório frio do ar condicionado tinha mais sol e mais calor. Não era mais só uma sala de espera.
Quando comecei a ouvir de novo eles conversavam animados sobre o que faziam na vida. Ele, nos bons tempos, e tudo indicava que ainda eram bons tempos de vida, tinha sido representante de produtos. Não me lembro quais porque perdi parte da conversa por surdez súbita. Muito tempo depois vim a sofrer realmente desse mal que me legou a chicungunha. E ela tinha um pai representante de grandes máquinas tipo Caterpillar. Acho mesmo que eram essas. E falaram dessas coisas e contaram histórias. E lembraram da cidade comum de vinte ou trinta anos atrás que também tinha sido minha. E falaram de lojas já fechadas onde ele representava seus produtos. Falaram de uma Bemoreira antiga ao lado de uma Guanabara moderna e de uma Perfumaria Lourdes, encontro de mulheres ávidas de perfume e juventude, falaram de um Pep's e de uma Sears com salão laranja para os lanches rápidos, construções vencidas por prédios enormes de escritórios sofisticados ou empresas bancárias. E comentavam tão alegres nas suas lembranças que não ousei participar. Vontade eu tive porque falavam de coisas também minhas. Mas era tudo de um encanto tão feliz que não deveria ser por nada quebrado. Momento mágico desses que nos surpreendem de vez em quando.
Ouvi o médico me chamar e com tristeza deixei os dois naquela conversa amorosa de seres amigos de uma vida inteira. Quase pedi ao médico uns minutos mais de espera porque estava encantada demais para falar de colesterol e enzimas e proteínas.
Voltei para casa com um bem estar desconhecido. Um resto da suavidade e beleza de um encontro inesperado.