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08/07/2020

Estranhos hábitos

Don Quijote y Sancho Panza - Pablo Picasso


Ana Nunes

Esse momento triste e doloroso e desesperançado é certamente tempo de muita pesquisa. Pesquisa do desenvolvimento do vírus, pesquisa de genes, porque uns pegam e outros não estando juntos e se cuidando ou separados se isolando, estudo de vacinas, experimento com remédios. Realmente um tempo de estudo.

E eu aqui, no meu isolamento de dois, estudando e pesquisando outras coisas bem menos importantes mas tão curiosas quanto. Nas minhas conversas por telefone, e-mail, zaps e até mesmo através de máscaras, que por sinal, estranho hábito, tenho de bolinhas, florzinhas, listradas, vermelhas, pretas ou brancas, e até de gatinhos estampado (marca fashion). Ganhei da costureira, das irmãs, do nosso sofisticado padeiro de estimação, gourmet de carteirinha e profissão, comprei e descomprei. Umas me sufocam, outras embaçam meus óculos, já nem estou usando, outras dolorem minhas orelhas tão úteis até na pandemia, outras ainda nem estreei. Posso até combinar com a roupa do dia mas não gosto de conjuntinhos. Só com juntinhos em noites frias.

Voltando ao ponto, que é muito fácil perder-se no caminho das letras e do pensamento, comecei a descobrir hábitos muito estranhos ao dia a dia de muito, muito tempo atrás, antes da pandemia. “Por exemplo coisinha”, uma amiga me contou estar desenvolvendo chulé apesar de todo o cuidado, higiênico e profilático, de desodorantes e cremes, água e sabão. Ela pensa ser por causa do sapato macio e confortável, desses parecendo meinha, que usa sem trégua desde o primeiro dia do isolamento. Dia após dia.
Ela acha... Coitada, o tal atacou a esperteza também.

 Um grupo de engenheiros, colegas de profissão da minha irmã, substituíram o encontro mensal regado a bons vinhos e fino papo pelo encontro virtual. E, lógico, vinho mantido. E confessaram terem abandonado as cuecas. Tiraram até aquele forro furadinho dos calções e bermudas. Vivem agora com o famoso bicho solto. O perigo mora ao lado...
Perguntei ao meu filho se não estava precisando do par de tênis que deixou aqui. E ele me contou que não usa mais sapatos! E mostrou os pés grandões, felizes e esparramados e descalçados. Livres! Depois da pandemia acho que vai calçar 46.

Mulheres aderem ao novo estilo zebra na cabeça criando lista de cabelo branco.
Outras, e me enquadro no grupo, voltaram ao tempo de Beth Friedman e aboliram os sutiãs, essa peça incômoda do nosso vestuário, que ao mesmo tempo protege, insinua e sufoca nossos corpos cansados de guerra. Mas não os queimamos. Estão guardados para época mais feliz e social. Fico pensando o que será de nós com a gravidade agindo sem saber nada de vírus e isolamento. Se os homens estão com o bicho solto estão as mulheres de maminhas ao léu, como dizem os portugas.
Tirando esse hábito comum mas nem por isso menos estranho, de lavar laranjas, abacate e bananas, caixa de aveia e pacote de café, vamos gastando nossas mãos nesse tal de alcongel. Cutícula ressecada e dedos agarradiços.

Agora largo a letra escrita e volto à letra lida. Estou num bom vício com o Dom Quixote e seu escudeiro Sancho. Curiosa com o livro desde os sete anos quando via minha mãe, barriguda do meu irmão, se sacudindo na cama de tanto rir do Cervantes. Bem mais tarde ganhei do Mano uma edição maravilhosamente ilustrada com magníficos desenhos a carvão que venho em vão tentando acabar de ler. Foram já umas três ou quatro tentativas ao longo de uns vinte anos. Agora, vício adquirido na pandemia, vai. Se eu não acabar com o livro, o livro vai acabar comigo!

As crianças, bem, são crianças! Banho dia sim dia não. E os cabelos... nem pensar. Nem sabão nem água nem tesoura. Crianças bem fedidas!
Outras, as menores de quatro ou cinco anos, já falam em não voltar para a escola.
Que estão gostando muito de ficar em casa, mesmo as sempre bem acarinhadas pelos pais.
Concordo com elas!

E assim vou pelo tempo triste em que vivemos. Mas devo confessar que outro dia lati para o cachorro do vizinho, o Edgard. O cachorro, não o vizinho. Também, ele late para mim toda vez que me vê! Queria o quê? Também faço psiu para os gatos, prisioneiros de apartamento, quando vão para a janela tomar um sol. São lindos, lindos. Tem gatinho malhado, preto de olhos verdes e até um cor de rosa.
Ah, tem os gêmeos do apartamento em frente. Mostro para eles um Macaco Juca vermelho e mole e outro que toca “Celebration” e bate os pés. Já me chamam de Vovó dos macacos. As crianças, não os macacos.
Minha amiga Ana já me ofereceu o marido psiquiatra.
E os cabelos continuam a crescer e a crescer...

Tempo de estranhos hábitos.


02/07/2020

Os livros da quarentena

Fotografia de Alexandre Mota - jornal O Tempo



Wilson Baptista Junior
Já devo ter dito aqui que gosto muito de ler.
Meus pais contavam que antes de completar cinco anos eu os surpreendi lendo alto algumas palavras das manchetes do jornal que papai tinha deixado sobre a mesa do café. Não me lembro. Só sei que de lá para cá não parei mais.
Material não faltava. As estantes de papai e mamãe. As estantes do escritório do meu avô materno, a pequena mas escolhida biblioteca do Pandiá Calógeras, o grupo escolar (assim se chamava naquele tempo) onde estudei.
E, começando aí, a estante da nossa pequena biblioteca que fomos montando, eu e meus irmãos, com os livros que ganhávamos, na varanda de cima, envidraçada, da nossa casa. Livrinhos encapados e com ficha onde se registravam os empréstimos e o intercâmbio com a biblioteca de um colega do grupo, o Breno Milton, amigo da vida inteira. Com predominância de Júlio Verne e Edgar Rice Burroughs...
Ao entrar no ginasial, fui apresentado por esse mesmo amigo à biblioteca Thomas Jefferson do ICBEU, ficava no segundo andar de um prédio antigo na esquina em frente do Cine Metrópole, hoje nem ela nem o belo cinema estão mais lá, o cinema, que foi antes o Teatro Municipal de Belo Horizonte, criminosamente derrubado e substituído pelo edifício de um banco.
Essa biblioteca (ainda existe, noutro local, moderna, mas desconheço essa sua nova encarnação) era uma cornucópia de livros e revistas desde  os de iniciação ao idioma inglês até romances e livros de muitos tipos de grande qualidade.
Por essa época me tornei frequentador das livrarias do entorno, o “corredor cultural” de minha cidade naquele tempo, a Itatiaia, a Oliveira Costa, a Oscar Nicolai, e mais tarde, quando o bolso começou a permitir, a livraria do senhor Van Damme, oásis de livros importados onde a cortesia e o vasto conhecimento do proprietário eram um perigo constante para o orçamento dos visitantes. E, de vez em quando, os sebos e seus tesouros escondidos. Um amigo meu, o Henderson, aquele da moeda romana de que falei no post “O Legionário desgostoso”, irmão de dois colegas da Escola de Engenharia e companheiros de caminhadas e montanhas, tinha no quintal da casa da família um barracão completamente cheio de livros garimpados em sebos. Alguns vieram para se juntar aos meus, livros antigos de esgrima, preciosidades na época fora de catálogo.
Na Escola, a biblioteca no velho prédio da Praça da Estação, de que já escrevi alguma coisa aqui, onde o acervo ia muito além dos livros técnicos. Devo ter passado quase tanto tempo nela quanto nas salas de aula.
Quando nos casamos e viemos morar aqui achei que o espaço do apartamento era amplo. Quase cinquenta anos depois, abençoado ao longo de todo esse tempo com uma mulher que também gosta de ler e é artista já não há aqui, literalmente, lugar para mais nenhum livro. Para não falar nos que vão e vêm de nossos filhos. Todos eles lidos por pelo menos uma vez, muitos por mais vezes.
Faz muito tempo que praticamente parei de comprar livros. Porque realmente não temos onde colocar mais. Fora as vezes em que doamos caixas e caixas para a biblioteca da Igreja do Carmo, e os muitos que foram ficando nas mãos de amigos (diga-se, a bem da verdade, que muitos foram e ficaram por lá, mas alguns vieram e ficaram por aqui também). E como desde garoto nunca consegui dormir sem ler (tempos houve em que lia em um ou dos dias um livro inteiro antes de dormir) muitas noites parava na frente das estantes procurando alguma coisa para ler de novo. Mas as estantes do meu escritório têm camadas de livros, então encontrar os desejados muitas vezes é um trabalho de arqueologia. Por exemplo, estamos seguindo agora uma série de televisão chamada “O Homem do Castelo Alto”, baseada no livro homônimo de Philip K. Dick, um dos grandes da ficção científica (entre muitas outras coisas, escreveu a história em que Ridley Scott se baseou para filmar “Blade Runner”). E como a história foi muito modificada para encompridar a série, estou querendo reler o livro original que li lá vão quase cinquenta anos. Pode ser até que esteja na estante às minhas costas. Mas talvez demore mais e dê mais trabalho encontrá-lo por aqui do que encomendar outro na Amazon. Só que quero a edição em português, porque não serei só eu quem vai ler, e já sei que a que está à venda não é mais a boa tradução que li de Sylvia Escorel. Posso estar sendo injusto com o novo tradutor, mas tenho, com alguma razão, bastante medo dessas traduções mais novas, principalmente das que são feitas quando as obras viram filmes e voltam à moda. Então, o jeito é procurar mais fundo. E, se não encontrar, recorrer, quem sabe, à Estante Virtual, aquele maravilhoso agrupamento de sebos Brasil afora.
No meu aniversário do ano passado, ganhei um Kindle, presente muito apreciado de uma das irmãs da Ana, e com isso o livro digital, até então incômodo de ler no computador ou no iPad, transformou-se de repente numa coisa prática, portátil. Que nos deixa levar uma biblioteca inteira no bolso e escolher o que ler a qualquer tempo em que tenhamos que esperar alguma coisa. E, last but not least, a mágica de ver chegar às nossas mãos o livro escolhido segundos depois de decidida a compra.
Comecei então a buscar as velhas obras amigas que andavam só pela memória, impedidas de morar nas estantes, a recompor meus Júlio Verne, Conan Doyle, Dumas pai e Dumas filho da adolescência, e a completar tanta coisa boa de tanta gente de que eu só conhecia um pouco, porque descobri que nesse formato se encontram maravilhosas coleções dos grandes autores a preços incrivelmente baixos. E, para mal dos meus pecados, visitei um site chamado “The Fussy Librarian”, onde você conta de que tipo de livros gosta e ele te oferece, todo dia, um punhado de livros digitais de graça ou a pouco mais do que isso, junto de outros a preços normais. É feito para popularizar autores novos, mas no meio deles vem muita coisa interessante. E agora, por mais que escolha com cuidado, tenho muitas centenas de livros que ainda não li, coisa que nunca me aconteceu antes na vida. Levo no bolso livros que provavelmente nunca conseguirei ter tempo de ler. Um pensamento que me faz cair na real sobre os dias, meses ou anos que me restam...
Mas toda essa cantilena aí para trás foi para dizer mais uma vez que gosto muito de ler. E que o livro, para mim, é uma coisa viva, algo que guarda nas suas páginas um pouco da alma do autor. E por isso fiquei horrorizado quando, outro dia mesmo, passando com a Ana de carro numa esquina perto cá de casa, vimos pilhas de livros queimados no passeio onde um conhecido meu de longa data, de quem falei aqui não faz tanto tempo, tinha sua livraria de rua.
Sim, o senhor Odilon, aquele do meu post “O nosso bouquinista”, foi vítima de um criminoso que, na calada da noite, sabe se lá por que, ateou fogo aos quase cinco mil livros que ele mantinha e vendia com carinho debaixo da marquise de uma grande papelaria.
O que teria impulsionado alguém a fazer uma coisa dessas, tão sem sentido? Ninguém sabe ainda. As câmaras de segurança da papelaria registraram a maldade, mas ainda não se conseguiu identificar o culpado.
A notícia do acontecido chocou muita gente. Mas, graças a Deus, gente boa como o Odilon tem amigos. Que imediatamente espalharam a revolta com a notícia nas redes sociais, pedindo ajuda. A televisão e os jornais noticiaram. E, três dias depois, os cinco mil livros perdidos se haviam transformado em mais de dez mil livros ganhos. Entregues na sua mão por centenas de pessoas. Algumas das quais, talvez, não tivessem sido seus clientes. Mas que certamente quando passarem por ali nos dias que virão pararão, olharão as pilhas de livros, e talvez levem alguns para casa.
Foi triste, sim, ver o crime, mas fez muito bem à alma ver a reação das pessoas. Coisas assim alimentam a nossa esperança de dias melhores.

Se alguém se interessar e quiser ler o post original que escrevi sobre o senhor Odilon, está aqui:
Quem não tiver lido e quiser ler o post “O Legionário desgostoso”, de que falei lá atrás, está aqui:
E a reportagem do jornal “O Tempo”, de onde tomei a liberdade de pegar a fotografia que abre o post, porque devido ao nosso isolamento não pude voltar lá para fotografar, está aqui:

26/06/2020

Notícias de Boam

Mestre Yokanaam (fotografia www.fraternidadeecletica.org.br)


Antonio Rocha
Nos anos 1950 meu pai leu um artigo do Mestre Yokanaam, da Fundação Fraternidade Eclética Espiritualista. Este grupo, depois conseguiu um pedaço de Terra, no governo Juscelino e se mudou para lá, se bem que em algumas cidades ainda existem representações. Fica perto de Alexânia, em Goiás, na Estrada Brasília – Anápolis.
Diziam que Mestre Yokanaam era um oficial reformado da Aeronáutica, vivia em uma pequena barraca na entrada da Cidade Eclética, como se chamava o local. Parece que ele era radiotelegrafista e tinha também uma pequena estação de transmissão de Rádio Amador.
Os visitantes ficavam só na principal rua da localidade, mais adiante tinha uma cerca que separava onde moravam os moradores e estranhos não podiam ir lá.
Mestre Yokanam vestia-se como um profeta bíblico, cabelos e barbas ao pescoço, um cajado que o ajudava nas caminhadas e aquelas roupas compridas parecendo mantos testamentários.
A Fraternidade editava mensalmente um jornal chamado O Nosso e muitas vezes, com alegria, escrevi artigos budistas nele. Havia uma banca de jornal na Rua Sete de Setembro, aqui no Rio de Janeiro que vendia a publicação.
Pois bem, conta o meu pai que este artigo que ele leu por volta de 1950 falava do Planeta Boam, um astro sideral imenso que iria aproximar-se da Terra e iria levar as almas dos terráqueos para lá. Já falei algo parecido aqui no Blog do Mano, citando a obra psicografada de Ramatis. Yokanaam pensava parecido e assim, não sabemos como, ele resolveu batizar o tal astro celeste com o nome Boam.
Meu pai adotou a terminologia para consumo familiar e também nas pregações que fazia em pequenos centros espíritas e espiritualistas por onde andava no DF, anos 1960.
Segundo ele, quem não ficasse semelhante aos postulados do Cristo e de outros mestres da humanidade, iria povoar Boam, que estava e está ainda na Idade das Cavernas. As almas exiladas que forem para lá, irão através de um processo de atração energética espiritual.
Haja fantasia, mas isto povoou o nosso imaginário juvenil. Sempre que as mídias anunciavam a proximidade de algum corpo celeste nós brincávamos sobre a chegada do Redentor Boam, que não vai punir ninguém, apenas, ajudar na evolução espiritual, cedendo espaço para os Espíritos se reencarnarem por lá.
Verdade ou não, mitologias ou não, eu fiquei acreditando em Boam e outro dia vi que minha irmã mais nova também aceitava. Ela me falava da impaciência de ficarmos em quarentena tanto tempo. Respondi brincando que estávamos fazendo estágio para “desembarcar/renascer/reencarnar” em Boam.
E ela me disse que não queria ir para Boam, sorri e fiquei pensando, para onde iremos após esta vida? Cada um deve ter as suas expectativas. Esperanças que serão confirmadas mais adiante.
O grande enigma, uma grande incógnita.
Meu pai, adepto destas teorias, dizia que iria para Boam, ser uma espécie de professor por lá, ainda em tempos da Pedra Polida, um colaborador da Evolução, digamos... um Facilitador para usarmos um termo mais atual,
Fantasia ou não, minhas “antenas” rádio-amadorísticas já entraram em contato com os sinais vindos de Boam e posso lhes garantir que nos próximos artigos teremos novidades.
E se tudo for “Fake”, ora meus amigos, com ficção a Vida vai melhor, tipo um bom livro.
Até lá!


21/06/2020

Um encontro delicado

aquarela Ana Nunes


Ana Nunes
Um consultório de endocrinologia onde velhinhos em formação e outros já formados vão em busca de consolo para essas glândulas maravilhosas que equilibram nossos corpos e que também ficam cansadas e começam a titubear. Faz tempo já e faz tempo que quero contar sobre esse caso e temo não conseguir descrever a delicadeza do encontro. A delícia calma e doce que deixou em mim.
Primeiro chegou um casal de idade, ele bem mais velho nos seus noventa, pequeno, magrinho e simpático com suas mãos expressivamente calombudas, com bolotas nas juntas já tão usadas. Mas nem por isso menos ágeis ou conformadas na velhice. Conversava às vezes com a mulher ou ficava quietinho olhando com olhos espertos de uma mente inteira seus companheiros no caminho. A mulher nos seus setenta era a paciente. Ele era apenas o acompanhante.
Algum tempo depois chegou uma jovem mulher nos seus quarenta, generosa de formas e de sorriso, bonita na sua lourice discreta. Depois da secretária, cartão de convênio e essas coisas comuns de consultório, sentou-se ao lado do velho miúdo e quieto. Passado o tempo da observação, sem mais delongas e milongas, ela pegou carinhosamente na mão dele, com uma amizade como se de longa data, um avôzinho ou um tio querido. E sem cerimônia, como acontece entre as grandes almas, examinou as deformações e disse padecer do mesmo mal, ainda no começo. E ele, amigo de infância, deixou-se ser examinado. E começaram a falar de coisas mútuas sem lamentos ou lamúrias, trocando impressões e experiências. Talvez falassem também das dores e dos remédios mas não sei dizer. Esqueci de escutar tão envolvida naquela imagem delicada. Parecia que o consultório frio do ar condicionado tinha mais sol e mais calor. Não era mais só uma sala de espera.
Quando comecei a ouvir de novo eles conversavam animados sobre o que faziam na vida. Ele, nos bons tempos, e tudo indicava que ainda eram bons tempos de vida, tinha sido representante de produtos. Não me lembro quais porque perdi parte da conversa por surdez súbita. Muito tempo depois vim a sofrer realmente desse mal que me legou a chicungunha. E ela tinha um pai representante de grandes máquinas tipo Caterpillar. Acho mesmo que eram essas. E falaram dessas coisas e contaram histórias. E lembraram da cidade comum de vinte ou trinta anos atrás que também tinha sido minha. E falaram de lojas já fechadas onde ele representava seus produtos. Falaram de uma Bemoreira antiga ao lado de uma Guanabara moderna e de uma Perfumaria Lourdes, encontro de mulheres ávidas de perfume e juventude, falaram de um Pep's e de uma Sears com salão laranja para os lanches rápidos, construções vencidas por prédios enormes de escritórios sofisticados ou empresas bancárias. E comentavam tão alegres nas suas lembranças que não ousei participar. Vontade eu tive porque falavam de coisas também minhas. Mas era tudo de um encanto tão feliz que não deveria ser por nada quebrado. Momento mágico desses que nos surpreendem de vez em quando.
Ouvi o médico me chamar e com tristeza deixei os dois naquela conversa amorosa de seres amigos de uma vida inteira. Quase pedi ao médico uns minutos mais de espera porque estava encantada demais para falar de colesterol e enzimas e proteínas.
Voltei para casa com um bem estar desconhecido. Um resto da suavidade e beleza de um encontro inesperado.


13/06/2020

O Buddha Tahô e o Druida Kardec

Allan Kardec (não pude identificar o escultor)


Antonio Rocha
Nessa época, que se perde na noite e nos dias dos tempos, a parte ocidental da Europa era dominada culturalmente e religiosamente pelos celtas, os druidas eram uma parte desse vasto povo.
Os ensinamentos do Buda Tahô disseminavam-se pelo mundo de antanho, o Sutra Lótus que foi revelado, mais ou menos no século dois ou três, antes de Cristo fala das maravilhosidades do iluminado chamado Tahô, que mais adiante ficou apenas conhecido como o Tao dos chineses.
Há controvérsias, claro, nem todos vão concordar com a afirmação acima, mas antes de discordarmos, vamos investigar sem paixões, sem rótulos, vamos meditar...
Kardec nesse período era um jovem sacerdote da etnia druida.  Certa feita ele avistou um homem de cabeça raspada e um manto da cor laranja. Aquele ser emanava boas vibrações e o jovem Kardec aproximou-se dele:
- Olá irmão, de onde você vem?
- Eu venho lá do outro lado do mundo, da Ásia, sou um monge budista missionário, discípulo do Iluminado Tahô, pode me chamar de Ananda, que significa “bem-aventuranças” e você?
- Eu sou um sacerdote druida, estou sempre estudando, pesquisando, investigando as sabedorias de todos os povos. Se você é missionário pode me ensinar um pouco sobre os ensinamentos do seu Mestre.
- Claro, temos muito o que aprender de ambos os lados. Estamos sempre aprendendo e olha, o meu Mestre Tahô que está espiritualmente aqui do meu lado, está me soprando no ouvido que, bem mais adiante, daqui a alguns renascimentos e reencarnações você vai ter uma missão muito bonita.
- E qual vai ser esta missão? Percebo que é a sua intuição extra-sensorial que está falando isso.
- Pois bem, você vai ensinar de forma atual para essa época vindoura os ensinamentos que iremos confabular ao longo destas nossas conversas.
- Que maravilha ouvir isso !
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Os espíritas aceitam perfeitamente que Allan Kardec (1804-1869), pois foi ele mesmo que afirmou em um de seus livros, em reencarnação pretérita foi um sacerdote druida com este nome, Allan Kardec.
E como já está provado, literariamente e historicamente que os celtas e druídas tinham contato com os monges budistas, então peregrinos e missionários o que escrevemos acima é perfeitamente verdadeiro, contudo, fica a critério de cada um, aceitar ou não.
Vejamos o que diz o conceituado escritor japonês Daisaku Ikeda, em seu livro “Budismo, o primeiro milênio”, editora Record, 1977, página 79:
“O Budismo chegou às Ilhas Britânicas antes do Cristianismo. Essa tese repousa numa afirmação feita por Orígenes em seu comentário ao Livro de Ezequiel, escrito por volta do ano de 230 dC, e que diz:
“Naquela ilha (Britânica) os sacerdotes druidas e os budistas já disseminaram os ensinamentos sobre a unicidade de Deus, e por essa razão os habitantes já estão inclinados para ele (o Cristianismo).
Podemos apenas maravilhar-nos que a influência budista tenha chegado mesmo aos celtas, nas Ilhas Britânicas, na própria borda mais ocidental da Europa”.
Isto confirma o que já dissemos há anos, há uma profunda semelhança entre o Budismo e o Espiritismo, pregado e escrito por Allan Kardec.


06/06/2020

Tempos de confinamento

Os limites de minha liberdade (fotografia WBJ)


Wilson Baptista Junior
“Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a idade da sabedoria, era a idade da insensatez, era a época da crença, era a época da descrença, era a estação da Luz, era a estação das Trevas, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero...” – Assim começa Charles Dickens o seu “Conto de Duas Cidades”, passado em Londres e Paris na época da Revolução Francesa.
E suas palavras me voltam à cabeça enquanto caminho meus três quilômetros diários em volta das garagens do conjunto em que moramos, ao longo dos muros que marcam hoje os limites da minha liberdade. O céu azul e sem nuvens da manhã de junho parece que se ri da tristeza e do desalento que baixaram sobre o outrora belo horizonte que aninha nossa cidade.
Ao mesmo tempo em que, quase cinquenta anos depois de sua última vez os homens se preparam de novo para voltar à Lua e saltar até Marte, e quem sabe até onde mais, quando a mente humana começa enfim a conseguir ensinar suas criações a pensar, quando a luz da ciência avança cada vez mais depressa, a guilhotina invisível de uma nova e terrível doença que se espalha pelo mundo ceifa a cada dia milhares de vidas como para nos lembrar que a natureza ainda pode mais do que nós.
Um inimigo silencioso que nos espreita do lado de fora dos portões, que só espera um descuido nosso para superar a barreira frágil das nossas máscaras, que se disfarça na fala e na respiração das pessoas que se aproximam de nós. Contra o qual nossos armeiros ainda não conseguiram forjar espadas nem escudos, e contra o qual a única defesa ainda é a fuga, até que nossos alquimistas descubram em seus cadinhos o segredo do metal novo e impenetrável que possa ser trabalhado nas nossas armaduras e nossas lâminas.
Nem ao menos somos todos nós que podem esperar e  se esconder atrás dos muros. Porque o exército que enfrenta esse invasor está lá fora, com armaduras frágeis e máscaras esgarçadas, cuidando dos que caem do jeito que é possível, tentando salvar vidas e enterrando os que não conseguem salvar. E há os que produzem e levam os suprimentos para a linha de frente e também para nós na retaguarda. E há os que queriam poder se esconder e simplesmente não têm muros nem telhados. E há, pasmem, os doidivanas que escutam os clarins do combate e pensam que são música para dançar nas praças. E dançando e brincando atraem e trazem para dentro dos muros das cidadelas o inimigo invisível.
Tempos difíceis. Tempos de espera, de coragem, de medo, de incertezas. Mas, pensando bem, que tempos não foram assim ao menos em alguma parte do mundo? Só que dessa vez o são no mundo inteiro. Pela primeira vez em muitos e muitos anos ninguém está a salvo do inimigo. Que veio, talvez, para nos lembrar de que somos todos os mesmos, que no fundo, por mais que o queira, ninguém é mais do que os outros. Que somos todos os mesmos seres humanos, uns atrás de muros mais altos do que os outros, mas nenhum atrás de algum que não possa ser derrubado.
Tempos de espera (fotografia WBJ)

             Tempos de espera. Espera mesmo durante a luta. Espera por quê? Que os alquimistas se esqueçam, ao menos por enquanto, da busca pela pedra filosofal e em vez de pela miragem do ouro empenhem suas retortas e suas almas pela salvação de todos.
Tempos de medo. Do medo que quando o encaramos de frente faz subir a adrenalina e se transforma em coragem.
Tempos de coragem. Coragem de abrir os olhos e nos vermos como realmente somos. De perceber que o mundo é mesmo incerto e que todos nós dependemos uns dos outros. De que ninguém pode ser deixado para trás. E de que é justamente por o mundo ser incerto que podemos ter a esperança de transformá-lo.
Tempos de agir.


01/06/2020

Des Apontamentos



Ana Nunes
Não.
Não faça isso com você.
Se é desapontamento, acate. Melhore-se nas suas impressões.
E se são impressões descarte-as como as digitais do primeiro registro oficial.
Declare-as como impugnadas, antigas e ultrapassadas. Mesmo que sejam recentes.
Declare-as falsas.
O seu indicador já tem um calo. Não será isso uma alteração plausível, mais que real?
Deixe as impressões fazerem parte dos paralelepípedos do calçamento.
Deixe a poeira cair nessas pedras ancestrais.
Deixe a marca dos passantes.
Eles são só passantes que não sabem onde pisam.
Não sabem dos cacos de carinhos entre as pedras.
Nem sabem dos pedaços pontudos de amizade que se escondem nas frestas.
Nem sabem dos canteiros,
Que por primeiro tocaram nessas pedras.
E cortaram, lapidaram no formato certo
Para deixarem frestas estratégicas para sentimentos machucados.
Esses caminhantes não sabem nada.
Sabem só de si e suas jornadas.
Não sabem nada das árvores da beirada,
Nem das águas do caminho.
Vão seguindo as folhas caídas do outono, estalando as cores no pisar.
Não se importam com os brotos por nascer.
Vão saber deles tarde no tempo da primavera.
Não, não faça isso com você.
Anda cautelosa nessa estrada de pontas pontiagudas,
Siga silenciosa no caminho que lhe cabe
De dia pelas flores e de noite pelos vagalumes.
Leve leve seu coração desapontado
Mas já alegre na imagem que o cerca.
Amarre com barbante  o sentimento alquebrado
E carregue nas costas
O que já não cabe no coração.