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21/12/2017

Vento, areia e estrelas

Uma das últimas fotografias de Saint-Exupéry (fotografia de John Philips)

Wilson Baptista Junior
Wind, Sand and Stars (Vento, areia e estrelas) foi o título que os editores americanos encontraram para batizar o livro Terre des Hommes (Terra dos Homens) do escritor e aviador francês Antoine de Saint-Exupéry, na sua publicação em 1939.
Foi esse livro, na bela tradução do francês de Rubem Braga, que li quando era menino e foi responsável pela minha paixão da vida inteira pela aviação.
Mas muito mais do que de aviação falavam nas entrelinhas os livros de Saint-Ex (como o chamavam seus amigos) à medida em que fui lendo, crescendo, relendo e compreendendo. E até hoje, quando releio qualquer um deles, alguma coisa de novo se apresenta ao meu espírito.
Saint-Exupéry ficou conhecido no Brasil principalmente como um autor para crianças, por causa de seu livro O Pequeno Príncipe, um enorme sucesso mundial de publicação e que, por décadas, era citado por todas as nossas candidatas a miss quando perguntadas sobre seu livro preferido.
O Pequeno Príncipe, que parte de um acontecimento real, quando ele e seu mecânico Prévot decolaram à noite de Bengazi no seu avião Caudron Simoun (o vento do deserto) numa etapa de um voo para tentar bater o recorde de velocidade entre Paris e Saigon, e caíram depois de quatro horas e pouco de voo, enganados pelas más condições de tempo, num platô no deserto do Saara, perdendo no acidente a água e a comida, e de onde foram salvos três dias depois por uma caravana de camelos, a par de ser uma encantadora história para as crianças é (dizem alguns, e eu acredito) uma bela carta de amor do autor para sua mulher Consuelo, escrita quando andavam estremecidos.
O Caudron Simoun caído no deserto (fotografia Bureau d'Archives des Accidents d'Avions)

Eu acho Saint-Exupéry um autor difícil de traduzir. Isso porque ele escrevia e reescrevia suas páginas até que cada palavra nelas fosse a única que poderia estar ali naquele lugar. Com seu peso e seu sentido perfeitos. Como ele escreveu, no seu Terre de Hommes:
Il semble que la perfection soit atteinte non quand il n’y a plus rien à ajouter, mais quand il n’y a plus rien à retrancher.
(Parece que se atinge a perfeição, não quando não há mais nada a acrescentar, mas quando não há mais nada a cortar)
Não dá para mudar nada numa página dele. E ele nunca escreveu nada, ficção ou não ficção, que não estivesse solidamente ancorado na sua experiência de vida. De uma vida em que ele sempre esteve de peito aberto na linha de frente de tudo aquilo em que participou. Era um intelectual, um estudioso, mas fundamentalmente um homem de ação.
Embora seus estilos sejam muito diferentes, ele partilhava com Hemingway, outro de meus autores preferidos, a vida de ação e o fino burilamento por trás de uma escrita aparentemente fácil.
A história de vida do autor é tão interessante e aventureira quanto seus livros, e por isso permitam-me uma digressão. Depois de contar hoje um pouco de sua vida, numa próxima conversa falarei dos seus livros, que me olham das minhas estantes enquanto escrevo.
Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger de Saint-Exupéry nasceu em 1900 em Lyon, filho do Conde de Saint-Exupéry, de antiga linhagem de cavalheiros do Limousin, e de sua mulher Marie de Fonscolombe, de linhagem provençal. Perdeu o pai muito cedo, aos quatro anos. Depois de uma infância folgada nos castelos de suas duas avós, estudou num colégio jesuíta até a entrada da França na Primeira Grande Guerra, em 1914, quando sua mãe se mudou para Paris para chefiar uma equipe de enfermeiras. Transferido para outro colégio (dessa vez dos padres maristas) lá ficou até conseguir seu bacharelado (que na França tem um significado diferente daqui, é uma prova difícil que se faz ao final do ensino médio para só depois de aprovado poder tentar a universidade). Mas antes disso, aos doze anos, fez seu primeiro voo (à revelia de sua mãe) como passageiro de um avião. Imaginem o que deve ter sido a sensação, para um menino de doze anos, de voar num daqueles aeroplanos que mais pareciam um papagaio-caixa com um motor, poucos anos depois dos primeiros voos de Santos Dumont e dos irmãos Wright...
Voltando desse voo o garoto escreveu o que é seu primeiro poema conhecido:
“Les ailes frémissaient sous le souffle du soir
Le moteur de son chant berçait l'âme endormie
Le soleil nous frôlait de sa couleur pâle.”
Numa tradução livre:
As asas tremiam ao sopro da tarde
O canto do motor ninava a alma adormecida
O sol nos tocava com sua pálida cor.
Não sabemos qual foi a reação de sua mãe quando ele voltou de seu passeio de bicicleta até o campo de aviação e contou o que tinha feito...
O rapaz Antoine se preparou para ingressar na Escola Naval, onde tirou a mais alta nota em matemática no exame de admissão mas foi reprovado por uma nota baixa justamente na prova de... redação  :)
Depois disso, entrou na Escola de Belas Artes, para estudar arquitetura. Mas antes de completar dois anos foi chamado para o serviço militar e designado para um regimento de aviação, onde ficou como mecânico. Não podia se formar piloto porque não tinha o brevê de piloto civil (não tente entender os regulamentos militares franceses da época...)
Então pagou de seu bolso algumas aulas num aeroclube e, com menos de duas horas de instrução, pegou sem autorização um avião Sopwith e decolou sozinho, pousando miraculosamente pouco depois, inteiro mas com o assoalho da cabine em chamas. Seu comandante no regimento lhe disse: “Você nunca vai se matar num avião, porque se isso fosse acontecer teria sido hoje”...
Depois desse começo pouco auspicioso conseguiu tirar seu brevet e se tornar aluno-piloto militar. Tornou-se piloto de caça, voando até o final do serviço militar.
Quis fazer carreira na aviação militar francesa, mas a família de sua noiva não quis saber disso e ele desistiu. Depois de passar dois anos em trabalhos de escritório, sem vontade nem sucesso, publicou numa revista sua primeira história, L’Aviateur (O Aviador) e pouco depois entrou como piloto na Compagnie Générale d’Entreprises Aeronautiques, que depois se transformou na Aéropostale e mais tarde seria fundida com outras companhias francesas dando origem à atual Air France. A companhia estava começando a abrir as linhas de correio aéreo na França e nas colônias francesas, usando alguns aviões que tinham sobrado da Primeira Guerra Mundial.
Um Breguet 14, um dos primeiros aviões da Aéropostale. Em baixo das asas se veem os compartimentos onde se colocava o correio
 (fotografia www.memoire-aeropostale-com)

Daí em diante sua carreira de piloto (que necessariamente terei que resumir muito) e a de escritor se entrelaçam. Começou levando o correio de Toulouse, no sul da França, a Casablanca, no Marrocos. Aí passou a chefe de escala em Cap Juby, na costa sul do Marrocos, onde tinha o duplo papel de assegurar as relações da empresa francesa com o governo espanhol, que então dominava a região, e de fazer o resgate dos pilotos e aviões forçados a pousar de emergência no deserto e feitos reféns, e às vezes assassinados, pelos chefes árabes hostis.
Durante esse tempo escreveu o romance Courrier Sud (Correio Sul). Do Marrocos Antoine foi para Buenos Aires, de onde a Companhia começava a abrir as linhas da América do Sul, de Natal até a Patagônia, e a ensaiar os primeiros voos noturnos, numa época em que as comunicações por rádio eram rudimentares e o radar e o GPS estavam muito longe de serem inventados.
Durante esse trabalho realizado com seus amigos Jean Mermoz e Henri Guillaumet, dois pilotos que marcaram a história da aviação francesa, Saint-Ex escreveu seu romance Vol de Nuit (Vôo Noturno). E foi em Buenos Aires que ele ficou conhecendo Consuelo, a salvadorenha com que se casaria pouco tempo depois.
Saint-Exupéry (esquerda) e Guillaumet na frente de um avião Laté-28 da Aéropostale
(fotografia 
Collection Musée Air France)

De volta à África, passou a fazer o voo entre a França e a Algéria em hidroaviões, e mais tarde desligou-se da Aéropostale e passou um tempo trabalhando como piloto de provas numa fábrica francesa de aviões em Toulouse.
Em 1934 entrou para a Air France, que tinha incorporado a Aéropostale, como encarregado de voos de estudo e de conferências para divulgar a companhia. No ano seguinte tentou bater o recorde de velocidade Paris-Saigon, e caiu no deserto, o acidente de que falamos atrás. Nos dois anos seguintes, enquanto continuava a abrir linhas na África, encontrou tempo para voar por duas vezes ao front da Guerra Civil Espanhola, como correspondente de guerra para jornais franceses. E um ano depois começou a escrever o que é talvez seu maior livro, Citadelle (Cidadela), a história de um senhor de uma tribo bérbere contada na forma dos ensinamentos do chefe ao seu filho.
Em 1938 partiu para tentar um raid Nova Iorque-Terra do Fogo, novamente em seu Simoun e acompanhado do mecânico Prévot. Numa das etapas, ao decolar da Venezuela, o avião, pesado demais pelo excesso de combustível, caiu deixando-o gravemente ferido com o crânio fraturado, fraturas múltiplas no braço e em estado de coma.
Um mês e meio depois saiu do hospital e foi para Nova Iorque, em convalescência, onde começou a escrever o Terre des Hommes, publicado no início de 1939 e que lhe trouxe a fama como escritor.
No mesmo ano, com a ameaça de guerra, voltou para a França. Pouco depois, a convite de seu amigo Guillaumet, acompanhou-o num voo de teste no Lieutenant de Vaisseau Paris, um hidroavião Latécoère 521 de seis motores que foi o primeiro “jumbo” transatlântico, de Biscarrosse, na França, a Nova Iorque, ida e volta.
O "Lieutenant de Vaisseau Paris" (foto San Diego Air and Space Museum)

No mesmo ano, com a aproximação da guerra, como capitão da reserva, voltou à ativa, recusou ficar em terra nos serviços de informação e assumiu um posto num esquadrão de reconhecimento aéreo a longa distância, Seu antigo chefe na Aéropostale, agora oficial de patente mais alta, querendo poupá-lo, mandou reconduzi-lo à aviação civil, Saint-Éxupéry recusou e o seu esquadrão partiu para a guerra. Com a derrota dos franceses o grupo voou para a Algéria para se reunir aos franceses livres. Antoine foi desmobilizado e no final de 1940 conseguiu viajar para os Estados Unidos, onde se dedicou a escrever Pilote de Guerre (traduzido para o inglês como Flight to Arras – Voo para Arras e um enorme sucesso nos Estados Unidos) e a tentar mobilizar a opinião pública americana em favor da França.
Enquanto tentava voltar para a Algéria para lutar escreveu Le Petit Prince (O Pequeno Príncipe). que ilustrou com suas aquarelas e Lettre à um Otage (Carta a um Refém). Só em maio de 1943 conseguiu se reunir aos seus companheiros. O seu esquadrão tinha sido equipado com os aviões Lockheed F-5B, que eram caças bimotores P-38 Lightning transformados em aviões de reconhecimento equipando-os com motores mais potentes para funcionar em grandes altitudes e retirando as armas e a munição para diminuir o peso e permitir mais velocidade e lugar para as câmaras fotográficas (naquele tempo muito grandes). Nesses aviões desarmados é que as missões de reconhecimento eram realizadas, esperando, um tanto otimistamente, que esse aumento de velocidade os ajudasse a escapar dos caças inimigos que estavam sempre à espreita.
Saint-Exupéry na carlinga de seu P-38 (foto John Philips)

Depois de três meses de voo as autoridades americanas, que achavam que ele, por sua fama, era valioso demais para correr riscos, aproveitaram-se de que a idade máxima regulamentar para pilotar os P-38 era de trinta e cinco anos, proibiram nosso amigo de voar e obrigaram-no a voltar à reserva.
Mas depois de passar vários meses importunando seus superiores ele conseguiu ser chamado por um coronel seu amigo para voar em um esquadrão de bombardeiros, onde o limite de idade era mais dilatado, e assim que voltou à ativa perseguiu o general americano que comandava as operações aéreas no Mediterrâneo até conseguir permissão para voltar ao seu esquadrão de reconhecimento, só que essa permissão veio com a condição de não voar mais do que cinco missões.
Saint-Exupéry em seu P-38 em missão perto da costa da Sardenha (fotografia John Philips)
Como depois de sete missões ele não mostrava sinais de querer parar, o Alto Comando resolveu contar a ele os planos do desembarque na Normandia, porque assim não poderia mais voar para não se arriscar a ser capturado sabendo dos planos altamente secretos. Conseguiu licença para realizar uma derradeira missão antes que fizessem isso, e em 31 de julho de 1944 decolou com seu avião da sua base na Córsega para fotografar Grenoble e Annecy, na França ocupada. Seu avião desapareceu do controle do radar perto da Côte D’Azur, e não se teve mais notícia dele.
Por cinquenta e seis anos não se soube o que aconteceu com Saint-Éxupéry. Até que em 1998 um pescador marselhês apanhou em sua rede uma pulseira de prata gravada com os nomes dele, de sua mulher Consuelo e do seu editor americano. Depois desse achado as buscas foram retomadas e se concentraram nessa região, e afinal mergulhadores encontraram os destroços de um avião, a pouco mais de oitenta metros de profundidade, que em 2004 conseguiram identificar como sendo o P-38 que ele pilotava.
fotografia Musée de lÁir et de l'Espace - Le Bourget

A pulseira e a parte do avião que se conseguiu trazer à superfície estão hoje no Musée de l’Air et de l’Espace de Le Bourget, perto de Paris. Até hoje não se sabe conclusivamente o que aconteceu com o aviador. Nenhum vestígio do seu corpo foi encontrado. Dois diferentes pilotos alemães disseram ter abatido um P-38 naquele dia naquela região, mas os registros da Luftwaffe não confirmam nenhum dos dois. O estado dos destroços encontrados não permitiu identificar furos de bala, nem dizer que eles não existiram. Se Saint-Ex não tiver sido abatido, pode ter tido uma falha de motor, ou ter desmaiado por falta de oxigênio (o voo a grande altitude consumia muito oxigênio, e ele, aos quarenta e quatro anos, precisava de muito mais do que um piloto mais jovem). Talvez nunca venhamos a saber.
Quando penso na última missão de Saint-Ex me lembro das suas palavras no final da sua última carta, recebida por um amigo depois de sua morte:
“A volta é um milagre. Eu conheci a pane, o desmaio por acidente de oxigênio, a perseguição pelos caças e o incêndio em voo. Não me creio muito avaro e me sinto um carpinteiro competente. É a minha única satisfação. E também a de passear, um só avião e sozinho a bordo, por horas e horas por sobre a França, tirando fotografias. Isto sim é estranho (...)
Se eu for abatido, não me lamentarei por ter perdido nada. O formigueiro do futuro me apavora e detesto sua virtude de robôs. Eu, eu fui feito para ser um jardineiro...”


15 comentários:

  1. 1) Ótimo artigo Mano, escreva sempre !

    2) Hoje começa o Verão, logo ... Feliz Verão a todos (as).

    3) Gratidão por todo o ano que está findando...

    4) Feliz NaTao e Boas Sortes em 2018, ano do cachorro na Astrologia Chinesa, não esquecendo que o cachorro é o melhor amigo do homem.

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    1. Wilson Baptista Junior22/12/2017 11:29

      Obrigado, Antonio, depois do Natal vou escrever mais sim, aí sobre os livros do Saint-Éxupery, se os leitores tiverem paciência :)
      E um feliz Natal e um ótimo Ano Novo para você e a Heloísa. Um abraço.

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  2. Lea Mello Silva21/12/2017 09:30

    Ana tem razão, vc precisa escrever mais
    Li com prazer e fiquei conhecendo mais sobre Saint Exupery
    Nosso Google é vc 😄qualquer assunto e vc é o mestre
    Obrigada e um enorme abraço !!

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    1. Wilson Baptista Junior22/12/2017 11:31

      Léa, que bom que você gostou. E não sou o Google, não :) É porque leio o Saint-Ex desde que eu tinha uns doze anos, já li tudo o que ele escreveu. Assim não é vantagem nenhuma :)
      Um anraço para você e o Gilberto.

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  3. Francisco Bendl21/12/2017 15:08

    Excelente relato, Wilson, sobre a vida do grande escritor francês, Saint-Exupéry.

    Uma pena o seu fim trágico, mas absolutamente de acordo com o seu estilo de vida:
    Aventureiro, irrequieto, um homem que adorava aviões e voar.

    Na década de sessenta – o livro O Pequeno Príncipe foi lançado em 1.943 -, nos inesquecíveis concursos de Miss Brasil, televisionado para todo o país, não havia candidata à mais bela desta nação que, entrevistada, não dissesse que o seu livro de cabeceira era esse.

    E vendeu muitos milhares de exemplares, pois se a história era simplória, havia um condão de magia que atraía jovens e adultos.

    Interessante o que nos contaste do francês, que teve um fim estilo Amélia Earhart, que ainda está desaparecida junto com seu avião, e o notável Glenn Miller, que sumiu em um voo sobre o Canal da Mancha em 1.944.

    As fotos postadas são extraordinárias, mostrando que se precisava de muita coragem para viajar nos aviões da época.

    Parabéns pela escolha do tema, Mano, que, apesar de triste, enaltece um escritor notável, que emocionou o mundo com seus livros.

    Um abraço.
    Saúde e paz.




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    1. Wilson Baptista Junior22/12/2017 11:37

      Obrigado, Chicão. Como eu disse ao Antonio, pretendo escrever ainda sobre os livros dele, e sobre essa magia que tinham suas palavras.
      A morte e o desaparecimento dele ajudaram a transformar o piloto e escritor que já era querido por muitos e admirado por muitos mais numa dessas lendas qie povoam os sonhos das crianças que olham para os céus.
      A ele e a tantos outros que desbravaram corajosamente os caminhos dos céus, às vezes ao preço de suas vidas, nós devemos hoje o prazer e a comodidade das viagens aéreas que julgamos coisas tão corriqueiras.
      Um abraço do Mano

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  4. O Editor/Moderador Sr. WILSON BAPTISTA JUNIOR, neste excelente Artigo, nos fala desse grande Escritor e Patriota SAINT-EXUPÉRY, contando-nos um pouco de sua vida e Obra.
    Além de excelente Escritor, bom Piloto Comercial e Militar, era arguto observador dos Árabes do Deserto do Saara, grande região Africana pertencente ao vasto Império Colonial Francês, onde trabalhou vários anos na Companhia de Aviação.
    Em "Wind, Sand and Stars" ele conta dos costumes dessas Tribos, onde a Hospitalidade era Sagrada. Inimigos que tranquilamente se cortariam mutuamente o pescoço, quando Hóspedes um do outro, se tratavam com a maior cortesia. A Hierarquia dos Chefes era contabilizada em "roubo de Camelos". Sheik Hussain era o maioral porque já roubara 4.000 Camelos, e ele se orgulhava muito disso. Tinham muito respeito e admiração por um Capitão do Exército Colonial Francês, que os havia "logrado" várias vezes em suas guerrilhas e correrias pelo deserto, e ficaram muito tristes quando souberam que ele estava terminando seu tempo de Serviço na África, e promovido voltava a França: Que grande Inimigo, perdemos.
    A França convidava os principais Chefes de Tribos a visitarem Paris, e arredores, sua Indústria, mostrar seu Poderio Econômico, para que eles na volta, pensassem muito antes de atacar um Forte Françês ou roubassem cavalos/material dos Franceses. Numa dessas empreitadas, coube a SAINT-EXUPÉRY ciceronear dois Chefes. Mostrou-lhes tudo, a começar pela Torre EIFFEL e quando voltou não resistiu a assistir numa barraca Árabe o "relatório" desses Chefes a outros Chefes.
    Disseram eles: Na França andam todos desarmados, o País tem muitas águas, uma cachoeira é uma coisa fantástica, e lá tem grandes árvores e muita grama, daria para sustentar, milhões de camelos. Achou SAINT-EXUPÉRY, que o Governo não atingiu seu objetivo de "impressionar" os Chefes Árabes, com seu Poderio Econômico.
    Abrs.


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    1. Wilson Baptista Junior22/12/2017 11:56

      Amigo Bortolotto,
      que bom encontrar o seu comentário e encontrar nele outro leitor do Wind, Sand and Stars!
      Sim, o conhecimento e as observações do Saint-Ex sobre os árabes do deserto são extraordinariamente penetrantes. E quem pode esquecer, desse livro, a história de que você fala do Capitão Bonnafous, de cuja ausência os guerreiros reclamariam que tinha levado embora com ele um pouco da mágica do deserto, quando cada duna à frente dos seus rezzous podia esconder a elusiva coluna inimiga e por isso as dunas e os seus corações estavam vivos...
      Ou a história do chefe árabe que, enquanto hóspede dos invasores franceses, pelo sagrado dever da hospitalidade ajudou a defender o forte contra o ataque de outra tribo, e mais tarde, aliado a ela e por sua vez atacando o forte, mandou dizer ao comandante francês que, naquele combate em que o tinham ajudado, tinham gasto uns trezentos cartuchos de fuzil, e que seria justo que ele agora lhos devolvesse. E o comandante, em grande senhor, mandou lhes entregar os cartuchos que eles iam atirar contra ele...
      Num próximo post conversaremos mais sobre esse e outros livros.
      Obrigado, e um abraço.

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  5. Moacir Pimentel22/12/2017 08:27

    Wilson,
    Um belo e irretocável prefácio que nos mostra, através de informações e fotos muitas das quais para mim inéditas ,antes da obra literária, um pouco da biografia do homem e a sua carreira como aviador. Só li da lavra de Saint-Exupéry a Terra dos Homens, a Cidadela e, é claro, O Pequeno Príncipe. Mas foi o bastante para perceber que , como você tão bem disse, ele só escreveu sobre aquilo que efetivamente experimentou na carne, sobre as aventuras que realmente viveu, sobre ventos, areias e estrelas seus conhecidos,com uma espécie compreensão, mesmo nos momentos felizes, da proximidade da dor e a perda. Há muito mais realidade e complexidade em sua escrita, nos livros que são bíblias poéticas sobre a arte de viver e a paixão de escrever e de voar, do que nas meras mensagens motivacionais deles extraídas.
    Apesar dos estilos e mentalidades opostas, o filosófico, poético e alegórico Saint-Ex mora, juntamente com mais dois dos meus escritores prediletos - Hemingway e George Orwell! -em um espaço especial da minha mente, dedicado aos valentes intelectuais que se fizeram presentes na Guerra Civil Espanhola, às vozes que se levantaram contra o fascismo no primeiro dos conflitos a ser amplamente coberto pela imprensa, do lado republicano, perfilados ao lado das liberdades e contra a opressão do ditador espanhol Francisco Franco.
    Dos três, Orwell foi o único que segurou em armas nas trincheiras espanholas – se bem que escreveu mais do que atirou! - mas o Papa Hem não esteve muito longe da linha de tiro e Saint-Ex chegou à Espanha logo no começo dos combates, em agosto de 1936, defendendo veementemente os republicanos no jornal francês L'Intransigeant e depois, em 1937, no Paris-Soir.
    Eu credito à essa vivência da degradação progressiva das guerras, o tom angustiante, o pavor do “ formigueiro do futuro” e da “virtude de robôs” e o flerte com o perigo comum às obras dos três. De quebra Hemingway e Saint-Ex nos falaram lindamente do vasto mundo e foram bastante pessoais nos seus relatos.
    Continuo....

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  6. Moacir Pimentel22/12/2017 08:38

    O próprio Pequeno Príncipe de aventuras tão exóticas, se não chega a ser um alter ego irrequieto, muito revela sobre a vida e a mente do seu criador. Afinal o livro foi escrito em Nova York, onde Saint- Ex se sentia um alienígena exilado, embora na companhia tumultuada da mulher Consuelo , a famosa "rosa", ou a “Vaidosa”, a quem ele tratou por toda a vida com cavalheiresca lealdade. Quem teria inspirado a personagem da raposa cujo coração começava a dançar quando sabia que ele estava para chegar? Quem o teria motivado a escrever aqueles longos e amorosos parágrafos da Cidadela sobre a mulher “Princesa”, aquela “pronta para dar e receber amor”? Talvez Hélène, mais conhecida como Nelly, a sua amante por quinze longos anos? Quem seria o imenso "Pai", se o pequeno Antoine perdeu o dele aos quatro anos?
    Eu penso que em toda a obra de Saint-Exupery vislumbramos uma mesma paisagem mental e emocional e moral, as mesmas cadência filosofal e impaciência com quaisquer limites, idêntica antipatia para com os burocratas e hipócritas e covardes que encontrou pelos seus caminhos pouco ortodoxos, a terna poesia em prosa, não importa se nos asteróides, no deserto do Saara ou os Andes, se à beira dos vulcões da Patagônia, dos baobas africanos, do Central Park de Nova York ou do poço no castelo familiar.
    Finalmente não sei se a "jardinagem" mencionada na derradeira carta dele era um hobby ou apenas uma metáfora. O garoto que cuida de uma planta frágil e isolada em um lugar inóspito, como um capitão do seu navio, talvez seja um lembrete do dever humano de cuidar e cultivar o planeta, um emblema de integridade em um mundo cada vez mais confuso. Mas, com certeza, o heroísmo, o humanismo e o estoicismo de Saint-Exupery não envelhecem e suas pretinhas continuam tocando a música inquietante da sanidade.
    Um post que tem sabor de "quero muito mais" para todos aqueles que amam os grandes livros da humanidade.
    Obrigado e um abraço

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    1. Wilson Baptista Junior22/12/2017 13:22

      Moacir, você leu os que são, na minha ótica, os dois melhores livros dele, as "bíblias poéticas sobre a arte de viver".
      Terra dos Homens, que não é um romance mas um apanhado de experiências vividas e lúcidas reflexões sobre elas, e Cidadela, que é talvez o resumo da filosofia de vida do autor.
      É claro que vale muito a pena ler os outros, mas muito do mais importante que ele escreveu está aí. E talvez o Pai da Cidadela seja ele mesmo falando para nós, como outro Pai em que ele acreditava nos falou através de parábolas.
      Ele não tinha, que eu saiba, o hobby da jardinagem. O jardineiro em que ele pensava na última carta devia ser o velho jardineiro daquelas páginas tão comoventes da Cidadela, que depois de toda uma vida dedicada às rosas responde à carta do seu velho amigo que a vida levou para terras distantes.
      Como Pierre Chevrier escreveu em seu livro "Saint Exupéry", na minha edição da Gallimard: "Le jardinier s'échange contre la civilization des jardins, le pilote tombe en flammes pour sauver la primauté de l'esprit (...) et chacun, grâce a la communion en une valeur plus haute, trouve sa raison d'exister".
      (O jardineiro troca sua vida pela civilização dos jardins, o piloto tomba em chamas para salvar a primazia do espírito (...) e cada um, graças à comunhão num valor mais alto, encontra sua razão de existir).
      Ele, o piloto que tombou em chamas, lutava para salvar ainda a civilização dos jardins...
      Ainda vamos conversar mais sobre isso :)
      Um abraço do
      Mano

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  7. André dos Anjos22/12/2017 15:41

    Grande artigo! Obrigado, Mano, feliz Natal para todos, que o blog continue nos acompanhando em 2018.

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    1. André, fico muito contente por você ter gostado. E, se Deus quiser, o blog ainda nos acompanhará por muitos anos ainda, a nós que escrevemos e a vocês que nos leem. Um Natal muito feliz para você e os seus, e um a raço do Mano.

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  8. Heraldo Palmeira23/12/2017 09:21

    Caro Mano,
    Escrevo do trem Praga-Viena, nada mais coincidente, não? Estou aqui vivendo minha pequena aventura. Nada comparável à exuberância aventureira de Saint-Exupéry, até porque ele desbravou o mundo e eu apenas usufruo dos confortos de um mundo desbravado.

    Sem contar o fato de eu ter crescido ouvindo a história de uma suposta passagem dele por Natal, hoje acomodada no formato de lenda - uns garantem ser verdade, outros garantem o contrário.

    Obrigado por destrinchar de forma tão prazerosa tantas informações a respeito de um personagem que aprendemos a admirar. Abraço.

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    1. Caro Heraldo,
      Boa sorte na sua pequena aventura, se é que alguma aventura nas nossas vidas possa ser chamada de pequena.
      A passagem de Saint-Exupéry por Natal é muito provavelmente verdadeira, foi ele quem a Aéropostale mandou à América do Sul para dirigir a abertura das linhas que ligaram nosso continente à Europa.
      Ainda falaremos mais por aqui sobre os escritos dele.
      Um abraço.

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