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23/12/2017

Os Quatro Pontos Cardeais e Mais Dois

Rosa dos Ventos de uma carta náutica de Jorge Aguiar (1492) - imagem Wikipédia

Antonio Rocha
É claro que os pontos cardeais são apenas quatro: norte, sul, leste, oeste. E no Budismo, nós acrescentamos mais dois: o Nadir, no centro da Terra e o Zenith (Zen...ith) no alto, no Infinito. São as chamadas seis direções do Universo. Alguns textos sagrados falam em “Dez direções”, porque aí se acrescentam os quatro pontos colaterais: nordeste, sudeste, noroeste, sudoeste. Se acrescentarmos os oito pontos subcolaterais teremos a Rosa dos Ventos, que aprendemos nas aulas de Geografia: nor-nordeste, les-nordeste, les-sudeste, sul-sudeste, sul-sudoeste, oes-sudoeste, oes-noroeste, nor-noroeste.
É a Rosa dos Ventos que aprendemos em Geografia.
Como será que o Buda, no século VI antes de Cristo descobriu isso? Não sei se naquela época já haviam os instrumentos para navegação. Contudo, acreditamos que foi pela sua grande Sabedoria.
Há uma prática budista de reverenciarmos os dezesseis Discípulos Iluminados, que nós chamamos em língua páli (a língua original do Buda), os “Dezesseis Arahants”. Cada um é responsável por uma direção do Universo. Os textos falam nos dezesseis mais dois, que não são referidos, que são o Nadir e Zenith.
Na verdade, essa era uma prática mística do antigo Brahmanismo. Consiste em todo dia pela manhã nos curvarmos, resumidamente, apenas às seis direções: uma reverência para o norte, outra para o sul, para o leste, para o oeste, para o nadir e para o zenith. A reverência é uma curvatura da coluna para a frente e aos mãos, palma em palma na altura do coração, como fazem os asiáticos.
Não são todos os budistas que fazem esta bela prática. Eu faço, todo dia pela manhã, assim que acordo e antes de dormir, diante de uma imagem de Buda, pode ser também diante da imagem de um santo católico, diante de um vaso de planta, diante de um quadro artístico, uma pintura, uma gravura etc.
O simbolismo é que, nesse instante, estamos dando bom dia a todos os seres vivos do Universo nessas direções: seres humanos, animais, vegetais, minerais, seres espirituais até o Infinito. Não faço de forma maquinal, mecânica, como um autômato, como um robô, mas consciente de que nessas direções temos seres vivos que, belo dia, também serão Buda, santos, iluminados etc. Mesmo os habitantes das regiões infernais recebem a reverência, belo dia, não importa quando, converter-se-ão.
Ninguém é obrigado a acreditar, nem a praticar, mas eu particularmente gosto muito, pois aprendi esse mini-ritual com um monge japonês zen-budista, em 1974, que estava no Rio transmitindo ensinamentos. De acordo com a Budologia, a teologia búdica, os seres nessas direções também nos respondem com um amigável bom dia e assim ficamos protegidos ao longo do dia.
Alguém poderá perguntar, mas e o centro da terra, tem vidas? E o firmamento, o infinito tem vidas? Respondemos sim. Na terra moram minhocas, insetos visíveis e invisíveis, além disso afirmamos que a Terra é um ser vivo, respira e tem os seres invisíveis que habitam as raízes da árvores, o subsolo etc. E no alto, no Zenith temos os anjos, arcanjos, querubins, serafins. Não tem problema que digam que é uma infantilidade, uma bobagem.
Uma vez ensinei esta prática a um conceituado médico psiquiatra e ele gostou muito. Disse que teve a sensação de “pertencimento” de união com o Todo, com o Cosmos e os seus muitos nomes.
Tenho várias edições e traduções do Evangelho de Buda e em todas tem o ensinamento do citado ritual. Repito, é para ser feito de forma concentrada (com-centrada). Por que várias edições e traduções? É o que em Linguística e nos Estudos Literários nos chamamos de “Ecdótica”, para fazer uma Leitura Comparada.
Buda afirmou que, olhando (se não puder se curvar) para o Leste, onde nasceu o sol, onde brota a luz, estamos saudando os nossos pais; aos professores e mestres, virando-se para o Sul; reverenciamos o cônjuge e os filhos olhando para o Oeste; cumprimentamos os amigos, parentes, antepassados e a todos os seres olhando para o Norte; aos humildes, aos pobres, aos nossos empregados, funcionários inclinando-se para o Centro da Terra, o chão, a base; e aos santos como já falei acima, aos bem-aventurados de todas as religiões contemplando o Alto, o Céu.
Assim fazendo estaremos protegidos em todas as seis direções. E, digamos, se acontecer algo triste vindo de uma dessas direções? Devemos compreender que é uma queima de carma negativo, então é libertação.
A Budologia informa também que em cada um dos pontos cardeais, polos geradores de Energia que sustentam o planeta, existem “Grandes Reis”, na verdade, poderosíssimos Espíritos de Luz que gostam desta cerimônia diária e nos protegem.
Tenho agido assim e tem sido muito bom e divertido! Me sinto praticante de uma cerimônia que começou lá na Antiguidade, mais ou menos, há uns cinco mil anos, nos primórdios da Civilização Indiana.


6 comentários:

  1. Moacir Pimentel23/12/2017 10:39

    Antonioji,
    Antes das nossas bem merecidas férias e festas de fim de ano, queria lhe mandar uma "GRATIDÃO" desse tamanho por jamais desistir de nos oferecer as suas pretinhas de fé e de esperança que tanto nos ajudam rumo a esse futuro que nos prometeram faz tanto tempo e que nunca chega. Fazer o quê? Caminhemos esse "caminho do meio" para a frente e para o alto!

    (....)
    Pois transbordando de flores
    A calma dos lagos zangou-se
    A rosa-dos-ventos danou-se
    O leito do rio fartou-se
    E inundou de água doce
    A amargura do mar
    Numa enchente amazônica
    Numa explosão atlântica
    E a multidão vendo em pânico
    E a multidão vendo atônita
    Ainda que tarde
    O seu despertar....

    Namastê!

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    Respostas
    1. 1) Namastê Pimentel, bela poesia, quem é o autor?

      2)Gratidão a vc tb que muito me ensina, passeando pelo mundo.

      3)Feliz tudo de bom para vc e os seus !

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  2. Olá Antonio querido budista,
    Sempre lendo e aprendendo com você.
    Não conhecia essas reverências mas quando me levanto pela manhã uma das primeiras coisas que faço é olhar o dia e o tempo e, mesmo sem querer ou planejar, comungar com ele. Talvez seja esta a minha reverência.
    Muito obrigada por todas as suas palavras.
    Até depois das festas. Que elas sejam pura felicidade para você e os seus.

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    Respostas
    1. 1) Oi Ana, já é uma bela reverência.

      2) Vai ver que no inconsciente, lá na antiguidade Brahmânica, vc já fazia a reverência...

      3) Gratidão por 2017, vamos tocar para frente em 2018.

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  3. Francisco Bendl24/12/2017 06:45

    Caro Rocha,

    O nosso querido amigo Wilson foi muito feliz ao deixar como encerramento desse ano um artigo de tua autoria.

    Os ensinamentos de Buda são importantes pelas mensagens que trazem consigo, principalmente para aqueles que se encontram desorientados.

    As direções que apontaste, as reverências que lhes devemos, a escolha do caminho de cada um, demonstram que o Budismo não só se preocupa com o ser humano, mas com o que lhe rodeia, pois este planeta e o que lhe compõe como as mais variadas formas de vida existentes, fazem parte do ser humano, não são estanques, logo, necessitam que consideremos esta nave interplanetária que nascemos e morremos como um todo, e não que sejamos seus donos ou que tenhamos em nossas mãos seu destino!

    Belíssima menagem de Natal, pelo qual eu quero reiterar que desejo a todos muito Boas Festas, e que saibamos escolher o caminho para o ano que vem.

    Um forte abraço.
    Saúde e paz.

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  4. 1) Obrigado e abração Bendl, li na TI sua mensagem natalina falando das riquezas dos netos e familiares. Parabéns

    2)Obrigado tb pelos comentários aos meus artigos neste maravilhoso blog.

    3)Saúde sempre !

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