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07/01/2018

Crônica de um tempo anunciado


Ana Nunes

Lençóis brancos, roupa branca, espumante super gelado e fogos coloridos na TV e na janela.
Tanta expectativa, tanto preparo, tanto trabalho.
E o sonho se desfaz em branco como branca é a melancolia que aparece com a fumaça branca dos fogos. Como um relâmpago branco que, magnífico, corta o céu e acaba no trovão. E nem sempre traz a chuva anunciada que vai para o fim do mundo onde acabam os sonhos. Como canta Andrea Bocelli
“dove va a morire il sole,
 dove il vento si riposa,
 ci son tutte le parole...”

As garrafas vazias em um canto qualquer fazem história e contam estórias. Papéis coloridos amassados lembram presentes a serem guardados. E a orquídea branca sobrevivente traz uns toques de carinho trocado.
É desmontar a árvore e guardar as luzes que a festa acabou.
Estrelas coloridas falso brilhantes são colocadas em caixas . Quer saber? As outras de verdade quando brilham no céu escuro são tão mais lindas!

Felizmente aquele Papai Noel ridículo que sobe e desce na correntinha com música que nossa paciência... (que que é isso?), vai junto com as estrelas falsas. Desconfio que se eu tiver mais um Natal esse Papai Noel não vai ter! É que os netos gostam. Mas avós também têm vez, acho.

O bingo na noite de vinte e quatro foi sucesso absoluto com a primeira participação ativa e independente dos dois netos. É um bingo de coisas novas e coisas que não queremos mais. Vai de mixer novo na caixa a filmes idiotas e, idem, livros do Lair Ribeiro e Paulo Coelho trazidos por alguém, de pura sacanagem. O cunhado tirou uma calcinha vermelha... poveretto de lui! E o neto mais velho, todo certinho e sério ganhou uma bolsinha azul para as moedas. As moedas certamente ele tem mas a bolsinha foi causa de profunda vergonha e desagrado. O outro neto mais novo super calorento ao ver nosso ventilador novo disse “isso é injusto porque sinto muito calor de noite e a janela fica fechada, não é justo! Vovó, você me dá um no meu aniversário?” Tirou no bingo (previamente informado do embrulho) um ventiladorzinho de mesa. Felicidade extrema mas na bagunça da rodada do troca troca ficou desesperado na ideia de ter seu presente confiscado. Apelou para o pai grandão. E por dias ficou se escondendo do tio que queria trocar seu envelope com o dinheirinho do lego.
Acho que o bingo do ano que vem não vai ser completo, tem bolinhas numeradas em todos os cantos esvaziados da casa!

Aniversário e Natal terminam com a mesa em festa, em toalha e guardanapos brancos e pratos coloridos. Vinho, espumante e cerveja, porque essa eu não dispenso, colorindo copos garças de pernas bem fininhas, fáceis de virar quando a farra já vai longe. Por isso prefiro os baixinhos. E o cheiro da bacalhoada apertando a fome, o pirão de bacalhau, as vagens crocantes e o arroz branco, o melhor da festa, the best in town! (Coisas do Mano).

Depois,
um silêncio quase pesado preenche esses cantos vazios da casa, divide com as bolinhas numeradas um cansaço e já uma saudade.
E aquela tristeza indefinida de onde os sonhos se repousam povoa a noite.
Atrás das cores dos fogos e das flores das festas o mundo de antes aparece de verdade. E a verdade do nosso tempo é dolorida e feia e cheia de incertezas. Tem tristeza e tem misérias. E fico desanimada achando tudo muito sem sentido.

Mas minha alma inquieta e teimosa acorda com o sol procurando motivos para ficar alegre. E, apesar da vivência já vivida, de já ter descoberto com Guimarães Rosa que viver é muito perigoso, acredita que são mais trezentos e sessenta e cinco dias de esperança, de ideias novas, novas "Conversas", velhos amigos e novas risadas. E talvez um caminhar de mundo novo.
Sem planos, porque planos e listas são fadados ao fracasso. E ao desapontamento.
Só quero ouvir mais música. O resto desejado vem aos poucos.

Ela, minha alminha, também acredita no varal com roupas lavadas com carinho penduradas, de vento ventando para secar. Esse varal colorido trazendo a imagem de uma casa, de panela no fogão e mãos dadas no sofá. No cotidiano da nossa vidinha feliz de ver netos crescendo, amores partilhados e tudo que está prestes a vir neste novo ano.

E durmo à noite, com a imagem inesquecível, numa família onde nunca vi homem algum cantando no banheiro, nem vô, nem pai, nem irmão nem marido, nem filho, a imagem do meu netinho mais novo cantando no chuveiro! Imagem mais linda para me fazer feliz. Minha alma plena de ternura!

Que todos tenham alguém cantando no chuveiro neste ano, muita paz, saúde e gratidão pelas pequenas coisas e pelo fato  de viver mais um ano para dançar novas festas e novas chuvas.

Até mais.


10 comentários:

  1. Léa Mello Silva07/01/2018, 09:21

    Presente de ano novo este texto Ana
    É ver que todas as famílias são iguais e como disse Guimarães Rosa a vida às vezes aperta e depois afrouxa
    E vamos vivendo mais um ano na esperança de coisas boas
    Obrigada Ana 🍷🍷

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  2. Oi Léa querida, minha artista de cinema preferida
    Muitas coisas boas e nós para conversarmos sobre elas, rir das atrapalhadas da vida e chorar as tristezas juntas.
    Beijo

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  3. Cunhada querida, seus textos sempre me tocam bem no fundo da alma. Mais trezentos e sessenta e cinco dias de inspiração, amor e ternura! Beijos!

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    1. Querida Laura, amiga de muitos tempos,
      Como disse para a Léa, e nós juntas mais um ano para dividir nossas vidas.
      Beijo.

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  4. Moacir Pimentel07/01/2018, 17:57

    Caríssima Donana,
    De saída, o branco dos lençóis, toalhas, sonhos e melancolia do seu post me lembrou de uma das estupendas descrições que Charles Dickens faz da sua personagem Miss Havisham: "Eu vi que tudo que deveria ser branco, tinha sido branco há muito tempo, e tinha perdido o seu brilho e estava desbotado e amarelo" ( explico: é que estou escrevendo sobre a Londres dickensiana antes de virar a esquina da Charing Cross Road rsrs) Mas em seguida me lembrei das suas estrelas falsas e verdadeiras e da galera do Coldplay : "Look at the stars/ Yeah, they’re all yellow”.
    Aqui na minha taba brancos são os pratos e de todas as cores as toalhas e os guardanapos e as taças e os copos e tudo isso, todos esses detalhes e cuidados tão femininos que deixam a bacalhoada, o peru, a guarnição marroquina e as fatias paridas mais gostosas. Sabe, Donana?
    O mundo anda tão doido de pedra que quase nos sentimos culpados pela felicidade que experimentamos nas festas de fim de ano, quando ficamos em estado de graça porque a tribo se reúne e então podemos curtir sem presa as pessoas cuja companhia é absolutamente querida e confortável. Feliz é quem tem família e amigos!
    Repare como quase todas as outras coisas que achamos que nos fazem felizes são na verdade apenas maneiras de ter mais disso : tempo para rir e beber e comer e conversar com aqueles que amamos.Tempo para ter experiências fabulosas como ouvir o neto cantando no chuveiro, sentir o cheirinho bom da panela no fogão e ficar de bobeira "de mãos dadas no sofá", com o "coração de menino e o olhar de avô ". Pra que mais? O outro nome disso é vida que “can be wonderful if you’re not afraid of it. All it takes is courage, imagination...and a little dough”. Coisa do Chaplin (rsrs)
    Que as coisas pequenas e as boas conversa consigam, todos os dias, trazer alegria às nossas “alminhas” ainda peraltas. E que não nos falte no freezer- a dica é do Mestre Heraldo! - sorvete de flocos da Kibon, aquele com pedacinhos de chocolate: é tiro e queda contra a ressaca. Funcionou no Réveillon! (rsrs) Acordei feeling good. E já que a senhora quer música mando-lhe uma que é uma tradução – embora infiel - do seu belo post...
    https://www.youtube.com/watch?v=JJ-EUochlIM
    “Até mais”

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    1. Olá querido Moacir,
      Aqui os pratos brancos estamparam toalha em flores aquareladas na passagem do ano. Para falar a verdade no almoço de 31 porque os sobreviventes foram passar a noite com os amigos. "Isso é justo!"
      "O mundo anda tão doido" que eu me sinto culpada, não quase, nesses dias. Sinto tristeza e um pouco de vergonha de ver os presentes embrulhados, os vinhos caros e a geladeira sem lugar. É uma angústia grande e solitária porque não tenho direito de embaçar a alegria dos queridos. Incoerentemente é essa alegria alheia que me alivia um pouco. E haja copo! Alto de perninhas compridas, baixo de pernas curtas, sem pernas, sextavado, redondo, o que seja! Cheios de amarelo com colarinho, dourado, rosa ou vermelho escuro. Como sabe as cores me encantam(rsrs).
      Talvez por esses mesmos motivos as clínicas psiquiátricas superpovoam nessa época.
      Adorei a música, tenho ela em CD. Adoro Nina Simone. Aprendi a gostar dela com um amigo querido e abandonado no trabalho com arte e pacientes. Vou ouvi-la hoje até cansar. Ando deixando a música de lado (daí o desejo), não sei porque. Também o sr. Redator que tem uma bela coleção e muito bom gosto musical. Eu sou mais eclética.
      Feliz com Londres dickensiana e a virada na Charing Cross Road.
      Gratíssima.
      Até mais.

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  5. Francisco Bendl08/01/2018, 08:22

    O retorno do Conversas do Mano não poderia ter sido melhor:
    Um texto da Ana, da dissidente Ana, minha amiga.

    E ela inicia 2.018 comentando sobre as incertezas das certezas, pois esta é a realidade que nos cerca, as incertezas de cada dia desse ano que ora começa, portanto, certezas.

    O que é bom passa rápido:
    Natal, aniversário, as alegrias, a família reunida, as comemorações, os fogos que se dissipam, e nos deixam com uma imensa nostalgia para o dia seguinte, onde deveremos buscar razões que nos motivem a seguir em frente, pelo menos.

    Se o país está mergulhado em incertezas para este ano, e muitas vidas o acompanham, neste blog extraordinário encontraremos nos textos da Ana a certeza de um conto, crônica, relato, seja lá o que ela fizer, de qualidade indiscutível, primorosos, bálsamos por ela escritos que nos ajudam a refletir, pensar, e concluirmos que este oásis cultural está a cada dia que passa melhor, mais aconchegante, mais acolhedor, mais agradável.

    Meus parabéns, Ana, pois aplaudo este teu texto como sempre bem escrito, com as suas mensagens bem definidas, e o modo único como te expressas.

    Um forte abraço.
    Saúde e paz, extensivo aos teus amados.



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    1. Olá meu amigo dissidente,
      Estava com saudade. Muito tempo sem "conversas."
      Seus elogios me comovem e me deixam meio suscetível. E é muito bom quando o que a gente escreve reflete o que outras gentes sentem. É pacificador.
      Nostalgias divididas vamos em busca de novos aniversários, netos, amigos e risadas, "as razões que nos motivem a seguir em frente". E nas incertezas do país que o blog do Mano continue acolhedor e agradável. (Vamos nos dissidentar dissimuladamente algumas vezes? Que tal? Que o Mano não nos ouça)!
      Obrigada Francisco Bendl.
      Muita saúde e paz para nós todos.

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  6. Heraldo Palmeira13/01/2018, 20:17

    As festas que sempre desejamos boas, que são boas, que fazemos boas, que fingimos boas... Não interessa. Importa mesmo é festejar, relevar, acreditar, renovar e seguir vivendo mais um ano que prometemos diferente. Mas não nos importaremos se for igual. Seguiremos. Até mais.

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  7. 1) Belo texto natalino Ana, parabéns.

    2) Li-o em Brasília, mas não sou grande coisa na web. Se eu comentasse, sairia com o nome da minha irmã... então fiquei em silêncio...

    3) Cheguei ainda há pouco (14/01) da Capital Federal, aos poucos irei atualizar comentários.

    4)Tudo de bom para todos (as) em 2018 !

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