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05/04/2018

O jardim de minha mãe

Kango - Rose Rouge - 2007 (licença wikimedia commons) 


Domingos Ferreira
A beleza do texto da Ana publicado aqui outro dia, “Para não dizer que não falei das flores”, e a delicadeza do traço das figuras despertaram-me saudosas lembranças de minha querida mãe. Dona Maria era apaixonada por flores. A modesta casa térrea dela, em uma rua tranquila de Goiânia, há muitos anos atrás, tinha um lindo jardim que pegava toda a frente do terreno, separado da calçada por uma mureta de um metro e trinta de altura, o que deixava a beleza daquele jardim à vista do passante.
Um caminho estreito ligava o portão à ampla varanda acolhedora, onde havia uma portentosa rede de dormir maranhense, bordada, da melhor qualidade. Uma mesa redonda e duas poltronas e duas cadeiras de vime, e uma ampla bacia de bronze, cheia de jornais e revistas, completavam o cenário austero, coerente com o temperamento de meu pai. Ele era um competente engenheiro aposentado, funcionário público, que dedicara a vida a construir estradas de ferro pelo Brasil, incluindo a que atingia Brasília, inaugurada poucos anos antes. A altura da mureta possibilitava à Dona Maria ver, da rua, o seu jardim. Isso porque a estatura dela era de um metro e meio, magrinha, um azougue de atividade, alegria de viver e sensibilidade. Meu sensato pai, com um metro e oitenta, apaixonado por ela, e toda a família, havíamos ponderado que aquela mureta não trazia nenhuma segurança à casa. A solução foi criar um cachorro, com o sugestivo nome de “Babão,” que se revelou um poço de preguiça e um relações públicas dedicado, abanando o rabo para qualquer um.
Mamãe passava horas cuidando do seu tesouro, auxiliada por um jardineiro, o Severino, trazido da Fazenda Santa Cruz do meu avô, no Maranhão, de onde viera nossa família.
Toda manhã, depois de uma ou duas horas no batente do jardim, ela entrava feliz na varanda e interrompia papai, em sua religiosa leitura do jornal. Ele ouvia pacientemente, fazendo uma ou outra observação. Só então, ela entrava na casa para cuidar de outros afazeres.
Naquela ocasião, estava se aproximando o “Dia das Mães”. Ela, então, dedicou mais atenção às rosas do jardim, pelas quais era apaixonada. Inclusive, havia um lote delas cujas mudas meu pai trouxera de um roseiral de Barbacena, famosa pela produção dessas flores.
Na véspera do Dia das Mães, a família acordou com um choro convulsivo de mamãe, totalmente descontrolada. Ela estava na varanda da frente, apontando horrorizada para seu jardim, sem poder articular uma palavra. A seu lado, o Severino, engasgado, tentava consolá-la. O jardim estava destruído e tinham sido roubadas quase todas as flores, principalmente as rosas.
Em cima da mesa da varanda havia um papel, sob uma pedra, dizendo:
“Obrigado pelas flores”...
O jardim da mamãe foi penosamente revivido. Ficou lindo de novo. Porém, cercado por uma grade robusta e vigiado à noite por dois cães ferozes. O Babão foi transferido para o quintal...


8 comentários:

  1. Francisco Bendl05/04/2018 22:18

    Nem sempre as lembranças de episódios familiares são alegres.
    Este, relatado pelo Ferreira, bem escrito, aborda a alegria de sua mãe com o jardim e a sua grande decepção quanto teve as suas flores roubadas!

    No entanto, houve a devida reação, com o jardim refeito e proteção contra os "amigos do alheio", inclusive com cães de guarda!

    Pois esta passagem que ficou gravada na mente do autor, me faz viajar no tempo quando ouvi ainda no colégio cursando o Primário, lá pelos idos de 56/57(!), um colega do Ginásio vencera um concurso de poesias ao declamar Mãos de Minha Mãe.

    As mãos de minha mãe

    No tecido da história familiar, as mãos de minha mãe reforçaram as costuras
    para nos protegerem de qualquer empurrão da vida …
    As mãos de minha mãe uniram com um alinhavo as partes do molde sem esquecer que cada uma é diferente da outra e que juntas fazem um todo como a família …
    As mãos de minha mãe fizeram bainhas
    para que pudessemos crescer,
    para que não nos ficassem curtos os ideais …
    As mãos de minha mãe remendaram os estragos
    para voltarmos a usar o coração … sem fiapos de ressentimentos …
    As mãos de minha mãe juntaram retalhos
    para que tivessemos uma manta única que nos cobrisse …
    As mãos de minha mãe seguraram presilhas e botões
    para que estivessemos unidos e não perdessemos a esperança …
    As mãos de minha mãe aplicaram elásticos
    para nos podermos adaptar folgadamente às mudanças exigidas pelos anos …
    As mãos de minha mãe bordaram maravilhas
    para que a vida nos surpreendesse com as suas contínuas dádivas de beleza …
    As mãos de minha mãe coseram bolsos
    para guardar neles as moedas valiosas das melhores recordações e da minha identidade …
    As mãos de minha mãe, quando estavam quietas… zelavam os meus sonhos
    para que alimentassem os meus ideais com o pó das suas estrelas …
    As mãos de minha mãe seguraram-me com linhas mágicas,
    quando entrava na vida … para começar a vesti-la!
    As mãos de minha mãe nunca abandonaram o seu trabalho…
    E sei muito bem que hoje, onde estiverem, fazem orações por mim …
    E eu …
    Eu beijo-as
    como se recebesse bençãos!"

    (desconheço o autor)

    Parabéns, Ferreira, pela postagem.

    Um abraço.
    Saúde e paz.

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    1. Amigo Chico
      Mãe é um assunto sempre delicado, em todas as épocas e latitudes. Afinal de contas, elas nos trazem ao mundo e se dedicam, incondicionalmente, ao nosso bem , por toda a vida.
      Os versos que você transcreveu dizem bem isto. São delicados e lindos como elas merecem, junto com todas as flores do mundo.
      Um abraço de irmão
      Domingos

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  2. Olá Domingos,
    Seu texto comentário é terno e lindo era o jardim de sua māe.
    E suas lembranças são doces e delicadas, tão boas de se carregar pela vida afora.
    Obrigada por suas palavras e seu comentário tão íntimo. Como íntimas costumam ser as coisas do coração.
    Até mais.

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    1. Estimada Ana
      É difícil encontrar palavras para agradecer o que você diz. É muita emoção, que me deixa com lágrimas nos olhos.
      Conheço uma frase que resume nossos sentimentos: "O mundo seria cinzento não fossem as mulheres e as crianças.
      Respeitosamente, beijo suas mãos.
      Domingos

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  3. Moacir Pimentel06/04/2018 08:10

    Domingos,
    Como o ladrão, eu vou teclar... “Obrigado pelas flores”...desse seu belo post, que me traz tantos bytes de memória e me leva de volta à infância, a lugares maravilhosos e perfumados como jardins e abraços de mãe e de vó. Naquele tempo os jardins eram territórios mágicos para se experimentar a vida: cavando, plantando, colhendo, construindo, tocando, cheirando e vendo e pensando.
    Feliz de quem, em vez de um play-ground teve um deles para brincar! Abençoado quem pôde ser menino às voltas com terra, plantas e animais em vez de i-trecos, quem teve a oportunidade de crescer em lugares fabulosos nos quais se subia em pau de sebo, se usava estilíngue , se soltava "papagaios" feitos com o talo do mamoeiro que também servia de canudo para fazer bolhas de sabão e, na falta de bambus,até mesmo de zarabatana para soprar munição - canudinhos feitos com o papel de embrulho do "barracão" - capaz de furar as "casas de marimbondo". E depois correr.... muuuuito!
    Pobres dos meus netos às voltas com suas vidinhas controladas e estruturadas tentando fantasiar nas brinquedotecas de seus prédios e nos play-grounds cimentados de suas escolas em vez de fingir que árvores e roseiras são as florestas do Tarzan e/ou do Robin Hood. Obrigado por me trazer à lembrança o portão pesado de madeira, a "caixa de areia", os degraus semicirculares subindo até a varanda, o balanço na mangueira, a rede, a mesa e bancos de cimento debaixo da ramada onde sempre se ouvia histórias de fantasma. Por quase escutar de novo o badalar o sino chamando "o povo" para almoçar na mesa da cozinha quando não era dia dos "cozinhados" que as primas - meudeus pra quê tanta prima?! - faziam nas campinas. Obrigado por quase me fazer sentir o ar carregado com o cheiro delicioso dos canteiros rodeados por tijolos onde desabrochavam - antes de ir enfeitar o "quarto dos santos"- rosas e margaridas, copos de leite e dálias. Mas mesmo findas as férias e de volta à cidade grande e deixando hors concours o mar do seu encanto, tinha coisa melhor do que os tais verdes "terrenos baldios" de então?
    Abração

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    1. Amigo Moacir
      Os italianos dizem que "se você não tem um avô em casa, alugue um". E as avós, como é que ficam? é uma grande injustiça!...
      Mamãe adorava a casa cheia de netos. Quanto mais bagunça melhor...Até a hora em que eles ficavam impossíveis... Aí, ela os colocava em fila para dar um puxão de orelhas, sendo que os mais altos tinham que se curvar porque ela era muito baixinha...Era uma cena que nunca esqueci...
      Havia uma implicância comigo, porque eu era o caçula, único macho, e morava no Rio, interno no Colégio Militar. Coitadinho...Minhas irmãs morriam de ciúme...
      Um tio meu,também morador no Rio, médico militar ,muito brincalhão, sempre dizia que a "melhor época para visitar a Maria era quando o "delfim" ia para lá" pois "o passadio ficava ótimo"...
      Tenho uma imensa saudade de tudo isso.
      Um forte abraço
      Domingos


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  4. 1) Falar, escrever e comentar sobre flores sempre é muito bom.

    2) Embelezam vida !

    3)Parabéns pelo ótimo texto Domingos.

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    1. Estimado Rocha
      Mulheres e flores fazem uma combinação perfeita na natureza.
      Muito obrigado por suas palavras.
      Um forte abraço.
      Domingos.

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