Monique L'Anglois - L'entrée de la Place du Tertre avec les peintres (2015) |
Moacir Pimentel
No coração
de Montmartre ainda resiste a Place du
Tertre, formalmente conhecida como “Le
Carré aux Artistes”, ou a Praça dos Artistas, que se parece com uma pracinha
do interior e que funciona como o lar dos pintores e caricaturistas que ali
fazem e mostram e vendem o seu trabalho, garantindo o seu ganha-pão com os
turistas.
Talvez o
mais amado dos caricaturistas do bairro tenha sido Jules Dépaquit. Quem visita
o apartamento onde ele viveu em um dos edifícios da praça, volta aos velhos
tempos e quase pode vê-lo ali captando as personalidades de quase todos os
grandes artistas e personagens de Montmartre, muuuito parecidos com o autor:
talentosos, ostentosos e cheios de dívidas.
Frequentador
inveterado dos cabarets, Jules ganhava a vida vendendo desenhos humorísticos e
ilustrações e a perdia nos bares, onde entrava ereto e saía curvado em uma
agenda na qual depois de uma semana de abstinência, seguiam-se três de
excessos.
Seus
desenhos e caricaturas foram publicados por todos os jornais especializados em
humor e muitas das revistas políticas, então chamadas publicações satíricas,
como Le Rire e Le Bon Vivant e La Baïonnette e Le Canard Enchaîné, mas Jules
não negligenciava a colaboração para a grande imprensa informativa.
Jules Depaquit - Chaud les marrons (publicada no Le Rire, 1915) |
Para
apresentar tal personagem, uma das figuras mais emblemáticas da colina, nada
como ler seu programa de governo, quando ele participou das primeiras eleições
para Prefeito da Comuna Livre de Montmartre, aliás um lugar de sua invenção.
Abre aspas:
- Construção de tobogãs para descer a Butte.
- Instalação de passarelas móveis para chegar de um bistrô a
outro.
- Proibição de morrer no território da Comuna Livre de Montmartre,
sob pena de morte.
- Declaração da paz em caso de declaração de guerra.
- Supressão dos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. Nunca
inverno!
- Supressão da água. As fontes ejaculariam vinho tinto, rosado ou
branco de acordo com o gosto dos usuários.
Fecha aspas.
Pois é. Claro que eu teria votado nele! Mas essa foi uma eleição duríssima.
Pelo partido dos dadaistas concorreram o escritor e poeta Andre Breton, o
pintor Franz Picabia e os poetas Paul Éluard e Tristan Tzara, que chegara a
Montmartre como o Messias do dadaísmo. Havia a chapa dos “Selvagens” que
queriam transformar a Sacré Coeur em uma piscina municipal para não falar da
ala cubista representada por Picasso, Max Jacob e Cocteau, com um slogan para
lá de questionável: “Um arranha-céu, dois
arranha-céus, três arranha-céus!”
Mas foi a
chapa de Dépaquit que ganhou a eleição, com o apoio dos pintores Francisque
Poulbot, Suzanne Valadon e Maurice Utrillo. Assim ele se tornou o primeiro
Prefeito da Comuna Livre de Montmartre, fundada em 11 de abril de 1920, na
sequência de uma reunião realizada em um quarto reservado do Cabaret Lapin
Agile, e assumiu o cargo fantasiado com um casaco aristocrata, um chapéu alto,
uma faixa onde se podia ler a palavra prefeito, tamancos de madeira e um lenço
com as cores de Montmartre: vermelho e verde. O vermelho da Comuna e o verde
dos vinhedos e jardins.
Apesar de
seu status oficial como prefeito de uma comuna não oficial, ele faliu repetidas
vezes ao longo da vida. Diz Dona Lenda que para se proteger dos credores que o
perseguiam, Dépaquit escreveu na porta de sua casa: “WC”. Quando um deles
batia, ele gritava lá de dentro: “Ocupado!” (rsrs)
Esse
defensor e amante da colina, no entanto, não era um de seus filhos. Ele chegara
na butte em 1893, onde foi recebido por Rodolphe Salis, o dono do cabaret Chat
Noir, que o ajudou a se enturmar. Com um amigo de nome Georges Delaw, um pintor
e decorador tão recém chegado em Montmartre quanto ele, compartilhou um quarto
no Hotel du Poirier, que usava de noite e Delaw ocupava de dia!
Depois foi
um dos inquilinos do Bateau Lavoir na Praça Émile Goudeau. Quando graças a seus
desenhos ganhou um pouco dinheiro - muito pouco! - alugou um quarto no Hotel de
Tertre, acima do famoso restaurante Bouscarat, na esquina da Place du Tertre
com a Rue du Mont-Cenis, onde foi vizinho do compositor Erik Satie e do seu
amigo o escritor Pierre Mac Orlan .
Em seguida,
quando suas caricaturas começaram a lhe dar alguma segurança financeira, ele
mudou-se para um pequeno apartamento na Rua Saint-Vincent, atrás do cabaret
Lapin Agile, como inquilino do cantor e empresário da noite Aristides Bruant.
Foi quando se tornou freguês do Le Belle Gabrielle, um café e pousada dirigido
por Marie Vizier, juntamente com Maurice Utrillo.
Aí
juntaram-se a fome e a vontade de comer! O caricaturista e o pintor ficaram
amigos de infância e passaram a beber todas nas mesas do Gabrielle. O nome de
Jules é, inclusive mencionado na pintura de Utrillo de nome La Maison Bernot,
de 1924, que pode ser vista no Musée de l'Orangerie em Paris e onde se lê: “Comuna livre de Montmartre, Jules Depaquit,
prefeito-ditador”.(rsrs)
Maurice Utrillo - La Maison Bernot (1924) |
A tal Comuna
Livre de Montmartre ainda hoje é ativa, embora menos criativa e provocadora. Os
notáveis da colina de hoje não têm nada da insolência e do espírito iconoclasta
de Depaquit, o gosto pela provocação, o espírito inconformista e a imaginação
delirante de seus predecessores que se fantasiavam como o grande Bruant, com
capas pretas e lenços vermelhos para as reuniões oficiais comunais.
Foi como
prefeito que Dépaquit inventou a Foire
aux Croûtes - uma feira na esquina da Rua Caulaincourt com a Place
Constantin Pecqueur, onde os pintores talentosos rejeitados nos circuitos
oficiais podiam mostrar seus trabalhos e que hoje ainda rola na Place du
Tertre.
Dépaquit se
despediu em 1924 e a Velha Senhora o sequestrou longe de Montmartre, em Balan,
e portanto ele não dorme seu sono eterno, como desejava, no cemitério de São
Vicente. Mas ele está sempre presente na colina. Uma viela de poucas dezenas de
metros de comprimento tem o seu nome entre a Rua Lepic e a Rua Caulaincourt. Na
verdade ela não chega a ser bem uma rua, mas apenas uma passagem estreita que
nem sequer possui uma placa com o nome do homenageado. O poeta Mac Orlan
escreveu um epitáfio digno desse homem que esteve em Montmartre de
passagem, como cada um de nós nesse mundo:
“Seu trabalho se limitou a regular o trânsito entre a Place du Tertre
e a Lua”.
Se
Montmartre se tornou Montmartre, foi graças a criaturas felizes como Jules
Dépaquit: poetas, escritores, pintores, escultores, chargistas, artistas,
acrobatas e pierrôs. Porque quando se viaja rumo às estrelas é preciso não se
levar tão a sério.
O certo é
que muitas mentes livres e criativas viveram na colina, interagindo e
convivendo de uma forma ou de outra, e grande parte da arte do século XX surgiu
desses diálogos e das diferentes explorações realizadas por eles em duas
décadas cruciais: a última do século que findava e a primeira do que começava.
É preciso
examinar algumas das principais mudanças na cultura popular que moldaram esses
profundos desenvolvimentos artísticos ali em Montmartre. A fotografia, filmes,
balés, circos, salões de dança, o teatro das sombras, cartazes e pasquins
ajudaram a formar um ambiente artístico que influenciou o que os pintores
fizeram nas telas.
Havia uma
grande dose de partilha e fertilização nas ideias cruzadas desses círculos
sociais díspares que giravam em torno dos artistas - dançarinos, cantores,
músicos, atores, jóqueis, jogadores, jornalistas, marchands, estilistas e
prostitutas - e que, é claro, começaram a se sobrepor. Rolaram na França no
começo do século XX revoluções na dança - graças a Serge Diaghilev e aos
Ballets Russos - e na moda.
Foi em
Montmartre que travei conhecimento, em um cartaz, com um dos grandes mecenas da
galera artística: Paul Poiret, o maior modista da França nas primeiras décadas
do século XX.
Poiret
nasceu em uma família muito humilde, no bairro de Les Halles, foi aprendiz de
um fabricante de guarda-chuvas, de quem surrupiava os retalhos que sobravam
para fazer roupas. Posteriormente, começou a trabalhar para o consagrado
estilista Jacques Doucet, criou um casaco para uma atriz famosa, de nome
Réjane, que viralizou e em 1903 fundou sua própria “maison”.
Lá ele
assassinou sem piedade os espartilhos, criou vitrines extravagantes e deu
festas retumbantes para divulgar seu trabalho. Foi um dos primeiros estilistas
a entender o significado de marketing, contratando os artistas de Montmartre
para criar catálogos promocionais para suas criações. Ele também expunha as
obras dos artistas de sua predileção nos seus salões.
Em 1910,
Poiret confeccionou o figurino para a Sherazade que o Balé Russo apresentou em
Paris, encantando a todos com a exuberância dos tecidos e as cores dos trajes.
Pioneiramente abriu uma empresa de perfumes lançando fragrâncias com a sua
assinatura - prática que ainda é muito comum nos dias de hoje nas grandes casas
de alta costura - além de uma fábrica de cosméticos e uma loja de objetos para
a decoração.
André Derain - Paul Poiret (1915) |
Grande colecionador
de arte, Poiret foi pintado por Andre Derain e costumava visitar os estúdios de
Montmartre caçando telas. Suas aquisições salvaram da miséria muitos futuros
gênios que, aliás, também lhe eram devedores de muitas refeições na generosa
cozinha do seu “salão de costura”.
Onde, pelo
menos segundo muitas caricaturas, Emma Alice Margaret - a escritora e socialite
e Condessa de Oxford mais conhecida pelos pintores da colina como “Margot”-
costumava exibir as calcinhas da cor das violetas, para desespero do então
embaixador e depois Primeiro Ministro britânico, seu marido.
Mais
artistas famosos viveram em Montmartre no fin de siécle do que em todos os
séculos desde a Renascença. Só que naquelas paragens e tempos férteis não era
mais possível seguir uma única linha histórica/cronológica da arte da pintura:
vivia-se uma nova situação, na qual deixara de existir uma tendência dominante.
Em se tratando da arte do começo do século XX ali apenas se pode rastrear
algumas correntes principais se influenciando umas às outras.
Nos longos
dias que já passei perambulando de um lugar para outro, de museus para
livrarias, de cafés para cabarés, de bistrôs para galerias de arte e sebos, de
Montmartre para Montparnasse e vice-versa, eu escutei, vi e aprendi.
Foi ali que
li os escritos de André Salmon pela primeira vez e bem assim, que ouvi a
história de Manuel Martinez Hugué, mais conhecido como Manolo, que também foi
pintado por Picasso.
Pablo Picasso - Manolo (1904) |
Ele foi um
estupendo escultor catalão cujo estilo parece até ter inspirado, muito tempo
depois, as obras de Aristide Maillol. Sucede que Manolo esculpiu muito pouco
simplesmente porque não tinha dinheiro para comprar material e, em vez, fez
joias para ganhar a vida. Ele morou em Montmartre de 1900 a 1909 e lá acolheu
Picasso recém chegado de Barcelona, apresentando-o aos círculos artísticos do
bairro.
Dos quais
fazia parte outra figuraça, Bibi la Purée, o mais famoso vagabundo e
trombadinha do bairro, pintado por um Pablo Picasso de vinte anos durante a
primeira visita que fez a Paris, em 1901. Naquela época quem não conhecesse Bibi
nada sabia de Montmartre. Pois ele fazia parte da mitologia daquelas paragens
boêmias, uma das figuras pitorescas e hilárias do bairro.
Fora
batizado como André-Joseph Salis de Saglia, filho de um comerciante de vinho de
Angoulême e era sobrinho do Abade Salis. O que Bibi fazia da vida em Montmartre?
O mínimo
possível. Ele gostava de ar fresco, vida mansa, muita leitura e liberdade de
movimento, cometia pequenos roubos e suas vítimas podiam ser tanto os estranhos
quanto os amigos. Ele tinha uma paixão avassaladora pelos guarda-chuvas
alheios, tão úteis em uma cidade chuvosa como Paris. Suas roupas eram de
segunda mão, mas sempre elegantes e ele sempre desfilava ladeiras acima e
abaixo com uma bela flor na lapela, um chapéu nos trinques, um cachecol
colorido no pescoço e um cigarro pendurado nos lábios e era um fã de
carteirinha dos tipos criativos do bairro.
Pablo Picasso - Portrait de Bibi La Purée (1901) |
Conta Dona
Lenda que, um belo dia, o poeta Paul Verlaine, na falta do que fazer, estava
sentado no Café Procope para lá de Marrakesh, quando sentiu alguém mexendo na
sua perna. Era Bibi, tentando remendar com agulha e linha as calças do seu
colega na falta de rumo. Ele explicou a Verlaine que era ilógico e inaceitável
que ele, Bibi, um mero pardal dos bulevares, usasse boas calças decentemente
remendadas, enquanto que o maior dos poetas vivos, o rouxinol de Montmartre, estava
ali sentado expondo as canelas cabeludas sob seus farrapos a um mundo pouco
caridoso.
Verlaine
riu, levou-o para casa e abrigou-o “por
alguns dias” que na verdade se prolongaram até que a Velha Senhora os
separou. Há muitas versões dessa estranha amizade entre o genial poeta e o
risonho vagabundo mas todos são unânimes ao afirmar que Bibi desenvolveu a
obsessão de engraxar os sapatos de seu hospedeiro. Dizem que Verlaine, de tão
exasperado com essa compulsão do hóspede, às vezes saía por Montmartre descalço
(rsrs)
Além dos pés
daquele a quem chamava de “Mestre”, la Purée cuidava para que o poeta chegasse
em casa inteiro depois de suas famosas noitadas de ópio e absinto que ele, é
claro, compartilhava sem se fazer de rogado. Parece que de tanto conviver com
os versos alheios dia, noite e madrugada, Bibi meteu na cabeça que também era
poeta e aí é que nunca mais quis dar um dia de serviço a Seu Ninguém.
Mas a
amizade era verdadeira porque Verlaine dedicou um ou dois sonetos ao ex-ator
afável e excêntrico, de cabelos compridos, que sobrevivia roto pelas ruas da
colina sempre sorrindo e de sapatos engraxados e brilhantes, roubando comida
nas bancas dos mercados, bebendo absinto como se não houvesse amanhã e
recitando.... Verlaine.
“Seja o teu
verso a boa aventura
Esparsa ao áspero ar da manhã,
Que vai cheirando a giesta e hortelã…
E tudo mais é literatura.”
Quando
Verlaine se despediu em 1896 o mundo literário se reuniu para proporcionar um
funeral majestoso ao grande poeta. Entre os famosos presentes lá estava Bibi,
sujo, mal vestido, em lágrimas, um verdadeiro constrangimento. Ele é mencionado
nessa cena fúnebre por um poema da lavra de Paul Fort que descreve a figura no
sepultamento: chorando abertamente à beira da cova do amigo e depois fugindo da
cena do crime levando pelo menos uns quinze guarda-chuvas, vistos pela última
vez encostados a uma árvore do cemitério (rsrs)
Jules
Depaquit nos conta de como Paul Verlaine deixou para Bibi três camisas velhas e
de como quando ele, Jules, comentou que estava precisando de um novo chapéu,
Bibi apareceu no dia seguinte com vários chapéus novinhos em folha para lhe dar
de presente sem nenhuma explicação de suas procedências. Ele não aceitava
dinheiro dos artistas por esse tipo de “favor”, pois era, na sua própria
opinião, um cavalheiro.
Cavalheiro
ou não, todo mundo precisa de algum dinheiro para viver e Bibi teve que
considerar os meios de obtenção do vil metal depois da morte de Verlaine. Ele
então decidiu se tornar um engraxate mas seu orgulho o impedia de se ajoelhar
diante dos burgueses tolos, dos titãs das finanças, dos banqueiros gordos que
desfilavam arrogantes por Montmartre atrás de diversão. Ele escolhia seus
clientes: os boêmios e artistas circundantes!
Até que se
rendeu à tuberculose no Hospital do Hôtel-Dieu, abençoando todos ao seu redor,
médicos, enfermeiros e pacientes, pois nessa época estava convencido de que era
o Papa Leão XIII.
Jacques
Villon o pintou e Jean Bailleul o esculpiu em bronze e os cantores do bairro o
eternizaram e aos seus guarda-chuvas nas canções populares. Picasso esboçou-o
quatro vezes, provavelmente quando encontrava La Purée nas brasseries e nos
bares de Montmartre que ambos perseguiam. Mas ficou tão fascinado pelo idoso
que deu-lhe um trato com tintas de cores ásperas e expressionistas, nessa
pintura de pinceladas vigorosamente aplicadas, que capturaram a energia
grotesca e intransigente do sorriso de um Bibi que nos devolve a mirada em meio
a um mundo de tanto impasto que o coitado parece literalmente ter que apertar
os olhos para poder nos ver através de toda essa tinta.
Essa pintura
de La Purée, no entanto, mostra como uma nova geração assumira o estilo de
pintura expressionista quase violenta de Van Gogh e como isso foi uma revelação
para Picasso quando chegou a Paris. Essa obra de arte é como um alarme de
incêndio no final da pintura tradicional anunciando o alvorecer de um novo
mundo.
Para
entender o tsunami artístico de Montmartre nessa virada do dois últimos séculos
é necessário também conhecer os grandes colecionadores e comerciantes de arte
de então - notadamente Ambroise Vollard e Daniel-Henry Kahnweiler –
responsáveis que foram por uma parte importante da história dos grandes
artistas.
E bem assim
a escritora e o crítico de arte americanos Gertrude e Leo Stein, por exemplo,
os mais vorazes colecionadores de arte de Paris na primeira metade do século
XX. Os talentosos pintores da colina mereceram a atenção dos dois irmãos que
lhes compraram dezenas de telas e, é claro, passaram a ter grande ascendência
sobre os diversos processos criativos.
Gertrude e
Leo viraram amigos de infância dos artistas e frequentadores assíduos de Montmartre
após terem comprado um quadro de Matisse. Leo muito admirava o pai do fauvismo
enquanto Gertrude preferia os trabalhos de Picasso. Sua carreira como escritora
seguiu paralela à do pintor: ele pintou-a e ela escreveu um ensaio sobre o
artista de sua predileção.
Nos
alfarrabistas e galerias empoeiradas da colina se pode achar ainda hoje
ilustrações e caricaturas de cenas que não constam dos livros, como por exemplo
a de Marie Laurencin em traje de esgrima e Gertrude Stein exasperada, deixando
cair todos os seus livros no chão estrepitosamente com o propósito de dar um
basta no fluxo interminável de críticas bobóides que seu irmão Leo – famoso
crítico de arte! - lhe repetia ad nauseam
sobre as pinturas cubistas de Picasso, que ela venerava.
Mas essas
serão outras conversas.
Amei tudo! Começando pela Praça dos Artistas onde um deles fez uma caricatura minha super engraçada que decora meu quarto. E ri muito! Dos projetos eleitorais da Comuna, do prefeito que morava num WC ocupado, e de Bibi remendando as calças do ‘seu colega na falta de rumo’ kkk Bom feriado e obrigada!
ResponderExcluirMônica,
ExcluirQue bom que você riu! É disso que se precisa! E olha que eu não contei da missa um terço. São muitas as lendas sobre as presepadas que os artistas cometiam pelos cabarés, os salões de dança e cafés do bairro. Como, por exemplo, o famoso banquete oferecido por Picasso e seus amigos em homenagem ao excêntrico e querido pintor Henri Rousseau. Dizem que no final do bacanal, o escritor André Salmon foi descoberto, feliz da vida em um porre homérico e comendo as cerejas de cera que enfeitavam o chapéu da Alice, a amiga de Gertrude Stein. E isso depois de já ter devorado um telegrama de entrada (rsrs)
Obrigado e abração
Moacir,
ResponderExcluirUm artigo muito informativo e divertido. Os moradores boêmios do bairro são muito engraçados e descritos com tanta alegria e detalhes que até parece que você participou das diabruras deles. Mas destaco a incrível história de Bibi la Purée e o retrato dele feito por Picasso que é maravilhoso e combina com tudo que você contou do caráter do modelo.
Um abraço para você
Flávia,
ExcluirSim, Picasso foi um retratista estupendo. São notáveis os seus auto retratos e as pinturas que ele fez de suas mulheres - clássicas, cubistas, simbolistas, surrealistas e pavorosas quando o casamento acabava (rsrs) Ele insistia, sim, em “combinar” seu estilo com as características de seus modelos. Isso era um hábito antigo, de quando ainda estudante ele se divertia fazendo esboços rápidos de seus amigos em guardanapos, sacos de papel, nas margens de seus livros e cadernos escolares. Quando adolescente, na Escola de Belas Artes, passou a fazer caricaturas cruéis de seus colegas e, mais tarde, dos marchands e rivais e companheiros de boemia que ele registrava com algumas pinceladas arrojadas - um pescoço alongado, um bigode ridículo ou um estranho par de óculos. Eram piadas, uma maneira de cimentar laços de amizade: um pintor corado de muito absinto, um poeta com uma cabeça em forma de pera , Apollinaire como um homem de negócios gordo e barrigudo. Longe de serem insultados pela visão do toureiro, seus amigos valorizavam os rabiscos.
Só que foi através desses esboços e caricaturas que ele aperfeiçoou a capacidade de editar, destilar e exagerar detalhes que lhe permitiram produzir retratos que iam muito além das realidades, da mera semelhança da superfície e, em vez disso, penetrar na essência dos seus temas. Mesmo quando Picasso se afastou completamente, como veremos mais adiante, do naturalismo descritivo, sempre procurou encontrar os detalhes que tornassem os indivíduos instantaneamente reconhecíveis para si mesmos e para os outros.
Obrigado e outro abraço para você.
O grande conhecedor e estudioso das Artes, e praticante da mais difícil delas a Escrita, porque ele Sr. MOACIR PIMENTEL é também um grande Escritor, nos brinda neste Artigo com informações deste Bairro de Montmartre - Paris-FR, berçário de tantos Artistas e da vida boemia, especialmente na época da belle époque.
ResponderExcluirMuito Obrigado Sr. MOACIR PIMENTEL por tão interessantes e agradáveis Leituras.
Abração.
Prezado Flávio Bortolotto,
ExcluirObrigado por continuar lendo sobre Montmartre que, nas décadas em pauta, sediou um dos capítulos mais surpreendentes e menos compreendidos na história da arte pois mistura impressionistas, expressionistas abstratos, van Gogh em qualquer estilo, fera e cubistas cubismo e todas as estranhezas possíveis e imagináveis e por aí vai.
Se a leitura está sendo "agradável" não é por causa da qualidade do rascunho mas porque o cérebro humano sempre gostou de histórias animadas e o que não falta nessas paragens são cenários e personagens interessantes (rsrs)
A minha intenção ao teclar tanto sobre o mesmo tema é entender - mais do que explicar! - porque as tintas tomaram o caminho do modernismo fervoroso (rsrs) A resposta é complexa mas começa com as ascensão e comercialização da fotografia, quando a ambição anterior do pintor de imitar a vida na arte passou a pertencer aos fotógrafos. E, como se não bastasse a concorrência, logo apareceram os cineastas. E então esses malucos criativos tiveram que se perguntar: para quê continuar pintando? E percorreram muito chão para encontrar a resposta e um novo objetivo para suas tintas. Sabe? Quando leio seus bons artigos sobre economia sei que o senhor conhece muito bem Dona História e portanto sabe que o maior legado dos Impérios desse mundo foram as suas artes: as esculturas, arquitetura, pintura e literatura egípcia, grega, romana, renascentista. Espero que continue acompanhando - com paciência!- a saga da pintura ocidental.
Abração
Isto é que é Comuna! Estas gerações sucessivas de malucos inteligentes e criativos beberam dos chafarizes certos, rs.
ResponderExcluirMárcio,
ExcluirPois é. A primeira pergunta que pinta na cabeça dos que se interessam pela modernidade na arte é porque essa revolução rolou nesse endereço, em uma colina ao norte de Paris? A resposta é simples: vinho e aluguéis baratos (rsrs) Não havia aquecimento, iluminação ou água corrente para os criativos boêmios pobres de Jó mas não lhes faltava álcool honesto. E ao ler as biografias, assistir os filmes, contemplar as telas e cruzar as informações termino sempre chegando à mesma conclusão: sim, apesar dos pesares, essa galera se divertia (rsrs) Keep Walking!
Pimentel,
ResponderExcluirUm artigo bem humorado e muito esclarecedor de como os artistas e os moradores de Montmartre formavam uma comunidade solidária e de como a vida e a arte de qualquer um deles influenciava as de todos os demais. Você está conseguindo mostrar muito bem como o panorama determinou a pintura na véspera da modernidade. Parabéns!
Olá Moacir,
ExcluirOutro dia num programa sobre educação, revitalização de lugares e aproveitamento de praças foi mostrado, na Alemanha, um pequeno tobogã de aço inox na descida de um barranco, ao lado de uma escada e uma rampa em pedra. Para a garotada se divertir indo para a escola. Não parece o tobogã do Dépaquit? Cara avançado!
Essa efervescência criativa de Montmartre e seus cafés tinha mesmo que influenciar todo o mundo artístico, próximo e futuro. Não há, ainda bem, como escapar!
Por que hoje é tão difícil de acontecer? Coisas do mundo digital e todas as suas consequências? Tivemos a Semana de 20, tivemos a tropicália, e só?
Apesar de uma nossa conversa anterior, continuo achando que a droga, o álcool (vem em separado porque custo a acreditar que é uma droga - rsrs) alivia a angústia criativa e aliviando, potencializa! Pois onde tem efervescência de arte, quaisquer delas, tem alto consumo de droga.
Em tempo: estou em ósseo criativo.
Seu texto é riquíssimo e por causa dos anteriores, a gente já pode estabelecer relações entre lugares, nomes e obras.
E esse Bibi foi uma peça. Louco sim, mas muito divertido.
Muito ao contrário do bobca do Stein que exasperava a irmã, pobrecita, continue nos informando e encantando com seus textos pessoais e bem humorados. Gosto tanto que poderia haver mais uma centena de Montmartres!
Obrigada por hoje.
Até muitos mais.
Caríssima Donana,
ExcluirO seu “ósseo criativo” em nada prejudica os seus comentários que, de tão bons, me provocam respostas quilomééétricas (rsrs) Desculpe-me e puxe o "banquinho", por favor.
Comecemos com as drogas que sim sempre caminharam de mãos dadas com as artes e as xamanices. De certa forma, ainda pensamos como poetava o Baudelaire: que os artistas são tocados por "um sopro de vento das asas da loucura". Não é bem assim - @#$%&@!! – que eu entendo o processo criativo. Acho que tesão, técnica e pensamento podem conviver muito fertilmente.
O busilis é que cada cérebro e psiquê são universos únicos. Ou seja, dizem que o álcool faz muito bem para a libido e é verdade só ele que também torna alguns humanos bem bons de cama: é deitar e apagar (rsrs) Da mesma forma para uns as drogas são recreativas e estimulam a criatividade. Para outros elas são viciantes e depressivas. Sem googlar consigo lembrar de Sylvia Plath à frente de uma fila indiana de artistas que tiraram suas vidas depois de submeterem seus corpos às drogas: Modigliani, Virginia Woolf, Ernest Hemingway, F Scott Fitzgerald, Billie Holiday. De Heinrich Heine a Edvard Munch, muitos resistiram ao tratamento de suas depressões, temendo uma perda de impulsos criativos. Herr Doktor Freud - que também se matou! - argumentava que a criatividade artística é um produto da neurose. Que nós lidamos com os conflitos em nosso subconsciente, fazendo deles objetos. Isso, assim grosseiramente simplificado, é a teoria por trás do link entre doença mental e criatividade. Ou seja, a preocupação dos artistas é no sentido de que, banindo seus demônios, também possam embotar o seu gênio. Mas se a arte é esse transbordamento espontâneo de sentimentos poderosos será que os baseados e as picadas e os prozacs da vida não são uma das causas dos sentimentos e da arte terem encolhido nesses nossos tempos? Sou mais os narizes tintos de vinho.
Continuo...
Com relação ao fato de entendermos os primórdios da arte moderna como a época de ouro da criatividade, penso que o Musée d'Orsay explica. Nele moram justamente os trabalhos estupendos dos pintores que começaram a tornar moderna a arte no final do século XIX : Cézanne e van Gogh, Gauguin e Degas, Manet e Monet, Renoir e, é claro, Seurat, fora Toulouse-Lautrec e Odilon Redon sem falar nos escultores liderados por Rodin. Lá se encontram ainda , do alvorecer do século XX , as telas dos modernistas "primitivos" como Matisse, Derain, Wlaminck, Picasso, Braque, Juan Gris e por ai vai. Agora, em quantos museus do mundo podemos comtemplar obras de vinte artistas vivos consideradas importantes, imperdíveis, revolucionárias? Quantas grandes obras de arte os nossos tempos legarão a posteridade? Onde estão nossos girassóis, nossas nenúfares, nossas maçãs, nossas dançarinas, nossas senhoritas, nossos cubos e colagens?
ExcluirClaro, temos alguns artistas muito bons inclusive nas nossas praias - cito Carlos Araújo - e até mesmo algumas excelentes instalações (rsrs)
Mas há um abismo lamentável entre barulho e realização na arte contemporânea. Por outro lado, será que dá para acreditar realmente que os artistas de Montmartre tinham mais ideias do que os artistas de hoje, que os homens e mulheres de então eram mais inteligentes ou que viviam mais livremente ou amavam melhor do que nós? Será que diferentemente deles nós já chegamos ao ápice do engenho humano, das invencionices, das soluções? Será a nossa espécie é capaz de algum dia desistir da evolução?
Olho para as tintas e certamente duvido.
"Até sempre mais"
Sampaio,
ResponderExcluirEu diria que sim havia um forte sentido de comunidade, de vizinhança e, de fato, sem a generosidade de alguns donos de restaurantes e cafés, por exemplo, os garotos teriam passado fome. Mas os pintores de Montmartre precisavam acima de tudo inovar às voltas com as mudanças ao seu redor : da carruagem ao trem, da vela à luz elétrica, do mensageiro ao telégrafo e ao telefone, da litografia aos raios-x, ao advento do avião , à relatividade e à quarta dimensão. E então, apesar de beberem todas juntos pelos botecos da colina madrugadas adentro, eles tornaram-se competitivos e combativos, entrando e saindo de alianças e tribos, descobrindo, experimentando e trocando, é verdade, mas também protegendo estrategicamente suas ideias originais inventadas para expressar a resposta de cada pintor à vida moderna e mutante.
Compartilhava-se tudo, mas.... só depois do lançamento (rsrs)
Abração
Caro Pimentel,
ResponderExcluirConsidero Balzac o melhor escritor francês, além de ter sido o mais profícuo, a ponto de ser conhecido como o Napoleão das Letras!
Uma das minhas frustrações é não ter a obra completa A Comédia Humana, mais de noventa volumes, abordando a sociedade francesa após a queda de Napoleão.
Cheguei a ler A Mulher de Trinta Anos, O Pai Goriot e As Ilusões Perdidas.
Dito isso, mesmo com as minúcias de Balzac mencionadas em seus romances, o célebre escritor jamais escreveria sobre Montmartre como vens fazendo, Pimentel!
As informações, os pintores, as obras, as escolas que surgiram à época, suas ruas, boates, bares, restaurantes, cabarés, as definições dos ambientes esfumaçados contendo boêmios e prostitutas, que queriam simplesmente viver as suas vidas com emoção e intensidade, repito que nem Balzac teria sido tão pródigo e detalhista quanto ao teu trabalho sobre este bairro famoso de Paris!
Portanto, meu caro, eu que tenho sempre te elogiado e reconhecido a excelência de tuas obras, encontrei uma comparação à altura da tua mente prodigiosa sobre a arte da pintura, englobando descrições primorosas da Cidade-Luz como jamais lidas até os textos de Pimentel!
Logo, és o nosso Balzac, pois profícuo, além de seres um autor que prende a atenção do leitor, em face justamente da riqueza de informações e interpretações que deixas em cada artigo postado!
Um forte abraço.
Saúde e paz.
Cara, é o seguinte: não sei o que você está misturando no seu chimarrão mas coloca menos, está bem? (rsrs) Não visitei a Comédia Humana muito mais do que você, mas penso que o seu comentário balzaquiano é pertinente, nessa "franquia", porque o século XIX, como nós o conhecemos, foi em grande parte uma invenção de Balzac, Flaubert, Hugo, Dumas, Dickens e dos russos Tolstoi e Dostoiévski. O pouco que li da Comédia Humana, no entanto, foi o suficiente para perceber que Balzac foi um dos grandes romancistas da humanidade , não só um detalhista mas realista quintessencial, o autor de um soberbo caleidoscópio ficcional com as vastidão e variedade da vida. Confesso que, eventualmente, alguns de seus personagens me dão a impressão de serem irrecuperáveis porque são franceses e talvez mais horríveis ainda quando moram em Paris (rsrs) Mas Balzac soletra-nos o que é um grande escritor. Esses caras são gênios porque inventam personagens duais, não lineares e os deixam crescer, mudar, agir de forma surpreendente e ainda assim serem as mesmas pessoas. Eu não sei como eles fazem isso, como é que criam drama e gente como a gente, de carne e osso, pessoas credíveis e redondas que têm vida própria em vez de serem fantoches de seus autores. Um milagre! ISSO, essa capacidade básica do escritor de ver uma criatura na rua e pronto, imaginar para ela um passado, uma vida, pensamentos, emoções , diálogos - como faz, por exemplo, o Mestre Heraldo - eu decididamente não possuo. Como leio bastante daí aprendi a escrever lé com cré, a descrever direitinho uma tela, um lugar, um filme. O resto é bondade e exagero seus. Mas, para você, uma "GRATIDÃO" e, só para rimar, um ABRAÇÃO desses tamanhos.
Excluir1) Desta vez, na aula que o Pimentel nos proporcionou, lembro que uma vez eu estava presente em uma reunião informal de alguns artistas plásticos, aqui no Rio, que já moraram ou visitaram Paris e um deles falou de um determinado artista parisiense que de tão doido/estranho, promovia festas e recebia as visitas no Telhado... mas não sei se era em Montmartre.
ResponderExcluir2) Moacir, nas suas andanças por lá, vc soube de algo semelhante?
3) Abraços agradecidos pelas aulas.
Antoniji,
ExcluirOs parisienses são apaixonados pelos telhados de seus bairros antigos. Ponto e pudera! Eles são bonitos demais no topo daqueles predinhos, colados uns nos outros , com belas mansardas, enfeitados por janelas e olhos de boi e que tais. Que eu saiba os telhados de Paris já deram livro – do Henry Miller quando morador daquelas paragens - filme, canção, tour fotográfico de agência de viagem para clicá-los das torres mais badaladas – Eiffel, Notre Dame, Montparnasse. Outra joia de onde se avista os telhados em 360 graus é a misteriosa e gótica Torre Saint-Jacques , que mora na Rue de Rivoli e que, para os esotéricos, além de concentrar muita “energia” boa é um dos pontos de partida do Caminho de Santiago. Para quem prefere evitar as centenas de degraus de pedra, da Roda Gigante, bem ao lado, no meio dos Jardins das Tulherias, também se pode fotografar a paisagem de telhas e chaminés circundante (rsrs)
Com certeza a galera deve tomar umas e outras na noites de verão, faz séculos, naqueles telhados - em Montmartre são muito frequentados os terraços com vistas para a Sacré Coeur -mas não sei de nenhum artista que tivesse ou tenha esse hábito.
Abração