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26/02/2018

As feras da colina

Henri Matisse - The conversation  (1908 - 1912)


Moacir Pimentel
A tela que abre o post chama-se A Conversa, foi assinada por Henri Matisse e representa um casamento onde ela já não rola. Identifiquei-me com a imagem porque a conversa de hoje que será sobre os “ismos” na pintura do século XX não é uma tarefa fácil.
O grande Matisse oportunamente terá, é claro, posts para chamar de seus e portanto hoje teclarei muito pouco sobre o “pai das feras”, mas adianto que ele era chegado a uma boa prosa. Tudo o que foi escrito sobre o pintor o descreve como um artista cuja mente sempre prevaleceu sobre a emoção, como um intelectual cavalheiresco, sem ponta de selvageria embora lhe sobrasse veemência.
Quando visitei Montmartre pela primeira vez, no final da década de setenta, eu planejava tolamente seguir pelas ladeiras do bairro as pegadas claras dos mais ilustres representantes dos mais famosos “ismos”: o Impressionismo, o Pós Impressionismo, o Fauvismo, o Cubismo, o Orfismo, o Expressionismo e o Surrealismo e por aí vai. Mas descobri que eles se misturaram e é isso o que torna muito difícil uma conversa sobre o tema, ainda mais para quem, como eu, não gosta de rótulos.
Antes de pisar pela primeira vez naquelas paragens, apesar das minhas desinformação e juventude, eu já tinha uma vaga ideia de que três homens – Cézanne, Matisse e Picasso – ali haviam pintado com uma grandeza clássica e que suas visionárias incursões por uma arte nova tinham mudado a compreensão do mundo.
À epoca eu já reverenciava Cézanne mas preferia as artes de Matisse, talvez por não entender absolutamente as coisas de Picasso. Aliás, não poderiam existir dois sujeitos mais diversos. Matisse, assim como Rafael, era um líder nato que ensinou e encorajou outros pintores. Já Picasso, tal como Michelangelo, inibia a todos com os seus carisma, talento e poder, sendo por natureza um déspota.
Porém de início, quem ficou famoso como o “roi des fauves”- o rei das feras - foi Matisse e os seus súditos eram os fauvistas, os pintores que trabalhavam pela cartilha do Fauvismo.
Esse “ismo” foi o primeiro e o mais breve dos movimentos da pintura moderna, aquele que pioneiramente defendeu que a cor devia servir à arte, tal como já fizera - sem rótulos! - van Gogh pintando a Provença com suas cores mentais e até mesmo Gauguin, ao pintar as suas areias de rosa para expressar uma emoção.
Paul Gauguin - Cavaliers sur la plage - II (`906)

A liberdade pinturesca dos fauvistas e o uso expressivo que faziam da cor não naturalista eram uma magnífica comprovação de que haviam estudado com carinho e inteligência a obra de van Gogh, que escreveu em uma de suas cartas:
“Em vez de tentar expressar o que vejo na minha frente, eu uso a cor de maneira totalmente arbitrária para expressar com vigor a minha emoção”.
O certo é que os fauvistas acreditavam inteiramente na cor como forma e força de expressão e espantaram todos os especialistas no Salão de Outono de Paris de 1905 com as estranhezas que fizeram com ela!
Depois de ter visto as coloridas e atrevidas telas rodeando uma frágil e desbotada escultura convencional de um menino, dizem os livros que o crítico de arte Louis Vauxcelles teria comentado que o bronze o fazia pensar em uma escultura do artista renascentista Donatello “parmi les fauves”, ou seja, “entre as feras”.
Viralizou!
E a nova tendência foi batizada. Só que, para contrariar as “feras”, em outubro de 1900, um jovem pintor espanhol havia desembarcado em Paris e, como a maioria dos jovens artistas de vanguarda, se estabelecera em Montmartre.
Aqueles primeiros anos foram financeiramente desafiadores para todos os pintores, pois os seguidores de Pablo Picasso eram desesperadamente pobres e Henri Matisse e a sua turma, embora um pouco mais velhos e um pouco mais conhecidos e figuras já mais familiares no bairro, também sobreviviam com a corda no pescoço.
Há quase quarenta anos ficou-nos claro que, com certeza, estes dois gênios - Picasso e Matisse - e seus esforços para criar um novo vocabulário artístico ocuparam o centro do palco naquela virada de século, mas que é preciso conhecer os outros artistas que nesse script desempenharam os papéis coadjuvantes.
Embora o Fauvismo tenha sido um fenômeno de vida breve que durou apenas pelo tempo durante o qual os seus iniciadores lutaram para encontrar a liberdade artística da qual precisavam, durante a sua breve prosperidade o movimento teve alguns adeptos notáveis como Maurice de Vlaminck, André Derain, Raoul Dufy e Georges Braque, em sentido horário na figura abaixo:
Maurice de Vlaming - Le Seine à Chatou (1906) /  André Derain - Baigneuses (esquisse - 1906)  / Raoul Dufy, Régates à Cowes (1936) / Georges Braque - Paysage prés d'Anvers (1906)

Em Montmartre ficamos quase amigos íntimos dessa turma e muito aprendemos sobre os expoentes dessa revolução colorida. Descobrimos que Derain não se separava da cópia de uma pintura do Cristo Carregando a Cruz feita por Ghirlandaio e que Vlaminck mantinha na parede de seu estúdio, bem acima de seu cavalete, as Três Banhistas de Cézanne. E, ao fim e ao cabo, abstraímos porque todas as tendências se influenciaram.
Penso que mais importante e menos tedioso do que definir o Fauvismo é descobrir a obra dos heróis fauvistas executada na primeira década do século passado: lá estão a simplificação das formas desobedecendo a qualquer comando intelectual, a fuga da ilusão da trimensionalidade, a gestualidade espontânea, o ritmo livre das linhas, a continuidade fluída do desenho, a extenuante experimentação, a alegria de viver afrontando os cânones tradicionais da pintura.
Em Montmartre não foi preciso caçar essas “feras”. Naquelas paragens não tem como não cruzar o caminho de André Derain como descrito nos livros e pintado por Maurice de Vlaminck - alto e magro, todo vestido de branco com o seu inseparável cachimbo e, às vezes, uma boina vermelha.
Maurice de Vlaminck - portrait d'André Derain (1906) / André Derain - portrait de Maurice de Vlaminck (1905)

Nem como evitar esbarrar no prezado Maurice, como se auto retratou tantas vezes e como foi imortalizado por Derain - corpanzil, olhos azuis, cabelo e bigode ruivos, casaco verde, lenço vermelho no bolso da lapela e gravata espalhafatosa. Os rostos dos dois artistas nos encaram dos posters coloridos que enfeitam as vitrines e calçadas de Montmartre e as reproduções de suas obras mais famosas estão à venda por todos os lados do bairro.
Para quem contempla as telas dos “feras” fica claro como o sol do meio dia, por exemplo, o quanto eles foram influenciados pelo ardor passional no uso das cores de van Gogh, e pelo primitivismo de Gauguin ao inventar aquelas telas planas quase sem matizes explodindo em cores puras saídas direto das bisnagas de tintas. Foi com Matisse, Vlaminck e Derain que a cor perdeu as qualidades descritivas e tornou-se luminosa, criando a luz em vez de imitá-la.
E foi em Montmartre que ouvimos falar, pela primeira vez, de uma outra cidade querida pelos artistas, a minúscula Collioure, onde Matisse se refugiou no verão de 1905 para inventar o tal novo tratamento para a cor - já escorregando para o terreno emocional - e fez a luz suprimir as sombras na sua revolucionária pintura La Bonheur de Vivre - A Alegria de Viver! - que, por sua vez, inspirou os pincéis de Vlaminck nas paisagens e, especialmente, os de Derain nos seus famosos barcos de Collioure. Um deleite com o mero feitio das coisas que pode até não ser arte profunda, mas sem dúvida oferece prazer visual.
Henri Matisse - Le bonheur de vivre (1906) / Maurice Vlaminck - Restaurant "La Machine" at Bougival (1905) / André Derain - Bateaux à Collioure (1905)

Diante das telas luminosas e pontilhadas de Derain e Vlaminck a gente reconhece o distante parentesco dessas tintas com aquelas dos competentes impressionistas, que trabalharam intimamente alinhados e foram capazes de realizar oito exposições conjuntas entre 1874 e 1886. Assim, apesar de brilhantes dissidentes como Cézanne e van Gogh, eles ergueram o Impressionismo sobre colunas sólidas, diferentemente do que fizeram os fauvistas, que nunca chegaram a formar um grupo coeso e que, já em 1908, começaram a perder muitos adeptos para o cubismo.
Quem olha com atenção para as telas de André Derain e Maurice de Vlamink entende porque esses dois, os pintores co-fundadores do Fauvismo juntamente com Matisse, seguiram noutra direção pelas ruas de Montmartre, quando Braque e Picasso começaram a fazer suas coisas cubistas.
E descobre que, com o novo século, a história da arte deixara de seguir um único enredo. Novas experimentações e seus desenvolvimentos variados levaram os criadores à concorrência ou alavancaram rapidamente alianças mesmo dentro da pequena comunidade de artistas de vanguarda de Montmartre.
Braque e Derain, por exemplo, que apareceram na foto pela primeira vez como próximos colaboradores de Matisse na criação do Fauvismo, pouco tempo depois se distanciaram, mas não sem que Derain pintasse expressivamente o mestre.
André Derain - Henri Matisse (1905)

Com a idade André Derain conteve o seu ardor até atingir uma calma clássica mas enquanto foi “fera” mostrou uma veemência primitiva. Durante um certo tempo Derain e Vlaminck dividiram um ateliê e um interesse pela arte africana colecionando máscaras e estatuetas daquele continente. Essa moda de arte tribal começara mesmo com Gauguin, mas a digital africana também é evidente nas artes de Picasso e Matisse.
São desse período de convívio criativo diário duas das mais belas obras de Derain e Vlaminck, respectivamente A Ponte de Charing Cross e O Rio, que compartilham a mesma força vibrante e o uso desinibido das paletas. A ponte de Derain atravessa uma Londres estranhamente tropical, liberta das brumas, onde a majestade é Dona Cor.
André Derain - Charing Cross Bridge, London (1906) / Maurice Vlaminck - La Seine à Chatou (1908)

E O Rio do Maurice? Bem, Vlaminck se proclamava “primitivo”, e tinha mesmo um quê de “fera”, pelo menos no rigor sombrio de seus humores. Note que mesmo que esse rio pareça pacífico, sentimos uma tempestade aproximar-se (rsrs)
Depois do fervor fauvista, Derain acompanhou Braque e ainda entrou na órbita de Picasso antes de seguir seu próprio caminho. Braque afastou-se dos interesses fauvistas e, com o desenvolvimento do cubismo, tornou-se excepcionalmente próximo de Picasso.
É patente o quanto todos esses talentos deixaram suas influências nos trabalhos uns dos outros. Não nos surpreendemos vendo as cores brilhantes da água do mar de Collioure, pintadas por Derain, repetidas na composição vívida que Matisse cometeu na tela de nome Música...
Henri Matisse - La Musique (1910) / La Danse II (1910)

... em preparação intuitiva e já esboçando, sem saber, o design espacial e os padrões rítmicos e amplos que mais tarde deixou na sua imensa Dança.
É difícil narrar como as duas direções centrais da arte moderna surgiram. De uma forma muito simplista, pode-se dizer que Matisse estava interessado na cor e no espaço, enquanto Picasso se concentrava na linha e na forma. Na verdade, a direção artística tomada por Picasso pode ter sido, em parte, uma reação à ênfase de Matisse na cor, que pode muito bem ter despertado no toureiro a necessidade de se mover por uma estrada diferente.
Mas essa é uma outra longa e cubista conversa.


14 comentários:

  1. Mônica Silva26/02/2018 10:23

    Então você quando tinha a minha idade também não entendia Picasso? kkk Gostei muito dos quadros alegres e coloridos de Matisse e das feras, Moacir. Levava todos eles pra casa e botava na sala. Do jeito que você escreve é fácil entender o estilo e porque as pessoas estranharam a arte deles. Até hoje ainda é mais fácil da gente respeitar as obras perfeitas que mostram claramente o quanto os artistas ralaram durante anos de estudo e não valorizar borrões que até uma criança de cinco anos poderia fazer. Vou arriscar um palpite sobre a ‘Conversa’ do Matisse. Acho que o casamento está perigando porque o pintor só queria saber de pintar. Repare como ele botou uma pintura separando o casal bem no meio do quadro kkk Obrigada!

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    1. Moacir Pimentel28/02/2018 07:22

      Mônica,
      Que bom que você gostou das telas e do texto. Confesso que, apesar de considerar necessário falar dos “ismos” nesse momento da franquia, considerei o post meio maçante e professoral. Quanto aos "borrões" tenha a certeza de que Monet, van Gogh, Matisse e seus 'feras' e Picasso poderiam, se tivessem querido, pintar corpos de deusas e rostos de Madonas e paisagens reconhecíveis à primeira vista (rsrs) O meu objetivo ambicioso é justamente tentar primeiro entender e depois rascunhar porque eles decidiram misturar suas tintas de formas inéditas e mudar a arte da pintura. E como todos eles - não importa que bandeira e "ismo" cada um empunhasse/pincelasse! - se ajudaram e influenciaram nessa convivência montmartriana para lá de criativa.
      Quanto à tela de Matisse que mostra o marido de pijama e sua senhora de luto acomodados em um casamento emudecido, para mim no centro da cena mora uma janela significando a vida do lado de fora. A tela e o seu comentário me lembram de um dos mais belos poemas de Drummond, de nome A Mesa:
      "Amou. E ama. E amará.
      Só não quer que seu amor
      seja uma prisão de dois,
      um contrato, entre bocejos
      e quatro pés de chinelo."
      Seja lá como for, quem tem juízo sabe muito bem que " em briga de marido e mulher melhor não meter a colher” (rsrs)
      “Obrigado!” e abração



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  2. Flávia de Barros26/02/2018 12:26

    Moacir,

    Amo ler os seus artigos porque tem tantas coisas sobre arte que eu não sei nem entendo. Na aula de hoje descobri que Picasso e Matisse foram concorrentes e fiquei imaginando a confusão dos críticos acostumados com obras de arte sobre temas conhecidos diante desta revolução há um século atrás. A grande dificuldade é que na arte moderna para entender uma pintura acho que é preciso conhecer também o artista e o que ele quer expressar. A diferença é que cada trabalho passou a ter duas histórias diferentes para contar. Então ficou mais bem mais difícil para leigas como eu entender a mensagem. Consigo formar uma opinião, claro. Gosto das cores de Van Gogh e de Matisse e não gosto da areia cor de rosa de Gauguin. Mas quando você fala sobre os pintores de Montmartre e da intenção dos movimentos artísticos aí a minha visão sobre as coisas pintadas pode mudar totalmente. Estou ansiosa para ler o que você vai dizer sobre Picasso.

    Um abraço para você

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    1. Moacir Pimentel28/02/2018 07:24

      Flávia,
      Mudar de “visão” ou de perspectiva sobre algo, pressupõe aprendizado e isso devemos nos esforçar para aquirir todos os dias (rsrs) Você tem razão ao dizer que a arte moderna se afastou de seus temas, ou que, em outras palavras, deixou de retratar a realidade externa para refletir as cores mentais e emocionais dos que a cometiam. Por outro lado não acho que Dona Arte é feita para o consumo de especialistas. Ninguém precisa ser uma enciclopédia de História da Arte para entender e conversar com uma pintura. Vale, sim, conhecer o artista e contextualizar. A arte é sempre um espelho de seu autor , das suas circunstâncias e do seu tempo. Um artista que pintou em Montmartre na virada dos dois últimos séculos com certeza teve experiências de vida muito diferentes de um outro nascido na China na última década. Porém o mais importante é olhar, perceber e pensar. Quando vemos algo, seja uma obra de arte, um filme ou um quadro de avisos, nossos cérebros realizam um processo complexo de leitura e interpretação de dados, absorvendo toda uma série de pistas que compõem nossa compreensão de qualquer imagem. Talvez seja preciso simplesmente desacelerar esse processo , evitando cair sem escalas em quaisquer conclusões imediatas. Há que, com calma, absorver literalmente o que está na nossa frente - o meio, o material, as cores e texturas, o estilo e a abordagem de uma tela. Para em seguida percebê-la, ou seja, buscar o seu significado e finalmente pensá-la, ou seja, interpretá-la às nossas imagem e semelhança (rsrs) Não é uma ciência. Não se trata de encontrar as "respostas certas", mas de pensar criativamente sobre a história mais plausível que a tela nos“quer contar” e dela,finalmente, gostar ou não.
      Outro abraço para você



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  3. Márcio P. Rocha26/02/2018 15:10

    Tudo que desafia as convenções incomoda, inclusive a arte. Queremos que o mundo seja racional. Gostamos de ver imagens normais. Precisamos confirmar que a vida não está para brincadeiras porque sacrificamos coisas demais para poder nos encaixar num sistema e seguir regras que talvez não fossem tão restritas e estreitas quanto nos fizeram acreditar. É por isso que eu acho que tanta gente odeia o novo como esta arte moderna que você descreve tão bem. Parabéns!

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    1. Moacir Pimentel28/02/2018 07:27

      Márcio,
      Confesso que nunca pensei a arte moderna por esse prisma. Talvez as pessoas desprezem e fiquem incomodadas com os “alternativos”, sim, porque pararam com suas “brincadeiras” enquanto outros só se deram bem no jogo criativo. Talvez elas fiquem chateadas por não terem dado continuidade aos seus velhos sonhos de arte – a banda, o livro de contos ou o grafite. Mas se for esse o caso, tais criaturas mal resolvidas continuarão a ser confrontadas e desafiadas porque sempre haverá “malucos beleza” que não se conformam, que não podem nem vão parar com seus esforços artísticos, sejam eles infantis ou medíocres ou talentosos ou doidos de pedra.
      Talvez o "caminho do meio" seja dar espaço em nossas vidas estruturadas tanto para a brincadeira como para a responsabilidade, de modo que nossa criança interior sobreviva e possa caminhar em espaços de arte e ver obras antigas e modernas e contemporâneas e parar e olhar sem sentir raiva e/ou enganação, decidindo simplesmente se aquilo que vê é do seu agrado ou não. Obrigado por participar.

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  4. Francisco Bendl26/02/2018 18:19

    Na condição de leigo em pinturas, melhor, de absolutamente ignorante nesta arte, do alto da minha estupidez eu diria que não se pode chamar de arte moderna traços de pinturas, riscos querendo que tenham a forma de seres humanos e imagens borradas como se fossem nítidas e belas!

    Diante desse meu entendimento obtuso, claro, artigos como este de Pimentel poderiam deixar de existir, pois não me dizem nada, não me emocionam, e tampouco me trazem a mensagem que deveriam.

    No entanto, se assim eu pensava quando fui convidado pelo Mano a participar do Conversas, em face de algumas crônicas que eu fizera como motorista de táxi, após eu começar a ler os textos referentes à pintura, seus quadros, seus autores, o significado das obras, o tempo que foram desenhados, a época que representavam, elaborado pelo Pimentel c
    e com uso de uma didática mais simples para gente do meu nível, pois os que conheciam arte manteriam diálogos com o autor, enquanto os que a desconheciam sequer perguntas seriam feitas, MUDEI a minha maneira de interpretar a pintura, e ela passou a me chamar a atenção exatamente nas nuances de cada escola e pintor!

    Após muitos artigos lidos e arquivados em pastas especiais, complementadas com a biografia de cada artista e a escola que pertence, o meu acervo se torna interessante, ainda mais complementados com a interpretação de um especialista sobre o significado da obra, o que o seu criador queria nos transmitir com as cores utilizadas e seus traços pessoais!

    Ora, afora a obra magnífica analisada com tanta propriedade, restava ainda o texto brilhante, que relatava exatamente os segredos ou os motivos pelos quais seus autores tinham o seu talento e vocação descobertos e, assim, ganharam fama de mestres e grandes pintores!

    Na razão direta desses quadros tão significantes, indiscutivelmente devemos colocar ao lado os experts sobre o tema; aqueles redatores ou colunistas que pesquisaram, estudaram, visitaram os museus e exposições onde se encontram à disposição de admiradores, e até mesmo estiveram nos locais onde essas obras de grande relevância foram pintadas!

    Logo, a refeição servida é completa, típico para seres que têm fome de saber, de conhecer, exatamente como aquele prato que mais gosto, o cheio!

    Pimentel, desta forma, oferece uma alimentação para a mente como se fosse a iguaria de cada país, de cada povo, onde experimentar esses gostos especiais somos obrigados, pois a comida foi feita com nobreza e dedicação!

    Portanto, se o assunto abordado é refinado, para sensibilidades aguçadas, para pessoas sofisticadas, o prato servido pelo Pimentel além de saboroso atende qualquer paladar, logo, por se tratar de receitas excepcionais, eu as guardo, eu as quero arquivar e tê-las comigo para eventualmente delas me servir, e também, compartilhar com amigos que não sabem avaliar devidamente a arte da pintura como uma espécie de lauto jantar, então entenderão que não existe somente a música, a literatura, o bel canto, o cinema, mas também, a pintura, a escultura, a arquitetura!

    Pimentel, obrigado mais uma vez pelo convite, e de uma refeição magnífica servida pelas tuas mãos hábeis no teclado (fogão), e a mente vibrante na descrição dos temperos (quadros), cada um mais colorido do que o outro, cuja mesa onde foi posta a comida ficou verdadeiramente estupenda, magnífica, imponente!

    Eu me deliciei, e quero ser sempre convidado.

    Um forte abraço.
    Saúde e paz.
    (Sintomas do regime que faço com tanto rigor, as minhas metáforas usadas acima?)


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    1. Moacir Pimentel28/02/2018 07:33

      Bendl,
      Como diz o nosso budista: "Gratidão". Nós nos projetamos nos nossos julgamentos e, portanto, quando você tecla que escrevi esse post com “nobreza e dedicação”, você apenas descreve a SUA escrita, o seu modus operandi aí na Oficina do Pensamento.Quanto a arte...
      Bem, ela é mais velha do que a palavra escrita. As artes visuais nasceram nas cavernas provavelmente como um instrumento que ajudar nossos antepassados brucutus a expressar os pensamentos complexos que começavam a se materializar em seus cérebros maciços. Não tenho quaisquer dúvidas que as várias formas de desenho, pintura e outras representações visuais certamente facilitaram a comunicação e a educação entre os primeiros humanos. As tintas sempre estiveram presentes nos fazendo pensar, nos encantando e divertindo, nos transportando para outros lugares e mostrando que as pessoas são fundamentalmente as mesmas ao redor do mundo e ao longo de milênios. Quando eu me deparo, por exemplo, com aquelas pequenas estátuas de pedra de mulheres de quarenta mil anos atrás, fico satisfeito de ver que, mesmo naquela época, os caras já gostavam de arte e das senhoras despidas (rsrs) Aê, mermão!
      Eu já lhe disse que muito mais importante do que aquilo que é criado é o ato criativo. O que leva um pintor às tintas, um escultor às pedras, um músico às cordas ou um ator aos palcos é o mesmo impulso que nos faz martelar nossos teclados: um esforço vago para controlar de alguma forma o mundo em que vivemos, recriando-o de uma maneira que satisfaça nossa compreensão de como deveria ser. Uma tentativa de capturar nas letras, imagens e sons as coisas que vemos e sentimos, de por ordem e significado na bagunça circundante, de criar cenários de reflexão, onde possa ocorrer o milagre da empatia.
      Quanto às metáforas da MESA, beleza! Foi em volta das fogueiras comendo e bebendo e conversando que nos civilizamos e você fez uma falta danada na mesa do bar virtual. Que tal rabiscar um post confrontando a dieta ideal e a sua atual? Não sei se faria bem ao seu "espírito" mas nos faria dar boas gargalhadas.
      Abração

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  5. Alexandre Sampaio27/02/2018 08:17

    Pimentel,

    Um post interessante e informativo. Eu não conhecia a pintura dos fauvistas André Derain e Maurice de Vlaminck. É impressionante a quantidade de pintores excepcionais que surgiram no Renascimento na Itália e nos primeiros anos do século 20 em Montmartre. Acho que alguns deles findaram ofuscando outros. Rafael sumiu por causa de Michelangelo e Leonardo da Vinci e Picasso atropelou todos os artistas do seu tempo.

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    1. Moacir Pimentel28/02/2018 07:48

      Prezado Sampaio,
      Logo conversaremos, em novos posts, sobre os pintores mencionados por você. Para já, concordo que Rafael sumiu: foi para o andar de cima aos trinta e sete anos (rsrs) Enquanto que Michelangelo, oito anos mais velho do que ele , viveu e trabalhou por mais quatro décadas tendo falecido aos oitenta e nove anos. A famosa rivalidade entre os renascentistas é fato histórico, mas - atenção! - ela rolou entre Michelangelo e Rafael e, novamente, entre Michelangelo e Leonardo. Porém as alfinetadas verbais desses gênios não resultaram em ganhadores e /ou perdedores: Leonardo foi a mais brilhante mente do Renascimento, um engenheiro/inventor que também revolucionou a arte do retrato. Michelangelo trabalhou inigualavelmente o corpo humano tanto nas tintas como na pedra. Quando ele finalizou o teto da Capela Sistina ficou claro para todos que o contemplaram de boca aberta que aquilo era a maior das obras primas da Renascença. No entanto, naquele ano, foi o jovem Rafael – um pintor mais versátil que os outros dois pois era genial também nas paisagens e canas da corte e naturezas mortas além de exímio retratista – quem ficou com todas as encomendas, porque era simpático e de bem com a vida, enquanto que conviver com Michelangelo era puro masoquismo (rsrs) O certo é que as belíssimas salas bem ao lado da Sistina foram afrescadas por Rafael e não por Michelangelo. Acho que podemos preferir o trabalho de um ou de outro mas não dá para comparar genialidades.
      Com relação à turma de Montmartre, objeto dessa "minisérie", adianto-lhe que não, Picasso não ofuscou a todos. A sua arte é devedora das de Lautrec e Cézanne e o talento de Matisse e Braque e Gris continuam brilhando. Aliás Georges Braque foi o terceiro gigante da arte moderna. Tudo bem que sempre permaneceu meio que na sombra, como se estivesse encoberto por suas próprias cores favoritas : marrom, verde e preto. Mas a primeira pintura cubista e a primeira colagem foram assinadas por ele. Tem mais. Picasso não seria Picasso sem Braque e os dois sabiam disso muito bem. E chega de spoilers! (rsrs) e obrigado!
      Abração

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  6. 1)Só aprendendo, curtindo as belas fotos e imaginando as cenas...

    2) Pimentel é um bom professor de arte, bom crítico, bom guia turístico que nos leva a passear por paisagens maravilhosas. Parabéns !

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    1. Moacir Pimentel28/02/2018 07:50

      Antonioji,
      Tenha certeza de que, quando rascunho, em vez de "professor" me sinto mais como um moleque jogando bola no recreio (rsrs)

      https://www.youtube.com/watch?v=Jfr2NlUAOP4

      "Gratidão" e namastê




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  7. Olá Moacir,
    Muito interessante você comparar sua difícil tarefa de falar sobre os ismos a um casamento que não rola. Primeira vez que vejo isso. Mas está enganadíssimo, sua conversa sempre rola.( Fico imaginando o tamanho dos bilhetes deixados na geladeira avisando que você volta já. É preciso puxar um banquinho!Desculpa muito essa intromissão familiar mas é uma imagem recorrente que me faz rir).
    Esses ismos são belíssimos. Nada será o mesmo depois dessas cores, dessa areia cor de rosa e da Madame Matisse verde. Derain e Braque libertos já adejando pros lados do cubismo. Não conhecia Le Bonheur de Vivre. O envolta dos desenhos me lembrou anatomias femininas, como As flores de O'Keeffe
    Queria, como acontece sempre, conversar cada parágrafo, mas pensando bem não é preciso. Tudo já foi dito.
    Apaixonei me por Valadon. Andei pesquisando ela e o filho Maurice. Lautrec tinha mesmo que se encantar com os desenhos dela. Seu menino agachado me lembrou meu neto que me lembrou Mowgli, magrinhos, tostadinhos e cabeludos. Passei a chamá-los de "filhote de homem".
    Esperando Matisse. Ele vem velhinho na cadeira de rodas fazendo colagens maravilhosas? Fiz spoiler?
    Até então. Bem breve por favor.
    H. b.!

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    Respostas
    1. Moacir Pimentel28/02/2018 07:59

      Caríssima Donana,
      Gostei do banquinho! (rsrs) E sim tem bilhete na geladeira só que em vez de escrever, neles rabiscamos dois bonequinhos ridículos - tipo aqueles de O Globo! - de apelidos impublicáveis de tão ridículos e fazendo bobices proibidas para menores de sessenta anos. Mas aqui entre nós e baixinho de vez em quando bem que a "linguagem" funciona (rsrs)
      Quanto a Matisse se reinventando com papel e tesoura sentado, feliz da vida, na sua cadeira de rodas, foi um spoiler muuuuito bom (rsrs) O assunto faz parte do penúltimo post dessa franquia, já escrito, que fala sobre as Colagens, começando com as dos jovens Braque e Picasso em 1912 e terminando com aquelas coisas lindas feitas pelo Rei das Feras nos anos 60. Mas antes de posts que ele possa chamar de seus, so sorry, se encontram em fila de espera os seguintes colegas: Laurencin, Rousseau, Lautrec, Picasso, Braque, Gris e da Vinci sem contar com Shakespeare (rsrs)
      Fico feliz de saber que a senhora gostou dessa conversa "ista". Em se tratando da Dona Arte gostar não é coisa pequena. Porque é só quando isso rola é que ela nos oferece algo novo sobre a Terra. Enquanto a "minisérie" do grande Matisse não chega , me desculpando pela demora, mando-lhe em avant- première uma bela combinação: Matisse + Madredeus:
      https://www.youtube.com/watch?v=5qSAg1-4Zes
      "Até mais "

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