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24/07/2017

A escrita dos moradores de rua


Imagem: Homelessfonts.org

Wilson Baptista Junior
Em todas as grandes cidades do mundo existe gente sem teto, e o problema de como tratar esta população de rua, e as soluções que são encontradas, variam de lugar para lugar.
Uma fundação espanhola (Arrels) dedicada a ajudar os moradores de rua de Barcelona teve uma idéia interessante. A partir da escrita de uma série destes moradores o seu pessoal desenvolveu fontes tipográficas que ela está vendendo e promovendo junto a empresas, para que sejam usadas na publicidade destas empresas. A fundação vende as fontes para pessoas físicas por dezenove euros, e para empresas por duzentos e noventa. O produto das vendas é revertido para ajudar os moradores de rua.
O site das fontes é http://www.homelessfonts.org/ e tem um vídeo interessante onde os moradores de rua falam do que representa para eles ver a sua escrita transformada em tipografia. Abaixo do vídeo, modelos das fontes e retratos (belos retratos) dos moradores de rua que estão contribuindo com a sua escrita.
Algumas fontes já estão prontas e à venda, outras estão em processo de arte final Atualmente dez designers voluntários fazem este trabalho, que demanda uns dois meses e meio para cada fonte.
O trabalho da fundação é realizado tanto por voluntários quanto por profissionais contratados.
Vale a pena percorrer o site da fundação
 e ver, por exemplo, os vídeos de outros moradores de rua 
como o que pergunta: "O que significa ser normal?". Eles estão falando catalão (que é interessante ouvir), mas há legendas em espanhol)
A atuação da fundação parece bem clara e aberta - por exemplo, as suas contas e documentos financeiros ficam abertos no site. Exemplo que deveria ser seguido pelas ONGs de todos os lugares...





8 comentários:

  1. 1) Muito interessante o artigo, Mano. Parabéns !

    2)A ilustração do alfabeto me fez lembrar a multimilenar arte rupestre.

    3)Abraços de boa semana !

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    1. Wilson Baptista Junior25/07/2017 21:24

      Obrigado, Antonio. Um abraço.

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  2. Francisco Bendl24/07/2017 17:12

    Caro Mano,

    Tenho sido crítico ferrenho do sistema carcerário brasileiro, depósito de pessoas, simplesmente, que, sem poder trabalhar, com o tempo ocioso que dispõem, os pensamentos se voltam à vingança e planos para quando sair das prisões para novos golpes.

    Os rabiscos de muito mau gosto porque o intuito é lambuzar as paredes de prédios particulares e oficiais, deveriam ser monitorados e oferecer para esta gurizada espaços adequados para que apresentem as suas artes, as suas pinturas, e canais que sirvam para desafogarem suas criatividades, porém para embelezamento da cidade, para colorir as ruas, e para dar uma ocupação para esses jovens.

    A lamentar a falta de oportunidade por parte do poder público que, omisso, incompetente, irresponsável e desprezando o povo de forma cruel e sádica, não se interessa em aproveitar esta mão de obra gratuita para dar um novo formato às ruas da cidade, colorindo e pintando muros e paredes hoje mal pintadas e mal conservadas, prédios públicos e escolas, que estão caindo aos pedaços!

    O teu artigo, Wilson, atesta a ineficiência do poder público brasileiro, o divorciamento deste com o povo, justamente porque um dos erros mais graves cometidos ao longo dos anos pelos nossos governantes tem sido a Educação, o Ensino muito aquém das exigências de uma era eletrônica, científica, tecnológica, e que nos classifica em comparação com países muito menores e mais pobres em termos de riquezas naturais, como os últimos neste particular!

    Assim, os grafiteiros querem somente riscar, deixar as suas marcas patentes calcadas em desenhos feios, que mais sujam do que embelezam, pela falta de apoio, incentivo e locais onde poderiam exercer as suas obras e imaginações.

    Belo artigo porque procedente, adequado e pontual, onde até o governo poderia, se quisesse, elaborar concursos para se ver quem seriam os vencedores em vários tipos de pinturas, se naturais, pessoas, imagens, enfim, aproveitar essa gurizada hoje sem trabalho para produzir pelo menos novas tonalidades ao cinza que caracteriza a maioria das cidades brasileiras.

    Um forte abraço.
    Saúde e paz, extensivo aos teus amados.

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    1. Wilson Baptista Junior25/07/2017 21:42

      Pois é, Chicão, aqui nem se combate eficazmente a pixação, que são essas "marcas patentes" que servem apenas para atestar a intrusão de seus autores na propriedade alheia, nem se compreende o verdadeiro grafitti, este sim uma forma de arte de rua que deve ser valorizada.
      O interessante na ação dessa ONG espanhola é que ela valoriza a individualidade dos moradores de rua ao usar sua escrita para a formação das fontes tipográficas, fazendo com que eles tenham a sensação de um trabalho de cooperação onde estão contribuindo para a assistência que recebem.

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  3. Flávio José Bortolotto24/07/2017 18:56

    Prezado Sr. WILSON BAPTISTA JÚNIOR, nosso Editor/Moderador.

    Como diz acima o ilustre Prof. ANTÔNIO ROCHA, muito interessante o Artigo sobre a Fundação ARRELS que se dedica ao nobre Trabalho de Ajudar e Recuperar Moradores de Rua em Barcelona- Espanha.
    Nos mostra como é desenvolvido o Espírito Comunitário na Espanha, e especialmente na Província da Catalunha.
    Duas coisas me chamaram a atenção: Primeiro: Geralmente são as Religiões que Capitaneiam essas Organizações e a Fundação ARRELS é Laica. Segundo: Dos ex-Moradores de Rua, atendidos pela ARRELS, há Mulheres, que segundo o depoimento de uma, nos conta de quão terrível e mais PERIGOSO é uma Mulher morar na Rua. Imagino. Depois, a grande quantidade de Pessoas já passados da Meia-Idade que eram trabalhadores como Jornalista, Padeiro, Operário, ex-Chef de Cozinha, etc, que acabaram literalmente "na Rua", en el Carrer, depois de perder o Emprego e não conseguirem novo Emprego.

    Nós Seres Humanos somos frágeis, e algumas vezes sem auxílio de Outros, de uma Organização, não conseguimos sair da sarjeta.
    Nós Brasileiros deveríamos emular o exemplo dos Espanhóis e ampliar também aqui nossa Rede de Segurança Social, extra-Governo, porque só o Governo não dá conta.
    Abração.


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    1. Wilson Baptista Juniot25/07/2017 22:03

      Caro Flávio,
      A fundação é laica, é independente do governo, e é produto realmente de um espírito comunitário. Talvez por isso mesmo consiga atingir suas finalidades, sem distorções de credo e de orientação partidária.
      A composição da população de rua, muito bem observada por você, com grande quantidade de pessoas mais velhas e que tinham profissão, deve nos servir de alerta neste momento em que enfrentamos aqui um desemprego sem precedentes. São pessoas que na Espanha, em tempos passados, estariam vivendo, ainda que modestamente, em suas residências, mas que nas novas condições da economia se veem na situação de viverem nas ruas. Também aqui o governo já não tem condições de prover mesmo uma primária "rede de segurança" para a população, nem em termos de habitação nem alimentação, para não falar da saúde, então sim, como você disse, é a comunidade (termo hoje distorcido pelo seu uso como eufemismo para as favelas) quem tem que se organizar e procurar formar essa rede.
      Obrigado e um abraço.

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  4. Moacir Pimentel25/07/2017 08:35

    Wilson,
    Pois é. Os vídeos dizem tudo nesses seu belo post e projeto da Fundação Arrels de tirar as mensagens dos cartazes de papelão manuscritos pelos moradores e mendigos nas ruas da cidade e levá-las para o mundo digital como fontes tipográficas à venda.
    Ouso apenas teclar sobre o “espírito comunitário na Espanha”, a solidariedade dos europeus, mencionados pelo Bortolotto. Vale lembrar que a Europa já atravessou muita fome e pestes e guerras e que os sopões hoje distribuídos aos desempregados e desabrigados já eram preparados na Idade das Trevas e que o velho John Donne já dizia no século XVI:
    "Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um amigo teu, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti."
    (Meditações VII)
    E acho que vale ainda mencionar os porquês dessa aberração social na quarta cidade mais visitada da Europa. Até 2008 rolou o milagre econômico espanhol com os bancos distribuindo crédito a juros baixos como se não houvesse amanhã, o poder de compra turbinado, centenas de guindastes riscando de amarelo os céus de Barcelona, prédios subindo por todos os lados, todo mundo investindo adoidado em imóveis e, na falta de mão de obra, até mesmo a juventude trocando as universidades pelos canteiros de obras onde se ganhava muito bem como pedreiro.
    Até que começou a crise e vieram as demissões e o crédito foi para o espaço e a demanda despencou assim com o valor artificialmente inflado do metro quadrado espanhol e metade dos espanhóis foi à falência. Essa tragédia humana de proporções imensas dos sem-tetos e mendigos catalães é um dos resultados diretos do desastre econômico da última década e um dos pilares da crise espanhola foi justamente a tal da bolha imobiliária .
    É triste ler esse seu artigo importante sabendo que a Espanha é um dos países do mundo com mais habitações populares vazias, que por lá são tantíssimos os conjuntos habitacionais inabitados, os condomínios às moscas, os apartamentos devolvidos pelos donos que não tiveram como pagar as prestações. Outra face perversa da mesma moeda são os despejos - os desahucios - e os suicídios de gente que simplesmente perdeu tudo depois de toda uma vida de sacrifícios.
    Pelos depoimentos nos vídeos a gente percebe que os donos dessas belas escritas não são iletrados mas desempregados que perderam além de suas moradasm a dignidade do trabalho. Eles têm sido treinados como guias turísticos de passeios alternativos para ver , por exemplo, a exuberante street art local. Quem poeria conhecer e mostrar melhor as quebradas da cidade?

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    1. Wilson Baptista Juniot25/07/2017 22:15

      Moacir,
      Como comentar seu comentário, que aprofunda e complementa com tanta propriedade o post?
      Acrescento apenas que estamos experimentando uma crise econômica que, por razões algumas semelhantes e outras diferentes das da crise espanhola, tende a criar, se já não está criando, situações semelhantes para grande parte da população. Não vou comentar sobre essas causas porque teria que fugir do princípio fundamental do nosso blog, despertando a adaga nos dentes do nosso amigo Chicão :)
      Obrigado e um abraço.

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