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22/10/2017

Contingências

Polegares para baixo - Jean-León Gérôme (Wikimedia commons)


Francisco Bendl
Sempre concedi ao fracassado mais simpatia que ao vencedor.
O homem que obteve a sua vitória conseguiu o seu galardão, logo não precisa mais de apoio, incentivo, elogios. Diferente do derrotado, que necessita que alguém o anime, que seja solidário com a sua tristeza, que seja compreensivo com a sua decepção consigo mesmo.
Também entendo que se deve fazer uma análise das vitórias e derrotas do ser humano:
De que forma o vencedor logrou êxito?
Por que o derrotado não venceu?
Teria o vitorioso disputado para obter o apogeu em vida com as mesmas condições do fracassado?
O derrotado teria tido as mesmas oportunidades para vencer que aquele que ostenta o troféu da vitória?
E o que difere um do outro, caso as condições de luta terem sido rigorosamente as mesmas para cada um dos contendores?
O ânimo? A disposição? A resistência? A persistência?
De não se deixar ser vencido pelas circunstâncias e dificuldades do momento?
Ou a base familiar é fator preponderante tanto para a vitória quanto à derrota?
Ou temos de considerar fatores aleatórios como preponderantes, tais como o destino, a sina de cada um, o carma?!
Temos de levar em conta o local de nascimento e moradia de um e do outro? A herança genética? Suas amizades ao longo do tempo? Os exemplos que tiveram como negativos e positivos, que influenciaram ou não um ser vencedor e o outro derrotado?
Contribuiria decisivamente o casamento ou não para este êxito ou derrota?
Ou sempre será melhor que a luta a ser enfrentada com vistas a ser alguém tenha companhia, que exista uma relação amorosa?
Ou, quem sabe, seriam os filhos o grande impulso à obtenção uma vida próspera e realizada?
Ou a soma dos fatores que citei acima, todos, indistintamente, contribuiriam para o sucesso ou até mesmo o fracasso?
Na condição de, pessoalmente, eu servir como comparação entre vencedor e derrotado sou útil como aquele que sempre enfrentou os problemas e dificuldades inerentes ao longo do caminho sem vacilar por um momento sequer, sem se amedrontar em situação alguma pelas adversidades, no entanto, nada sou, nada tenho, nada conquistei, sou um imortal, pois não tenho onde cair morto!
Neste caso não vale a família como diploma de competência, pela sua união, pelo amor entre seus membros, pelo respeito ao pai; definitivamente não é válido para se obter certificados de vida concluída com méritos, haja vista haver a colaboração de todos, o comprometimento familiar, a unidade do clã, a índole pessoal de cada membro deste grupo familiar, pois tanto o derrotado quanto o vencedor poderiam ter consigo este mesmo grupo exemplar.
Refiro-me à vitória pessoal, particular, individual, sem a influência de quem quer que seja.
Desta forma, como outorgar os louros da vitória ao vencedor se, mesmo tendo obtido patrimônio, diplomas de faculdades cursadas e reconhecimento pessoal e profissional, foi derrotado porque não soube constituir a sua família, sustentar, educar e formar seus filhos?
Ou como contemplar o derrotado na sua vida pessoal e profissional, mas que soube conduzir a sua família com honra e dignidade, tornando os seus filhos pessoas de bem, úteis tanto para si mesmos quanto à sociedade, profissionais liberais, gente digna, que também constituíram suas famílias e estão felizes e realizados, mesmo com o pai sendo um derrotado, um fracassado?!
De quem seria o mérito maior?
Do vitorioso pessoal e profissional, que tem o seu patrimônio e a sua vida bem organizada e próspera?
Ou daquele que nada tem, que nada é como pessoa e profissional, que a sua vida não é próspera, pelo contrário, ainda conduzida com dificuldades enormes para seguir vivendo, mas soube enaltecer a sua família, seus filhos e esposa?
Até onde a pessoa ser medíocre, incompetente, derrotada porque sem sucesso, sem títulos, propriedades, conseguiu ter a sua família em condições sólidas e inquebrantáveis, e aquele que atingiu o apogeu pessoal e profissional não soube conduzir a sua família para os mesmos patamares de êxito?
Haveria alguma cobrança no terreno metafísico para a união familiar com relação àquelas pessoas que a constituíram como gente de sucesso, que soube trazer o seu pessoal para a mesma situação de êxito ou para os homens que, derrotados, conduziram seus familiares para as mesmas condições de decepção e frustração?
Não sei quais seriam as respostas ou as fórmulas que possibilitam o sucesso pessoal, profissional e familiar ao mesmo tempo, mas tenho as minhas impressões quanto ao contrário, quanto ao sofrimento de seres humanos que jamais vão sentir o que vem a ser realização em qualquer etapa de suas vidas, então o sofrimento, a frustração, a infelicidade, a mágoa, a tristeza.
Então, o meu brinde às derrotas; o meu aplauso aos fracassados; a minha solidariedade às tentativas frustradas de sucesso.
O meu reconhecimento aos medíocres; a minha admiração aos desconhecidos; o meu apoio aos que nada têm, nada possuem, nada obtiveram.
Saúdo aqueles que não têm talento, mas que servem como medida aos que os esbanjam, aos que vencem; meus sentimentos às pessoas que vieram para este mundo e o deixarão sem qualquer despedida, sem deixarem saudade, sem que seus nomes sejam lembrados até mesmo pelos seus descendentes.
Ergo o cálice bem alto, o mais alto que posso, transbordando de... água, e brindo a mim mesmo, um ninguém, símbolo da incompetência pessoal e profissional, exemplo de um ser humano descartável, modelo de como não se deve ser, um legítimo membro da plebe ignara, e que espera não ser condenado em outras vidas porque desta não soube extrair o material para esculpir a si próprio!


8 comentários:

  1. 1)A foto me fez lembrar um daqueles filmes antigos que eu gostava muito, do Império Romano...

    2) O texto do Bendl me fez lembrar da "Impermanência em tudo na vida", a meu ver, um dos grandes ensinamentos do Buda...

    3)Uma hora somos vencedores, outra hora somos perdedores, como um jogo de futebol, mas sobretudo, somos todos participantes da existência...

    4)Eis o famoso ditado popular: "vivendo e aprendendo"...

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    1. Francisco Bendl23/10/2017 10:46

      Rocha, meu amigo,

      Grato pelo comentário.

      De fato, a vida nos apresenta instabilidades que devemos saber como lidar quando somos envolvidos pelas inconstâncias e circunstâncias!

      E concordo plenamente que viver é aprender, desde que se queira ser aluno, que prestemos atenção nas aulas diárias, que ouçamos atentamente o que dizem os mestres!

      Talvez seja exatamente porque não aprendemos o suficiente para subirmos os degraus de uma existência plena, que morremos e voltamos, de modo a complementar os ensinamentos que não absorvemos, que não nos importaram quando precisaram ser considerados sumamente importantes!

      Nessas alturas, rendo minhas homenagens ao Buda, quando identificou na vida a impermanência, o vai e volta, o que sobe e desce, o que afunda e boia, a reta e a curva, o amor e o ódio, o que vence e o que perde, e que podemos experimentar todas essas experiências ao longo da vida, e haja preparo, conhecimento, resistência e denodo, determinação!

      Um grande abraço.
      Saúde e paz.

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  2. Olá amigão dissidente (outros blogs que o digam!),
    Desde ontem estou pensando, sem saber comentar. Porque seu texto deu nó na minha cabeça sempre quente.
    Mas sei que você está enormemente errado. Errado do seu tamanho.
    O que é sucesso? Ter dinheiro e ser impotente para salvar um filho doente? Ou ter um filho deficiente e não saber como ele vai ficar quando você morrer? Ou ter diplomas, falar línguas, e não mudar em nada ao longo da vida? E chegar ao fim dela só com tédio e cansaço?
    E fracasso? Não ter casa própria nem estudo? Ou que os filhos te ajudem nos tempos de velhice? Ou ter que se contentar com pouco e mesmo assim ou por isso mesmo, ser feliz?
    E quem tem razão é o Antonio Budista:
    "Uma hora somos vencedores outra somos perdedores...somos todos participantes da existência."
    Até mais.

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    1. Francisco Bendl23/10/2017 10:10

      Aninha,

      Obrigado pelo comentário.

      Eu queria mesmo a discussão, opiniões contrárias às minhas, pois a vida não é e nunca foi unanimidade.

      Agora, os fracassados sempre foram rotulados tanto como perdedores quanto incompetentes, logo, descartáveis, seres humanos inferiores.

      Como penso diferente neste particular, por entender que as pessoas que "venceram" na vida precisaram daquelas que foram derrotadas, imaginei fazer uma homenagem a esta gente esquecida, deixada de lado, consideradas imprestável.

      E me coloquei como exemplo, pois se o sucesso está ligado diretamente ao patrimônio, ao dinheiro no banco, às empresas erguidas, da minha parte não tenho nada parecido, então o meu brinde às pessoas que, assim como este dissidente - sábado foi um dia daqueles! -, nada contabilizam materialmente, a não ser vastas propriedades mentais, pensamentos infinitos, imaginações que são maiores que os campos mais férteis do mundo!

      Um forte e grande abraço, Aninha.
      Saúde e paz, extensivo aos teus amados.



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  3. Wilson Baptista Junior23/10/2017 09:11

    Chicão, refleti muito sobre teu artigo, e a única conclusão a que chego é que, como a beleza, o sucesso e o fracasso dependem de quem vê.
    Ao longo de minha vida fiz muitas coisas interessantes. De algumas me orgulho, de outras me arrependo. Como qualquer um. Ensinei pessoas em vários países; nessas viagens pude conhecer os maiores especialistas do mundo no que eu fazia, e trabalhar com alguns deles. Fiz grandes amigos, alguns ainda estão por aqui, outros já foram para o andar de cima. Algumas pessoas dizem que foi um sucesso. Mas, como diz um amigo, a única coisa que nunca consegui, apesar de ensinar aos outros, foi me transformar num produto vendável. E por isso não soube ganhar tanto dinheiro como muitos esperavam. E hoje, apesar de ter trabalhado muito, vivemos apertados. Para esses, fui um fracasso. Ajudei a Ana a criar dois filhos maravilhosos; para nós, foi um sucesso. Mas por causa justamente do trabalho passei muito menos tempo com eles do que deveria e gostaria. E disso me arrependo. Estudei anos e anos, mas as coisas mais importantes que aprendi foram fora das escolas. E se cheguei a alguma conclusão com tudo isso, foi que não me importa se as pessoas me consideram realizado ou fracassado. Importa que hoje, cá na minha toca, junto da Ana, entre meus livros, meus discos e os amigos com que convivo ou me correspondo, eu sou feliz. Há dias comentei com um amigo, sobre outro assunto,
    que razão tinha o velho Disraeli quando disse : "Never complain, never explain" ( nunca reclame, nunca explique)...

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    1. Francisco Bendl23/10/2017 10:36

      Caríssimo Mano,

      A ideia foi esta, de nos confrontar pessoalmente, e constatarmos se poderíamos ter feito mais e melhor.

      Evidente que deixei propositadamente em aberto as nossas limitações, que são agregadas à disposição, ao ânimo, à rebeldia, que tanto podem nos levar para caminhos claros quanto para trilhas obscuras, dependendo de nossas escolhas.

      Pensa comigo:
      Na razão direta que gostamos e apreciamos em demasia os artigos do Pimentel sobre artes, que temos muito admiração e rasgamos elogios aos textos da Ana, as belas crônicas de Palmeira e Domingos, os teus relatos internacionais e o budismo do Rocha, que nos abastece espiritualmente com seus conhecimentos sobre esta filosofia, digamos que eu seja aquele que atrapalha esta alegria e paz de espírito, trazendo à tona outra arte, a de saber viver!

      E esta habilidade requer mais do que talento e vocação; a arte de viver exige coragem, desprendimento, consideração, solidariedade, afeto, carinho, amor ... e tanto pelo aspecto pessoal quanto pelos outros, pelo semelhante!

      Assim, percebi que o fracassado não pode ser destituído desses sentimentos humanos que citei acima, pelo contrário, precisa mais do que aquele que classificamos como vencedor, pois precisa no mínimo de consolação.

      Dito isso, não é a minha intenção oferecer a este oásis cultural, este blog extraordinário, temas polêmicos, não, mas as nuances existenciais, os altos e baixos do ser humano, os admirados e respeitados, e os desconsiderados e esquecidos, os exemplos de realizações e os modelos de como não se ter nada!

      Evidente que diante de artigos meus postados, graças à tua tolerância comigo, escrevi textos animados, jocosos, mas também sobre aspectos que devemos meditar, pensar, comparar, confrontar, pois a vida é assim, e conhecemos gente que está bem e pessoas que estão mal.

      Neste caleidoscópio de emoções e situações temos de conciliar a nossa própria vida, mais:
      Temos de também oferecer aos nossos amados - esposa e filhos - um ambiente agradável, clima estável, um lar bem constituído, exatamente como tu e a Ana, eu e a Marli, o Pimentel e suas esposa, o Rocha com a sua cônjuge, certamente da mesma forma Domingos e Palmeira, conseguimos.

      Portanto, somos todos vencedores, apesar de haver quem interprete diferente, que contabiliza quem vence e quem perde através do vil metal, separando-se exatamente do que temos de mais valioso, que dinheiro algum adquire, o reconhecimento alheio de que somos pessoas, gente humilde, porém imprescindíveis à felicidade alheia, pois somos agentes de felicidade, e este o grande segredo de sermos felizes, o poder que temos de transformar, de modificar, de alterar o bom para o mau, do tolerante para o intolerável, do suportável para o insuportável!

      Podemos ser mágicos, melhores do que o Mandrake - lembra desse personagem?

      Grato pelo comentário, meu caro amigo Wilson.

      Agradeço eu poder participar deste espaço tão elevado mental e espiritualmente, e poder dividir meus pensamentos com gente tão importante e inteligente, dignas e honradas, meus modelos de como devo proceder e ser.

      Um grande e forte abraço.
      Saúde e paz.

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  4. Moacir Pimentel23/10/2017 12:44

    Bendl,
    Acho que vou pular o brinde que não agrada muito o meu paladar (rsrs)Não entendo a vida como uma arena onde se entra com duas opções apenas: matar ou morrer, vencer ou perder, ser um sucesso ou um fracasso. Essa foto desconhece matizes e temperança e nela é como se o filme rolasse a 8 ou 80, preto no branco, polegares para o alto ou para baixo. Penso que, em vez, que a vida é uma estrada às vezes esburacada, outras asfaltada onde a gente acerta e erra nas quebradas cai, sacode a poeira e se levanta e segue em frente e aprende que mais importantes do que os seus pontos de partida e de chegada, é a própria viagem.
    //
    Se partires um dia rumo a Ítaca
    faz votos de que o caminho seja longo,
    repleto de aventuras, repleto de saber.
    Nem os Lestrigões nem os Ciclopes
    nem o colérico Poseidon te intimidem;
    eles no teu caminho jamais encontrarás
    se altivo for teu pensamento, se sutil
    emoção teu corpo e teu espírito tocar.
    Se tu mesmo não o levares dentro da alma,
    se tua alma não os puser diante de ti.
    Faz votos de que o caminho seja longo.
    Numerosas serão as manhãs de verão
    nas quais, com que prazer, com que alegria,
    tu hás de entrar pela primeira vez um porto
    para correr as lojas dos fenícios
    e belas mercancias adquirir:
    madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
    e perfumes sensuais de toda espécie,
    quando houver, de aromas deleitosos.
    A muitas cidades do Egito peregrina
    para aprender dos doutos.
    Tem todo o tempo Ítaca na mente.
    Estás predestinado a ali chegar.
    Mas não apresses a viagem nunca.
    Melhor muitos anos levares de jornada
    e fundeares na ilha, velho enfim,
    rico de quanto ganhaste no caminho,
    sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
    Uma bela viagem já deu-te Ítaca.
    Sem ela não te terias posto a caminho.
    Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te.
    Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
    Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
    e agora sabes o que significam as Ìtacas
    Konstantinos Kaváfis
    (Tradução José Paulo Paes)

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  5. Francisco Bendl23/10/2017 14:32

    Pimentel,

    Quando enviei para o Wilson este artigo não obtive a sua aprovação integral.

    Mas pedi que fosse publicado como eu o fizera, caso contrário poderia deletá-lo, pois algumas frases são importantes no contexto do trabalho, ainda mais que me coloco como exemplo.

    Nosso Mano concordou com o meu pedido, pois a ideia era a contestação, a discussão, a ideia de cada um neste particular, nesta definição de vencidos e vencedores.

    Belíssimo poema, Ítaca, Pimentel, postaste no teu comentário, representando a nossa jornada na vida, no dia a dia, nas suas dificuldades, tentações, prazeres, realizações e frustrações, pois somente a viagem é o tesouro maior, a recompensa, os louros da glória!

    Inegavelmente, nós que chegamos até esta idade - tu ainda és um guri perto de mim, dos meus 68! -, o nosso agradecimento é pelo tempo neste planeta, aprendendo, ensinando, colhendo, plantando, e se não sabemos de onde viemos, conhecemos que nossa função é seguir em frente, e se a dúvida persiste quanto para onde vamos, a certeza de que precisamos deixar um bom legado, no mínimo de luta pelo bom combate, pelo bem dos outros, pela felicidade alheia, pois nos tornamos sábios como o final da brilhante poesia, experientes, logo, o caminho que percorremos para as Ítacas foi absolutamente imprescindível, necessário, até para que pudéssemos no dia de hoje comentar sobre a vida, sobre a existência, sobre quem somos para nós mesmos e para os outros!

    Sinceramente, o meu objetivo foi obtido de forma estupenda com os comentários postados, simplesmente irrepreensíveis, absolutos em sabedoria e experiências de cada um.

    Um forte abraço, Pimentel.
    Saúde e paz.

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