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30/10/2017

De cores e tintas

Ana Nunes



Ana Nunes
Acho que as cores precedem o mundo. Certamente o meu. E é maravilhoso mexer com elas, tirar pigmento da terra e socar até virar pó fino. E depois escaldar, esperar decantar e coar. Fazer a aquarela, o guache ou a acrílica. Ou compra-las prontas que é bem melhor. E depois, tentar traduzir a imagem em cor, nas manchas ou nas linhas.

A aquarela em toques delicados de pincel no papel molhado se desfaz em sonho e corre a se misturar às outras pinceladas, criando limites tênues, quase inexistentes, entre as cores desmanchadas. O azul se junta ao vermelho e já tenho o roxo. E já posso fazer uma ameixa. Se nesse mesmo vermelho colocar um pingo de amarelo tenho a laranja, a mexerica e o mamão. O preto com o branco me dá o dia chuvoso. E o amarelo com o azul o verde das folhas na minha janela.
A tinta acrílica, mais densa e teimosa, é misturada na minha palheta de bandeja de isopor. O pincel se envolve nas cores fortes e as mistura na busca da outra cor. E cria uma gama de tons novos numa quantidade finita por enquanto. Porque tenho pressa de usar.

No tear, os fios coloridos saídos separados dos novelos se esticam e entrelaçam. E perdem sua identidade no fazer da outra. Porque já não são azuis ou brancos ou verdes porque tão entrelaçados formaram uma nova cor no tapete tecido. E o resultado maravilha os nossos olhos cansados.

E quando fica de noite essas mesmas cores se estranham e nos espantam. E sob lâmpadas diferentes também se transformam. E se o sol fosse de outra cor nem sabemos imaginar como seriam. É tudo uma surpresa.

Como surpresa é a criança que nasce e traz na cor a mãe e o pai. E o avô e a avó. Quem sabe um bisavô distante que ela nem vai conhecer.
E ela aparece pálida amarelada se for uma japinha de olhos puxados.
E da cor de chocolate, de olhinhos redondos e bochechas redondas se os pais forem negros.
E da cor do café com leite, nas suas variadas misturas, se os pais já vieram misturados garantindo esses tons lindos nas peles macias de seus filhotes.
Branquelas e sorridentes nas bochechas coradas, trazidas de um lugar mais longe e mais frio.
Marronzinhas avermelhadas de cocar e fitas nos tornozelos se vieram de uma tribo.
E lindamente azeitonadas se vieram na barriga de uma indiana.
E muitas outras cores que vieram sendo feitas ao longo do tempo nas misturas de amor.

E me disse uma pesquisa feita, que essas cores todas vieram de um só lugar com a idade da criação do mundo. Se branca, amarela, negra ou caramelo, se do continente africano ou europeu, vieram de um mesmo DNA. E foram se adaptando, ficando mais fortes e mudando os tons à medida em que saíam das florestas e se dirigiam às savanas. Disse também que classificar pessoas por cor seria o mesmo que classificar por altura. E aí o Antonio e eu ficaríamos no grupo dos baixinhos separados de vocês outros.

E não importa mais se "Black is beautiful", se "Orange is the new black", se "All the colours of the rainbow turn to blue", porque todas as cores são especiais. E vão continuar se juntando e renovando. E fazendo mais cores lindas para enfeitar o planeta. E nossas vidas. E nossos amores.


12 comentários:

  1. Léa Mello Silva30/10/2017 08:07

    E a manhã ficou colorida com seu texto
    E as cores vieram alegrar os olhos e a vida
    Surpresa pela manhã !!! Obrigada 😘

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  2. Priminha,
    Você está poética!
    Que lindo comentário. Obrigada.
    Beijoca.

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  3. 1) Belo artigo e ilustrações, Ana, parabéns !

    2) Tintas, traços, cores. Há implícita uma mensagem bonita de união, fraternidade e Paz.

    3)Baixinhos e altões estamos todos aí na Arte de tecer o texto e a trama da Vida.

    4)TAO = Teclando Amplexos Obrigado !

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    1. Antonio,
      Obrigada pelo comentário elogioso.
      Gostei de baixinhos e altões tecendo textos e tramas.
      Até mais.

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  4. Francisco Bendl30/10/2017 16:07

    Na verdade somos mágicos e não sabemos ou ignoramos esta qualidade.

    Se a magia de uma cozinha, onde estão ingredientes crus e em estado natural, podem ser transformados em alimentos e pratos deliciosos, alguns verdadeiras iguarias, o mesmo se pode dizer das cores, que dão beleza ao que fazemos, que adornam o local onde moramos, que dão alegria aos objetos e sentidos à própria vida, haja vista que a visão humana nos contempla com um universo de cores que, ao serem usadas embelezam o que queremos pintar, e nos encantam ao mesmo tempo pela transformação que trouxe ao resultado.

    Na forma como as mulheres veem as cores, as interpretam, e são as pessoas que mais sabem utilizá-las e aplicá-las, o texto da Ana é um caleidoscópio, pois multicolorido, e nos faz imaginar os quadros e imagens os mais variados com as cores e as tintas.

    Então, o artigo é belo porque não existe uma cor preferida, todas, indistintamente são lindas e importantes, e salientadas pela sensibilidade da autora, sua maestria em nos relatar o que pensa, e sua genialidade em saber transmitir o recado que deseja, a sua mensagem extraordinária porque possui um talento indescritível para escrever, e colorido.

    Só mesmo uma dissidente conseguiria usar a magia de escrever com palavras em cores, surpreendendo-nos pela postagem maravilhosa!

    Um forte abraço, Ana.
    Saúde e paz, extensivo aos teus amados.


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    1. Olá amigo Francisco,
      As cores são mesmo mágicas. E preciosas. Principalmente quando as cores das pessoas não servem mais para separá-las, e sim para compor um país harmônico, bonito e justo. Como você disse, "sem uma cor preferida , todas indistintamente lindas e importantes".
      Obrigadíssima. Até mais.

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  5. Ana!!!!
    Vc é uma pintora pintando também com as palavras
    Tingo

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    Respostas
    1. Olá Tingó,
      Bom te ver por aqui. Ainda mais com um elogio tão caprichado!
      Muito obrigada!
      Até mais.

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  6. Moacir Pimentel30/10/2017 21:13

    Caríssima Donana,
    Fui lendo até que cheguei no tear "onde os fios coloridos perdem sua identidade no fazer de outra" e então me lembrei de uma das mais complexas telas de Velázquez chamada Las Hilanderas, que mora no Prado.
    https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/a/a3/Velazquez-las_hilanderas.jpg/1200px-Velazquez-las_hilanderas.jpg

    Só que o título tem menos a ver com as fiandeiras espanholas pintadas no primeiro plano, do que com o tapete que serve de pano de fundo, narrando o mito de Atenas e Aracne do qual, estranhamente, os observadores parecem ser personagens.
    Com grande qualidade a senhora também vai entrelaçando tudo - vida, temas, palavras e cores e planos - como se fosse uma “tecelã de sonhos”, como uma vera contadora de estórias que sabe aquarelar , gravar, pintar, tecer, escrever e, no tempo certo, ficar quieta aprontando novas artes dentro da cabeça criativa.
    Nesse seu mundo colorido parece mesmo que as cores harmonizadas e contrastadas são verbo, escorrendo em sonhos ou em deliciosas metamorfoses de ameixas em laranjas, de mexericas em papayas, para não falar das folhas azuis e amarelas antes de enverdecer, da chuva resultante de muito branco no preto e das crianças multicores (rsrs)
    O fato é que as suas pretinhas, manchas e linhas e raios luminosos fazem o olho correr para cima e para baixo pela superfície, onde, é claro, as cores fazem coisas estranhas umas com as outras, em espaços ora secos ora úmidos ora brancos e mudam e se desmancham para nascer de novo em inéditos e poéticos tons.
    Talvez a aquarela seja, para a senhora, o meio e a metáfora mais exatos pois suas claras cores fazem muitas perguntas no infinito de suas variadas atmosferas e formas (rsrs) Sim, uma aquarela, "de limites tênues, quase inexistentes", vibrante, transparente, imediata,
    ricamente colorida, emocionada e imprevisível. Do jeito que a senhora tão bem "conversa" o mundo.
    “Até mais”

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    Respostas
    1. Olá Moacir,
      Gostaria de dizer concordo, concordo, concordo. Mas não é bem assim. você realmente anda exagerando...
      Mas se pensou isso tudo é porque gostou do texto. E eu gostei muito de você ter gostado.
      Continuarei tentando "conversar o mundo" e colorir nosso blog.
      Gratíssima.
      Até mais.

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  7. Heraldo Palmeira03/11/2017 19:15

    Ana,
    Como já dizia o velho jingle, "O que seria do azul se todos gostassem do amarelo?. De qualidade de cor quem entende é o pintor". Belíssimas cores você espalhou sobre nós. Até mais.

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  8. Olá Heraldo,
    Que lindo comentário voce fez para mim! Obrigada.
    Até mais.

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