-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Siga este blog por Email

12/10/2017

Picasso e Modigliani

Amedeo Modigliani - Retrato de Pablo Picasso (1915) - coleção particular - www.oceansbridge.com

Moacir Pimentel
Modigliani e Picasso compartilharam um interesse pela arte africana, que influenciou seus respectivos trabalhos. Picasso inclusive pintou as suas Senhoritas d’Avignon como máscaras.
Só que onde seus amigos Picasso e Braque e Juan Gris quebraram a forma, Modigliani a manteve unificada e nunca seguiu Picasso até os extremos da fragmentação cubista. Em vez ele escolheu retratar a maioria de seus modelos como meias-figuras ou bustos renascentistas: as poses das mãos cruzadas em primeiro plano instantaneamente nos lembram dos grandes mestres do retrato como Leonardo, Ticiano e Ingres, cujo trabalho ele procurou redefinir.
Picasso posou diversas vezes para Modigliani e possuía algumas obras do italianinho mas diz Dona Lenda que, certa noite, necessitando de uma tela, o primeiro pintou sobre uma das obras do amigo Modi.
Modigliani foi amigo de Picasso sim, embora não pertencesse ao seu círculo íntimo. Dizem que Picasso admirava mais o guarda-roupa de Modigliani do que suas pinturas e que Modigliani, por sua vez, apesar de reconhecer o gênio do espanhol dizia que o talento artístico não era uma desculpa para o outro não se vestir decentemente.
O quadro que inaugura o post é o mais famoso dos retratos que Modigliani fez de Picasso. Inseguro sobre suas tintas, Modigliani tinha sentimentos contraditórios sobre o amigo. Sem dúvida o respeitava, atraído por sua personalidade carismática e seu grande talento artístico. Mas – dizem as más línguas! - tinha inveja do sucesso do amigo.
Esses sentimentos conflitantes surgem nesse retrato: a ambivalência é sugerida nesse rosto de dois tons. A desigualdade da pintura sugere conflito interior não do modelo mas do pintor. No entanto, o rosto redondo e as características faciais desse retrato se assemelham aos de Picasso e demonstram o respeito de Modigliani pelas suas sabedoria e experiência. Isto é literalmente soletrado no lado direito mais baixo da pintura com a palavra francesa “savoir” ou saber.
A palavra descreve – talvez! - um aspecto da arte de Picasso: o papel desempenhado nela pelo intelecto do artista, a sua qualidade visionária, a sua capacidade de perceber e reproduzir imagens mentais, filhas da sua imaginação. Veja como o nariz de Picasso foi plantado de forma infeliz nesse rosto! Modigliani sabia muito bem como fazer narizes, às vezes gráficos e esquemáticos, às vezes tão esculturais como a quilha de um barco. Nesse retrato inexistem as qualidade mais características do cubista: energia e poder!
Mas difícil mesmo é ver o próprio Modigliani como uma pessoa real. Ele entra e sai das biografias de Picasso e Matisse, tolerado mas nunca inteiramente bem vindo. No entanto, lá estava Modigliani, saindo com Picasso e Juan Gris, Brancusi, Max Jacob e Apollinaire, Jacob Epstein, Jean Cocteau.
É como se, desde a sua chegada a Paris, Modigliani conscientemente tivesse criado um personagem para si mesmo, cultivando a reputação de usuário de drogas e alcoólatra voraz e desesperado. Pelo que se sabe, depois de algum tempo Picasso passou a reprovar o estilo de vida do amigo ou a, pelo menos, achá-lo tedioso com todas as carraspanas e drogas.
O espanhol dizia sarcasticamente que ninguém jamais vira Modi bêbado, fora dos limites de Montmartre. Esse comportamento pode ter sido a forma que o artista encontrou para esconder a tuberculose de seus amigos e conhecidos. A doença era altamente transmissível e, no início do século XX, para ela não havia cura.
Uma das muitas ironias da carreira de Modigliani é como ele foi capaz de produzir um trabalho tão sereno em meio a uma vida tão torturada. Sua arte conseguiu unir o abismo estilístico entre a pintura clássica italiana e o modernismo de vanguarda e talvez por isso seu trabalho, durante muito tempo, não tenha encontrado lugar dentro da pintura do século XX.
Na sua Itália natal, muito jovem, ele se matriculara em escolas de arte onde estudou obedientemente pintura acadêmica e desenho e ficou fascinado pelos grandes artistas do Renascimento italiano, uma paixão que em Paris o separaria de muitos dos seus pares militantemente modernos.
Ainda assim, ele queria abrir novos caminhos. E concordando com Nietzsche que dizia que “Como artista um homem não está em casa na Europa exceto em Paris”, lá se foi ele para Paris em busca da sua visão artística e ambições.
Dizem que ele emergiu do compartimento de segunda classe do trem italiano metido em um terno preto elegante e uma dramática capa negra e se comportando como um aristocrata. Em sua mala ele trouxera uma edição bem usada de Dante e uma pequena reprodução de duas cortesãs pintadas do artista renascentista veneziano Vittore Carpaccio, que ele penduraria nas paredes de uma sucessão de quartos alugados. A mãe lhe dera dinheiro suficiente para durar alguns meses, se ele fosse “cuidadoso” um adjetivo que simplesmente não tinha nada a ver com Modigliani.
Em Paris, ele descobriu o trabalho de Renoir, Degas, Gauguin e, dos mais jovens e radicais, Matisse e Picasso. Para Cézanne ele reservava a palavra “admirrrrrrrável” e sempre que o nome do mestre era mencionado, tirava do bolso uma pequena reprodução de um retrato famoso feito por Cézanne - O Menino com o Colete Vermelho – e o beijava com reverência.
Rapidamente ele assumiu a pose do boêmio frequentando os lugares prediletos dos artistas de Montmartre e mais tarde Montparnasse, usando um lenço de seda brilhante em volta do pescoço no lugar de uma gravata na companhia do artista russo Chaim Soutine e de Maurice Utrillo, seus companheiros de carraspanas.
O certo é que durante a maior parte de sua vida, Modigliani foi mais conhecido como esse personagem do que como pintor. Talvez mais importante que suas tintas tenha sido a sua vida tão colorida e trágica que obscureceu suas realizações como artista.
Modigliani em sua vida pessoal foi a própria imagem do pintor boêmio incompreendido e se van Gogh foi o gênio louco por excelência, Modigliani foi o mais que perfeito alcoólatra tuberculoso perseguindo nas suas próprias palavras “uma vida breve mas intensa”.
Além de pequenas somas que sua mãe ocasionalmente lhe enviava de Livorno às custas de muito sacrifício, ele sobrevivia principalmente graças aos esboços rápidos que fazia dos frequentadores dos cafés parisienses em troca de moedas, uma refeição ou uma bebida. Há relatos da dignidade de Modigliani enquanto trabalhava no Café de la Rotonde:
“Com o gesto de um milionário, ele estendia a folha de papel desenhada na qual assinara seu nome como que se fosse um cheque bancário em pagamento para alguém que acabara de lhe comprar um copo de whisky.”
Decerto ele usou a bebida e as drogas como paliativos para aliviar a dor física e para ajudá-lo a manter uma fachada de vitalidade. Ele desejava acima de tudo continuar a criar a sua arte, chegando a fazer mais de cem esboços por dia. Mas também é correto afirmar que Modigliani temia ser ostracizado e rejeitado por causa da doença. Naqueles tempos os drogados eram mais bem vindos do que os tuberculosos.
As noites desregradas de Picasso durante os seus períodos azul e rosa, antes que Modigliani chegasse a Paris, talvez tenham lhe proporcionado imagens e ideias surpreendentes mas nem mesmo Picasso podia trabalhar chapado ou em estupor. Na vida de Picasso as drogas foram um breve capítulo enquanto que na de Modigliani elas chegaram para ficar.
O “Modi” foi certamente o amaldiçoado mais vívido da história da pintura, tão famoso por sua vida quanto por sua arte, cuja reputação sobreviveu até mesmo à desastrosa personificação que Andy Garcia fez da sua maudit pessoa, de olhos vidrados e franzindo furiosamente o cenho para expressar emoção.
Amedeo Modigliani parece ter vivido sempre seduzido e cativado pelo seu próprio eu talentoso - um lugar muito perigoso e narcisista para de se viver e morrer. Na soma de suas influências, que vão de Botticelli e Ticiano a Cézanne, de Gauguin a Picasso - há sim uma magreza e uma enorme facilidade gráfica em relação ao tamanho de seu talento - mas o que se podia esperar face às circunstâncias do artista?
Depois dos longos pescoços de cisne, dos nus encantadores, dos rostos ovalados, dos olhos em forma de amêndoa e dos lábios apertados de seus modelos, o que mais se pode dizer sobre a obra de Modigliani?
Amedeo Modigliani - Auto retrato *1919) - www.wikiart.org

         Esse auto retrato é o último trabalho de Modigliani e um verdadeiro testamento. É o único auto retrato a óleo do artista que chegou até nós, excetuado o auto retrato como um Pierrot e alguns desenhos. É estranho que, embora tendo vivido cercado por artistas a quem retratou, a recíproca não tenha sido verdadeira e não haja retratos de Modigliani feitos por seus amigos pintores.
As poses de perfil como a desse auto retrato não são encontradas facilmente na sua obra e, que eu me recorde, ele pintou somente mais dois outros retratos de perfil da mulher Jeanne Hebuterne. Teria ele medo do olhar do artista, de ser interpretado por um pintor, mesmo que esse pintor fosse seu amigo?
Mas como Modigliani dedicou toda a sua vida ao retrato, à quase total exclusão de outros gêneros de pintura como por exemplo as paisagens e naturezas mortas, pode-se pensar que as centenas de faces diferentes que ele pintou constituem uma espécie de auto retrato composto, a expressão de sua perspectiva mais interior.
Tendo se recusado tanto tempo a permitir que qualquer imagem de si mesmo fosse pintada Modigliani talvez tenha sentido, à medida que sua doença se intensificava e ele enfraquecia, a necessidade de deixar este último e mais pessoal testemunho de sua arte.
Nessa tela Modigliani mira o espectador com um olhar que deveria ser tocante. Mas não consegue ser. O último auto retrato não nos conforta nem emociona : é apenas uma configuração de formas sem coração feita com uma paleta hesitante. Esse retrato foi o mais vazio trabalho de Modigliani.
Seu rosto emaciado já se assemelha à máscara de morte. Na derradeira paleta, nas últimas harmonias de seu pincel, Modigliani encarna para sempre as palavras que dissera praí uns dez anos antes:
“A felicidade é um anjo de sepultura”.
André Salmon creditou ao uso de drogas e absinto a gênese do estilo genial de Modigliani, “uma luz inesperada transformando sua arte”. Eu olho para as telas do artista e discordo veementemente, pensando no que ele teria pintado se tivesse, em vez, se cuidado, se mantido longe delas e optado pela vida e não pela morte precoce aos trinta e cinco anos.
Desde então, a vida de Modigliani foi romantizada em livros, no palco e nos filmes, embora ele jamais tenha sido um dos preferidos dos historiadores da arte moderna. Mas o público sempre gostou de Modigliani: da sua elegância, do seu refinamento, daquilo que os franceses chamam de “panache”. E das suas histórias de amor, da mais tórrida à mais trágica. Quem não gosta de uma boa e triste história?
Mas resta nessa conversa uma pergunta sem resposta. Como Modigliani teria pintado se não tivesse morrido tão jovem, se não tivesse sido tão obcecado em autodestruir-se? O que mais teria pintado, se tivesse vivido, o maldito Modi?
Nunca saberemos. 



15 comentários:

  1. Mônica Silva12/10/2017 08:31

    Não gostei dos quadros, Moacir. Não fique chateado comigo. O retrato de Picasso é tão confuso quanto a cabeça do seu autor e o auto retrato não tem qualquer expressão. É uma clássica cara de paisagem kkk Acho que Modigiani tinha muito talento e gostei de ver a maioria dos quadros que você mostrou, obrigada! Mas o artista não tinha um pingo de juízo e se matou devagar mas como se tivesse puxado o gatilho de uma arma. Gosto de histórias tristes mas não das que podem ser evitadas. Bom feriado!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Moacir Pimentel12/10/2017 09:10

      Mônica,
      Pelamordedeus! Eu só tenho motivos para NÃO ficar chateado com você (rsrs) e sou-lhe imensamente grato pelos simpáticos comentários.
      Dia desses rascunhando um texto sobre outro pintor controverso lembrei que o grande poeta TS Eliot certa vez afirmou que seria muito aborrecido falar sobre poesia com alguém que gostasse de toda e qualquer poesia. Porque, segundo ele, “a aversão é a raiz do verdadeiro prazer".
      Quando se trata de pinturas, se nenhuma escolha for feita, se não gostarmos de muitas e até mesmo odiarmos algumas - e de uma maneira tendenciosa e apaixonada! - então literalmente não sentiremos a força da arte.
      Abração e aproveite o feriadão!

      Excluir
  2. Márcio P. Rocha12/10/2017 09:32

    Só discordo que Picasso tenha ido, como você diz, até o extremo da fragmentação cubista, aquilo que seria no meu modo de ver a arte abstrata, rs.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Moacir Pimentel13/10/2017 10:41

      Márcio,
      Tenha paciência que qualquer dia desses abstrairemos (rsrs) Pablo Picasso e Georges Braque avançaram juntos rumo à abstração, como iguais. Veja duas obras pintadas pelos dois cubistas em 1911:
      Ma Jolie de Picasso
      https://www.pablopicasso.org/images/paintings/ma-jolie.jpg
      E Português de Braque.
      https://uploads0.wikiart.org/images/georges-braque/portuguese-1911.jpg
      Depois meio que divergiram, Braque caprichando nas facetas e Picasso usando a geometria das pinturas facetadas do outro para criar um estilo quase abstrato. Creio que o cubismo tardio de Picasso serviu como o elo entre esse estilo e a arte abstrata que veio em seguida. Algumas coisas de Picasso, nesse período, são realistas ao ponto de saltar para o abstracionismo, igualzinho àquela Árvore Cinzenta do Mondrian.
      Mas é fato que Picasso nunca desistiu da terceira dimensão. Embora tenha flertado com a possibilidade, ele jamais se tornou um pintor abstrato da gema. Nele, da mesma forma que em Modigliani, a criação figurativa fora gravada profundamente e portanto e concordando com você, acho que o principal inspirador da arte abstrata nunca chegou às suas vias de fato. Nesse sentido, Picasso não foi o radical e revolucionário que, durante o período cubista, ele deu a entender que seria. Depois de seu período cubista ele cometeu - deixando muitos sem entender nada! – coisas extraordinárias só que neoclássicas. Aliás Picasso jamais deu a mínima para os ismos - cubismos, neoclassicismo, simbolismo, surrealismo - dos quais entrava e saía a seu bel prazer ou, como dizem as más línguas, toda vez que trocava de mulher (rsrs)
      Obrigado por participar

      Excluir
  3. Olá Moacir,
    Entre a vinda e outra dos netos nesse feriado de santa, de crianças e professores. E entre comentários de netos tipo, quando o menor chamado de levado disse - Mas chatos são os adolescentes. E eu disse- e você vai ser um, e ele- Mas o meu irmão é quase.... Bom! Netos, eu os adoro e os vejo tão pouco! Mesmo assim acho que dá tempo de fazer um bom trabalho por que , em conversa com o pré adolescente, eu disse que as avós são um pouco doidas, e ele perguntou - Pouco? E por aí vamos construindo nossa história!
    Nada a ver com seu, mais uma vez, delicioso post, mesmo em meio a essa desgraceira toda! Li entre triste pelo belo Modi e revoltada, porque se Modigliani cultivava a reputação de drogado e alcoólatra, por teatro ou por verdade,Picasso se contentava em destruir mulheres. E, mesmo assim, adoro sua obra, vasta, audaciosa, pesquisadora, experimental, sem medo. Artistas, artistas, vida pessoal à parte.
    Quem sabe a paz procurada por Modigliani, ele não a encontrava em seus trabalhos calmos de olhos vazios? Sua linhas esbeltas e sua cores trabalhadas? Ou talvez, em meio a sua tortura pessoal, sua obra tomasse suas mãos e idéias, e se tornava a autora? Tudo viagem minha e sua e de todos que se arriscam a falar deles. Concorda?
    Mas o retrato de Picasso não tem olhos vazios. E se o nariz é falho de traço e energia, eu diria, até a boca,os olhos de frete e os cabelos são do safado do Picasso!
    Chega! Por hoje e por um bom tempo. Falei demais.
    Obrigada de coração.
    Até mais.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Moacir Pimentel13/10/2017 11:08

      Caríssima Donana,
      A senhora jamais escreverá demais. Na nossa matemática dá sempre menos do que gostaríamos. Hoje estamos orfãos de filhos e netos, uma experiência que também tem suas vantagens: se dorme até mais tarde (rsrs) Sim é claro que viajamos e erramos as nossas tintas falando das tintas alheias. Mas as artes dessa tchurma de gigantes bem que nos ajudam a espantar o tédio, imaginando como deve ter sido divertido viver e criar tudo isso, criar soluções ainda não pensadas sem permitir que a desesperança entrasse de gaiata no navio e inventando o mar e a terra à vista ao navegar!!
      Quanto aos "olhos de frete" do "safado" do Picasso, infelizmente alguns especialistas discordam da senhora e juram de pés juntos que essa mirada aí é santa, pois esse retrato seria um dos trabalhos “orientais” do Modi – de rostos redondos e olhos oblíquos como os da galera asiática - e que, inclusive, a palavra "Savoir" seria uma homenagem aos saberes do Buda, os quais supostamente o pintor andara estudando(rsrs) Quanto ao touro "destruidor de mulheres", acho que vou dar uma de Advogado do Diabo...
      Desde Rembrandt os pintores vêm desenhando de forma obsessiva os rostos e corpos das mulheres e amantes. Mas ninguém usou e abusou deles como Picasso, que eviscerou suas senhoras a serviço de sua arte! Nos seus mais de cinquenta mil trabalhos, em imagens de ternura requintada ou de grande paixão ou de pura crueldade, as mulheres são puxadas e encolhidas e engasgadas e rasgadas em formas torturadas, cortadas em pedaços e reconfiguradas na tela, papel, metal e barro.
      Por mais angustiantes que sejam essas imagens, não são nada além dos dramas da vida real que levaram o pintor à sua criação. Das sete mulheres mais importantes da vida de Picasso, uma morreu no auge do amor aos vinte e poucos anos de câncer, duas se mataram após a morte dele, uma entrou em depressão crônica, uma enlouqueceu, outra morreu de causas naturais apenas quatro anos após o fim do relacionamento. Apenas Françoise desmente a lenda urbana do vampiro: ela não gostou de ser capacho depois de ter sido deusa, deu um basta, arrumou as malas, pegou os filhos, abandonou-o, casou com outro e ainda escreveu um best-seller esculhambando o furioso ex.
      Os sentimentos de Picasso pelas mulheres da vida dele foram extremamente intensos e ele não funcionava sem uma delas à sua beira, dependia delas. Quem sou eu para atirar a primeira pedra? (rsrs)
      Ele dizia que estar apaixonado revolucionava o seu pintar. É verdade. Cada uma dessas sete mulheres brilha como um catalisador crucial em seu desenvolvimento como artista. Cada uma representa um período diferente da sua arte, um ideal complementar ou oposto que inspirou a evolução de uma nova linguagem visual. O maior artista do século XX é, na realidade, um pintor dos mistérios da percepção e do ser, dos sentimentos e paixões de homens e de mulheres. Sua visão, bem compreendida, é a mais libertadora já criada na arte.Opressor? Se olho novamente, penso que não.
      “Chega! Por hoje e por um bom tempo. Falei demais"(rsrs)
      Obrigado e curta "adoidado" os netos!

      Excluir
  4. 1) O texto do Moacir me fez lembrar, muitos esotéricos afirmam que Eva era negra, ou seja, africana.

    2)Que Lilith, a Eva Negra nos inspire com sua beleza.

    3) E parabéns ao Pimentel pela aula, onde aprendi mais bonitezas de Modigliani e Picasso.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Moacir Pimentel13/10/2017 11:11

      Antonio.
      Andei rascunhando recentemente sobre a pré-história e, se bem me lembro, os cientistas concordam com os esotéricos, quanto a Eva negra. Exceto no nome. A mãe da Humanidade foi batizada de Lucy quando sua ossada foi descoberta no norte da Etiópia, onde há 3,5 milhões de anos a sua espécie - a Australopithecus afarensis - viveu e evoluiu. Até prova em contrário somos descendes dessa fêmea africana e, aliás, só nos aventuramos para fora daquele continente, todos bem escurinhos, há praí uns 60 mil anos atrás para, em seguida, nos espalharmos pelo vasto mundo. Tem mais. Recentes estudos de DNA comprovam que os genes responsáveis por peles, olhos e cabelos claros e, bem assim , pela alta estatura surgiram na galera homus sapiens há somente 10 mil anos atrás.
      Bom feriado e "gratidão"

      Excluir
  5. Flávia de Barros12/10/2017 14:01

    Moacir,


    Eu adorei os seus ótimos artigos sobre Modigliani e o vídeo no final arrematou a série muito bem. Fiquei comovida com o seu relato de como o pintor tentava manter a dignidade fazendo desenhos para os clientes dos cafés de Paris e triste de saber que Modigliani bebia e se drogava para poder esconder a tuberculose contagiosa porque não queria que os amigos se afastassem dele. Sofrer de uma doença incurável e dolorosa explica muito bem porque um jovem tão talentoso pensava que a felicidade seria ‘um anjo de sepultura’. Coitado! Ele tinha família e não precisava ter passado por tanta privação e sofrimento. Eu vi em Barcelona autoretratos de Picasso quando jovem que não pareciam nada com esta pintura de Modigliani. Mas vejo paz no rosto dele no último retrato e tenho certeza de que o Senhor na Sua misericórdia infinita estava esperando por ele do lado de lá.

    Um abraço para você

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Moacir Pimentel13/10/2017 11:16

      Flávia,
      Modigliani viveu segundo a "noção" - ou a falta dela! - que ele tinha de como um grande ‘artista’ comprometido com a sua arte deveria viver: nadando contra a corrente, pintando compulsivamente, experimentando tudo intensamente, dormindo mal se alimentando pior ainda, bebendo e se drogando como se não houvesse amanhã. Mesmo sabendo qual seria a moeda que teria que pagar, ao fim e ao cabo. Uma imensa pena.
      Talvez esse post tenha sido injusto para com o Modi porque as comparações com Picasso ficaram inevitáveis e diante do minotauro quem não empalidece? Não foi essa a minha intenção. Até porque Modigliani pintou por seis anos apenas enquanto que Picasso dedicou setenta e cinco à pintura, começando por aquelas estupendas obras figurativas que ele fez ainda adolescente e que você tanto admirou no Museu em Barcelona.
      Vejo nas cores estranhas e tons quentes do retrato de Picasso os mixed feelings que o Modi experimentava pelo amigo, entre os quais havia alguma inveja, é claro, mas não dos sucesso e talento de Picasso e sim das suas saúde, energia e coragem de ferro. É isso o que falta no autoretrato do pintor onde parece que apagaram a luz antes dele sair .
      Outro abraço para você

      Excluir
  6. Francisco Bendl12/10/2017 18:39

    Independente dos importantes artigos que Pimentel nos brindou sobre gênios da pintura e da escultura, as informações preciosas que nos trouxe a respeito da vida pessoal desses notáveis artistas, elevando sobremaneira nossos conhecimentos em termos culturais, lamento que esta arte esteja tão distante de nós, de pessoas comuns como eu e milhões de outros brasileiros.

    Quem já teve a alegria e a sensação indescritível de ver essas telas em museus europeus, minha reverência, mas aqueles que não viajaram para d’além mar e não tiveram esta chance de ver de perto esses quadros valiosos e significantes para os estilos que possuem e representam, há uma certa frustração, uma decepção, haja vista que jamais poderão olhar essas obras imponentes.

    Logo, os textos de Pimentel, pelo menos, nos colocam diante de seres humanos que criaram as suas próprias épocas, que se fizeram presente na história da humanidade com seus pincéis e cinzéis, deixando de lado as armas que ceifaram a vida de milhões de pessoas.

    Justamente por essa escolha esses homens de exceção merecem o nosso aplauso, o nosso reconhecimento porque embelezaram não o planeta, mas uma de suas criações, o ser humano, que se mostrou sublime e criativo, e incomparavelmente mágico com as cores e o mármore utilizados.

    Picasso, Modigliani, Van Gogh, Rembrandt, Velasquez, Da Vinci, Michelangelo, Renoir, Portinari, Matisse, Pollock, Diego Rivera, Monet, Vermeer, Dali, Munch, Di Cavalcanti, Volpi, Goya, El Greco, Miró, Cezánne, Debret (tem um hotel, no Rio com este nome, onde me hospedei várias vezes), Rafael, Boticelli, Ticiano, Fra Angelico, Bellini ... foram de certa forma nossos novos descobridores no que tange o ser humano sair de si mesmo, e registrar em tela ou em pedra os seus sonhos, a sua imaginação, aquilo que o diferenciava dos demais, e concretizar pensamentos delineando-os conforme suas mentes brilhantes!

    Obrigado, Pimentel, por esta viagem ao mundo do belo, mesmo que tenha as suas tragédias pessoais, seus dramas – quem não os têm, até mesmo os medíocres as possuem!

    Um forte abraço.
    Saúde e paz.


    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Moacir Pimentel13/10/2017 11:24

      Bendl,
      Lembra daquela brincadeira de nossas infâncias de nome Quente ou Frio, na qual um pirralho se escondia e outro o procurava enquanto a galera ficava gritando “frio” se ele se afastava da presa e “quente” quando se aproximava dela? Pois é.
      Você está “quente” quando diz que quem faz arte merece “nosso reconhecimento porque embeleza não o planeta, mas o ser humano, que se mostrou sublime e criativo, e incomparavelmente mágico com as cores e o mármore utilizados”.
      Mas está “gelado” ao pensar que a arte se encontra além mar
      “tão distante de nós, de pessoas comuns como eu e milhões de outros brasileiros que jamais poderão olhar essas obras imponentes".
      A arte nos rodeia. Mas com relação à grande arte da humanidade, hoje a internet nos coloca diante de cada obra que esses gênios fizeram “com seus pincéis e cinzéis”. Ela nos permite fazer tours virtuais pelos grandes museus , ver novas cores e formas registradas em telas e pedras todos os dias, ter visões de mundo as mais surpreendentes e continuar com as descobertas para manter em forma nossa característica mais preciosa: a imaginação.
      Obrigado lhe digo eu pelo belo comentário.
      Outro forte abraço

      Excluir
  7. Francisco Bendl12/10/2017 20:40

    Wilson,

    Em homenagem aos teus leitores e frequentadores deste blog extraordinário, a maravilhosa canção Amazing Grace, na versão catalã e cantada dentro da fantástica Sagrada Família, em Barcelona, obra que o Pimentel tanto escreveu belíssimos artigos.

    Te delicia com a voz dessa estupenda cantora, e os arranjos fenomenais que esta música criada pelos escravos teve nesta apresentação!

    https://www.youtube.com/watch?v=CuXdMlYwt_I

    Um forte abraço.
    Saúde e paz.

    ResponderExcluir
  8. Alexandre Sampaio13/10/2017 05:26

    Pimentel,
    Agradeço e parabenizo você pelos excelentes posts sobre arte. Gostei do que vi e li e só não entendi como Modigliani foi capaz de produzir uma obra tão serena em meio a uma vida tão atrapalhada. Entretanto minha opinião é que ele conseguiu fazer uma ponte entre a arte clássica e a de vanguarda e conquistar seu lugar na história da pintura.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Moacir Pimentel13/10/2017 11:38

      Sampaio,
      Um dos heróis de Modigliani, o grande Cézanne , dizia que "não queria transformar água em vinho mas o mundo em pintura". Talvez seja por aí ou como a Donana tão bem colocou: ele tinha um encontro marcado com a paz enquanto inventava suas figuras magras e longas e de olhos vazios. Talvez só não existisse dor nem caos no mundo pincelado dele. Nunca saberemos. Mas fico feliz de saber que você aprecia os posts de arte, dos quais às vezes quase desisto.
      Obrigado pelo comentário

      Excluir

Para comentar, por favor escolha a opção "Nome / URL" e entre com seu nome.
A URL pode ser deixada em branco.
Comentários anônimos não serão exibidos.