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14/03/2018

As danças de Marie

Marie Laurencin - Autoportrair (1904)
Moacir Pimentel
Eis Marie Laurencin auto retratada no auge de sua beleza. Veja como são delicadamente cúbicas as formas da primeira tela na montagem abaixo e como a artista se auto retrata em ambos os trabalhos de forma completamente diversa de como se mostra no trabalho que inaugura o post . Esses retratos até parecem ter sido pintados por artistas diferentes. Mas não! Trata-se de uma mesma modelo Marie pintada pela mesma pintora Marie, que então flutuava em conflito e dividida entre movimento artístico defendido por seu homem e seus amigos e a sua própria abordagem estilística.
Marie Laurencin - Le Bal Élégant, La Danse à la campagne (1913) / Groupe d'Artistes (1908)

A última pintura da montagem talvez seja o mais conhecido trabalho da pintora. Nesse óleo de nome Grupo de Artistas ela retratou a si mesma como uma artista, entre Apollinaire e Picasso, só que acima deles, discretamente insinuando que seus talento e habilidade eram comparáveis aos dos machos alfas da malta cubista.
A pintura, simplista na composição, foi comprada por Gertrude Stein, uma colecionadora que sabia das coisas e foi capaz de ver na obra sua importância histórica. Pois é evidente no trabalho o significado que Marie se atribuía dentro do seleto grupo: o da artista e não o da musa de Apollinaire, como era o caso de Fernande Olivier, a outra mulher sedutora e dengosa no retrato à direita, a amante inspiradora da mente de Picasso que ocupa o primeiro plano, é verdade, juntamente com um cãozinho de estimação (rsrs) Marie, na verdade, ecoa nas suas tintas a opinião de Dona Lenda sobre Fernande: que ela era um amor de garota mas meio preguiçosa de corpo e de mente.
Os elementos do cubismo, como os rostos parecidos com máscaras, apenas enfatizam na obra de Marie, a sua vacilação entre as suas duas Maries, entre seguir avante com o cubismo ou pintar segundo à sua própria visão estética.
Marie Laurencin - Autoportrait (1908) / Autoportrait (1905)

Apesar dos esforços de seu amado Apollinaire para fazer dela uma cubista da gema, Marie Laurencin nunca adotou realmente o estilo e, com o fim do relacionamento dos dois, talvez a pressão tenha diminuído. Em 1914 ela se casou com um pintor alemão, o barão Otto von Wätjen, e depois da declaração de Guerra o casal se exilou em Espanha, onde morou primeiro em Madri e depois em Barcelona.
Findo o conflito, Marie voltou para Paris em 1920 e continuou pintando, só que não mais refém das “feras” ou dos cubistas, não mais tão atraída pela originalidade das suas opiniões, pelo entusiasmo e pela espontaneidade dos novos amigos. E então ela seguiu em frente – sempre ardentemente defendida por Apollinaire - sempre encantada pelos trabalhos primitivistas de Henri Rosseau, mas sem se afastar dos antigos amigos de Montmartre.
Fazem-se críticas ferinas ao trabalho de Marie Laurencin. Dizem que ao não mergulhar de cabeça no cubismo ela teria adotado um estilo decorativo e comercial que a fez uma retratista popular entre proeminentes figuras sociais de Paris e Nova York, incluindo Colette, Helena Rubinstein e Coco Chanel, abaixo.
Marie Laurencin - Portrait de Mademoiselle Chanel (1923)

À paleta delicada, com uso liberal do rosa, às formas simplificadas que estão mais perto de Pascin do que de Picasso e aos rostos que Marie pintou quase sempre como máscaras, é atribuído zero conteúdo psicológico e expressão.
Muitos entendem que qualquer contato que Marie Laurencin teve com a realidade deve ter ocorrido fora de sua arte e estão convictos de que ela criou uma série de grandes telas borradas por grupos de fêmeas jovens, bonitas de uma maneira lânguida e assexuada, etéreas, indiferenciáveis, elegantemente vestidas com panos fluidos, que parecem cavalgar cavalos oníricos ou deitar em gramas idílicas num mundo da lua, ou flutuar acima de fundos abstratos, muitas vezes verdes, sugerindo parques ou jardins fantasmagóricos. Como os muitos cenários para balés que ela desenhou, pois dizem as línguas ferinas, que é exatamente isso o que se vê na arte dela: um balé romantizado e desodorizado, um mundo de sonhos imutável.
Outros não compreendem como é possível que duas guerras mundiais e uma grande depressão econômica, não tenham deixado vestígios na arte de Marie, mas entendem como apropriado que ela tenha ilustrado uma edição do livro Alice no País das Maravilhas. Aliás diga-se de passagem e aqui entre nós e baixinho que eu muito aprecio a Alice (rsrs) e que além de Lewis Carroll, Marie ilustrou as obras de Gide, Max Jacob, Marcel Jouhandeau, Jean Paulhan, e muitos outros.
Tudo bem que Marie não é nenhum Picasso destacando todas as qualidades pictóricas antes não descobertas de um objeto e concentrando-se em obter dele toda a emoção estética que pode dar. Com certeza o vigor e o inusitado nem passam por perto da arte dessa mulher que tem, sim, uma aparência de devaneio, mas considero que ela expressou com êxito uma estética inteiramente feminina.
Desde as suas primeiras pinturas, desenhos e gravuras, Marie não escondeu uma simplicidade natural, deixando evidente que a artista que estava prestes a surgir, um dia expressaria a graça do mundo. Todas as suas experiências foram marcadas pelo arabesco feminino cujo segredo ela nunca perdeu. Não se pode, evidentemente, acusar uma mulher por ser feminina nas suas tintas.
Ela buscou, sobretudo, expressar a sua própria personalidade nos objetos e figuras que criou e me parece que conseguiu, embora não deva ter sido moleza derrubar o touro Picasso pelo rabo.
Isso significa que ela se libertou, que o seu trabalho, embora relacionado ao do seu mestre Picasso, divergiu das coisas cubistas completamente. E daí? Marie Laurencin pintou segundo a mente e a visão de Marie Laurencin, próxima da natureza, estudando-a com aplicação, embora cuidadosamente rejeitando tudo que não fosse jovem ou gracioso ou leve ou belo entre os aspectos das coisas levemente cubistas que cometia.
Como artista, Marie Laurencin pode ser colocada entre os cubistas e o primitivista Henri Rousseau, que inclusive retratou-a ao lado de Apollinaire. Sua arte dança entre os trabalhos da turma de Picasso, o jovem purificador das artes, e a obra de Henri Rousseau, o velho sentimental que jamais deixou de ser um menino prodígio guiado pelo amor às fronteiras do intelectualismo.
Eu poderia aqui, em vão, falar-lhe da biografia de Rousseau e de porque tenho certeza da influência que ele teve na obra de Marie. Prefiro mostrar-lhe um quadro do pintor: O Sonho.
Henri Rousseau - Le Rêve (1910)

O sonho é mesmo um título apropriado para esse trabalho, uma descrição surreal de uma mulher nua que em vez de se reclinar em um sofá, o faz em uma floresta. A mulher está cercada por uma exuberante vegetação colorida e cuidadosamente pintada com mil e um tons de verde e por habitantes da selva, incluindo os leões de olhos arregalados que olham para a estranha cena ou para o espectador sem entender nada.
Esta imagem de um nu acadêmico que lembra as Vênus de Ticiano e Velasquez e aquelas odaliscas neoclássicas retratadas por artistas como Ingres, humoristicamente fora de lugar, muito provavelmente retrata uma mulher que Rousseau amou. Quem sabe aquela filha de Montmartre para quem ele escreveu:
“Quando estou com a minha loura, ah que bom, que bom, que bom!” (rsrs)
Quanto ao cenário exótico, tão distante da França nativa do artista, pode ser um flash do colonialismo francês do final do século XIX por terras que ele nunca vira a não ser nos postais ou – quem sabe? - durante suas visitas aos museus. Mas toda essa incrível atenção aos detalhes, a paleta vibrante e a combinação doida de pedra de imagens, revela porque a arte de Rousseau foi tão admirada pelos surrealistas, especialmente pelo fundador do movimento, André Breton, que certa vez discursou em Montmartre:
“É com Rousseau que podemos conversar sobre o Realismo Mágico “.
Aquela geração de jovem artistas à qual Marie pertencia, amava os trabalhos simplistas de Rousseau, que morreu em 1910, ridicularizado mas sereno diante dos grosseiros insultos que eram lançados sobre ele, principalmente já maduro quando decidiu pintar para valer e estudou apaixonadamente os antigos mestres, sozinho entre os artistas modernos na compreensão de seus segredos.
Do ancião, Marie definitivamente não tinha o sentimentalismo. Mas certamente do bretão morador de Montmartre, do mais estranho, mais ousado e mais charmoso dos pintores exóticos, ela ecoava a confiança na própria imaginação. Tinha qualquer coisa do senso de ordem de Rousseau tão claro nas pinturas e desenhos que ele estruturava como miniaturas persas. Há uma mesma harmonia nos trabalhos de ambos, nas figuras femininas em forma de árvores, no jeito como os diferentes tons de uma única cor cantam harmoniosamente juntos e em francês, na atenção aos detalhes.
Veja à esquerda a Encantadora de Serpentes de Rousseau e, em seguida e à direita As Três Graças de Marie:
Henri Rousseau - Laa Charmeuse de Serpents (1907) / Marie Laurencin - Les Grâces de Trois (1921) / Marie Laurencin - Les Jeunes Filles (1911) / Pablo Picasso - Portrait d'Ambrose Voillard (1910) 

E confronte as Jovens Mulheres da artista com o Retrato de Vollard de Pablo Picasso. Também há qualquer coisa de cubista em Marie. A esta altura do post vale a pena registrar que esses três pintores - e eu não estou tentando estabelecer qualquer hierarquia qualitativa entre eles, mas apenas constatando o quão profundamente eles estão relacionados – foram todos retratistas excelentes.
Como retratista, Rousseau às vezes ia quase tão longe quanto o grande Cézanne e os retratos foram excepcionais na obra de Picasso: os de Vollard e Kahnweiler se classificam entre as obras-primas de todos os tempos. Uma parte importante do trabalho de Marie Laurencin foi o retrato.
A dimensão profética da obra de Picasso e a dimensão intelectual que, apesar de tudo, mora na pintura de Rousseau, estão muito levemente presentes nos trabalhos de Marie transformados em uma dimensão pictórica inteiramente nova e só dela.
A obra da artista tem analogias com a dança e é, na linguagem da pintura, uma conversa rítmica graciosa. Tudo o que até então contribuíra para a originalidade e delicadeza das artes femininas - rendas, bordados, tapeçarias, flores etc - é encontrado transfigurado na arte de Marie.
Uma arte feminina, cortês e alegre, dançando na luz e permanecendo languidamente na memória, sem imitar ninguém e sem mergulhar nas profundezas da perspectiva. Uma arte tola, efêmera e feliz, um impressionante toque de feminilidade,  um olhar às vezes muito divertido. Aquela que já fora apelidada de A Senhora do Cubismo participou da festa dos homens que rugiam impulsionada pela paixão de criar, mas nesse baile jamais deixou de na dança ser uma observadora.
Diz Dona Lenda que certa vez Auguste Rodin – mas há quem entenda que foi Matisse! (rsrs) - contemplava algumas fotografias de pinturas diversas, na sua maioria fauvistas, entre elas As Três Graças, uma das mais ternas telas de Marie. Disse então o artista:
“Ela sabe o que a graça significa. Não é uma “fauvette”, é uma serpentina.”
Ao comentar a arte de Marie, com extrema perspicácia, Rodin se referia a Loïe Fuller, a lendária bailarina americana que em 1890 percebera os efeitos causados pela luz sobre os tecidos e os explorou por toda sua vida. Loïe foi uma das primeiras dançarinas a desenvolver uma dança livre, em trajes esvoaçantes, com movimentos naturais e improvisados e bastões de onde vários spots de luzes elétricas coloridas produziam efeitos “mágicos” nas vestes, no palco e lhe alongavam os braços e pernas ondulantes.
Loïe se apresentou no Folies Bergères, em 1892, mediunizando Isadora Dancan e fundando o grupo de dança batizado de Les Féeries Fantastiques de Loïe Fuller. As magias fantásticas de Loie Fuller entraram para a história da cidade como a “Dança Serpentina”
Sim, tinha razão Rodin. Marie criou uma coreografia única, centralizada na mulher, algo muito próximo da abstração, em tramas curvilíneas e tons pastéis que agradam os olhos. Porque, nos desculpem os que gostam diferentemente, há quem goste de mulher.

Fulminada por um ataque cardíaco, Marie Laurencin parou de dançar aos setenta e três anos, em 1956. Ela dorme o sono eterno no cemitério Père Lachaise, de acordo com seu desejo: vestida de branco, com uma rosa nas mãos e os versos de Apollinaire sobre o coração.

21 comentários:

  1. Mônica Silva14/03/2018, 10:37

    Adorei, Moacir! Que Deus abençoe e proteja os homens de boa vontade que ainda gostam de mulher! Tem hora que penso que a humanidade logo estará praticando somente a reprodução ‘assistida’ kkk Os quadros parecem mesmo ser de duas artistas completamente diferentes. Que coisa! Não sei dizer se gosto mais dela no modo Disney ou na versão cubista mas é lógico que ela tinha mais de pintar como queria e não como o namorado preferia. Porém Marie Laurencin se superou mesmo na ‘feminilidade’ quando alfinetou a namorada de Picasso no quadro ‘feminista’ kkk Obrigada!

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    1. Moacir Pimentel15/03/2018, 09:29

      Mônica,
      Discordo veementemente de você quanto à reprodução humana: a combinação homem/mulher continua imbatível (rsrs) Devo confessar que as coisas cubistas de Marie conversam mais comigo do que as a la "Disney" (rsrs) Mas o certo é que ela conseguiu criar segurando a magia da infância durante toda a vida, viver da sua arte e ter independência. Não é pouca coisa. De fato só a Marie sabia que formas e cores e temas usar para se expressar melhor. Todos esses arabescos são ela, ou as várias Maries dela, falando a linguagem do seu universo feminino. Sim, porque a arte é só mais uma língua.Finalmente, seu comentário me faz lembrar de Dante, o grande poeta florentino:
      “Siga o seu próprio caminho, e deixe que as pessoas digam o que quiserem!”
      “Obrigado!” e abração

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  2. Flávia de Barros14/03/2018, 11:43

    Moacir,

    Um artigo encantador sobre uma artista desconhecida que para achar seu caminho teve que viver de coração partido. Uma pena que ela e o seu poeta não puderam ter um final feliz. Não deve ter sido fácil para Marie Laurencin dançar do seu jeitinho enfrentando o touro e críticas tão pesadas. Mas eu prefiro as suas telas mais cubistas.

    E vou me despedir esperando por Picasso.

    Um abraço para você

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    1. Moacir Pimentel15/03/2018, 09:48

      Flávia,
      Sim, deve ter sido complicado lidar com o poeta do encanto dela, as feras, o touro e todos aqueles outros cubistas geniais. Apollinaire bem que tentou “enquadrá-la” mas reconheceu seu estilo e encorajou-a a segui-lo. Foi Apollinaire quem “lançou” Marie no mundo da arte, elogiando seu trabalho em seus escritos e reconhecendo-a como um dos grandes talentos da época. Ele a defendeu furiosamente das críticas, inclusive do fogo amigo, como foi o caso do pintor cubista Francis Picabia. Outra coisa, foi Marie quem se afastou do amante dominador e não o contrário. Sabemos disso através de poemas como “A Ponte Mirabeau” e “Marie” que ele escreveu depois do fim do romance, esperando que a moça reconsiderasse.O poeta também narrou o turbulento caso de amor em um conto - La Poète Assassiné - em cujas linhas inventou um poeta amaldiçoado cuja amada - a “Tristouse Ballerinette” - tinha “o rosto sombrio e infantil de quem está destinada a fazer sofrer os homens". Nesse enredo, ao fim e ao cabo, ela o trai com um falso poeta (rsrs)
      Nas suas crítica artísticas ele explica que Marie se auto retratava compulsivamente, que no mundo mítico que pintava se fazia presente nessas figuras fantasmagóricas, nessas mulheres espectrais de olhos profundamente negros.
      Quanto à passagem de Marie pelo cubismo, ela se encontra registrada em uma série de óleos pintados de 1911 a 1914, a fase que é considerada pela crítica como o ápice da pintura dela. E quanto ao Picasso, ele está quase chegando (rsrs)
      Obrigado e outro abraço para você




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  3. 1) Muito bom Moacir, esta postagem. Assim fiquei sabendo que na galeria internacional dos grandes pintores, também temos a presença da mulher.

    2) No time das escultoras lembro que vc também colocou outra.

    3) E assim, vamos vivendo.

    4) Abraços !

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    1. Moacir Pimentel15/03/2018, 09:51

      Antonioji,
      Apesar de todas as dificuldades patriarcais ancestrais sim as mulheres também escreveram, de pincel e cinzel em punho, a história da arte ao longo dos séculos. A escultora a qual você se refere é Camille Claudel tão merecedora de reconhecimento e elogios quanto o seu mestre Rodin.
      "Gratidão" e abração



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  4. Flávio José Bortolotto14/03/2018, 13:43

    Mesmo para quem não é muito entendido na Arte da Pintura, é sempre um prazer ler o Sr. MOACIR PIMENTEL nos contando os: como, e os porquê, de muitos Artistas, especialmente neste caso de MARIE LAURENCIN.
    A verdade é que depois do Classicismo ( Realismo), quando a Pintura passou para a fase Abstrata, temos que ser "educados" para analisá-las, e o Sr. MOACIR PIMENTEL faz isso muito bem.
    Parabéns, Abração.

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    1. Moacir Pimentel15/03/2018, 10:01

      Prezado Flávio Bortolotto,
      Se a “educação” for condição essencial para analisar/comentar a arte da Pintura, então ninguém melhor para fazê-lo do que o senhor, cuja fidalguia é inata. Penso que se arte fosse feita para acadêmicos e peritos e "sabichões" ela seria uma chatice. Muito ao contrário, ela é a linguagem de um humano tentando comunicar a outros humanos algo que não cabe nas palavras. Então... não se trata de saber ou não saber, de certo e errado, de academices, embora os "comos e os porquês" e o onde, é claro, ajudem a captar uma mensagem que, convenhamos, foi pintada para os homens do seu tempo. A questão é se a tela, a escultura, a peça ou a música conseguem conversar com o senhor, com a sua humanidade, se o fazem pensar, recordar, cogitar. Se positivo, sobre o quê? A resposta que a arte objetiva é essa: a sua - individual e pessoal. A razão de ser da arte, na minha modesta opinião, é meramente a comunicação , a sua continuidade ou tradução, crítica ou elogiosa, simpática ou antipática - não importa! - em cada um de nós. Portanto, no dia que o senhor olhar, olhar de novo e pensar e comentar se gostou ou não da obra de arte que estiver na roda e, principalmente, sobre o que pensou enquanto a olhava, eu e o artista da vez vamos ficar beeem honrados e satisfeitos (rsrs) Obrigadíssimo e abração



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  5. Francisco Bendl14/03/2018, 15:12

    Certamente Pimentel do alto de seus conhecimentos a respeito dos gênios da pintura – hoje nos apresentou uma “gênia” -, brevemente nos concederá momentos tão importantes e informativos quanto este quando nos brindar com Tarcila do Amaral.

    Mais uma mulher que entrará neste panteão ocupado na sua maioria por homens, demonstrando que a arte não é identificada por gêneros, mas apenas e tão somente pela qualidade de suas obras.

    Logo, tornou-se rotina – ainda bem que não enfadonha, pelo contrário – elogiar este gênio chamado Pimentel porque se destaca pelos brilhantes trabalhos executados na pesquisa de célebres pintores e escultores, possibilitando-nos ampliar nossos horizontes neste aspecto e constatar o quanto a arte nos eleva para nos transformar em seres superiores, haja vista a dedicação do autor em sempre criar a sua obra-prima!

    Aliás, Schopenhauer, o célebre filósofo alemão, já dizia que uma das formas de o ser humano deixar de ser tão infeliz seria através da arte, que o inebria, satisfaz, alegra, dá sentido à sua vida.

    E, cabe a nós, além de admirarmos o talento que explode nas telas e ocasiona inúmeras interpretações em razão do estilo de cada mestre, reverenciar os artigos de Pimentel, que nos fazem viajar no tempo, que nos obrigam a entender os motivos pelos quais muitas das existências desses fantásticos artistas eram absolutamente contrárias à felicidade que sentiam quando pintavam, ou seja, quantos exemplos já lemos de notáveis mestres e cujas vidas eram infelizes, separadas de seus amores, de suas musas ou das frustrações de mulheres que não tinham consigo o seu amado!

    Aplaudo efusivamente mais esta obra extraordinária do nosso Pimentel, que o temos ao nosso lado, vivo, e nos abrilhantando os momentos a cada vez que lemos seus textos neste oásis cultural, igualmente criado por um artista da mesma estirpe, o genial Mano!

    Um forte abraço.
    Saúde e paz.

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    1. Moacir Pimentel15/03/2018, 10:09

      Chicão,
      Esses seus elogios retumbantes me deixam tonto (rsrs) Vamos por partes, como dizia Jack, o Estripador. Sim a Tarcila e toda a tribo antropofagista dela, merecem posts para chamar de seus. Folgo em saber que você apreciou a leitura do artigo da “gênia” Laurencin nesse “oásis cultural”. E graçasadeus que você não acha meus posts de arte "enfadonhos". Na verdade - e eu já lhe disse isso - Dona Arte tem tornado a minha vida mais divertida, mas há controversias. Quanto ao “brilhantismo” dos textos, como diz “o genial artista Mano”:
      “É que eu finjo muito bem” (rsrs)
      Ou talvez seja uma questão de intimidade. Assim como você coleciona livros de guerra, a minha velha estante durante longos trinta e cinco anos tem dado abrigo a centenas de livros de arte que, para poder comprar, juro que já troquei muitos almoços por sanduíches de mortadela (rsrs)
      Muito obrigado, “menos!” e um grande abraço



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  6. Márcio P. Rocha14/03/2018, 16:57

    Não se discute que Marie Laurencin foi uma bela mulher. Mas tenho sérias dúvidas quanto à pintura. À primeira vista não me agrada muito mas gostaria de ver mais do trabalho cubista e pós-cubista dela antes de opinar.

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    1. Moacir Pimentel15/03/2018, 10:18

      Márcio,
      Sim, ela era muuuuito interessante com esses cabelos crespos, lábios carnudos e olhos amendoados. Os franceses têm uma expressão para traduzir essa beleza estranha, fora do convencional: “jolie laide”.
      É complicado ver a arte dessa senhora serpentina - mesmo na web - porque grande parte suas obras – pinturas, aquarelas, desenhos, gravuras e ilustrações – mora em um museu no Japão. Explico: na década de 70 um japonês de sobrenome Takano, ao visitar Paris pela primeira vez, apaixonou-se de tal maneira pelos tons pastéis do "mundo flutuante" da moça que, ao longo dos anos adquiriu quase mil de seus trabalhos. Ele dizia que havia nas telas da Marie uma sempre presente impressão de aquarela e o tom rosado das cerejeiras de sua terra natal. Nessa pintura, de nome Jovem Mulher - A Prisioneira, se entende do que ele estava falando:

      https://br.pinterest.com/pin/381187555941182607/

      Mas em Paris, no Museu Marmottan Monet, um antigo pavilhão de caça que vale visitar só pela arquitetura, se pode ver algumas se suas telas, inclusive duas das que ilustram o post. Agora...gostar ou não é seu privilégio (rsrs) Keep reading e obrigado por participar.



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  7. Olá Moacir,
    Vivo perdendo meus comentários quando escrevo direto aqui. E o Mano sempre diz, -escreve no notes, escreve no notes...
    Escrevi no notes..e consegui perder. Era grande, cheio de dúvidas e contras. Não sou empoderada, sou portentosa! O pensamento é forte porém lento!
    Amanhã escrevo de novo. Talvez!
    Até então.

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    1. Moacir Pimentel15/03/2018, 10:23

      Caríssima Donana,
      Seguinte : vou imitar o Chicão "ajoelhado" para lhe pedir que não me prive do imenso prazer de ler mais um dos seus impagáveis e “portentosos” comentários, ainda mais se for do “contra” e/ou cheio de benditas dúvidas. Tarde o que for preciso, descanse, mas capriche e, pooor favooor, volte!
      "Até logo mais".


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    2. Olá Moacir,
      Antes tarde do que mais tarde, certo?
      Como você disse ao FBendl, vamos por partes.
      Ahá! Fiquei feliz de constatar que Marie Laurencin teve mesmo influência de Rousseau. Falei isso no comentário das Meninas da colina, mas como você não disse nada, fiquei em dúvida, achando que estava errada. Em vez de pesquisar, escrevi e perdi o escrito. E volto ainda sem pesquisar. Talvez falando monte de bobagem! Bom que temos você para nos consertar. Olha só a responsa do menino!
      Quanto ao cubismo de Marie, ao contrário de você, acho um pouco fraco. Ele não corta a tela, só arranha. Tudo bem que todo o seu tabalho é suave, delicado, feminino. E ela não poderia se negar.
      Mas imagino, por exemplo, o quadro La danse a la campagne, sem o cubismo e faz pouca diferença.
      Acho que ela se expressa melhor nos seus trabalhos "sem expressão" como disseram alguns. O que também não concordo porque tudo expressa algo. É como dizer que uma pessoa não tem personalidade. Aquela é a sua personalidade.
      Adoro os quadros onde ela pinta seus amigos e a si mesma. É nesses que percebo Rousseau. E gosto também do rosto máscara. Tem algo do primitivo africano de que Picasso se aproveitou bastante.
      Diga, e critique sem medo,se estou muito errada. Se assim, so sorry.
      Até mais. E mais.

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    3. Moacir Pimentel18/03/2018, 17:31

      Caríssima Donana,
      Os seus comentários se não existissem a gente tinha que inventar. A senhora traduz muito bem e lê nas entrelinhas e pula etapas e vislumbra o que ainda não foi ilustrado e assim mata a charada do post seguinte (rsrs) Eu percebi, sim, que era Rousseau a tradução correta para a sua percepção "naïf" das primeiras telas da Marie, mas preferi deixar quieto e evitar spoilers (rsrs) Concordo com a senhora que a Marie em vez de esfaquear as suas imagens apenas as "arranha” enquanto cubista e penso que ela simplesmente não conseguia mergulhar na desconstrução das imagens e, ao mesmo tempo, se expressar. A única coisa que vou continuar defendendo é que nos dois trabalhos inquestionavelmente "ingênuos" que a senhora mais apreciou, a Marie também abordou aspectos do cubismo.
      Note que o Sr. Editor tem o cuidado de datar todas as telas e que O Grupo de Artistas foi pintado em 1908 enquanto que Apollinaire e Seus Amigos é de 1909. Ou seja, são contemporâneos de trabalhos proto-cubistas, como as Demoiselles d’Avignon de Picasso, de 1907, e as paisagens do Eustaque que Braque começou a pintar em 1908. Observe, por favor, os rostos das Senhoritas

      https://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/7/76/579px-Les_Demoiselles_d%27Avignon.jpg

      Em seguida compare-os com os rostos de Picasso em ambos os retratos grupais de Marie. Veja como ela utilizou esse momento específico na obra de Picasso – as estranhezas das Demoiselles d'Avignon - para criar os retratos do pintor dentro das cenas pictóricas dela, notadamente em Apollinaire e Seus Amigos, embora o perfil do espanhol no Grupo de Artistas seja egípcio (rsrs) Marie não só tomou emprestado as linhas negras da técnica de cloisonnisme do toureiro para articular os rostos pálidos de todos os amigos presentes no baile do amante, como também pintou Picasso exatamente como ele pintara as suas senhoritas: os grandes olhos fortemente esboçados,as olheiras escuras , uma única linha formando a boca insensível e a pele daquele estranho tom bege/rosa das demoiselles. É como se ela tivesse pintado nessa tela - quem sabe ironicamente? - não apenas um retrato de Picasso à moda dele, mas replicado a própria técnica e as inovações radicais que o amigo recentemente colocara na sua tela ainda secreta. Agora, por favor, dê uma olhada nas paisagens cubistas pioneiras de Braque, as famosas Maisons à l’Estaque.

      https://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/9/9c/Georges_Braque%2C_1908%2C_Maisons_%C3%A0_l%27Estaque_%28Houses_at_L%27Estaque%29%2C_oil_on_canvas%2C_73_x_59.5_cm%2C_Kunst_Museum_Bern.jpg

      E depois analise o fundo da tela Apollinaire e Seus Amigos. Percebe? Tem até o Viaduto do Estaque à esquerda do Apollinaire (rsrs)
      Continuo...

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    4. Moacir Pimentel18/03/2018, 17:37

      Em La Danse à La Campagne de 1913 – ela terminara o affair com Apollinaire em 1912 e a essa altura da festa os dois cubistas já estavam nas colagens - também vemos o mesmo pano de fundo proto-cubista. Da mesma forma a influência de Picasso e Braque é claramente evidente também em vários elementos das Jeunes Femmes de 1911: o espaço apertado e o esboço das figuras, os rostos semelhantes a máscaras e - atenção! - a mulher com um dos braços levantados exatamente como uma das Demoiselles e, de novo, as casas em forma de cubos no fundo da pintura, ecoando as formas trapezoidais e igualmente achatadas das Maisons de Braque.
      Devido a esses links para Rousseau e Picasso e Braque, seria correto dizer que a pintura de Marie Laurencin meramente toma emprestado as tintas dos amigos? Não. Acho que essa leitura não levaria em conta a natureza das apropriações da Marie. Na tela Jeunes Femmes, por exemplo, suas figuras se colocam em um espaço extremamente estreito, seus movimentos são confinados a um plano com pouca profundidade, de forma tal que essas mulheres transformam a geometria sombreada em segundo plano em apenas um palco para sua dança. Assim, as Demoiselles de Picasso e as Casas de Braque parecem ter servido, respectivamente, como modelo para a composição das Jovens Mulheres e como pano de fundo para o que é realmente o motivo central do trabalho: a eterna coreografia compartilhada por essas criaturas oníricas. A pintora cita, sim, elementos das linguagens naïf, proto-cubista e cubista, mas prefere a superfície à substância, o sonho à matéria, o espectral ao detalhe, as curvas às linhas retas e o cerne de seu trabalho consiste no jogo dos membros, nas transparências, nos planos fluidos, na tal "impressão de aquarela" e nos rostos pálidos e de "paisagem" dessas figuras dançantes que habitam o seu universo sempre feminino.
      O que defendo no post é isso: que o estilo que Marie criou é híbrido e que revela a sua experimentação dos dois estilos de pintar - o mundo visionário de poderosa originalidade de Rosseau e a carnificina da forma cometida pelos founding fathers cubistas – e que mostra a implantação estratégica de práticas selecionadas por ela de um lado e do outro, como ferramentas para alcançar a sua identidade pictórica então “em formação”. Afinal como escreveu Apollinaire: "com Marie foi um caso cerebral". Ou seja, de boba Marie Laurencin não tinha nada. Às cubices!
      “Até mais”

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  8. Alexandre Sampaio15/03/2018, 08:10

    Pimentel,

    Os seus artigos de arte não deixam de ser uma viagem que vai das Vênus do Museu D'Orsay até as pinturas cubistas. A pintora Marie Laurencin merece respeito porque foi contra a corrente e se manteve fiel ao seu estilo suave e feminino mesmo rodeada pelas mentes masculinas mais criativas do século 20.

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    1. Moacir Pimentel15/03/2018, 10:29

      Prezado Sampaio,
      Você falou e disse! Nessa história, a da pintura, o capítulo anterior determina a forma e as cores do seguinte. Na minha opinião, percebe melhor epílogo modernoso, quem passou pelo prefácio renascentista. Quanto ao “estilo” da Marie creio que ela só começou a definí-lo longe de Paris e dos cubistas, durante o exílio na Primeira Guerra , muito influenciada aliás por Goya e Velázquez que ela conheceu perambulando pelos museus de Espanha.Têm sangue espanhol as criaturas esguias de cores sóbrias que ela passou a pintar depois do fim da guerra e que foram a marca de uma personalidade pictórica que mais tarde, gostemos ou não, se tornaria inconfundível.
      Obrigado e abração


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  9. Estimado amigo Moacir
    Fico encantado com suas descrições sobre artes plásticas e arquitetura. Sou incapaz de desenhar um cubo, exceto com a ajuda de uma régua. Mesmo assim, zero em perspectiva.
    Dito isso, nas muitas viagens pelo mundo, sempre procurei a beleza, o simbolismo, o significado e a narrativa nos museus e monumentos das principais cidades visitadas. E os encontrei e me emocionei.
    Chorei, ao me deparar com a inenarrável Pietá, ao som de um cantochão na Basílica deSão Pedro. E percorri, com respiração contida, o universo da Cidade Proibida de Pequim. Ou, então, me deslumbrei com o anjo suspenso na catedral de Brasília. E, também, trêmulo, senti nas mãos o vento entrando por uma fresta em uma das paredes da enorme câmara mortuária do faraó Keops, a cerca de cem metros de altura, no ventre da colossal pirâmide.
    A paixão que você demonstra pela adorável e bela Marie Laurencin é aquela "dos homens que gostam de mulher". Seus trabalhos são lindos, diversificados e extremamente femininos. Não foi à toa que ela se sobressaiu durante décadas em um ambiente muito competitivo, dominado por feras masculinas.
    Parabéns pela sua escolha para trazê-la a nosso blog cosmopolita.
    Domingos
    Um forte abraço

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    1. Moacir Pimentel19/03/2018, 11:24

      Prezado Domingos,
      Merecer um dos comentários é sempre muito bom. Porque lendo você a gente descobre que não está sozinho nessa busca pela beleza, o bom, o justo e o "significado" pelos quatro cantos do vasto mundo. É reconfortante saber que você também se emocionou quando, depois de fazer a tórrida estrada até Gizé, ao entrar na Grande Pirâmide , com todo aquele volume inesperado e majestade, sentiu um sopro de brisa para amenizar o efeito esmagador que ela nos causa : como se desligasse o céu e o horizonte, as outras pirâmides, tudo , exceto a sensação de admiração pelos autores de um dos projetos de engenharia mais ousados e inovadores que o mundo já conheceu. E , sim , compartilhei a sua emoção diante da Cidade Proibida e da Grande Muralha e da dor em pedra da Pietá e da beleza pura daquele anjo leve e solto entre as curvas da do planalto central. Foi o mesmo maravilhamento que experimentei diante da luz capturada pelos nenúfares de Monet, da angústia das Noites estreladas de van Gogh , da Sagrada Família de Gaudí, daquele teto inenarrável da Sistina e das pinturas rupestres da abóbada de outra sistina pré-histórica: a Caverna de Lascaux.
      Talvez as suas aventuras e missões pelos grandes e verdes mares e aquelas deliciosas conversas que leva com a sua ciumenta Estrela da Manhã lhe passem o mesmo recado renovado que Dona Arte - e a bela Marie! - me desenham e que o Bardo eternizou: “Sabemos o que somos mas não o que podemos ser”.
      E vamos aos Lusíadas!
      Um grande e agradecido abraço


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