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12/09/2017

Conversa Fiada

imagem jorvikingi.files.wordpress.com

Heraldo Palmeira
Os bares estão repletos. Infelizes! Ninguém conversa mais como antigamente. Saudade, eu? Nostalgia? Nada, tristeza apenas.
Quem ouve nalguma mesa alguém falando a respeito da última que presta? Pra que falar de filmes, livros, discos – tem quem nem saiba o que danado é isso, se estiver fora das hérnias! Pinturas e esculturas é querer demais, quase humilhar.
De repente, Chico Buarque lança disco novo. Vá lá, meio cambeta diante de frutos mais antigos, mas um alento mesmo assim. Em poucas horas, os discípulos do maldito evangelho do politicamente correto inventaram uma discussão feita sob medida para quem perdeu qualquer medida e o senso de ridículo.
Mal Os Tribalistas desembarcam de novo pelo porto do rio adjacente do que sobrou da cultura musical e já sapecam a pergunta idiota fundamental “por que passaram 15 anos mudos?”, como se ficar calado fosse proibido e o manancial obrigatório!
Quem se preocupa com as quatro estações ou sabe que existem, complexas como o ciclo feminino? E que ninguém ouse botar a lua e o ciclo das marés no meio da prosa. É quase desatino pensar que alguém pensa nisso nos bares infelizes da vida. E misturar ciclos pode ser desastroso para mentes monofásicas.
A quem diabos interessa a beleza das flores, que quase pedem desculpas pelos cantinhos que ainda ocupam fora das floriculturas? Daqui a pouco nem elas saberão a hora que a natureza vai murchar, cair, semear e renascer para dar frutos. Afinal, estão aí as polpas congeladas e, não demora, serão sintetizadas.
Estamos sendo treinados para falar somente das últimas besteiras, tão bestas quanto nós nos tornamos. Há lugar nobre para as maledicências, insolvências, penitências de quem abriu mão do belo por menor que fosse em favor do feio generalizado cada vez maior.
Claro, tudo deve correr pelas redes sociais. Por favor! Não invente esse negócio chatérrimo de conversar ou telefonar. Escreva. Tudo abreviado. Melhor ainda se conseguir traduzir tudo para emoticons.
Puxa vida, é difícil para esses muderninhos se relacionar com quem não domina a comunicação paralinguística – termo solene de banca de mestrado, né não?. Se ligue, aprenda a rezar pela doutrina do Vale do Silício ou não será ninguém, seu analógico de merda! Tá bom, mande um áudio. Mas resuma tudo a nove segundos. Afinal, existem essas regrinhas, como a dos 140 caracteres, ora!
Aprenda a falar da internet das coisas, não importa que coisas sejam essas e que ninguém saiba explicar. Tem também a realidade aumentada, que é muito bom para impressionar. Aliás, os apóstolos do mundo digital não têm qualquer problema em viajar na maionese.
E quando a coisa aperta, começam a usar termos técnicos estrangeiros, que não fazem a menor ideia do que significam. Sim, exatamente aquilo que conhecemos como “rota de fuga”.
Você ainda não sabe o que é indústria 4.0? Santo Deus! Ninguém pode morrer sem essa informação. Se você está no Brasil, sossegue. Aqui, nosso parque industrial está na fase 1.0, pegando no tranco. E provavelmente a gente morra antes de discutir o quarto estágio.
A indústria... a indústria de tudo! Há! Impiedosa, sem tons flexíveis, só ângulos retos. Só interessa o muito, pouco é igual a nada, que só serve a nenhuns.
A indústria... refém da escala, do tudo ou nada. A indústria... que inventou o entretenimento para substituir a cultura e matar o fio da meada das coisas, amarelar o retrato da origem, trocar o saber pela decoreba. A indústria das máquinas para fazer o difícil ou repetitivo e tornar o aprendizado um caminhante obsoleto para a morte. Ah, os tempos das artes e ofícios! Deixa pra lá, não tente explicar o que isso significa. É semear no deserto.
Aridez! Quentura sem o contraponto do inverno. Oxalá as impressoras 3D, metidas a cavalo do cão, aprendam a fazer chover. É só o que falta.
Vamos sobrando, do jeito que dá, trilhando uma trilhinha de nada, na maior cautela para não cair no buraco com fome de tragar tudo.
É por isso que morro de medo de poeira cósmica, do tal do ano-luz que me faz ver, vivinha da silva, uma estrela que já morreu há bilhões de anos – que diabo de conta é essa? E olhe que nem bebi ainda!
Um mestre querido me ensinou que um pensador italiano disse, certa feita, que haverá no futuro algumas ausências muito importantes (na falta que farão) para o homem. O silêncio e a escuridão são duas delas.
Compreendo perfeitamente, sei que não é brincadeira. Acho que o pior de envelhecer é envelhecer neste tempo horroroso que parece já estar morto por falta das coisas mais banais, que eram ótimas. Um tempo que parece se matar a cada dia. Iluminado demais e aos gritos.
A indústria do amanhã encheu o mundo de barulhos e de luzes acesas o tempo inteiro. A madrugada está cheia de vozes, carros e motos roncando a plenos pulmões, garrafas tilintando, palavrões embriagados, músicas ruins, até o ruído poderoso do caminhão do lixo em dueto com os gritos dos garis formando a suíte do amanhecer mais limpo. E nada disso acontece no escuro.
Lembro dos tempos do meu pai, em que os homens tinham suas lanternas a pilha como acessório, para iluminar, quando não era noite de lua, o chão que acolheria o passo a passo da caminhada.
Tempos em que era quase música o chiado do movimento dos pés sobre a terra nua com pedrinhas, que empoeirava sapatos para serem engraxados em casa.
Tempos em que a gente se divertia aprendendo a chamar aquelas lanternas de flashlight e enchia o peito de orgulho quando nos era confiada a nobre tarefa de alumiar o chão. Conversa fiada. Tempos idos, nada mais!


14 comentários:

  1. Amigo, seu texto, como sempre, ótimo! Vc é um observador sensível das nossas vidas. Como vc, também tenho saudades... mas o que fazer? Os jovens de hoje provavelmente também irão lembrar, nostálgicos, dos "velhos tempos". Forte abraço,

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    1. Heraldo Palmeira12/09/2017 15:32

      Mestre,
      Obrigado. Temos mesmo é que curtir nossas saudades, felizes porque são riquíssimas. Tivemos a sorte de nascer num tempo em que ainda estavam descobrindo as últimas novidades. Sim, todos sentirão um dia a nostalgia dos seus próprios "velhos tempos". O que me entristece é que, cada vez mais, eles ficarão pobres e pobres e pobres... E neste exato momento estão gastando as fortunas que não sabem reconhecer. Abração.

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  2. Companheiro de fé Heraldo
    Calma. Você é muito novo para essa nostalgia toda.
    Apaixone-se!!!
    Do seu "velho" amigo
    Domingos

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    1. Heraldo Palmeira12/09/2017 15:33

      Meu querido,
      Fique tranquilo, sou das paixões. Afinal, quem é do mar não enjoa.

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  3. Moacir Pimentel12/09/2017 17:36

    Grande Mestre,
    Que qualquer crônica sua é sempre afiadíssima não se discute e ao novo som do Chico prefiro o dos Tribalistas. Porém os meus botecos e petiscos e cervejas e caipirinhas/íssimas não mudaram tanto assim e na mesa dos meus bares - reais e virtuais - ainda rolam boas conversas. O problema sou eu: já não bebo com o profissionalismo d'outrora (rsrs) Essa sua excelente prosa e, principalmente, o comentário do nosso Almirante me fizeram lembrar de uma velha canção do Paulinho que me economiza hoje as pretinhas:
    Tá legal
    Eu aceito o argumento
    Mas não me altere o samba tanto assim
    Olha que a rapaziada está sentindo a falta
    De um cavaco, de um pandeiro
    Ou de um tamborim
    Sem preconceito
    Ou mania de passado
    Sem querer ficar do lado
    De quem não quer navegar
    Faça como o velho marinheiro
    Que durante o nevoeiro
    Leva o barco devagar...
    Abração

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    1. Heraldo Palmeira12/09/2017 18:18

      Caríssimo,
      Claro que os meus bares, pessoais, continuam animadíssimos. Apenas é inegável - e estou triste por isso - como são ralas as coisas de hoje em dia. Converso com muitos jovens e percebo o quanto se sentem ilhados. Neles mesmos, talvez, levados por tecnologia a qualquer preço. Não tem saída, não é mania, é necessidade de passado mesmo. Não se pode abrir impunemente mão de sabedorias construídas ao longo de milênios. Saúde!

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  4. 1) Salve Heraldo... coisas da vida... não esquente...

    2) Sou um adepto das lanternas (flashlight)e antigamente presenteava crianças com lanternas. Outro dia comprei mais uma outra, de led, "made in China".

    3)Aprendi a usá-las no Gama, DF, por necessidade, década de 1960. À noite ia com meu pai e minha mãe para o Centro Kardecista. Mas algumas ruas não tinham luz, assim adotei as lanternas.

    4)Até hoje, quando viajo, para qualquer lugar, levo na bagagem.

    5)Abraços de boa semana !

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    1. Heraldo Palmeira12/09/2017 18:20

      Antonio,
      Não estou esquentando, acredite. Apenas lamentando por estes tempos que pregam a tecnologia e o individualismo como senhores de tudo. Abraço.

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  5. Wilson Baptista Junior12/09/2017 18:41

    Que tanto desalento, caro Heraldo, não fique assim tão triste!
    Se é verdade o que seu mestre lhe ensinou, que haverá no futuro muitas ausências importantes, haverá sem dúvida algumas presenças novas que não substituirão, por certo, as velhas, mas nos abrirão também lugar para mais algumas lembranças...
    A indústria que é hoje tão avassaladora foi quem nos trouxe os livros para todo o mundo, que nos trouxe a música que você gosta tanto de ouvir (não faz tanto tempo assim que só podiam ouvir música fora das igrejas quem soubesse e pudesse tocar e os nobres que podiam contratar as orquestras) e a música de outros lugares não passava muitas vezes de uma notícia distante... Quem sabe o que ela ainda nos trará e com que mundos distantes poderá ela nos ligar ainda?
    Tempos bárbaros já passaram antes, quando o que sobrou da cultura foi salvo pelos monges que gastavam seus olhos nos scriptoriums copiando e entesourando os escritos dos que vieram antes deles. Convivemos hoje com bárbaros diferentes, mas você, como nós, é um dos que se dedicam a salvar e passar adiante as suas lembranças e a continuar o velho hábito da conversa, que se não é mais sempre ao pé do fogo agora é também nesta tela que você está vendo agora. Como aqueles monges anônimos, não podemos é desanimar.
    Coragem!
    E no meu chaveiro, no bolso, anda uma lanterninha de led, sempre à mão quando é preciso...

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    1. Heraldo Palmeira12/09/2017 23:03

      Mano,
      Não estou em desalento, apenas lamentando a perda das artes humanas comuns, as que fazíamos no cotidiano. Conversar, conviver, aprender as tradições para repassá-las adiante, quando chegasse a hora.

      Estou apenas lamentando o desaparecimento de tamanhas riquezas. Não temos mais os monges nascendo para preservarem as coisas no futuro, apenas para trancafiar quinquilharias eletrônicas em arremedos de museus nas empresas - como vi na sede do Google, no Vale do Silício.

      Não dá para conviver com quem não sabe - e não tem a menor curiosidade de saber - o que é um disco. Eu nunca usei um ábaco, mas sei de quem se trata. Não medi meu tempo pessoal pela ampulheta, mas reconheço sua imagem e serventia no desenvolvimento humano.

      Eu já relatei aqui mesmo, em texto mais antigo, o rapaz que trabalhava numa livraria importante de Sampa e DESCONHECIA a palavra e "a pessoa" dicionário. É sobre isso que escrevi agora (de novo). Afinal, meus bares continuam ótimos, intensos, cheios de prosa. O meu "problema" está resolvido, só estou lamentando os que estão chegando. Abraço.

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  6. Wagner Monteiro13/09/2017 09:15

    Mais um texto para a história, meu nobre amigo HP..!!!Parabéns!!!

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    1. Heraldo Palmeira13/09/2017 12:21

      Meu caro,
      Pelo menos, para a nossa história, de quem viveu essas maravilhas. Obrigado.

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  7. Quanta verdade na sua crônica! Nos dias de hoje não há conversa...há polêmica! Os politicamente corretos não deixam nada passar.Qualquer comentário passa a ser contestado, como sexista,homofóbico,anacrônico! Tudo tem que ser do jeito deles: moderno... O moderno é ser transgênero....seja um e ganhe aplausos ! Que preguiça...abraços.

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    1. Heraldo Palmeira14/09/2017 10:20

      Isabel,
      Você tocou num ponto de grande interesse, essa imbecilidade do politicamente correto. Quanto tempo se perde com isso, sem gerar nenhum resultado prático para o cotidiano da população.

      Claro, tem gente muito interessada em manter essa coisa, pois ela divide a sociedade em guetos, que passam a bater boca entre si, enquanto os mentores/guardiães dessa baboseira seguem fazendo discursos virulentos e se beneficiando de patifarias contra o Estado. Chegamos ao ponto de, dia desses, alguém gravar e fazer circular um vídeo afirmando peremptoriamente "Eu não tenho gênero, eu tenho sexo"!

      Basta pensar que, hoje, os queridos Trapalhões, que encheram de alegria a vida do país, certamente teriam dificuldade de realizar sua extraordinária obra humorística.

      Ao invés desse lixo, eu gostaria de ver ações claras que nos fizessem melhorar a convivência e o respeito entre todos.
      Como você bem disse, "Que preguiça"! Abraço.

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