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05/11/2017

A Noite


Heraldo Palmeira
Tudo está calado ao redor, chegamos ao meio do feriadão, as pessoas viajaram.
Nos feriados, todos correm da cidade e se entregam animados às estradas entupidas, onde se arrastam por horas em engarrafamentos monumentais até cidadezinhas que entram em colapso com tanta gente chegando de fora. As pessoas vivem trocando de estresses.
O tempo mudou de repente. O calor sufocante foi sendo afastado por uma brisa refrescante que virou vento forte nas folhas das árvores, que virou garoa e restou frio. Os prédios ao redor estão escuros, como se abrigassem apenas as memórias dos seus moradores, que deixaram seus confortos em casa para descansar em desconfortos diversos, improvisados.
Mais cedo, os gritos e as cantigas da torcida no estádio ao longe denunciavam até o placar de um jogo de futebol. Apito final, a multidão desfeita escorrendo por rampas de acesso, ruas, carros, ônibus, trens e metrô. Tabela cumprida, cada qual em busca dos resultados da própria vida.
Os pássaros que fazem farra o dia inteiro estão calados em seu merecido descanso. A festa que houve numa casa vizinha já virou lembrança, as visitas foram embora deixando o silêncio depois do vozerio de uma dose a mais. Um gato vadio cruzou comigo, indo embora quando eu estava chegando. Só me olhou de longe, com os cuidados normais dos felinos, sem interromper sua caminhada de rei dos becos.

Os ponteiros que viraram números e marcam as horas digitais nas bugigangas eletrônicas acabaram de avançar uma hora por conta própria, cumprindo o ritual do horário de verão. Peguei com carinho o velho Tissot dos anos sessenta, adiantei e dei corda. Ele e eu não entendemos essa coisa de mexer no tempo, apressar o passo para depois recuar lá na frente.
O velho Tissot (foto de Heraldo Palmeira)

Ele e eu estamos juntos há tantos anos... Somos contemporâneos e já temos tempo de sobra para saber que nada disso leva a lugar nenhum. Ninguém reinventa a roda, os tempos precisos da natureza não carecem de reparos ou melhorias humanas, até porque não temos nada além de presunção para tamanha tarefa.
Afinal, quando começamos a aparecer por aqui, o planeta já girava ao redor do Sol para mudar as horas e passar o tempo, para fazer dia nas horas claras e noite nas horas escuras, e até humilhar inventando o espetáculo do Sol da meia-noite.
Já se sabe que não há qualquer resultado prático nisso, a não ser interferir na vida das pessoas, mexer nos relógios biológicos. É ruim se sentir roubado no tempo de ficar acordado pela madrugada.
Há muitos anos, uma amiga me pediu para ir buscar o namorado inglês que desembarcaria na manhã seguinte, vindo de Londres. Pura figura de linguagem! O voo do cara chegou às cinco da madruga e estávamos em horário de verão. Ainda escuro, e lá estava eu a postos, pois a querida saíra da cidade e só chegaria no final da noite.
Chegamos em casa nem havia clareado, naquele mormaço do verão, e o sujeito, com aspecto de que praticava a religião dos gatos no pouco culto ao banho, foi logo me pedindo um uísque. Era boa praça e começamos a conversar, misturando meu inglês ruim e o português mais para tupi-guarani dele.
Seguimos ao redor da mesa no nosso café, o meu à base de cafeína e o dele no modelo caubói em velocidade estonteante. Lá pelas tantas, perguntei por que tinham relação lendária com o tempo, a ponto de o mundo enxergar a pontualidade britânica como valor social global. Ele foi direto: “Não temos o direito de tomar o tempo de ninguém, pois o tempo perdido é a única coisa impossível de devolver”.
Nunca mais esqueci e, confesso, passei a ser ainda mais pontual desde então. Sempre que percebo que posso me envolver em algum atraso, lembro daquele maldito inglês martelando no meu ouvido “...o tempo perdido é a única coisa impossível de devolver”.
Gosto de lembrar da minha amiga reclamando de enfiar o sujeito debaixo do chuveiro no terceiro dia de dribles e catimbas na entrada do boxe. Ela ficava muito engraçada enfezada: “Tentei mostrar que ele estava nos trópicos e que aqui se costuma tomar um banho por dia, pelo menos. Imagine, aquela porra daquela calça jeans ficava em pé sozinha quando ele saía de dentro!”, ela desabafou. E completou arrasadora: “Sonhei acordada com a chegada daquele cara e terminei somente com uma memória olfativa. Imagine que ele teve coragem de me dizer, quase se vangloriando, que fazia quinze dias que não trocava de calça!”.
Muitos anos depois, eu estava conhecendo Londres e, ao dobrar uma esquina, me deparei com o Big Ben. Por alguma generosidade superior, exatamente quando ele começou a badalar o meio-dia em ponto. Por isso, tive a chance de chegar diante dele no momento maior de marcar o tempo, doze badaladas. Algo simples, mas indescritível. E naquela hora, pontualmente, lembrei do inglês que não gostava de tomar banho.
Engraçado como uma hora roubada do meu tempo desencadeou lembranças de quase trinta anos com um súdito de sua majestade.
No dia seguinte, num estádio mais distante, um cavaleiro do mesmo império, Paul McCartney, estava trilhando o fio condutor da lenda extraordinária que consegue aparecer de vez em quando sem virar arroz de festa. Infelizmente, esse som não chega até aqui, como aqueles gritos do futebol do dia anterior.
Mais cedo, durante o café, um jovem casal hóspede da casa ultimava detalhes para seguir direto para a fila, que já era enorme, dos que veriam o show “na pista”, no gramado.
Vieram direto de Minas exclusivamente para isso e a menina deixou claro o que um velho Beatle representa: “Faz dez anos que eu sonho com o dia de ver esse cara. E olhe que eu só tenho dezenove”. Love me do, nada mais. A mineirada sempre foi chegada numa arte de verdade!
Já virando a madrugada da segunda, o casalzinho chegou eufórico, a menina beirando a Lua, quase levitando pelo sonho Beatle realizado. Imagine se tivesse respirado os ares dos anos sessenta, quando tudo aconteceu de verdade! Olhei para o meu velho Tissot e ele deu uma mexidinha no ponteiro dos minutos, concordando.
O feriadão acabando gelado, não deu praia. Lá fora, uma garoa insistente, criatura difícil de lidar, impossível de driblar – não dá para passar entre um pingo e outro porque nem há pingos, a água cai nebulizando o espaço, pulverizando o frio até os ossos.
Um trago de café sempre desce bem, acomodando as sensações térmicas todas. É bom não ter rixa entre cafeína e sono. Um privilégio. Enquanto não chegava a hora da minha escuridão particular, Ivan Lins desfilava na tela como iguaria servida aos espanhóis no Festival Internacional de Jazz de San Javier.
Uma boa maneira de aguardar amanhã, onde tudo começa ou apenas começa de novo. Ou ameaça para depois terminar. Um moto-contínuo do mesmo, de nós, de sempre, da vida, do tempo.
Mesmo com o sobrenatural Paul McCartney àquela hora descansando num hotel da cidade, não tive pudor de me banhar noutras águas: que coisa espetacular é a música brasileira! Pena que o Brasil cada vez mais fale menos a língua dela e o seu próprio idioma.
Nós vivemos debaixo do pano
Entre espadas e rodas de fogo
Entre luzes e a dança das cores
Somos todos iguais nesta noite
Pelo ensaio diário de um drama
Pelo medo da chuva e da lama
Pelo truque malfeito dos magos
Pelo chicote dos domadores
E o rufar dos tambores
Olha nós outra vez no picadeiro
Vamos entrar mais uma vez...
Tudo caminhava para sossegar a alma, quando caí na besteira de dar uma olhadinha num encontro de Ivan Lins, João Bosco e Gonzalo Rubalcaba. A dinamite estava com pavio aceso e jogou pelos ares meu projeto de sossego, rezas, bênçãos dos seres da madrugada, as batidas do coração.
O momento final, Linha de passe, entrou no quarto como um vendaval. E me tomei de emoção quando vi que esse monumento musical teve direção artística de um amigo querido que já está lá por cima.

Agora fazer o quê? Quando amanheceu e soou o toque de espalhar, já começou com a hora roubada pelo horário de verão. O vai-da-valsa de sempre, rolar a bola com o jogo de cintura que virou regra. Afinal, a vida só presta por isso, pelo ronco da cuíca. E ela roncou, acredite! Sem raiva e sem fome desta vez. Mas, roncou! Também, na mão de Marçalzinho, filho de mestre Marçal...

Trechos de:
Somos todos iguais nesta noite (Ivan Lins - VítorMartins)


14 comentários:

  1. 1) O texto do bom cronista Heraldo me fez lembrar de algumas coisas:

    2) do jornal A Noite que havia antigamente no RJ, eu sempre sofro qdo um jornal acaba, sou um leitor inveterado, se quiserem me chamar de invertebrado tudo bem ...

    3)Depois a bela música do Ivan Lins "Pede a banda pra tocar um dobrado... olha nós outra vez no picadeiro..."

    4)Do sujeito, culturalmente, pouco chegado ao banho, tenho uma ótima para contar, depois envio...

    5)No mais, parabenizar esse construtor de parágrafos como se fossem prédios, edifícios das ideias e reflexões.

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    1. Heraldo Palmeira05/11/2017 11:09

      Obrigado, Antonio. Palavras gentis que animam a continuar gastando tinta dessa Bic Cristal azul para rascunhar papel.

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  2. O balanço cibernético das horas reconciliado pela música.

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    1. Heraldo Palmeira05/11/2017 16:26

      Ora se não, meu caro!

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  3. Olá Heraldo,
    Você escreve íntimo, da gente e das palavras. Tão bom de ler!
    Também tenho um Tissot de corda, modelo masculino parecido com o seu. Gosto de relógios grandes.
    E sendo também pontual, de tentar atrasar e ficar estressada, gostei do seu hóspede fedido.
    Até mais. Sempre.

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    1. Heraldo Palmeira06/11/2017 11:17

      Ana,
      Obrigado pelas palavras carinhosas. Bom saber que também é do clube do Tissot a corda.

      Além do cheiro, o hóspede fedido deixou sua boa lição. Até mais. Sempre.

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  4. Wilson Baptista Junior06/11/2017 11:13

    “...o tempo perdido é a única coisa impossível de devolver” - frase para não esquecer. Aqui temos a cultura da impontualidade, passei minha vida profissional tendo que brigar muitas vezes contra ela...
    Afinal, pudemos ver a lendária BIC azul, instrumento preferido de um amigo que sabe usá-la muito bem. E, permita-me a inconfidência, chamo a atenção dos leitores para a capa do livro onde ela repousa junto com o velho Tissot.
    Um abraço do
    Mano

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    1. Heraldo Palmeira06/11/2017 17:05

      Mano,
      Pois é, o danado do inglês não deixou por menos. Também me incomodo até hoje com esta cultura da impontualidade, algo horroroso que a gente tenta dar status de normalidade.

      A Bic azul é parceira há 49 anos e o velho Tissot há um pouco menos. Viraram testemunhas de tudo, confidentes. Inclusive do livro, que está se espalhando por aí.

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  5. Francisco Bendl06/11/2017 19:03

    Mais uma bela crônica e com a qualidade de sempre, escrita pelo Palmeira.

    A foto que ostenta o relógio Tissot - na minha época o "must" era um Tissot Militar -, e a caneta Bic, de cristal, que tinha como sua antecessora a Johann Faber, de madeira, verde na sua extensão e azul e branca lhe rodeando o início da caneta, que borrava a tudo e todos, e de um bom gosto que valeria a pena um artigo somente da imagem.

    Quanto ao tempo, ele vence sempre, logo, devemos nos adaptar à sua inclemência, sob pena de a nossa vida ser um conflito com o senhor do universo até o nosso fim!

    Parabéns, Palmeira.

    Um abraço.
    Saúde e paz.

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    1. Heraldo Palmeira07/11/2017 12:57

      Bendl,
      Obrigado por suas palavras. Realmente, a imagem ficou bonita porque simples, mostrando um velho relógio Tissot e a eterna parceira Bic Cristal azul. Há uma relação entre nós e isso é visível na imagem. Quem sabe, um dia escrevo a repeito?

      Sim, o tempo é senhor de tudo e nós, na nossa insignificância, nos metemos a mexer nele. Abraço.

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  6. Patrícia Whebber06/11/2017 23:13

    Perplexa!
    Como você consegue escrever tão bem?

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    1. Heraldo Palmeira07/11/2017 11:34

      Patrícia,
      Gastando tinta para rabiscar papel desde a juventude e olhando com ternura para o que acontece ao redor pode me ter permitido adquirir apenas uma capacidade de relatar as coisas com um pouco mais de detalhes. Obrigado.

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  7. Moacir Pimentel07/11/2017 07:45

    Mestre Heraldo,
    Essa sua Noite musical conversa sobre o tempo que, como tão bem diz o Blanc, "sabe passar e nós não". Parece que foi ontem que nos soava longínqua a hipótese quando os Beatles perguntavam:
    "Will you still feed me when I'm 64?" (rsrs)
    Mas ninguém - inclusos Caetano, Milton e Cazuza - cantou o danado do tempo melhor do que Pink Floyd:
    https://www.youtube.com/watch?v=LNBRBTDBUxQ
    "Time", sem nem falar da engenharia de som do Alan Parsons, com certeza, é especial.
    Então é o seguinte: hoje, depois de tantos quilômetros rodados na base da tentativa e do erro - mesmo nos feriados! (rsrs) - eu tenho muita simpatia por aqueles que "trocam os seus confortos caseiros por desconfortos improvisados", pela tchurma que bota o pé na estrada em busca das novidades que já vivemos e dos significados que já desvendamos. Afinal é preciso caminhar olhando de um lado e do outro -e às vezes para trás! - correndo atrás do sol, colhendo referências, "construindo parágrafos", colecionando bytes de memória para se poder dizer "Home, home again!". Para se ter o que conversar, “pra sobreviver, pra que a esperança seja mais que a vingança, seja sempre um caminho que se deixa de herança”. Assim como os seus "Contos de Réis" abraçados pelos velhos companheiros BIC e Tissot aí na foto.
    Abração

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    1. Heraldo Palmeira07/11/2017 13:14

      Caríssimo,
      Suas citações de quem cantou bem o tempo são pontos finais. E, quando adentramos o território floydiano, chegamos ao sobrenatural, onde Parsons era um dos magos.

      Tive sorte de poder ser apenas um reles repórter dessa noite onde tanto aconteceu, inclusive algumas reflexões de vida deste cara comum aqui.

      Sim, é quase comovente ver a multidão trocando de estresses, se atirando em desconfortos improvisados, porque tudo isso embute o desejo de descobrir a vida, de ser feliz nem que seja por átimos. E é assim que é.

      Eu sei bem o que é isso, viajante inveterado que sou, descobridor dos meus modestos sete mares, pequenos, particulares, mas que me permitiram aprender a navegar no lastro de uma icônica Bic Cristal azul - icônica porque nunca termina ou envelhece, porque tem outra novinha, igualzinha para continuar a missão -, guiado pelo tempo de um velho Tissot que se renova pela corda diária. Até devolver tudo em contos de réis. Abração.

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