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17/11/2017

Philomena

imagem do trailer do filme


Moacir Pimentel
Se você perguntar a uma boa cozinheira por que algumas receitas dão certo enquanto que outras com os mesmos ingredientes desandam, ela lhe dirá que é a qualidade dos ingredientes que faz a diferença. E assim é com a “Philomena” do diretor Stephen Frears, um filme cuja receita cinematográfica é problemática na melhor das hipóteses. Pois trata-se de uma história trágica – tirada da real! - envolvendo a Igreja Católica - nada menos! - transformada em um roteiro denso durante o qual a gente dá grandes risadas.
Vamos combinar?
Uma mistura sui generis dessas só pode flertar com o perigo - mesmo o suicídio! - mas acontece que “Philomena” funciona, graças à qualidade de seus ingredientes, especialmente às performances sensíveis e matizadas de seus dois protagonistas, Judi Dench e Steve Coogan.
Para quem ainda não a conhece tenho o prazer de apresentar Judi Dench que, aos oitenta e dois anos, é a grande dama do teatro e do cinema inglês. Na foto que inaugura o post ela está personificando a Philomena, uma senhorinha irlandesa cuja vida foi narrada no livro “O Filho Perdido de Philomena Lee” da lavra do jornalista inglês Martin Sixsmith.
Em 2013 o relato foi transformado no filme, a partir de um roteiro adaptado - não por acaso! - pelo ator Steve Coogan, que na telona também interpretou o Martin, o segundo personagem mais importante dessa história que fez muito sucesso e foi indicada para vários Oscars inclusive os de melhor filme, atriz e roteiro.
O filme conta, portanto, uma história verdadeira, permeada de justa indignação contra uma grande crueldade e injustiça que, pervertidamente, se instalou no coração da Igreja Católica irlandesa. Judi Dench interpreta a devota e idosa e completamente adorável heroína, sempre metida em calças compridas confortáveis e casacões acolchoados e cachecóis bem comportados, com um calor que brilha como uma luz convidativa em uma noite de inverno enevoada.
Mas há uma espinha dorsal de aço sob o comportamento doce e o exterior aconchegante dessa Philomena e uma grande generosidade de espírito que vão se revelando calmamente entre as descobertas e revelações tão inesperadas quanto chocantes desse filme que, apesar de narrar sua vida sofrida, também nos fala das suas fé e esperança que sobreviveram a enormes desafios.
Só que trata-se de uma história com tantas crueldades e reviravoltas, que à vezes é difícil acreditar que seja baseada em uma história real. Acontece que é.
E bem assim, é um soco emocional, um drama poderoso cujas simplicidade enganosa e força insuspeitada são contadas principalmente, através da combinação perfeita das performances estelares dos atores que representam Philomena e Martin, do sabor das nuances sutis e dos diálogos deliciosos desses dois personagens.
No centro do drama mora o jornalista Martin que Philomena apresenta como “Martin Sixsmith, do Jornal das 10” enquanto ele, pacientemente, segue explicando que não, que na verdade jamais fora um âncora da BBC, mas que trabalhara para a gigante sim, dirigindo seus escritórios em Moscou e Washington. Entretanto, nesse enredo quem brilha mais é a simpaticíssima Philomena Lee na sua batalha para descobrir o que acontecera com o seu filho Anthony que, aos três anos de idade, fora colocado no banco traseiro de um luxuoso Rolls Royce preto por um casal bem vestido que, com certeza, pareciam primos legítimos da Bonnie e do Clyde.
“Em meus sonhos, aquele momento ainda volta para mim tantas vezes”, nos diz Philomena. “Da janela do último andar da Abadia eu o vejo lá com um aviãozinho nas mãos, o pequeno rosto assustado, olhando através do para-brisas traseiro. E então eu choro”.
Ninguém naquele convento irlandês se dera ao trabalho de explicar à desnorteada Philomena para onde o seu pequeno Anthony estava sendo levado. E ela passou a vida inteira querendo saber o que acontecera com o seu menino. Ele estava vivo? Tinha uma boa vida? Terminara os estudos? Ele alguma vez pensara nela?
As freiras disseram-lhe apenas que, como filho de uma mãe solteira o garoto seria para sempre ostracizado e que, em vez, sendo adotado, ele se livraria do estigma do “pecado materno” e teria uma chance real de construir uma vida decente.
Apesar da vida da protagonista ter sido verdadeiramente angustiante, a primeira coisa que a gente percebe é que essa senhora não guardou qualquer ponta de rancor contra seus algozes. Eu gostaria de poder dizer que também teria a mesma grandeza necessária para perdoar a canalha, mas duvido muito que tivesse. E isso é o que faz com que história dessa mulher valha a pena ser contada.
Para entender como Philomena emergiu graciosa em vez de hostil e vingativa das crueldades que suportou, primeiro é preciso entender de onde ela veio. Essa quarta filha entre os seis rebentos de uma dona de casa e de um açougueiro sofreu sua primeira perda aos seis anos, quando sua mãe morreu de tuberculose.
Incapaz de lidar com a situação, o viúvo internou Philomena e suas duas irmãs em um convento, mantendo apenas os três filhos homens em casa para ajudá-lo na lida. As garotinhas voltavam para casa apenas uma vez por ano, mas Philomena nunca se vitimizou por nada disso:
“Pelo menos nós tínhamos um pai. Se você fosse ilegítimo naqueles dias, bem, que Deus o ajudasse”.
As três irmãs permaneceram no convento e longe dos fatos da vida  até completar os estudos. Aos dezoitos anos e já morando com uma tia materna, num domingo festivo no parque do condado Philomena foi presenteada por um rapaz desconhecido primeiro com uma maçã caramelada e, em seguida, com um bebê no forno.
Como naqueles tempos escuros era uma vergonha insuportável se ter uma filha ou irmã solta na vida, quando sua gravidez tornou-se óbvia o pai primeiro a renegou, depois jurou de pés juntos para familiares, amigos e vizinhos que a moça morrera e finalmente despachou-a para a Abadia das Irmãs do Sagrado Coração, em Roscrea, no condado de Tipperary, um lugar para as decaídas mães solteiras e/ou para as vítimas de estupro e/ou para aquelas cujo único crime era serem bonitas e portanto credenciadas para futuros pecados da carne, na opinião da tchurma de coração sagrado mas sem piedade.
Após dar à luz seu filho Philomena foi forçada a trabalhar sete dias por semana por anos a fio sem receber salário na lavanderia da Abadia - que mais parecia uma sauna! - tendo permissão para estar com o filho durante apenas uma hora diária até que levaram-no embora.
Enquanto durou esse calvário a Madre Superiora ameaçara Philomena com a condenação eterna no fogo do inferno caso ela falasse da existência do bebê a quem quer que fosse. Aterrorizada, ela calara-se por mais de meio século, convencida, na alma funda, de ter cometido o pior dos pecados.
É particularmente chocante a capacidade doentia que algumas das religiosas do filme compartilham de ver as mães solteiras adolescentes sob sua responsabilidade quase como criaturas sub-humanas e, portanto, fora do domínio da consideração e da caridade, em uma distorção épica do cristianismo.
Mas, de saída, fica-se intrigado mesmo é com a ênfase dada pelas freiras à necessidade de silêncio e segredo e com as brutais leis de adoção da Irlanda que impediam qualquer tentativa de se rastrear um filho adotivo após o fato consumado. E, a essa altura do post, é preciso abrir um parêntese para a contextualização.
Acontece que Philomena foi apenas uma das centenas de milhares jovens irlandesas enviadas para tais conventos, mais notadamente nas décadas de 50 e 60, porque suas ignorantes famílias haviam sido doutrinadas e convencidas pelos credíveis padres e madres daquelas paragens de que mães solteiras eram degenerações morais que não podiam ter permissão para permanecer em sociedade.
Nesse clima de histeria sexual, praticamente qualquer jovem podia se tornar, como aconteceu com Philomena, uma prisioneira dos conventos irlandeses. Não apenas por conceber uma criança fora do casamento, mas pela suspeita de que poderia vir a ter relações sexuais com o namoradinho ou, muitas vezes, pelo simples fato de ser uma órfã indefesa, fato que já era uma robusta evidência de que uma garota estava em perigo moral e precisando de um bom “resgate” católico. O desejo de “resgatar” as mulheres caídas parece ter sido o passatempo favorito de todo o Reino Unido no século passado.
Sim, porque convém lembrar que tais instituições não foram inteiramente um produto do catolicismo irlandês. Elas evoluíram de um coquetel vitoriano peculiarmente inglês de ativismo moral e hipocrisia sexual. Também prosperaram estabelecimentos similares na Inglaterra e na Escócia.
E em todos eles era inquestionável a certeza de que as jovens eram as únicas responsáveis por suas próprias “quedas”. Se eram sexualmente ativas, suas artimanhas malévolas prejudicavam os coitados dos homens indefesos. Se não sabiam nada sobre sexo, sua inocência sedutora era uma tentação à qual os bons homens de sangue quente não poderiam resistir. Se tinham feito sexo consensual ou sido vítimas de abuso – tanto fazia! - eram um perigo para elas mesmas e para os outros. A culpa era delas, sempre delas, simples assim.
Os conventos e as suas lavanderias foram, portanto, locais de despejo muito convenientes para novas escravas abusadas e/ou estupradas por seus pais, mestres, sacerdotes e familiares ou engravidadas por seus amores. Uma vez dentro das quatro paredes de um convento, as mulheres eram silenciadas com uma dieta implacável de culpa religiosa e toneladas de roupa suja para lavar e muitas aceitaram a sua sina e, para melhorar de vida, tornaram-se religiosas. Ou seja, também as freiras foram vítimas de um sistema repressivo e o filme, de fato, nos mostra muito bem como pessoas reprimidas acabam reprimindo outras.
Para desgraça das garotas irlandesas, o vírus da moral vitoriana pervertera uma instituição cujo poder se manteve em ascensão durante a maior parte do século XX. A Igreja Católica, que havia sido um dos símbolos da identidade nacional irlandesa, fora perseguida e escanteada por tempo demais. Então, quando o país tornou-se independente em 1920, a Igreja voltou a ocupar sua posição pretérita, só que dessa feita tornou-se um poder quase inatacável. E os sucessivos governos irlandeses aceitaram bovinamente a noção louca de pedra de que tudo aquilo que tivesse a ver a com a moral, o sexo e a família era essencialmente da alçada da Igreja.
Era tamanho o poder da Igreja Católica e do então todo poderoso arcebispo John Charles McQuaid, que o Estado irlandês se curvou diante de suas exigências, cedendo a tutela das “indecentes” mães adolescentes e de seus filhos “bastardos” às freiras e, o que pior, pagando-lhes regiamente para cuidar das suas próprias vítimas. Infelizmente para a Igreja Católica as mães solteiras e suas crianças não eram uma questão moral ou um problema social mas sim um negócio muito rentável.
Após dar à luz, as meninas só eram autorizadas a sair do convento se suas famílias pudessem ressarcir as freiras pelas despesas do parto, pagando-lhes cem libras. Essa era uma soma substancial e as garotas que não a tinham - a grande maioria! - eram mantidas no convento, trabalhando em cozinhas, estufas e lavanderias ou fazendo rosários ou pintando santinhos de gesso e outras quinquilharias religiosas, enquanto a Igreja se apropriava dos lucros do seu trabalho escravo.
Mais cruel do que tal escravidão, porém, era o fato dessas mães terem que amamentar e cuidar de seus filhos, desenvolvendo vínculos maternos, amor e carinho que seriam despedaçados no final de suas sentenças.
Sim, porque como todas as outras meninas grávidas, Philomena Lee foi convencida a assinar um documento no qual renunciava a qualquer direito sobre o filho, entregando-o aos cuidados da Irmã Bárbara, a Madre Superiora da Abadia e se comprometendo a “nunca tentar ver, interferir ou fazer qualquer reivindicação quanto à criança, no futuro”.
imagem do filme

“Nenhuma de nós queria dar nossos bebês, nenhuma de nós. Mas o que mais poderíamos fazer? As irmãs diziam que tínhamos que assinar os documentos”.
O objetivo desses papéis, é claro, era disponibilizar os miúdos para a adoção por qualquer pessoa que a Igreja considerasse adequada, dentro ou fora do país, sem o conhecimento das mães.
A alta hierarquia católica irlandesa havia se corrompido e envolvido no que equivalia a um comércio ilícito de bebês e por décadas considerou que as milhares de almas nascidas sob seus cuidados eram propriedade da Igreja.
Sem a anuência das mães adolescentes, os bebês eram vendidos ao melhor pagador. Até mesmo a bela atriz americana Jane Russell, que não podia ter filhos – quem se lembra dela no filme Os Homens Preferem as Louras? - tornara-se uma cliente vip das freiras e feliz compradora com direito a ter sua foto em lugar de destaque no salão de visitas da Abadia, por ter adotado um bebê irlandês de quinze meses de nome Thomas Waterfield, em 1952.
Como ele e o bebê de Philomena milhares de crianças foram levadas da Irlanda por casais – notadamente americanos! - que faziam caridosas “doações” às freiras cujo valor médio era de mil libras. A adequação dos casais adotantes era um detalhe periférico e a única condição estabelecida pelo arcebispo McQuaid era que deveriam ser católicos praticantes.
O filme “Philomena” trata, portanto, de um dos crimes mais vergonhosos já cometidos dentro da Igreja, um negócio que cheirava a enxofre, diabolicamente concebido e executado pela Santa Madre Igreja Católica com espantosos requintes de hipocrisia e crueldade por mais de trinta anos.
Quando os rumores dessas práticas tenebrosas começaram a surgir décadas depois, grande parte da documentação incriminadora desapareceu em circunstâncias inexplicáveis e até hoje a Igreja protege ferozmente os seus arquivos de adoção e as freiras anciãs que participaram das barbaridades.
Não, não pense você que estou conversando só de rumores. As altas taxas de mortalidade infantil e de mães registradas nesses conventos ao longo do século passado, bem como suas práticas estranhas de enterro, processos de adoção e tratamentos de vacinação experimental vem sendo investigadas desde que o escândalo explodiu.
Na década de 90, um antigo convento de nome High Park, no norte de Dublin, de propriedade das Irmãs da Ordem de Nossa Senhora da Caridade, vendeu parte dos terrenos que o circundavam por um milhão de libras para uma grande construtora que lá construiu um conjunto habitacional.
Sucede que, quando as escavações para as fundações começaram, foram encontrados os corpos de cento e trinta e três “mulheres caídas” que depois de terem sido enterradas vivas na lavanderia do convento, foram enterradas mortas clandestinamente e, por fim, tiveram seus túmulos vendidos. Mesmo na morte, elas não estavam a salvo de mais insultos.
As venda e descoberta dos túmulos clandestinos das moças de Dublin acabaram por ser o rastilho de pólvora e o início de um doloroso processo investigativo. A brutalidade do que aconteceu chamou a atenção do mundo para uma história que a maioria dos irlandeses desconhecia e foi o despertar para uma realidade que muitos gostariam de esquecer. O prezado público percebeu então o significado de uma palavra que parecia não ter significado real na história irlandesa recente: escravidão.
Por mais extraordinário que possa parecer, as garotas irlandesas foram prisioneiras dos conventos e, de fato, escravas brancas das “Lavanderias das Madalenas”, obrigadas a trabalhar sem remuneração mesmo que não tivessem cometido qualquer crime.
E tais descobertas assustadoras continuam a ser feitas até hoje. Em março de 2017, em uma vala comum que já servira inclusive de fossa séptica para um outro convento irlandês de nome Bon Secours Mother and Baby Home, em Tuam, no condado de Galway, engenheiros encontraram os restos mortais de oitocentas crianças, todas com idades entre trinta e cinco semanas fetais e três anos, enterrados clandestinamente desde a década de 50, em uma inimaginável estrutura subterrânea dividida em vinte câmaras das quais dezessete haviam servido para essa eliminação chocante de restos humanos.
Um outro filme de nome “Em Nome de Deus” – The Magdalene Sisters, no original - e vários documentários já haviam feito denúncias ferozes das “lavanderias” irlandesas antes do advento do filme “Philomena”, forçando os príncipes da Igreja a pedir desculpas públicas às mais de quinhentas mil mães solteiras que penaram nas mãos gananciosas de padres e freiras, sendo oprimidas sexualmente, convencidas da imensidão do seu pecado, doutrinadas a pagar por ele com o sofrimento e a escravidão e pressionadas a entregar seus “filhos do pecado” para adoção por casais decentes.
Essas adoções criminosas atingiram seu pico no ano de 1968, quando mais de dezesseis mil bebês irlandeses nascidos de mães solteiras foram entregues a novas famílias. Porém a derradeira lavanderia irlandesa operada por escravas brancas só foi fechada em 1996.
Participaram desse lucrativo balcão de negócios de crianças, além da Igreja, Agências de Adoção estatais e privadas, o Exército da Salvação e o Governo da Irlanda que pagava aos religiosos pelo sustento das escravas e de seus rebentos, incluídos os partos extremamente dolorosos sem o benefício da presença de um médico e/ou do alívio de anestesia e/ou analgésicos, uma dieta espartana, surras de vara por qualquer indisciplina e muitas cabeleiras raspadas - e vendidas, é claro, para peruqueiros - quando de “faltas graves”, como tentar fugir do inferno.
As mulheres que conseguiram sobreviver aos maus tratos e superar as vergonhas e culpas com as quais lhes aleijaram as mentes e almas vieram a público explicar que as adoções de seus bebês foram decisões tomadas à sua revelia. As garotas se conformavam por acreditar que tinham cometido o pecado supremo e que o sofrimento e o castigo de uma vida era a única forma possível de expiá-lo. Diferentemente do que se dizia aos filhos adotados, elas não os abandonaram, simplesmente não tiveram escolha. Ainda hoje milhares de mães e filhos separados precisam fechar suas próprias histórias com um epílogo e um ponto final definitivo.
Decerto que tais práticas criminosas da Igreja e do Estado irlandês, refletiram a mentalidade de uma época mas, acima de tudo, a mais absoluta falta de humanidade. O drama de Philomena era um enredo comum na Irlanda pós-guerra e, sendo assim, o pequeno Anthony de cabelos escuros e os olhos azuis da mãe aos três anos de idade não fugiu à regra. De longe e através de grades, soluçando e desamparada, Philomena nada pôde fazer para impedir que seu filho e outra garotinha de nome Mary deixassem a Abadia, naquela malfadada tarde de dezembro.
“Eu gritei seu nome e não parei de chorar por duas semanas”
Para se livrarem de uma catatônica e imprestável Philomena as freiras enviaram-na para Liverpool – ela teve mais sorte do que muitas das suas colegas de infortúnio enviadas para hospícios - onde trabalhou em uma escola para meninos delinquentes, se tornou enfermeira, casou e formou família. Tudo o que lhe restara do filho era uma foto, subrepticiamente tirada e entregue a ela por uma das irmãs mais gentil.
imagem do filme

Durante cinco décadas ela guardou o segredo até mesmo do marido e dos dois filhos - Jane e Kevin - até que depois de uns copos a mais numa noite de Natal - o dia do quinquagésimo aniversário do nascimento de Anthony - ela quebrou seu voto de silêncio, confessou tudo à filha dizendo-lhe o quanto desejava abraçar o filho mais uma vez e as duas decidiram procurar a criança apesar dos impedimentos burocráticos.
Mas dessa busca falaremos em outra conversa.


27 comentários:

  1. 1)Oi Moacir, parabéns pelo texto.

    2)Como escrevi aqui outro dia, há alguns anos não vou mais ao cinema, mas os dois filmes citados eu assisti em casa, via DVD.

    3)São filmes trágicos, falam da dureza da vida, da época, de um tempo.

    4)Abraços de bom fim de semana.

    5)Minha reflexão para tanto sofrimento é o tal do karma, em vidas anteriores, estas mulheres e seus filhos fizeram algo e nesta sofreram muito.

    6)Claro que tem tb o carma pesadíssimo negativo da Igreja Católica que oprimiu muita gente, em todo o mundo.Mas não sou juiz de ninguém estou apenas citando fatos históricos.

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    1. Moacir Pimentel18/11/2017 17:25

      Antonio,
      Os dois filmes são diversos embora ambos abordem os esqueletos mal resolvidos na longa história dessa fé institucionalizada.
      Philomena sai inteira da sua via crucis em flashback, nos fazendo rir quando interage com o Martin. Em uma tragédia esses dois personagens jamais teriam sido apresentados(rsrs) Já no filme “Em Nome de Deus” é angustiante testemunhar a sistemática deformação mental e psicológica e moral que os maus tratos promovem nas garotas. Confesso que imaginar algumas daquelas freiras acocoradas lavando toneladas de roupa suja do outro lado do Rubicão, me conforta a alma.
      Mas são raras as criaturas que, como Philomena, dessas situações extremas evoluem para o perdão. Infelizmente a maioria dos que são abusados, torturados, oprimidos e explorados, sobrevivem moralmente aleijados, tendem à aridez emocional e muitos terminam por repetir o comportamento dos agentes de seus martírios, no que seria, pelo menos na minha cabeça, um círculo vicioso sem fim. Mas vamos em frente.
      "Gratidão"

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  2. Mônica Silva17/11/2017 08:43

    Estou chocada com as revelações do seu ótimo artigo, Moacir. Sem nem palavras para comentar. Vou procurar o filme para assistir porque nunca tinha ouvido falar de Philomena. Fui lendo e ficando com o coração apertado e terminei dando graças a Deus por viver no século 21, apesar de todas as desgraças dele. Também não sei se seria capaz de perdoar tanta maldade. Bom final de semana.

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    1. Moacir Pimentel18/11/2017 17:29

      Mônica,
      Para começo de conversa você está intimada a assistir Philomena para que possamos conversar melhor no próximo post. Ao contrário do que muitos pensam, o filme é não é um rio de lágrimas mas uma narrativa comovente e divertida principalmente quando foca na amizade construída pelos dois protagonistas. Eles nos ensinam que, não importa a idade, sempre haverá a chance de encontrarmos alguém diferente de nós e, de sê-lo, capaz de afetar nossas opiniões sobre a humanidade e nos orientar para uma nova e imprevista estrada. Obrigado pela leitura e opiniões generosas.
      Boa semana

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  3. Léa Mello Silva17/11/2017 08:56

    Parabéns pelo ótimo comentário sobre Philomena, completado pelo histórico da época
    Foi um dos melhores filmes que já vi
    Obrigada

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    1. Moacir Pimentel18/11/2017 17:31

      Léa,
      Concordo com você: Philomena é brilhante! Fico muito feliz que você tenha apreciado o post e espero que continue lendo a “franquia”, como diz o Mano. Muito obrigado.

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  4. Flávia de Barros17/11/2017 12:50

    Moacir,

    Você introduziu muito bem um dos mais tristes capítulos da história da Igreja, um tema difícil porque ainda há uma mentalidade antiquada que acha que a crítica de qualquer coisa religiosa é heresia. Acho que a mensagem do filme é que ressentimento, raiva e amargura não mudam nada e que a única maneira de se ter paz na vida é aceitar o que passou, perdoar e seguir em frente. Philomena e o Papa Francisco assistiram juntos este belo filme que nos inspira porque apesar de tudo o que ela padeceu nunca perdeu a esperança e a fé. Vou continuar lendo com atenção o resto da história.

    Um abraço para você

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    1. Moacir Pimentel18/11/2017 17:35

      Flávia,
      Que bom que você gostou do filme. Nele existe verdade mais do que o suficiente para enfurecer os fundamentalistas incapazes de discutir suas "revelações" ou de admitir e superar a rigidez moral de uma igreja que muitas vezes tem agido em desacordo com os princípios cristãos de compaixão e misericórdia.
      No entanto não entendo Philomena como um grito contra a Igreja, ou um ataque contra os que acreditam, ou um dedo apontado para a hipocrisia da sociedade e da política, ou como um lembrete da falta de ética do jornalismo nem como uma condenação dos pontos de vista conservadores. Nada disso. Philomena não é um enredo anti coisa nenhuma. É apenas o relato de uma vida, de como essa senhora atravessou diversas épocas e situações complicadas dando um testemunho de muitas coisas boas como, por exemplo, de coragem, de temperança, de generosidade, de empatia e de capacidade de perdoar. É também um poema sobre o vínculo eterno que existe entre as mães e seus filhos, algo que nem o tempo, nem a distância e nem mesmo a morte! podem alterar.
      Outro abraço para você

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  5. Márcio P. Rocha17/11/2017 16:44

    Tive muito prazer em conhecer a Philomena neste seu excelente trailer. Vou providenciar pipoca para o final de semana, rs.

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    1. Moacir Pimentel18/11/2017 17:41

      Márcio,
      O filme vale muito a pena. Você estará de pé e batendo palmas para a grande Philomena antes da pipoca acabar e depois tomará um cowboy para ajudar a pensar sobre os subtextos (rsrs) Sim, talvez o filme interrogue certos ptoblemas com pouco rigor. Mas é que o seu interesse maior está no ângulo humano, nos dois protagonistas dissidentes a quem o filme permite ser e pensar de formas diferentes, sem sufocarem um ao outro.
      Obrigado por participar

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  6. Olá Moacir,
    Gostei da escolha do fime... e mais ainda do texto! A contextualização é perfeita e clara para nos mostrar esse quadro triste da igrja católica.
    Concordo com você quanto aos artistas, impagáveis em suas performances. E Judi Dentch é uma Philomena adorável, na sua simplicidade e simpatia, e suas batalhas internas com suas próprias crenças. Assim como para Martin a surpresa contínua sobre a "senhorinha" e o consequente adoçar de suas opiniões.
    Sempre na espera! Parece até castigo.
    Até mais então.

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    Respostas
    1. Moacir Pimentel18/11/2017 17:45

      Caríssima Donana,
      Sem a sua sugestão essa Philomena de quem a senhora tanto gosta não teria uma resenha prolixa e nambiquara para chamar de sua. Muito obrigado. A Philomena de Judi Dench e o Martin de Steve Coogan vão ficar nos anais do cinema: sem a conexão absolutamente credível entre a senhorinha simplória e o jornalista "sabichão", o filme não rolaria tão bem. Mas o diretor Stephen Frears também merece aplausos pois decidiu e controlou o tom da tragédia na fronteira da comédia, bem ali entre a raiva e as gargalhadas, entre o coração e o intelecto, entre a emoção e a razão, nos oferecendo tristeza e felicidade ao mesmo tempo, como a vida, em um ato de equilíbrio que nos prova, mais uma vez, que cinema de qualidade pode inventar emoções reais e com elas nos mediunizar, sem descer ao sentimentalismo barato. Fico por aqui para não pontuar a conversa com spoilers (rsrs)
      "Até mais"

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  7. Francisco Bendl17/11/2017 17:21

    Em primeiríssimo lugar devo fazer algumas distinções:

    Não comentarei o texto de Pimentel, pois irreparável, como sempre;
    Pretendo registrar tão somente a minha opinião a respeito do filme e, se lá pelas tantas, minhas considerações divergirem de Pimentel não se trata de eu ser um antagonista, mas entre mim e o meu amigo por razões óbvias, existe um oceano de diferenças as mais diversas.

    Dito isso, o filme que abordas e trazes na forma de artigo, temos exemplos no país às pencas, demonstrando exatamente a irresponsabilidade de uma união carnal que tenha tido apenas o prazer sexual como intenção, menos as consequências do ato cometido!

    O pecado não é fazer sexo, podendo o casal morrer fazendo “aquilo”, mas a consequência desse ato sem maiores cuidados.

    Tá lá, escrevi no texto anterior ao teu, o significado dessa relação sem compromisso, e que descambando para o nascimento INDESEJADO de um ser ou a surpresa que deste “amor” resulta numa gravidez sem objetivo, gera nada mais nada menos que infelicidade, dor, sofrimento (a análise do filme após a postagem do Livre Arbítrio não poderia ter sido melhor).

    A personagem do filme não é vítima nessa história, não. Se os costumes à época, ainda mais na Irlanda, católica fervorosa, pelo menos uma parte, tinha como tradição que mães solteiras não eram boa coisa, a dona Philomena deveria ter levado em conta as consequências que o seu prazer poderia ensejar.
    Ora, o caso aconteceu em 1.952, onde os conhecimentos do povo eram maiores e mais consistentes que 30/50 anos atrás. Havia informação, como se proteger para não haver gravidez – não havia camisinha -, mas o célebre recurso do “pula fora, agora”, apesar de dizer no filme que não sabia que as mulheres tinham clitóris, mas deveria imaginar que os nascimentos não eram conduzidos por cegonhas.

    Vá lá que depois quis encontrar o filho, mas o tempo não recua, não tem retorno, e ela e o namorado perderam a grandiosidade de ser pais, de acompanharem o crescimento da criança, ouvi-la dizer pai ou mãe, de contar as suas primeiras histórias!

    O filme traz uma mensagem sub-reptícia quanto à vitimização da personagem, propositadamente colocando como pano de fundo a crueldade dos conventos católicos, omitindo que a Philomena também foi cruel ao ter o filho sem condições!

    Também ela ocasionou sofrimentos ao filho, e não pode agora se tornar uma heroína, pelo contrário, o que passou foi na medida do que fez, simplesmente, aliás, um freira disse exatamente desta forma, que o seu sofrimento era a expiação de seu pecado!

    Por outro lado, o filme se torna ruim, péssimo, a meu ver, claro, porque sequer apresenta o pai, por onde andou, o que fez, e as razões pelas quais jamais procurou o seu filho ou ela saiu atrás do namorado.

    E, respeitosamente, Pimentel, discordo quando escreves “tempos escuros” te referindo à vergonha insuportável de se ter uma irmã ou filha solta na vida, pois até hoje, em pleno século XXI, muitos pais repudiam a filha quando aparece grávida ocasionalmente, isto é, a famosa pulada de cerca antes do tempo, se é que existe uma época específica e apropriada para o desejo carnal.

    Inegavelmente é trágico a mãe ser separada do filho, COMO TAMBÉM É CATASTRÓFICO o pai abandonar a sua cria!

    (Continuo)

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  8. Francisco Bendl17/11/2017 17:37

    Existem milhares de mulheres que criam seus filhos sozinhas, sendo mães, tias, avós e irmãs ao mesmo tempo!
    Méritos a elas, aplausos entusiásticos e, quanto ao bonitão, que deu no pé?!
    O filme omite esta questão.

    Igualmente a beleza das mulheres, que iam para a Abadia mencionada para mães solteiras e mulheres estupradas, como local onde futuros pecados da carne deveriam ser evitados, na conclusão do pessoal sem coração – as freiras, no caso.

    A maneira como eram tratadas não era para evitar novos deslizes, é bom que se diga, mas era a manifestação de mulheres que NÃO PODERIAM TER A LIBERDADE DE FAZER SEXO, então a raiva, a inveja, o tratamento muitas vezes desumanos àquelas que haviam experimentado o fruto da árvore do Bem e do Mal, então as ameaças do inferno, quase o mesmo que as religiosas tinham consigo pela castidade imposta, e confessada pela freira ao final do filme, pois enquanto ela se mantinha casta, as meninas tinham “incontinência sexual”.

    Philomena não fez a criança só, e o filme a colore com as tintas de heroína e exemplo de amor, mas não comenta por que ela levou 50 anos para decidir ir à procura do filho desaparecido porque doado para um casal de americanos, do outro lado do oceano onde ela morava.

    Curiosa e contraditoriamente, a vítima teria sido o filho, pois apesar de ser doado – e que bom para a criança que tenha acontecido a doação -, confirma mais uma vez que os pais não são quem os traz para este mundo, mas aqueles que os criam!

    Logo, a Philomena não é esta gracinha como o filme quer mostrar, pois quem deveria ser elogiado e enaltecido o gesto feito eram os pais que adotaram a criança, que lhe deram um lar, e a companhia de uma mãe e de um pai, amor verdadeiro, indubitavelmente.

    O filme é tão ruim, que as crianças que nascem indesejadas ou que vieram sem ser esperadas, então a extrema dificuldade em criá-los, que não faz menção ao sofrimento dos filhos sem lar, sem pai ou mãe, abandonadas à própria sorte, conforme magistralmente narrado no livro do extraordinário Charles Dickens, Oliver Twist, reproduzindo exatamente a delinquência juvenil pelas condições precárias da sociedade inglesa, coincidentemente.

    O Anthony teve muita sorte neste particular, a ponto de ter trabalhado na Casa Branca, situação que, se ficasse com a mãe, sabe-se lá que vida não teria tido na Irlanda.

    Mais a mais, discordo de novo, Pimentel, quando dizes da “crueldade e injustiça que pervertidamente se instalou no coração da Igreja Católica Irlandesa (não sou católico).
    Ora, a Igreja não teve filho algum; a Igreja não foi culpada pelo namorado se escafeder; que Philomena não pensou um palmo adiante do nariz pela consequência do seu ato sexual, e pelo fato de que não foi estuprada, ao contrário, no filme ela lembra o episódio com saudade e emoção do ato sexual com o namorado.

    (Continuo)

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  9. Francisco Bendl17/11/2017 17:39

    Se a Igreja era ríspida com esta conduta nada ortodoxa de mulheres que se deixavam levar pela lábia de safados, de canalhas, de homens que deveriam estar na cadeia quando abandonam seus filhos ou pelo sôfrego desejo pelo ato sexual também da mocinha, definitivamente não existem razões para a instituição ser acusada disto ou daquilo, e isentar os verdadeiros responsáveis pelo fato ocorrido!
    Bem ou mal, trabalhando como escrava, lá pelas tantas não lhe faltou uma cama e comida, pois para aquelas mulheres que também eram mães solteiras e expulsas de suas casas havia somente um destino, a prostituição!

    Mais ou menos eu culpar os ateus porque Deus não faz o milagre que eu quero!!

    Aliás, a Igreja que foi tão duramente criticada pela forma como neste convento tratava as mulheres, que Philomena se encontrou com o Papa Francisco!

    Por favor, Pimentel, critico o filme, e conforme interpreto a história da personagem, mais nada, logo, Philomena passa longe dos bons filmes que vi, quanto mais os excelentes e, mais ainda, dos inesquecíveis.

    (Na condição de taxista, conheci uma mulher que teve uma criança com paralisia cerebral. Havia 25 anos que ela cuidava daquele filho com amor, dedicação, sem tempo para si mesma, pois o rapaz ainda tinha refluxo gástrico, e várias vezes eu a levei com aquele rapagão – 25 anos! – para o hospital. O pai não suportou a pressão e deu no pé, escafedeu-se, sumiu. Ela o sustentava fazendo doces e salgados para vender, e Deus é quem sabe a quantidade de vezes que eu entreguei as encomendas para ela, pois não podia sair de casa. Jamais vi na vida quem sorrisse mais, quem mais fosse feliz com a situação, que teria levado muitas mulheres a abandonar o filho ou até se suicidarem. E era uma mulher de feições agradáveis, simpática, um corpo esguio, a ponto que eu lhe dizia que, se eu não tivesse conhecido a minha mulher, três filhos com ela, e mais de trinta anos de casado – à época de quando eu era taxista -, eu me casaria com ela! Esta, sim, heroína, exemplo de amor incondicional, de valentia, de altivez, de ser uma fortaleza espiritual indestrutível)!!!

    Um forte abraço, meu caro.
    Saúde e paz.




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    1. Moacir Pimentel18/11/2017 18:04

      Bendl,
      Muito obrigado pelo comentário tão longo quanto devem ter sido o tempo e a atenção que você deu ao tema. Como ainda teremos pela frente mais três posts sobre Philomena, hoje não vou antecipar minha opinião sobre algumas esquinas do filme abordadas por você. Ela estará à sua disposição na próxima publicação para mais comentários (rsrs)
      Discordo frontalmente da sua percepção do script pois sejam quais tenham sido os costumes e a mentalidade da época, a ausência de humanidade para com essas mães-meninas dentro de uma Igreja enraizada no conceito de um deus concebido por uma mulher para salvar os pecados do mundo, para mim é de uma hipocrisia e contradição abomináveis.
      Mas isso não vem ao caso. Você, é claro, tem todo direito à sua opinião e se não gostou do filme, tudo bem. No entanto avalio que algumas de suas interpretações são meramente subjetivas, juízos de valor distantes da contextualização do drama. Senão vejamos:
      As freiras católicas não faziam caridade ao dar cama, comida e muuuuita roupa para lavar às meninas grávidas. Explico: o governo irlandês pagava à Igreja muito bem para cuidar das "caídas" e de seus filhos e para dar-lhes assistência nos partos. Sucede que após dar à luz as moças só eram libertadas caso ressarcissem a Igreja com cem libras - uma fortuna que a maioria não tinha.
      Note que as taxas de mortalidade infantil e de parturientes eram elevadíssimas nos conventos, pois as irmãs economizavam a mesada estatal não se dando ao trabalho de providenciar médicos e/ou analgésicos durante os partos. Só em um convento de Dublin foram encontradas, em túmulos clandestinos em um jardim conventual, quase uma centena e meia de ossadas de jovens mulheres. Em março último, foram desenterrados de uma fossa séptica - isso mesmo, f-o-s-s-a! - de outro convento em Tuam os restos mortais de oitocentos bebês, todos com idades entre trinta e cinco semanas fetais e três anos.
      https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/mar/07/catholic-church-children-buried-at-tuam-ireland
      Continuo...

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    2. Moacir Pimentel18/11/2017 18:17

      Essas moças eram forçadas a trabalhar em condições desumanas e sem receber salário por doze horas/dia, sete/dias/semana e, se fugiam, eram perseguidas e capturadas e devolvidas ao cativeiro pela polícia irlandesa para serem surradas e/ou tosquiadas e, se insistissem em escapar da prisão, para serem internadas em colônias de férias: os hospícios mais próximos. Novamente com a brutal ajuda de agentes do Estado. Detalhe: nenhuma delas havia cometido qualquer crime contra nenhuma das leis vigentes no país.
      Se a Igreja tivesse pago salários decentes àquelas meninas que lavavam roupa para fora, convenhamos, todas elas teriam podido sustentar os filhos com dignidade, sem apelar para a prostituição. Mas essa solução justa, civilizada e cristã, não interessava à Igreja que, é claro, preferia manter suas escravas brancas , usufruir dos lucros de seu suor e vender-lhes os filhos pelo valor médio de mil libras. Afinal todos eram propriedade da Igreja.
      Não estamos falando, portanto, de nossas preferências cinematográficas, nem se trata de ficção ou poesia, mas de uma história trágica real e documentada, da covarde negação e/ou a criminalização e/ou demonização da sexualidade feminina na Irlanda na última metade do século XX.
      Estamos falando, isso sim, de crimes hediondos: de cativeiro, de trabalho escravo e da venda de seres humanos cometidos pela Igreja, com a cumplicidade das Agências de Adoção estatais e privadas, do Exército da Salvação e do Governo da Irlanda.
      Tanto é assim que, em 2013, quando os ossos dos inocentes foram escavados e começaram a falar a verdade e o escândalo se instalou, diante clamor da opinião pública indignada, o Primeiro Ministro irlandês Enda Kenny teve que dar a cara a tapa, admitir finalmente a responsabilidade do Estado Irlandês e pedir oficialmente desculpas às milhares de cidadãs irlandesas que foram julgadas e condenadas em nome de Deus e da "moral" de plantão por terem feito sexo e, em seguida, foram escravizadas e exploradas por décadas nas lavanderias católicas.
      https://www.theguardian.com/world/2013/feb/19/magdalene-laundries-ireland-apologise-survivors
      Independentemente das nossas cognições e/ou apreciações do filme, ou da falta delas, ISSO aconteceu de fato e, você me desculpe, a “culpa” não foi nem da Eva nem da Philomena.
      Abraço

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    3. Francisco Bendl18/11/2017 20:11

      Volto a frisar, e me perdoa eu bater na mesma tecla:
      A abordagem era sobre o filme Philomena, a mãe separada do seu filho.

      Desta forma como colocas, o protagonista vira coadjuvante e, em certos momentos, figurante!

      Não vale, pois a razão central, o eixo, a essência, é simplesmente a criança!

      Logo, a Igreja, o governo, a lavanderia da Abadia, as freiras, a venda das crianças é secundário, pano de fundo.

      Mais um abraço.

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  10. Alexandre Sampaio17/11/2017 21:05

    Pimentel,
    Parabéns! Você sempre surpreende na escolha dos temas que desenvolve muito bem post a post nos deixando curiosos enquanto o seguinte não sai publicado. Como já vi este excelente filme e sei que aborda assuntos polêmicos, vou ler com muito interesse a sua nova minisérie.

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    1. Moacir Pimentel18/11/2017 18:20

      Sampaio,
      Escrevi a resenha graças a uma sugestão de Dona Ana Nunes, a inspirada artista plástica, poetisa e articulista e esposa do Editor das nossas Conversas. E escrevi tanto, mas tanto, que a Redação só teve uma opção: dividir o meu filme em quatro posts. Espero encontrá-lo aqui quando finalmente rolarem os créditos (rsrs)
      Obrigado e um abraço

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  11. Francisco Bendl18/11/2017 19:12

    Pimentel,

    Se o Newton permitir eu te ajudar na resposta que ainda elaboras ao meu comentário, digo o seguinte:

    A questão que deve ser abordada é o filme, exatamente o que fiz.

    Se trazermos à discussão os aspectos da Igreja, o comportamento das freiras, o governo irlandês envolvido, a venda de crianças para os Estados Unidos, a meu ver fugiremos completamente de "Philomena", tergiversando em demasia o debate.

    Outro abraço.
    Feliz fim de semana.

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  12. Moacir Pimentel18/11/2017 21:16

    Bendl,
    Discordando de você , o grande Ortega y Gasset diria que :
    "Philomena é ela e as suas circunstâncias".
    Quanto ao filme, é o seguinte: eu ainda não comecei a falar do enredo mas "não se avexe, não" que o farei no próximo capítulo da franquia, se bem que a "criança" acho que só vai aparecer no terceiro (rsrs)
    Um abraço e bom domingo!

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  13. Francisco Bendl19/11/2017 09:11

    Se o nosso amigo Wilson, e sua paciência de Jó me permitirem - e tentarei não comentar as tuas novas edições sobre este filme, Pimentel, pois já externei a minha opinião a respeito -, tens plena razão!

    PHILOMENA E SUAS CIRCUNSTÂNCIAS, E NÃO O CONTRÁRIO COMO COLOCAS.

    As análises sobre o comportamento da Igreja neste caso é desnecessária, pois a protagonista é a mulher irlandesa que foi separada do seu filho onde havia sido acolhida ou ENVIADA PELO SEU PAI (curiosamente, o responsável pelo sofrimento da FILHA no convento sequer foi mencionado)!!!

    Se a questão é discutir os crimes da Igreja - que são inúmeros, evidentemente -, o título deveria ser outro, menos o nome da mulher que relata a sua história, repito e termino,
    A SUA HISTÓRIA!

    Dá a impressão que Philomena foi um mero detalhe para se criticar o comportamento de uma instituição que mereceria CENTENAS de filmes sobre ela, sua conduta, seus males às pessoas de alguma forma, deixando de usar os atores principais e responsáveis pela criança ter sido criada longe da mãe:
    A própria Philomena que o pariu e o avô que o rejeitou (o neto) e a própria filha.

    Outro grande abraço, Pimentel.
    Este é o tipo do assunto excelente à postagem, pois enseja a discussão, o debate, e mediante as regras do Mano.
    Excelente domingo.

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    1. Moacir Pimentel19/11/2017 17:14

      Bendl,
      Quanto à questão do “título”,os dos meus posts são sempre de autoria do Sr. Editor, porque nessa pia batismal Wilson é imbatível e ganha de mim...ó... de goleada. Tanto que, a essa altura do filme, minhas franquias são enviadas para a Redação numeradas e pagãs, da seguinte maneira:
      TEXTO 1 – (???????) (rsrs)
      Quanto à sua intenção de não comentar os demais posts “pois já externou a sua opinião”, ela me autoriza a fazer a seguinte leitura: apesar de não ter a menor ideia do que eu possa ter escrito, nada que eu tivesse seria bom o suficiente para fazê-lo ao menos questionar a sua opinião sobre Philomena, para sequer arranhar o seu juízo de valor imutável. Ou seja, desse jeito vou acabar traduzindo que você entra na conversa com o discurso pronto e acabado, certo de estar certo, tão certo se levanta no escurinho do cinema e vira as costas para a tela antes do fim do filme.
      Já eu aqui, tão looooonge do ápice da minha sabedoria emergente, muito apreciaria se você, em vez, lesse e comentasse. Porque penso que perder de vista uma opinião divergente da minha é empobrecedor. Se ela for correta, sou privado da oportunidade de mudar de ideia. Se, em vez, for falha perco a chance de presenciar a verdade batendo de frente com o equívoco. Finalmente, se as duas opiniões forem parcialmente válidas, o que geralmente acontece, perco a oportunidade de participar da fusão de duas verdades parciais, me distanciando de três das grandes metas humanas: o crescimento, o conhecimento e o consenso. Portanto se um dia você desistir de comentar meus artigos, não terá sido por eu ter lhe dado motivos.
      Abraço

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  14. Wilson Baptista Junior19/11/2017 10:17

    Moacir,
    como sei que virão ainda mais capítulos sobre Philomena, e já os conheço, não vou comentar agora o seu excelente artigo. Vou apenas adiantar que foi ao ver o filme pela primeira vez (porque já o vimos mais vezes depois :) que tomei conhecimento da terrível situação partilhada por tantas mães e por tantas crianças, e durante tanto tempo.
    Voltarei a comentar melhor ao final da série. Um abraço do Mano.

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    1. Moacir Pimentel19/11/2017 17:09

      Wilson,
      É claro que tendo lido e editado e ilustrado o conjunto dos delitos cometidos, a sua visão é diversa da do leitor. Então acho justa a matemática: um dos seus excelentes comentários a cada “franquia”. We have a deal! Quanto às garotas irlandesas, soube delas pelo outro filme mencionado no artigo , “Em Nome de Deus”, que assisti há mais de dez anos atrás. Desde então, tenho estado atento às ”madalenas” que têm merecido várias manchetes em The Guardian, jornal do qual sou um leitor vira-lata mas fiel (rsrs)
      Muito obrigado por suas boas palavras e um abraço.

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  15. Francisco Bendl21/11/2017 18:53

    Não é assim como dizes, quando escrevi que não comentaria mais as tuas postagens sobre Philomena, e dando o assunto por encerrado.

    Eu me referia quanto à possibilidade de os teus outros textos abordarem a Igreja, o governo, a crueldade com as mães, que, ao meu ver, Pimentel, são temas que fogem do filme e seu personagem central, então desnecessário os meus comentários, pois já me posicionei a respeito.

    Justamente por eu entender que, para seu diretor, a mensagem que deseja transmitir é outra, usando a história da mulher e seu filho adotado, porém tendo como pano de fundo a questão da Igreja Católica, classifiquei o filme de ruim, haja vista que se o autor quisesse discutir o papel da Igreja nessa questão, que usasse a quantidade de crianças que tiveram o destino do filho da Philomena, que são mais de dois mil bebês!

    Outra falha:
    Não existe a vida!!!
    Existe viver.

    Como seria a vida desta criança, se não fosse adotada?
    Teria tido a felicidade na sua existência, a ponto que era gay e vivia bem, sem problemas em expor a sua homossexualidade nos Estados Unidos?
    Ora, Philomena disse que sabia que ele seria gay desde quando nasceu, como que seria recebido naquele ambiente ortodoxo irlandês?
    O filme não abordou esta questão.

    Assim como fogem da discussão os repórteres que descobriram essas adoções absolutamente irregulares e os abortos mal feitos, que redundavam na morte até da mãe, sobre o futuro daqueles pequenos seres que foram levados por casais que se comprometeram a sustentá-los, educá-los e formá-los, e tiveram CHANCE PARA VIVER!

    O curioso no filme é que o menos importante é a criança!
    Como que viveu depois de separada da mãe não interessa!

    E, Philomena, se não tivesse perdido o filho ou que ele fosse lhe tirado à força não teria casado de novo e montado uma família para si, a ponto que somente 50 anos depois é que se lembrou de dizer que deixara um filho para trás!

    Mais:
    Saiu procurando a criança – nessas alturas um adulto e já morto! – com um jornalista ao seu lado e as mordomias que ela muito apreciava!
    A personagem central não folheou uma página de jornal ou qualquer informativo para descobrir onde seu filho se encontrava.

    Observa, então o deslocamento do objetivo principal, que seria a mãe e o filho dela sendo levado embora, e cujo resultado foi a vida boa que ela teve com o seu marido e dois filhos deste casamento e, da mesma forma, a existência plena que seu filho encontrou na adoção, ou seja, noves fora, zero.

    Pimentel, e, encerro, se depois desse resultado surgirem críticas à Igreja não me leves a mal, mas elas são injustas!

    Pois a preocupação com as crianças - se tivessem ficado com suas mães de que forma teriam vivido, certamente com extrema dificuldade, logo, o menino ou menina sofrendo, padecendo, tendo uma existência sofrível - NÃO INTERESSA, o negócio é cair de pau na Igreja!

    Um abraço.
    Saúde e paz.




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