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15/11/2017

O livre arbítrio

Annibale Carracci - A escolha de Hércules (1596) - Museu Nacional de Capodimonte

Francisco Bendl
Percebo que o assunto religião não deixa ninguém indiferente. Notadamente os fundamentos das argumentações são sempre de caráter individual, significando não existir um pensamento único sobre a questão:
Um Deus único e não todos com o seu Deus.
Mesmo os considerados crentes ou evangélicos divergem sobre o pecado, o perdão, o castigo, o céu e o inferno. A mensagem divina, os alertas messiânicos, as previsões sobre o futuro da humanidade, a nossa fragilidade, as exigências do Criador quanto às observâncias dos Mandamentos, levam a discussões intermináveis e sem definições a contento.
Discordo do conselho popular, que alerta sermos prudentes em não discutir política ou religião. Penso justamente ao contrário, que está na conversa (civilizada, educada e respeitosa) o esclarecimento sobre vários pontos duvidosos, inacreditáveis, irreconciliáveis, de modo a se buscar algumas conclusões importantes sobre um assunto tão grave e que tem conduzido o comportamento das pessoas ou para uma espécie de alienação espiritual ou para uma atividade religiosa, que descamba à separação entre membros da própria família!
Religião jamais poderia ser um fator de ódio, distinção, separação, distanciamento, rompimento, mas o oposto.
Entretanto, essas diferentes interpretações e comportamento sobre a crença escolhida – algumas caracterizadas pelas conveniências pessoais, poder político, proibição de se pensar de outra maneira que não seja a determinada por um líder espiritual, abrangência total sobre o fiel, obrigações impossíveis de se atender, exigências absurdas de comportamento, liturgias ultrapassadas, conceitos primitivos sobre opções divinas por este ou aquele - têm levado o ser humano para labirintos e armadilhas espirituais que tolhem a sua liberdade, criatividade, manifestações espontâneas de pessoas em busca de uma vida melhor, tendo em vista o medo da punição de Deus, o inferno como destino, o castigo eterno, que as fazem abandonar seus pensamentos à procura de maiores esclarecimentos sobre o próprio Deus e religião.
Ora, professar uma religião com a obrigação de se ter “fé”, caso contrário é o castigo como decorrência é falso, não é verdadeiro, certamente mais acarreta problemas que trazer soluções.
Tenho sessenta e oito anos, experiência considerável de vida, conheci milhares de pessoas.
Tenho uma família constituída, filhos formados em profissões liberais, incluindo a minha esposa.
Residi em várias cidades brasileiras: Brasília, São Paulo, Florianópolis, Curitiba, e trabalhei em outras: Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, além de Porto Alegre, claro. Esta vivência em outras regiões, o contato com outros modos e costumes diferentes do gaúcho, enriqueceram sobremaneira minhas ideias a respeito de vários temas, afora o crescimento e evolução naturais que as faixas etárias proporcionam, caso estejamos abertos às mudanças ou aperfeiçoamentos, lógico, que alinhavaram um sujeito aberto às questões religiosas, espirituais, e aceitando todas as crenças existentes e seguidores sem qualquer restrição, sejam eles católicos, evangélicos, protestantes, judeus, islâmicos, budistas, hinduístas, espíritas, anglicanos, taoístas, monoteístas, politeístas, muito respeito às seitas afro (sincretismo), que me possibilitaram rever posicionamentos passados e adotar com muita pretensão um pensamento quanto ao nascimento e vida do ser humano.
Sobre a morte e o que vem depois dela, se é que tem alguma coisa, na razão direta que aceito qualquer manifestação espiritual relacionada à questão ou o que dizem certas religiões, afirmo que não há ninguém que saiba algo definitivo sobre existir vida após a morte ou não, apenas especulações, a meu ver. O medo, o temor, o desconhecimento, nos impelem a aceitar o que nos dizem sem maiores reflexões e questionamentos, talvez por comodidade também.
Por eu ser um rebelde nato, atrevo-me a expandir meus pensamentos sobre o ser humano – não somente a respeito de religião -, mas abordando a forma de como entendo ser o nosso início e a nossa vida. O que podemos mudar e o que é imutável; a herança genética; o fardo que já trazemos de berço; a responsabilidade paterna e o verdadeiro livre arbítrio, na minha concepção.
Se eu ajudar a esclarecer algumas dúvidas, ótimo;
Se eu contribuir para mais dúvidas, melhor;
Se eu fortalecer a fé de algumas pessoas em suas religiões de adoção, maravilhoso;
Se eu possibilitar que pensem sobre essas questões e ideias e comecem a fomentar raciocínios próprios, esse é o nosso verdadeiro destino: questionar, duvidar, pensar.
Naturalmente que eu não estou sendo original em dizer que devemos pensar, relembrando a frase de um célebre filósofo no passado.
Na verdade, quero marcar a minha existência com meus pensamentos. Se ridículos ou não pouco importa; se carentes de base ou fundamento não vem ao caso; porém não quero ser um irresponsável que diz o que pensa sem maiores cuidados, mas não quero omiti-los, imaginando que alguém irá critica-los por isto ou aquilo ou eu me amedrontar pelo que vão dizer de mim.
A intenção é demonstrar o que penso sobre um assunto tão importante e não querer mudar ou transformar este ou aquele, muito menos abalar as convicções espirituais de cada um.
Meu desejo é que as pessoas explorem as cavernas de suas mentes e pensem, raciocinem, meditem, que não tenham medo.
A inteligência por mais ampla ou mais modesta é para ser usada, atiçada, provocada. Não fosse assim e não estaríamos desfrutando de grandes invenções e descobertas, que nos trazem conforto e a prova incontestável de pensamentos extraordinários realizados em obras memoráveis.
Logo, se analisarmos o homem e a mulher individualmente serão incompletos como seres humanos.
Não há geração de vida que se origine só do homem ou da mulher, isoladamente.
A junção de um casal dá origem a outra vida.
Portanto, somente o ser humano completo - homem e mulher - tem este poder de gerar uma nova vida naturalmente.
Desta forma, os responsáveis pelo nascimento daquela criança são seus pais, mais ninguém. Em consequência, aquele novo ser irá trazer consigo uma bagagem genética herdada de seus genitores, que lhe dará forma física saudável ou deficiente, feia ou bonita, alta ou baixa, gorda ou magra, além de contribuir à elaboração de um sistema mental que se desenvolverá mediante os ensinamentos e exemplos que seus pais lhe deixarão ao longo da existência, que serão de extrema importância e implicação à formação e comportamento desta pessoa.
Isto é imutável.
Trazemos de berço a identificação com quem nos gerou, mas como foi esta geração?
Tenho para mim que Deus não tem a menor ingerência sobre a vida do ser humano ( acredito em Deus).
Caso Deus agisse na vida individual das pessoas seria discriminatório, preconceituoso, e caso somente abençoasse quem lhe dedica fervor estaria declinando da imparcialidade que o pai precisa ter, mencionado de forma extraordinária na parábola do filho pródigo, no Novo Testamento.
Simplesmente um amor devotado a quem gerou mesmo que afastado, distante.
Deus não pode interferir nas relações humanas ou nossa história seria muito diferente, a começar pelas atrocidades que cometemos contra nós mesmos. O pai jamais permitiria que seus filhos se matassem desta forma. Se fosse preciso que ele, o pai, fosse imolado para trazer paz à sua família, amém, pois foi o responsável pelo nascimento daquelas vidas, mas não exterminar com a prole porque esta não lhe saiu como queria.
Justamente neste detalhe de fundamental importância, que é a condição que o homem e a mulher possuem de gerar outro ser explico o Livre Arbítrio, no meu entendimento e interpretação sobre esta condição que temos de PODER!
Ouço muitas pessoas falarem do livre arbítrio como uma espécie de liberdade para que optem entre fazer o bem ou o mal. Das minhas atitudes benignas ou malignas irei arcar com as consequências.
Respeitosamente isto não é livre arbítrio, e discordo veementemente desta definição venha de onde vier.
Simplesmente não posso ser punido por ser torcedor do Inter e não do Grêmio, se prefiro o vermelho ao azul.
Não posso ser julgado e condenado espiritual e fisicamente se fui constituído com limites, e porque o bem e o mal fazem parte do ser humano. Os defeitos que meus genitores me impregnaram me acompanham desde o nascimento, e como fizeram com eles os seus pais e assim por diante.
Não posso e não devo me penitenciar pelos defeitos dos que me geraram (sejam físicos e/ou morais), e que terei de carregá-los pelo resto da minha vida.
Fosse como dizem as religiões sobre os tributos divinos do perdão, amor e compaixão, a vida nova trazida para esta existência estaria isenta de deformações espirituais, morais e comportamentais. Deus não permitiria o nascimento de seres humanos que se transformariam em assassinos em série, ditadores desumanos, elementos perniciosos que prejudicariam a humanidade.
O ser humano é fruto do ser humano.
O livre arbítrio está na capacidade que homem e mulher têm de gerar outra vida e se PODIAM OU NÃO GERAR OUTRO SER!
Esta é a responsabilidade do ser humano. Este é o seu livre arbítrio, haja vista que dos seus atos irresponsáveis de poder e não de comportamento, que é muito diferente. Entretanto, o ato de fazer surgir uma nova vida, caso não tivessem condições necessárias para tamanho compromisso, os pais desta criança irão acarretar como consequência da sua decisão impensada a infelicidade para esta pessoa, conforme a bagagem hereditária extremamente difícil porque seus filhos foram meras decorrências de atitudes egoístas, de seres humanos que deveriam refletir sobre os desdobramentos dos seus gestos, ocasionado que outros pagarão e sofrerão pelos nossos erros.
Desnecessário eu dizer que as condições que me refiro à reprodução da espécie - afinal de contas não somos bichos, apesar de agirmos assim muitas vezes - não estão vinculadas tão somente ao aspecto econômico, mas igualmente moral, afora suportes extras à criação de filhos que exigirão dos pais a consciência que a vida não mais lhes pertencem, ela agora precisa ser canalizada à educação, ao sustento, à presença, ao amor, à dedicação, ao aprendizado, mas, principalmente, aos exemplos, que servirão como base à formação da personalidade e caráter dos filhos (e mesmo com esses cuidados e dedicação plenos que alguns pais conseguem transmitir e dar a seus filhos, ainda assim se tornam adultos com sérios desvios de comportamento e se tornam execráveis à sociedade, quanto mais não existindo tais pressupostos à formação das crianças).
Lamento, mas não acredito em intervenção divina em nosso sistema de vida limitado, imperfeito, tendencioso, passional, caso contrário Deus estaria sendo simplesmente igual a outro ser humano qualquer, com preferências, escolhas e simpatias.
Ao comerem do fruto extraído da árvore do Bem e do Mal que havia lhes sido proibido pelo Criador – assim é relatado através das Escrituras -, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. Ora, simplesmente uma simbologia à relação sexual.
Seriam, então, o Bem e o Mal, os filhos gerados com e sem maiores cuidados?
Lembro que Caim matou Abel, filhos dos excomungados. Esta seria a dicotomia humana? Tanto geramos filhos bons como maus, logo, a extrema necessidade de se pensar a respeito da maternidade e paternidade?
E se Deus de fato agiu desta maneira com os primeiros humanos que fizera por que permitiu – do alto de sua onipotência, onisciência – que o início da humanidade se formasse tão errado a ponto de exterminá-la quase por completo com o Dilúvio?
E se sabia de tudo previamente por que continuou a permitir que os homens se reproduzissem mesmo após o castigo das águas não ter adiantado muito que nos comportássemos e, mais uma vez, quase nos aniquila em Sodoma e Gomorra?
Tais punições seriam tão somente acidentes de percurso, que deveríamos enfrentar pelo caminho ou para que não perdêssemos a consciência também de que, além da responsabilidade que temos de gerar vida somos também responsáveis pelas suas mortes, e que estamos à mercê de acontecimentos extra-humanos?
A proibição de não comerem daquele fruto, ou melhor, de não se relacionarem e terem filhos não seria porque Ele não nos havia feito com qualidades suficientes para esta finalidade?
Se não foi desta maneira, e simplesmente nos abandonou à própria sorte foi sadismo, pura crueldade, ainda mais que Ele sabia antecipadamente – por ser Deus – o nosso futuro!
Ou, então, escapara das suas mãos ao nos criar – talvez tenha sido proposital também -, que a ÍNDOLE do ser humano seria transmitida pelo próprio ser humano, isto é, se bondosa, forte, má, fraca, destemida, corajosa, prudente, desafiadora, inventiva, autêntica, dissimulada, confiável, desconfiada, prepotente, orgulhosa, e tantas outras formas que moldam o indivíduo.
Se Deus deixou a construção deste arcabouço moral, intelectual e físico, que é repassado aos filhos através da concepção, e que vai tomando forma de acordo com a vida que lhes foi dada, exemplos deixados e atitudes de seus genitores como modelo, e também da sociedade que os cercam no consentimento ou recusa de comportamentos bons ou ruins, torna-se muito mais correto aceitar esta possibilidade e responsabilidade que nos é atribuída que acreditar que Deus permitisse tamanha diversidade de conduta entre os humanos para lhes cobrar, lá adiante, uma conduta irrepreensível de observâncias a normas e leis por Ele determinados, cujo julgamento será fatidicamente ou céu ou inferno, mesmo que Deus nos tenha criado limitados e imperfeitos!
Não é lógico.
Desta forma sou obrigado a acreditar na ironia do americano George Carlin (mencionado no livro “Deus um delírio” de Richard Dawkins, Companhia das Letras, cap.8, pág.360) que:
“A religião convenceu mesmo as pessoas de que existe um homem invisível – que mora no céu – que observa tudo o que você faz, a cada minuto do dia. E o homem invisível tem uma lista especial com dez coisas que ele não quer que você faça. E, se você fizer algumas dessas coisas, ele tem um lugar especial, cheio de fogo e fumaça, e de tortura e de angústia, para onde vai mandá-lo, para que você sofra e queime e sufoque e grite e chore para todo o sempre, até o fim dos tempos... Mas Ele ama você!”
Definitivamente não somos a obra mais importante de Deus. Fomos a sua ultima construção. Estamos sujeitos literalmente às intempéries, ao assombroso e descomunal universo e suas leis indiscutivelmente implacáveis.
Somos passageiros de terceira classe neste planeta que sequer nos respeita, muito menos obedece (basta olharmos as travessuras que fizemos contra esta nave espacial, que é a Terra, para constatarmos que estamos acabando nós mesmos com o nosso porvir).
A maior hecatombe da história da humanidade, que foi filmada, gravada e transmitida a todos os países do mundo, os tsunamis de 2004, que mataram mais de 250.000 pessoas entre homens, mulheres e crianças, exterminou plantas e animais foi castigo?
Foi carma?
Demonstração do poder divino?
Não há registros na Bíblia de milagres em série, mas de mortes aos milhares. Manifestação da “bondade” de Deus?
Quanto aos sofrimentos humanos, Ele demonstra alguma piedade?
Impediu alguma guerra?
A Bíblia mostra que Deus era chamado inclusive de Senhor dos Exércitos e, em algumas ocasiões, ensejou a morte de milhares de pessoas que para Ele não tinham valor, mereciam esse destino.
Recentemente, milhões de vidas perdidas nas duas grandes guerras teriam sido permitidas porque Deus não as entendia como valiosas ou por que os problemas ocasionados pelos humanos devem ser resolvidos pelos humanos?
Não é por nada que volta e meia alguém escreve um livro expondo as razões pelas quais se transformou em ateu.
E são livros bem escritos, mas fracos de conteúdos.
Baseiam-se em contradições humanas e não divinas (até porque tais escritores não saberiam nada a respeito dos aspectos celestiais, aliás, ninguém sabe).
Um deles, escrito por Richard Dawkins, “Deus um delírio”, tendo em vista que seu autor é biólogo, elegeu os estudos do Darwin, “Origem das Espécies”, para explicar o surgimento da humanidade.
Não discordo.
Cientificamente o inglês provou que seus estudos eram verdadeiros sobre a nossa evolução através de uma seleção natural, tanto humanos quanto aos irracionais e vegetais. Um trabalho brilhante, um dos mais importantes da história da humanidade.
Outro sujeito que se transformou em ateu foi o jornalista inglês, Christopher Hitchens, falecido em dezembro de 2015, que escreveu “deus não é Grande”(sic), acusando as religiões como uma espécie de veneno à humanidade porque culpadas de impedirem o desenvolvimento do ser humano.
Em outras palavras, ele passa a não acreditar em Deus por culpa dos homens que usaram as religiões para fins duvidosos, perniciosos, pessoais.
Também concordo com este jornalista.
O último livro que saiu abordando esta temática ateísta foi escrito por Bart D. Ehrman, “O problema com Deus”, criticando severamente a Bíblia sobre as respostas que ela não dá ao sofrimento humano.
Apoio este enfoque.
E, se concedo a minha aceitação sobre esses pensamentos, ressalto que estão confirmando o que digo a respeito de que reside em nós, os humanos, a solução para nossos problemas!
De nada adianta eu escrever abordando contradições ou interpretações diferentes que venho a ter do que dizem as Escrituras, se eu não melhoro as relações entre meus pares, se eu não os considero, se eu não me preocupar devidamente com aqueles que fui responsável pela suas vindas a este mundo.
Então, onde a diferença?
Por que não me transformei em ateu?
Acredito na existência de Deus que deu origem ao universo mesmo que tenha sido através do Big Bang porque do nada não sai nada. Alguém extremamente poderoso deu início às partículas que foram formando aquela massa gigantesca e que explodiu dando origem a tudo que se conhece hoje, e que vem evoluindo há bilhões de anos, mas não posso aceitar esse Deus que me ensinaram ao longo do tempo.
Nesse ente mitológico que, se eu não obedecê-lo, servi-lo e amá-lo serei condenado.
Não creio neste Deus que abençoa algumas pessoas em detrimento de outras porque as primeiras rezaram com mais fervor ou lhe tiveram mais medo ou porque seguem rituais tradicionais ou porque inovaram seus métodos de culto.
Acredito em Deus pelo poder que me foi dado entender a minha insignificância diante do universo, pois, paradoxalmente, esta minha pequenez como ser humano e ser incomparavelmente menor diante da grandiosidade do cosmo e impossibilidade de dimensioná-lo, somos os únicos – pelo menos até o presente momento – a gerar vida inteligente. Seres que irão ter consciência um dia que Deus não pode se intrometer em nosso sistema de vida sob pena de desequilibrá-lo e por ser impotente para tal.
Estou cometendo uma heresia?
Explico:
Conforme reza o Novo Testamento, qual foi a forma encontrada para que o filho de Deus nascesse?
Através de Maria, uma mulher, ser humano, que teve outros filhos.
O Criador não usou do barro para construir o seu herdeiro. Deus se revela neste episódio de suma importância para o esclarecimento do nosso surgimento, o seu limite escancarado, isto é, humanos geram humanos; humanos sofrem as consequências e padecem de sofrimentos por causa daqueles que trazem para este mundo sem maiores cuidados, sem uma análise responsável de suas verdadeiras capacidades de serem pais.
O sofrimento de Cristo não foi para nos perdoar dos nossos pecados ou as igrejas não estariam mais nos ameaçando com o inferno; espiritualistas ou partidários da reencarnação não teriam mais como argumentar o nascimento por este meio que se tornaria desnecessário à nossa evolução ou carma a cumprir ou Lei da Causa e Efeito, inócua, justamente porque Jesus já o cumprira por nós.
A reencarnação seria, então, sem sentido, menos a morte, que passaria a ter um grande significado porque nos mostraria que somos causadores (nós, os humanos) de grandes tragédias, de sofrimentos inenarráveis, e Deus não tem nada com isto!
O exemplo que deixou Jesus na condição de humano, exatamente como somos, foi o de transmitir a todos que, se quisermos podemos mudar as nossas vidas através de sentimentos que beneficiem a todos os seres humanos indistintamente: bondade, solidariedade, compaixão, amor, respeito, caridade.
Posso ficar rezando indefinidamente com a maior devoção e fé em qualquer igreja, mesquita, sinagoga, templo, tenha lá o nome que tiver essas casas de oração, pedindo que Deus mate a fome de uma só pessoa, e nada vai acontecer.
No entanto, se eu não rezar, mas tomar a iniciativa de comprar um pão e oferecê-lo a quem tem fome, contemplarei a necessidade de um semelhante sem a interferência divina.
Não podemos fugir à responsabilidade sobre nós mesmos.
Não podemos mais nos esconder na falsa fragilidade que temos perante Deus. Estamos à mercê dos poderes da natureza: tufões, maremotos, terremotos, chuvas torrenciais, secas, choque de cometa sobre a Terra, essas grandes catástrofes que ceifam a vida de milhares de pessoas instantaneamente.
Contraditória e paradoxalmente, de modo a compensar esta força inimaginável, destruímos a nós mesmos através de guerras fratricidas, matamos, estupramos, abandonamos nossos filhos, deixamos nossos pais de lado, provocamos sofrimentos sem fim.
Teria razão o extraordinário Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), ao dizer que:
“Para isto vieste: para a inutilidade do nascer”?!
Precisamos considerar que nosso crescimento como seres humanos está na razão direta do bem estar que proporcionamos às pessoas, e não na medida das nossas orações e devoção a Deus. Não há mérito na crença que adotei, se eu entendo meu semelhante como um “pecador”, por ele não comungar comigo da mesma religião, e se eu ainda me distanciar dessas pessoas e desejar que sejam punidas ou pensar que serão castigadas porque hereges ou descrentes de normas ou dogmas religiosos.
Nesse aspecto, o espiritismo é um exemplo a ser seguido porque não faz distinção de quem quer lhe frequentar os centros de passes ou estudos. Simplesmente estende para quem quiser seus ensinamentos e siga quem achar que deve, mas calcado na caridade e bondade.
Seus exemplos maiores de pessoas que contribuíram para amenizar um pouco o sofrimento alheio, Chico Xavier e atualmente Divaldo Pereira Franco, podem ter seus contestadores, os que não acreditam em nada do que pregam e dizem fazer, mas são modelos de vidas dedicadas ao bem dos outros.
No caso do Divaldo, um legítimo cavalheiro, um homem educadíssimo, a sua obra a Mansão do Caminho, em Salvador, BA, que reúne três mil pessoas, aproximadamente, sob seus cuidados de sustento, educação e profissão, deveria ser premiado com o Nobel da Paz e enaltecido pela ONU, mostrado pelas igrejas e seitas existentes como o exercício da caridade em sua excelência.
E não acredito em tudo que o Divaldo diz sobre o espiritismo, porém não posso deixar de elogiá-lo e reverenciá-lo, e reconhecer a sua dedicação e abnegação com o ser humano, independentemente da sua origem e o que virá a ser posteriormente.
Isto é amor.
Aonde está a dificuldade que temos em não seguir exemplos desta natureza – existem outros –, que iriam beneficiar a nossa existência e amenizá-la de maiores sofrimentos?
No egoísmo?
Na presunção e arrogância que a corrente espiritual do Divaldo vai de encontro a outras interpretações que não consta na Bíblia?
Mesmo o Divaldo fazendo o bem ele não serve como exemplo porque não pertence à “minha” religião?
Continuamos intolerantes, então?
E frequentamos as igrejas, sinagogas, mesquitas, templos para rezarmos a Deus e pedir proteção e graças?
Não percebemos a nossa contradição e mesquinhez, desrespeito e descaso alheios, ao agirmos desta maneira?
Será que ao maltratarmos as pessoas através de nossas maledicências e menosprezo, desinteresse e falta de compaixão não estaríamos ofendendo a Deus?
Não seríamos, neste caso, INIMIGOS de Deus ao considerar nossos semelhantes como tal por esta ou outra razão qualquer?
Rezamos para quê?
Vamos às casas de oração por quê?
Para confirmarmos nossa hipocrisia?
Mil vezes alguém que estende a mão a um necessitado, do que milhares de pessoas rezando sem fazerem nada ao próximo!
A verdade é que queremos um tipo de proteção para que possamos fazer o que bem entendemos.
Buscamos religiões que nos convém ou nos mostram diferentes da maioria ou porque queremos demonstrar que somos mais fiéis ou porque sabemos mais que os outros, mas sempre com o intuito de humilhar e desprezar o próximo, e somos tão filhos de Deus quanto qualquer um!
Claro que não foi o Deus que nos trouxe ao mundo foram nossos pais, nossos legítimos responsáveis e orientadores e provedores até o fim da vida. Entretanto, se a nossa origem é uma só e não importa como aconteceu o nosso surgimento, claro que compomos a obra da criação, portanto, considerar o semelhante e ajudá-lo quando precisar é obrigação nossa, e ela se torna muito maior quando são nossos filhos.
Eis o livre arbítrio para mim, o poder de decisão que me foi dado pela metade, que se completa quando outro ser humano, a mulher (estou falando na condição de homem), compartilhar comigo do mesmo desejo de ter filhos, diante da responsabilidade deste ato, em consequência.
Desta forma sou obrigado a mencionar a frase notável de François Jacob, Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia, em 1965, quando disse que:
“O ser vivo representa a execução de um plano, mas um plano que nenhuma inteligência concebeu. Ele tende para um fim, mas um fim que nenhuma vontade escolheu”
Desvirtuamo-nos de nossos maiores objetivos. Nossos valores se confundem com nossas conveniências. Nosso amor pela família está sendo substituído pelo conforto, pelos bens adquiridos ou, no caso contrário, pela extrema dificuldade de sobrevivência. Ambas as situações demonstram a falta de condições à geração de filhos, que irão sofrer e fazer sofrer outras pessoas pela nossa falta de responsabilidade e desprezo à importância que requer a paternidade e maternidade, lógico.
Muito fácil, e até ridiculamente infantil, que atribuamos ao demônio as nossas faltas, erros e omissões;
Que culpemos o diabo pelas nossas mazelas ou atitudes impensadas, violências e ofensas ao próximo ou a nós mesmos.
Pobre gente que acredita nesta simples alegoria, uma figura de contos da carochinha, mas com poderes mais sutis e eficientes para deturpar a vida das pessoas que o próprio Deus não consegue evitar! Uma excrescência religiosa, mera mistificação e vã tentativa do homem fugir à responsabilidade direta dos atos indignos que produz.
Causa-me perplexidade conversar com pessoas de boa formação cultural, dotadas de senso crítico – pelo menos aparente -, que acreditam na existência desse ser maligno, dessa estupidez inventada por pessoas espertas que se faziam e se fazem capazes de expulsá-las de corpos alheios para impressionar os demais. Nada que a psiquiatria não explique. Tolice escancarada. Uso abusivo de imagem que ainda amedronta incautos e medrosos, despreparados e primitivos espiritualmente.
Os profissionais das religiões pensam que precisam fazer crer na existência do anticristo não importando a forma que adotam, desde que eficaz.
O teatro, os gritos, os clamores, os temores, as súplicas, os agradecimentos pelas bênçãos alcançadas, os exorcismos coletivos, conduzem as pessoas para êxtases facilmente explicáveis, mas os profissionais do ramo muitas vezes são vítimas da própria eloquência e sucumbem às tentações do “demônio”, que eles mesmos criaram.
Os exemplos de líderes religiosos que se deixaram levar pelas artimanhas do “belzebu” existem às centenas.
Esquecem, no entanto, de enaltecer o ser humano; de valorizá-lo, incentivá-lo. No entanto, parece ser melhor negócio fragilizá-lo perante Deus; querem que sejamos pequenos, insignificantes, desprezíveis.
E deixam de levar em conta este nosso poder extraordinário que temos de fazer novas vidas, de trazê-las para este mundo, que podemos fazê-las sofrer, padecer, e continuar este sofrimento e padecimento ocasionados pelos filhos que tivemos porque não lhes demos o amor devido, a atenção necessária, a importância que mereciam!
Mas queremos que Deus se apiede de nós!
E não temos nenhum sentimento para com os outros, ao contrário, eles são aqueles que Deus irá castigá-los, pensamos cínica e hipocritamente.
Tu, homem, estás preparado para ser pai?
Tu, mulher, já pensaste na grandiosidade da maternidade?
Vocês estão em condições morais, culturais e materiais para terem filhos?
Possuem o amor necessário para se dedicar a eles?
Os futuros pais estão conscientes que serão os exemplos para as crianças que irão se espelhar nas suas vidas como futuro?
Se responderem sim a esses questionamentos vocês são pequenos deuses, estão outorgados daqueles poderes divinos de criação, e é exatamente para isso que estamos neste planeta:
PARA AMAR E SER AMADO!


13 comentários:

  1. 1)Salve Chicão, sim tb penso que nós somos deuses, como disse Jesus: "Vós sois deuses". A mesma frase se encontra no Livro dos Salmos.

    2)Somos, a meu ver, Deuses Criadores, pois estamos sempre criando e recriando os nossos mundos, as nossas vidas e os naturais desdobramentos positivos e negativos.

    3)Estávamos juntos com o Criador quando Ele criou o mundo, somos Co-Criadores.

    4)Por fim... D.E.U.S. = Deus É Um Sábio !

    5)Acertadamente vc disse que somos pequenos deuses... abraços ...

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  2. Francisco Bendl15/11/2017 10:46

    Rocha, meu amigo,

    Eu tinha a certeza que um dia iríamos nos entender.

    A minha proposição é enaltecer o ser humano, na razão direta da sua responsabilidade e compromisso com seus filhos.

    O poder que temos - homem e mulher - é tão absurdamente indescritível, de possibilitar que mais seres humanos habitem este planeta, que não imaginamos as consequências dessa atitude, e o que ela pode significar.

    Por exemplo:
    Hitler, Mao Tsé Tung, Stálin, Pol Pot ... como também Sócrates, Platão, Buda, Gandhi, Einstein, Newton, Euclides, Da Vinci ...

    Indiscutivelmente os pais desses personagens citados jamais imaginaram que seus filhos fossem o que foram, e no que se transformaram!

    Obrigado pelo comentário.

    Um forte abraço.
    Saúde e paz.

    ResponderExcluir
  3. Wilson Baptista Junior15/11/2017 17:33

    Chicão, teu artigo é deveras complexo e não tenho certeza de tê-lo entendido bem.
    O que ficou para mim, depois de lê-lo e relê-lo, é que fazes uma bem ponderada defesa de que o ato mais importante, de maiores consequências, do ser humano é a decisão de colocar ou não outro ser humano nesta terra.
    Posso facilmente concordar contigo quanto à importância dessa decisão, quando colocas como condicionante a capacidade de completar o ato da criação com a necessária formação que permita ao novo ser se encaminhar,de maneira positiva neste mundo, considerada esta maneira positiva como aquela que não faça mal a este mesmo mundo.
    Mas o que ficou nas entrelinhas é a discussão de se temos ou não livre arbítrio em nossas decisões uma vez que somos condicionados pela genética, pelo ambiente, pelas nossas experiências e pela nossa educação a decidirmos de uma maneira ou de outra em cada encruzilhada da vida. Até que ponto podemos dizer que fazemos alguma escolha de modo livre, e o que quer dizer este "livre" perante estes condicionamentos e estas circunstâncias?
    Em outras palavras, estamos ou não presos numa "Matrix" biológica e circunstancial, e podemos ou não nos libertarmos dela?
    Isso daria uma longuíssima conversa cujos fundamentos, na minha opinião, deveriam ser prosseguidos por você em complementação ao artigo de hoje.
    Um abraço do
    Mano

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  4. Francisco Bendl16/11/2017 06:35

    Caríssimo,

    Eis o legítimo e indiscutível paradoxo do Livre Arbítrio!

    A carga genética recebida, que nos condicionará para o resto da vida, nós que nascemos de nossos pais, evidentemente, e que será fundamental para que esse filho siga com a família ou interrompa seus descendentes, caso decidir.

    Captaste perfeitamente o que eu quis dizer que, se temos o poder de gerar novas vidas - o livre arbítrio, pois podemos declinar desta condição -, não só se torna imperiosa as análise materiais e morais, quanto ao legado deixado pela genética.

    Vou ser mais claro:
    Quando me casei, jamais pensei como que meus filhos seriam fisicamente - expectativa, que se iniciava à dúvida se nasceria guri ou guria - ainda mais quando fossem adultos.

    Claro que o sustento, a educação e formação acadêmica, inclusive, fizemos um pacto - eu e a esposa - de seguir à risca tais compromissos, mas não seriam determinantes à índole da criança!

    Logo, a decorrência do filho que vai nascer, além de levar dos pais a sua poderosa carga genética - alto, baixo, magro, gordo, feio, bonito - ainda acarretaria o célebre questionamento:
    Como que será esta criança mais tarde?

    A responsabilidade da paternidade extrapola a nossa compreensão, a verdade é esta, Wilson, em razão das implicações de se trazer um ser para este mundo significa.

    Justamente por essas situações que fogem ao nosso controle e à carga genética agregada, que citei os personagens acima, Hitler, Mao, Stálin, Pol Pot, Átila, o flagelo de Deus, assim como figuras históricas que fizeram a humanidade não só viver melhor como se desenvolver!

    Portanto, o Livre Arbítrio é a decisão que tomamos de ser ou não pais.

    E caberá àquela criança quando adulta decidir da mesma forma, considerando como se encontra como pessoa, se bem ou mal, então a "permissão" ética e moral para o casal - homem e mulher - ter seus filhos!

    Sobre a tua sugestão, de ser discutido em novo artigo essa complexidade que encontraste neste texto, acredito que ela deva ser feita entre aqueles que irão ler as minhas colocações e resolverem escrever a respeito.

    As respostas que darei - assim como estou fazendo neste momento contigo - servirão como debate à questão, a meu ver.

    Muito obrigado pelo comentário.

    Deves ter notado que gosto de temas polêmicos, que nos incentivem ao debate, à discussão, a pensar.

    Se estou errado, que me dizem onde e como: se não concordam com as minhas colocações, que apresentem as suas ideias; se entenderem o meu texto como algo absurdo e ridículo, que me apontem as razões para esta conclusão.

    Tu, me disseste que meus escritos são complexos, perfeito, sei disso, então a necessidade que, através dessas colocações e respostas e até mesmo tréplicas, a chance de um denominador comum, apesar de eu ter comigo que ser pai e/ou mãe, decididamente não existe maior responsabilidade, maior compromisso, MAIOR TESTE PARA O SER HUMANO COMO TAL!

    Um grande e forte abraço, meu caro.
    Saúde e paz.

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  5. Moacir Pimentel16/11/2017 09:53

    Bendl,
    Penso, de modo agnóstico, que o DNA da religião e os mecanismos psicológicos por trás da fé já moravam na mente do bicho homem ancestral e que evidências robustas atestam que foram os homens que inventaram os deuses e não o contrário há praí uns sessenta mil anos. Um aspecto central da crença religiosa - pelo menos historicamente - é o conceito de que os seres humanos são mais do que carne e ossos, que possuem uma essência ou alma infinita. Daí a prática já dos neandertais de sepultar os mortos equipados para uma vida além túmulo.
    Sucede que o cérebro humano, por um mecanismo de sobrevivência, foi programado para tentar explicar os acontecimentos ao seu redor, para achar um sentido lógico para tudo. Se e quando e sempre que isso é impossível, o danado conclui que um elemento "desconhecido" é o responsável. O cérebro humano tem a mania de preferir qualquer explicação à nenhuma, porque isso nos faz sentir mais seguros mesmo quando ela é oriunda de paragens para além do factual e do racional. Só que lá atrás a quantidade de coisas inexplicáveis e fora do nosso controle era imensa e então a crença de que os deuses poderiam intervir e ajudar deve ter sido muito benéfica para a saúde mental do bicho homem (rsrs)
    Também o amor, a reprodução, a necessidade de ter e de ser pais protetores, é instinto, um anexo reforçado fisiologicamente através da química do cérebro: pelo hormônio de nome ocitocina. É ele que faz com que um indivíduo se sinta atraído por uma mulher específica, que a deseje, que sinta vontade de ficar com ela, de estar próximo e lhe ser fiel, de cuidar dela e da prole. A tal da ocitocina é o hormônio do prazer, cuja produção é avassaladora e encharca nossos cérebros no início da relação, nos orgasmos, por ocasião do parto, na amamentação, ou seja, pelo tempo necessário para fazer, ter e desmamar um curumim, ocasião na qual a ocitocina se acalma. Penso que os humanos primordiais expandiram facilmente essa necessidade inata de apego e proteção para figuras de autoridade e poder de qualquer tipo, incluindo líderes religiosos e, é claro, os deuses, os super pais e mães, capazes de os proteger e cuidar deles nas situações mais adversas e até no além.
    Além dessas adaptações fisiológicas e psicológicas e neurais do bicho homem relacionadas à religião, ele desenvolveu a tal da empatia, essa notável capacidade mental de pensar sobre o que se passa nas mentes de outras pessoas e de criar e ensaiar interações complexas com outras criaturas invisíveis e até inexistentes, como nas artes, por exemplo. Num contexto mental que nos permite considerar o que outra pessoa faria no nosso lugar e vice versa, projetar cenários futuros, repetir eventos passados, criar narrativas, foi café pequeno para os avós da humanidade conjurar os deuses e rezar/conversar com eles.
    Mesmo o julgamento social avaliador, a moralidade, que alguns entendem nos ter sido imposta por deuses e/ou religiões, o senso de certo e errado, bom e mau, justo e injusto, podem ter sido apenas outras estratégias adaptativas que chegaram a nós por seleção natural e no inconsciente coletivo e que as religiões apenas sequestraram. Tivemos que exigir reciprocidade, ser ferozmente leais à tribo, um por todos e todos por um, conviver altruística e cooperativamente para dominar e modificar a natureza inóspita em nosso benefício. Era isso ou morrer faminto e congelado na caverna. Simples assim. É claro que nos acreditar especiais e filhos dos deuses também ajudou na questão da sobrevivência, afinal ninguém luta para se manter vivo se não tem valor. Da mesma forma foi vital pensar que os concorrentes e os estranhos eram os "bandidos" e “ pecadores” que nós éramos os “heróis” e os “justos”, principalmente quando havia pouco mamute para nos ajudar a atravessar um longo inverno.
    Continuo....

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  6. Moacir Pimentel16/11/2017 09:56

    Face ao exposto e finalmente abordando o tema livre arbítrio, que muitos cientistas e filósofos estão convencidos de que não existe, se tudo o que acontece é determinado pelo que aconteceu antes , se nossas ações são consequências inevitáveis dos eventos que nos levaram à ação, se é impossível para qualquer pessoa fazer qualquer coisa que seja verdadeiramente livre, se as nossas alegrias e dores, memórias e ambições, identidades pessoais e livres arbítrios, não são, de fato, mais do que o comportamento de uma vasta rede de células nervosas, se quem somos não é nada além de um pacote de neurônios, a pergunta é : quais são as consequências DISSO para a responsabilidade moral do homem em todos os seus variadíssimos papéis ?
    Abração

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    1. Francisco Bendl17/11/2017 08:12

      Respondo ao teu questionamento, Pimentel, e por etapas, pois na primeira postagem ela foi recusada porque ultrapassei o limite dos caracteres.

      Em princípio não entendo a moral ser posta de lado em certos momentos, principalmente pelo fato de termos várias ocupações, funções, pois nosso caráter e personalidade não podem estar liberados do domínio que temos de ter de nós mesmos, e que devem nos conduzir pela vida afora.

      Evidentemente que não somos livres, a começar que estamos retidos neste planeta.

      Se a bagagem hereditária mencionada nos molda a vida de certa forma, a bem da verdade o ser humano tem a sua própria índole, que independe deste nascimento, desta varga, e que será a sua mola mestra para vencer ou ser derrotado nesta vida, o eu comigo mesmo.

      Por outro lado, se a nossa vida está interligada com nossos ascendentes, ao encontrar a sua outra parte, a mulher, e se tornam um ser humano completo porque podem gerar filhos, trazendo consigo também a sua bagagem hereditária. Ao se encontrarem darão início a uma nova forma de existência, separando-se de seus antepassados e construindo a sua própria, com poucos resquícios dos avós maternos e paternos de ambos os lados.

      Observa que o Livre Arbítrio é justamente a mais importante decisão como ser humano – gerar outro ser humano -, logo, a separação da família que o trouxe para este mundo com uma pessoa absolutamente distinta elabora a sua história, cria a sua origem, o seu princípio.

      Ora, qual é o filho que vai se sentir confortável com um pai desmoralizado?
      Quais são os pais que vão gostar de ver seu filho acusado de crimes?

      Jamais a moral e a ética podem ser deixados de lado nas inúmeras versões do ser humano, significando que não somos, a meu ver, um simples pacote de neurônios, haja vista que o ser humano é muito mais emoção do que razão.
      E é justamente esta emoção quando acoplada à sensação que, dois corpos desnudos, ansiosos para fazer sexo, abandonam a racionalidade sobre a atitude tomada, e levados pelo desejo não pensam nas consequências.

      Decididamente um filho não pode ser consequência de um ato sexual, e cuja intenção foi o prazer tão somente.


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    2. Francisco Bendl17/11/2017 08:13

      Discordo veementemente, portanto, dos tais cientistas e filósofos que declaram não existir o Livre Arbítrio!
      Simplesmente não acreditam então na vontade, na determinação, exatamente quanto às repercussões que surgem a partir da notícia que a companheira está grávida, e o que acontecerá dali para frente!

      Os compromissos, as obrigações, a companhia permanente, o sustento, a formação escolar, a educação ... é tamanho o envolvimento dos pais que, mesmo assim, ainda podem ter gerado uma pessoa extremamente maligna ou bondosa, que contribuirá para o desenvolvimento da humanidade ou retardá-la.

      Os pais de Hitler o teriam feito se soubessem o que faria quando adulto?
      Os genitores de Stálin, Pol Pot, Átila, aprovariam os genocídios que ocasionaram?

      O Livre Arbítrio, portanto, é eu declinar do poder de ser pai ou não, em face da expectativa indescritível a respeito de como este filho vai se portar, no que vai se transformar, no que será como indivíduo.
      Paradoxalmente, se a vontade por sexo, antropologicamente explicado como preservação da espécie, eu decidir interromper esta minha participação nas ordens divinas, “CRESCEI E MULTIPLICAI-VOS”, estou decidindo não só o fim da humanidade – caso todos pensassem igual, lógico -, mas impedindo e, sem saber, se os meus filhos seriam bem lembrados pelos seus semelhantes ou amaldiçoados por eles, e talvez a redenção da humanidade!

      Queres maior responsabilidade do que esta?
      E aonde estão as correntes que me atrelam ao passado, de que não só não sou livre como inexiste o Livre Arbítrio?

      Olha só o que rompi para começar a minha descendência, e a ética e moral que deverei tê-las para servir de exemplo!

      Passo ser o senhor de criaturas que eu trouxe para este mundo!
      Que a minha influência como pai poderá ser decisiva à felicidade dos filhos!!

      Em outras palavras:
      Quanta coisa que deixamos de lado pelos filhos, e que gostaríamos de fazer ou ter?
      Quanta renúncia!
      E estou decidido a levar adiante esta conduta para que meus filhos vejam o quanto eu os amo, e o que faço para que sejam boas pessoas!!!

      Não podemos confundir o Livre Arbítrio com liberdade, muito diferente, pois mesmo preso à hereditariedade e a vida que meus pais me proporcionaram, posso mudar o curso da minha vida, da minha história, porém somente na condição de pai, cujo caminho será outro, haja vista que, agora, agregado a uma existência absolutamente fora dos meus ascendentes - a minha mulher - formaremos novas pessoas, cuja bagagem hereditária que eu e ela carregamos não será a mesma, porém uma outra, que teve início em mim e nela.

      E, quem sabe, se nessa descendência não surgir um Buda, Ghandi, um novo Platão, Da Vinci, um Senna, cujo poder detenho em parte, pois necessito da outra metade, que deverá consentir em ser mãe, ocasionando o rompimento com o passado de nossos ascendentes e que carregávamos antes da paternidade?


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    3. Francisco Bendl17/11/2017 08:14

      Quanto à moral, ela é de mim para mim mesmo, ou seja, eu ser o que sou para os outros, e não apenas uma aparência.
      Não tenho moral se sou um mentiroso, que não seria para os outros, mas eu não sendo verdadeiro comigo mesmo;
      Não tenho moral se sou um criminoso, que não seria para os outros, mas eu falhando comigo mesmo;
      Não tenho moral se não faço as minhas tarefas com a devida seriedade, que até pode ser para os outros ou quem me paga, mas eu não estaria sendo honesto comigo mesmo;
      Não tenho moral se traio a confiança da esposa, que pode afetá-la, mas estarei traindo a mim mesmo;
      Não tenho moral se não dou a devida atenção ao crescimento dos meus filhos, que pode ser decisivo às suas formações, mas eu estaria ocasionado a minha inferioridade;
      Não tenho moral se eu não seguir as regras impostas pela sociedade porque civilizada, que não afligiria somente as pessoas que atingi, mas redundaria que não estou pronto adequadamente para viver com elas;
      Não tenho moral se eu matar alguém, salvo raríssimas exceções, pois o poder que possuo é de gerar filhos, menos eliminar vidas;
      Não tenho moral se eu roubar, que pode me beneficiar em um primeiro momento, mas serei julgado e condenado pela minha consciência, que me acusará permanentemente de pernicioso, nefasto, lesivo à humanidade;
      Não tenho moral se, em nome de uma pretensa ideologia, eu possibilitar o confronto, a guerra entre as pessoas, cujo resultado invariavelmente será o desaparecimento de milhares, milhões de outros seres humanos;
      Não tenho moral se, na minha função em cargo público eu não cumpri-la atendendo justamente quem espera pelas minhas decisões, que além de prejudicá-las estarei lesando a mim mesmo pela omissão e irresponsabilidade de não ter feito o que eu poderia.

      Logo, Moral e Livre Arbítrio estão permanentemente unidos, indissociáveis.

      Enfim, nessas infinitas variáveis do ser humano, Pimentel, a minha moral precisa estar compondo essa miscelânea do meu próprio ser, então o Livre Arbítrio, de ou eu ser o que sou para mim e demais pessoas ou, então, sucumbirei às tentações do meu egoísmo, e perderei a moral que devo ter e manter em face do poder que tenho de decidir e ser LIVRE para esta decisão, de fazer o que devo e não o que quero, de fazer as minhas obrigações e não deixá-las de lado.

      Ser pai é tão indescritivelmente poderoso, tão avassalador tanto comigo quanto por aquele que trarei para este mundo, que aquele ser será a minha representação, o que sou, o que fui, o que eu gostaria de ter sido e o que eu detestaria ter sido, a minha frustração e felicidade, o meu compromisso com a Natureza, com a moral e a ética, absolutamente impossíveis de serem desconsideradas, e que estão umbilicalmente agregadas desde que me trouxeram para este planeta nos confins do Universo.

      Queres uma curiosidade?

      Apenas um gameta dos milhões expelidos, se fundirá com o óvulo que o espera na corrida que fazem para esta função!
      Os outros que foram derrotados nesta competição não poderiam ter sido ou a pessoa que imaginamos para nossos filhos ou o que jamais iríamos querer que fosse?

      Quem determina qual será o vencedor dos milhões de competidores?
      E por que justamente aquele?!

      Justamente por essas perguntas sem respostas, Pimentel, que abomino os conceitos absolutos sobre o homem.
      Não aceito e não admito que cientistas e filósofos digam que o Livre Arbítrio não existe ou a moral também não existiria como pressuposto de uma existência pelo menos mantida em padrões aceitáveis, de respeito ao próximo, no mínimo.
      Certamente a questão que envolve tais convicções são epistemológicas, compreende a possibilidade do conhecimento, ou seja, se é possível o ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno, e da origem do conhecimento, simples teoria.

      Um grande abraço.
      Saúde e paz.





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  7. Amigo Francisco,
    Ufa!
    Até mais.

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  8. Francisco Bendl16/11/2017 21:24

    Caríssima amiga dissidente, Ana,

    Afora o teu talento para escrever, tens também o da síntese!

    Levei meses para chegar às conclusões apresentadas, e tu consegues em três letras explicar as minhas milhares de palavras!

    Eu também acho que é para tirar o fôlego de quem lê e, das duas uma:
    Ou de raiva pelo tempo perdido ou, então, por não ter encontrado nenhuma razão pelo que escrevi.

    Neste sentido, a minha resposta ao Pimentel também foi longa, pois não está postada ainda, significando que o Mano deve estar uma fera comigo!

    Prometo que o meu próximo artigo será bem mais ameno:
    A Exegese da Economia Afegã.

    Um grande abraço, Aninha.
    Obrigado pelo comentário lacônico, mas que significou muito esta tua expressão, haja vista ter sido verdadeira, legítima.
    Saúde e paz, extensivo aos teus amados.

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  9. Olá Dissidente,
    Ufa porque também foi pesado, cheio de coisas para pensar e pensar. Os comentários também. Então ufa...

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  10. Francisco Bendl17/11/2017 13:15

    Aninha,

    A proposta é esta, pensar, e muito.

    Evidente que o recado que quero transmitir é da suprema e intransferível realidade quanto a ser pai, o envolvimento que somos obrigados a ter quando, juntos com a companheira, decidimos trazer uma vida para este mundo.

    Não é sopa essa incumbência da paternidade, que vem tendo por parte do homaredo um comportamento tão criminosamente omisso e irresponsável pelo abandono de seus filhos, havendo naturalmente pais honrados e decentes.

    Obrigado por mais este comentário.

    Outro abraço.
    Mais saúde e mais paz.

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