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11/11/2017

Uma Crítica da Empatia

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Moacir Pimentel
Sempre pensei que a identificação com o sofrimento alheio fosse o principal impulso para a solidariedade. Aos quatorze anos, nas noites de sexta-feira, eu já fazia a Ronda numa kombi velha distribuindo pão e café quente e cobertores aos sem tetos pelas ruas da minha cidade e continuo convicto de que se quisermos fazer a mudança do solipsismo para a consciência coletiva é claro que precisamos de empatia.
Sem empatia, sobra intolerância, bullying, violência. Sem gastar um segundo imaginando como o outro se sente, de onde vem, em qual contexto foi criado, as circunstâncias às quais foi exposto, sem lembrar que cada um tem sua história e sem tentar entender como é estar na pele do outro, surgem os crimes de ódio, os preconceitos, as discussões acaloradas nas redes sociais, o fim de amizades de uma vida toda. É preciso ter empatia para aprender que não existe verdade absoluta, que tudo depende do ponto de vista.
Porém além do fato de que, como sabemos, “toda unanimidade é burra”, e de que nada nessa vida está acima da crítica construtiva, considerei ser preciso desanuviar na minha mente a confusão entre empatia e compaixão racional.
A empatia, como tudo na vida – notadamente se administrada na base do oito ou oitenta – poderá ser uma inimiga em vez de uma aliada no projeto humano evolutivo. Há que pensar se os sentimentos empáticos não deveriam ser fortificados por uma posição moral racional prévia e, em seguida, por ações adequadas.
A pergunta é: a empatia é o melhor fundamento da moral? Há controvérsia! E muitos argumentos contra a empatia enquanto motivador confiável para o comportamento moral.
Para começo de conversa muito se pode aprender e evoluir a partir de toda essa educação empática dinamarquesa, por óbvio, mas ela não deveria ser importada do seu país de origem e aplicada em outras praias sem ponderação e adaptações aos novos entornos. Em segundo lugar e mesmo ciente do quanto ela é calorosa, Dona Empatia é tão brilhante que funciona também como um grande farol de advertência me dizendo que é preciso dar um passo atrás e aprender a gerenciar essa habilidade antes de passar a usá-la como se não houvesse outro amanhã. Lembre-se de que a diferença entre o veneno e o remédio mora na dose.
Pois a empatia como lei levada ao pé da letra pode tornar-se algo inconsistente e tendencioso, pode estreitar-se dentro de práticas paroquiais, pode resultar em desvios comportamentais e nos empurrar para a inação na melhor e para a violência na pior das hipóteses.
Para começo de conversa, devo confessar que muito estranhei no aprendizado empático das crianças dinamarquesas, a arrumação das carteiras escolares para facilitar o tal do “aprendizado compartilhado”. Pudera!
Esse modus operandi foi para mim uma grande novidade. Nos meus tempos de estudante as “bancas” eram arrumadas em linhas retas, exceto quando dos trabalhos de grupo. Eu sabia onde era o meu lugar e ele não variava ao longo do ano. Olhar para a prova de outro colega se chamava “colar” e falar com alguém à direita ou à esquerda “para ajudá-lo” não era uma atitude muito inteligente.
A menos que fosse um projeto específico, cada um fazia o seu próprio trabalho e deixava que os outros se fizessem os deles. Os mais espertos e estudiosos eram os primeiros da classe, quem não sabia não se dava bem ou passava de ano. Assim era na escola e na vida. Acompanhando o documentário sobre a interação das crianças nas escolas dinamarquesas, não pude deixar de me perguntar diante de tamanha sociabilidade:
Mas e a privacidade dos pirralhos?
Sim pois quem ainda se lembra de como foi ser filho e sabe o que é ser pai sabe que as crianças têm necessidade de privacidade e que ela é crescente em função da percepção de que são uma entre muitas pessoas. Como os pequenos não nascem capazes de distinguir entre si e os outros, há que trabalhar-lhes tanto o desenvolvimento da identidade quanto a percepção de que outras pessoas são seres separados delas, com necessidades e pontos de vista muito diferentes.
A necessidade de privacidade das crianças é algo muito sério e à medida que elas crescem e cada vez mais apreciam os outros humanos circundantes, nelas também aumenta a necessidade de manter suas coisas secretas dessas outras pessoas. Sou de opinião que os pequenos necessitam não apenas de participar de uma variedade de grupos sociais e de aprender a agir como membros deles mas de neles estarem conscientes de si mesmos e de se posicionarem como indivíduos. Para tanto precisam ter seu próprio espaço privado.
Isso significa um quarto para chamar de seu e, caso a família não tenha recursos para tanto, um armário, uma banca, uma mesinha, uma gaveta, um caderno, locais pessoais e privados e sob seu próprio controle que devem ser respeitados. Tais esconderijos são entendidos pelas crianças - e pelos adultos que têm juízo! - como extensões de si mesmas. Invadir desnecessáriamente o espaço privado de uma criança a faz se sentir invadida. Fiquei com a impressão de que nas salas de aula dinamarquesas a privacidade e – quem sabe? – a individualidade inexistem ou que, pelo menos, não são valorizadas num clima de “tudo pelo social”. Tem mais.
No meu tempo se acreditava em competição. E, enquanto eu assistia a reportagem sobre a metodologia educacional dinamarquesa, não pude deixar de pensar se os prezados dinamarqueses não estariam obliterando da vida escolar a concorrência e se tal ausência seria realmente benéfica para a meninada.
A maioria de nós foi criada para acreditar que, sem concorrência, nos tornaríamos preguiçosos e medíocres e que a competição saudável, em vez, nos inspiraria a fazer o nosso melhor e não apenas o suficiente. Então sempre acreditei que quando os humanos competem e mais, aprendem a competir, eles estão se preparando para candidatar-se à vida, à faculdade, à um emprego e nele às promoções e por aí vai.
Ainda sou de opinião que a competição muito ensina, se e quando ganhar não é o objetivo único ou primário, e as crianças conseguem aprender sobre si mesmas em situações desafiadoras. Nessas circunstâncias, a competição pode dar lições inestimáveis que ninguém aprende em sala de aula.
Ganhar e perder e tratar os adversários com dignidade e respeito são ótimas lições. Descobrir que o fracasso não tira pedaço e que perder não acaba com autoestima de ninguém é uma maravilha e aprender a arriscar calculadamente é fundamental. Ao competir aprendemos a pensar criticamente, a tomar decisões e a resolver problemas. Sem essas capacidades, quem vai para frente?
Só faz bem, por exemplo, ter adversários e não inimigos e, em vez de querer “se vingar deles” da próxima vez, felicitá-los por terem merecidamente vencido. E é melhor ainda quando vencemos e sentimos aquela energia positiva de saber que demos duro e nos superamos e que o outro lado não nos deu moleza. Então eu acredito que a competição pode ajudar imensamente no processo de aprendizagem. Mas os dinamarqueses discordam.
E eu discordo deles ao pensar que se pode, sim senhores, fazer o bem e ter e praticar um código moral sem empatia, através do exercício da pura lógica. Meu exemplo favorito disso é a “regra de ouro” da cultura e das religiões ocidentais:
“Trate os outros da maneira que você deseja que eles o tratem”.
Não é preciso nenhum exercício de emoção para perceber que, se todos seguissem essa regra e confiassem em seus princípios e em um bom cálculo de custos e benefícios o mundo seria, em certa medida, mais justo e imparcial e se tornaria melhor para todos.
Nossa tendência intuitiva de sentir o que imaginamos que outra pessoa sente pode sim melhorar nossos relacionamentos pessoais, motivar a caridade e encorajar comportamentos solidários e pró-sociais. É consenso geral que a empatia é crucial para ser uma boa pessoa. Mas paralelamente a tudo isso defendo o valor do raciocínio consciente e deliberativo no cotidiano, argumentando que devemos nos esforçar para usar nossas cabeças e nossos corações, para praticar virtudes como a polidez e a compaixão, para nos preocuparmos com os nossos e os outros, mas sem necessariamente mergulhar de cabeça nos seus sentimentos.
Não me entenda mal. Não se trata de descartar a empatia mas de nos comprometermos a praticá-la mais deliberadamente e racionalmente com mais frequência em relação àqueles que não são apenas diferentes, mas que chegam a desafiar algumas de nossas próprias e profundas certezas.
Não duvido que a empatia leve a maiores compreensão e prazer na arte, por exemplo, que ela é um aspecto valioso dos relacionamentos e que pode motivar um comportamento generoso e criar sociedades mais humanas. Mas muita gente boa refuta a noção generalizada de que a empatia é tudo o que é necessário para que possamos nos tornar pessoas mais morais até porque, às vezes, é preciso apenas uma mudança sutil no contexto para que nossas prioridades empáticas mudem.
A verdadeira empatia deve ser bem mais do uma resposta emocional, muitas vezes irracional, que atua no reino dos nossos “favoritos”, cativados que somos facilmente por histórias individuais e entorpecidos que permanecemos diante de, por exemplo, as estatísticas. A empatia em excesso pode vir a ser um mecanismo de escolha pouco isento e um conselheiro escorregadio e não pode nem deve substituir uma necessária análise racional – e talvez mesmo não empática - dos fatos e de suas prováveis consequências nem atropelar valores morais no planejamento do futuro.
É tão fácil ser tomado pela emoção, ser intoxicado por sensações e dizer que estamos nos primórdios de uma Era da Empatia e treinar a todos para que se adaptem a uma nova onda de paz e amor. Nesse processo algo importante pode estar sendo perdido. O amor nem sempre barra o ódio no baile, não importa o que digam, e nada substitui o argumento fundamentado. Não se pode sentir apenas. Usar o cérebro e pensar também é da natureza humana.
Assim, acredito que overdoses de empatia podem conduzir às idiotias do politicamente correto e prefiro experimentá-la no modelo light: uma bruma clara que mistura compaixão e estranheza serena, curiosidade e acolhimento, lealdade e distanciamento, que eu desenvolvi por precisão e não por boniteza.
Para mim empatia é também cognição, percepção, racionalidade pura. É a consciência dos sentimentos e emoções de outras pessoas. Considero complicado dar às relações adultas cognitivas tintas emocionais e evolui-las para uma pieguice chamada de simpatia empática, que seria a lírica tentativa de projetar em nossos corações as experiências de outras pessoas e de em seguida, por elas passar a sentir preocupação, benevolência, compaixão e por aí vai. Para quê? De que adianta sofrer a dor do mundo e contra ela não mover uma palha?
Discordo do raciocínio de quem pede urgentemente por mais deliberação e cálculo - a mente sobre o coração - e defende que a empatia terá que ceder à razão se a humanidade quiser ter um futuro. Não se trata disso. Mas acredito que a empatia e a razão não só podem como devem caminhar juntas.
Talvez porque não entendo a empatia como uma resposta exclusivamente emocional e reativa ao sofrimento alheio e percebo que há muitas ações indiscutivelmente morais que não têm nada a ver com empatia ou mesmo com a simpatia como, por exemplo, pagar impostos, não comprar produtos falsificados e recolher lixo na praia que, apesar de não serem atividades glamourosas, derivam de uma percepção racional do que é melhor para o bem geral.
Penso que devemos perseguir uma empatia cognitiva que se trata simplesmente de imaginar por que você é diferente de mim e entender que, de sê-lo, também tem prioridades e preferências e toma decisões diferentes das minhas. Esse tipo de abordagem e/ou de perspectiva exige que escutemos e pensemos cuidadosamente e não que o façamos com o fígado e com reações desinformadas e intestinais.
Empatizar, para muita gente boa, tem a ver com a raiva. Tudo bem que expressar raiva diminui os níveis de cortisol no sangue e a raiva focada tem sido um catalisador de mudanças positivas e não me deixam mentir todas as canções de protesto dos anos oitenta (rsrs) A raiva contra as mazelas do mundo mora no coração dos direitos humanos e civis e das conquistas feministas e sobre as sepulturas de muitas outras injustiças que já afligiram a humanidade inclusive a escravidão.
Porém antes de empatizar com quem quer que seja, cuidemos de nós. Nossa empatia deve expressar a consciência, o altruísmo, a compreensão e a compaixão e não a agressão, pois acrescentar o nosso ao sofrimento alheio nem muda o mundo nem ajuda ninguém. Como já aprendemos com o Antonioji:
“Zangar-se é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, no momento certo e da forma certa, não é fácil”.
É preciso delimitar as fronteiras entre as empatias emocional e cognitiva. Resumidamente, na primeira se sente literalmente o que outro está experimentando, enquanto que a última implica simpatizar com o outro, entender o que está acontecendo com ele sem necessariamente passar pelo mesmo turbilhão emocional.
Note que tais emoções são sentimentos, estados do corpo, os resultados de várias subidas e quedas de hormônios e produtos químicos que nos afastam inclusive do equilíbrio do organismo até que acabam por se transformar em pensamentos através do processo cognitivo. Em seguida, associamos o sentimento à pessoa ou ao evento que o provocou e o separamos de sua causa.
Quando a empatia rola de um outro jeito e por outros extremados caminhos e continuamos sentindo a dor e o sofrimento dos outros vale questionar se ela não se transforma em algo além de doentio, egoísta. Em vez de atuarmos como um canal para que nossos amigos e confidentes possam se livrar de suas emoções, nós em vez as duplicamos, viramos nosso próprio tema, sofremos com os problemas deles e com os nossos e ninguém limpa a bagunça ou arruma as “casinhas”.
De repente, também vale a pena nos questionar se quem precisa de empatia deseja que lhe clonemos os sentimentos. Ou seja, suponha que você procure alguém em quem confia em busca de ajuda, ansioso, confuso, deprimido, desesperançado. Você ia querer que essa pessoa entendesse os seus problemas e o ajudasse na medida do possível ou que também ficasse mal e ansiosa, que também mergulhasse empaticamente nas suas confusão e depressão e que chorasse ao seu lado? Presumivelmente não. Você desejaria que o seu amigo ficasse calmo e lúcido, que o animasse e ajudasse a colocar as coisas em perspectiva.
Ser capaz de sentir a dor alheia não é, necessariamente, o melhor gatilho para uma ação eficiente e eficaz nem de uma resposta moral efetiva. A empatia como entendida pela maioria faria com que um terapeuta que tratasse um deprimido também terminasse deprimido e não é isso o que acontece mas sim comprensão e talvez compaixão, mas sem refletir a depressão do paciente. Sou de opinião que um médico que fosse verdadeira e completamente empático diante do sofrimento humano, simplesmente enlouqueceria em vez de salvar vidas.
É claro que precisamos de mais empatia - não de menos - em tudo, das nossas relações pessoais à política. Vivemos em uma era de conectividade global e de mudanças rápidas sem precedentes e a empatia pode nos ajudar a navegar nesse mundo mais compassiva e inteligentemente sem colidir tanto com os outros.
Em nossos esforços para resolver problemas sociais difíceis confiamos muito em razão e números e muitas vezes não basta sem empatia. E, novamente, por empatia não quero dizer apenas as nossas emoções, e certamente não quero dizer sentir pena. Quero dizer a capacidade de compreender verdadeiramente a perspectiva dos outros e usar esse entendimento para orientar nossas ações. Assim definida e concebida, a empatia é sim um complemento poderoso para a razão.
É preciso repetir que empatizar não é um verbo fácil de ser conjugado e o mais provável é que o pratiquemos com aqueles que se parecem e pensam como nós. Com certeza mesmo as criançinhas dinamarquesas de cérebros mega treinados empaticamente demostrarão menos empatia se a pessoa que observam sofrendo pertence a uma tribo diferentes da sua. Sim, a empatia é tribalista.
É inútil tentar sentir mais empatia pelos “bárbaros” e menos pelas pessoas que fazem parte da nossa cultura, ou de nosso país, estado, cidade, bairro e rua, família, trabalho ou tchurmas de blog, praia e bar e time de futebol, daqueles que compartilham nossa cor e idioma. Esse é um fato terrível da vida, é da natureza humana, e ele opera em um nível subconsciente. Da mesma forma é apenas humano sentir empatia por quem é vulnerável, bom, e bonito em vez de por gente antipática, repulsiva, maçante ou assustadora. Independentemente de quem tenha razão.
Empatizar demasiadamente pode não contribuir para práticas virtuosas. Como assim? Tentemos imaginar objetivamente uma lista para transplante de coração na qual se encontram várias crianças. É claro que todos nós nela priorizaríamos a equidade, os direitos iguais. Avaliaríamos a priori que as crianças que estão esperando há mais tempo devem ser operadas primeiro desde que, é claro, os riscos para a saúde e as chances de sobrevivência de todas elas fossem os mesmos. Muito bem.
Agora imagine se você tivesse assistido na televisão uma entrevista com uma das crianças – digamos a Mariazinha! – tão bonita e meiga e valente falando da sua vidinha e sonhos, da família e amigos, das dores que sentia, da esperança de cura e da angústia da espera pois sua condição poderá ser revertida sim, mas ela está lááááá embaixo na tal lista de espera.
Depois de toda essa empatia, tente ver o mesmo cenário novamente, a mesma fila, só que desta vez, emocionalmente conectado com a Mariazinha. Se você tivesse a opção de movê-la para o topo da lista, mesmo que isso significasse que as outras crianças que estavam acima dela devido à ordem de chegada teriam que aguardar mais tempo, você priorizaria a cirurgia da Mariazinha?
Provavelmente sim e este é o cerne do problema com a empatia: primeiro ser ela uma luz que brilha em indivíduos e funciona entre indivíduos e mais, atua como se estivéssemos utilizando uma máquina fotográfica com zoom e cujo flash tendencioso só iluminasse bem o “relacionamento” para onde o apontamos.
Por isso a empatia é considerada por muitos como uma metodologia duvidosa quando se lida com questões importantes que podem impactar as vidas de centenas ou milhares de pessoas, em causas que não têm uma vítima única identificável ou possuem vítimas que, por qualquer motivo, não são capazes de provocar nossa empatia.
O segundo problema da empatia é que a danada não é boa em matemática. A empatia nos aproxima, sim, mas não entende a diferença entre um e cem ou um e mil. É por isso que, muitas vezes, nos preocupamos mais com uma única situação – a pobre família daquele menino cujo corpinho afogado foi recolhido numa praia européia - do que com toda a população da Síria.
Quem é contra a empatia, por mais bem intencionada que seja, argumenta que ela é uma cartilha rasa para o raciocínio moral. Pior, jura de pés juntos que, na medida em que os indivíduos e as sociedades fazem julgamentos éticos com base na empatia, elas tornam-se menos sensíveis ao sofrimento de um número cada vez maior de pessoas.
Só que empatizar demasiadamente com os diversos, as minorias e os underdogs também pode nos levar a ser irracionalmente crueis para com outros – veja o caso dos judeus versus os palestinos - e não está fora de questão que, uma vez manipuladas – pela política, por exemplo, ou pelos pregadores - as nossas emoções empáticas possam se transformar em agressões, injustiças e até em culpas doidas de pedra e, por fim, até mesmo desequilíbrios mentais.
Como foi o caso do cidadão nórdico da gema de nome Karsten Hauken que se sentiu culpado e deprimido pelo fato de ter denunciado o refugiado somali que o assaltara, espancara e estuprara. Sucede que o marginal além de cumprir quatro anos de prisão, ao fim e ao cabo, terminou sendo deportado, fato que na opinião do empático Hauken, fora um castigo grande demais. Na ditadura ou na idiotia do politicamente correto é pergunta dele foi: afinal quem merece viver na Somália? Quando a pergunta correta seria: e aqui quem merece ser estuprado?
No domínio moral se não tomarmos cuidado a empatia nos desviará se perdermos de vista a razão, na bendita compaixão e no cuidado com os outros menos favorecidos que nós. Consigo imaginar assustado um monte de preconceitos e decisões judiciais “empaticamente” injustos.
Enquanto ninguém duvida que a empatia é uma fonte maravilhosa de prazer pois, por exemplo, é central para a prática do sexo e a alegria da ficção desapareceria se não pudéssemos simpatizar com os personagens, penso que, como tudo nessa vida, a empatia não é “tudo bom” em um sentido geral e que há sim uma outra percepção da empatia que é mais estreita e que tem a ver com a compreensão de outras pessoas. Eu acho que entender as pessoas é importante, mas não é necessariamente uma força só para o bem. Pode também ser um primeiro movimento em direção ao mal.
De fato, a capacidade de intuir os sentimentos de outros pode ser uma ajuda para comportamentos morais duvidosos. É difícil imaginar que a empatia seja qualquer coisa menos que benéfica, bem sei, pois na era da neurociência esse estado mental que, se tudo correr bem, nos faz estender a mão de forma altruísta ou compassiva, é mais do que defendido.
Mas essa altura do post eu me recordo de que no dia em que lemos pela primeira vez a história da Chapeuzinho Vermelho e do Lobo Mau para nossos filhos deixamos beeem claro para todos eles que na real tinha assim...ó...de “homens maus”. Pois o mal existe e as crianças precisam aprender a se defender dele em vez de tentar “empatizar” com quem o pratica.
A história da nossa espécie nos esclarece que sem empatia não teria havido evolução, pois é a danada que nos faz prever as ações de outras pessoas, fato que nos possibilita sair à frente em situações complicadas - sejam amorosas, profissionais ou sociais. Eu percebo, portanto, a empatia como uma ferramenta, como um GPS e reconheço-lhe uma característica egoísta.
Não saber como pensam ou sentem as criaturas com quem lidamos é suicídio. Tipo assim, como atravessar de olhos vendados uma avenida mega movimentada. Pode apostar que, mais cedo ou mais tarde a realidade vai bater em você e que ela vai... doer!
Todos concordam que para funcionar emocionalmente e socialmente temos que entender os outros: não se pode fazer uma mulher ou um filho feliz se não os entendemos nem comprar um presente de aniversário que agrade seu destinatário se não o conhecemos.
Agora, também é necessário o entendimento daqueles que se quer conquistar, seduzir, iludir, ludribiar e arruinar. Logo a compreensão do outro me parece ser uma condição necessária para fazer tanto o bem quanto o mal. Sentir a dor alheia pode ser... um perigo!
Os jogadores de xadrez fazem o jogo empático o tempo todo, por exemplo. Eles tentam entrar nas cabeças uns dos outros, não para ajudar o outro, mas para vencê-lo. Também os psicopatas são como jogadores de xadrez que consideram as pessoas como seus peões. Alguns deles entendem suas vítimas, sabem o que elas querem, do que gostam mas não se importam e causam muita dor e sofrimento sem nem piscar.
Uma baixa pontuação no índice de empatia é geralmente considerada como uma característica da psicopatia, mas muitos psicopatas são extremamente capazes de sentir como os outros se sentem, e é por isso que eles são bons torturadores e predadores.
Parodiando o ensino da Literatura empática realizado com brilhantismo pelos educadores dinamarqueses eu me recordei de um dos mais empáticos personagens da Literatura, de O'Brien o principal antagonista do romance 1984 de George Orwell, por quem o protagonista Winston Smith, em uma sociedade distópica governada pelo Partido, sente-se estranhamente atraído do começo ao fim da trama.
O relacionamento de O'Brien e Winston passa por vários estágios. Começa com Winston se identificando com o espião do Grande Irmão, vendo-o como uma esperança, como alguém que pensa dissidentemente como ele. Em seguida ele passa a acreditar que O'Brien será o salvador da pátria, o defensor da liberdade que irá por fim ao estado totalitário que o mundo se tornara.
Finalmente quando Winston é denunciado pelo X9 e preso pela Polícia do Pensamento e O’Brien se transforma no seu torturador, é a capacidade requintadamente cruel de O’Brien de convencer seu prisioneiro de que é capaz de entendê-lo, aquilo que destrói Winston. Mesmo nas cenas de tortura, há uma estranha intimidade entre o prisioneiro Winston e o seu algoz O'Brien.
Durante várias semanas, Winston Smith é a vítima infeliz das variadas técnicas de tortura do outro. E apesar de todos os tormentos que sofria - fome, privação de sono, lavagem cerebral, confusão psicológica – de uma verdade o prisioneiro sabia: o seu torturador o compreendia. Até o fim a vítima acredita que O’Brien só quer curá-lo de sua “insanidade”, em particular da sua noção “falsa” de que coisas como a individualidade, a privacidade, a liberdade e o amor poderiam existir em uma realidade externa e independente do Partido.
Enquanto O’Brien através da tortura tenta conscientiza-lo de que a realidade só existia dentro da mente humana e de que, como o Partido controla todas as mentes, ele também controla a realidade, o tempo todo Winston olha para O'Brien como alguém com poder imenso, que pode protegê-lo e controlar seu destino, que estará sempre lá, orquestrando as torturas e mantendo-o vivo.
 
imagem Metro Goldwyn Mayer



Através de toda essa tortura física e psicológica, O'Brien empaticamente manipula Winston, triturando sistematicamente qualquer senso de verdade e de certo e errado aos quais ele se agarra. Para fazer isso, O'Brien usa o vínculo empático que construíra com a vítima para em seguida lhe destruir a auto-estima, a individualidade, a honra, a macheza e a humanidade até que Winston não mais consegue se reconhecer e simplesmente se torna quem o Partido quer que ele seja. 
É através da empatia que O'Brien consegue descobrir o trauma de Winston Smith – uma fobia que o coitado jamais articulara nem para si mesmo - e a usa para destruí-lo. No final o torturador intui qual é o maior terror do prisioneiro e o ameaça com uma imersão total no inferno a menos que Winston coloque na roda, entre ele e o seu maior medo, quem ele mais preza. A gota d’água para Winston é quando O’Brien lhe diz que será devorado por ratos “no quarto 101” e ele implora para que coloquem Júlia, a mulher amada, em seu lugar.
“Faça isso com a Júlia! Não comigo! Júlia! Eu não me importo com o que você fará com ela. Rasgue seu rosto, descarne-a até os ossos. Não comigo!”
As páginas do George Orwell nos deixam claro que a empatia é uma capacidade que pode estar presente em contextos os mais desequilibrados e cruéis. A capacidade de colocar-se nos sapatos de Winston não foi nesse enredo a condição sine qua non da moralidade. A moralidade nessa história é só uma e inquestionável: veementemente abominar a tortura cometida seja lá por quem e em quem for não importando minimamente por quais desrazões e em quais circunstâncias.
Porque a verdadeira moralidade dos nossos comportamentos deveria ser ditada pelo nosso anseio de viver em liberdade e pela nossa repulsa contundente de viver sob a opressão. Chorar pelos Winstons da vida, sofrer por eles não vai acabar com a opressão e a tortura que perduram e que precisam ser denunciadas mas que, muitas vezes, são “empaticamente” defendidas e até minimizadas, a depender da “causa”. Todos os Guantánamos deveriam ser varridos da face da Terra.
Para onde queremos ir? Se for para o ápice evolutivo da consciência só avançaremos pensando. Não é preciso levantar a bandeira da empatia para pensar com mais precisão e eficácia nas contradições que cometemos contra nossos princípios e no confuso e relativizado relacionamento que temos com nossos termos morais.
Apesar das críticas que fiz à Dona Empatia e ao sistema educacional empático da Dinamarca, foi muito bom constatar que por esse mundão afora caracterizado por um generalizado comportamento agressivo, alienado e egocêntrico como resultado do confronto inevitável - de milhões anos! - entre os nossos instintos baseados em genes e a nossa consciência baseada no nervo emergente da mente - bons professores estão empenhados em ensinar habilidades empáticas e a compaixão fundamentada e a aderência aos princípios morais.
Ao fim e ao cabo como os fatos gélidos não podem ser separados das cálidas emoções, acho que eles e nós temos que viver o dia a dia, tateando no escuro, tentando entender e traduzir da melhor forma que pudermos o mundo que construímos e deixaremos de herança.
Saber ouvir e deixar as pessoas saberem que estamos disponíveis mesmo que não possamos mudar as coisas, ajuda a aliviar a dor alheia. Como dizia Ernest Hemingway:
“Escute atentamente. A maioria das pessoas não escuta nunca”.
Talvez essa seja uma das chaves da empatia. Porém, não percamos de vista o quanto pode ser fácil cuidar dos problemas dos outros ou dos universais das nossas zonas de conforto e com o controle remoto e o teclado à mão. No final de um dia “empático” voltemos à relação conflituosa que temos com nós mesmos, para saber mais de nós e dos nossos, fazer um detox e usar nossas habilidades empáticas em nosso próprio benefício.


18 comentários:

  1. 1) Salve Moacir, bela reflexão humanista pedagógica, parabéns.

    2)Obrigado por me citar, esclareço que o ótimo pensamento é do filósofo grego Aristóteles.

    3)Lembrei do Buddha: "Caminho do Meio em tudo" até na Empatia.

    4)Abraços de bom fim de semana !

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    1. Moacir Pimentel12/11/2017 18:40

      Antonioji,
      Só dia desses, aos sessenta e dois anos, aprendi que devido à curvatura da Terra, numa superfície plana, para um cara de mais ou menos um metro e oitenta, a linha do horizonte mora a meros cinco quilômetros de distância.
      É tão pouco!
      Falo do que enxergamos e sabemos. Há que tentar aprender sempre reverenciando quem fez antes de nós o caminho do meio: "Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes".
      Namastê e "gratidão"!

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  2. Mônica Silva11/11/2017 09:49

    Amei, Moacir, agora você disse tudo! Os dois artigos se completam mas este coloca os pés da empatia no chão. Acho que os dinamarqueses estão fazendo um belo trabalho mas que é preciso abrir o olho pra não entrar na onda do politicamente correto. Não é à toa que os contos de fada estão cheios de bruxas, madrastas e lobos maus kkk Dei liberdade e privacidade para meu filho devagar, na medida que foi amadurecendo e se mostrando capaz de se defender. Você tem toda razão ao dizer que é preciso usar a empatia em nosso próprio benefício. Nunca esqueço da minha mãe dizendo que a faxina do mundo começava em casa. Lógico que é preciso aprender a ganhar e perder para ter sucesso na vida. E pra mim sucesso é só ser feliz. Bom final de semana e obrigada!

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    1. Moacir Pimentel12/11/2017 18:44

      Mônica,
      Que bom que você gostou dos artigos. Aplaudo de pé um país onde pais e educadores desde o berço e a creche, ensinam seus pequenos cidadãos a perceber o sofrimento à sua volta e a querer ajudar, a se controlar porque o que dizem e fazem pode machucar as pessoas física ou emocionalmente. Mas toda essa empatia precisa ter foco e caminhar com os pés no chão e de mãos dadas com a racionalidade e a temperança. Finalmente, torço para que qualquer coisa nesse mundo não esteja jamais acima das dúvidas, dos questionamentos, das críticas construtivas e dos aperfeiçoamentos.
      “Obrigado!” e abração

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  3. Lendo os seus dois ótimos posts sobre a empatia, chego à conclusão de que, como no velho ditado, a virtude está no meio.
    A regra de ouro, “Trate os outros da maneira que você deseja que eles o tratem”, e seu corolário, "não faças aos outros o que não queres que te façam", é indispensável mas sozinha não consegue, através da pura lógica, assegurar a melhor das relações. Porque não somos iguais, sabemos o que queremos mas não sabemos o que o outro quer. Então a empatia é necessária para que possamos compreender o outro. Um código moral pode existir sem a empatia, mas sua aplicação não pode prescindir dela.
    Eu também fui educado com os princípios da competição, sou do tempo em que os colégios publicavam mensalmente nas nossas cadernetas de presença a nossa classificação dentro da turma conforme as notas. Eu era um dos primeiros da classe no colégio, havia uma competição (nem sempre calada) entre os três ou quatro melhores alunos. Mas isso não me ensinou a importância do trabalho colaborativo, essa aprendi em casa e mais tarde na vida, e passei toda uma longa carreira de consultor de aprendizado experiencial ensinando pessoas a aprenderem juntas.
    Há lugar, e necessidade, para uma competição saudável, no esporte, no trabalho, em algumas das coisas que gostamos de fazer. E há lugar também, em tudo o que fazemos para a cooperação que ao longo da longa história da nossa espécie fez com que aquele pequeno bípede nu e desarmado sobrevivesse e prosperasse num mundo cheio de animais maiores, ou mais armados, ou mais ferozes do que ele.
    As cadeiras desalinhadas nas escolas dinamarquesas ensinam os alunos a trabalharem juntos. Novamente, a sabedoria estará na dosagem. Há que haver lugar para ensiná-los também a raciocinarem por si sós.
    Porque é preciso saber pensar por si próprio para poder pesar as opiniões dos outros.
    Como me ensinou o Tenshoo Lama, e continua a me ensinar o Mestre Antonio, o caminho da vida é o caminho do meio. E se nos afastarmos muito dele, em vez do Rio da Flecha encontraremos para nos conduzir ou o Winston ou o O'Brien. Que não são propriamente os meus modelos :)
    Um amigo meu, escritor e leitor "caudaloso" como você, me mandou há pouco no Facebook um recado a respeito deste seu artigo: "Excelente post, Mano. Mais do que oportuno".
    Não sei se ele terá lido o primeiro dos dois. Espero que sim. Porque os seus dois posts, como a empatia e a lógica, devem ser lidos juntos. Como na vida.
    Mas você sabe disso.
    Um abraço do Mano

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    1. Moacir Pimentel12/11/2017 18:52

      Wilson,
      Para começo de conversa, desconfio que para aqueles bípedes nus que viveram de forma altruísta e cooperativa talvez a tal empatia tenha sido instinto. Com certeza não sabemos o que o outro quer, se é que sabemos o que queremos (rsrs) e note que, como se não bastasse, o outro também nos inventa. Por isso também não confio no cogito pré-moderno de Descartes, que não cogitava o outro, numa subjetividade por óbvio incompleta.
      Para complicar, nos ensinaram que a razão desmente a sensibilidade, que uma é a tradução infiel da outra, quando não é verdade: as emoções também são neurais. O jeito é fazer o que sempre fizemos: aprender a aprender, empatizar pelo caminho do meio, nos emocionar racionalmente, repetir que "Logic is the beginning of wisdom, not the end" e seguir pontuando os textos com muitos :)s.
      Obrigado pelo belo e generoso comentário e um abraço

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  4. Flávia de Barros11/11/2017 13:28

    Moacir,

    Gostei muito de ler sobre a Regra de Ouro neste seu belo e esclarecedor artigo. Ela nos foi ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo durante o Sermão da Montanha, conforme o Evangelho de São Mateus:

    'Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas'

    O Papa Francisco se refere a ela como um norte para os cristãos, uma orientação para dar aos outros as mesmas oportunidades que queremos para nós. As suas críticas mais do que se justificam mas é bem mais fácil corrigir os exageros de uma educação empática do que os graves problemas causados pela falta dela.

    Um abraço para você

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    1. Moacir Pimentel12/11/2017 18:59

      Flávia,
      Você tem muita razão quando diz que nas estradas empáticas eventuais desvios e prioridades paroquiais podem ser mais facilmente corrigidos do que a aridez de um solipsismo que renega tudo aquilo que esteja fora da prática do indivíduo.
      Quanto à Regra de Ouro, o mesmo conceito, com palavras muito parecidas, pode ser encontrado, preto no branco, em documentos históricos de até seis séculos antes do Cristo: no Zoroastrismo, no Budismo, no Hinduismo no Islamismo e no Judaismo. A semelhança mais notável talvez se encontre nos Analectos, uma mistura de religião, código de ética, normas de comportamento e filosofia política de autoria do Mestre Kung-Fu-Tzu, cujo nome latinizado virou Confúcio:
      "Não façais aos outros aquilo que não quereis que vos façam.
      Mais importante do que quem a pensou pela primeira vez, é saber que a velha e sábia regrinha irmana todos os homens de boa vontade nos cânones ou mandamentos de tantas religiões e culturas, em torno de princípios éticos básicos que enfatizam os direitos/responsabilidades recíprocos.
      Outro abraço para você

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  5. Márcio P. Rocha11/11/2017 16:56

    É muito bom ter as certezas desafiadas, rs. Se a empatia é a capacidade humana de identificar o que outra pessoa está pensando ou sentindo e de responder a isto de forma apropriada, então a falta de empatia seria a maldade. Você abordou de leve este ângulo da questão embora a ciência já tenha provado que a empatia não é só um conceito filosófico mas uma realidade com endereço conhecido dentro do cérebro.
    Temos mesmo uma anatomia empática que nos dá um freio de mão diante da perspectiva do sofrimento alheio quando pensamos em fazer o mal. Mas este sistema pode ter defeito de fabricação, pode enferrujar por falta de manutenção ou pode dar curto circuito devido às sobrecargas. Por isso a neurociência já discute se no futuro será possível e ético mudar as motivações humanas e a nossa capacidade de viver de modo moral, aumentando a empatia e diminuindo a agressão. Um post excelente que exige muita reflexão.

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    1. Moacir Pimentel12/11/2017 19:09

      Márcio,
      Obrigado pelo interessante comentário. Só que eu não tenho competência para conversar sobre Dona Neurociência que, aliás, pelo pouco que sei, ainda está engatinhando. Então, por pura desinformação, encaro com os olhos arregalados, os pés atrás e as orelhas em pé quaisquer “correções” das mentes humanas pelas máfias de branco (rsrs)
      Já li, é claro, que a inalação do tal hormônio chamado oxitocina age no cérebro melhorando o comportamento moral de delinquentes e bem sei que os antidepressivos vieram para ficar, mas continuo preferindo suar a camisa para produzir os meus.
      Sei que graças às ressonâncias magnéticas de última geração, muito tem avançado a compreensão das mentes psicopáticas ou sociopatas - aquelas incapazes de empatia, compaixão, medo ou remorso - nas quais certos circuitos falham diante da visão de cenas de crueldade extrema.
      Porém também foram identificados outros cérebros incapazes de gerar as emoções básicas que supostamente manteriam os instintos assassinos sob controle, absolutamente idênticos aos dos serial killers, que no entanto pertenciam a indivíduos que exerciam profissões heroicas - bombeiros ou policiais ou pilotos de caça - possivelmente motivados pela ausência de medo e a necessidade de adrenalina das suas “instalações”. Complicado!
      Tudo bem que medicamentos podem até aumentar o nível de empatia e diminuir a agressão das pessoas mas às "manutenções" controversas considero mais ética e eficaz a pedagogia “preventiva" dinamarquesa que, ao cultivar a tolerância nas mentes infantis está também "tratando" a sociedade a longo prazo. Há que considerar ainda o ambiente, ou seja, de que adianta dar uma "pílula do bem" a quem cresce no meio da pobreza e da violência, por exemplo, com tudo ao seu redor o estimulando a cometer sacanagens em série?
      Talvez por absoluta ignorância quanto o assunto a hipótese de se mexer na fiação cerebral dos outros, de "consertar" os circuitos não empáticos alheios, me parece coisa de filme de ficção científica. Tipo Minority Report, onde os futuros criminosos eram identificados e presos antes de cometerem os crimes, ou aquele assassino que, em Laranja Mecânica é drogado e torturado e condicionado a associar cenas de violência à dor extrema, até que passa a sentir aversão à crueldade e, finalmente, é considerado “curado”.
      Então é o seguinte: por enquanto me conte fora dessa mas, por favor, continue participando (rsrs)
      Abração

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  6. Alexandre Sampaio11/11/2017 23:35

    Pimentel,
    Li e reli os dois artigos e o que ficou da ótima leitura é que não se deve comprar nenhuma tese pelo valor de face, por melhor que nos possa parecer. Além disso você demonstra cabalmente que não é por concordar que não se pode discordar e vice versa. Parabéns.

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    1. Moacir Pimentel12/11/2017 19:12

      Prezado Sampaio,
      Pois é. Quando comecei a escrever sobre a ótima educação empática dinamarquesa, não consegui escapar da argumentação. Deve ser porque sou fã de carteirinha dos poemas sobre o aprendizado do Brecht:
      “Não tenham medo de questionar, camaradas!”
      Muito obrigado e um abraço

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  7. Francisco Bendl12/11/2017 11:08

    Pimentel,
    Talvez não seja o caso, mas quando fiz três cursos de análise transacional, lá pelos idos de 80 - não se fala mais do eu pai, eu criança, eu adulto ... -, e na função de gerente de vendas, uma das etapas era estudarmos os gestos do interlocutor quando oferecíamos um produto e perceber se interessava ao comprador o diálogo estabelecido ou ele se mantinha distante, interessado, atento, curioso ...

    Igualmente nos desdobramentos citados acima dos nossos vários “eus”, principalmente a respeito do papel de cada um no contexto familiar e social e, claro, individual, de mim para mim mesmo.

    A crítica proposta que tu estás propondo sobre empatia, de certa forma aborda as colocações desta análise transacional, justamente no que concerne tanto ao papel de cada um como entendermos a função do outro, e também seus problemas, suas dificuldades, seus percalços.
    Logo, evidentemente há um limite sobre avançarmos o sinal quando queremos nos colocar no lugar da outra pessoa, que deve aprender à base também de sofrimento - de onde vem a legítima experiência - dar com os burros n’água, volta e meia.

    Pois exatamente no meio do curso onde analisávamos as reações dos compradores, de modo que desempenhássemos melhor a nossa aproximação, ergui o braço e fiz uma pergunta que quase me custou o emprego!
    Só não levei um pontapé porque sempre fui um excelente vendedor, modéstia à parte (algumas taças e medalhas ainda tenho comigo), e a minha saída redundaria em mais prejuízo ou falta de ganhos do que a minha demissão como exemplo para meus colegas quanto à minha impertinência.

    O meu questionamento, enfim:

    - Professor, se temos de observar o gestos com quem conversamos, seus olhares, sua distância da mesa com relação à nossa proximidade, da mesma forma com as pessoas nas ruas, nos restaurantes, nos garçons que nos atendem, nos motoristas de ônibus, táxis, na esposa, nos filhos, em nossos pais ... quando que seremos NÓS MESMOS?!
    E eu continuava:
    - Dormindo? Tomando banho? E quanto ao sexo? Deixo o prazer de lado para ficar olhando a esposa e ... mais nada?!

    Em outras palavras:
    Acho que a nossa autenticidade deve ser preservada. O nosso “eu”, a nossa forma de ser.
    Indiscutivelmente, vez que outra, a gente se colocar no lugar do próximo e ajudá-lo, ótimo, mas não pode ser uma regra, norma, imposição.
    Que sejamos voluntariosos para certas tarefas, lógico, porém as pessoas precisam sentir na carne quando erram, e devem saber encontrar as suas soluções, caso contrário serão permanentemente auxiliadas e jamais saberão, inclusive, do que poderão fazer, improvisar, serem criativas, e suportar as consequências tanto dos seus erros quanto de suas omissões ou a célebre desculpa “ não sei ou não sabia”.

    Por outro lado, esse excesso de empatia, digamos assim, pode soar falso para algumas pessoas, que poderão perceber que o auxílio será cobrado futuramente, e a preço muito caro.
    Enfim, precisamos ter consciência da dosagem de bondade ou desta empatia pois, conforme mencionaste, a diferença do veneno para o remédio é a dose, insofismavelmente.

    Meu aplauso ao artigo, Pimentel, elucidativo, esclarecedor, que deve ser lido e muito meditado a respeito do quanto estamos sendo intrometidos na vida alheia ou verdadeiramente empático, mais ou menos como a tênue linha que separa a sinceridade do atrevimento.

    Um forte abraço.
    Saúde e paz.

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    1. Moacir Pimentel12/11/2017 19:35

      Bendl,
      Obrigado pelo ótimo comentário. Devo confessar que jamais desejei ser eu, por uma simples razão: o que mais eu poderia ser? Somos nós! E ponto final. E essa é nossa benção ou maldição. E aí a escolha é nossa. A única opção é sermos os melhores “nós” que conseguirmos. Que mais se pode pedir a um homem?
      O problema é que quase tudo que somos tem a ver com os outros. Além de brasileiros, do sexo masculino e brancos são os outros que definem os demais “nós” que somos. Ou seja, somos filhos , irmãos, primos, tios , maridos, pais, avós, sogros, genros, amigos, patrões,sócios, empregados de outras pessoas. Então cultivar e manter saudáveis tais relacionamentos é inescapável. Há que fazer a nossa tribo feliz até porque a concorrência não perdoa (rsrs)
      Nesse contexto penso que a empatia, a capacidade de traduzir o outro, de prever as ações de outras pessoas, nos possibilita sair à frente em situações complicadas - sejam amorosas, profissionais ou sociais. Ou seja, a empatia pode ter sim uma característica egoísta, pode ser uma arma ou ferramenta valiosa para as nossas conquistas. Ela também é imprescindível para que possamos ver o mundo a partir do lugar do outro e não como o outro, o que, de resto, seria uma tarefa impossível e desconfio que indesejável. Porém..
      Mesmo observando lá do lugar do outro, nós permanecemos sendo "nós", só que suspendendo algumas de nossas próprias contingências para caber nos sapatos alheios. Mas sempre o fato desse lugar ser do outro marcará, de saída, a impossibilidade de imaginarmos exatamente como o outro vê, pensa ou sente. No entanto creio que é vital tentar chegar perto. Não sacar os que nos rodeiam é arriscado porque ao contrário do que diz a canção o acaso não tem o hábito de nos proteger enquanto nós estamos distraídos.
      Abração.

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  8. Olá Moacir,
    Você é fantástico, mas já disse isso. O post é tão completo e os comentários tão bons que estaria simplesmente repetindo se dissesse alguma coisa.
    Só uma constatação de mim: muitas vezes a empatia emocional é tão forte que não consegue deixar de mergulhar na dor alheia. E dá lhe detox para arrumar as "casinhas".
    E...pode continuar rindo do casal!
    Até mais.

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    1. Moacir Pimentel12/11/2017 19:40

      Caríssima Donana,
      "Gratidão"! Fique a senhora sabendo que muito aprecio quem me faz rir. Então vou sim continuar rindo e militando no time dos da empatia cognitiva que só conduz à ação se encontrar disponibilidade emocional, filosófica e moral. Afinal a empatia é um ato de vontade. É impulso a que se cede ou não: posso até ter empatia, mas escolher não cometê-la.
      Nada é mais natural do que a necessidade de se comunicar, o desejo de estar sintonizado com os pensamentos e sentimentos de outras pessoas, de escutar e compreender e vice versa , de ajudar e ser ajudado. Foi tudo isso que nos tornou humanos. No entanto a arte da empatia é muito exigente. Ela exige atenção para as necessidades alheias mas sem sacrificar as nossas , uma destreza mental para mudar a sintonia, sempre que for preciso, tanto de nós mesmos para os outros quanto deles para nós mesmos e um equilíbrio interno entre emoção e razão e entre "nós e eles". Senão acaba o gás.
      "Até mais"

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  9. Wilson Baptista Junior29/11/2017 15:28

    Moacir, volto ao seu post para lembrar uma discussão interessante sobre o impulso da empatia e o controle da racionalidade. No livro "Do Androids Dream of Electric Sheep", de Philip K. Dick, publicado em 1968 e mais tarde adaptado para o cinema como o famosíssimo "Blade Runner", é a contraposição da empatia humana contra o pensamento estritamente racional dos cérebros artificiais que permite distinguir os andróides altamente aperfeiçoados, que querem se passar por seres humanos, dos humanos verdadeiros, que querem neutraliza-los. Mas para que o personagem consiga se livrar da sua própria empatia, que pode levá-lo a ser iludido pelos androides, para identificá-los precisa se esforçar para usar o pensamento racional. O desenvolvimento do livro, livre dos efeitos especiais do filme, é muito interessante à medida em que expõe esse conflito ao longo da trama.
    Um abraço do Mano

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    1. Moacir Pimentel30/11/2017 17:13

      Wilson,
      Fiquei com muita vontade de ler o livro e de assistir de novo o Blade Runner 2019, sim porque acabam de lançar uma continuação de nome Blade Runner 2049 , ambas indisponíveis na Netflix (rsrs) Talvez eu não me lembre direito do primeiro roteiro, assisti muito jovem e ainda dissidente, mas me pareceu que naquelas paragens quem tinha juízo só empatizava com as coisas certas e entre elas não tinha lugar para os androides. Ou seja, muitos dos humanos do filme que vi não passariam num teste de empatia de respeito e então eu terminei meio que torcendo pelos bandidos não empáticos (rsrs)
      Que só queriam viver enquanto os humanos repetiam a velha fórmula: escravizavam e massacravam os que acreditavam seus inferiores. Lembro que no final o personagem do Ford e alguns androides, por caminhos diversos, se libertam dos seus respectivos “programas”. Para mim a moral da história foi que não podem ser autenticamente empáticos os humanos que não buscam a liberdade de sentir e de pensar, que se deixam doutrinar, e terminam tão “programados” quanto as máquinas.
      Seu comentário também me lembra que há que pensar e muito, mas que simultaneamente é preciso que nos tornemos mais empaticamente amadurecidos, mais inteligentes emocionalmente sem ser excessivamente devotos da racionalidade. Porque a inteligência artificial é um fato e brevemente grande parte das nossas funções serão desempenhadas por ela. O desafio é desenvolver nas futuras gerações as habilidades que não poderão ser desempenhadas por máquinas: a empatia, a criatividade ,a intuição e a sociabilidade, enfim, a humanidade seja ela o que for.
      Obrigado e abração

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