-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

28/03/2017

Matucão

Mestre Vitalino - Homem com cestos (imagem UFJF, divulgação)

  
Domingos Ferreira
“Quem a vaca cara compra
Vaca cara pagará.”
(Cego Aderaldo – Cantador)

Acordou com a barulheira das crianças brincando no terreiro da frente da casa, na parte alta da curva grande do riacho, junto ao capão de mato baixo.
A tapera, meia água de um só espaço, tinha teto de folha de babaçu. A parede da frente, feita de pau-a-pique e barro socado, mostrava uma única porta fora de centro e mal fechada por uma esteira descuidada, velha e suja. As laterais de palha trançada em varas de pé, terminavam nos esteios de apoio do teto. A parte de trás abria para um arremedo de quintal, descendo até a beira d'água. O espaço era dominado por uma mangueira imensa em cuja sombra dormitava um curralzinho, com um bode, duas cabras e os cabritinhos.
Alguns cachorros, uma porca grande com bacorinhos, galos, galinhas e patos conviviam livremente em volta da casa. Um ou outro lagarto aparecia no esquentar do sol, apressado e muito atento aos demais bichos que corriam na tentativa de pegá-lo. Já os sapos só chegavam depois do anoitecer, com sua cantoria sincopada. Uma passarada barulhenta e incontáveis mosquitos completavam a cena, onde havia uma certa fartura, apesar da extrema pobreza dos moradores.
José de Ribamar- o Matucão - fixava um olho só na velha espingarda de carregar pela boca, herdada do avô, que ficava pendurada no teto, longe das crianças. O outro olho estava tapado pelo braço cruzado sobre a cabeça. Seus pensamentos não paravam de ferver, infernizando o caboclo maranhense. Passara a noite sem sossego, se mexendo na rede, suando frio, a raiva crescendo cada vez que lembrava do ocorrido na véspera. Acontecera na loja da fazenda, no pátio grande, um pouco afastada da casa dos brancos, de onde o coronel Targino governava Curral Novo com mão de ferro.
Todo mundo sabia que Matucão era um cabra corajoso. Pelo menos, ele pensava assim. Caboclo grandalhão, musculoso, a cabeça meio grisalha, sempre levantada e de cenho cerrado, onde brilhavam olhos curiosamente azuis, em referência a um perdido ancestral francês, dos tempos da fundação de São Luis, Ele, de fato, impunha respeito pela simples presença, enquanto estava calado. O problema era que falava demais. Adorava contar vantagem em estórias as mais mirabolantes, nas quais decidia e resolvia, na marra, qualquer questão.
Era analfabeto, como quase todos os “agregados” da fazenda, naqueles idos dos anos quarenta, no interior perdido do Maranhão. Ali, havia caboclos, negros, índios, mestiços e brancos, que moravam em regime de meiação com os donos de terra, cuja autoridade se impunha incontestada há séculos.
O vocabulário muito limitado, dessa coletividade pobre e conformada, não impedia Matucão de dar asas à imaginação ao contar suas estórias e fanfarradas, acompanhadas por muita gesticulação, caretas e gargalhadas. A audiência adorava as cenas e mangava dele barulhenta, pondo em dúvida os exageros sempre reafirmados com o bordão “se percisar eu mato inté o cão”, origem do famoso apelido.
Uma de suas estórias preferidas narrava a conhecida discussão com tropeiros cearenses, por razões que mudavam a cada versão e que quase terminara em briga de morte. Os três cabras, de peixeira na mão, haviam cercado Matucão, mas ele espalhara o grupo ao puxar seu famoso facão da enorme bainha sempre amarrada na cinta. Os bestas saíram correndo sem olhar pra trás e nunca mais apareceram. Para terminar o conto, Matucão falava mal dos cearenses em geral, fugidos da seca, que cada vez mais, apareciam nas fazendas do coronel Targino, ocupando laboriosamente as terras férteis e os serviços.
Essa estória tinha um segredo guardado por ele com muito cuidado e que, no intimo, lhe causava enorme satisfação O facão ameaçador não existia, Era só o cabo de osso enfiado na bainha de couro grosso, bem larga e esticada, Para Matucão, essa era a melhor parte da estória, pois a caboclada sempre acreditava, fazendo-o feliz ao perceber o olhar deles fixo no cabo do facão, enquanto encenava sua peça. A única pessoa que ele desconfiava saber a verdade era Mãínha, mas nunca comentara nada.
Levantou-se da rede sem dizer uma palavra e foi até o riacho onde obrou e se lavou. Na volta, passou pela trempe nos fundos da tapera, onde a mulher preparara um café. Pegou uma cumbuca de cabaça meio cheia mais um pedaço de beiju grosso moqueado e foi para o terreiro da frente olhar a filharada.
      Eles estavam brincando com um teiú, ao qual tinham amarrado uma fieira de embira de tucum, feita com ossos de rabada deixados há dias na boca do formigueiro, para livrá-los de qualquer pedacinho de carne ou cartilagem. O lagarto assustado, de bom tamanho, tentava arrastar aquela tralha e, a cada arranco, as crianças gritavam e batiam palmas. Estavam tão concentradas que não deram a menor atenção ao pai, piorando seu mau humor.
Acabou de tomar café e, apressado, vestiu a camisa, pegou um pequeno saco de aniagem com paçoca de carne seca e farinha grossa, apanhou a espingarda e duas pontas de chifre de meio palmo, uma com pólvora e outra com balins de chumbo e pedras-de-fogo. Sempre resmungando, calçou as precatas de couro grosso e, botando o chapéu de palha na cabeça, tomou o rumo da porta.
Mãínha, preocupada com seu homem desde o dia anterior, sabia que esse ritual significava uma jornada para caçar. Mas ficou intrigada com o fato de ele ter calçado as precatas, indicando uma ida até o pátio grande, em frente da sede da fazenda, onde, em sinal de respeito, era exigido não andar descalço nem portar arma de fogo.
Mãínha não se conteve:
- Onde é qui tu vai desse jeito Ribamar?
- Vou acertá umas conta muié; me deixa!
- Toma tenção di num fazê besteira, homi ....Deus castiga!
Matucão fingiu não ouvir a recomendação. Saiu pisando duro e, ao passar pelas crianças, Toínho, seu filho adolescente que ele costumava chamar para caçar, gritou:
- Meu pai, me deixa eu ir cum o sinhô!?
Sem responder, Ribamar apressou o passo e tornou o rumo da sede da fazenda pelo caminho do riacho. Era uma meia légua até lá. O sol já ia alto, mas estava meio encoberto, refrescando o calorão. Pouco depois, ao chegar ao angico branco, parou para carregar a espingarda, o que sempre fazia longe de casa por segurança dos filhos. Era um verdadeiro cerimonial.
Apoiou a arma em um toco de pau, com a boca para cima. Destampou a ponta de um dos chifres e virou devagar, derramando a pólvora pelo cano, com o pensamento no Nonato Caroço, o cearense, filho de uma égua, com quem discutira na véspera, na loja da fazenda. Colocou bastante pólvora, o dobro do normal para matar um veado. Em seguida, rasgou uma tira de pano de caroá, fez a bucha e socou bem na espingarda, usando uma vareta de aço destacada da lateral da própria arma. Da outra ponta de chifre, derramou alguns balins e pedras-de-fogo na palma da mão grossa e, escolhendo o chumbo mais pesado, o fez escorregar pelo cano. Amassou uma bolinha de caroá, que também foi socada de leve na arma, para segurar o balim. Por último, catou uma das pederneiras e colocou no seu alojamento junto ao gatilho. A arma estava pronta para derrubar um touro.
Trincando os dentes de raiva, com as mãos trêmulas e a respiração ofegante, Matucão foi até a beira do riacho e molhou o rosto e o pescoço, procurando se acalmar, O calor aumentara bastante, apesar do céu nublado. De repente, escutou passos de animal grande. Voltou-se para trás de forma brusca e deu de frente com a égua Mimosa, que se aproximava para beber água.
Tudo mudou ao ver seu animal de estimação. A tensão desapareceu como por milagre, A égua prenha chegou-se a ele que passou a mão em sua cabeça abaixada, como se fosse de uma criança, enquanto ela semifechava os olhos com satisfação.
Ela lhe fora dada pequena, logo que desmamou. O filho mais novo do coronel Targino, doutor Lino, adorava ouvir suas estórias desde criança. Quando se formou de advogado, na festa que o pai celebrara na casa grande, foram dados presentes para os agregados mais antigos da fazenda, cabendo a eguinha para o fiel Matucão. Ela fora entregue a ele, pessoalmente, pelo jovem advogado, o que calara fundo no caboclo.
Mimosa fazia parte da família, como se fosse uma filha. As crianças montavam nela, para cima e para baixo, sem o menor risco, em grande algazarra. Vivia solta, sem nunca se afastar muito da tapera. Até que um dia, acontecera o previsível.
Matucão se lembrou do que ia fazer e retomou a caminhada, deixando a égua na beira do riacho. Conforme acelerava os passos, as lembranças ruins cresciam e a raiva voltava. Fora mais ou menos por ali que ele se deparara com a cena causadora de toda essa confusão e angústia. Há alguns meses, ao dobrar uma curva do caminho, levara o susto de ver o jumento Pezão cobrindo a Mimosa, no maior fogo. O desgraçado estava quase matando a bichinha, meio agachada para facilitar as coisas, os dois fazendo um barulhão arretado.
O peste daquele jumento ficara famoso na fazenda, pela sua macheza e outros predicados. Muito doido, não deixava em paz as éguas, as mulas e, diziam, até as novilhas. Pior, o dono dele era o diabo do Nonato Caroço, que trouxera a besta desde o Ceará, quando se mudara para a fazenda havia uns três anos. E já tinha vindo com o nome de Pezão.
Matucão nunca mais se esquecera daquela visão. Era como se tivesse acontecido com uma filha. Sentira uma ciumeira doida da Mimosa, mas não contara nada em casa, até que ela aparecera prenha. Aí não tinha mais jeito. E ele, já mais acostumado com a idéia, antevia o nascimento da cria como se fosse de um neto. A discussão na loja da fazenda, na véspera, fora exatamente porque o parto iria ocorrer em breve, pois Mimosa já estava muito redonda.
O caboclo desgostara da peste do Nonato Caroço, desde sua chegada como caixeiro novo da loja, por saber ler e fazer conta. Ele tivera o desplante de o mandar “inventar essas estórias” lá fora, no alpendre, pois estava atrapalhando o movimento do balcão. No dia anterior, quando o caboclo entrara calado para tomar uma pinga, Nonato Caroço, viera com uma conversa atravessada de que ele lhe devia dois sacos de feijão, pela cria que o Pezão fizera na Mimosa.
Matucão endoidou com aquela cobrança inesperada. Ele alegou que a cria sempre pertence ao dono da fêmea, enquanto Nonato Caroço dizia que, no Ceará, o dono do macho recebia um certo pagamento em espécie, logo depois do nascimento. O tom foi subindo. O maranhense mandou o outro voltar para a terra dele, lugar de pau-de-arara, cabeça chata de caroço de manga. A resposta, aos gritos, foi que ele era um tabaréu ignorante, preguiçoso e mentiroso, contador de lorota.
A discussão ficou feia e só acabou quando o gerente da loja, Seu Neuto, interveio ameaçando contar tudo para o coronel Targino. Matucão saiu pelo alpendre, corrido e engasgado. Ao se deparar com o jumentão do maldito cearense,amarrado num moirão perto da porta, esperando a hora do dono voltar para casa, teve a brilhante idéia de se vingar de tudo aquilo, matando o Pezão.
Era com essas lembranças que o caboclo prosseguia pela trilha do riacho e adentrava no brejal perto de sua nascente. O mato foi ficando mais alto e fechado e a trilha bastante sombreada e fresca, apesar de o dia já ir pelo meio. Matucão notou algo diferente no ar, além de um forte cheiro de jaca.
Estava ficando escuro demais, meio que de repente. Os pássaros começaram a buscar seus ninhos, o curiango deu de gemer e os sapos cururu iniciaram o seu cantochão grave, junto com o repique da saparia menor. Um galo cantou ao longe. Parecia que a noite estava chegando. Sozinho, no matagal cada vez mais escuro, o caboclo teve a súbita lembrança das últimas palavras de Mãínha - “Deus castiga”.
A coisa ia crescendo na sua cabeça, conforme a escuridão aumentava, ficando um breu que parecia noite fechada. De súbito, ele se deu conta que estava tremendo e suando muito. Estancou a caminhada e, apavorado, se jogou no chão, ajoelhado, se benzendo sem parar. E começou a rezar para São José de Ribamar, para a Virgem Maria, para Todos os Santos e até para o Padre Cícero, que ele tinha certeza ser da devoção do pau-de-arara Nonato Caroço.
No meio da rezação, cada vez mais medroso, apelou para fazer promessas. Jurou que não iria matar o Pezão e perdoaria o cearense, inclusive pagando em dobro as sacas de feijão cobradas pela cria do jumento. E, para confirmar suas intenções, levantou-se, caminhou no escuro com dificuldade até o riacho e varejou a espingarda dentro dele.
Ficou ali parado, olhando fixo para a água corrente, quando se deu conta que ela estava clareando. Os pássaros começaram a se agitar e o galo, desorientado, voltou a cantar freneticamente. Um jumento zurrou ao longe, na direção da sede da fazenda. Devia ser o Pezão amarrado na frente da loja. Aos poucos, o cenário voltou ao normal e a luz do sol brilhou refletida na água. O eclipse terminara.
Matucão, não entendendo nada, ficou meio abestado, sem saber o que fazer por algum tempo. Lembrou-se, então, da tapera e da família e, preocupado, tomou o rumo de casa num passo esperto, pois estava longe de lá. Conforme se aproximava, ia se acalmando e crescia a vontade de ver a mulher e os filhos.
A criançada avistou o pai quando saiu do capão de mato na grande curva do riacho. Foi uma correria aos gritos, todos muito excitados, falando sem parar e os cachorros pulando e latindo. Ele, instintivamente, notou que não faltava ninguém, mas nada falou até entrar na tapera e ver a mulher debruçada sobre a panela de ferro no fogo aceso da trempe.
Mãínha se voltou para ele:
- Qui cara di espanto é essa homi?
- Tu não viu o escurão?
- Ah, isso num é nada, foi o crípis.
Ele não entendeu e perguntou:
- Foi o que, muié?
- O crípis; a lua qui cubriu o sol. A nêga Perança i a índia Das Dô vieru aqui logo dispois e falaro qui eles chama assim.
Matucão, em um lampejo de memória, lembrou-se que, ainda menino, o avô lhe contara essa estória de a lua cobrir o sol, testemunhada por ele na época da grande gripe. Estava associando o “crípis” com os fatos vividos há pouco no brejal, quando Mãínha interrompeu seus pensamentos:
- Ondi tu deixô a ispingarda, Ribamar?
Foi um choque. Acostumado a responder rápido a seus ouvintes atentos, inventou de pronto:
- O Curupira levô na iscuridão, quando eu tava no brejal.
Mãínha levou um susto e se benzeu várias vezes. Começou a perguntar outros detalhes, mas o caboclo, com medo de se confundir, cortou o assunto e perguntou se tinha comida pronta.
Ele comeu demais e se deitou na rede para descansar, no calor da tarde. Dormiu pesadamente e sonhou com o Curupira aparecendo na escuridão do brejal, montado numa capivara gigante, botando fogo pelas ventas e com os pés virados para trás. Atirou no maldito, mas isso só fez o bicho crescer, ficar mais brabo e correr uivando para cima dele, arrancando-lhe a espingarda das mãos e sumindo a galope, no breu daquela noite esquisita.
Acordou com a estória pronta e testou o enredo com a mulher. Mãínha, conhecedora do marido, fingiu acreditar. Quem a adorou mesmo foram as crianças, excitadíssimas e com medo do Curupira aparecer por ali. Matucão deu-se por satisfeito e achou melhor guardá-la para o dia seguinte, com a idéia de melhorar a narrativa com calma.
Saiu cedo de casa e, ao chegar à loja, tinha muita gente que só falava no eclipse. Era tudo que Matucão queria. Deu um jeito de entrar nas conversas e, em pouco tempo, começou a contar o ataque do Curupira. Juntou uma pequena multidão no alpendre em volta dele, que teve de repetir o conto várias vezes, acrescentando detalhes cada vez mais impressionantes. Foi um sucesso!
A estória estava tão boa que até o Nonato Caroço saiu do balcão e foi escutá-la, acompanhando os detalhes com muita atenção e reagindo junto com o grupo. Depois de falar por um bom tempo, Matucão interrompeu a narração e foi tornar uma pinga no lado de dentro. Quem o serviu, muito atencioso, foi o Nonato Caroço, engatando uma conversa inesperada, na busca de mais detalhes do acontecido.
O assunto encompridou e Matucão, vendo uma espingarda papo-amarelo novinha pendurada na parede atrás do caixa, perguntou se estava à venda. Nonato Caroço disse que era dele, mas tinha outra e, portanto, faria negócio com o amigo. Surpreso, o caboclo se lembrou dos quatro sacos de feijão da promessa da véspera e ofereceu oito para o cearense, incluindo o que ele lhe cobrara do serviço feito pelo jumento na eguinha. Após algumas negaças, arredondaram o valor para dez sacas e Matucão voltou, todo feliz, para casa com a papo-amarelo, mais três caixas de munição.
O burrinho, nascido um mês depois, era uma gracinha de manso e ganhou o nome de Feliz. Pezão se enamorou de vez pela Mimosa, para desespero das outras fêmeas da fazenda. Dessa união resultaram duas parelhas, uma de burros, o Feliz e o Forçudo, outra de mulas, delicadas como a mãe, a Cheirosa e a Gostosa,
Já que amor com amor se paga, o Toínho virou Tonhão e se apaixonou pela filha mais velha de Nonato Caroço, uma linda morena com cabelos negros e lisos, de nome Iracema, cujo beijo tinha gosto de mel... Casaram-se, e as três famílias viveram muito felizes, debaixo daquele solão arretado da boa terra maranhense. Sem mais “crípis”.
Artes do Curupira...
----- X -----
Com este texto, celebro a grande alegria de assistir à transposição das águas do São Francisco para o Nordeste profundo.
Meu saudoso pai, baiano, engenheiro civil competente, dedicado e honesto, labutou arduamente no DNOCS - Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, para mitigar a violência das crises de seca naquela terra maltratada e abençoada. Criança, ouvi dele, muitas vezes, que esta seria a única solução definitiva para a imensa e recorrente tragédia humana da região.
Graças a Deus e a pessoas esclarecidas, está acontecendo.  



9 comentários:

  1. Wilson Baptista Junior28/03/2017, 18:23

    Domingos, grande história! O sonho do Matucão convertido em história para sair do aperto me lembrou um pouco o Coronel Ponciano com o urutau no romance do José Cândido de Carvalho.
    E as histórias que ouvia às vezes, à noite, na cozinha da casa de um dos camaradas da fazenda de um amigo do colégio.
    Muito bom.
    Um abraço do
    Mano

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estimado Mano
      O Matucão existiu de fato.Eu gostava muito de ir para a loja da fazenda, onde insistia em ajudar o caixeiro. Como neto primogênito e com o mesmo nome do Coronel, cercado de todo cuidado, tinha um acompanhante adolescente apelidado Gambá. Vivia solto pelo mato e o riacho, com um grupo de meninos, fazendo o diabo.
      A lei era aplicada por uma tia solteirona, a Teté. Apanhei muito bolo de palmatória dela, quando chorávamos juntos.
      Ela era uma santa mulher que tomava conta da capela, e pajeava os padres, ou mesmo o bispo, quando vinham para a "desobriga", com batismos e casamentos, em grande festa.
      Tem muita estória para contar...
      Um grande abraço.
      Domingos

      Excluir
    2. Wilson Baptista Junior30/03/2017, 21:59

      Pois melhor ainda ficou a história depois de você ter nos contado isso. E que bom que tem ainda muitas outras, vamos gostar de ouvir!

      Excluir
  2. Olá Domingos,
    Suas histórias românticas, vindas do romântico que você é, são sempre encantadoras e gostosas de ler. Você leva um pouco do Matucão com sua narrativa peculiar e fazedora de leitores.
    Até mais.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Estimada Ana
      Romance de verdade foi o vivido por meus pais durante quase sessenta aos.
      O engenheiro jovem e alto, educado e bonito, chegou, na fazenda, em suas andanças profissionais. Era o final da década de 20 e ele apareceu lá em um brilhante e impossível automóvel.
      Sob o teto do coronel, viviam sete (isso mesmo:7) mulheres solteiras,irmãs e primas, com idades entre 20 e 35 anos.
      Foi uma batalha campal,típica de Jane Austen, que durou alguns meses. Desse entrevero, saiu vitoriosa a mais nova ,a menor (1,52m), a mais sapeca, de uma alegria contagiante.
      Eu sou o único e mais novo produto masculino dessa união.
      Tenho que ser romântico, muito romântico..
      Até a próxima.
      Domingos

      Excluir
  3. Francisco Bendl29/03/2017, 19:25

    O nosso Domingos Ferreira tem o talento e vocação adequados para nos propiciar e brindar com artigos de qualidade, onde nos demonstra a sua técnica invejável em relatar os seus contos.

    Gostei muito deste texto de Matucão, genuinamente brasileiro, caipira, valente e observador.

    E meus parabéns pela delicada homenagem feita ao saudoso pai pela Transposição das Águas do São Francisco, um sonho do nordestino que finalmente se realiza, depois de, sabe-se lá, quantas décadas à espera desta obra importantíssima!

    Domingos, tenho sido um leitor dos teus textos porque sempre muito bem feitos, contendo seus dramas, e narrados com maestria!

    Um forte abraço.
    Saúde e Paz.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Amigo Chico
      Muito obrigado por suas gentis observações.
      De fato, sou um apaixonado pelo Nordeste profundo, motivado pelo exemplo de meu amado pai.
      Por várias razões, tive oportunidades únicas de conhecê-lo, tais como em uma viagem de dez dias, descendo o São Francisco, de Pirapora,em Minas Gerais, até Juazeiro/Petrolina, na Bahia/Pernambuco. Isso foi a bordo de um "gaiola",vindo do Mississipi, movido por uma roda de pás na popa. Só o salvamento de uma vaca atolada puxada por ele, dá para contar uma estória incrível.
      Também, ainda menino, andei oito dias pela caatinga braba, na carroceria de um caminhão, sem cobertura, sentado em sacos de sal, junto com meia dúzia de caboclos, e atravessando riachos secos e o famoso Raso da Catarina, uma paisagem lunar.
      Um abraço fraterno
      Domingos

      Excluir
  4. 1) Salve Domingos, bom texto das nossas terras maranhenses.

    2) Impressionou-me a descrição dos animais, aves e a passarinhada.

    3)O curiango, pássaro noturno, também habita o cerrado e assim lembro do meu querido Gama, DF.

    ResponderExcluir
  5. Estimado Antonio Rocha
    Obrigado por suas palavras de estímulo.
    O conhecimento sobre a bicharada foi resultado da constante atividade no mato. Nosso grupo de moleques, sem camisa e descalços, passava o dia vadiando e o que mais nos atraía eram os diferentes exemplares que apareciam. De besouros a mutuns, de marimbondos a carcarás. De lagartos a sapos e peixes. De papagaios a pombos e urubus...
    Só a título de curiosidade, esses últimos, os urubus, tomavam banho no riacho e ficavam secando as asas na areia até poderem voar para a galharia de um enorme angico próximo, branco de tanta titica. Ali permaneciam mais tempo, até terem condições de levantar voo definitivo. O local era chamado "banheiro dos urubus", onde os moleques maiores, de vez em quando, conseguiam laçar um exemplar molhado (eles tentavam fugir nadando!!!) e fazer o diabo com ele...
    Foi uma época mágica de minha vida.
    Um forte abraço.
    Domingos

    ResponderExcluir

Para comentar, por favor escolha a opção "Nome / URL" e entre com seu nome.
A URL pode ser deixada em branco.
Comentários anônimos não serão exibidos.