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09/06/2017

As Vênus Despidas

Giorgione / Ticiano - Vênus Adormecida - 1510 (imagem wikimedia commons)


Moacir Pimentel
A primeira das Vênus despidas da humanidade, no caso a Adormecida, nasceu da paleta de Giorgio Barbarelli da Castelfranco – o Giorgione - um pintor renascentista veneziano, que morreu antes de concluir a obra. Foi Ticiano quem a finalizou, pintando os detalhes que faltavam, nomeadamente, o céu e a paisagem ao fundo.
Essa tela a óleo marcou o início de uma nova era na pintura, posterior à Antiguidade Clássica, na qual o nu feminino surgiu como tema central. Neste quadro, a sensualidade da figura feminina foi claramente expressa embora a nudez tenha sido representada como um fato natural, já que a deusa se encontrava ao ar livre, em meio à natureza e entregue ao sono. A estrela de um curioso enredo onde se misturam erotismo e inocência.
Tendo concluído a Vênus Adormecida de Giorgione, o pintor Ticiano Vecellio, também veneziano e renascentista, resolveu pintar a sua própria deusa. E então nasceu a segunda Vênus, chamada de a Vênus de Urbino, uma das mais importantes pinturas de natureza mitológica, um tesouro do Alto Renascimento veneziano, mas ainda uma versão Iacônica de nu feminino reclinado.
Ticiano - Vênus de urbino - 1538 (imagem wikimedia commons)

Nessa pintura, Ticiano retratou uma jovem e nua Vênus, como a sua antecessora, também despida e reclinada, mas acordada e morando em um palácio. Embora a pose da figura fosse essencialmente a mesma da Vênus anterior, o erotismo que emana deste quadro de Ticiano é mais acentuado e nos parece que a inocência, na nova cena, desapareceu.
O trabalho de Ticiano é o mais provocador de todos os seus nus, e, noves fora o corpo da figura, o seu rosto nos diz eloquentemente que ela está disponível e que não é indiferente a alguém. Os criados ocupados sugerem que uma cama de casal foi preparada e nos fazem imaginar um casamento de antigamente.
Ticiano domesticou a Vênus, colocou-a num ambiente fechado, envolvente e sensual, sem as clássicas conotações alegóricas divinais e nos apresentou uma mulher a desejar ser propriedade, mas não uma mulher a manifestar desejo.
A Vênus ticianesca olha diretamente para o espectador, sem se preocupar com sua nudez. Ela segura um ramalhete de rosas, um dos símbolos do amor e é guardada por um cão, um dos símbolos da fidelidade.
O que faz a pintura de Ticiano única e erótica é a expressão ilegível nos olhos levemente esfumaçados da modelo. Se por um lado Vênus está se expondo de uma forma profissional, por outro, há algo de confiança, algo de inocente, de namorada, de noiva na franqueza desse olhar.
Essa pintura foi encomendada a Ticiano por Guidobaldo II della Rovere, o duque de Urbino, possivelmente para celebrar seu casamento e, curiosamente, para que seu conteúdo abertamente erótico fosse usado como uma cartilha para a futura duquesa, a jovem aristocrata Giulia Varano.
O talento excepcional de Ticiano, sua representação corajosa da sensualidade feminina, fez com que essa pintura eclipsasse a de Giorgione e que se tornasse a fonte de muitas outras imagens polêmicas da arte ocidental, como por exemplo, a Maja Desnuda de Goya e a Vênus ao Espelho de Velasquez.
La Maja Desnuda foi encomendada pelo Primeiro Ministro da Espanha Manuel de Godoy, para sua coleção particular de arte erótica. Goya também pintou a irmã gêmea da senhora - La Maja Vestida! - em pose idêntica.
Diz Dona Lenda que a mulher retratada era de duas uma: Pepita Tudó, a jovem amante de Godoy ou a Duquesa de Alba, com quem Goya supostamente se envolvera romanticamente e cujo rosto ele pintou duas vezes.
A pintura se tornou lendária pelo olhar direto e desavergonhado da modelo e Godoy curtiu a tela por seis anos antes dela ser descoberta pelos da Santa Inquisição Espanhola na primeira década do século XIX, juntamente com outros picantes itens da tal coleção.
Levado à barras de um tribunal Godoy foi forçado a delatar os artistas que tinham cometido as obras de arte confiscadas. Goya escapou por pouco da condenação pois o tribunal aceitou como válida a tese da defesa, qual seja a de que ele estava apenas seguindo uma tradição pictórica e as pegadas do grande Velázquez e pintando de frente a Vênus Ao Espelho que o outro já pintara de costas.
Goya - A Maja Desnuda (1800) - Velkásquez Vênus ao Esoelho (1648) imagens wikimedia commons

Botaram a culpa em Diego Velázquez – um mito e o principal artista do século de ouro espanhol – há muito tempo morto e sepultado.
A pintura de Velázquez nos apresenta a deusa se olhando em um espelho segurado por Cupido, seu filho, o deus romano do amor físico. Nessa obra, o único nu feminino feito pelo mestre espanhol que chegou aos nossos dias, Velázquez combinou duas poses clássicas de Vênus: reclinada sobre um sofá e se olhando em um espelho, embora isso seja fisicamente impossível, já que os observadores podem ver sua face refletida na direção deles.
De resto, na antiguidade a Vênus de costas fora um símbolo erótico comum. O artista aboliu do cenário a parafernália mitológica: as joias, as rosas e a murta e, ao contrário da maior parte dos retratos prévios da deusa enfeitada com vastas cabeleiras claras, a Vênus de Velázquez é morena.
E assim as Vênus salvaram Goya da fogueira! (rsrs)
Porém há outras Vênus da Modernidade morando no Museu D’Orsay que merecem ser vistas com calma. Apreciamos, de forma especial, as Vênus de Paul Cézanne e de Edouard Manet, que no século XIX pareciam conhecer e perseguir aquele ditado:
“Falem mal mas falem de mim”.
As versões deles da Vênus de Urbino batizadas de Olympia, foram as pinturas mais polêmicas do século XIX, horrorizando tanto críticos quanto público quando foram exibidas pela primeira vez, apesar da nudez feminina reclinada nada ter de novidade. 
Mas as Olympias... ficam para as próximas conversas.


5 comentários:

  1. 1) Bom artigo, belas fotos, belas modelos, belas pinturas...

    2) Bela Natureza, belas Deusas...

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  2. Mônica Silva09/06/2017 11:06

    Gostei muito da história das vênus, Moacir. Do jeito que você explicou como era pecado mostrar a beleza do corpo humano e então 'botavam a culpa' nas deusas. Legal ver que o erotismo sempre existiu só que os homens de antigamente colecionavam quadros açucarados e os de agora fotos 'picantes' em pastas secretas kkk. Mas como não pintaram somente mulheres peladas e o que tem de deuses gregos lindos e sem roupa na arte é um espanto acho que todo mundo tem tipo uma fascinação pela beleza dos corpos nus onde o sexo é só uma parte. Obrigada!

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  3. Olá Moacir,
    Se muitas Vênus já jogaram , e ainda jogam , homens na fogueira, delas salvaram Goya. Muito bom!
    E por que as Olympias horrorizaram tanto? Doida pra saber! Às peladecas, pois.
    Até mais.

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  4. Moacir Pimentel10/06/2017 10:24

    Atrasado passo por aqui só para dizer à Donana que nada de spoilers (rsrs) e "gratidão" ao vizinho Antonio pelo comentário muito mais "belo" do que mereço e para concordar com a Mônica. Quanto à sugestão da Flávia que nada teve de intrometida preciso verificar com o nosso Editor se será possível mas deixo registrado, por enquanto, o link do post anterior que na verdade não é indispensável à leitura das Vênus mas que fez parte sim de um longo texto dividido em "franquias" :

    https://conversasdomano.blogspot.com.br/2017/05/desvelando-o-simbolismo.html

    Obrigado a todos pela leitura e comentários, bom final de semana e abraço geral

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  5. Flávia Lins10/06/2017 13:35

    Moacir,

    Uma bela aula sobre os gloriosos nus femininos na arte num artigo que fiquei com a impressão que é a continuação do anterior sobre o Museu d'Orsay. Senti vontade de reler mas não me lembro do título nem sei procurar no arquivo. Sugiro que no final das pautas você coloque o nome das matérias que têm relação com o assunto. Perdão se eu estiver enganada e sendo intrometida. A intenção é a melhor possível.


    Um abraço para você

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