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08/06/2017

Templários na América, antes de Colombo?

A Pedra de Kensington - fotografia de Louise Lund Larsen (1910)

Wilson Baptista Junior
Não sei se esta pedra aí em cima parece familiar para vocês. Eu pensava que sabia tudo sobre ela, até hoje de manhã...
Sabia que ela tinha sido desenterrada em 1898 por um fazendeiro sueco, envolvida pelas raízes de uma árvore que ele derrubou para limpar terreno para arar, numa fazenda no estado de Minnesota, nos Estados Unidos.
O fazendeiro, Olof Ohman, era um imigrante sueco. Percebendo nela sinais que pareciam runas gravadas, Olof levou a pedra para a cidade vizinha de Kensington. Daí o nome com que a pedra ficou conhecida, A Pedra de Runas de Kensington.
Enviaram uma cópia das inscrições para a Universidade de Minnesota, para ser estudada pelos especialistas de lá. A cópia não foi bem feita, e a tradução que o professor de línguas e literatura escandinava conseguiu fazer das runas gravadas na face da pedra foi mais recentemente revista e corrigida para mais ou menos assim:
“Oito homens de Gotland e vinte e dois Noruegueses numa viagem de exploração ao oeste da Vinland. Acampamos com dois abrigos a um dia de viagem ao norte desta pedra. Um dia saímos para pescar, quando voltamos para casa encontramos dez homens rubros de sangue e mortos. Ave Maria, salve-nos do mal”
E no lado da pedra:
“Deixamos dez homens junto ao mar para vigiar nossos navios, a quatorze dias de viagem desta ilha. Ano de 1362”.
O pobre Olof nunca imaginaria a tempestade que se abateria sobre ele. Os especialistas da época, trabalhando em cima da cópia defeituosa das inscrições, não acreditaram na autenticidade da pedra e a declararam uma falsificação, e ainda por cima mal feita. Chamado de mentiroso e falsificador, naquele tempo em que um fio de barba valia como compromisso, Olof caiu em desgraça, embora mantivesse sua versão da história até sua morte.
Doze anos depois da descoberta da pedra, um geólogo fez pela primeira vez um exame cuidadoso da pedra, e não da cópia das inscrições. Examinando o desgaste da pedra, concluiu que as inscrições tinham sido feitas perto de quinhentos anos antes. Era, então, muito possível que a pedra fosse realmente uma pedra de runas gravada em 1362. Infelizmente seu relatório foi desconsiderado ante as opiniões dos especialistas, que só tinham examinado a cópia das inscrições, e ficou esquecido. Um sério ponto de controvérsia era o trecho da inscrição que falava do acampamento numa ilha, a quatorze dias de viagem do mar, e a região da fazenda do descobridor seja seca e esteja muito distante de qualquer massa de água.
Só vinte e sete anos depois do estudo do geólogo  se descobriu que do século IX até o século XIV aquela região era coberta de lagos e riachos. Na época de Olof ninguém tinha como saber disso.
Mesmo assim continua a haver discussões. Nem a descoberta, nos rochedos próximos da fazenda de Olof, de furos triangulares iguais aos feitos pelos navegadores nórdicos para amarrar seus navios foi bastante para acabar com a controvérsia. Linguistas debatem ainda os aparentes anacronismos na linguagem das runas. A presença dos marinheiros vikings naquele ponto do continente americano, embora não possa ser totalmente descartada, não é ainda amplamente aceita.
Até aí eram informações antigas para mim. Mas agora vem a parte que eu não conhecia, e que me surpreendeu: no ano 2000 investigadores pediram a um laboratório petrográfico, cujo dono nunca tinha ouvido falar da Pedra, fizesse outra análise aprofundada. Com equipamento moderno ele determinou, pela deterioração da pedra abaixo de sua superfície, que ela tinha ficado pelo menos duzentos anos enterrada. Descobriu também que três das runas correspondentes à letra “R” tinham gravadas em seu interior uma série de pontos que só tinham sido vista antes nas lápides do século XIV gravadas pelos monges cistercienses um cemitério na ilha sueca de... Gotland, de onde a inscrição dizia que oito dos marinheiros eram naturais. E estas letras pontilhadas nunca tinham sido identificadas em lugar algum antes de 1935.
Bom, e daí? Isso apenas provaria a autenticidade da pedra. CQD, como dizíamos ao provar um teorema na escola. Só que tem coisa mais interessante...
Scott Wolter, o geólogo responsável pelo estudo, continuou a pesquisar a pedra e determinou que ela tinha sido feita como um marco de conquista, e que tinha sido enterrada propositalmente com marcas entalhadas nos rochedos próximos indicando sua posição original. E que tinha uma letra rúnica (o X com gancho) raramente encontrada. A letra X era o símbolo da dualidade e o equilíbrio entre o homem e a mulher, e segundo Scott o gancho, saindo de uma das pernas do X, simbolizaria os filhos e o desejo de perenidade da estirpe pela linha de sucessão. O símbolo nessa forma seria utilizado na escrita dos monges cistercienses.
Os monges cistercienses foram os fundadores da Ordem dos Templários, e sobreviveram à destruição da Ordem em vários locais incluindo Gotland.
Wolter pesquisou também as ruínas de uma torre em Newport, Rhode Island, que se acreditava serem as ruínas de um moinho do século XVII e que se supunha construído pela família de Benedict Arnold, o general americano traidor que desertou para os ingleses durante a Guerra da Independência.
A Torre de Newport - imagem de Matthew Trump, Wikimedia Commons
Ele diz ter determinado, pelas dimensões da torre, que a unidade de medida usada na sua construção deve ter sido o alen norueguês (pouco mais de 63 cm) em vez doinglês (30,4 cm). Também as marcas das ferramentas usadas para lavrar as pedras não correspondem às das ferramentas coloniais da época, mas podem ser comparadas com as ferramentas europeias medievais. A sua conclusão é que a torre muito provavelmente foi construída antes da chegada de Colombo à América, e provavelmente era utilizada como um ponto de referência para os navios nórdicos.
Scott publicou um livro em 2008, “The Hooked X: Key to the Secret History of North America”, em que procura demonstrar suas teorias, que se estendem bem mais do que apenas o que contei aqui. A discussão continua. Discute-se a competência de Scott para o que extrapola a parte estritamente geológica. Discute-se se ele realmente não tinha ouvido falar da pedra antes de estudá-la. Não sabemos, no final, o que se provará, ou se se provará alguma coisa. Não sabemos até que ponto sua pesquisa é isenta, principalmente quando faz ligações, digamos, um tanto ocultistas. Mas que não deixa de ser interessante imaginar monges templários chegando antes de Colombo, tomando posse de terras e construindo torres de vigia na América do Norte, lá isso é... 

A reportagem que me despertou a curiosidade, e que (spoiler!) obviamente foi escrita por alguém que acredita piamente nas conclusões de Scott está aqui:

4 comentários:

  1. Moacir Pimentel08/06/2017 17:39

    Wilson,
    Um post muito interessante porque é perfeitamente plausível que muitos outros europeus tenham estado por paragens americanas muito antes do genovês como nos enganam os nossos livros de História. Afinal sabemos que no século XI os nossos amigos vikings estiveram no extremo norte do Canadá deixando em L'Anse aux Meadows, entre outras pegadas, uma metalurgia embrionária (rsrs) Na verdade o que me parece estranho é que, até a década de sessenta do século passado, ninguém tenha cogitado por quais cargas d’água essa cultura marítima com habilidades navais e tecnologias extremamente sofisticadas, que atacara a Escócia, fizera miséria pela Escandinávia, conquistara a Normandia, veraneara pelas ilhas do Atlântico Norte e povoara a Groenlândia, NÃO teria desembarcado na América do Norte. Creio que a pergunta hoje é por que eles não ficaram? Por que falharam colonizando o continente se outros europeus conseguiram? Afinal, os vikings eram marinheiros consumados e invasores tarimbados e tinham todas as vantagens tecnológicas sobre os povos indígenas da América que sabemos possuem sim, DNA semelhante ao dos asiáticos, mas que também carregam algumas variantes de DNA que são encontradas apenas em europeus. Fato que só pode ser explicado se considerarmos que os nossos ancestrais da Idade da Pedra eram capazes de navegar barcos oceânicos em tempos de mares menores e continentes mais próximos . E então por que não os medievais templários ou marujos de Gotland em 1362?

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    Respostas
    1. Wilson Baptista Junior10/06/2017 14:49

      Moacir,
      De L'Anse aux Meadows até Newport não seria muito difícil para os barcos Vikings, e dali para os grandes lagos e para o oeste, quem sabe? Também acho que ainda vamos saber muito mais sobre as ligações do Novo com o Velho continentes. Afinal, depois do Thor Heyerdahl com a Kon-Tiki, duvidar da coragem e capacidade dos marinheiros antigos quem há de? O certo é que desde que o mundo é mundo nossos antepassados tiveram a ousadia de ir cada vez mais para longe. Agora é a vez dos nossos filhos e dos nossos netos de irem mais, muito mais longe ainda. Só tenho pena de não estar aqui para ver onde os quixotinhos de nossos quixotinhos chegarão...

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  2. 1) Genial a notícia do Wilson e o comentário do Moacir.

    2) Aproveito para falar sobre artigo que estou preparando: "Mil anos ante de Colombo chegar à América, dois monges budistas chineses aportaram nas costas da Califórnia, México e Guatemala"

    3) Fonte: "Influencias de Ásia en las culturas precolombinas", livro publicado na Argentina.

    4)Isso mesmo, um milênio antes de Colombo !

    5) Abraços !

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    Respostas
    1. Wilson Baptista Junior10/06/2017 14:52

      Antonio, já tinha ouvido muitas coisas sobre as civilizações pré colombianas, mas nada sobre esses navegadores budistas. Deve ser muito interessante, por favor nos conte.

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