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26/06/2017

Toda A Leiteira

Vermeer - A Leiteira - 1657 (Google Art Project - wikimedia commons) 

Moacir Pimentel
A Leiteira é retratada como uma garota jovem, de rosto comum e largo de camponesa e absorta no seu ofício tal como acredito que Vermeer esteve enquanto a pintava.
A concentração dessa jovem robusta executando, com toda a atenção, a tarefa de despejar o leite na vasilha de barro, contribui para a impressão de quietude que a cena passa. O que o pintor nos sugere é que o único ruído nessa cozinha é aquele do leite caindo de um recipiente no outro. O ambiente é profundamente íntimo e o tempo nele parece imóvel.
Essa mulher faz o seu dever de casa, mas há uma sensação de luminosa quietude, de um corpo habitado por uma alma, de uma casa onde mora uma família, de sacralidade temporal.
Discordando de muitos especialistas, acho que nessa Leiteira não há vislumbre de sorriso, nem mesmo de um daqueles no estilo da Mona Lisa. Com metade do rosto na sombra, é impossível ter certeza se a Leiteira está perdida em devaneios e muito menos sobre o que a moça pensa.
Tudo o que é evidente para mim é que a garota não pode derramar o leite fora da tigela. Mas muita gente boa jura que ela está sorrindo sutilmente, meditando sobre algo diferente do que está fazendo, como todos nós fazemos quando realizamos tarefas rotineiras.
Em nenhuma outra tela de Vermeer uma outra figura é tão escultórica quanto essa Leiteira nem outros objetos são aparentemente tão tangíveis. Coexistem nessa cena sensações táteis e ópticas.
Na arte da pintura estamos mais acostumados com as abordagens ópticas à realidade, em vez das abordagens táteis. Mas nessa obra de Vermeer é como se pudéssemos tocar a figura, rasgar o pão e beber do leite sob a luz do dia nascendo na janela através dessa fresta que, muito inteligentemente, nos mostra primeiro a intensidade da luz do dia lá fora, antes dela se espalhar ao longo da parede caiada no fundo e da outra parede mais sombria e mofada que recua à esquerda.
Nesse espaço pictórico que tem inúmeras características dignas de nota pode-se sentir a umidade da sala, sob a luz natural do sol, e é quase palpável essa jovem criada despejando suavemente leite fresco e cremoso de um belo jarro para outra vasilha de barro feita à mão.
Essa é uma imagem tão natural e é tão rica em seus detalhes que você pode quase sentir a textura áspera da parede e da  cesta, a superfície ligeiramente porosa da tigela que, juntamente com os pontos de luz utilizados aqui e ali dão ao quadro uma extraordinária vitalidade.
A composição é uma alternativa artística que parece tão natural que é como se a gente tivesse atravessado a porta da cozinha e se deparado não com a realidade mas com uma imagem construída: a mesa, o chão e a janela são retângulos que equilibram a figura triangular da criada.
A intenção de Vermeer ao pintar tal cena foi dar ao observador a sensação de estar sentado à mesa, em uma cadeira no primeiro plano olhando para cima para contemplar a Leiteira. A forma como ela se eleva como uma escultura acima do nível da mirada dá-lhe uma presença dominante, uma espécie de dignidade. Só falta a quem observa dar-lhe bom dia, iniciar uma conversa e tentar conhecê-la, mesmo que meio intimidado por essa figura que sabe exatamente o que faz e está ocupada demais para papos furados (rsrs).
Tudo na tela gira em torno do jarro de leite, conectando e contrastando a natureza dinâmica do seu derramamento com a natureza estática da sala e da natureza morta sobre a mesa.

Enquanto a Leiteira é vista de baixo para cima, a superfície dessa mesa foi pintada de um ponto de vista ligeiramente mais elevado, além de estar inclinada para a frente, de maneira a propiciar ao observador a visão clara dos objetos à mostra. A sutil discrepância de perspectivas permite que Vermeer controle o tema e a visão do público.
Sabemos que Vermeer removeu impiedosamente qualquer coisa que pudesse desviar a atenção dessa ação central. De acordo com pesquisas de raios-X, a pintura originalmente continha dois outros objetos: um grande mapa na parede e uma cesta de roupas, ambos situados atrás da Leiteira e posteriormente apagados.
Vermeer era considerado um mestre na observação do cotidiano e conhecido por ser atento aos mínimos detalhes de uma cena. Isso é evidenciado na obra pelos dois pregos na parede. Veja:

A parede lisa por trás da figura absorve e capta a essência completa da luz que cai sobre ela e nesse universo destacam-se o pote de cobre altamente polido e a cesta pendurados nela e, mais acima, dois simples pregos um deles contemplado até com a sua sombra.
Vermeer é identificado pela sutileza no trato da luz, pela variação dos valores tonais, pelo uso do claro-escuro. Note que a luz que vem da janela se reflete diretamente sobre o rosto da Leiteira em sombras pálidas, criando um efeito de tridimensionalidade. A janela é a única fonte de luz do cômodo e é a iluminação proveniente dela que realça o recipiente de latão sobre a parede sombria.
Assim a janela também se torna um dos temas centrais desse quadro. Veja como Vermeer deu a máxima atenção a cada detalhe dessa janela rústica como, por exemplo, o pedaço de vidro quebrado ou a irregularidade da moldura. As janelas se tornariam nos trabalhos mais maduros do artista tão estilizadas geometricamente que em alguns casos elas parecem obras de arte abstratas em si mesmas.
A simplicidade do corpete amarelo e do avental azul cintila para nós, bela não por si mesma mas porque a luz inventada por Vermeer faz tudo brilhar e compartilhar o próprio brilho.
A leiteira usa grossas roupas de inverno pintadas com espessas pinceladas: uma blusa de camurça e um avental azul sobre uma saia de lã vermelha. As vestes têm um sentido muito tátil, a rugosidade do couro e tecitura dos fios quase presentes na tela resultando de várias e camadas de tinta aplicadas até dar às peças a textura áspera necessária. Veja como as cores são essencialmente as primárias: amarelo, vermelho, azul. A única mistura é o verde que aparece nas mangas da Leiteira. Tudo isso cria uma sensação de paz, harmonia e tranqüilidade.

Na mesa e bem ao lado da tigela rústica se encontram outra jarra de um azul profundo iluminado por desenhos brancos, uma cesta de pães de aparência crocante e, mais à direita da mesa, o que nos parece ser pedaços de pão dormido com os quais a moça pretende fazer provavelmente uma clássica receita da culinária local.
A variedade e a quantidade de pão sobre a mesa e o extremo cuidado com que a moça derrama o leite na tigela são elementos que dão grande significado à composição final pois sugerem que ela está fazendo o famoso pudim de pão – um prato básico da mesa holandesa! - para não desperdiçar o pão dormido, e vertendo o leite atentamente para nem perder a medida certa nem deixar cair na massa a pele formada em cima do leite e assim estragar a receita. Como Vermeer tinha que alimentar suas onze crianças então essa criada está fazendo algo muito prático e que faz todo sentido.
É uma cozinha bastante espartana, decorada apenas pelas cestas e o vasilhame ao lado da janela à esquerda e pela pequena caixa de madeira, na verdade um aquecedor de pés ali no chão à direita.
Visto de longe, o pão na cesta aparece de forma convincente e realista, ao passo que, se observado de perto, é possível ver claramente que ele foi elaborado por incontáveis salpicos de tinta. O desenho formado no pão e na cesta por tais pontos brilhantes e grossos de tinta mais clara sugere luzes cintilantes e texturas ásperas ao mesmo tempo.
A cesta e o objeto de cobre ao lado da janela são objetos usados para fazer compras no mercado e, portanto, são ambos elementos relacionados à temática da pintura: o leite. A cesta é pintada usando o branco, o ocre e o preto, que eventualmente se misturam para imitar o vime. Isso me faz pensar que Vermeer usou essas três cores repetidamente na pintura. É provável que ele voltasse sua atenção para cada detalhe, deliberadamente colocando os objetos e escolhendo a moldura da leiteira de acordo com um determinado espectro de cores e padrão de textura.
Porém...
Uma obra de arte não é apenas uma mera pintura em que determinada imagem é representada. É também uma maneira de representar a realidade, capturando a personalidade do pintor em cada pincelada e até mesmo refletindo a mentalidade e as preocupações de um determinado tempo. Telas são como páginas de um diário, como cartas secretas. Conhecê-las é entender tanto o artista como o que está além dele. Sempre vale a pena aprofundar a análise de obras de arte e contextualizá-las para examinar seus mistérios e motivos ocultos sem esquecer jamais do poema do Drummond para o bruxo do Cosme Velho – o grande Machado de Assis !- no qual o poeta dizia que Marcela ria “com expressão cândida (e outra coisa)”.
Devido às fortes doutrinas do calvinismo, os artistas da época não podiam retratar o sexo em suas pinturas. No entanto, Vermeer soube contornar os censores deixando nessa obra de arte símbolos eróticos sutis - por favor capriche no sutil! - que evocam a luxúria ou a sexualidade feminina.
Sucede que as leiteiras e as moças do mercado assim como as criadas domésticas carregavam, desde o século XV, a fama de serem predispostas a algo mais do que os afazeres dos seus ofícios. Elas tinham uma reputação de disponibilidade física e sexual.
Parece-me evidente que Vermeer estava bem familiarizado com tal fato da vida já que as supostas predisposições amorosas das criadas já tinham servido de tema - pelo menos nos dois séculos antes do seu tempo! - para quase todos os pintores holandeses em obras que variavam de tom, indo do obsceno ao vagamente sugerido, do grosseiramente erótico ao sutilmente sugestivo, como fez Vermeer nessa pintura na qual os estudiosos são unâmines ao afirmar que existe uma mensagem erótica secreta com o objetivo de despertar a libido dos observadores.
Segundo os doutos, na Holanda seiscentista, a forma da jarra e o derramamento do leite tinham conotações lascivas, o aquecedor de pés no chão e os carvões reunidos dentro dele eram símbolos muito comuns dos sentimentos amorosos e da paixão ardente e oculta de uma mulher por seu amado porque aqueciam-lhe não só os pés, mas tudo sob as longas saias de então (rsrs)
Ora, Vermeer sabia que os espectadores da tela estariam cientes dessa longa tradição. Assim, ele se beneficiou da reputação das “leiteiras” e da tradição artística para sugerir sutilmente que o romance estava na mente da sua personagem. Tem mais “sutilezas”. Se tem uma coisa que aprendi nessa vida é que, assim como as mulheres, também os historiadores da arte quando procuram... acham.
Na parte inferior direita, mais precisamente no rodapé da parede traseira atrás da moça, vemos uma fileira de azulejos de Delft, uma cidade famosa por sua cerâmica azul e branca. Um dos azulejos no friso é decorado pela figura de Cupido, com seu arco estendido na frente dele, simbolizando o amor, a atração e a potência sexual. Em seguida – dizem! - noutro azulejo vê-se a imagem de um homem de pé com um cajado e o que parece ser uma mochila nas costas, possivelmente um viajante e, nas horas vagas, o amante da retratada. Há ainda um terceiro azulejo mas o desenho nele é ilegível. De forma deliberada (rsrs)
A justaposição de uma leiteira, de um Cupido, do arco e da flecha, da figura de um viajante e do pequeno aquecedor aos pés da figura feminina eram, tanto tempo faz e ao que parece, uma óbvia sugestão de que a moça estaria tendo pensamentos quentes sobre um amor ausente. À época tudo isso era nitroglicerina pura! (rsrs)
Sentado diante do meu teclado, aqui no século XXI, eu sinceramente acho tais teorias “sexuais” para os motivos dos azulejos academices fantasiosas e muito divertidas. Até porque enquanto existir o homem sobre a terra rolará o erotismo e enquanto o mundo for mundo homens olharão para mulheres e vice versa e não para supostos azulejos “pornográficos” que eram produzidos em série pelas cerâmicas de Delft e moravam em todos os rodapés que protegiam o gesso de todas as paredes do dano diário de todas as vassouras em todos os lares holandeses de então.
Para mim o corpo da leiteira é o centro de atração do espectador: a touca branca cobrindo-lhe os cabelos, a espessura de sua cintura, as mangas enroladas de sua túnica revelando os braços grossos, o contraste entre o couro áspero da roupa com a nudez carnuda e pálida dos antebraços expostos, os ombros arredondados. Ela não é uma beleza delicada, nenhuma abstração idealizada, mas uma pessoa real e forte de carne e osso, uma mulher de verdade do seu tempo.
É claro que, assim como foi o caso de outras mulheres jovens na sua obra, Vermeer trata um tema bastante comum, de uma forma incomum e única e que sim, essa Leiteira pode ter sido idealizada para encorajar as fantasias de um observador. Mas terminou foi por incentivar a criatividade dos especialistas em pintura.
A “sutileza” de Vermeer ao evocar o erotismo com esses símbolos tão pueris que hoje são vistos como simples objetos domésticos, na minha opinião, só seria entendida na Holanda do século XVII por observadores sofisticados e cultos conhecedores de arte, como por exemplo o futuro dono da tela Pieter van Ruijven, com quem o pintor deve ter discutido seus detalhes.
Para um homem do povo, para os marinheiros e mercadores e burgueses, tais sugestões de sexualidade não significavam nada e eram um elemento de “fantasia” tão eficaz quanto as sombras nas paredes caiadas.
A Leiteira só se tornou um sucesso dois séculos depois de ter sido pintada, durante o século XIX quando foi percebida e traduzida como um símbolo da virtude doméstica talvez devido às coincidências entre a moral vitoriana de então e a ética holandesa do século XVII.
Os críticos do século XIX estavam essencialmente corretos sobre o significado desse quadro enganosamente simples que retrata a própria essência da virtude caseira e o cerne bíblico do protestantismo:
“Com o suor do teu rosto comerás o teu pão”.
Há uma escultura da Leiteira e sua mesa na cidade de Delft, em tamanho natural, traduzida em uma espécie de abstração concreta, mas perfeitamente reconhecível.
O fato é que desde a metade do do século XIX a Leiteira passou a ser vista como uma espécie de heroína do povo, uma pessoa boa e decente e direta, uma mulher da classe operária extremamente diligente, que executava feliz da vida um trabalho duro e que era muito boa no que fazia: tomar conta de uma tradicional família holandesa.
É bem verdade que o trabalho árduo é expresso em toda a composição, que ao contrário de outras pinturas de Vermeer, não faz absolutamente nenhuma concessão à aparência ou ao conforto. Em vez disso, olhamos para uma cozinha de paredes ásperas, pão rústico, madeira nua, cestos grosseiramente elaborados e uma empregada doméstica com características contundentes focada na reciclagem de alimentos obsoletos para fazer um prato apetitoso para os patrões. Só que Vermeer, ao contrário de seus colegas das tintas, trata a jovem com apreciação e dignidade.
É importante saber que já se pensou diferentemente sobre essa Leiteira quando ela foi pintada do que pensam hoje e diariamente as milhares de pessoas que a estão apreciando na exposição do Louvre. Mas acho que a primeira coisa que todos sempre notaram e notam e notarão ao contemplar a Leiteira é o seu ilusionismo surpreendente, a atmosfera caseira obtida pela natural luz do dia, as formas de foco suave, a figura e os objetos que parecem morar no espaço e fazem da cena uma visão convincente.
O ilusionismo de Vermeer, um dos grandes mestres da luz, foi aquilo que transformou A Leiteira em uma obra-prima. Hoje pensamos na arte, de certo modo, como o oposto da realidade fotográfica, mas na época de Vermeer, ela era entendida como um novo estilo e uma criação do artista.
Assim, todo esse ilusionismo e o realismo criado por ele, tem sido interpretado - desde o colecionador seiscentista aos leigos do terceiro milênio - como um exemplo de virtuosismo e gênio artístico.



13 comentários:

  1. 1) Obrigadíssimo Moacir, como já falei, gosto muito desse quadro.

    2)Uma interpretação que muitos podem discordar, mas eu gosto de vê-la assim:

    3)Esse véu que a Leiteira usa é característico das mulheres protestantes logo no início da Reforma. E até hoje a Holanda é uma sociedade de predominância Reformada (presbiteriana).

    4)Deduzo que a jovem está orando, ao preparar o alimento, solicitando as bênçãos do Criador para todos aqueles que vão se alimentar com aquela refeição.

    5)O pão é integral, indicando a qualidade boa do trigo e do forno (reflexões de um padeiro etrusco)...

    6)A cor azul é o Céu, o firmamento que deve embasar os nossos alimentos, abençoando-os, envolvendo-os em boas vibrações, comidas e utensílios. O amarelo é a iluminação, a Luz da Mensagem Divina e o véu branco é a conexão com o Alto, como se fosse antena ou radar...

    7)Lembro então que, todo dia, ainda escuro, minha mãe levantava-se, ia na padaria comprar leite e pão e preparava o café da manhã para nós, os filhos, e depois seguíamos para escola.

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    1. Moacir Pimentel27/06/2017 17:40

      ​​Vizinho etrusco,
      Gostei! Creio que o objetivo da conversa não é estabelecer uma única, verdadeira e eterna “tradução” para obras de arte mas sim buscar interpretações construtivas e originais que provoquem pensamentos interessantes.
      Confesso que, talvez por nunca ter aprendido a, não havia considerado a possibilidade da moça estar rezando no silêncio da cozinha enquanto prepara a refeição matinal da galera. Mas por que não?
      O que me intriga nessa tela é justamente a incongruência entre a banalidade do que essa garota está fazendo - um pudim de pão! - e a absorção contemplativa com a qual ela executa a tarefa. Há aí nessa cena uma santa paciência, uma determinação silenciosa, uma quietude de movimentos, uma sensibilidade tátil, uma atenção meditativa que nos leva a pensar que, pelo menos para a Leiteira, o que ela está fazendo não é algo bobo ou servil que ela deseja terminar o quanto antes. Muito ao contrário, a sua ação parece ter uma importância quase litúrgica e algum significado profundo. Por estradas diversas nós dois chegamos a uma percepção comum: "a de um corpo habitado por uma alma, de uma casa onde mora uma família, de sacralidade temporal." Ou seja, nós somos de opinião que nessa obra de arte embora de formas diferentes o material e o espiritual convergem.
      Interpretar uma pintura é nos aproximarmos dela e responder à ela através das nossas vivências e referências. O seu comentário ampliou o meu texto trazendo a esperança renovada de que - graçasadeus! – sempre haverá ideias novas e territórios ainda desconhecidos.
      "Gratidão"

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  2. Mônica Silva26/06/2017 10:42

    Gostei da Leiteira, Moacir. A ‘sutileza’ só pode ser pegadinha kkk Mas quando você escolhe uma pintura e fala dela assim é muito bom. Vou lendo e olhando as fotos e tudo o que você diz está lá nos mínimos detalhes que eu nunca que ia conseguir ver sozinha por mais que olhasse. Obrigada!

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    1. Moacir Pimentel27/06/2017 17:43

      Mônica,
      Procure justamente o que eu não digo nas pinturas. Busque na arte aquilo que a atrai, faz sentido, lhe lembra alguma coisa que você quase esqueceu. Eu não sou abestado para tentar aqui definir Dona Arte mas acho que uma das suas maravilhas é carregar anexados além de imagens ou formas, significados. Descubra que arte lhe agrada mais ou menos sem dar ouvidos ao que os outros dizem dela. Talvez a sua arte predileta leve você às lágrimas ou faça você rir, talvez ela se atreva a ser diferente ou não se destaque na multidão , mas a SUA arte lhe será sempre compreensível, embora possa fazer você pensar de um jeito novo que nunca imaginou."Obrigado!"
      Abração

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  3. Flávia de Barros26/06/2017 12:58

    Moacir,

    Fora da pauta eu gostei muito do que li sobre Rembrandt e acho que você deveria escrever mais. A bela obra de arte de Vermeer é encantadora por que é uma cena familiar. Todos tomam leite e comem pão numa cozinha. Quando gosto de uma pintura é porque ela diz alguma coisa ao meu coração. Tenho da Leiteira triste e solitária uma opinião diferente da que você faz tão bem com suas palavras e da interpretação espiritualizada do Antônio.

    Um abraço para você

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    1. Moacir Pimentel27/06/2017 17:46

      Flávia,
      Quanto ao Rembrandt no momento não estou podendo escrever mas vou pensar no caso. Sucede que ele é um caso sério (rsrs) A linguagem de Rembrandt é imensa - ele pintou de tudo - estimulante e inspiradora mas exige uma concepção hostil às próprias noções que costumamos associar à arte, a saber: a beleza e o prazer estético. Veremos....
      Quanto à sua conversa com as telas é isso mesmo. As pinturas não terminam com a última pincelada do artista, mas continuam sendo construídas nas leituras diversas que cada um de nós faz de cada uma delas. Nessas horas, interferem nas novas versões personalizadas da mensagem pretendida pelo autor, as nossas vivências e bagagens, a atenção, a sensibilidade, a compreensão das emoções humanas, das moças que só de sê-lo não deveriam ser tristonhas.(rsrs)
      Outro abraço para você

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  4. Márcio P. Rocha26/06/2017 19:11

    Um texto impecável que consegue ser interessante ainda que o trabalho de Vermeer não faça a minha cabeça.

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    1. Moacir Pimentel27/06/2017 17:48

      Márcio,
      Não vou fazer aqui,de novo, a defesa do mérito da causa Vermeer (rsrs) Você gosta ou não gosta e pronto: estamos conversados. Mas sou de opinião de que arte não é uma questão de em qual século foi cometida. Ela não mora nem dentro do seu tempo nem completamente fora dele e passou por várias estações até se tornar o que é : parte do presente e relevante para o futuro que, acredite, "terá um coração antigo".
      Keep Reading!

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  5. Alexandre Sampaio27/06/2017 09:54

    Pimentel,
    Excelentes os dois artigos sobre a pintura de Vermeer pela contextualização cultural e histórica, condição sine qua non para o entendimento de uma obra de arte.

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    1. Moacir Pimentel27/06/2017 17:52

      Sampaio,
      Também acho o contexto importante para a cognição da arte que no entanto é mais do que a reconciliação entre um artista e o seu tempo natural, social, cultural e universal. Vale muito a pena sim levantar a ficha de uma obra de arte mas só isso não a explica e o bom mesmo é se perder nas suas tintas. Quanto ao que é ou não é arte, aí complica. Não existe um manual de instruções mas todos os que a fazem para valer, não importa em que contexto, partem do individual para contar um história universal, são capazes de perceber, entender e refletir , de forma sucinta e poética e inédita, verdades sobre as coisas essenciais da experiência humana e criam janelas - às vezes incômodas! - através das quais o mundo pode ser visto e reinventado.
      Muito obrigado pela leitura e comentário.

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  6. Olá Moacir,
    "Isto é que é post" como diz o seu amigo.
    Fico tão apaixonada com Vermeer que esqueço os críticos e as críticas e mergulho na tela e é com ela que converso. É bom ler sobre o quadro, saber não ocupa espaço.
    Mas é melhor deixar se ir na pintura, nos detalhes, nas cores e texturas.
    É quase uma fotografia, mas é muito mais. Tem toques de requinte. Tem o realismo ou realidade da cena intimista mas é outra coisa. Vermeer transforma esse realismo, esse contorno exato em uma coisa toda sua. É quase nítido, é quase real e é quase mágica.
    Acho que Vermeer já tinha uma alminha de impressionista. Não inventa a luz (nada contra) mas está sempre perto de uma janela aproveitando sua luz macia que mostra e esconde. Talvez, por isso, uns pensam que a moça sorri e outros que está imersa em suas funções cotidianas.
    A textura do tecido, os pespontos e botões, o pano que esconde os cabelos. Que cor teriam se ele os pintasse?
    A robustez campesina tem, como diz Francisco Bendl, altura e peso adequados.
    Os objetos meio que se escondem, metade nítidos metade apenas sugeridos. Não desvendo os azulejos, apesar da curiosidade. Prefiro adivinhá-los. E os pães? Quase dá vontade de comê-los. Mas a vontade para no ar para estudar a cor e a crosta. Não importa se a verdade virou mentira. Ou não.
    Até o leite com espuma e quase barulho é real mas é diferente. Assim os dedos delicados e firmes dobrados na alça da jarra.
    Preciso saber mais sobre as janelas. Conte me.
    Você foi espetacular. Como Vermeer quase com humor mas com toques de requinte. Junto com ele você constrói e desconstrói.
    Até sempre mais.

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    1. Moacir Pimentel27/06/2017 17:58

      Caríssima Donana,
      "Isto é que é comentário" (rsrs) E viva as tintas que, no caso de Vermeer, são "quase nítidas, quase reais e quase magia e não importa se a verdade virou mentira". Brava!
      Como temos pela frente mais três posts sobre o ilusionista acho que é prudente evitar os "spoilers" mas eu arrisco dizer-lhe que é o prezado Jan não inventava e sim descrevia, só que quando fugidos da paleta dele os fatos mais básicos da vida nos parecem transcendentes. Um paradoxo. Pois o cara era adepto da mais absoluta fidelidade óptica , de minúcias que eram quase táteis, da mais rigorosa inteireza das formas.Os seus quadros nos convencem de suas realidades, que no entanto e como a senhora diz não são as cotidianas, mas sim algo maior e mágico onde o que parece ser mostrado e o que realmente é revelado nem sempre coincidem.
      É claro que Vermeer corta, elimina, deleta mas nem notamos e a impressão que se e tem é a de absoluta verdade graças à compulsão que ele tinha pelos detalhes. Só que toda essa materialidade da paisagem tem efeito contrário e termina nos fazendo conscientes de fronteiras, digamos, mais largas e subjetivas.
      Continuo...

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    2. Moacir Pimentel27/06/2017 18:07

      Quanto às janelas assim como as misteriosas pinturas elas revelam e ocultam, prometem e negam, jamais parecem totalmente abertas ou fechadas nem transparentes ou opacas (rsrs) Para mim as janelas de Vermeer são os prefácios dos momentos evanescentes dele. Sem a "luz de janela" à esquerda não rolaria a busca quase metafísica desses instantes precariamente equilibrados que mais tarde deram de chamar de "fotografias".
      A pintura para Vermeer era a luz e para ela as janelas eram os pretextos ou os caminhos para criar fatos luminosos e ambientes de graça: o leite sendo vertido, uma carta sendo lida ou escrita, um instrumento sendo tocado.
      Nas obras mais precoces as janelas eram detalhadamente representadas, peças decorativas com vitrais definidos e coloridos, vidros realisticamente sujos e partidos e que tais. Aos poucos se tornaram formas geométricas e, nas obras mais tardias, foram amadurecendo para coisas abstradas até que Vermeer passou a não mais precisar delas para inventar a luz. Mas isso já é outra conversa.
      "Obrigado, obrigado, obrigado e até mais"

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