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04/06/2017

Budismo Chinês no Brasil Império

Vista Chinesa - fotografia de  Halley Pacheco de Oliveira (Wikimedia Commons)


Antonio Rocha
Os primeiros budistas a pisarem em solo brasileiro e aqui se estabelecerem eram imigrantes chineses. Praticavam o Budismo Chinês Devocional dedicado a Kuan Yin, bodhisatva (santa) da Misericórdia.
Maiores detalhes o leitor encontra no excelente “A China No Brasil”, tese de doutoramento em História da Arte, na Unicamp, de José Roberto Teixeira Leite, 320 páginas, formato grande, álbum, muitas fotos coloridas e em preto e branco. Publicado pela editora da Unicamp.
Desde o século XVI e até o começo da República, havia intercâmbio comercial entre a China e o Brasil. No século XIX, com o fim da escravidão, começaram a chegar algumas centenas de imigrantes chineses para trabalharem nos mais diversos setores da lavoura e do comércio.
Houve até a “Questão Chinesa”, setores do governo, na ocasião, preocupados com a “mongolização da raça”, visto que os imigrantes estavam implantando no Brasil a cultura do chá e outros aspectos da cultura chinesa, com o tempo esses imigrantes iriam casar com brasileiras, ter filhos “de olhinhos puxados” etc. Aliás, o Imperador Pedro II, era simpático ao então “Celeste Império”; na Floresta da Tijuca, temos um mirante chamado “Vista Chinesa” e um pequeno “Pagode” que significa templo budista. Que ele mandou construir.
O livro tem como subtítulo: “Influências, marcas, ecos e sobrevivências chinesas na sociedade e na arte brasileiras”.
Kwan Yin é a Deusa da Misericórdia do Budismo Popular, Energia de Bondade e Ternura que muitos identificam como Nossa Senhora, Maria, no Ocidente. Em japonês chama-se Kanon e em tibetano Tara.
Budismo Popular é aquele praticado pelo povão, na Ásia, pelas massas.
Por falar em Kwan Yin, belo dia entrei em uma lanchonete chinesa na Baixada Fluminense, na parede havia um belo quadro da referida Bodhisatva. Enquanto sentava naqueles bancos de balcão e fazia o meu pedido, apontei para o quadro, fiz a tradicional reverência budista e exclamei, em mandarim:
- Namo Kwan Shih Yin Pu Sa !
Equivalente a:
- “Louvada seja Kwan Yin a Deusa da Misericórdia. Senhora Mãe de todos os Budas” !
A chinesinha que estava no caixa perguntou espantada:
- Como você sabe ? !
- É que eu sou budista há mais de 40 anos – respondi.
- Nós também ! – Respondeu sorrindo feliz por ter encontrado um budista na ensolarada Baixada Fluminense.
Após fazer o lanche, pagar, me despedi:
- O Mi To Fo !
É um poderoso mantra em mandarim:
- Louvado seja o Senhor Buda Amithaba, Buda da Luz Infinita !
Os chineses responderam a saudação sorrindo.
Voltemos à citada tese de doutorado. Informa a editora:
“O presente livro compreende, além de uma parte introdutória geral, quatro extensas seções que quase podem ser consideradas outros tantos livros: ‘Usos e Costumes’, ‘Comércio, Agricultura, Imigração’, ‘Arquitetura e Paisagística’ e ‘Escultura, Pintura, Artes Decorativas’.
Em ‘Usos e Costumes’ são estudadas influências e marcas chinesas em hábitos e práticas da sociedade colonial luso-brasileira, como a moda masculina das unhas compridas e o fascínio pelos pequeninos pés femininos, o beijo olfativo ou ‘cheiro’, mesuras e reverências, o impacto emocional de eclipses, cometas e sinais celestes, medicina simbólica, condição social da mulher, fogos de artifício, papagaios de papel, sombrinhas e chapéus de sol, leques, brigas de galo, jogo do bicho etc.
‘Comércio, Agricultura e Imigração’ estuda os vínculos comerciais existentes entre a China e Brasil desde o século XVI até o fim do Império, detendo-se em aspectos particulares da agricultura, como o cultivo de chá e analisando em minúcias a chamada “Questão Chinesa” que se arrastou por décadas durante o século XIX, opondo os adeptos da imigração em larga escala aos que nela viam perigosa ameaça.
Nas duas últimas partes do livro são analisados aspectos arquitetônicos, paisagísticos da imaginária religiosa, da pintura e das artes decorativas reveladoras de maior influência chinesa.
Apêndices como “A lira chinesa” de Machado de Assis, ou “A China vista por brasileiros” fecham o volume, completado por extensa bibliografia e numerosas ilustrações.



4 comentários:

  1. Moacir Pimentel04/06/2017 09:22

    Antônio,
    Saindo um pouco - mas não de todo! - do tema do seu interessante post eu acabo de rascunhar sobre Sigiriya que é, talvez, a visão mais espetacular que Sri Lanka nos oferece e que para mim é inesquecível por causa dos seus maravilhosos afrescos.
    Sucede que há duas versões conflitantes, ambas budistas, sobre a história das ruínas e das pinturas. Uma delas jura de pés juntos que o local foi apenas um templo dedicado a Tara Devi retratada nas rochas como aquelas pinturas em Ajanta, por exemplo. A outra versão na crônica oficial da ilha - os livros Culavamsa! - escrita por mãos budistas afirma que Sigiriya foi uma fortaleza construída por um rei para sua própria glória e que as pinturas são das mulheres do séu harém pintadas para o prazer real.
    É interessante verificar como as tradições budistas divergiram e divergem profundamente no vasto mundo. Quem é leigo, como eu, não entende nada e quanto às estupendas pinturas de Sigiriya, budisticamente, termina teclando pelo "caminho do meio".(rsrs)
    Bom domingo e abração

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  2. 1)Oi Moacir, então, que o nosso querido editor publique logo essa maravilha sobre o Sri Lanka.

    2) Tenho especial gratidão por este pequeno país, pois, por duas décadas, 1970/1980, fui aluno de quatro professores monges do Sri Lanka que passaram temporadas no Rio, mais precisamente, no Templo Budista de Santa Teresa, que hoje não existe mais e estão reconstruindo em São Lourenço, MG.

    3)Minha filha foi batizada por um monge budista do Sri Lanka que se tornou amigo da família. Depois esse mesmo monge veio celebrar o casamento dela.

    4)Por essas e por outras, sou ligado no Sri Lanka...

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  3. Olá Antonio,
    Sempre nos ensinando aspectos do budismo. E assim vou perdendo um pouco da minha ignorância no assunto.
    Obrigada. Boa semana.
    Até mais.

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    Respostas
    1. 1)Obrigado Ana,

      2) Só posso falar, obrigado sempre !

      3) Obrigadão !

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