fotografia Moacir Pimentel |
Moacir Pimentel
Todos os anos, em julho e agosto, uma parte do Jardim das Tulherias se
transforma em uma animada festa – a Fête des Tuileries. Nela, é claro, não
poderia faltar um parque de diversões e nele uma roda gigante.
La Grande Roue de Paris não é tão famosa quanto a sua prima legítima
londrina - a London Eye! - e foi concebida para ser uma atração temporária nas
comemorações da virada do milênio. Mas fez tanto sucesso que foi ficando e
ficando e ficando.
A Roda em passes de mágica muda de lugar na cidade. Às vezes ela rodopia
no Jardim, às vezes na Praça. E todo ano Paris arranja uma desculpa para
prolongar-lhe a existência - diariamente das onze horas à meia-noite! No verão
ela mora no Jardim das Tulherias para a alegria dos turistas e, no inverno, ela
se muda para a Praça da Concórdia Iluminada com as cores da bandeira francesa e
passa a oferecer as vistas espetaculares das luzes piscando o fim do ano na
Champs-Elysées e na Torre Eiffel para o deleite dos parisienses.
Sim, a Roda apesar dos seus sessenta metros de altura e trezentas e
sessenta e cinco toneladas de peso é transportada com relativa facilidade: pode
ser erguida em setenta e duas horas e desmontada em sessenta por uma equipe
especializada comandada por seu proprietário, de nome Marcel Campion e de
reputação nebulosa. O certo é que a Roda dele, a cada ano, recebe trezentos mil
passageiros.
Ela é um pouco menor que a de Londres mas tamanho não é documento e o
que importa é o prazer que as vistas proporcionam. E a vista é de Paris, so
sorry...
Muitos acham um absurdo se colocar uma roda gigante em meio as Tulherias
poluindo de branco a verdura dos Jardim. Outros abominam a metálica presença
naquela que acreditam ser a Praça mais bonita do mundo quebrando a perspectiva
que se tem a partir do Arco do Carossel no Louvre, do Obelisco, do Arco do
Triunfo até o Arco da Defense.
Pode ser!
Mas já que o mal está feito, e olha que há dezesseis anos, aproveita-se
para dar uma volta. Melhor, duas voltas. Uma de dia e outra de noite.
Devido aos problemas legais e fiscais de Marcel Campion de vez em quando
nos últimos dezesseis anos ouvimos dizer que iriam proibir a Roda. Mas então os
manifestantes bloqueiam a Praça da Concórdia com caminhões ou acampam no Jardim
das Tulherias ou fazem panfletagem nas arcadas da Rua de Rivoli para protestar
a favor ou contra a famosa Roda Gigante da cidade.
Mas qual é o problema com o Monsieur Campion? Ele sonega e muito e, como
se não bastasse, o Ministério da Cultura acusou o proprietário da Roda, um senhor
muito ladino de setenta e seis anos, de ocupar ilegalmente locais de interesse
histórico.
Depois de anos de suspeita, Campion - ou pelo menos a sua empresa de
nome Fêtes et Loisirs - está finalmente sob investigação formal por vários
crimes, incluindo abuso de propriedade, evasão fiscal, lavagem de dinheiro,
favoritismo e envolvimento no crime organizado.
Foi aberto um processo para investigar sob quais condições a Prefeitura
de Paris assinou o contrato com o cidadão para a instalação da Roda Gigante
anualmente, no verão e no Natal, desde a virada do milênio até maio próximo.
No entanto, após os atentados terroristas, a cidade está desesperada
para atrair turistas depois de amargar uma queda dramática no número de
visitantes e não faz muito sentido proibir uma atração tão popular.
Veremos com termina o litígio.
Eu bem que tentei resistir quando tentaram me convencer a andar na
roda-gigante. Eu olhava para cima e olhava para as filas e mantinha a cabeça no
lugar e meus pés firmemente no chão e um livro nas mãos, lá no Grand Couvert –
a parte do Jardim das Tulherias sombreada pelas árvores – bebericando alguma
coisa em um dos cafés do Jardim: o Pomone ou o Very ou o Renard.
Até que fomos à cidade com a prole toda. E então não teve jeito: “Toma que os filhos são teus!” E lá fui
eu supervisionando metade dos curumins aborrecentes. Como a roda gigante se
move na velocidade de uma tartaruga, não houve problemas de tonturas ou
náuseas. E enquanto os garotos gritavam e apontavam turisticamente extasiados para
o Louvre, a Notre-Dame, os Invalides, a Torre Eiffel e a de Montparnasse e, é
claro, a Sacré-Coeur de Montmartre... eu contemplava os telhados...
Ah, les toits de Paris!
Fiquei viciado! Já tentamos brincar lá de noitinha, com a esperança de
ver um por do sol diferente, mas esquecemos de combinar com o ritmo das filas e
a roda parou antes.
Se você for a Paris, se ela estiver lá, não reclame da fila, suba na
Roda na moral, de câmera na mão e mantenha os olhos abertos.
Pode não
haver amanhã!
Disse tudo, Moacir. Deixamos tanta coisa pra depois e pode não ter mesmo amanhã. Fique sabendo que quem não gosta de
ResponderExcluirroda-gigante e algodão-doce é porque nunca foi criança. Obrigada por ter subido 'na moral' kkk. As fotos são incríveis.
Mônica,
ExcluirOs meus curumins - que eu também levava para andar de roda gigante no Tivoli Park (rsrs) - falam "na boa, na moral, fala sério" e por aí vai. Termino incorporando a "juventude". Agora que o netinho deu de dizer: "Parou, parou, cara!" então vai ser uma "punk" (rsrs) A roda era o lugar mais que perfeito para fotografar os telhados da cidade que eu tanto aprecio. Simples assim. Só que em terra firme eu não tinha pensado nisso. De resto e como diz uma canção que não é do seu tempo "mas é claro que o sol vai voltar amanhã mais uma vez".
Obrigado lhe digo eu
Abração
1) A roda gigante é um dos símbolos do Budismo: a roda da vida, a roda do Darma (doutrina).
ResponderExcluir2)Um momento estamos lá em cima... outra hora estamos lá em baixo...
3)Na bandeira da Índia, também temos uma roda da existência...
4)Pimentel, nosso guia internacional !
Vizinho Antonio,
ExcluirComo cantava o grande Chico da nossa juventude antes de ganhar um monte de Jabotis e de ficar "burrecido" ...
"Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração"
Abração
Moacir,
ResponderExcluirBonita a Roda não é mas que ótimas lembranças tenho dela e das luzes de Paris que vi na companhia do meu filho em dezembro de 2008 na Praça da Concórdia. Um passeio inesquecível mais bonito até que o por do sol cor-de-rosa no belo vídeo que você escolheu hoje.
Um abraço especial para você
Flávia,
ExcluirOs afetos verdadeiros, o aprendizado sem atalhos e os bytes de memória dos momentos felizes é o que fica e faz a vida valer a pena.
O abraço de sempre
Na lateral do Jardim das Tulherias vá lá que seja pelas crianças mas peço vênia aos nobres turistas para votar contra o elefante branco no meio da Praça da Concórdia
ResponderExcluirMárcio,
ExcluirDevo confessar que a Roda também já me provocou desaprovação estética. Mas ao longo dos anos e apesar dos mixed feelings fui me acostumando e hoje ela já não me incomoda ali no Terasse des Feuillants com as velhas arcadas da Rua de Rivoli como pano de fundo.
Jamais vi o "elefante branco" no meio da Concórdia tirando - para quem olha do Jardim pelo menos - a bela visão do Obelisco diante dos Arcos do Triunfo e da Defesa. Porém a Roda deu-me bons momentos e belas fotos e para mim está de bom tamanho.
Voto por ela!
Pimentel,
ResponderExcluirQuando o mundo virou politicamente correto os clichês saíram de moda. Mas tem clichê que tem que experimentar. Não é possível ir a Paris sem aproveitar alguns deles como esta Roda Gigante, o passeio de barco pelo Sena ou uma refeição no Le Jules Verne no alto da Torre Eiffel que todos me diziam que ia ser uma roubada mas foi das melhores que já fiz. Parabéns pelo post.
Sampaio,
ExcluirAssino embaixo! Essa história de "politicamente correto" cansa! Bom mesmo é chutar o pau da barraca de vez em quando, jantando comme il faut no Le Jules Verne com as luzes de Paris piscando lá em baixo, ou clichezando uma baguette crocante na grama à beira da Torre. Sem selfies e sem esquecer do vinho no céu ou na terra (rsrs) Só não vale é ter medo de ser feliz.
Obrigado pelo comentário
Olá Moacir,
ResponderExcluirComo diria o Asterix "Ils sont fous ces parisiens" (quase!). Mudar a Roda de lugar todo ano!
Ontem me lembrei de você e de alguns outros "civilizados" da minha patota. Num consultório médico li numa Veja de nov2015, delay próprio de consultório, na última página do Pompeu de Toledo, diversos trechos de diversos autores famosos falando de Paris. Lindezas, dizeres de apaixonados! Como você.
So sorry, os telhados de Lisboa são tão lindos!
Certíssimo, pode não haver amanhã. Viva tudo que puder hoje!
Até mais, de Paris, de Lisboa , do Sri Lanka, dos museus, de onde for.
Caríssima Donana,
ExcluirAs mansardas de Paris me encantam, sim senhora, mas não afastam meus olhos dos telhados de Lisboa nem dos de Óbidos ou dos do meu Porto nos quais moram as gaivotas e dos quais tenho fotos de estimação tiradas da Torre dos Clérigos. Tem mais. Os telhados de "eiras e beiras' de Lisboa estão nas cidades históricas das suas Gerais que amam Portugal sem nem saber que ele existe , no centro do Rio, em Olinda, em São Luís, em Macau e no Forte de Galle na bela Lanka onde senhoras de sári fazem renda de bilro.
É essa a "conversa" : assim como faz bem à alma funda ler a gente nos outros e nos deparar com os outros na gente, também é bom demais descobrir o mundo em nós e nós no mundo.
Como perguntava um poeta "sem noção":
"Que importa o que possa ser a realidade situada fora de mim, se ela me ajuda a viver, a sentir que existo e o que sou?"
"Até mais"