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12/09/2016

O Primeiro Emprego a Gente Nunca Esquece...

fotografia antoniorambles.com


Antonio Rocha

Eu devia ter uns 10 anos, morava em Realengo, RJ. Na frente da minha casa morava o “seu” Américo. Eu estudava à tarde.

Então, belo dia, ele me falou:

- Rocha, ali em Padre Miguel, naquela rua Nova (que eu já esqueci o nome) vão começar a construir um conjunto habitacional. Eu pensei em ir lá toda manhã vender café com leite e pão, manteiga, você quer me ajudar, eu te pago direitinho.

Ele era casado, tinha um casal de filhos, tipo dois ou três anos. Era muito amigo do meu pai. Conversavam bastante.

Eu respondi que sim. “Seu” Américo era um sujeito responsável e resolveu pedir autorização ao meu pai, que concordou, e assim, começamos. Íamos de bicicleta, cada um na sua com duas sacolas grandes. Chegando lá pegávamos dois tonéis vazios, colocávamos duas tábuas formando um balcão. Eu era o auxiliar.

Ele havia feito camaradagem com alguns operários da obra, que facilitavam os tonéis e as tábuas. Depois, por volta de 10 horas da manhã terminávamos o serviço. Ele trabalhava no antigo DLU – Departamento de Limpeza Urbana, acho que o nome era esse, no turno da tarde e parte da noite. Eu ia para a escola após o almoço.

O dinheiro que eu recebia me ajudava a ir ao cinema, um poeira que ficava perto de nossas casas, cadeiras de madeira, claro, e foi lá que assisti grande produções daquele tempo. Primeiro passava na Zona Sul e só bem depois chegava lá em Realengo. Na minha casa não tinha televisão e eu ficava fascinados com os filmes nos fins de semana.

Mas tinha um porém. Após o almoço de domingo, meu pai cobrava a lição da tabuada, eu falava de “cor e salteado”. Então eu ia para a sessão das 14 horas. Ia sozinho e nunca fui barrado, por estar só. Naquela hora, outras crianças iam.

Mas depois, minha família mudou para o Gama, DF, lá também tinha um poeira na pracinha única. Hoje ampliaram e virou um centro comercial. Perto da praça havia um mercado popular com vários boxes e assim, na qualidade de “balconista” consegui fácil trabalhar em um que vendia produtos tipo armarinho: brilhantina, creme de barbear, sabonetes etc.

O dinheiro era melhor, além do cinema, fazia o lanche, bebia o refrigerante local, chamava-se Zupa: Zupa Guaraná, Zupa Cola, Zupa Laranja e Zupa Uva. Mas, coisas do comércio... belo dia a Skol instalou na cidade satélite do Gama uma grande fábrica e “abiscoitou” a Zupa, como dizíamos na época.

O Gama só tinha duas ruas asfaltadas, por onde passavam os ônibus velhos da estatal CTB – Companhia de Transportes de Brasília, acho que era esse o nome. Claro os ônibus novos ficavam no Plano Piloto.

Meus dois empregos citados eram para bancar o meu lazer, graças ao bom Deus, tínhamos suficiente para a sobrevivência.

Apaixonado pelo cinema, no Gama era o tempo dos faroestes italianos e um deles lembro bem chamava-se “Vou, mato e volto”. Minha mãe, muito humilde e religiosa, cuidadora das crianças no Grupo Kardecista Emmanuel, lá no Gaminha, o Setor Oeste, ficava me aconselhando: “Meu filho, esse tipo de filme é muito violento”...

Um outro filme da época, hoje um verdadeiro clássico: “Três Homens em Conflito: O Bom, o Mau e o Feio” com Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef, faroeste que recebeu ótima trilha sonora do maestro Ennio Morricone, que no final da vida recebeu um Oscar Especial pelas muitas e belíssimas trilhas sonoras.

Outro dia vi no Youtube, umas vinte vezes seguidas,  para matar a saudade (“matar” a saudade pode) a trilha sonora deste tema “O bom, o mau e o feio”. Ennio Morricone com sua Orquestra e Coral”, algo tocante, emocionante.

Não percam.

9 comentários:

  1. Antonio, foi tão bom ler seu texto que nem sei o que falar. Aliás, acho que falar,nesse caso, tornou se prescindíve!. Trabalhar para comprar seu divertimento...fantástico! Meu irmão engraxava sapato para comprar suas revistinhas! Obrigada.

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  2. Wilson Baptista Junior12/09/2016, 09:13

    Antonio, sua crônica me levou de volta aos meus tempos de menino de grupo escolar (naqueles tempos se chamava assim) em que para ganhar minha mesadinha eu ajudava meu pai no seu cartório de Registro Civil, saía da rua Guarani carregando uma pasta enorme, daquelas antigas, de couro sanfonado, cheia de processos de casamento, andava um quilômetro até o antigo Fórum Lafayette, subia onze andares a pé (porque tinha medo dos elevadores de lá que às vezes travavam no caminho) até chegar ao escritório do promotor de justiça no último andar, ficava lá sentado esperando ele despachar os processos e depois levava de volta... Todo orgulhoso de estar ajudando meu pai. Depois que cresci é que percebi que ele era quem estava me ajudando a me preparar para a vida. Que saudade...
    Sua crônica deve ter tocado os corações de muita gente.

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  3. Rocha,

    Belíssimo texto sobre o primeiro emprego, verdade absoluta que jamais o esqueceremos!

    No entanto, falaste muito da cidade Gama, DF.

    Que período moraste no Distrito Federal?

    Eu fui para Brasília em 1.959, quando nada existia, salvo um ou outro bloco de ministério, e o resto era esqueleto!
    Como as poucas casas do Plano Piloto eram reservadas para os funcionários públicos, resido em Taguatinga e, volta e meia, eu pegava o ônibus da TCB e ia para o Gama visitar amigos meus!

    Mas isso pelo início de 60 até 67, quando voltamos para o RS, e minha mãe veio a falecer em seguida, 1.971, aos 42 anos!

    Um abraço, Rocha.
    Saúde e Paz!

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  4. Moacir Pimentel12/09/2016, 13:34

    Antônio,
    O post tocou o meu velho coração, com certeza. Mas devo confessar que o meu primeiro trabalho não foi motivado por um nobre motivo.Muito ao contrário. É que aos 16 anos inventei de fumar.Então o meu velho pai - uma força da natureza! - declarou que na casa dele jamais sustentaria "vícios" e que se eu quisesse "queimar dinheiro" que me virasse. Cortou a mesadinha e pronto. Então, desesperado, sem grana nem para dividir um cachorro-quente da Geneal com a namoradinha, eu comecei a dar aulas de inglês para crianças , aborrecentes e idosos ( minha amorosa avó, por exemplo, revoltada com a crueldade do filho ) ou quaisquer outras criaturas racionais mas de estatura e juízo menores que os meus.
    Moral da história: deixei de fumar mas senti cedo o gosto da liberdade e da dignidade que só o trabalho nos garante.
    Abraço

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  5. Oi Antonio, bom dia.

    Eu também tive um cinema no alto da esquina da minha rua de infância. Chamava-se Rin-Tin-Tin e tinha a cabeça do cachorro famoso, feita em gesso, emoldurada por círculos em néon.

    A proprietária e bilheteira era uma cigana morena, bonita, bem pintada, de cabelos negros compridos, que andava cheia de jóias e a quem chamávamos de dona Mironzina. Naquele tempo tudo era permitido, jóias de ouro pesadas também. Ninguém roubava.

    As cadeiras eram de madeira. Mas acho que nesse tempo, eu tinha uns 6, 7 anos, todas as cadeiras eram assim, em qualquer lugar. Não lembro se eram ou não.

    Entrávamos e subíamos uma rampinha com a tela atrás de nós. A rampinha substituía os degraus de hoje nos cinemas.
    Na lateral esquerda de quem sentava havia várias portas largas, de venezianas, que se esticavam e se abriam totalmente mal terminava a sessão. Um conforto.

    Não havia ar condicionado, mas potentes ventiladores pretos nas paredes laterais nunca nos deixaram sentir calor. Não mesmo.

    O som era inimaginável de bom, a projeção idem. E melhor: havia em volta da tela barras em néon que trocavam de cor após ouvirmos a Sagração da Primavera. E as diferentes cores em néon faziam também ruídos diferentes para cada cor, parecidos com o de Contatos Imediatos de sei lá quantos graus. Uma exibição, um ritual à parte. E lindo.

    Eu nem sabia fazer conta direito e já ia ao cinema. Em bando. Os meninos pagavam a entrada com o meu dinheiro e me davam o troco. Explico: minha mãe só permitiu que eu entrasse para a escola ao 8 anos.
    Aprendi a ler com ela, em casa, pela Cartilha da Lili. E também a fazer as principais operações. Minha mãe era grande professora, nos ensinou, a mim e ao meu irmão, muito bem. Sempre lemos de carreirinha, sem tropeçar em sílabas ou palavras.

    Entrei com 8 anos na escola porque tive asma desde os seis meses. Era inapetente e magrelinha. Meu pai só me chamava assim: 'magrela'.

    Mas a magrela pulava corda como ninguém e participava de todas as brincadeiras na rua.

    Fui uma criança MUITO FELIZ, com muitas amigas e amigos, apesar das crises de asma, dos agasalhos de lã que minha mãe insistia que eu usasse. Ela nada entendia de asma, tinha uma saúde premiada. A asma herdei da família do meu pai. Ele não chiava, mas não podia rir muito porque perdia o fôlego. Eu também.

    Que lembranças você me trouxe, Antonio. Não podia deixar de escrever pra você e contar. Embora hoje não esteja com muita vontade de falar ou de escrever.
    Meu abraço, Antonio. Adorei suas primeiras experiências como 'trabalhador'.
    Ofelia
    PS: Consultei minha vela virtual e ela está 'chorando', como se costuma dizer da cera que se derrete e forma camadas várias.

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  6. 1)Agradeço a todos (as).

    2)Desde muito cedo compreendi a Nobreza de cada Trabalho: o irmão da Ana (permita-me respeitosamente assim chamá-la)engraxando sapatos...

    3)O Wilson subindo e descendo 11 andares, que bela caminhada !

    4)O Moacir tocou num aspecto importantíssimo: "a liberdade e a dignidade que o Trabalho" proporciona.

    5)A Ofélia, "colega" de Asma, minha companheira (não é doença)desde os 4 anos de idade...

    6)A beleza deste blog é que parece um confessionário onde todos são perdoados, basta escrever suas memórias ...

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  7. Antonio, estive internada várias vezes e tomei cortisona na veia por uma semana para poder respirar, além de fazer a nebulização com oxigênio. E ainda ouvi da médica que deveria ter procurado o hospital antes, não ter deixado a crise se agravar. Uma das crises foi em São Lourenço. Fui parar no hospital e subiram correndo comigo na cadeira de rodas.
    Não sei quanto a você, mas em mim ela bateu pra valer. E ainda uso Alenia (a bombinha mais forte) todo dia, duas vezes. Se isso não é doença...
    Abraço
    Ofelia

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  8. Ah: e meu primeiro trabalho foi como professora.
    Não ajudei nem pai nem mãe. Tampouco foi para ter direito a me divertir.
    Foi pra valer mesmo!

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  9. 1)Oi Bendl, fui morar no Gama em 1966, era uma poeirada impressionante.

    2)Ofélia, hoje a minha Asma está comportada, mas já teve momentos terríveis.Tomei cortisona uma vez, nebulizações em hospitais várias...

    3)É um ensinamento budista, vc abraça a dificuldade como uma grande amiga, assim, desapeguei do sofrimento e passei a cultivar profunda amizade com a minha querida companheira de caminhada nesta vida.

    4)Buda recomendava: sem apego e sem aversão.

    5)Estes nossos comentários me inspiraram uma crônica que estou escrevendo, mais adiante envio para o Maninho.

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