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23/01/2017

Boniteza da Feiura

Mariana, MG - fotografia Lisses HK (Wikimedia)

  
Heraldo Palmeira

Deixei o hotel em Belo Horizonte numa manhã bonita, de clima ameno. Era preciso vencer o trânsito sempre caótico da capital mineira, até subir a pirambeira do Belvedere para ganhar as pistas amplas e razoavelmente vazias da BR-040, sentido Rio de Janeiro. A mesma rodovia que, nos tempos em que se chamava BR-3, era extremamente perigosa e ficou famosa pela canção homônima, sucesso nacional na voz e no gingado Black Power do ator Tony Tornado – “A gente corre e a gente morre na BR-3...”.

Em pouco mais de vinte minutos, eu já rodava pela estreita e arriscada rodovia vicinal batizada com pompa como Estrada Real. É uma pena que um caminho cercado de história por todos os lados esteja tomado por caminhões transportadores de minério, conduzidos por motoristas perigosamente apressados. Repleta de curvas, com poucos locais para ultrapassagens seguras, a velha estrada não suporta o fluxo imposto por esses tempos modernos que misturam turismo e negócios internacionais – que deveria caber à ferrovia suportar, mas essa é outra história.

Ouro Preto se apresentou no horizonte e em pouco tempo eu estava no ponto de parada de todos os turistas que chegam a uma das nossas cidades históricas mais emblemáticas. Foi um reencontro que me emocionou, passados algo como vinte anos da minha última visita.

Não demorou muito para que minhas retinas registrassem imagens desoladoras. A nuvem de poluição gerada pelas empresas mineradoras que cavucam tudo ao redor. A invasão de carros encobrindo a visão das fachadas preciosas do conjunto arquitetônico. A quantidade de flanelinhas disfarçados de informantes turísticos, vestidos em seus coletes agressivos e agindo como verdadeiros donos do local. A conivência dos policiais sempre prontos a encher o saco de quem tenta parar mais carros nas redondezas – e que não resistiam a dois minutos de conversa ao pé do ouvido. Tantas feiuras!

Fora do centro histórico, vi repetido em Ouro Preto o mesmo fenômeno que contamina qualquer cidade brasileira: a pobreza da arquitetura contemporânea, que traduz uma ocupação desordenada e sufocante, estropia a imagem urbana e devasta nossas geografias regionais com um tipo de construção onipresente: malfeita, muito feia, de linhas retas, boa parte sem reboco ou pintura e com janelas de alumínio frágeis e tortas.

Esses pensamentos me entretiveram enquanto segui vencendo mais curvas fastidiosas e faixas amarelas contínuas que pareciam não ter fim. Pelo caminho, passaram alguns carros da FIAT fazendo testes de estrada antes de chegarem ao mercado, mal disfarçados por uma pintura quadriculada em preto e branco. Seguiram velozes, certamente acima do limite permitido, e sumiram logo dos retrovisores. Os caminhões foram rareando à medida que me aproximei de Mariana, a primeira capital das Minas Gerais.

Mariana ofereceu seu conjunto arquitetônico imponente e também fundamental para a nossa memória, exalando um ar mais sossegado se comparada a Ouro Preto. Parecia estar voltada para sua própria população. Parecia melhor tratada do que a vizinha ilustre. Circulei em paz pelas ruas e aproveitei a deliciosa preguiça de uma legítima cidade do interior.

Andar sem compromisso naquelas ruelas de casas muito bem cuidadas me ajudou a compreender a afirmação da atriz Fernanda Montenegro, de que o interior mineiro é a melhor tradução do interior do Brasil. E senti aquela vontade de dizer “se eu pudesse, eu viria morar aqui”, que a gente sente sempre que se encanta com algum lugar.

Quase hora do almoço, cruzei com um mundaréu de adolescentes saindo do colégio. A rua estreita se enfeitou pelo mar de uniformes em azul e branco, que desciam pela ladeira invadindo os paralelepípedos porque a calçada era insuficiente. Uma meninada feliz, bem diferente dessa adolescência estressada das grandes cidades, que “conquistou” o direito de trocar o emblemático uniforme escolar por caríssimos molambos de grife.

O ambiente do restaurante repetia o recanto tranqüilo da rua, debruçado pela topografia sobre uma praça linda e repleta de jardins e sossego, espécie de antessala para os sabores que estavam por vir à mesa. Praça que tinha numa das quinas um raríssimo cinema de rua, com aquele encanto brejeiro jamais encontrado nessas salas múltiplas, tecnológicas e impessoais instaladas em shoppings. Tantas bonitezas!

Segui até Viçosa, para uma longa tarde de trabalho. A cidade, famosa pelo ambiente universitário, revelou-se nervosa, com um movimento de carros e pessoas pelas ruas que nunca imaginei encontrar por lá.

Com a noite querendo avançar, chegou a hora de retornar ao ponto de partida. Resolvi dormir em Ouro Preto para diminuir o tamanho da viagem até Belo Horizonte. Aceitei a indicação do hotel Mirante, um lugar aconchegante, bonito e bem cuidado.

Por azar, naquela noite, apesar das altas horas, um grupo de hóspedes entregou-se a grande algazarra pelos corredores. Esvaziaram algumas garrafas da legítima cachaça mineira, fizeram gemer o assoalho de madeira, bateram portas com força. Um desconforto extra que não mereceu qualquer atitude dos funcionários, apesar das inúmeras ligações que chegaram à recepção.

Segundo confidenciou um hóspede tradicional com quem tomei o desjejum, quem precisasse do serviço de despertador do hotel muito cedo deveria ter cuidado. O recepcionista costumava dormir além do normal e perder ele mesmo a hora que era sua. Portanto, a prudência recomendava manter à mão a garantia do despertador do celular.

Depois do belo café colonial, voltei para a estrada sem fotos internas das igrejas históricas. Estavam proibidas, numa tentativa de impedir a ação de olheiros do patrimônio histórico, que engordam o lucrativo negócio de arte sacra roubada.

Só resta confiar na memória para não esquecer tanta belezura. Afinal, é por ali onde maria-fumaça não canta mais. Onde mora o cálix bento e a hóstia consagrada! Lugar de moças bonitas, flores, janelas e quintais. Ponto final.


16 comentários:

  1. 1)Bom trocadilho no título.

    2)Excelente artigo.

    3)Nos fala dos caminhos e descaminhos por onde passa o progresso tecnológico brasileiro. A educação do povo ainda não acompanhou esse progresso.

    4)Minha querida Viçosa, lembrei da Universidade Federal onde, certa feita visitei um grupo de trabalho de Homeopatia. Não apenas para as pessoas, mas na área rural, recuperam plantas, hortas e árvores com Homeopatia, e cuidam do gado da mesma forma. Eu diria um trabalho lindíssimo.

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  2. Oi Heraldo,
    Não reparou que havia uma mulher bem ao seu lado? Era eu, visitando tudo com você. Foi o que fiz, guiada por suas palavras. Passeei um tanto.

    Meu sobrinho mais velho se formou na Federal de Viçosa. E o do meio fez mestrado ou doutorado lá, esqueci.

    Conheci Ouro Preto e Viçosa. Acho que a Mariana eu não fui. Acho. Não estou lembrada. Mas o nome de minha sobrinha-neta é Mariana. Acho um LINDO nome desde que ouvi Edu Lobo cantar "Mariana, Mariana, cadê tua saia branca/ Teu vestido de ramagem/ Cadê teu sorriso triste? Linda música, lindo Edu, que adoro não é de hoje.

    Também me lembrei de "Ó Deus salve o oratório, ó Deus salva o oratório, onde Deus fez a morada..."

    Seu texto me trouxe alegria porque foram boas as lembranças, Heraldo. É um pedaço de Minas de que gostei muito ao conhecer.

    O sobe e desce de Ouro Preto me cansou. E foi lá que ouvi um raio rachar a tarde, enquanto almoçávamos, que nunca mais ouvi em lugar nenhum.

    Você é um escritor, Heraldo. Tem certeza de que não tem livro publicado? Se tem, quero conhecer. Desculpa se não conheço.

    BOM DIA!

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    1. Heraldo Palmeira25/01/2017, 14:59

      Ofelia,
      Muita gentileza sua fazer esta viagem junto. Sim, nosso cancioneiro popular tem essas verdadeiras joias para embalar o encantamento com passagens e lugares. Minas é mesmo encantadora, há sempre algo além para a gente ver e viver por lá. Imagino que os vales entre montanhas tenha ajudado a criar seu raio único. Não tenho ainda livro publicado, apesar da cobrança antiga dos amigos. Literatura é algo muito nobre, é preciso ter cuidado para não apenas "cometer" um livro.

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  3. Heraldo, um belo fecho para a trilogia. Só que os mineiros (eu entre eles) vão querer mais :)

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    1. Heraldo Palmeira25/01/2017, 15:26

      Obrigado, Mano. Quem sabe, me meto noutra viagem pelas Geraes e invento prosa? Ainda tem uma pelo Vale do Jequitinhonha, onde fui gravar um programa de TV para o Banco do Brasil, vi lugares lindos e conheci pessoas inesquecíveis. Quem sabe vira a viagem toda vira tetralogia?

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  4. Olá Heraldo,
    Adorei!
    Pena que é a úitima de Minas. É muito bom ver as nossas coisas tão bem contadas!
    Até mais.

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    1. Heraldo Palmeira25/01/2017, 15:27

      Ana,
      Obrigado. Conforme respondi ao Mano (acima), ou tenho a sorte de viajar de novo pelas Geraes ou, quem sabe, consigo resgatar a memória e escrevo mais uma?

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  5. Nostálgico. Fez-me pensar que muitas civilizações desaparecem. Teria sido aos poucos? Ou devastadas por um terremoto, como em Petra? Abduzidos seus habitantes? O fato é que as coisas não duram. E aquelas que nos foram tão preciosas restam em nossa memória mais envelhecida, como graças recebidas e que cumpriram seu destino. Cheguei a conhecer a Praia do Futuro, quando nada havia além de um pequeno e modesto restaurante. Comia-se com as mãos, peixes preparados e fritos, acompanhados de farofa pura e algumas rodelas de tomate. A brisa insistia em fustigar as tendas onde tais delicias nos eram servidas e, se bem quiséssemos, havia até oferta de conversa com o próprio pescador. Conheci lugares incrivelmente belos, que de tão belos e impolutos, eram sagrados. E assim eram tratados. Inúmeros. Chego hoje a não desejar mais viajar pelo nordeste, para não me magoar com as perdas de tais belezuras - como você diz - porque prefiro os encantos que remanescem nas minhas memórias. Há, sim, recantos que conservam sua pureza e natureza. Porém não estão catalogados nas rotas turísticas, de quem paga 'os tubos' para ser tratado feito gado. A menos que sejamos biliardários, quando então seremos levados no colo e mimados até.
    Enquanto vivermos, Heraldo, tais belezas existirão. Depois de nós, quem estará livre das tecnologias, em que não mais se contemplam as quedas de Foz do Iguaçú, já que a graça é tirar selfies e mais selfies de costas para as quedas, registrando que se esteve lá, sem porém tê-las apreciado de frente. Ainda bem que não portávamos máquinas de fotografar a torto e à direito, olhando o mundo pelas lentes, como se autistas fôssemos. Bons idos tempos. Receba meu abraço de sempre.

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    1. Heraldo Palmeira25/01/2017, 15:32

      Cecília,
      Não ha como fugir do passar do tempo. O importante é que o mundo é grande demais e sempre haverá algum lugar novo para se conhecer. Ou horários mais calmos para escapar das manadas. Obrigado.

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  6. Conheci estes caminhos,suas casas,seus quintais,seu povo, seu cheiro mineiro. Estudei em Viçosa, na Federal, graduação,mestrado,doutorado, sou mineiro, sou do mundo,sou minas gerais ,,sô. Parabens Heraldo.

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    1. Heraldo Palmeira25/01/2017, 15:30

      Glaucio,
      O mais fantástico é que todos esses caminhos estão cheios de poesia e música. Obrigado.

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  7. Mais uma vez, com seu delicioso texto, agente se transporta numa viagem atualíssima pelo encantador e mágico interior mineiro. Parabéns por mais esta pérola!

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    1. Heraldo Palmeira25/01/2017, 15:34

      Meu caro,
      Vamos nessa toada gastando sola, papel e tinta.

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  8. Olá Heraldo,
    O artigo traz lindas recordações do tempo em que minha irmã morava em BH.
    A cada visita, saindo de carro do Rio, não perdia a chance de, ou na ida, ou na volta, percorrer repetida e incansavelmente o Caminho Real.
    Além das bonitezas dos locais que citou, recordo-me também de Congonhas e Tiradentes. Todas sempre repletas de antigas novidades a serem descobertas.
    Me instigou a repetir o caminho, novamente.
    Saudades... suspiros...!
    Um forte abraço.

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    1. Heraldo Palmeira25/01/2017, 15:29

      Sergio,
      Viajar é certamente um dos melhores exercícios que a vida permite. Oxalá você esteja em breve o Caminho Real.

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  9. Paulo Armond26/01/2017, 11:12

    Viajei a trabalho naquela região ao fim dos anos 60 e inicio dos 70,onde tive a oportunidade de conhecer o cantor e compositor João Bosco, que formou-se em Engenharia em Ouro Preto, dedilhando seu violão em um Restaurante ao lado do Hotel Simeão, em Ponte Nova, onde pernoitava após trabalhar em O.Preto, D. Vasconcelos e Barra Longa até Acaiaca. Era a porta da Zona da Mata. Viajando de ônibus corria todo o meu itinerário em mais ou menos 15 dias, e,ai sim, voltava a Ouro Preto onde ficava, por minha conta, 2/3 dias em Ouro Preto, no hotel Tofollo (não sei se ainda existe)perambulava pelas ruelas estreitas à noite, e, dependendo do meu grau de inspiração tinha a nítida imprensão de estar vendo o vulto do Alferes e outros Inconfidentes em cada esquina... Preciso voltar lá, há mais de 20 anos não vou lá

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