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28/08/2016

Café Especial

imagem Toshihiro Oimatsu - wikimedia commons

Heraldo Palmeira

Era uma vez um café onde eu nunca havia entrado. Lugar bonito, charmoso, chamado Le Chocolatier. Instalado no CCAB Petrópolis, em Natal, está na calçada principal do centro comercial erguido há décadas na tradicional Avenida Afonso Pena. Local que mentes provincianas – ou matutas mesmo – apelidaram de “nossa Oscar Freire”, demonstrando noção nenhuma do que significa o lendário bulevar paulistano. Mas essa já é outra história.

A minha história é inesperada em qualquer praça de comércio do mundo, nestes tempos em que comerciantes e seus funcionários perderam a compreensão do significado de cliente. Ainda mais inesperada para alguém que jamais havia posto os pés na loja.

Empurrei a porta naquele quase meio de tarde arejada de junho. O local é pequeno, encontrei apenas mais uma das poucas mesas ocupadas. Pedi água gasosa, café e um salgado. Depois dos sabores, um dissabor na hora de pagar a conta: a carteira não estava no bolso. Constrangido, anunciei meu drama para a garçonete. Impávida, e sem demonstrar qualquer sombra de dúvida, me cobriu com uma voz suave e alentadora: “Não tem problema, o senhor passa depois e paga”.

Como um pugilista que acaba de beijar a lona e tem de comprovar ao juiz que pode continuar na luta, ainda balbuciei que só tinha o celular para deixar como garantia. “Não precisa, fique tranquilo”, nocauteou-me a moça. Restou-me, como último movimento naquele round encerrado, oferecer nome e telefone na comanda das despesas, que ela deixou a meu exclusivo critério anotar. Não tinha qualquer desconfiança para me ofertar.

Transpus com pressa a distância entre a loja e o apartamento da minha irmã, que fica nos arredores – hospedagem inigualável que mereço em terras potiguares. Retornei triunfal ao café, pois não só havia reencontrado a carteira em casa, como já tinha à mão o dinheiro para quitar aquele vexame que provoquei.

Depois de mais um merecido café de despedida, pisei a calçada e a porta de vidro se fechou atrás de mim. Eu, que vivo reclamando, coberto de razão, da má qualidade generalizada dos serviços e dos “profissionais” que literalmente se escondem atrás dos balcões em quase todos os lugares, acabara de levar um drible desmoralizante de competência comercial e continuava paralisado diante daquela demolidora demonstração de excelência.

Numa hora dessas, não importa o tamanho do estabelecimento e nem os valores financeiros envolvidos. Nada vale tanto quanto a atitude de respeito ao cliente.

Num átimo, desenhei o óbvio na mente: era minha obrigação demonstrar meu encantamento e retribuir aquele gesto fidalgo da moça. Entrei numa grande e bela loja de sapatos e bolsas femininos no mesmo centro comercial, onde fui imediatamente cercado pelo time de vendedoras desocupadas pela falta de clientes. Disse que queria presentear uma pessoa que me dera uma aula de atendimento e gostaria de deixar um produto pago. Os primeiros movimentos corriam bem, até que informei que a presenteada seria a moça do café de ali perto:

– A garçonete do café? – quis saber a vendedora, com ar de quem conhecia a moça.
– Sim, ela mesma.
– Senhor, nós não trabalhamos com vale presente.
– Mas eu deixo meu telefone, fico nos arredores para qualquer necessidade...
– O que podemos fazer é lhe ajudar a escolher um presente para ela.
– Não, obrigado. Não tenho como escolher algo tão pessoal para uma pessoa que vi hoje pela primeira vez. Não tenho a menor noção do gosto; nem sei que número ela calça. Quero dar um presente, não um problema de presente.
– Mas, senhor, a gente pode ajudar a escolher um bom presente...
– Não, não. Obrigado, até logo.

Já ia me encaminhando para a porta, quando me voltei para passar o recibo que considerei pendente:

– Será que se eu quisesse presentear uma colunista social haveria algum problema? Terminaria escolhendo algo mais caro, além do que paguei e, muito provavelmente, “pagaria” a diferença escrevendo uma dessas notinhas de jornal.

Saí dali deixando para trás um silêncio absoluto, e com a estranha impressão de que as moças da loja bacana não absorveram bem a ideia de receber, como cliente, a minha cada vez mais valiosa garçonete. Mas não quis acreditar que o fato de ela ser uma negra – de beleza deslumbrante – possa ter interferido na ênfase com que me foi dito “Senhor, nós não trabalhamos com vale presente”.

Entrei numa perfumaria mais adiante. Contei a história que deu origem a tudo e a vendedora ficou encantada. Perfume escolhido, o cartão de troca foi ajuntado dentro da embalagem. Eu não conhecia minha garçonete para saber do seu gosto olfativo, nem podia obrigá-la a carregar um cheiro apenas porque gosto dele.

Naquele já finalzinho de tarde, as mesas da calçada do café estavam lotadas, como costumam ficar nos finaizinhos de tarde. Quem sabe, momento do dia em que a brisa do Atlântico potiguar talvez espalhe alguma poção mágica capaz de juntar gente e causar a tal sensação de se estar na Rua Oscar Freire. Vá saber!

O interior do salão estava vazio e me acerquei do balcão. Puxei conversa com as três funcionárias. Realcei o episódio que nos uniu naquele dia, mas, para elas, aquilo era “o normal” – claro sinal de que os patrões também estão acima da média.

Ao entregar o presente, fiz questão de dizer que minha mulher e minha filha também usavam. Não queria que o perfume que escolhi deixasse no ar qualquer odor de cantada barata. A minha garçonete recebeu com extrema elegância, sem alarido. Como convém às melhores vendedoras da verdadeira Oscar Freire – onde, por acaso, eu estaria dias depois dirigindo as filmagens de um projeto sobre comércio de alto padrão.

No jantar, fiz um relato daquela tarde inesquecível para minha irmã anfitriã. Soube que o dono do café é seu amigo antigo, médico como ela – liguei para ele dias depois.

Soube também que a tal loja de bolsas e sapatos finos, a que não trabalha com vale presente, costuma enviar lotes de sapatos e bolsas para que minha irmã escolha, em casa, o que desejar. E passe depois para acertar a conta.

A postura das vendedoras da loja de bolsas e sapatos finos me causou a desagradável impressão de preferência por mulheres que podem ter os próprios nomes trocados por jornalista, doutora, deputada, senadora, prefeita, governadora, senhora, sinhazinha, sinhá, querida, linda, maravilhosa, poderosa, chiquérrima... Vá saber por que garçonete não se encaixa nesse grupo de fantasia, mesmo com a conta previamente paga!




8 comentários:

  1. 1) Como sempre, bela crônica.

    2) O Heraldo escreve bem e nos transporta àquele encanto de cidade que é Natal.

    3) Eu tb, em 2002, estive lá, provando, saboreando, colecionando... pot-iguarias (potiguar-ias) diversas: na alimentação, na hospitalidade, nas amizades.

    4) Bom domingos a todos (as) !

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  2. Moacir Pimentel29/08/2016, 08:41

    Mestre Heraldo,
    Como você escreve bem! Das suas pretinhas ninguém discorda! Mas se eu fosse aquele cliente acho que teria oferecido flores à moça, ou melhor , não teria oferecido nada além de um sincero muito obrigado. Porque tratar bem um cliente é obrigação e tratá-lo mal, principalmente em tempos de crise , é uma idiotia colossal.
    Agora se eu fosse o protagonista do seu Café Especial e tivesse me deparado com as três patricinhas da Oscar Freire potiguar que "não trabalham com vale-presente", teria resolvido me divertir. Passava na livraria mais próxima, comprava alguma coisa para ler, levava pelo braço a Suzany para a butique delas e recomendava à bela deslumbrante para escolher a prenda sem nenhuma pressa. É que tem gente que para aprender, só so-le-tran-do e bem "devagarinho" !
    Abração

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  3. Senti o bom gosto das iguarias.

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  4. Heraldo Palmeira29/08/2016, 13:11

    Caríssimo Moacir: minha primeira opção foi um buquê de flores, mas não havia floricultura na redondeza. Não tinha intimidade para levar a moça à loja, até porque o clima não parecia favorável. Não precisei perder tempo (e dinheiro) dando livros a quem não os leria. A repercussão que o assunto teve foi muito mais veemente para todos os personagens - o próprio café imprimiu cópias do texto e expôs no ambiente e sob o tampo de vidro das mesas.

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  5. A verve desse amigo é realmente deslumbrante!!

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  6. Que bela narrativa, mestre. Veja que voce me transportou para o Bar do Ponto, a "sopa" de Colete, a sinuca de Chagas nos velhos e bons tempos de Santa Cruz.

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  7. Caro Heraldo, mais uma vez me deleito com suas cronicas.Nesse frequentar de cafés e boutiques a gente vai formando o perfil tao irregular da nossa sociedade. Parabens, amigo. Fico esperando ansiosamente a proxima! abraco amigo.

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  8. Querido HP, obrigado por mais uma viagem de três minutos através de seu texto escorreito e emocionante. A gente tem tanto a aprender com as pequenas coisas da vida, não é mesmo?

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