-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------

22/08/2016

Uma outra nostalgia

(imagem alice-in-wonderland.net)








Wilson Baptista Junior

No belo post do Moacir, “Livros são Nostálgicos”, que publicamos aqui outro dia, ele nos fala das lembranças que às vezes um bilhete ou um tíquete de trem que um dia usamos para marcar a leitura e esquecemos dentro dos livros trazem à nossa memória muitos anos depois, quando nos surpreendemos ao pegar no livro e encontrá-los de novo.

Lembranças, como ele romanticamente nos conta, geralmente de dias felizes.

Para além das nossas lembranças que caem de dentro deles, há as lembranças queridas, doloridas, às vezes imprevistas, que caem de dentro dos livros das nossas pessoas queridas que já foram embora antes de nós.

De vez em quando paro em frente das estantes tão minhas conhecidas dos livros que foram de meus pais, e tiro um deles para ler ou reler. Essas estantes que ainda estão lá, não sei por mais quanto tempo, na casa que foi deles e minha também.

Os livros de minha mãe, cuidadosamente encapados com papel impermeável ou antigos papéis de presentes, esse cuidado lembrança de outro tempo e de alguém para quem os livros eram preciosos.

E ao folhear os livros, encontro aqui a ali uma fotografia, uma anotação na margem, uma linha sublinhada, uma dedicatória carinhosa com uma data que por algum motivo foi importante para eles. Às vezes algum bilhetinho de um de nós, os filhos, ou um desenho infantil que o carinho deles guardou.
Ou um santinho de minha tia monja, reclusa, estudiosa e tradutora de livros, em cujo coração compreensivo e sábio cada um da família ia de vez em quando procurar consolo, que hoje deve estar sentada ao lado de minha mãe ensinando o catecismo aos anjinhos, ou discutindo teologia com São Tomás de Aquino, e que a cada aniversário, a cada data importante, mandava para nós um cartãozinho, trabalho de caligrafia de suas irmãs beneditinas, com seu carinho na sua letra inconfundível de um tempo antigo.

E vem uma saudade agridoce e melancólica dos velhos queridos, misturada à sensação cada vez mais presente de que talvez não falte tanto tempo assim para que a mesma saudade seja sentida, talvez, por nossos filhos e netos.

Uma saudade que o nosso Carlos itabirano descreveu melhor do que eu seria capaz:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada
                                               nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

A par dessa saudade doce e triste há também, em contrapartida, a curiosidade que as mesmas coisas provocam quando os livros não foram de quem a gente conheceu.
Aí a imaginação procura completar as histórias apenas entrevistas em algumas palavras, numa fotografia que não sabemos de onde nem de quem, numa dedicatória datada de um lugar onde nunca estivemos.

Uma dessas que até hoje me intriga foi uma dedicatória que encontrei, há vinte e poucos anos, num livro pouco conhecido por aqui, que encontrei num sebo. Escrevi até, uma vez, um post sobre o livro e a dedicatória, que se os novos leitores deste blog tiverem a curiosidade de conhecer podem encontrar aqui, com minhas desculpas para quem já o tiver lido:



7 comentários:

  1. Francisco Bendl22/08/2016, 09:52

    Dando sequência à nostalgia, meu caro Wilson, este fim de semana dediquei a escanear algumas fotografias antigas, com as imagens de meus pais, parentes e amigos.

    E, lá me vi aos dois anos, cinco, dez, entrando para o quartel, meus pais posando para fotos após o casamento na Igreja, meu irmão pequeno, tias, avós, primos ... que já se foram, com exceção do meu irmão, seis anos mais moço.

    Evidente que a saudade bate, e bate forte, quase nocauteia.

    A lembrança do período que vivemos juntos é indelével, marcante, e o levarei para o resto da minha vida.

    A compensar, e bem, a família que constituí junto com a minha mulher. As quase cinco décadas juntos, os filhos, netos, que no lugar de olharmos as fotos com os filhos pequenos não temos saudades daqueles tempos, tampouco nostalgia, mas sentimo-nos alegres por estarmos ainda ao lado deles, de termos presenciado o nascimento dos filhos dos filhos, seus casamentos, as suas vidas tendo se desenvolvido, e no que se transformaram como pessoas, pais, maridos e profissionais.

    Se eu ver a minha mãe em fotos depois de quase 46 anos que ela morreu, aos 42, jovem, sem ter conhecido seus netos e nem a mulher que me casei, me deixa nostálgico e triste, olho a foto da minha neta Helena, a mais moça, com três anos, e a nostalgia se dissipa, para dar lugar ao encantamento, a felicidade de dividir com aquele pedaço de gente ainda a minha vida, que se agiganta quando ela fala vovô, quando bate na minha barriga, quando me abraça, quando me beija, e diz que gosta muito de me visitar!

    Talvez o segredo de amenizarmos a saudade que temos dos que partiram seja ver as fotos dos que estão conosco, e nos esforçarmos para que este convívio seja cada vez melhor, mais afetuoso, caridoso, mais solidário, com mais união e consideração.

    Ao fim das contas é com este mundo, com a nossa vida, que devemos nos preocupar e extrair de ambos o incentivo que precisamos para as dificuldades diárias, e nada melhor que termos companhia que também gostem de nós para esta empreitada!

    Um abraço, Wilson, forte e fraterno.
    Saúde e paz!

    ResponderExcluir
  2. Flávia de Barros22/08/2016, 12:00

    Belo texto. Parabéns!!!

    ResponderExcluir
  3. 1) La - Le - Li - vros, assim eu brincava na infância.

    2)O Livro é um colega de viagem, uma sinalização na estrada da vida. Companheiro de Caminhada ...

    3) E, saber que do outro lado, também temos livros, devem ser virtuais, estampados no Éter Cósmico ... mas isso é conversa de Esotérico.

    ResponderExcluir
  4. Dulce Liporace22/08/2016, 22:33

    Olá, Mano. Boa Noite ! Falando em nostalgia, que bom tivesse eu nessas 30 H que passamos sem luz, um grupo para trocar figurinhas sobre esse tema tão gostoso de ser relembrado. Gostava de ler - principalmente os romances - debaixo de uma grande mangueira que tinha no nosso quintal. Ali vivia meus sonhos de menina daquela época, muito romântica gostava de ouvir o programa " um piano ao cair da tarde ", hoje percebo que desde aquela época já não gostava de novelas ( com exceção do Direito de Nascer , lógico ) Mas o que quero falar é das lembranças deixadas dentro das páginas dos livros. Um bilhete fortuito do menino da escola tinha um lugar bem escondido nos livros, uma foto trocada, uma lembrança de primeira comunhão das amigas, uma pétala de rosa oferecida por um menino admirador. Achava que ali, no meio do " meu mundo " dos livros, seria o melhor lugar para eles ficarem. E até hoje encontro lembranças já amareladas, algumas até esquecidas- que fazem-me relembrá-las e acho gostoso. Sempre que limpo os livros encontro algo que me trazem lembranças de pessoas que passaram pela minha vida, mas continuam eternas dentro do meu coração. Não deixo de lado tb as dedicatórias tão comuns na época, lendo-as vejo e sinto o momento exato da troca e a emoção sentida das letrinhas escritas ali. Hoje faço o possível para passar isso aos meus netos , já que os filhos estão mostrando agora que assimilaram vários desses valores, percebo isso no gosto pela leitura,pelas artes, pelas fotografias ( que tanto amo ). E assim amigo vamos tocando nossos ensinamentos à gerações futuras, mesmo que essas estejam no tempo avançado da tecnologia. E que bom isso, não é ? Veja um exemplo: dois dos meus filhos estavam viajando com a familia, um já retornou, e acompanha " on line " o vôo do outro que chega amanhã. Ele me diz de vez enquando: o avião passa por - determinado lugar. Não é bacana ? Abraços cordiais , Dulce

    ResponderExcluir
  5. Moacir Pimentel23/08/2016, 09:22

    Prezado Wilson, Eu não sei qual dos seus dois posts é melhor : se o pretérito contido no link abaixo e que versa sobre um dos " Motivos da Rosa", da lavra de Cecília, deixado como dedicatória anônima na folha de um livro misterioso que não jamais li - vou tomar as providências ! - ou se este que complementa de forma magistral o meu rascunho sobre os livros nostálgicos, tentando "traduzir" o que é a saudade, "essa coisa branca tão pegada, aconchegada nos nossos braços ", que não é ausência, nada disso, mas antes uma indizível presença. Porém duas coisas são certas: a primeira é que você deveria nos brindar com suas pretinhas mais frequentemente e a segunda é a impressão de que estamos, por aqui, no caminho certo. Ou seja, estamos começando realmente a "conversar", a ser influenciados e enriquecidos pelos textos e comentários e bytes de memória uns dos outros. Isso é muito bom. Parabéns e um abraço.

    ResponderExcluir
  6. Wilson Baptista Junior23/08/2016, 10:04

    Chico, ao ver as fotografias antigas, mais do que a saudade do que já foi, abra seu coração para a alegria de ter vivido aqueles momentos e de poder ter suas lembranças hoje para compartilhar com a família que você criou e que te alegra.

    Flávia, obrigado. Sei por seu comentário de ontem que você também sente alguma coisa parecida com o que eu quis dizer.

    Antonio, se vamos ter livros lá do outro lado, vou mais tranquilo quando chegar a minha vez :)

    Dulce, partilho com você a alegria de reconhecer em meus filhos e netos um pouco do que meus pais me passaram. E a tecnologia ajuda tanto quando eles estão longe!

    Moacir, obrigado pelo incentivo, e as Conversas estão, sim, se tornando uma conversa de verdade entre, eu ia dizer - autores e leitores - mas aqui somos todos autores, uns escrevendo nos posts e outros nos comentários, e fico feliz de ter ajudado a arrumar as cadeiras para essa roda.

    ResponderExcluir
  7. Wilson,
    tenho mania de folhas mortas. Acho uma lindeza.
    Sempre que ia ao analista e parava na pracinha do Bairro Peixoto, em Copacabana, onde estacionava, e caminhava até meu destino, eu olhava pro chão, pra semeadura da folhagem nunca verde. E levava essas folhas pro analista.
    Não me pergunte o que elas queriam dizer, eu não sei, ele nada disse ou perguntou sobre. Também não sei o que fez com elas. Não perguntei.

    Lembro também de escrever em folhas mortas para uma amiga do jornal que foi estudar em Cardiff. As folhas eram lindas e eu achava que era um jeito de levar um pouco do Rio até ela.

    Folhas mortas também caem dos meus livros. Marcam (bem menos) até passagem da Bíblia.

    É das poucas coisas que depois de morta conserva a beleza. Ou fica até mais bonita.

    Carimbos com meu nome, que meu pai mandava fazer pra mim, ou minha letra então infantil, ou infanto-juvenil, também deixam saudade nos livros.

    Tenho uma foto minha em que meu irmão escreveu atrás: Aulfélia com (sei lá quantos) anos. Escrito a lápis, caligrafia caprichada.

    São as delícias da vida, Wilson.

    Abraço
    Ofelia

    ResponderExcluir

Para comentar, por favor escolha a opção "Nome / URL" e entre com seu nome.
A URL pode ser deixada em branco.
Comentários anônimos não serão exibidos.